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interface comunicação saúde educação v.8 n.14 set.2003-fev.2004 apresentaÇÃo 5 dossiÊ sobre a saúde biopolíticas da saúde reflexões a partir de 9 michel foucault agnes heller e hannah arendt francisco ortega 149 ler/dort multifatorialidade etiológica e modelos explicativos luiz gonzaga chiavegato filho alfredo pereira jr biopolítica o poder médico e a autonomia do 21 paciente em uma nova concepção de saúde andré martins 165 mercado simbólico um modelo de comunicação para políticas públicas inesita soares de araújo a grande saúde e uma breve introdução à 35 medicina do corpo sem Órgãos ricardo rodrigues teixeira 179 notas breves 183 livros 185 teses cuidado e reconstrução das práticas de 73 saúde josé ricardo de carvalho mesquita ayres artigos o lugar a teoria e a prática profissional 95 do médico elementos para uma abordagem crítica da relação médico-paciente no consultório giovanni gurgel aciole espaÇo aberto 191 nós e a doze algumas inéditas considerações sobre a mais inédita conferência de saúde do país caco xavier o processo de reformulação curricular de 13 1 duas faculdades de medicina no brasil e na argentina uma abordagem comparativa lilian koifman 197 inovação na educação superior marcos masetto explicações de crianças internadas sobre 3 a causa das doenças implicações para a 1 5 comunicação profissional de saúde-paciente gimol benzaquen perosa letícia macedo gabarra criaÇÃo 203 o corpo e a saúde joão monteiro lin 207 cuerpos pintados taller experimental

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apresentaÇÃo o movimento da saúde coletiva brasileira apresenta ao longo dos últimos 25 anos inúmeros e frutíferos desdobramentos dentre os quais sobressai o florescimento de alguns periódicos de qualidade como interface interface desde seu surgimento tem se destacado por ser o espaço das reflexões sobre educação comunicação e saúde primando pela qualidade editorial e pela beleza de cada uma de suas edições este número 14 do volume oito não é diferente nesse percurso da nossa saúde coletiva uma diversidade espantosa de temáticas se desenvolveu como bem pode ser aquilatado pelos anais de nossos congressos nacionais entretanto paradoxalmente a temática da saúde como tal é uma daquelas que talvez por serem tomadas como subentendidas e ponto de partida foram menos trabalhadas vários de nossos melhores pensadores têm chamado atenção para essa falta até quando a saúde será tematizada pelo seu duplo a doença o dossiê sobre a saúde aqui apresentado mostra-nos que novas vozes e reflexões vêm se juntar ao esforço de tematizar a saúde no âmbito de nosso movimento começando fora da ordem de apresentação pela contribuição interessantíssima de ricardo teixeira a grande saúde e uma breve introdução à medicina do corpo sem Órgãos ricardo vai buscar em espinosa a inspiração para pensar a grande saúde construção paulatina e espiralada na qual cada volta acrescenta elementos de emancipação potência do agir e do pensar perseverança no desejo fortalecimento do conatus alegria capacidade de afetar e ser afetado imaginação e vontade liberdade que será essencial à construção da razão conveniência entre os corpos escolhas comprometidas com a realização da felicidade verdade liberdade felicidade como síntese na grande saúde capacidade de autodeterminar-se instituindo normas que convenham a si aí a resultante da vida vivida e do caminho percorrido vida em sua plenitude contados e incluidos aí os riscos do caminhar tal como na tela de lúcio fontana que ricardo usou para introduzir sua tese de doutoramento da qual este artigo é apenas uma pequena amostra aquilo que nos é dado entrever por entre os talhos é suficiente para nos fazer ensimesmar-nos e aquilatar a dimensão desse espaço que se abre para a formulação de uma teoria da saúde josé ricardo ayres comparece ao debate com sua reflexão elegante consistente e didática sobre os muitos sentidos do cuidar nesse trabalho delicado de ourivesaria teórica e conceitual ele vai nos mostrando as diversas faces de um conceito nuclear para as práticas de saúde compreendidas na dimensão humana em que a grande saúde nos introduziu valendo-se mais uma vez da mitologia que como queria vico é parte da proto-história humana e da filosofia de heidegger josé ricardo explora o cuidado como categoria ontológica detalhando cada uma das suas características constitutivas o próximo passo alicerçado na genealogia de michel foucault é analisar o cuidado de si como atributo e necessidade universal dos seres humanos finalmente emerge da elaborada construção o cuidado como categoria crítica e reconstrutiva potencialmente capaz de reinventar a práxis na saúde interface comunic saúde educ v.8 n.14 p.5-6 set.2003-fev.2004 5

