Revista Mediação - número 16

 

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revista de educação editada e produzida pelo colégio medianeira diretor pe rui körbes s.j vice-diretor prof adalberto fávero coordenador administrativo e financeiro gilberto vizini vieira coord comunitário e de esporte prof francisco alexandre faigle coordenação editorial nilton cezar tridapalli luciana nogueira nascimento mtb 2927/82v revisão nilton cezar tridapalli projeto gráfico e diagramação sonia oleskovicz ilustrações marcelo cambraia sanches colaboraram nesta edição adalberto fávero diego zerwes francisco carlos rehme guilherme dal moro henrique witoslawski marcelo gorges marcelo weber mauro m braga nilton cezar tridapalli susane martins lopes garrido ulisses candal sato tiragem 3000 exemplares papel reciclato suzano 90g/m2 miolo reciclato suzano 240 g/m2 capa número de páginas 52 issn 1808-2564 uma copa na África francisco carlos rehme 5 a outra face da tecnologia guilherme dal moro 9 a história dentro de casa henrique witoslawski 12 intervalos funções matemática e terremotos marcelo gorges 17 a era de ouro do rádio 2.0 uma crônica sobre podcasts ulisses candal sato 22 da vista de meu ponto ou do haiti da política e dos pontos de vista adalberto fávero 25 equipe pedagÓgica educação infantil e ensino fundamental de 1ª à 4ª séries coordenadora profª silvana do rocio andretta ribeiro ensino fundamental de 5ª e 6ª séries coordenadora profª eliane dzierwa zaionc ensino fundamental de 7ª e 8ª séries coordenadora profª roberta uceda ensino médio coordenador prof marcelo pastre coordenador de pastoral pe guido valli s.j coordenador de midiaeducação nilton cezar tridapalli assessoria de comunicação e marketing luciana nogueira nascimento É pra polemizar então tá debatendo os direitos humanos em cuba a mídia e a política externa brasileira mauro m braga 32 a inclusão sócio-digital preâmbulos e o caminho da educação a distância susane martins lopes garrido 36 o acorde secreto de leonard cohen diego zerwes 40 diversidade cultural e mundialização nilton cezar tridapalli 44 crÔnica empadas de queijo os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do colégio nossa senhora medianeira a reprodução parcial ou total dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria marcelo weber 49 linha verde · av josé richa 10546 prado velho · curitiba · paraná fone 41 3218-8000 fax 41 3218-8040 www.colegiomedianeira.g12.br mediacao@colegiomedianeira.g12.br 3

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política e mídia ligando os pontos o que poderia ter em comum a história do sobrenome de sua família a relativização do discurso contra cuba a visão que o mundo recebe sobre o haiti as eleições que se aproximam e a copa na África tudo está impregnado de histórias e de história sejam as oficiais sejam as oficiosas ­ muitas vezes mais dignas de confiança conhecer a si mesmo ­ como sujeito particular ou como parte de um coletivo ­ e ao outro ­ seja esse outro um indivíduo ou uma nação ­ nos faz ampliar a perspectiva nos desloca do nosso ponto de vista limitado e nos faz perceber o mundo de modo mais amplo mais rico todos esses temas se discutidos com seriedade podem nos fazer no mínimo questionar discursos únicos que rondam por aí e de tão repetidos se cobrem com o manto da verdade o que poderia haver de comum entre as mudanças que ocorreram entre a era das ondas do rádio e a era do rádio sem onda a inclusão sócio-digital a diversidade/unilateralidade cultural e a suposta neutralidade tecnológica todos esses temas desvelam ­ ou seja tiram o véu ­ a transformação e a importância das mídias aquele negócio de que mídia é apenas um meio um veículo neutro de transmissão de informações não parece se sustentar por trás das inovações muitas intenções às vezes claras muitas vezes obscuras por outro lado o humano que lida controla essas mídias é capaz de usá-las de modo criativo e solidário ou seja o velho embate entre os interesses de mercado ­ por natureza egocentrado ­ e as ações altruístas aparece por aqui mas espere um pouco na resposta à primeira pergunta falamos que o império do discurso único poderia ser destronado isso também vale para a análise das mídias mas espere mais um pouco na resposta à segunda pergunta falamos da parcialidade das mídias e do jogo de forças entre o seu uso para fins de mercado e para fins de compartilhamento se mídia constrói discurso então ela também está relacionada ao grupo da primeira pergunta enfim como você já deve ter percebido tudo pode se relacionar com tudo trata-se de uma urdidura que por um ou vários fios vão se enredando e tecendo algo em comum ­ comunicação ah quer saber o que mais esses temas têm em comum todos eles estão nesse número 16 da revista mediação ainda trazemos explicações matemáticas sobre os tantos terremotos que têm afligido vários cantos do mundo e o mundo de um modo geral tudo se comunica lembra também analisamos um pouco o fenômeno da canção hallelujah do escritor compositor e cantor leonard cohen cuja canção já recebeu mais de 200 versões os dilemas existenciais do ponto de vista da ficção literária e uma receita culinária sempre digna de respeito fecham nossa edição quer arriscar o que esses últimos temas têm em comum escreva pra gente midia-edu@colegiomedianeira.g12.br confira on-line as outras edições da revista e visite nosso blog está tudo lá em http midiaeducacao.wordpress.com aquele abraço nilton cezar tridapalli mediacao@colegiomedianeira.g12.br 4

