Revista Mediação - número 04

 

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nÚmero 4 · ano ii issn 1808-2564 revista de educação do colégio medianeira 1

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revista de educação editada e produzida pelo colégio medianeira diretor pe raimundo kroth s.j vice-diretor prof adalberto fávero coordenador administrativo e financeiro gilberto vizini vieira coord comunitário e de esporte prof francisco alexandre faigle coordenação editorial e revisão luciana nogueira nascimento mtb 2927/82v nilton cezar tridapalli projeto gráfico e diagramação sonia oleskovicz ilustração da capa marcelo sanches fotografias arquivo medianeira arquivo fya colaboraram nesta edição cesar guimarães dos santos elenir almeida santos fabiano pinkner rodrigues francisco carlos rehme leonora mª antunes comegno luciane hagemeyer marcelo cambraia sanches ilustrações nely brasil nilton cezar tridapalli pe domingos chagas rafael riva finatti wanderlei deina tiragem 3.000 exemplares papel reciclato suzano 90g/m2 miolo reciclato suzano 240 g/m2 capa número de páginas 60 ctp serzegraf impressão e acabamento serzegraf equipe pedagÓgica educação infantil e ensino fundamental de 1ª à 4ª séries coordenadora profª silvana do rocio andretta ribeiro ensino fundamental de 5ª e 6ª séries coordenadoras profª eliane zaionc manhã profª carolina queiroz lopes de araújo tarde ensino fundamental de 7ª e 8ª séries coordenador prof marcelo pastre ensino médio coordenador profª roberta uceda vieira coordenador de pastoral prof edilson ribeiro centro de espiritualidade prof fernando guidini comunicação e marketing luciana nogueira nascimento issn 1808-2564 a nova praça da cidade ou apenas o orkut cwandelei josé deina 5 ensino da língua portuguesa ­ a universidade e a realidade da escola rfabiano pinkner rodrigues 8 sujeitos leitores nilton césar tridapalli 13 biodiversidade e diversidade química leonora maria antunes comegno 18 a riqueza singular da aula de campo francisco carlos rehme 23 o sonho obriga o homem a pensar elenir almeida santos 25 um girassol por entre as coisas luciane hagemeyer 32 o santo e a semana santa rafael riva finatti 37 o impacto das embalagens no meio ambiente nely brasil 42 fortalecimento do sonho ­ jubileu da fundação fé e alegria do brasil pe domingos chagas s.j 46 reflexão cotidiana de um segurança césar guimarães dos santos 50 os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do colégio nossa senhora medianeira a reprodução parcial ou total dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria marcelo cambraia sanches professor de portuguès e literatura do colégio medianeria br 476 km 130 nº 10546 prado velho · curitiba · paraná fone 41 3218-0000 fax 41 3218-8040 www.colegiomedianeira.g12.br www.colegiomedianeira.com.br mediacao@colegiomedianeira.g12.br e r r ata o número 2 da revista mediação trouxe em seu sumário o artigo intitulado educação física à luz de uma formação cristã o título correto é educação física à luz de uma formação cidadã o autor do artigo kleber klos apareceu como mestrando em educação pela ufpr página 40 na verdade ele é mestrando em educação pela pucpr 3