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andré martins acrescenta mais uma volta a esse parafuso tratando de um dos poderes de biopolítica o poder médico o autor caracteriza o estado atual da relação entre o poder da medicina e a autonomia dos pacientes destacando os aspectos relativos ao caráter pretensamente científico verdadeiro e objetivo do saber e do fazer médicos mais uma vez nesse dossiê somos remetidos à reflexão sobre a saúde tal qual ela aparece em vários pensadores dentre os quais o autor destaca as contribuições de canguilhem espinosa winnicott e nietzche fechando temporariamente o ciclo que articula essa contribuição com as temáticas da grande saúde e do cuidado anteriormente comentadas completando o dossiê temos ainda a contribuição de francisco ortega a cerca da biopolítica da saúde aqui em sua dimensão propriamente política o texto de ortega é bastante estimulante e provocador o autor analisa auxiliado pelas contribuições teóricas de agnes heller hanna arendt e michel foucault o paradoxal esvaziamento político que as políticas particularistas defendidas por grupos de interesses organizados nas sociedades modernas representam até que ponto a massificação da participação e o predomínio do politicamente correto constitui a negação da política este conjunto de aportes originais certamente acrescenta novas perspectivas e planos de discussão e aprofundamento da temática da saúde ampliando o leque de diálogos possíveis convocando novas contribuições teóricas formulando indagações e apontando caminhos além do dossiê sobre a saúde este número traz ainda artigos avulsos notas breves e resenhas dentre os artigos apresentados gostaria de destacar três neste comentário o artigo de lilian koifman trata da análise comparativa entre os processos de reforma curricular das faculdades de medicina da universidade federal fluminense e da universidade de buenos aires destacando o papel da articulação mais ou menos orgânica entre o aparelho formador e a política de saúde gimol benzaquem perosa e letícia macedo gabarra apresentam pesquisa empírica muito bem conduzida sobre as explicações de crianças para a causa das doenças inesita soares de araujo propõe nova abordagem para diagramar o espaço da comunicação social em torno das políticas públicas certamente como já ocorreu em relação a números anteriores diferentes públicos poderão se beneficiar desse convite permanente ao diálogo instaurado pela interface diálogo ainda mais frutífero se a transgressão aos limites insinuado no próprio título do periódico for tomado a sério rita barradas barata professora adjunta do departamento de medicina social faculdade de ciências médicas santa casa de são paulo

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presentation the brazilian collective health movement has over the last 25 years yielded countless and fruitful upshots such as the flourishing of high quality periodicals such as interface since it first appeared interface has stood out as an arena for reflections on education communication and health it stands out for its editorial quality and for the beauty of each one of its editions the current issue number 14 volume eight is no different in the course of our collective health evolution an extraordinary diversity of themes developed as the annals of our national congresses clearly reveal however paradoxically the theme of health as such is one of those that perhaps due to its being assumed to be understood and a starting point was developed the least several of our best thinkers have pointed out this gap until when will the theme of health be seen from the standpoint of its counterpart disease the on health dossier presented here shows us that new voices and reflections are joining the effort to develop the theme of health within the scope of our movement beginning although not in the order in which the papers are presented with ricardo teixeira s extremely interesting contribution grand health an introduction to the medicine of the body with no organs ricardo finds in spinoza the inspiration to think about grand health a gradual and spiral construction in which each turn adds elements of emancipation the power of action and thought the perseverance of desire the strengthening of conatus and good cheer the capacity to affect and to be affected imagination and willpower freedom that will be essential for constructing reason the coexistence of bodies choices committed to the realization of happiness truth freedom and happiness as grand health synthesis the capacity for self-determination with the institution of rules that are convenient to one thus the results of the life that was lived and the path that was trodden life in its fullest sense therein included and comprised the risks of the path undertaken as in lúcio fontana s painting which ricardo used to introduce his doctoral thesis of which this article is but a small sample that which we are privileged to glimpse through the foliage is sufficient to impel one to turn inward and assess the dimension of the space revealed for the formulation of a theory of health josé ricardo ayres take part in the