Edicão número 1 . Agosto de 1997

 

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Edicão número 1 . Agosto de 1997

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interface comunicação saúde educação apresentaÇÃo ensaios sobre paradigmas modelos comunicacionais e práticas de saúde ricardo rodrigues teixeira a sala de aula como espaço de comunicação reflexões em torno do tema pedro geraldo novelli notas sobre educação na transição para um novo paradigma maria lúcia toralles-pereira subsídios à construção da prática pedagógica na universidade miriam celi pimentel porto foresti o materialismo histórico-dialético e a educação marília freitas campos pires razão ciência e pedagogia da emancipação josé ricardo de carvalho mesquita ayres algumas notas sobre pesquisa qualitativa e fenomenologia antônio vicente marafioti garnica 5 7 169 169 debates dialogando com a filosofia josé luiz sigristi etnocentrismo inconsciente imaginário e preconceito no universo das organizações educativas josé carlos de paula carvalho a prática pedagógica como processo de comunicação a relação professor-aluno como eixo o ponto de vista psicológico ana teresa de abreu ramos-cerqueira ensino médico o que sabemos maria cristina iwama de mattos 43 181 181 51 187 187 69 193 193 197 197 205 205 209 209 83 95 livros teses notas breves 109 artigos e relatos no encontro da técnica com a Ética o exercício de julgar e decidir no cotidiano do trabalho em medicina lilia blima schraiber o julgamento simulado do conselho regional de medicina do estado de são paulo processo de ensino da ética médica reinaldo ayer de oliveira uma nova iniciativa na formação dos profissionais de saúde josé lúcio m machado antonio luiz caldas junior neide marina feijó bertoncello integrando comunicação saúde e educação a experiência do uni botucatu antonio pithon cyrino eliana goldfarb cyrino 123 espaÇo aberto 213 213 fragmentos de uma reflexão sobre ensino na universidade sheila zambello de pinho clonagem antes e depois da dolly elenice deffune maria inês de moura campos pardini 141 215 215 147 219 219 157 criaÇÃo a crise da ciência o rei não está nu newton key hokama paula de oliveira montandon hokama

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apresentaÇÃo na verdade nenhum pensador como nenhum cientista elaborou seu pensamento ou sistematizou seu saber científico sem ter sido problematizado desafiado embora isto não signifique que todo homem desafiado se torne filósofo ou cientista significa que o desafio é fundamental à constituição do saber paulo freire interface comunicação saúde educação pretende ser um espaço aberto a contribuições de pesquisadores docentes alunos e profissionais envolvidos com a problemática da educação e da comunicação na área da saúde e em particular com as questões da formação continuada e do ensino na universidade pensada a partir de experiências vivenciadas durante as aulas das disciplinas pedagógicas de cursos de pósgraduação na área médica da unesp campus de botucatu a revista traz a marca do trabalho docente realizado naqueles cursos trabalho esse construído pelo encontro de duas áreas tradicionalmente concebidas dentro de epistemologias e campos semânticos diferentes uma fundamentada por paradigmas interpretativos das ciências biológicas e outra por paradigmas interpretativos das ciências sociais a necessidade de transformar esse confronto entre ciências e práticas sociais diferentes saúde e educação num lugar de interações capaz de produzir conhecimento e reflexão no interior das contradições trouxe para o centro dessa experiência a questão da comunicação interface comunicação saúde educação traz também a marca do esforço por integrar práticas sociais concretas dentro da experiência uni universidade serviços de saúde e comunidade vivência que trouxe como desafio enfrentar a tradicional verticalidade presente nas relações entre universidade/serviços de saúde universidade/comunidade serviços de saúde/comunidade exigindo que a saúde incorpore as reflexões dos campos da comunicação e da educação no atual momento de transição e crise em que o pensamento científico liberta-se das certezas interface nasce comprometida com o diálogo propondo um espaço plural que assegure a comunicação entre o que é diverso sem perder a perspectiva de um projeto de organização construção e difusão do conhecimento surge como um objeto-fronteira socializando estudos debates e experiências concretas de diferentes perspectivas motivada pela preocupação de contribuir para a problematização e compreensão dos processos pedagógicos e comunicacionais que envolvem o campo da saúde e constituem de modo mais amplo o cotidiano da universidade e dos serviços de saúde inspiraram-nos nesse projeto pierre lévy e Ítalo calvino o primeiro trazendo-nos a metáfora do hipertexto do conhecimento como construção de relações e apreensão de significados numa rede heterogênea acêntrica e em permanente metamorfose calvino propondo-nos a leveza a rapidez a exatidão a visibilidade a multiplicidade e a consistência como valores universais a desafiar as formas de comunicação do próximo milênio ao mesmo tempo em que reforça a idéia de rede e do conhecimento como enciclopédia aberta e acena para a necessidade de uma outra forma de conhecimento esta marcada por uma racionalidade mais plural por um discurso mais literário e sobretudo pela certeza de que não estamos pessoalmente separados daquilo que estudamos quem nos dera fosse possível uma obra concebida fora do self uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso mas para fazer falar o que não tem palavra Ítalo calvino agosto 1997 5