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mudar é difícil mas é possível a frase que paulo freire repetiu insistentemente quando se referia à educação pode ser aplicada à discussão sobre a leitura como um importante instrumento de transformação do mundo para freire o homem se insere num processo permanente de esperançosa busca este processo é a educação e nela está obrigatoriamente o hábito de ler em todas as suas fases da decodificação de símbolos e signos à interpretação poética e literária à leitura crítica que constrói nossa concepção de mundo de ser humano de realidade lemos apenas por ler nosso hábito de buscar um livro se dá na obrigatoriedade os pais lembram-se de estimular nos filhos a rotina da leitura ou lembram-se de despertá-la contando histórias de livros interessantes É por meio da leitura e da escrita que nos alfabetizamos aprimoramos nosso jeito de escrever complementamos nossas experiências de vida qualificamos nosso conhecimento refinamos a sensibilidade o senso crítico e nossos valores de vida ainda assim a escola precisa de argumentos para estimular o aluno a ler o papel do educador diante da leitura passa pela poesia pela gramática pela essência da língua portuguesa na música há leitura na entrevista no teatro mas como ler ou interpretar ou formular escolhas para o que vem pronto determinado e imposto a experiência de vida a educação e a leitura nos fornecem meios para realizar nossas opções além de um tratado ou uma defesa incondicional à leitura inspirada na realização da semana da leitura e da feira do livro do colégio medianeira realizadas como estratégias do projeto sujeitos leitores que procura estimular o gosto pela leitura e pela escrita nos alunos esta edição de mediação traz para o leitor o mundo virtual das relações interpessoais em uma análise do ambiente do orkut o leitor também vai conhecer milton santos um ícone do pensamento contemporâneo que fez de seu conhecimento sobre geografia urbanismo e política um instrumento para a realização do sonho de um mundo mais fraterno mais humano outro geógrafo o professor francisco rehme nos traz exemplos de como falar da disciplina e conquistar o aluno por meio das aulas de campo do contato físico com o conteúdo trabalho em sala do despertar para a realidade ambiental do planeta teremos também uma explicação sobre a tão comentada biodiversidade e suas implicações durante a realização das conferências da onu em curitiba em março deste ano enfim o universo do conhecimento da educação e da leitura nos apresenta em cada linha em cada palavra e a cada interpretação que é mesmo difícil mas é possível mudar boa leitura e ela possa influenciar um pouquinho o seu jeito de ver o mundo luciana nogueira nascimento prezados professores e editores da revista mediação parabéns mais uma vez ao colégio nossa senhora medianeira por mais um exemplo de excelência humana e acadêmica a publicação do livro de abraços dados e da revista mediação refletem o compromisso de valores e princípios que a família medianeira assumiu para com a sociedade são esforços como este que hoje fazem a diferença no sonho e na busca de um mundo mais justo e humano É essa educação e sensibilização dos alunos acerca dos problemas comuns que os tornarão sujeitos pensantes e não simples peças de um jogo cruel gabriel ribeiro de souza lima ex-aluno 2004 acadêmico de direito da faculdade de direito de curitiba caro leitor escreva para a revista mediação enviando seus comentários sobre as matérias e artigos lidos aqui não deixe de participar mande sua mensagem para nilton@colegiomedianeira.g12.br ou mediacao@colegiomedianeira.g12.br 4

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a nova praça da cidade ou apenas o orkut por wanderlei deina o orkut verdadeira febre principalmente entre os jovens e adolescentes faz despertar uma importante reflexão a respeito das noções de público e de privado nos dias atuais 5 5

