Revista Mediação - número 15

 

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revista de educação editada e produzida pelo colégio medianeira diretor pe rui körbes s.j vice-diretor prof adalberto fávero coordenador administrativo e financeiro gilberto vizini vieira coord comunitário e de esporte prof francisco alexandre faigle issn 1808-2564 coordenação editorial e revisão nilton cezar tridapalli luciana nogueira nascimento mtb 2927/82v projeto gráfico e diagramação sonia oleskovicz ilustrações ulisses candal sato fotografias arquivo medianeira e autores colaboraram nesta edição adalberto fávero claudia furtado de miranda cristina graeml fabiano pinkner rodrigues geraldo vieira de magalhães josé vanderlei dissenha juliana cavassin levis litz luciane hagemeyer luiz carlos heleno luiza pacheco lyziana dela bruna hiroki marcelo pastre marcelo webere e ramon josé gusso tiragem 3.000 exemplares papel reciclato suzano 90g/m2 miolo reciclato suzano 240 g/m2 capa número de páginas 52 equipe pedagÓgica educação infantil e ensino fundamental de 1ª à 4ª séries supervisora juliana heleno coordenadora profª silvana do rocio andretta ribeiro supervisora de 5ª a ensino médio claudia furtado de miranda ensino fundamental de 5ª e 6ª séries coordenadora profª eliane zaionc ensino fundamental de 7ª e 8ª séries coordenadora profa roberta uceda ensino médio coordenador prof marcelo pastre coordenador de pastoral pe guido valli s.j coordenador de midiaeducação nilton cezar tripadalli comunicação e marketing luciana nogueira nascimento brincadeiras de criança geraldo vieira de magalhães 5 lendo em outras frequências o clube da leitura luciane hagemeyer 7 quem é essa tal de sociedade civil ramon josé gusso 11 o caminho de peabiru josé vanderlei dissenha 15 dicas para você estudar nossa língua portuguesa fabiano pinkner rodrigues 19 enem 2009 apresentação oficial das principais mudanças marcelo pastre 22 enem nem zero nem cem adalberto fávero e claudia furtado de miranda 25 há quatro décadas o mundo começou a mudar cristina graeml 32 a pedagogia do teatro do oprimido e a formação do sujeito juliana cavassin 34 na terra dos leprechauns nas irlandas levis litz 39 o dono da morte luiz carlos heleno 45 silêncio sépia luiza pacheco 47 na parede uma lembrança lyziana dela bruna hiroki 48 croquete de posta branca marcelo weber 49 os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do colégio nossa senhora medianeira a reprodução parcial ou total dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria linha verde · av josé richa 10546 prado velho · curitiba · paraná fone 41 3218-8000 fax 41 3218-8040 www.colegiomedianeira.g12.br mediacao@colegiomedianeira.g12.br 3