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presentation actually no thinker as well as no scientist has elaborated his thought or systemized this scientific knowledge without being questioned challenged although this does not mean that every challenged man will become a philosopher or a scientist it means challenge is fundamental for the constitution of knowledge paulo freire interface communication health education intends to be an open space for contributions from researchers professors students and professionals involved with the problems of education and communication in health specially those concerning continuous training and education at the university this journal is the result of experiences that took place during the classes offered by the pedagogical disciplines that are part of the medical graduation courses at unesp campus of botucatu this issue is permeated by the work developed by the professors who taught at these courses this work was built up by joining two areas traditionally conceived within different epistemologies and semantic fields one based on interpretative paradigms of the biological sciences and the other on interpretative paradigms of the social sciences the need to transform this confrontation between different scientific and social practices health and education into an interaction able to produce knowledge and reflection in the interior of contracditions has brought communication to the center of this experience interface communication health education also carries the marks of the effort made to integrate concrete social practices in the uni experience university health services and community this experience challenged us to face the traditional verticality present in the relationships university/health services university/community health services/community and required reflections on communication and education to be incorporated to health at the present moment of transition and crisis when the scientific thought gets free from certainties interface is born committed with dialogue proposing a plural space where communication among the diverse is assured however the perspective of a project for the organization construction and diffusion of knowledge should not be overlooked interface comes as a border object socializing studies debates and concrete experiences from different stand points and is motivated by the will to contribute to the analysis and understanding of pedagogical and communicational processes which involve the field of health and constitute in a broader sense the everyday life of the university and health services this project was inspired by pierre levy and italo calvino the first brought us the metaphor of the hypertext knowledge as a means to build up relationships and aprehension of meanings within an heterogeneous net acentric and inconstant metamorphosis calvino proposed us lightness quickness accuracy visibility multiplicity and consistence as universal values to defy the forms of communication in the next milenium and at the same time reinforces the idea of net and knowledge as an open encyclopedia and points to the need for another form of knowledge marked by a more pluralized rationality a more literary speech and most of all the certainty we are not personally separated from what we study how lucky would we be if a work conceived off the self were possible a work that allowed us to leave the limited perspective of the individual self not only to enter other selves similar to ours but to make those who have no words speak italo calvino agosto 1997 5