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uma na África por francisco carlos rehme copa entre belezas mazelas e estereótipos eis que veremos uma copa do mundo de futebol no continente africano 5

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d devo dizer no intuito de dar uma pista sobre o que deve discorrer o tema que sou daqueles que aguardo com muita expectativa ­ e mais ainda nostalgia ­ uma copa do mundo de futebol aprecio programas televisivos de debates do tipo loucos por futebol em que há uma mágica alquimia na fusão da história da geografia com o chamado esporte bretão aprendi a gostar de geografia também desse jeito e de quebra a gostar da história do futebol e já não era sem tempo oitenta anos depois da primeira copa do mundo e depois de dezoito edições eis que o continente africano sedia o principal evento futebolístico bem sei que os argumentos puramente econômicos muitos dos quais cheiram a capitalismo mofado depõem contra a capacidade estrutural de algum país da África em promover o campeonato tais teses trazem em seu bojo o mesmo conteúdo preconceituoso e autojustificável dos que se apregoavam nos séculos xv xvi xvii e por aí afora quando os europeus sentiam-se com o dever cristão e humanista de levar a civilização ao continente selvagem isso significava garantir a legalidade e mais do que isso florear um violento processo de colonização continental e de escravização de inúmeras nações do cabo da boa esperança ao estreito de gibraltar e de dacar à península da somália a África é bastante extensa três europas mais de uma vez e meia a américa do sul o número de estados se equivale ao europeu aproximadamente meia centena a grande maioria desses países é absolutamente desconhecida pelas pessoas de nossa cidade só irão aparecer no jornal nacional se houver uma grande tragédia uma guerra civil por exemplo ou se na copa aprontar alguma zebra ­ animal que aliás é natural das savanas africanas estados são tantos e quanto às na ções incontáveis multiplicadas entre o Índico o atlântico e o mediterrâneo uma rica coleção de línguas músicas danças e cores embora as escolas raramente nos contem a gloriosa história das civilizações africanas não se resume ao egito dos faraós ou à núbia vizinha meridional da terra da esfinge as ruínas de zimbabwe no país que há apenas 35 anos pode ostentar esse nome atestam uma florescente cultura nas áridas terras do sahel que hoje compõem o mais dramático cinturão da fome da miséria e do esquecimento por parte do resto do mundo havia imponentes cidades de adobe no mali e na mauritânia por lá passaram caravanas carregadas de ouro e marfim uma das tantas formas de sangria das riquezas continentais cada canto desde continente geograficamente tão bem recortado é pleno de histórias seja no magreb a islâmica África mediterrânea ou junto aos inúmeros lagos e vulcões do grande vale da África oriental berço dos hominídeos coisa de mais de quatro milhões de anos atrás ainda que timidamente porém os ventos alísios começaram a mudar a direção desde o final do século passado graças à luta da própria população africana os holofotes da mídia passaram a revelar novos cenários da realidade social econômica e cultural da África o congresso nacional africano no cone sul do continente cresceu em importância na luta pela independência de diversos países e para o fim do regime segregacionista conhecido como apartheid em seguida e por consequência veio a eleição de mandela e mais uma administração digna e sábia apesar das históricas discrepâncias da África do sul um verdadeiro tapa de luva para a oligarquia de herança britânica ou holandesa por alguns séculos ali estabelecida mais recentemente destaca-se a luta pelo perdão da dívida externa contraída pelos países africanos ex-colônias europeias mas afinal quem tem de pedir perdão a quem quem de fato contraiu dívida e apenas para partilhar um incômodo os milhões de deportados pela escravidão durante quatro ou cinco séculos outro tanto que morreu nos porões dos navios e o esvaziamento demográfico nas aldeias da África como se calcula o custo de tudo isso 6