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um convite para pensar natal presentes matrículas material escolar e uniforme médico dentista ano novo férias e vestibular não necessariamente nesta ordem milhares de assuntos ou tarefas ocupam a mente da grande maioria das pessoas nesta época do ano a rotina quase que automática nos faz cumprir as tarefas uma a uma deixando uma sensação de satisfação que talvez alguns confundam com felicidade a melhor parte fica por conta da tomada de decisão não precisamos mais escolher presentes de natal eles são escolhidos ou melhor impostos pelos milhões de comerciais impressos televisivos virtuais ou megavisuais dos outdoors eu já sei o que eu quero é uma das frases mais pronunciadas nesta época do ano e ela se aplica não só aos presentes de natal mas a todas as outras escolhas ou decisões que temos que tomar a escola dos filhos por exemplo com exceção dos muito pequenos por enquanto é escolhida pela criança ou adolescente de acordo com a decisão da maioria dentro do grupo de amigos e amigas ou pelos anúncios higienizados e impecáveis das instituições de ensino e o que dizer dos resultados de vestibular os números milagrosos e superfaturados impressionam e seduzem qualquer mortal desavisado mas basta fazermos as contas para entendermos que não batem número de vagas com número de aprovados teríamos que criar pelo menos o dobro das vagas nas universidades e faculdades para abrigar os calouros de todos os centímetros/colunas dos anúncios de jornais para engrossar esta vitrine que facilita todas as nossas escolhas surgiu o enem como os infalíveis produtos de comercial dos filmes de jerry lewis basta usar uma vez e todos os seus problemas estarão resolvidos será aqui entra nosso convite para pensar fugir das fórmulas prontas do marketing sedutor e enganoso da preguiça de refletir e analisar por um lado nos dá um trabalho extra por outro nos dá uma satisfação verdadeira quando alcançamos um resultado esperado ou sonhado nos dá a sensação de autores de nossa própria história de senhores de nossas escolhas poder acertar ou errar por opção consciente e refletida é um direito de todos nós e um dever quando somos responsáveis por escolher para uma terceira pessoa fica aqui o convite para ler pensar e refletir e não só isso nesta edição de mediação vamos viajar conhecer pessoas ampliar nosso conhecimento sobre o mundo que nos cerca e seus mistérios e como não poderia faltar nossa odisseia gastronômica continua confira e nos escreva mediacao@colegiomedianeira.g12.br luciana nogueira mediacao@colegiomedianeira.g12.br chicho porque você me recomendou li seu texto do mediação o que dizer que aquilo é pura poesia a um poeta direi então que se trata de um romance de um romance seu com as palavras que você escolhe tão bem e com a viagem do conhecimento que você tanto preza em apreender para poder rapidamente dividir lendo senti-me voltar atrás no tempo e rejuvenesci eras vi ali muito mais do que a imagem do firmamento que você retrata com tanta competência vi a sua alma jovem íntegra incansável na busca da perfeição e de uma nova superação tudo em sua crônica é intencional dosado calculado de uma beleza lenta progressiva que não quer se esgotar como um gol de pênalti seu pensamento flui com a naturalidade de quem seleciona batatas numa feira livre para nos presentear depois com um delicioso soufflé parafraseando raul seixas alguns de nós somos estrelas você é uma constelação parabéns e um abraço fraterno lincoln hartmann sobre o texto memórias de um pretenso caçador de estrelas cadentes publicado em mediação nº 14 4

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brincadeiras de crianÇa por geraldo vieira de magalhães Às vezes temos uma tendência de substituir uma prática por outra mais moderna mas será que elas se excluem não seria possível fazer as novas brincadeiras eletrônicas conviverem com as boas e velhas corridas de pé descalço entre outros brinquedos m muitos desconhecem pois lhes fogem à época outros tantos já não se lembram pois se perderam no tempo não poucos embora à distância ainda as guardam na lembrança as brincadeiras de criança as enormes áreas eram testemunhas de muitas alegrias e as ruas proporcionavam não só o caminhar mas também o brincar os grandes quintais eram concorridos com todas as opções que ofereciam e suas frondosas árvores eram fontes inesgotáveis de recursos para o balanço a casa o esconderijo locais para diversões não faltavam proporcionando possibilidades para as mais diversas brincadeiras como as de roda a bandeirinha a amarelinha o pique e muitas outras 5