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sobre paradigmas modelos comunicacionais e práticas de saúde ricardo rodrigues teixeira1 teixeira r r models of communication and health practices interface comunicação saúde educação v.1 n 1 1997 the present work attemps to offer a brief theoretical systematization of the communicational dimensions involved in the practice of health by discriminating four large models or interpretative schemes 1 unilenar 2 dialogical 3 structural 4 diagrammatic the theoretical practical performance of the three first models is analysed taking into account the proposals actually implemented under the conceptual inspiration provided by each of them the fourth model is a new theoretical apport to the field and its borders and limits for the act of thinking acting in communication and health which are here in preliminarily essayed key words models theoretical communication health education public health practices o presente trabalho procura oferecer uma breve sistematização teórica sobre as dimensões comunicacionais envolvidas nas práticas de saúde discriminando quatro grandes modelos ou esquemas de interpretação 1 unilateral 2 dialógico 3 estrutural 4 diagramático os três primeiros modelos são analisados em seus desempenhos teórico-práticos levando-se em conta as propostas efetivamente implementadas sob a inspiração conceitual de cada um deles o quarto modelo constitui um novo aporte teórico ao campo e seus alcances e limites para o pensar/agir em comunicação e saúde são aqui preliminarmente ensaiados palavras-chave modelos teóricos comunicação educação em saúde práticas de saúde pública texto produzido para mesa-redonda sobre comunicação organizada pelas disciplinas de pedagogia médica e didática especial dos cursos de pós-graduação da faculdade de medicina da unesp campus de botucatu em setembro de 1996 1 docente e pesquisador do centro de saúde escola samuel barnsley pessoa departamento de medicina preventiva da faculdade de medicina da usp agosto 1997 7

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ricardo rodrigues teixeira introdução examinar as dimensões comunicacionais envolvidas nas práticas de saúde nos obriga como primeiro passo a definir o que seja comunicação e esta não é uma tarefa das mais fáceis ainda que todos tendam a concordar que a comunicação diga respeito em qualquer caso aos fenômenos de emissão transmissão e recepção de mensagens o fato é que as definições podem variar amplamente desde as mais abrangentes e inespecíficas que enxergam o fenômeno em todos os sistemas possibilidade sempre dada já que não há sistema sem transmissões serres 1995 p.26 até as mais especializadas que só pretendem valer para um conjunto bem circunscrito de objetos e práticas em geral relacionados à transmissão de mensagens entre humanos contudo a maior dificuldade em defini-la é de outra ordem e decorre fundamentalmente de seu caráter abstrato ainda que para se realizar dependa integralmente de objetos e práticas bem concretos a comunicação é um conceito que só se define integralmente quando incorpora as dimensões não-dadas do evento comunicacional mais exatamente corresponde a uma noção que só se define completamente em uso na relação concreta que logramos manter com os objetos e práticas que ocupam constituindo o espaço relacional e que efetivamente medeiam condicionando nossa relação com os outros e com o-que-é-comum temos então um conceito ajustado à dupla natureza da comunicação a inarredável presença dos meios não totalmente determinados e os seus usos entendidos como a exploração da sua margem de indeterminação este segundo componente que é o que plenifica o conceito traduzindo os possíveis e variados usos apropriações desvios e metáforas em geral que refazem sem cessar seus sentidos é também aquele que garante sua instabilidade e promove sua deriva sempre através da rede bastante concreta de objetos e práticas que tomamos de empréstimo para nos comunicarmos este é o ponto de partida da presente contribuição ela pretende ser particularmente útil ao exame crítico das dimensões comunicacionais envolvidas nas práticas de saúde oferecendo um esboço de sistematização teórica sobre o assunto nosso ponto de partida já é como não poderia deixar de ser um certo ponto de vista sobre os processos comunicacionais a pretensão é fazê-lo dialogar com outros pontos de vista com outras concepções paradigmáticas sobre o tema objetivando minimamente apresentá-las numa certa organização os abaixo designados modelos comunicacionais consistem apenas em esquemas muito gerais mas suficientes para divisarmos em 8 interface comunic saúde educ 1