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a a nova praça da cidade não ocupa um espaço físico não tem árvores e nem sombra não tem parquinho onde as crianças se divertem e nem tem bancos onde os casais namoram não que os casais não namorem mas já não namoram como num passado que já parece antigamente não que não haja crianças mas sua diversão já não está mais nos parquinhos a nova praça da cidade como pensam seus freqüentadores ficaria dentro de uma máquina que parece tão pequena mas que na verdade tem extensão do mundo todo não parece praça mas é não parece pública mas é não é pública no sentido de que pertence a todos É pública apenas porque reúne um público maior do que todas as outras praças que com a construção da nova ficaram até fora de moda fora de moda também ficaram os que na nova praça não podem entrar a nova praça da cidade apenas por ter mais público parece que é mais pública que todas as outras que têm fonte onde as pessoas jogam moedas para fazer os seus pedidos de esperança no entanto na nova praça não há tanta esperança mas mesmo assim as pessoas jogam moedas poderia haver mas as pessoas acham que a esperança está nas moedas e não percebem que na verdade é na praça que ela está a nova praça da cidade como toda praça nova tornou-se popular muitos dos que a freqüentam apenas freqüentam para aproveitar a sua popularidade por quê por o quê ou com quem ser popular não importa os fins justificam os meios e os meios justificam os fins a nova praça da cidade é gigantesca tem o tamanho do mundo e deveria ter lugar para todos os que nele vivem mas todos não podem freqüentá-la e muitos de todos que a freqüentam querem apenas o centro por isso se digladiam uns contra os outros por isso destroem-se uns aos outros não percebem que a praça não tem centro pois o centro do mundo está em todos os lugares a nova praça da cidade está aberta para todos mas nem todos podem freqüentá-la para muitos para aqueles que não têm moedas para jogar na fonte é uma praça interditada como não têm teclado e não têm mouse e muito menos têm conexão de banda larga ficam do lado de fora da praça sem sequer poderem vê-la mesmo assim algumas pessoas que freqüentam a praça conseguem depredar até quem não está na praça quem ficou do lado de fora e por não poder freqüentá-la a maioria nem tem a chance de saber que está sendo depredada a nova praça da cidade por não ter espaço físico por não ter árvores e nem sombra poderia até não ser depredada como as praças tradicionais seus freqüentadores pensam que é uma praça feita apenas de mouse de teclado e de conexões de banda larga seus freqüentadores pensam por isso que estariam protegidos de qualquer tipo de depredação acreditam ser a praça apenas virtual e por isso muitos perderam o próprio senso do real a nova praça da cidade não tem coreto onde as pessoas fazem os seus discursos mas mesmo assim existem discursos que podem atingir o mundo inteiro freqüentadores e não freqüentadores da praça poucos desses discursos são políticos numa concepção elevada de política qualquer um fala qualquer coisa sem medir quaisquer conseqüências para a praça a razão que estava nos discursos da praça de atenas quase não entra na nova praça em nome da liberdade de expressão É por isso que na nova praça a razão tornouse tão antiga quanto à própria antiga atenas a nova praça da cidade poderia ser grandiosa como a ágora de atenas mas prefere ser pequena e segregar ao invés de aproximar alguns de seus freqüentadores ávidos amantes da liberdade cultuam-na de uma forma excessivamente 6

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prÁticas midiÁticas e espaÇo pÚblico apaixonada tornando a praça perigosa nunca leram cecília meireles ou jean-paul sartre freqüentadores de outras praças de um passado no qual não havia tanta liberdade mesmo vivendo num passado reacionário conseguiam compreender perfeitamente o significado da palavra liberdade não eram adolescentes apaixonados pela liberdade mas amavam-na sublimemente sabiam perfeitamente que a esperança não está nas moedas ou na fonte e nem na própria praça em si mesma sabiam perfeitamente que a praça são as próprias pessoas hohlfeldt antÔnio hohlfeldt antÔnio fausto neto aidar fausto neto josÉ luiz aidar dayrell porto prado e sÉrgio dayrell porto edipucrs pucrs este volume enfeixa uma parte dos trabalhos apresentados no ix encontro da compós associação que reúne os programas de pós-graduação em comunicação social de todo o brasil e que ocorreu em maio-junho de 2000 na famecos da pontifícia universidade católica do rio grande do sul a primeira parte do livro abre uma discussão sobre a comunicação e o espaço público na era da globalização ponto de vista epistêmico e crítico a segunda parte aborda as práticas midiáticas analisando o jornalismo e o imaginário na mídia telejornais fotografia produção de sentido na mídia impressa comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br tensÕes contemporÂneas privado entre o pÚblico e o privado gilberto dupas gilberto dupas editora paz e terra gilberto dupas investiga algumas das crescentes inquietações provocadas pelas novas realidades sociais políticas e econômicas deste início de século após os atentados de 11 de setembro de 2001 nos estados unidos aborda as tensões contemporâneas entre os indivíduos o estado e a sociedade além de explorar os dilemas da liberdade pressionada dentro dos limites cada vez mais confuso entre o espaço público e o privado privado o pÚblico e o privado na educaÇÃo mÁrcio da costa editora xamã resgatar as raízes do verdadeiro humanismo debater a questão de novos paradigmas e buscar uma relação diferente entre ciências e fé visão de mundo e visão de deus atento a o que dizia einstein `a ciência sem a religião é imperfeita a religião sem a ciência é cega wanderley josé deina é mestrando em filosofia da educação pela usp e professor de antropologia na 1a série do ensino médio do colégio medianeira 7