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de volta à copa eis que teremos uma oportunidade de apreciarmos cidades e paisagens africanas além das lentes da national geograhic quase sempre ­ e com muita razão ­ focadas nos parques krüger serengeti e ngorongoro e mais ainda dos filmes em preto e branco de tarzan ou mesmo dos desenhos coloridos e engenhosos de rei leão e madagascar lá estarão nos esperando as nuances de metrópoles como joanesburgo e cidade do cabo aliás parte da estrutura rochosa da montanha da mesa que majestosamente emoldura a cidade e o próprio cabo da boa esperança é arenítica como no segundo planalto paranaense legado do tempo em que brasil e África eram uma coisa só e chamada de gondwana quando se confere a participação de países africanos na história das copas os números parecem ao menos sussurrar algum desconforto já mencionamos que o número de países na europa e na África é muito próximo cerca de meia centena enquanto que na europa de cada quatro países três já participaram de alguma copa ­ em geral de várias delas ­ na África a proporção é de um para quatro ou cinco e essa relação ainda não ficou mais desproporcional por conta da fagulha de lembrança da fifa que desde a copa da frança em 1998 permitiu a participação simultânea de seis seleções africanas contra quinze participantes europeus e oito do continente americano por vezes ouve-se uma alegação que ressalta a qualidade e a própria história do profissionalismo futebolístico africano como muito recente e ainda inferior ao europeu e ao sul-americano para a primeira metade do século xx tempo em que o próprio evento ainda carecia de uma maior infraestrutura pode-se de fato considerar tal justificativa com o caminhar para o final do século e a entrada nessa nova centúria isso já não serve mais como outrora ainda mais quando se enaltece a capacidade globalizante dos meios atuais além do mais basta se elencar a quantidade e qualidade dos atletas africanos que se espalham pelas ligas europeias para se arquivar e trancafiar a concepção de um futebol de qualidade inferior para os representantes africanos como na américa e na europa é evidente que haverá algumas seleções que estão longe não só de aspirar um glorioso e inédito título mundial como o de ficar entre os quatro semifinalistas mas como naqueles continentes ­ que poderíamos bem chamar de velho mundo da civilização de chuteiras ­ há representantes do continente africano que se lhes derem um pouco mais de condições para a preparação que antecede a competição ­ e isso significa mexer com a inquestionável liberação antecipada dos craques que jogam na europa ­ podem e muito bem papar tão logo uma copa do mundo de acordo com os entendidos em futebol mundial nigéria gana e costa do marfim estariam atualmente melhor qualificadas entre os representantes da África apenas para sanar a curiosidade aí vão os treze países da África que desde 1970 ­ copa em que África debutou ­ já participaram ou estarão em campo neste ano 7