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os pais não tinham lá tanta preocupação com o andar de bicicleta de patinete ou de carrinho de rolimãs mas os espaços tão amplos foram diminuindo os veículos tomaram conta das ruas e os grandes quintais cederam lugar aos mais variados tipos de imóveis em paralelo o setor tecnológico ampliou o seu negócio a tv cada vez mais adentrou os lares proporcionando um novo tipo de lazer a comodidade oferecida encontrou apoio ante a gradativa redução dos espaços e aquelas brincadeiras tão sadias e colaboradoras ao desenvolvimento infantil foram sendo deixadas de lado esquecidas surgem os jogos eletrônicos nas mais variadas formas e o computador cada vez mais aperfeiçoou essa modalidade de diversão e assim lá se vão muitas horas frente a esses estímulos audiovisuais embora as vantagens por um lado existam há por outro desvantagens como a falta de contato com as coisas da natureza como o sol e o ar puro além do refúgio na individualidade e o favorecimento às disfunções metabólicas como a obesidade e outras situações nocivas à saúde energia artificial é necessária inovações tecnológicas de lazer devem ser estendidas à infância mas não se pode esquecer da força natural da energia que nasce e cresce dentro de cada criança e que precisa ser libertada desenvolvida criança necessita de integração socialização movimentação e espaço dar asas à sua imaginação e para isso nada melhor do que incentivar proporcionar e preservar algo que lhe é tão peculiar e inerente as suas próprias brincadeiras espontâneas criativas naturais elas são elementos importantíssimos para um crescimento saudável e consequentemente uma vida mais feliz comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br geraldo vieira de magalhães é psicólogo crp 08/06392 gvm.vieira@terra.com.br brincadeira de crianÇa anna claudia ramos editora larousse júnior o bom de ser criança é brincar de qualquer coisa que dê na telha princesa pirata caubói jogador de futebol opa minha tia disse que só menino pode jogar futebol será o livro de anna claudia rompe preconceitos e mostra que não há brincadeira de menino e brincadeira de menina o que existe e é gostoso é brincadeira de criança rituais e brincadeiras vera barros de oliveira editora vozes esta obra mostra como os rituais e brincadeiras auxiliam na formação da personalidade e no desenvolvimento saudável do ser humano em todas as fases da vida contribui desta forma para a formação manutenção e preservação dos processos cognitivos afetivo-emocionais e socioculturais baseado em recentes pesquisas no campo da psicologia e da educação este é um texto escrito de forma didática destinado inicialmente a profissionais de saúde e educação 6

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lendo em outras frequências o clube da leitura por luciane hagemeyer veja como as teorias da leitura podem contribuir para embalar instigantes e animados encontros de jovens leitores e como um clube da leitura consegue despertar o debate para a literatura e por meio da literatura 7

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seria mais fácil fazer como todo mundo faz sem sair do sofá deixar a ferrari pra trás seria mais fácil como todo mundo faz o milésimo gol sentado na mesa de um bar outras frequências engenheiros do hawaii e este artigo não está aqui para tentar convencer ninguém a respeito da importância do ato de ler até porque parece que ler não é mais fundamental pelo menos é o que está escrito na revista galileu deste último mês de outubro de acordo com pierre bayard professor de literatura da universidade de paris e daniel pennac escritor ler um livro da primeira à última página não é necessariamente uma virtude concordo jamais leria um livro de astrofísica do início ao fim talvez não passasse nem do índice no entanto o professor bayard em seu livro como falar dos livros que não lemos afirma que ser culto é ser capaz de se orientar rapidamente em uma obra e essa orientação não implica sua leitura integral o que a revista não diz no entanto é que para atingir este nível de cultura não existem atalhos ninguém chega ao milésimo gol sem entrar em campo sem fazer muita bola rolar sas deste tipo que saberemos o que é necessário saber seremos cultos livre-se das velhas ideias esta é a chamada acredito que leitores de verdade sejam aqueles que leem voluntariamente e sempre aqueles que leem uma grande variedade de materiais confiam em si mesmos como leitores são considerados leitores em relação aos demais leem para estar informados sobre uma série de assuntos leem para satisfazer curiosidades e se sentirem recompensados por compartilhar outras experiências leem para expandir seu mundo para além do aqui e do agora colecionam livros e sabem reconhecer seus favoritos pois já os leram mais de uma vez recomendam leituras para os outros conversam com os outros sobre o que leem conhecem autores gêneros e estilos variados analisam criticam ponderam estabelecem conexões entre a leitura e suas experiências de vida e de leitura sim precisamos nos livrar das velhas ideias pois todos nós fazemos tudo isso desde criancinhas não precisamos de mais nada este ideal já foi atingido e superado o longo caminho que leva à capacidade de se orientar rapidamente em uma obra em que essa orientação não implica sua leitura integral como afirma bayard parece já ter sido percorrido por todos nós o fato é que a leitura como os demais valores que tomamos para a nossa vida nunca foi nem nunca será uma unanimidade sim pois há pessoas que simplesmente não gostam de ler assim como há pessoas que não gostam de futebol o que causa sem dúvida espanto um pouco maior mas então qual é o problema existe algum mal nisso ler se informar ter o que dizer são coisas que acredito ainda têm lá o seu valor na prática dá para perceber que a piazadinha até acha legal mas mas ainda não li o bayard estou interpretando o que alguém escreveu sobre seu livro este alguém registra que para o autor em questão a leitura passa por meios-termos como deixar o livro fechado ouvir falar sobre ele percorrer suas páginas concordo afinal quem dá conta de ler tudo o que há para ler no entanto este é um tipo de leitura entre tantos outros possíveis e diz também que a luta do escritor daniel pennac é pelo direito à não-leitura equívoco do articulista pennac afirma que não precisamos ler aquilo que não nos interessa daí a concluir que não precisamos ler nada já é outra coisa para finalizar o redator do artigo propõe um teste experimente discutir com seus amigos ulisses de james joyce provavelmente todos terão uma opinião formada ainda que nenhum deles tenha lido de cabo a rabo o romance que maravilha todos são capazes de fazer uma resenha crítica sobre ulisses não precisamos ler nada basta ouvir falar sobre os livros ou ler coi 8