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ensino de lÍngua a universidade e a portuguesa realidade da escola por fabiano pinkner rodrigues 8

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ao contrário do que muitas escolas pensam a educação fundamental e média não deve pautar sua educação exclusivamente nos conteúdos programáticos dos vestibulares eles não são prescritivos nem tampouco compostos por conteúdos fixos e quem diz isso é a própria universidade têm contribuído para mudar essa visão simples e determinista e enriquecer a discussão através do auxílio desse campo de pesquisa o objetivo do artigo é refletir sobre uma realidade que exemplifica muito bem essa complexa relação entre escola e universidade o vestibular e as propostas de ensino de cada escola nesse caso a universidade que servirá como referência será a universidade federal do paraná sua escolha é fruto de um documento elaborado pela instituição e que na verdade motivou a escrita desse artigo apesar de ser apenas um processo seletivo entende-se que por ser uma avaliação elaborada pela ufpr ela deva refletir o que as escolas priorizam em seus programas ou esse processo irá avaliar se as escolas estão cumprindo seu papel corretamente as provas no vestibular irão verificar se as disciplinas estão ensinando seus conteúdos corretamente É novamente andré chervel quem diz na opinião comum a escola ensina as ciências as quais fizeram suas comprovações em outro local ela ensina a gramática porque a gramática criação secular dos lingüistas expressa a verdade da língua ela ensina as ciências exatas como a matemática e quando ela se envolve com a matemática moderna é pensa-se porque acaba de ocorrer uma revolução na ciência matemática ela ensina a história dos historiadores a civilização e a cultura latina da roma antiga a filosofia dos grandes filósofos o inglês que se fala na inglaterra ou nos estados unidos e o francês de todo o mundo 2 a a escola geralmente é vista como irmã menor ou filha da universidade isso porque se espera da primeira autonomia mas sempre vigiada pela segunda ou seja a escola ensina algo que a universidade pesquisa desenvolve de forma mais aprofundada dessa forma as disciplinas escolares estão sempre esperando um direcionamento de suas irmãs mais velhas ou mães para poderem se adaptar e inovar caso contrário a impressão que se tem é a de que nada na escola muda pois no interior dos muros escolares o que prevalece é a estagnação educadores e educandos vivem num mundo próprio isolados e que por isso mesmo precisam de tempos em tempos receber oxigênio a concepção de escola como puro e simples agente de transmissão de saberes elaborados fora dela está na origem da idéia muito amplamente partilhada no mundo das ciências humanas e entre o grande público segundo a qual ela é por excelência o lugar do conservadorismo da inércia da rotina por mais que ela se esforce raramente pode-se vê-la seguir etapa por etapa nos seus ensinos o progresso das ciências que se supõe ela deva difundir 1 andré chervel segundo chervel a idéia que se tem da escola é que ela é responsável entre outras coisas por repassar de forma filtrada as ciências que são estudadas nas universidades como senso comum entende-se que as disciplinas escolares são filhas diretas de suas correspondentes ciências sendo assim elas estariam desde a sua origem ligadas a elas sofrendo desse modo conseqüente influência das mudanças que nelas ocorrem ficaria então para a escola a tarefa de desenvolver métodos que possibilitem a transmissão dos conhecimentos desenvolvidos pelas universidades segundo chervel é nesse campo que se insere o trabalho dos pedagogos os estudos realizados em educação no campo de pesquisa da história das disciplinas escolares 9