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paÍses seleÇÕes 1 2 3 4 5 6 7 8 9 marrocos zaire atual congo tunÍsia camarÕes argÉlia egito nigÉria África do sul senegal participaÇÃo nas copas 1970 1986 1994 1998 1974 1978 1998 2002 2006 1982 1990 1994 1998 2002 2010 1982 1986 2010 1990 1994 1998 2002 2010 1998 2002 2006 2010 1998 2006 2010 2006 2010 2006 2006 uma copa bem jogada com a ginga mistura de dança e dribles tão própria da cintura africana e mais a interminável musicalidade emanante das gargantas tambores e nem tão melódicas vuvuzelas sul-africanas por certo contribuirão para um pequeno muito pouco é verdade resgate da dignidade esportiva e cultural africana 10 gana 11 costa do marfim 12 angola 13 togo francisco carlos rehme o chicho é geógrafo professor de geografia de 5ª série do ensino fundamental e da 3a série do ensino médio no colégio medianeira especialista em geografia física análise ambiental pela ufpr e em currículo e pratica educativa puc-rio É também mestre em geografia dentro da linha de pesquisa dinâmica das paisagens ufpr desde o século xviii até 1975 zimbabwe era denominado de rodésia em homenagem ao explorador britânico cecil rhodes um dos pioneiros do desbravamento do interior da África para os interesses dos estados europeus para quando a África autor joseph ki-zerbo editora pallas para quando a África é presença obrigatória na biblioteca de estudiosos ativistas e interessados nos problemas da atualidade É obra de um historiador africano que nela mostra uma visão nova para todos os que somente tiveram acesso na escola à história oficial narrada do ponto de vista europeu É obra de um socialista democrata que analisa a situação do continente africano a partir do ponto de vista das necessidades de liberdade e dignidade para indivíduos e nações É obra de um experiente ativista político progressista que apresenta uma visão lúcida sobre questões como as armadilhas das teorias desenvolvimentistas do neoliberalismo e da globalização ao mesmo tempo em que critica propostas de isolamento econômico e cultural e reivindica a necessidade de apropriação de saberes e tecnologias pelos povos do terceiro mundo 8

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a outra face da por guilherme dal moro tecnologia sim é verdade que a tecnologia nos trouxe mil maravilhas mas é também verdade que mil interesses escusos estão por trás dessas maravilhas erguendo o tapete da história é possível ver algumas sujeirinhas ali embaixo p por cerca de cinco séculos após o ressurgimento das ciências clássicas solidificadas nos estudos de descartes bacon newton e outros o homem esteve mergulhado num paradigma que traz a ciência como entidade neutra e imparcial o próprio método científico de descartes foi desenvolvido com o propósito de promover a construção de uma ciência em que o objeto de estudo tivesse o menor contato e contaminação por parte de seu observador o sujeito pesquisador a partir da aplicação deste método científico e o acatamento de rígidos códigos de honestidade profissional esperava-se da ciência a produção e acumulação de um conhecimento objetivo surge desta concepção a visão clássica de que a ciência somente pode contribuir para a melhoria do bem estar social ao se isolar da sociedade e perseguir exclusivamente a verdade de 9