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modelos comunicacionais e prÁticas de saÚde quatro grandes agrupamentos as concepções mais difundidas sobre comunicação É preciso advertir já que o modo sistemático da exposição sob esse aspecto é enganoso de que não há aqui a menor pretensão de se fazer uma reconstituição exaustiva da matriz disciplinar do campo da comunicação à semelhança da obra exemplar de cardoso de oliveira 1988 com sua interpretação antropológica da antropologia nesse trabalho o autor ressignifica este conceito emprestado de thomas kuhn para o célebre historiador das ciências matriz disciplinar é sinônimo de paradigma científico e centrando suas observações nas ciências naturais vê a história das ciências como um processo contínuo de substituição de paradigmas pela via das revoluções científicas para cardoso de oliveira no que tange à ciência antropológica uma matriz disciplinar é a articulação sistemática de um conjunto de paradigmas a condição de coexistirem no tempo mantendo-se todos e cada um ativos e relativamente eficientes p.15 não há a menor dúvida de que este princípio de simultaneidade dos paradigmas também se aplica aos modelos comunicacionais mas seu conjunto como já foi dito não pretende representar uma possível matriz disciplinar das ciências da comunicação cuja reconstituição rigorosa deve ficar a cargo dos especialistas a representatividade dos modelos que serão discutidos não é demais reafirmar consiste em sua maior pertinência para a compreensão das dimensões comunicacionais envolvidas nas práticas de saúde o que temos a seguir finalmente é muito mais um exercício de identificação de grandes esquemas de compreensão dos processos comunicacionais produzindo um breve comentário sobre seus desempenhos teórico-práticos isto é seus alcances e limites para o pensamento e para ação trata-se sobretudo de comentar o desempenho específico destes esquemas quando tomamos de empréstimo para nos comunicarmos objetos e práticas de saúde aristóteles e heráclito agosto 1997 9

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ricardo rodrigues teixeira a comunicação enquanto uma disciplina acadêmica costuma invocar para si um campo de tradição que teria como patrono-fundador nada menos que aristóteles 385322 a.c não é o caso de se retomar nesse instante o já bem arraigado argumento sobre a possível ilusão retrospectiva da história contida nestas atribuições de ancestralidade e o quanto ela representa um viés que pretendendo evocar uma tradição fundada nos tempos mais antigos acaba por abolir o próprio tempo reforçando a crença num objeto de conhecimento sincrônico válido em todos os tempos e em todas as culturas bem ao modo das concepções cientificistas de ciência o que se revela realmente significativo nestas reivindicações de paternidade é seu efeito metafórico é o que dizem enquanto escolhas particulares sobre a visão presente partilhada por uma determinada comunidade acadêmica a respeito de seus próprios objetos e práticas vejamos o caso de aristóteles é considerado o primeiro pesquisador em comunicação por seus estudos sobre a retórica destacadamente por defini-la como a faculdade de discernir os possíveis meios de persuasão em cada caso particular e por realizar a primeira análise objetiva livre de considerações sobre o bem e o mal deste aspecto importante no processo de transmissão de informações que é a persuasão marques de melo 1973 p.37-8 sem qualquer ilusão retrospectiva da história por pura contra metáfora poderíamos retroceder ainda mais no tempo e apontar heráclito 540-470 a.c como o primeiro bem talvez não porque justo na retórica de aristóteles iii 5 1407b 11 ele é mencionado como um exemplo de falta de clareza expressiva por seus textos marcados pela escassez de conjunções e pela dificuldade de pontuação mas heráclito o skoteinós obscuro empregava em seus textos uma linguagem incomum para verter percepções ainda mais raras deveria sim ser considerado o grande iniciador da indagação sobre a comunicação humana em especial pelas associações singulares que estabeleceu a partir da noção de koinós consultando o dicionário de grego bailly 1950 10 interface comunic saúde educ 1