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para ele essa visão não corresponde à realidade das disciplinas escolares o exemplo da história da gramática escolar mostra contudo que a prova pode ser fornecida a escola ensina sob esse nome um sistema ou melhor uma combinação de conceitos mais ou menos encadeados entre si mas três resultados da análise histórica impedem definitivamente que se considere essa matéria como uma vulgarização científica ela mostra primeiro que contrariamente ao que se teria podido acreditar a `teoria gramatical ensinada na escola não é a expressão das ciências ditas ou presumidas `de referência mas que ela foi historicamente criada pela própria escola na escola e para a escola o que já bastaria para distingui-la de uma vulgarização em segundo lugar o conhecimento da gramática escolar não faz parte ­ com exceção de alguns conceitos gerais como o nome o adjetivo ou o epíteto ­ da cultura do homem cultivado 3 gios alguns trechos servirão de ilustração de como o senso comum confunde o projeto da escola como sendo algo vinculado ao da universidade e de que forma a ufpr vem tentando encaminhar essa questão a pergunta é qual o papel do vestibular no direcionamento do ensino básico se o vestibular privilegia leitura e escrita as escolas devem se restringir também a esse conteúdo na disciplina de língua portuguesa e aí podemos perceber que se quer vincular o projeto de ensino de língua materna à prova do vestibular a escola é um espaço independente com características e objetivos diversos dos da universidade seus educadores e educandos assim como os diversos agentes sociais que nela atuam têm projetos muito mais amplos do que a simples aprovação num processo seletivo a história da escola e das suas disciplinas não pode ser apagada em troca de um sucesso em uma situação isolada no interior de um contexto político e social também único pode-se pensar que as mudanças propostas pela ufpr na prova de língua portuguesa e redação sejam conseqüências dos estudos realizados pela lingüística ­ na própria universidade e em outros centros lingüísticos dessa forma a disciplina de língua portuguesa nas escolas deve se adaptar a essa realidade porém isso também não pode ser concebido o projeto de ensino de língua materna na escola atende a outros objetivos e tem sua história própria ele até dialoga com os estudos lingüísticos mas não se pode criar uma relação de causa e conseqüência ou pura submissão a universidade diante da pergunta esclarece muito bem o problema apresentado está na hora de se entender que o processo seletivo olha para frente não tem o objetivo de dar alguma forma de validação a tudo o que foi ensinado no ensino médio nem tem o objetivo de incluir tópicos ou áreas para que os candidatos se sintam motivados a estudá-los no espírito daquela pedagogia atrasada de que o aluno deve estudar isto ou aquilo porque vai cair na prova as boas escolas as que têm identidade pedagógica própria sabem o que devem ensinar para dar aos jovens uma sólida formação o que a universidade deve fazer é valorizar no seu pro a idéia de que a escola é um espaço de iniciação de apresentação simplificada das ciências de referência não pode ser considerada isso porque essa visão retira toda a autonomia das disciplinas escolares transformando-as em formas pedagógicas de transmissão de conhecimentos mais complexos e profundos É como se toda atividade desenvolvida nas universidades e por elas como é o caso do vestibular tivesse impacto direto nas salas de aula das escolas no caso da análise realizada por chervel ele leva em consideração a história do ensino de língua francesa nas escolas da frança e verifica que os objetivos desse ensino possuíam como raiz o ensino da ortografia portanto não havia nenhum projeto de vulgarização dos saberes acadêmicos a ufpr divulgou um documento em 2006 para tentar esclarecer algumas questões que são colocadas pelas escolas e pela comunidade em geral sobre o processo seletivo realizado pela universidade esse documento prioriza a prova de língua portuguesa isso porque com o novo modelo adotado pela instituição o bom desempenho nessa avaliação é determinante para a aprovação no processo aqui será priorizada uma das questões ­ a que justamente discute a relação da prova com os conteúdos trabalhados pelos diversos colé 10