debate with his elegant consistent and didactic thoughts on the many senses of this care process in this delicate work of theoretical and conceptual goldsmithery he shows us the many facets of a core concept for healthcare practices comprised within the human dimension into which grand health has introduced us relying once again on mythology which as defended by vico is part of human protohistory and on heidegger s philosophy josé ricardo explores care as an ontological category detailing each one of its constituent characteristics the following step underpinned by michel foucault s genealogy is the analysis of care for oneself as a universal need and attribute of human beings finally care as a critical and reconstructive category emerges from the elaborate construction potentially capable of reinventing health praxis interface comunic saúde educ v.8 n.14 p.7-8 set.2003-fev.2004 7

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andré martins adds yet one more turn to this screw discussing one of the biopolitical powers medical power the author characterizes the current state of the relation between the power of medicine and the autonomy of patients highlighting the relative aspects of the supposedly scientific true and objective character of medical knowledge and know-how once again in this dossier we are led to reflect on health as seen by several thinkers amongst which the author stresses the contributions of canguilhem spinoza winnicott and nietzche temporarily closing the cycle that articulates this contribution with the grand health and care themes which we discussed previously completing the dossier we have a contribution from francisco ortega on the biopolitics of health now in its properly political dimension ortega s text is stimulating and provocative with the help of the theoretical contributions of agnes heller hanna arendt and michel foucault the author analyzes the paradoxical political emptying that the particularizing policies defended by organized interest groups in modern society represent to what extent does the widespread participation and the predominance of political correctness constitute a negation of politics this set of original contributions certainly adds new prospects and planes of discussion and in-depth discussion to the theme of health expanding the range of possible dialogues calling for new theoretical contributions formulating queries and pointing out paths besides the on health dossier this issue offers has free-standing articles brief notes and reports among the several articles presented i would like to highlight three lilian koifman s article deals with the comparative analysis between the process of curricular reform at the federal fluminense university and the buenos aires university medical schools stressing the role of more or less organic articulation between the educational apparatus and healthcare policy gimol benzaquem perosa and letícia macedo gabarra present very well conducted empirical research on the explanations given by children about the cause of disease inesita soares de araujo submits a new approach for charting the area of social communication around public policies undoubtedly as was the case of previous issues different audiences may benefit from interface s permanent invitation to dialogue a dialogue that will become even more productive if the transgression of boundaries as insinuated by the periodical s very name is taken seriously rita barradas barata assistant professor of the social medicine department scholl of medical sciences santa casa de são paulo

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dossiê biopolíticas da saúde reflexões a partir de michel foucault agnes heller e hannah arendt francisco ortega 1 ortega f the biopolitics of health reflections on michel foucault agnes heller e hannah arendt interface comunic saúde educ v.8 n.14 p.9-20 set.2003-fev.2004 the purpose of this article is to offer conceptual tools that may help one to reflect on the biopolitics of health based on the works of michel foucault agnes heller and hannah arendt for foucault since the 18th century biological life and the health of the nation became fundamental targets of a power over life that emphasized the notions of sexuality race and degeneration in particular with the objective of optimizing the biological quality of the population for arendt this trend toward the politicization of life is deeply antipolitical life fills the void left by the decomposition of the public sphere in the case of agnes heller the antipolitical character of the biopolitical discourse manifests itself in the ongoing quest for near-scientific legitimization the thoughts on race gender and health mimic scientific thinking and replace opinion by truth if politics is the arena for the confrontation of opinions dialogue initiative novelty spontaneity and free action scientifically legitimated biopolitical thinking is the space of