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modelos comunicacionais e prÁticas de saÚde koinós a falando de coisas i comum a ii comum a todo o povo público iii comunicado a outros publicado donde comum a todos comum usual ordinário b falando de pessoas e de coisas i que participa de que está em comunidade ii que é de origem comum da mesma raça da mesma natureza iii que se presta a todos igualmente i.e 1 sociável afável 2 eqüitativo imparcial falando de acontecimentos chances iguais 3 acessível koinéo comunicar i.e 1 tornar comum a comunicar a donde tornar comum 2 comunicar fazer saber 3 pôr em comunicação unir koinologia conversação conversa µ koinema no pl comunicações koinia troca de relações comunicação comércio heráclito se ocupou da comunicação explorando o campo semântico que se articula a partir dessa noção grega e estabelecendo conexões que evocam determinadas 1 interessante tradução para a-koinitós literalmente que-não-selançam-com que-nãocompreendem abordagens contemporâneas que não deixarão de ser comentadas mais adiante muito especialmente conectou o koinós ao nóôi inteligência e em seu texto profusamente poético lançou mão do jogo aliterativo explorando a proximidade fonética entre o adjetivo koinós o-que-é-com comum e a expressão koin nóôi com inteligência os que falam com inteligência é necessário que se fortaleçam com o comum de todos comum é a todos o pensar estobeu 1991 p.62 deste logos sendo sempre os homens se tornam descompassados1 quer antes de ouvir quer tão logo tenham ouvido por isso é preciso seguir o-que-é-com isto é o comum pois o comum é o-que-é-com mas o logos sendo o-que-é-com vivem os homens como se tivessem uma inteligência particular sexto empírico 1991 p.51 de todas estas insinuações introdutórias o mínimo que se deve extrair é que se a metáfora da paternidade do campo recai sobre aristóteles ou heráclito ou se recai sobre ambos o que conta realmente é toda a presumível diferença nas respectivas concepções de objetos e práticas modelo unilinear a comunicação enquanto uma disciplina acadêmica que invoca o patronato de aristóteles por este haver realizado a primeira análise objetiva dos meios de persuasão está profundamente impregnada do primeiro modelo comunicacional que agosto 1997 11

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ricardo rodrigues teixeira iremos analisar de fato este pode ser considerado o paradigma fundante da moderna ciência da comunicação em torno do qual se organizaram objetos métodos linhas e instituições de pesquisa com especial intensidade a partir da segunda grande guerra centralmente nos estados unidos também neste ramo das ciências do homem os enciclopedistas do século xviii forneceram a formulação matricial do problema começando por definir um lugar para a arte de comunicar em meio ao sistema de classificação das ciências proposto por d alembert a recuperação de partes da árvore de classificação do conhecimento pode ser interessante como auxiliar visual na compreensão da arborescência semântica que irradia da concepção enciclopedista de comunicação podemos em parte visualizála através da rede de conexões externas e subdivisões internas que situam o problema no âmbito das famílias científicas modernas ciÊncia de deus ciÊncia do homem ciÊncia da natureza lÓgica moral arte de pensar arte de reter os pensamentos arte de comunicar os pensamentos gramÁtica ciência do instrumento do discurso retÓrica ciência das qualidades do discurso crÍtica ciência das mensagens literárias pedagogia ciência das maneiras de ensinar filologia ciência das línguas famílias cissíparas são raros os acasalamentos neste esquema as ciências nascem mais por cisão do que por união e vemos cisões importantes primeiro aquela que separa a ciência do homem das ciências da natureza e de deus e a seguir a que separa a lógica da moral por fim temos também as cisões internas que fragmentam os campos seus pedaços na terceira linha do esquema formam uma perfeita frase a enunciar toda uma concepção sobre os processos cognitivos humanos pensar reter os pensamentos comunicar os pensamentos deduz-se um problema da comunicação 12 interface comunic saúde educ 1