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do que pretendemos aferir nas questões da prova de seleção em momento nenhum dissemos que não se deve ensinar gramática ao contrário muitos de nós defendemos que a gramática dependendo da forma como é entendida tem um papel importante no ensino de língua a prova do vestibular simplesmente aponta para um perfil e a escola tem a autonomia para decidir como se chega lá o maior ou menor interesse do aluno pela disciplina advém da forma como esse caminho é construído na escola e não da forma como o vestibular é elaborado transferir essa responsabilidade para o vestibular é um meio de mascarar o problema pensar o ensino de língua portuguesa e das demais disciplinas nas escolas e verificar se existe alguma ponte com os estudos realizados nas universidades e com seus processos avaliativos exige alguns cuidados a escola dialoga não só com a universidade mas com as demais esferas da sociedade que lhe cobram também bons resultados assim como no vestibular o bom rendimento em uma avaliação no final do ensino médio é fruto de um projeto bem fundamentado por parte da escola e essa é apenas uma das conseqüências do trabalho desenvolvido por ela até porque os caminhos que os diversos estudantes ­ cidadãos e cidadãs ­ irão tomar após o período escolar são variados ainda mais quando se sabe que a realidade social do brasil não permite nem a escolha para sua população cursar ou não uma universidade é uma opção para uma pequena parcela a maioria tem na escola sua base educacional para o restante da vida e daí o vestibular se transforma em nada cesso seletivo os conhecimentos e habilidades que julga mais importantes para a vida universitária do futuro aluno a realidade da universidade é outra sua proposta objetivos não coincide com o da escola não se pode perder de vista que elas possuem histórias separadas e projetos diferenciados querer por exemplo que as séries do ensino fundamental recebam como proposta pedagógica algo que seja centrado nas provas realizadas pelos mais diversos vestibulares é desfigurar o papel educativo numa perspectiva ampla que cabe à escola a universidade deseja selecionar o leitor competente que domina a língua padrão e sabe organizar alguns gêneros textuais com relativa desenvoltura toda escola tem ou pelo menos deveria ter a obrigação de fazer com que os alunos ao término do ensino médio tivessem essas condições independentemente de seu desejo de cursar o ensino superior o caminho para fazer com que os alunos cheguem lá com esse perfil é uma prerrogativa de cada escola que deve traduzir isso no seu projeto pedagógico instrumento que lhe confere maior ou menor grau de identidade se a escola alcança essa meta trabalhando exclusivamente com o texto ou se prefere ensinar gramática é uma decisão que cabe somente a ela para nós o que importa é o resultado e é esse resulta 11

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portanto qualquer escola pública ou particular que centrar seus esforços para se adequar ao que as universidades cobram em seus processos seletivos estará deixando de lado uma série de responsabilidades que a sociedade também espera que ela cumpra e mais tarde o sucesso nesse momento isolado pode até acontecer mas os fracassos nos demais espaços sociais encobrirão essa triste alegria comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br a lingÜÍstica e o ensino da lÍngua portuguesa rodolfo ilari editora martins fontes os seis artigos reunidos nesta coletânea procuram responder a uma mesma pergunta pode a lingüística contribuir para o aperfeiçoamento do ensino da língua materna para o autor dentro de certos limites é possível criar em sala de aula situações propícias para usos e registros diversificados e utilizar em todos os níveis exercícios de expressão escrita e falada em que se visam especificamente os objetivos de coesão textual e controle de informatividade fabiano pinkner rodrigues é professor de língua portuguesa do colégio medianeira na 6a série do ensino fundamental e no 3o ano do ensino médio É formado em letras pela universidade federal do paraná instituição pela qual é também mestrando em educação pesquisa na escola faz o que É como se faz marcos bagno editora loyola `pesquisa na escola se divide em duas partes a pesquisa na escola em geral e algumas sugestões para transformar a atividade de pesquisa numa verdadeira fonte de aquisição de conhecimento e a tentativa de introduzir a atividade de pesquisa também naquela disciplina que ao lado da matemática é considerada a mais importante língua portuguesa as idéias expostas ali são bastante diferentes do que tradicionalmente se lê e se ouve a respeito das questões gramáticas 1 chervel andré 1990 história das disciplinas escolares reflexões sobre um campo de pesquisa teoria educação porto alegre n 2 pp 182 2 chervel andré 1990 história das disciplinas escolares reflexões sobre um campo de pesquisa teoria educação porto alegre n 2 pp 180 3 chervel andré 1990 história das disciplinas escolares reflexões sobre um campo de pesquisa teoria educação porto alegre n 2 pp 181 12