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às vezes diz que é chato demora ler é ter que ficar um tempão se dedicando a apenas uma coisa só e eles têm que conversar com muita gente pelo msn baixar umas músicas estudar para a prova fazer uma pesquisa no google e ainda assistir àquele programa da nickelodeon realmente parar tudo por causa de um livro só se for muuuuito bom como aquela série da stephanie meyer e se eles entraram para o clube de leitura afinal o que eles vão ganhar com isso as crianças os jovens todo mundo é um ser de vontade no entanto cada um tem a sua maneira de sentir a realidade todos estão mudando o tempo todo passando por novas experiências envelhecendo lidando com diferentes emoções e sentimentos as rodas de leitura que são realizadas no clube priorizam as questões que os alunos formulam a respeito não só a partir dos livros que leem mas também daquilo que vivem imagine esta cena se você der uma espiadela nos encontros semanais verá grupos de cinco ou seis pessoas conversando de modo entusiasmado sobre os capítulos que leram nos dias anteriores ao encontro se observar mais de perto verá que cada um deles possui alguns dados escritos que envolvem o registro de conclusões pessoais a razão da identificação com um ou outro personagem a síntese do que foi lido as previsões para os próximos capítulos uma lista de elementos comparativos e contrastantes as relações de causa e efeito que entremeiam a narrativa dados que são fruto de relações de inferência descrições de cenários e personagens de acordo com as imagens mentais produzidas ficção e vida real em um mundo repleto de informação o clube da leitura está aí para ajudar na construção de um discurso pessoal mais autêntico na desconstrução de ideias pré-concebidas e das fórmulas de comportamento o papel de cada leitor pode ser alterado a cada encontro dependendo da obra escolhida na partilha de ideias cada um é responsável por fornecer subsídios e assistência para os demais deste modo os leitores mais tímidos são provocados a participar das conversas suas motivações valores e objetivos são promovidos ao assumir o papel que lhes cabe no grupo tanto ao expressar ideias que os outros não haviam pensado como tendo a chance de ouvir falar e discutir sobre os livros além disso no clube da leitura os alunos desenvolvem as habilidades sociais necessárias para o convívio em grupo ampliam sua capacidade de estabelecer relações e de apreciar a literatura de maneira estética a proposta do clube da leitura procura ir além da aprendizagem sobre a literatura oferecer complemento ao estudo da matéria didática que a grade curricular da escola oferece pois se apresenta centrada na ampliação das dimensões que envolvem a aprendizagem por meio ampliar o conjunto de estratégias de compreensão de leitura e das habilidades do pensar e da literatura pois pretende enfatizar a formação de sujeitos leitores e pesquisadores por meio do contato com obras literárias e sua leitura integral individual e partilhada intensiva e extensiva ok os integrantes do clube da leitura não sabem quem é james joyce ainda não ouviram falar de ulisses nem de os dublinenses e também não sabem nada sobre o personagem stephen dedalus não têm uma opinião formada sobre estas obras talvez isso demore anos mas já entraram em campo e estão a caminho do milésimo gol ou melhor do milésimo livro a proposta do clube da leitura foi incorporada pelo departamento de arte e cultura do colégio mediameira no ano de 2009 tratase de uma oficina oferecida como modalidade extracurricular junto às demais atividades do setor como dança teatro artes plásticas cinema e vídeo sendo atualmente ofertada a todos os alunos da 3ª à 6ª série 4º ao 7º ano do ensino fundamental das 18h às 19h 40min duas vezes por semana o projeto foi um dos finalistas da edição 2008 do prêmio vivaleitura uma iniciativa do ministério da educação mec do ministério da cultura minc e da organização dos estados ibero-americanos para educação a ciência e a cultura oei o prêmio vivaleitura faz parte do plano nacional do livro e leitura pnll comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br 9

