Revista Mediação - número 17

 

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revista de educação editada e produzida pelo colégio medianeira diretor pe rui körbes s.j diretor acadêmico prof adalberto fávero diretor administrativo gilberto vizini vieira coord comunitário e de esporte prof francisco alexandre faigle coordenação editorial nilton cezar tridapalli luciana nogueira nascimento mtb 2927/82v revisão nilton cezar tridapalli projeto gráfico e diagramação sonia oleskovicz ilustrações marcelo cambraia sanches colaboraram nesta edição adalberto fávero carolina prestes yirula danielle mari stapassoli diego zerwes fernando guidini francisco carlos rehme lucas feron luciana nogueira nascimento marcelo pastre paulo venturelli vinícius soares pinto tiragem 3000 exemplares papel reciclato suzano 90g/m2 miolo reciclato suzano 240 g/m2 capa número de páginas 52 issn 1808-2564 uma visita especial às aulas de violão lucas feron 7 a capital europeia diego zerwes 10 os desafios da escola na era da digitalização carolina prestes yirula 13 compro logo sou feliz vinícius soares pinto 18 consumo logo existo metáfora inepta e desconexa sobre a felicidade adalberto fávero 21 sofro logo compro ou olho logo preciso luciana nogueira nascimento 25 macacos como lembranças danielle mari stapassoli 27 equipe pedagÓgica educação infantil e ensino fundamental de 1ª a 4ª séries coordenadora profª silvana do rocio andretta ribeiro ensino fundamental de 5ª e 6ª séries coordenadora profª eliane dzierwa zaionc ensino fundamental de 7ª e 8ª séries coordenadora profª roberta uceda ensino médio coordenador prof marcelo pastre coordenador de pastoral pe guido valli s.j coordenador de midiaeducação nilton cezar tridapalli assessoria de comunicação e marketing luciana nogueira nascimento o lazer do homem moderno marcelo pastre 34 psiu não espalha mas sou apaixonada por paraty francisco carlos rehme 37 um autor de extraordinária criatividade paulo venturelli 40 educação inaciana o início de um percurso fernando guidini 44 saudade pe raimundo kröth s.j entrevista os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do colégio nossa senhora medianeira a reprodução parcial ou total dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria 48 linha verde · av josé richa 10546 prado velho · curitiba · paraná fone 41 3218-8000 fax 41 3218-8040 www.colegiomedianeira.g12.br mediacao@colegiomedianeira.g12.br 3

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pensar existir consumir e ser feliz um desafio contemporâneo É possível ser feliz sem consumir nos tempos atuais ou é impossível consumir e não ser feliz que diferença há nas relações entre quem faz do consumo um meio de felicidade e quem nega o consumo na tentativa de ser feliz a sociedade contemporânea apresenta desfios à humanidade que convive com a era tecnológica e da informação com o individualismo exacerbado e premente com o presentismo acentuado e veloz e que busca freneticamente formas de felicidade momentos de realização e o sentimento de completude diante de sua existência para nos ajudar a refletir a pensar e ser três artigos debatem o tema principal desta edição consumo e felicidade primeiro tratamos do conceito de felicidade e sua relação histórica uma busca que não é exclusiva da contemporaneidade em seguida o tema nos é apresentado por uma metáfora sobre o conto infantil joão e maria no caminho entre a floresta e a casa de doces muitas reflexões propõem uma análise sobre a sociedade neoliberal joão e maria convivem agora com as metrópoles as vitrines as tentações e atrações do mundo capitalista no entanto refletem sobre a miséria a fome e a busca da felicidade que parece sempre momentânea passageira e ligada a um produto que depois de adquirido perde o sentido a felicidade fica sempre ao alcance da mão comprável mas fugaz alcançável porém célere distante no entanto desejável por fim as crianças sem limites e os pais sem norte são os personagens em busca da felicidade vítimas de um mundo de telas cores e produtos intermináveis que prometem a felicidade ao alcance das mãos apenas com a senha do cartão de crédito as crianças são o novo e melhor alvo do mix de marketing e como resistir a ele leia e descubra entre o consumo e a felicidade o leitor ficará dividido pela música a literatura a arte e o lazer uma análise sobre o contexto brasileiro e a visão de nossa realidade dentro e fora do país nos provoca e convida a dialogar com as crianças sobre o tema finalmente encerramos esta edição com uma homenagem pouco antes do fechamento da revista mediação recebemos a triste notícia da perda de nosso ex-diretor pe raimundo kröth um dos maiores idealizadores desta publicação ela nasceu sob a direção de raimundo que sempre nos cobrava a busca pela excelência uma revista do colégio medianeira não poderia ser menos que o melhor de cada um de nós pe raimundo era provocativo perspicaz e muito afetivo embora mantivesse as características rigorosas de seus ascendentes alemães com saudade e a memória povoada por boas lembranças republicamos uma entrevista dada pelo pe raimundo ao número zero da revista mediação É uma forma singela de recordá-lo e a seus ensinamentos e de homenageá-lo e agradecer pelo tempo em que tivemos o privilégio de tê-lo conosco boa leitura e não esquece de escrever pra gente luciana nogueira nascimento mediacao@colegiomedianeira.g12.br 4