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sujeitos por nilton cezar tridapalli leitores leitura leitura leitura essa palavra tem ecoado nos diversos cantos dos artigos entrevistas reportagens estatísticas por que afinal ela é tão importante seria apenas um passatempo ou seja para quem tem tempo para se distrair É apenas entretenimento igual à tv rádio internet 13 13

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talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor lhes seja imposta pela nossa certeza de que tais coisas são elas mesmas e não outras pela imobilidade de nosso pensamento em relação a elas marcel proust no caminho de swann em busca do tempo perdido o os olhos são os únicos que muito sutilmente se movem na aparente paralisia que envolve os companheiros livro e leitor sustentados pelo fio invisível que liga o olho à palavra o germe da mudança se instala um livro um mundo um leitor um mundo e na confluência no conflito entre os mundos um outro mundo ainda terceiro começa a se misturar aos anteriores o mundo do livro se modifica ganha sentidos no atrito gerado pela entrada sorrateira do mundo trazido com a experiência do leitor da mesma forma o mundo do leitor também se altera porque agrega e se deixa infiltrar por uma cosmovisão que interage com suas formas de ver a realidade que o cerca duelo e partilha choque e harmonia angústia e alegria É assim que as coisas são sim e não talvez seja realmente fácil falar de leitura em uma situação ideal se bem que ainda assim temos nossa desconfiança mas quando se trata de um leitor afogado pelas obrigações escolares preocupado em ser um depositário de informações que não consegue fazê-las interagir com sua rede de conhecimentos obrigado a ler algo a que não consegue atribuir significância a poesia presente na utopia da leitura parece aos poucos ou aos muitos ir se esfacelando até se transformar em poeira a ser varrida para os cantos para debaixo do tapete ler tem íntima relação etimológica com a palavra colher o que no entanto o leitor colhe ao passar os olhos por aquele emaranhado de rabiscos a que chamamos letra a que chamamos palavra a que chamamos enunciado a que chamamos texto a que chamamos linguagem a leitura há muito vem sendo restrita a um dos seus níveis mais elementares a alfabetização mas ler significa apenas decodificar basta isso parece muito claro que não É importante talvez pensar que leitura possui uma dimensão bastante ampla que inclusive se relaciona com terrenos que vão além da palavra escrita É preciso afinal ler o mundo ler a quantidade inumerável de significados nos signos que a todo o momento gritam aos nossos sentidos ler é também tatear o mundo sentir seus gostos e cheiros ouvi-lo dizê-lo mas há sem dúvida muitas formas de fazer isso ler é indo além da decodificação interpretar interpretar é eleger ex-legere escolher por intermédio de quem ou do quê somos capazes de reconhecer o que nos cerca e escolher o que nos é significativo isole-se o homem de outros homens e nascerá um ser que não poderia ser chamado de humano a presença do outro é fundamental na construção da consciência do eu e a partir daí o que é construído por essa consciência vai gradualmente se formando à que leitor é esse que livro é esse certamente o leitor que vê no verbo ler a marca de um imperativo externo ­ alguém que ordena impassível leia ­ talvez não veja na leitura a possibilidade de se reconhecer nela de ver a si e ao seu mundo que livro é esse o livro didático tradicional que também traz conhecimentos imperativos que como se escalpelasse o leitor derruba uma enxurrada de informações e fecha-lhe novamente o tampo da cabeça 14