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luciane hagemeyer é professora do ensino fundamental formada em letras português/inglês pela ufpr com pósgraduação em currículo e prática educativa pela pucrio e mestre em estudos literários pela ufpr É responsável pelo projeto do clube da leitura falar como falar dos livros que nÃo lemos pierre bayard editora objetiva neste ensaio pierre bayard trata uma questão comum no dia-a-dia como falar dos livros que não lemos numa mesa de bar numa reunião em família ou numa roda de amigos é preciso ter noções dos assuntos em pauta para não passar vergonha bayard considera o `não-leitor uma figura tão importante como o devorador de livros como um romance daniel pennac editora rocco em `como um romance pennac questiona através da recriação ficcional do ambiente de uma sala de aula a razão de os jovens não gostarem de ler baseado em suas próprias experiências como professor ele ensina e aí reside todo o charme do livro como recuperar nos alunos o gosto pela leitura um ato esquecido neste fim de século dominado pela comunicação em massa acima de tudo pennac quer mostrar que o ato de ler é um ato de prazer e não de obrigação retrat artista um retrato do artista quando jovem james joyce editora alfaguara `um retrato do artista quando jovem romance de estreia do escritor irlandês publicado em 1916 é o despertar intelectual de um dos personagens literários mais célebres semiautobiográfico o livro conta o processo de transição do jovem stephen dedalus para a maturidade e o autoconhecimento ele deseja profundamente ser um artista mas primeiro precisa vencer as forças que reprimem sua imaginação as convenções da sociedade nesta obra joyce apresenta o uso sistemático do monólogo interior desde o primeiro capítulo somos introduzidos na mente de stephen dedalus e convidados a acompanhar seus pensamentos reações e os processos psíquicos de sua consciência trata-se de um dos primeiros exemplos da técnica narrativa do fluxo da consciência `um retrato do artista quando jovem reflete a profunda relação de amor e ódio que o autor manteve durante toda a vida com sua terra natal dublin e com a cultura que o formou 10

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quem É essa tal de sociedade civil por ramon josé gusso volta e meia ouvimos essa expressão sociedade civil organizada mas às vezes nos falta preencher essa expressão com um sentido teórico capaz de nos fazer ver com mais clarividência as suas várias implicações e nuances na vida das pessoas 11