truth certainty necessity determinism and causality where dialogue is substituted by the politics of self-seclusion of friends and enemies and the plurality of opinions is reduced to a single politically correct opinion key words biopolitics health michel foucault agnes heller hannah arendt o objetivo deste artigo é oferecer ferramentas conceituais que possam ajudar na reflexão acerca da questão das biopolíticas da saúde a partir da obra de michel foucault agnes heller e hannah arendt para foucault desde o século xviii a vida biológica e a saúde da nação tornaram-se alvos fundamentais de um poder sobre a vida que enfatizava especialmente as noções de sexualidade raça e degenerescência cujo objetivo era a otimização da qualidade biológica das populações para arendt esse movimento de politização da vida é profundamente antipolítico a vida passa a ocupar o vazio deixado pela decomposição do âmbito público no caso de agnes heller o antipolitismo do discurso biopolítico se manifesta na procura constante de legitimação quase científica o pensamento de raça gênero saúde é um pensamento científico imitado que substitui a opinião pela verdade se a política é o campo do confronto das opiniões do diálogo da iniciativa do novo da espontaneidade e da ação em liberdade o pensamento biopolítico legitimado cientificamente é o espaço da verdade da certeza da necessidade do determinismo e da causalidade no qual o diálogo é substituído por uma política da autoclausura de amigos e inimigos e a pluralidade de opiniões é reduzida a uma única opinião politicamente correta palavras chave biopolítica saúde michel foucault agnes heller hannah arendt 1 professor do instituto de medicina social da universidade do estado do rio de janeiro pesquisador do programa de estudos e pesquisas do sujeito e da ação pepas uerj

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ortega f no fim do século xx entretanto toda teoria crítica deve se ocupar seriamente da penetração da bioidentidade no âmbito do político seja só para analisar as razões desse desenvolvimento e seus efeitos heller 1995 segundo michel foucault nossa sociedade atravessou o umbral da modernidade biológica na passagem do século xviii para o xix quando o indivíduo e a espécie entraram nas estratégias e nos cálculos do poder político a vida biológica e a saúde da nação tornaram-se alvos fundamentais de um poder sobre a vida num processo denominado de estatização do biológico o biopoder clássico articulava-se numa dupla forma como uma anátomo-política do corpo em cuja base estavam os processos de disciplinamento corporal e como uma biopolítica das populações a biopolítica analisada por foucault enfatizava especialmente as noções de sexualidade raça e degenerescência cujo objetivo era a otimização da qualidade biológica das populações ela estava historicamente vinculada à constituição e ao fortalecimento do estado nacional à afirmação da burguesia assim como à formação de um dispositivo médico-jurídico visando à medicalização e à normalização da sociedade foucault 1976 1999a 1999b em análises clássicas hannah arendt 1995 1997 também diagnosticou o umbral da modernidade biológica quando nas suas investigações sobre o fenômeno totalitário sublinhava como nos campos de concentração nazistas e stalinistas operava-se a transformação da natureza humana visando a redução biopolítica dos indivíduos ao mero fato biológico à vida nua ou ao que ela chamava a abstrata nudez de ser unicamente humano essas análises têm sua continuidade na crítica arendtiana da modernidade segundo a qual a condição vital destrói as condições mundanas e plurais da existência se no totalitarismo o poder artificialista da técnica era utilizado para reduzir a humanidade ao fato biológico nas sociedades liberais modernas recorre-se à mesma artificialidade com o objetivo de aumentar o poder do processo vital natural tornado norma implícita da vida em comum a vida tornou-se uma verdade axiomática de validade incontestável o caráter sagrado da vida e a vitória do animal laborans na modernidade está vinculado ao processo de crescente despolitização em que a vontade de agir transformou-se na passividade mais mortal e estéril que a história jamais conheceu o regime biopolítico das sociedades liberais pós-totalitárias se encontra sob o primado da imortalidade do processo vital que invadiu o espaço público e tornouse regra de organização social ligado à negação da instituição do mundo como regra de organização política da pluralidade humana com isso a vida passa a ocupar o vazio deixado pela decomposição do âmbito público esse movimento de politização da vida o que foucault qualifica de biopoder que teve seu início nas sociedades ocidentais no século xviii é para arendt profundamente antipolítico 10 interface comunic saúde educ v.8 n.14 p.9-20 set.2003-fev.2004