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modo semelhante à tecnologia é outorgado o status de entidade neutra e imparcial e confere-lhe o papel de produtora e transmissora de um conjunto de dispositivos concretos que subsidiem as tarefas laborais e domésticas dos indivíduos segundo walter bazzo e outros tais perspectivas consolidaram nas sociedades ocidentais principalmente nos dois últimos séculos uma visão triunfalista e hegemônica da ciência e da tecnologia denominado modelo linear de desenvolvimento que pode ser resumido numa relação de causalidade bastante simples quanto ciência à tecnologia à riqueza à bem estar social no entanto a partir da década de 60 o mito da hegemonia e neutralidade tecnológica e científica passa a sofrer as primeiras críticas de setores substancialmente acadêmicos da sociedade surge um novo sentimento decorrente dos diversos desastres na década anterior relacionados à tecnologia e à ciência de maior cautela e alerta em relação ao otimismo oferecido pelo progresso tecnológico ademais contesta-se a validade da relação apresentada acima para quem e para quantos a tecnologia e a ciência trazem bem estar social são tecnologia e ciência entidades neutras e imparciais realmente ou estão a serviço de interesses disfarçados nas relações econômicas políticas sociais e culturais donald mackenzie e judy wajcman no livro social shaping of technology defendem a ideia de que a tecnologia e a ciência são modeladas por diversos aspectos de ordem econômica social política cultural etc não vamos nos aprofundar aqui nos detalhes minuciosos de como tecnologia e ciência refletem traços destes aspectos mas nos atenhamos a alguns exemplos do nosso cotidiano para refletir estas ideias de forma geral a tecnologia e a ciência são desenvolvidas por grupos empresas universidades institutos e centros tecnológicos privados ou governamentais que justificam suas pesquisas científicas e/ou tecnológicas de acordo com interesses específicos no que se refere às fontes de geração energética por exemplo basta uma rápida busca nos grupos de pesquisa nas universidades de todo o mundo para se antenar com o que está sendo pesquisado a diver sidade e a pluralidade das pesquisas são enormes e todas elas se justificam porque trazem vantagens em relação às tecnologias utilizadas atualmente as discussões ambientais e climáticas condicionaram as pesquisas tecnológicas a trazer como uma das vantagens a redução dos impactos nocivos aos ecossistemas pesquisas de geração de energia elétrica por meio de processos ambientalmente corretos com uso das ondas marés correntes marítimas vento irradiação solar estão pipocando por toda a parte no entanto isto não significa que estas tecnologias estejam sendo implementadas por aí os resultados do recente fórum mundial em davos nos permitem concluir com segurança o poder econômico o senhor dinheiro ainda está acima de outros senhores e outros interesses langdon winner traz alguns exemplos interessantes em do artifacts have politics de como interesses de ordem social modelam a tecnologia da década de 1920 à de 1960 diversas pontes foram construídas na cidade de nova iorque pelo engenheiro robert moses uma delas robert moses bridge em particular que liga a cidade às praias de long island possui uma característica bastante peculiar as estruturas metálicas de sustentação da ponte são relativamente baixas em relação ao asfalto de tal modo que os ônibus utilizados para o transporte coletivo na cidade de nova iorque naquela época não poderiam transitar por ela desta forma segundo winner moses garantiu que as praias de long island se reservassem às minorias mais ricas que possuíam carros e assim poderiam chegar até elas mesmo com a difusão dos meios de transportes individuas nas demais classes sociais nas décadas seguintes o desenvolvimento da região de long island condicionado pelo padrão econômico elitista ­ resultando com isso no encarecimento das propriedades e dos serviços na região ­ perpetuou a inacessibilidade das classes mais humildes àquelas praias trago outro exemplo mais próximo da nossa realidade que também revela a indissociabilidade entre aspectos tecnológicos e sociais em meados do século passado algumas transformações sociais e o próprio desejo das mulheres de ressignificar seu papel na sociedade conduziram 10