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o o conceito de sociedade civil parece algo ambivalente difícil de apreender É um conceito utilizado genericamente por todos e em qualquer circunstância lembro um colega que em um evento participativo quando foi indagado sobre o seu vínculo a quem representava diante do constrangimento de representar somente a si mesmo visto que todos ali representavam alguma instituição um movimento social ou uma ong preferiu dizer que era representante da sociedade civil organizada mas quem é a sociedade civil assim para não cairmos em constrangimentos ou em erros teóricos é fundamental termos claro a quem nos referimos quando genericamente utilizamos este conceito ou seja quais grupos quais interesses em jogo e quais projetos políticos estão representados seu sentido semântico ao reduzir cidadania à solidariedade ação política coletiva às ações individuais a luta por direitos à inserção no mercado reduz também sociedade civil e movimentos sociais ao terceiro setor ou muitas vezes a organizações não governamentais para uma melhor compreensão deste debate é necessário resgatar algumas concepções a respeito do conceito de sociedade civil uma das primeiras definições de sociedade civil foi apresentada por gramsci para o autor marxista a sociedade está dividida metodologicamente em sociedade civil e sociedade política o que caracteriza a noção de estado ampliado liguori 2003 a sociedade civil representa o espaço em que são formulados e difundidos os valores morais a cultura e a ideologia de classe essa é composta por diversas organizações tais como associações sindicais políticas e culturais aqui a dominação de classe se faz não pela coerção mas pela produção de consensos ideológicos e direção política o que caracteriza a hegemonia costa 2002 a sociedade política para gramsci representa o conjunto de instituições que impõe coercitivamente a dominação de classe tais como sistema judiciário administrativo e policial a junção entre sociedade civil e sociedade política forma o estado assim o estado é o conjunto de instituições pelas quais uma classe exercerá seu domínio coercitivo e direção intelectual e moral para gramsci as classes disputam a hegemonia assim a luta de classe se realiza tanto na sociedade civil como na sociedade política a transição para o socialismo se daria antes da conquista do poder ou do governo começaria com a luta para construir uma nova hegemonia ou novo consenso ideológico na sociedade civil o que caracterizaria a guerra de posição assim a passagem para o socialismo pressupõe a conquista de espaços políticos de formação de consensos em conjunto com a luta institucional nogueira 2003 duriguetto 2007 a inovação teórica colocada por gramsci é portanto a divisão da superestrutura em sociedade civil e sociedade política enquanto a infraestrutura continua inalterada formando assim o modelo tripartite gramsciano mercado sociedade civil e sociedade política costa 2002 segundo evelina dagnino 2004 o conceito de sociedade civil assume uma forte centralidade no brasil principalmente a partir da década de 1990 quando há uma confluência perversa entre dois projetos divergentes e antagônicos de sociedade por um lado há uma maior ampliação dos princípios e experimentações democráticas como conselhos gestores conferências e orçamentos participativos e por outro há a emergência do projeto neoliberal que busca diminuir o papel do estado e transferir funções para a sociedade civil a confluência perversa é que para os dois projetos de sociedade é necessária a existência de uma sociedade civil dinâmica ativa e propositiva É perverso também porque nos dois projetos os referenciais discursivos são os mesmos porém com significados distintos para participação sociedade civil cidadania e democracia dagnino 2004 enquanto uma visão mais democrática de sociedade civil está ligada à cidadania à conquista e ampliação de direitos por meio da política a outra leitura de sociedade civil utiliza-se das mesmas palavras para despolitizar o 12