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medida que as interferências do mundo vão sendo recebidas e mais que isso assimiladas e ainda mais que isso elaboradas reelaboradas desconstruídas e reconstruídas com a intervenção necessariamente ativa do sujeito a partir do momento em que se tem início o processo de construção da consciência começa-se a desenvolver memória que por sua vez vai criando repertório e esse repertório individual interage com os novos atos e fatos do mundo exterior dando início a um processo de superação do já vivido por meio de uma confrontação dialética de discursos sem linguagem não há formas de apreender as heranças culturais que o indivíduo recebe ao nascer porque o homem é revivendo aristóteles um animal social e por extensão herdeiro de um mundo do qual será responsável pela mudança ou pela conservação se pensando na contemporaneidade divisamos o império de verdades prontas o afogamento das subjetividades a redenção ao consumo uma opção bastante clara se faz urgente mudar ou conservar ao mesmo tempo como sabemos que a contemporaneidade age assim a tv veículo por excelência a serviço do consumo da massificação não nos mostra isso a publicidade com seus apelos imperativos nos quais chafurdamos diariamente também não nos quer mostrar isso a tecnologia servil ao mercado também não nos possibilita perceber as armas com que rende a todos nós as revistas repletas de anunciantes e que mostram a ilha da fantasia em que vivem os nossos artistas também não permite ver nada de mal os shoppings centers que nos isolam de um mundo não desejado ah ele existe da mesma forma nos colocam em uma caverna em que apenas aparências são valorizadas então conservemos esse estado de coisas porque elas vão muito bem falar em dominação é delírio falar em colonização da consciência é disparate estamos no mundo das escolhas livres e não fale contra essa liberdade pois você pode ser confundido com um louco ou com um poeta já imaginou que vergonha a ironia do pensamento acima permite entrever o quanto a liberdade contemporânea é ditado ra numa aparente contradição entre os termos volta a pergunta como sabemos disso como sabemos que o mundo doente nos receita remédios paliativos pílulas de euforia alegre o soma do admirável mundo novo previsto por aldous huxley como sabemos que nossa subjetividade é afetada a tal ponto que não conseguimos mais nos conhecer ter reservas de solidão para olharmos não mais o mundo espetacular que nos cerca mas o mundo que habita dentro de nós e interage com o que vemos mais perguntas por que o livro na história da humanidade sempre foi visto como perigoso dentro dos sistemas autoritários lembra por exemplo do que a ditadura fez com os nossos livros e canções e peças de teatro aí entra a leitura que perigo é esse que ela representa o que está em pauta aqui é a ruptura crítica com a homogeneidade e a inércia dos sistemas de significação permitindo ao mesmo tempo a desconstrução e a reconstrução do real pela abertura de outros projetos e de novos horizontes de sentido enfim a leitura pode promover fissuras na realidade simbólica instituída provocando ruptura nas ideologias que funcionam pela produção da inércia e da homogeneidade de sentido joel birman a leitura passa a ser o espaço da interação uma forma de alimentar o mundo do sujeito com a abertura para novas formas de ler a realidade ninguém inventa nada tudo se encontra à nossa volta vivendo e se impondo nas formas mais variadas o mundo que trazemos em nós é só o que conseguimos ver quanto maior a capacidade de ver e sentir maior e mais válida a memória maior e mais justa a visão mais humanos e mais eternos os símbolos e mais universal a mensagem só a capacidade de ver e sentir é que é pessoal e intransferível o resto é um bem ou um mal comum jorge andrade as reflexões feitas até aqui talvez sejam um ponto instigante de partida para o desenvolvimento de um raciocínio acerca do papel da leitura seja 15

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