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nas a entrar definitivamente no mercado de trabalho no brasil este movimento ganha maiores proporções a partir da década de 70 reflexo deste processo pode ser facilmente constatado ao observar a proporção de mulheres que passam a integrar cursos universitários com interesses claros de se capacitarem para o emprego consequentemente o número de famílias em que as mulheres assumem a função de única provedora financeira aumenta proporcionalmente É exatamente nesta época que surgem inúmeros produtos ­ eletrodomésticos alimentos pré-preparados congelados ­ que facilitam e agilizam o desempenho das funções domésticas e por isso possibilitam que as mulheres continuem desempenhando tais funções mesmo nas famílias em que a figura masculina se preserva de modo claro o que muitos interpretam como maravilhas tecnológicas que simplificam os afazeres de casa na realidade são tecnologias que cristalizam antigas estruturas sociais o último e talvez o mais triste dos aspectos que tratarei neste artigo se refere ao desenvolvimento tecnológico impulsionado por interesses militares e bélicos diversas das tecnologias que utilizamos nos nosso cotidiano foram primeiramente desenvolvidas com finalidade militar e num segundo momento adaptadas para o uso no cotidiano por meio de bens de consumo somente para citar alguns exemplos forno de micro-ondas roteador wireless internet gps equipamentos médicos para diagnóstico e exames como ultrassom e ressonância magnética etc a própria técnica de fissão nuclear utilizada nas usinas nucleares para geração de energia elétrica foi desenvolvida no projeto manhattan iniciado em 1939 que resultou na construção de duas ogivas nucleares ­ little boy e fat man ­ detonadas nas cidades de nagasaki e hiroshima após a rendição japonesa na segunda guerra mundial até mesmo o avião orgulho nacional por ter um brasileiro como seu inventor teve suas principais melhorias enquanto arma de guerra e não enquanto máquina de transporte de passageiros civis e carga sobre o outro lado da tecnologia aquele que reflete suas maravilhas e sucessos não pretendo discuti-lo aqui afinal de contas já está virado para cima descoberto e escancarado prefiro em vez disso encerrar este breve artigo com a boa opinião de nosso grande professor e mestre paulo freire nunca fui ingênuo apreciador da tecnologia não a divinizo de um lado nem a diabolizo de outro por isso sempre estive em paz para lidar com ela comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br guilherme dal moro é ex-aluno do colégio medianeira formou-se em física na ufpr e atualmente faz mestrado na utfpr sobre tecnologia e sociedade no medianeira é professor de física do 1º ano do ensino médio produÇÃo social da tecnologia sociologia e ciÊncia polÍtica autora vilma figueiredo editora epu esse livro apresenta as principais questões que as ciências sociais têm formulado sobre a tecnologia sua produção difusão e consumo nas sociedades contemporâneas são enfatizadas as diferentes dimensões da tecnologia econômia política ideológica e científica e são discutidas possibilidades tecnológicas para nações dependentes como o brasil a tecnologia é apresentada como resposta socialmente produzida a necessidades sociais e assim sendo como resultado e condição da vida humana em sociedade neutralidade da ciÊncia e determinismo tecnolÓgico autora renato dagnino editora unicamp o autor aborda um tema até agora restrito aos filósofos da ciência e da tecnologia a partir de sua experiência com a docência e a pesquisa no campo interdisciplinar dos estudos sobre ciência tecnologia e sociedade 11 11

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a histÓria dentro de casa por henrique witoslawski ainda é comum a alguns desavisados se perguntarem pra que ficar estudando história aprendendo datas e fatos em livros às vezes sem graça bem além do fato óbvio de que a história nos explica quem disse que ela é estudada apenas nos livros 12

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c como todos os conteúdos estudados em aula a história não se encontra limitada aos muros da sala ou da escola ela está em todos os lugares basta olhar nomes de ruas e avenidas monumentos em parques ou praças e alguns feriados regionais ou nacionais além disso as diversas casas de memória galerias e museus que existem pela cidade mais do que isso ela está presente no cinema desde sempre ­ de ben-hur ao e o vento levou depois cleópatra o nome da rosa e o gladiador para falar muito pouco do que já foi produzido sobre temas históricos nos últimos anos ainda houve o aparecimento de um grande número de revistas especializadas em história escritas e editadas por grandes historiadores e direcionadas ao público não acadêmico ­ como bons exemplos temos a nossa história a história viva e a aventuras na história que custam entre 10 e 15 reais nas bancas e por volta de 5 nos sebos mesmo com todo esse bombardeio de história à sua volta as pessoas ainda conseguem achar que tudo se resume a decorar datas fatos e nomes há um senso comum terrível ­ e que insistentemente vem sendo desconstruído com muita luta nas duas últimas décadas ­ que impede as pessoas de verem e pensarem a história de forma analítica e reflexiva proponho que este olhar diferenciado seja iniciado dentro de casa em uma situação de conversa simples entre pais e filhos para isso irei sugerir algumas discussões que podem ser feitas na hora do jantar de qualquer dia da semana mas de preferência em um no qual todos estejam tranquilos relaxados e com vontade de fazer um mínimo esforço de memória os exemplos que darei a seguir são mais próximos da chamada história cultural que analisa a realidade de determinados momentos pelas práticas costumes hábitos e tradições sem a tradicional ênfase na política e na economia embora eu não acredite que essas esferas possam ser analisadas de maneira dissociada é comum a separação vamos começar pelo simples os filhos de um casal qualquer possuem dois sobrenomes cada um vindo de um lado do matrimônio o primeiro da mãe tem origem polonesa e o segundo do pai tem origem alemã primeira dedução lógica os avós bisavós ou tataravós das crianças não tinham origem brasileira mas se a família não tem origem neste país por algum motivo alguém veio parar aqui neste momento começa a primeira reflexão por que os avós ou bisavós e assim por diante vieram para o brasil por que saíram de suas casas lá na europa os motivos que passam na cabeça das crianças são os mais diversos experimente perguntar porque aqui as coisas seriam melhores porque estavam passando fome por lá porque queriam mudar de ares porque alguém prometeu alguma coisa muito boa no brasil entre outros pensamentos possíveis se alguém já parou para conversar com o parenteimigrante provavelmente ouviu alguma história sobre um contexto europeu de guerras pobreza e fome aliado a isso algumas propostas bastante tentadoras do governo brasileiro para atrair pessoas com diversos interesses e objetivos daí a primeira análise a ser feita o que levou milhões de pessoas a sair de seus países contando que os avós não vieram sozinhos o contexto europeu terrível para a grande maioria da população que dependia de terras cultiváveis e sua força de trabalho gerava fome e miséria quando surgiram propostas de outros países do mundo que prometiam bons meios de sobrevivência diversos contingentes de várias partes da europa desembarcaram em terras nacionais ponto de reflexão quais seriam os interesses do brasil em atrair pessoas de maneira muito geral esse interesse variou de região para região do nosso país em são paulo por exemplo havia uma demanda muito grande por uma mão de obra que fosse barata e que substituísse o trabalho escravo nas lavouras de café abolido definitivamente em 1888 É dessa época a grande imigração de italianos para a capital e interior paulista ­ já diversas vezes retratada em novelas e minisséries televisivas no paraná apesar de ter existido trabalho escravo a demanda maior por pessoas era por outro motivo ocupar boa parte dos territórios 13