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outro modelo interpretativo sobre a sociedade civil é apresentado por cohen e arato 1994 a partir do referencial teórico de habermas para os autores assim como em habermas a sociedade se apresenta em um modelo tripartite entre sociedade civil estado e mercado esse modelo apresenta certa autonomia entre as partes o que caracterizaria portanto lógicas diferenciadas entre o mundo da vida sociedade civil e o sistema estado e mercado o mundo da vida seria composto por três componentes estruturais a cultura a sociedade e a personalidade o que permite aos atores ­ por meio de processos comunicativos ­ partilharem uma tradição cultural que é reconhecida de forma subjetiva por todo o participante formando identidades individuais e sociais assim cada cultura cria suas instituições responsáveis por normatizar transmitir reproduzir integrar e socializar determinadas tradições e identidades cohen e arato 1994 colocam que a estrutura jurídica desenvolvida é condição de existência de uma sociedade civil pois permite que haja a liberalização e mediação das partes assim à sociedade civil pertencem os direitos de reprodução cultural ­ liberdade de pensamento imprensa expressão e comunicação os direitos de integração social ­ liberdade de associação e reunião e os direitos de socialização ­ privacidade intimidade e inviolabilidade do indivíduo ao mercado pertencem os direitos de propriedade e contratos de trabalho e ao estado pertencem os direitos políticos e de bem-estar dessa forma o direito garante a existência de uma esfera pública em que sociedade civil mercado e estado são diferenciados mas estabelecem regras de convívio por meio de uma democracia comunicativa porém quando há penetração da lógica do sistema poder e mercado sobre as instituições da sociedade civil ocorre o que habermas denomina de colonização do mundo da vida o caráter negativo da sociedade civil se daria pelo grau de colonização do mundo da vida que acarreta o comprometimento da ação comunicativa para cohen e arato 1994 este modelo tem vantagens analíticas em relação aos modelos dicotômicos estado como esfera pública e sociedade civil como esfera privada pois complexifica o conceito tornando-o uma categoria analítica que permite entender as múltiplas relações e influências que ocor rem tanto da sociedade civil para o estado e mercado ou vive-versa no entanto para os autores esse processo também permite o surgimento de novas organizações na sociedade civil de caráter igualitário e democrático a regulação jurídica não se impõe exclusivamente como um meio de dominação assegura também à sociedade civil autonomia direitos e expansão de um espaço público democrático assim os autores atribuem um papel central para os movimentos sociais na criação e ampliação desse espaço público os movimentos sociais possuiriam tanto um papel reativo de defesa diante de processos de colonização do mundo da vida como de ofensiva proposição e influência sobre a lógica do estado e do mercado costa 2002 sérgio costa chama o modelo de cohen e arato de vertente enfática uma vez que propõe um modelo normativo de democracia e de sociedade civil o autor apresenta também a vertente moderada em que a sociedade civil seria uma categoria propriamente empírica destituída de princípios político-emancipatórios para essa corrente sociedade civil seria entendida como o conjunto de instituições que formariam o espírito cívico e a consciência coletiva de uma sociedade capaz de neutralizar tendências desintegradoras advindas pela competição de interesses privados tal perspectiva ­ adverte dahrendorf apud costa ­ pressupõe uma sociedade civil etnicamente homogênica no brasil o conceito de sociedade civil ganha centralidade durante o regime militar com função político-estratégica de resistência à ditadura marcada pela oposição ao estado e sociedade e nas décadas seguintes passa a funcionar propriamente com um conceito analítico-teórico utilizado para caracterizar a emergência do conjunto de práticas associativas e dos novos movimentos sociais no contexto da redemocratização costa 2002 lüchmann 2003 durante a década de 1980 predominavam estudos marxistas principalmente aqueles voltados à interpretação gramsciana de sociedade civil com o aprofundamento da democracia novas organizações passam a se incorporar à sociedade civil tais como movimentos sociais temáticos e ongs com isso as estratégias de ação da sociedade civil são reconfiguradas tais 13