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biopolÍticas da saÚde reflexÕes a partir de 2 encontramos em deleuze 1986 p.98 uma formulação semelhante a vida torna-se resistência ao poder quando o poder assume como objeto a vida neste caso também as duas operações pertencem a um mesmo horizonte arendt e foucault alertaram para as conseqüências desse processo de tornar a vida o bem supremo de politização do biológico sendo o totalitarismo ou a intimização e a normalização da sociedade as suas manifestações fundamentais dessa maneira vemos como a biopolítica estatal clássica estava diretamente vinculada à formação e à consolidação da sociedade íntima especialmente a ênfase dada à sexualidade na biopolítca era ligada a um processo de implantação de identidades via o desejo sexual a moral do desejo teria levado desde o cristianismo até a psicanálise à constituição de uma noção de subjetividade passiva e a-histórica como interioridade e consciência de si que se encontra na base da filosofia do sujeito o desejo está ligado à produção de corpos dóceis submissos e disciplinados à consistência ontológica da subjetividade e ao universalismo ético que possibilitava a implantação de uma identidade nas práticas subjetivantes modernas para foucault 1976 a resistência ao dispositivo biopolítico se encontra na vida mesma numa outra economia do corpo e dos prazeres num `poder da vida suscetível de resistir os agenciamentos do `poder sobre a vida que define a biopolítica ele acreditava que a resistência a essa nova forma de poder devia se apoiar precisamente naquilo que ele investiu isto é na vida mesma a vida como objeto político foi de certa maneira tomada ao pé da letra e voltada contra o sistema que pretendia controlá-la p.1912 a vida constitui portanto o alvo de lutas biopolíticas mesmo sob a forma de lutas por um direito à vida à saúde ao corpo à higiene à felicidade e à satisfação das necessidades a resistência se organiza como formação de diversos grupos biopolíticos os quais representam o alvo da crítica de agnes heller como veremos a posição de foucault é no entanto ambígua tratar-se-ia de resistir na biopolítica ou à biopolítica pois existem na sua obra momentos em que aparentemente não existiria um fora da biopolítica a mencionada localização no corpo e nos prazeres como alternativa ao dispositivo biopolítico parecem nos conduzir nessa direção por outra parte nos seus últimos textos particularmente nos referentes a uma politização da amizade foucault se afastou dessa concepção de um poder sobre a vida que biopoliticamente enfrentasse os dispositivos biopolíticos estatais ortega 1999 2000 2002 o autor teria se recusado a procurar a resistência no âmbito das identidades e constantes biológicas uma leitura de foucault com um olhar arendtiano pode ser nesse sentido frutífera a reflexão de agnes heller sobre a biopolítica tem como pano de fundo às análises arendtianas e foucaultianas com as quais estabelece uma fecunda discussão sua posição no entanto contrasta com a desses autores em vários aspectos foucault estava interessado em traçar a genealogia da biopolítica clássica como a forma adotada por um poder que substitui a lei e o direito pela norma e a morte pela vida apontando formas de resistência aos processos normalizadores da sociedade o alvo de heller o constituem precisamente esses grupos biopolíticos mostrando como representam na melhor tradição arendtiana antes depauperações do político formas antipolíticas de agrupamento do que exercícios de uma política genuína pois os critérios de agrupamento biológicos e corporais raça sexo saúde interface comunic saúde educ v.8 n.14 p.9-20 set.2003-fev.2004 11

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ortega f performances físicas doenças específicas longevidade substituem os critérios políticos de agrupamento heller extrai do arsenal conceitual arendtiano a sua crítica da biopolítica segundo arendt os confrontos sobre a raça e em geral sobre todo o biológico na natureza o sexual incluído são apolíticos por definição para ela um conceito como `biopolítica seria uma contradição em si ou `bio ou `política juntos não é possível heller 1995 s/p o âmbito do político constituía-se tradicionalmente precisamente mediante a separação do espaço do oikos ou seja da vida doméstica e das necessidades biológicas do espaço público o que corresponde à distinção aristotélica entre zoe e bios entre vida biológica e vida politicamente qualificada mesmo se o processo da progressiva inclusão da zoe no âmbito do bios da estatização do biológico parece irreversível para heller e fiel ao esquema arendtiano a biopolítica não pode ser considerada política constituindo antes o resíduo totalitário remanescente nas sociedades democráticas com outras palavras a política de uma sociedade totalitária que existe junto às instituições políticas livres heller 1995 s/p numa série de lúcidas análises giorgio agamben 1998 p.20 nos adverte que enquanto não se resolvam as contradições inerentes ao fato de ter erigido a vida como valor único e supremo de nossa política nazismo