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interioranos ainda desabitados do estado por isso o governo paranaense prometia terras e sustento aos estrangeiros para que viessem e tomassem posse digamos da parte não ocupada do estado por aqui a mão de obra imigrante foi dirigida também para serviços de construção civil ­ como a ferrovia que liga curitiba ao litoral ­ e diversos serviços e comércios dentro das cidades se os avós ou bisavós ou tataravós da família dita neste texto vieram direto para curitiba é muito provável que tenham chegado em épocas diferentes e se estabelecido em lugares diferentes lembrando que uma família é alemã e a outra é polonesa os alemães foram dos primeiros imigrantes a chegar até a região de curitiba e se instalaram muito rapidamente em regiões próximas ao centro da cidade ­ para se ter uma ideia a curitiba da segunda metade dos anos 1800 era uma cidade pequena concentrada no que hoje em dia são as praças santos andrade e osório tendo como referencial a catedral na praça tiradentes os mais ricos moravam na rua comendador araújo ou arredores o comércio era concentrado na rua xv de novembro que já se chamou rua da imperatriz e depois rua das flores e em menor escala na marechal deodoro antes chamada rua da entrada ­ pois era a via de acesso a curitiba para quem vinha de são josé dos pinhais cuja principal via de acesso era a atual marechal floriano peixoto a rua que hoje se chama treze de maio que passa atrás do largo da ordem ­ atual centro histórico e centro daquela época ­ era chamada rua dos alemães perto dali o shopping müller era uma casa de fundição dos irmãos müller alemães os poloneses instalaram-se em locais um pouco mais distantes ­ bocaiúva do sul orleans abranches e pilarzinho além dessa localização espacial dentro da cidade poderia haver outros problemas de convívio social talvez É bastante comum que os pais contem aos filhos algumas situações de sua infância e adolescência ou de como se conheceram onde com quem estavam e como ficaram juntos talvez as famílias não se gostassem talvez o casal tenha tido problemas no tempo em que bisavós das crianças do texto eram jovens poderia existir alguma situação incômoda quanto aos relacionamentos talvez essa situação fosse causada por alguma diferença social uma disparidade financeira entre as famílias poderia causar alguns problemas ou constrangimentos há também a possibilidade dessa situação ter sido causada pela descendência no começo de século xx os imigrantes não costumavam se misturar muito por aqui a não ser pelo comércio pela própria bagagem cultural trazida da europa e pela imagem construída aqui no brasil alguns imigrantes eram mais bem vistos do que outros os alemães por exemplo tinham destaque na sociedade curitibana eram bem vistos foram dos primeiros a chegar conquistaram a fama de trabalhadores e honestos além da admiração pelos germânicos estarem bem presentes entre a população daquela época os poloneses meio que ao contrário disso vieram depois e já por um certo desdém de outros europeus disputas nacionais existentes há tempos lá na europa bem antes da 14