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ações estão cada vez mais voltadas para o estabelecimento de parcerias e cooperação com o estado essa reconfiguração se dá também graças à nova institucionalidade do estado principalmente no que se refere a sua abertura à participação popular por meio de conselhos orçamentos participativos e conferências lüchmann 2003 dagnino 2004 e para o entendimento dessa reconfiguração da sociedade civil novos aparatos analíticos são utilizados principalmente aqueles inspirados em habermas lavalle 2003 a definição sobre o conceito de sociedade civil não é uma assunto restrito apenas a pesquisadores o seu sentido é também disputado e preenchido por outros atores sociais tais como o estado o mercado e movimentos sociais o que importa compreender nesse debate é que nem o estado é homogêneo nem a sociedade civil possui o mesmo interesse assim afirmam dagnino olvera e panfichi 2006 pg 38 a ação política de diferentes sujeitos é orientada por um conjunto de crenças interesses concepções de mundo [e representações do que deve ser a vida em sociedade isto caracteriza a noção de projeto político e significa dizer que os projetos políticos circulam e estão em disputa pela ação desses vários atores estado e sociedade civil possuem projetos políticos que podem ora se aproximar ora se distanciar gerando tipos de relações conflituosas ou não nesse sentido pode-se dizer que também existem disputas pela construção de consensos o que numa leitura gramsciana seria a disputa pela hegemonia dessa forma importa também desvelar todos os sentidos e projetos políticos que estão por detrás da utilização do conceito de sociedade civil evitando portanto tratá-lo em um sentido figurado em que supostamente todos os grupos e organizações e seus respectivos interesses estariam agregados de forma homogênea sob o véu da sociedade civil comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br ramon josé gusso é bacharel e licenciado em ciências sociais ufpr mestrando em sociologia política ufsc bolsista do conselho nacional de desenvolvimento científico e tecnológico cnpq e membro da ambiens sociedade cooperativa nota 1 há evidentemente interpretações de sociedade civil anteriores como de hobbes hegel marx e aquelas produzidas por autores da corrente liberal democracia sociedade particip articipaÇÃo democracia sociedade civil e participaÇÃo luciana tatagiba e evelina dagnino orgs referÊncias arato a cohen j sociedade civil e teoria social in avritzer l org sociedade civil e democratização belo horizonte del rey 1994 costa s sociedade civil e espaço público as cores de ercília bh ed ufmg 2002 dagnino e sociedade civil participação e cidadania de que estamos falando in en daniel mato coord políticas de ciudadanía y sociedad civil en tiempos de globalización caracas faces universidad central de venezuela 2004 dagnino e olvera a j e panfichi a para uma outra leitura da disputa pela construção democrática na américa latina in dagnino e olvera a j e panfichi a orgs a disputa pela construção democrática na américa latina sp paz e terra campinas unicamp 2006 duriguetto m l sociedade civil e democracia são paulo cortez 2007 habermas j três modelos normativos de democracia lua nova cedec são paulo 1995 lavalle a.g sem pena nem gloria o debate sobre sociedade civil nos anos 1990 novos estudos cebrab são paulo 2003 liguori g estado e sociedade civil entender gramsci para entender a realidade in ler gramsci entender a realidade rio de janeiro international gramsci society/ed civilização brasileira 2003 luchmann l h h redesenhando as relações sociedade e estado tripé da democracia deliberativa revista katálysis florianópolis ed ufsc 2003 noguera m.a as três idéias de sociedade civil o estado e a politização in coutinho n.c teixeira a.p ler gramsci entender a realidade rio de janeiro internati onal gramsci society/ed civilização brasileira 2003 editora argos a obra se constitui de uma seleção de trabalhos sobre `sociedade civil e os novos espaços públicos de participação e deliberação apresentados no iii congresso da associação latino-americana de ciência política realizado na unicamp em setembro de 2006 ela é representativa de certa maneira de um novo patamar na produção acadêmica sobre essa temática o conjunto destes trabalhos se caracteriza em primeiro lugar pelo abandono do registro celebratório e otimista que marcou a primeira leva de estudos sobre o potencial democratizador tanto da sociedade civil como dos espaços participativos que a abrigam 14

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o caminho de peabiru por josé vanderlei dissenha proporcionando desenvolvimento das cidades bem como um resgate histórico-cultural importante para nosso desmemoriado país pesquisadores se debruçam sobre o caminho do peabiru que vem se tornando importante ponto turístico 15

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