e fascismo ­ exemplos extremos de politização da vida ­ continuaram sendo infelizmente atuais um diagnóstico que converge com o de heller fehér 1995 p.57-8 no seu livro intitulado biopolítica há algum perigo grave nos movimentos [biopolíticos que não podem ser acusados de pretender uma tomada totalitária do poder do estado mas que utilizam antes os canais `normais da democracia liberal de hoje aborda-se com demasiada freqüência a democracia e o totalitarismo como opostos excludentes e identifica-se com inconsistência total o totalitarismo com o estado totalitário em contrapartida nós acreditamos que os micropoderes da sociedade se operar neles uma quantia suficiente de frustração social sem canalizar podem converter a vida num pesadelo totalitário sem precisar eliminar todo o mecanismo de eleições livres parlamentos e separação de poderes e é indubitável que haja frustração coletiva atrás da biopolítica heller não poupa adjetivos desdenhosos na sua caracterização da biopolítica triunfo póstumo de hitler política da autoclausura infecção totalitária veneno totalitário frente ao discurso político baseado na pluralidade de opiniões ­ no qual precisamente esses dois elementos pluralidade e opinião constituem suas características fundamentais o discurso biopolítico substitui a pluralidade pela identidade e a opinião pela verdade e a existência de uma única opinião politicamente correta a redução biológica da pluralidade à identidade homogeneíza as diferenças visando à coesão e à unidade do grupo essa homogeneização do grupo qua diferença está para heller 1995 s/p sobrecarregada ideologicamente 12 interface comunic saúde educ v.8 n.14 p.9-20 set.2003-fev.2004

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biopolÍticas da saÚde reflexÕes a partir de pois suprime as diferenças dentro do próprio grupo portanto quem fala em nome da raça caucasiana estabelece uma concordância entre pessoas que não têm nada em comum entre elas pelo menos nada que considerem importante os que falam em nome das mulheres se colocam no lugar de todas as mulheres da metade da humanidade enquanto que as mulheres podem ter e de fato têm aspirações totalmente diferentes e imagens de si completamente divergentes possivelmente recusam a imagem prescrita por feministas radicais em vez de uma consciência de classe prescrita temos que lidar aqui com uma consciência de gênero prescrita sem que se reconheça como lukács fez 3 se a categoria chave de uma política concreta é a diferença visível do corpo a presença do outro é uma irritação e uma tensão em si mesma e o que melhor alivia a tensão é a violência a eliminação física do irritante entre entidades genéticas o diálogo é excluído em realidade porque não se pode aprender nada de uma conversação tão fútil salvo o fato nu da recíproca estranheza heller fehér 1995 p.115 outro elemento do antipolitismo do discurso biopolítico constitui sua procura constante de legitimação quase científica para heller o pensamento de raça gênero saúde é um pensamento científico imitado o pensamento científico substitui a opinião pela verdade se a política é o campo do confronto das opiniões do diálogo da iniciativa do novo da espontaneidade e da ação em liberdade o pensamento biopolítico legitimado cientificamente é o espaço da verdade da certeza da necessidade do determinismo e da causalidade no qual o diálogo é substituído por uma política da autoclausura de amigos e inimigos.3 a redução da pluralidade de opiniões a uma única opinião politicamente correta é outro traço antipolítico fundamental dos grupos organizados biopoliticamente no discurso biopolítico os grupos autodefinidos determinam também as condições às contribuições dos outros um discurso que `desmascara outros discursos que trata com desconfiança o diferente não é em realidade público todas as raças e ambos os sexos encontram aqui sua própria verdade e quanto mais poderosos são seus lobbys mais enfaticamente tentam proclamar sua verdade como incontestável e absoluta as opiniões divergentes não são aceitas e as opiniões contrárias não são ouvidas heller 1995 s/p a biopolítica da saúde é um caso que merece uma atenção especial dentro do espectro biopolítico as biopolíticas oitocentistas clássicas estudadas por foucault estavam como vimos ao serviço da formação dos estados nacionais e das classes burguesas as quais substituindo uma simbólica do sangue por uma analítica da sexualidade opunham uma série de novos valores saúde higiene vitalidade prole ao sangue e à linhagem aristocrática durante o século xx essas questões deixaram de ser objeto de gerenciamento estatal tornando-se ora problemas privados ora assuntos sociais no entanto pela formação de grupos biopolíticos a saúde está sendo repolitizada biopoliticamente enquanto metáfora de pureza moral É um projeto de cunho conservador reação ao culto da promiscuidade das drogas e dos excessos próprios da permissividade dos anos 1960 como podemos observar interface comunic saúde educ v.8 n.14 p.9-20 set.2003-fev.2004 13