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imigração e por parte da população local chegaram a ser chamados de pretos do avesso como se fossem a versão branca dos escravos africanos pois faziam serviços menos qualificados e de menor importância mas o que sempre existe dentro de casa e é o melhor passaporte para o passado são as fotografias através delas pode-se viajar diretamente para um ponto específico da vida de uma ou várias pessoas e que foi registrado para sempre vale pensar que hoje em dia com as máquinas digitais as fotografias estão bem mais banalizadas digamos assim mas antes com as analógicas com filme de revelar e 12 24 ou 36 poses as máquinas geralmente eram utilizadas em ocasiões ­ uma comemoração uma data marcante em algum evento isso torna as fotografias antigas ainda mais interessantes em uma boa conversa após o jantar filhos podem passar horas vendo fotos dos pais tios padrinhos avós bisavós e obviamente suas próprias fotos quando ainda eram bebês por exemplo É comum ao vermos uma foto querermos saber onde ela foi tirada quem está presente por que foi tirada enfim logo qualquer álbum rende horas de conversa pelas fotografias nota-se a enorme mudança no vestuário nos cortes de cabelo nos carros e principalmente na paisagem urbana ou ainda rural É praticamente impossível que o cenário de uma foto tirada há 10 20 30 anos ou mais seja o mesmo alguns lugares não existem mais alguns espaços públicos tornaram-se shoppings alguns shoppings foram demolidos alguns elementos que eram característicos do centro foram substituídos ­ como as luminárias roxas que havia ao longo do calçadão da xv ­ muitos bairros cresceram alguns novos surgiram e por que não infelizmente muitas casas ganham grades nas portas e janelas se os pais foram adolescentes até meados dos anos 90 é possível que tenham algumas fotos com o calçadão da xv lotado de gente em dia de semana adolescentes como eles ao contrário da enorme concentração dentro de shoppings centers que se nota atualmente todas essas mudanças no visual da cidade têm um ou mais motivos a industrialização a forte propaganda feita de curitiba pelo brasil afora ao longo dos anos de 1990 e início deste século xxi cidade modelo capital social capital ecológica o crescimento e a constante propaganda sobre os índices de violência urbana a necessidade de criação de novos parques e praças enfim tudo que pode ser perguntado em casa se os filhos perguntarem como era a cidade na época em que seus pais casaram ouvirão falar de um lugar diferente do que veem tão ou mais interessante é fazer a mesma pergunta para os avós o assunto pode ser conduzido de modo a quererem saber a opinião dos pais e avós sobre os motivos da mudança provavelmente ouvirão uma série de lamentos nostalgias deduções e discordâncias entre quem conta a história das pessoas está extremamente ligada à história do seu local de nascimento crescimento trabalho diversão enfim à sua moradia sua cidade imaginar que é possível separar o que cada um viveu do que aconteceu dentro de sua cidade é precipitado tudo o que acontece à nossa volta tem reflexos nos nossos hábitos e no nosso cotidiano somos partes integrantes da vida pública de onde moramos o conhecimento do espaço público como ele é hoje começa pelo conhecimento de como ele era entender o que acontece hoje os motivos para fazermos tudo aquilo que costumamos fazer pode começar dentro de casa em uma reunião familiar nessa conversa simples e divertida podemos aprender muito sobre quem somos e o local onde vivemos isso é ver a história acontecer comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br gostaria de deixar meu muito obrigado à lúcia e à adriana que revisaram e deram boas sugestões para a conclusão deste texto henrique witoslawski é professor de história da 6ª série formado em história ­ bacharelado e licenciatura ­ pela universidade federal do paraná e mestre em história também pela ufpr 15

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