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modelos comunicacionais e prÁticas de saÚde formulado em termos da transmissão de mensagens da interioridade de um sujeito à de um outro trata-se de um esquema de interpretação que tem como base a comunicação interpessoal embora a literatura impressa e mesmo a imprensa já desempenhassem um papel importante àquela altura colocando em evidência uma dimensão de comunicação coletiva as formulações enciclopedistas fazem referência em primeiro grau à ação dos tribunos e oradores ao transmitir suas idéias os homens tratam também de transmitir suas paixões e o logram mediante a eloqüência feita para falar ao sentimento como a lógica e a gramática falam ao espírito a eloqüência impõe silêncio à própria razão e os prodígios que obtém rapidamente nas mãos de um só frente a toda uma nação são o testemunho mais notável da superioridade de um homem sobre o outro d alembert 1973 p.39-40 em síntese teríamos 1 pensar atividade que se passa atrás dos olhos entre as orelhas 2 reter os pensamentos inscrever na memória o produto acabado daquela atividade 3 transmitir os pensamentos o que começa pela elaboração das mensagens e inclui todas as técnicas destinadas a obter determinados efeitos sobre o outro dentro deste esquema a existência de um problema da comunicação estaria fundamentalmente relacionada à necessidade de se inquirir os meios quanto a sua maior ou menor eficácia na afirmação da superioridade discursiva como logo se verá um certo belicismo é de fato um dos traços mais marcantes nas metáforas e na história da disciplina comprometida com este primeiro modelo antes porém estas concepções básicas deverão evoluir através da evidência de um outro modo de comunicação o século xix trará à luz uma dimensão de comunicação coletiva identificando uma esfera de problemas que definitivamente ultrapassa a comunicação interpessoal surgem os primeiros estudos sobre os efeitos da imprensa e análises sobre a formação da opinião pública são prevalecentes já nestas obras inaugurais as tendências a aproximar a problemática da comunicação coletiva de questões políticas como o controle da informação e a liberdade de imprensa p.ex alexis de tocqueville sören kierkegaard e de questões de psicologia social principalmente aquelas preocupadas com a influência da comunicação coletiva sobre a comunicação interpessoal p.ex gabriel tarde É inegável que o desenvolvimento sem precedentes no último século e meio dos meios de comunicação coletiva foi decisivo no processo de diferenciação de um campo de saberes e práticas da comunicação contudo o impulso determinante para sua agosto 1997 13

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ricardo rodrigues teixeira legitimação científica e institucional parece ter dependido menos da presença dos meios e muito mais de seus usos em particular daqueles que se definiram num certo momento de nosso século a partir de interesses fortemente colocados nas esferas econômica e militar e que passavam a demandar agudamente estratégias de psicologia política o rápido avanço das pesquisas em comunicação a partir dos anos 30-40 sobretudo nos estados unidos concentra-se em duas grandes frentes a propaganda comercial que se intensifica em estreita relação com crises de superprodução buscando influir no comportamento consumidor e a propaganda política que se impõe como resposta às repercussões da propaganda nazista levando a um esforço aliado de contrapropaganda associada à comunicação de guerra a segunda grande guerra foi a primeira a empregar os novos meios de comunicação para a guerra psicológica a primeira a incluir um campo de batalha midiático pesquisadores destacados como carl hovland e harold lasswell trabalharam centralmente em projetos de propaganda política e comunicação de guerra lasswell por exemplo considerava os meios de comunicação de massas um instrumento eficaz senão suficiente para a formulação e difusão de símbolos de legitimidade política de um governo segundo uma concepção fortemente inspirada no behaviorismo imperante na psicologia norte-americana desse período a conseqüência mais direta desta inspiração teórica é a assunção em tese de que a conduta pode ser explicada por um modelo emissor-receptor em que o emissor aplica determinados estímulos e obtém determinadas respostas em massas este esquema geral de interpretação dos fenômenos de comunicação coletiva é freqüentemente designado de paradigma de lasswell e representado numa figura já clássica que tomamos de empréstimo como a formalização mais sintética do primeiro modelo comunicacional doravante chamado modelo unilinear modelo unilinear s e mensagem r o todo esse esquema excessivamente formal e instrumentalista foi reorientado e sofisticado em numerosas pesquisas que tiveram seu grande boom nos anos 50 entre 14 interface comunic saúde educ 1

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