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ortega f por exemplo na onda de histeria coletiva desencadeada nos eua pelas campanhas antitabaco como a pureza é um valor moral tão positivo e ao mesmo tempo tão intolerante afirmam heller fehér 1995 p.75-6 nada que seja oposto a ela pode pretender ocupar uma posição central a menos que aceite o risco de que lhe seja aplicada a etiqueta de `perverso numa versão suave ou de diretamente `diabólico não é nada disparatado ver nessa valorização moral histérica uma tentativa biopolítica de repor a `saúde na sua posição central normativa a saúde deixou de ser a vida no silêncio dos órgãos usando a expressão feliz de leriche ela exige autoconsciência de ser saudável deve ser exibida afirmada continuamente e de forma ostentosa constituindo um princípio fundamental de identidade subjetiva a saúde perfeita tornou-se a nova utopia apolítica de nossas sociedades ela é tanto meio quanto finalidade de nossas ações saúde para a vida mas também viver para estar em boa saúde viver para fazer viver as biotecnologias assim a nova moral que estrutura a biopolítica da saúde é a moral do bem-comer sem colesterol beber um pouco vinho tinto para as artérias ter práticas sexuais de parceiro único perigo de aids respeitar permanentemente sua própria segurança e a do vizinho nada de fumo trata-se de restaurar a moralidade plugando-a de novo no corpo o controle sobre o corpo não é um assunto técnico mas político e moral sfez 1996 p.68 a repolitização da saúde possibilitou a criação de uma forma de sociabilidade apolítica que chamaremos de biossociabilidade para distinguir da biopolítica estatal clássica constituída por grupos de interesses privados não mais reunidos segundo padrões tradicionais de agrupamento como classe estamento orientação política mas conforme a critérios de saúde desempenho físico doenças específicas longevidade etc nessa cultura da biossociabilidade criam-se modelos ideais de sujeito baseados na performance física e estabelecem-se novos parâmetros de mérito e reconhecimento novos valores com base em regras higiênicas e regimes de ocupação de tempo as ações individuais passam a serem dirigidas com o objetivo de obter melhor forma física mais longevidade prolongamento da juventude etc na biossociabilidade todo um vocabulário médico-fisicalista baseado em constantes biológicas taxas de colesterol tônus muscular desempenho corporal capacidade aeróbica populariza-se e adquire uma conotação `quase moral ao fornecer os princípios de avaliação que definem a excelência do indivíduo antes medida de acordo com o desempenho na esfera pública ou na esfera privada e familiar ao mesmo tempo todas as atividades sociais lúdicas religiosas esportivas sexuais são resignificadas como práticas de saúde luz 2000 2001 o que alguns autores denominaram de healthism ou bodyism,4 e que pode ser traduzido como a 4 a literatura sobre o tópico é imensa ver entre outros crawford 1980 1994 conrad 1995 edgley brissett 1990 petersen 1997 bunton 1997 aïach 1998 faure 1998 druhle clément 1998 morris 2000 greco 1993 14 interface comunic saúde educ v.8 n.14 p.9-20 set.2003-fev.2004

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biopolÍticas da saÚde reflexÕes a partir de 5 ver estes binney 1991 david 1995 p.44-6 druhle clément 1998 p.85 clarke et al 2000 p.24 lupton 1994 p.38-9 ideologia ou a moralidade da saúde e do corpo perfeito exprime essa tendência healthism é a ideologia a forma que a medicalização adquire na biossociabilidade as práticas ascéticas implicam em processos de subjetivação as modernas asceses corporais as bioasceses reproduzem no foco subjetivo as regras da biossociabilidade enfatizando-se os procedimentos de cuidados corporais médicos higiênicos e estéticos na construção das identidades pessoais das bioidentidades trata-se da formação de um sujeito que se autocontrola autovigia e autogoverna na base desse processo está a compreensão do self como um projeto reflexivo o autogoverno e a formação de bioidentidades se dão através de toda uma série de recursos reflexivos e de práticas de bioascese manuais de auto-ajuda terapias psíquicas e corporais atividades de fitness e wellness etc a reflexividade é o processo de taxação contínua de informação e peritagem sobre nós mesmos não só o self mas principalmente o corpo aparece marcado pela reflexividade giddens 1992 nettleton 1997 na atualidade o discurso do risco é o elemento estruturante básico da biossociabilidade e representa o parâmetro existencial fundamental da vida na modernidade tardia estruturando o modo pelo qual experts e leigos organizam seus mundos sociais castiel 1999 o corpo e o self são modelados pelo olhar censurador do outro que leva à introjeção da retórica do risco o resultado é a constituição de um indivíduo responsável que orienta suas escolhas comportamentais e estilos de vida para a procura da saúde e do corpo perfeito e o desvio aos riscos ao mesmo tempo podemos observar o crescimento dos comportamentos de risco especialmente na juventude tais como esportes radicais sexo sem proteção etc como resposta à obsessão por comportamentos e estilos de vida sem risco o automelhoramento individual autodisciplinado na procura de saúde perfeição corporal tornou-se a forma dos indivíduo exprimirem a sua capacidade de agência e autonomia em conformidade às demandas do mundo competitivo a ênfase na autonomia individual está ligada à desmontagem do estado assistencialista que trata os indivíduos dependentes com desconfiança como parasitas sociais o tom ácido das atuais discussões das necessidades assistências direitos e redes de segurança está impregnado de insinuações de parasitismo de um lado enfrentado pela raiva dos humilhados do outro sennett 1999 p.170 a valorização da autonomia devolve ao indivíduo a responsabilidade por sua saúde reduzindo a pressão exercida sobre o sistema público a condição de autonomia se traduz num melhor estado de saúde e no desenvolvimento de hábitos de vida e escolhas comportamentais saudáveis no caso da velhice o modelo biomédico dominante define o envelhecimento exclusivamente em termos de declínio à idade adulta como um estado patológico uma doença a ser tratada os sinais da idade tornaram-se marcas de aversão e patologia.5 como resultado os problemas sociais são neutralizados e os idosos são marginalizados em instituições de saúde ao mesmo tempo a velhice é reconstruída como um estilo de vida mercadológico que conecta os valores mercadológicos da juventude com as interface comunic saúde educ v.8 n.14 p.9-20 set.2003-fev.2004 15

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ortega f técnicas de cuidado corporal para mascarar a aparência da idade katz apud morris 2000 p.236 os idosos da atualidade são apresentados como saudáveis joviais engajados produtivos autoconfiantes e sexualmente ativos como conseqüência os idosos estão cada vez menos legitimados para recorrer aos sistemas de saúde david 1995 o idoso se constitui como um indivíduo responsável e autônomo capaz de cuidar de si aparece assim a figura do idoso bom e do idoso mau este último sem competência para cuidar de si nesse contexto devemos compreender o surgimento nos últimos anos de grupos de idosos portadores de deficiências grupos de `self care e movimentos de auto-ajuda vistos como desafios e resistência à medicalização e portanto encorajados desde a perspectiva da governabilidade neoliberal esses grupos retomam o direito dos pacientes participarem no trabalho médico pinell 1998 eles estimulam no entanto a formação de bioidentidades sociais construídas a partir de uma doença determinada como conseqüência os novos critérios de agrupamento biossociais e biomédicos substituem progressivamente como vimos os padrões tradicionais tais como classe religião orientação política nesse contexto o conceito de deficiência releva o de doença referindo-se a déficit a serem compensados socialmente e não a doenças a serem tratadas rabinow 1999 esse conceito usado oficialmente pela primeira vez na inglaterra durante a ii guerra mundial como uma forma de avaliação da força de trabalho disponível com o objetivo de incorporar o maior número de pessoas está na base da biopolítica cujos grupos se distinguem precisamente pelas deficiências a serem compensadas deficiência da mulher frente ao homem do negro frente ao branco do gay frente ao heterossexual do portador de deficiências frente ao indivíduo fisicamente normal dos idosos frente aos jovens etc a política se dissolve em políticas particulares que aspiram compensar as deficiências de um grupo biopolítico determinado cuja uma das conseqüências é o esquecimento de ideais sociais mais abrangentes autores como robert castel enfatizam a idéia da dissolução do social como um dos efeitos do olhar biológico próprio da virada biopolítica nas sociedades ocidentais nas quais a experiência identitária é calcada na materialidade do biológico e referentes fisicalistas substituem referentes culturais as aparentes reivindicações biopolíticas dos grupos constituídos na biossociabilidade são em muitos casos uma armadilha pois como graham burchell 1991 p.145 1993 reconhece é em nome de formas de existência formuladas pelas tecnologias políticas de governo que nós como indivíduos e grupos fazemos reivindicações ao estado e contra ele É em nome de nossa existência governada como seres vivos individuais em nome de nossa saúde do desenvolvimento de nossas capacidades de pertencermos a comunidades particulares de nossa etnicidade de nosso gênero de nossas formas de inserção na vida social e econômica de nossa época de nosso meio ambiente dos riscos particulares que podemos enfrentar e assim por diante que nós igualmente injuriamos e invocamos o poder do estado 16 interface comunic saúde educ v.8 n.14 p.9-20 set.2003-fev.2004

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