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caro professor henrique sou mãe do mateus da silva oliveira stavis da 5a série b e gostei do seu artigo história dentro de casa achei importante o registro de onde viemos mas também os questionamentos como por que nossos antepassados vieram de tão longe como eles viviam quais suas necessidades e as expectativas de viver no brasil a nossa família é um pedaço da história que infelizmente se perde em três ou quatro gerações pois os registros escritos são escassos somos brasileiros uma mistura que dá samba e além disso dá história com vontade de deixar algum registro para as próximas gerações fizemos uma prévia pesquisa com ajuda de dos avós e bisavós e principalmente de internet descobrimos um braço da família vindo da frança e da alemanha que chegou pelo porto de paranaguá como muito imigrantes também existe um outro braço vindo do rio grande do sul um tataravô lutou na guerra do paraguai apaixonou-se por uma índia paraguaia que veio morar no brasil isto é uma pequena parte de um quebracabeça que tem data para ser montado pelo menos parcialmente nestas férias iremos fazer uma pesquisa de campo e viajaremos para montar algumas peças seu artigo nos instigou a continuar o trabalho atenciosamente liege da silva oliveira stavis fiquei estarrecido ao ler o texto É pra polemizar então tá na revista mediação número 16 a defesa de um regime ass assino comandado por um ditad or sanguinário como fidel e seu politburo genocida relativiz ado por comparações esdrúx ulas quantos cidadãos am ericanos estão presos nos eua por `dissidência ideológic a em um país que reiterad amente é am ea çad o pe lo ter ror ism o islâ mi co quantos fugiram dos eu a por serem contrários à forma que o gover no trata os terroristas presos não se coa duna com os princípios de humanidade que sempre encontrei no colégio medianeira espero que barbaridades deste tipo não contaminem meus filhos que estudam neste grande colégio meu veemente protesto sérgio leoni sor mauro braga resposta do profes ios de humaado pelos princíp justamente norte colégio mediatais tanto para o nidade fundamen que cada ser im que acredito ira quanto para m ne seus prescar a superação de ano deva sempre bu hum mentáência mas seu co me perdoe a infer conceitos les e que um la uma porção de rio a meu ver reve ão que está o é a boa informaç s caminhos para iss do em quer buscá-la disponível para qu cordialmente mauro m braga 5

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prezados senhores meu nome é abimael alves de oliveira junior e sou pai do aluno abimael alves de oliveira neto da 7ª série primeiramente gostaria de informar o alto nível dos artigos publicados na revista mediação leio-os com grande satis fação pois sei que estou lendo algo que vai enriquecer meu conhecim ento e cultura gostaria de comentar sobre o artigo É pra pole mizar então tá da revista mediação nº 16 ano vi quero aqui propor alguns comentá rios já que o próprio artigo fala em polemizar compreendi perf eitamente os comentários feitos e apresentados e apreciei muito a postura do autor em mostrar pontos fortes de cuba porém man ifesto aqui minha postura de discordar sobre a polêmica do trat amento aos presos políticos de cuba penso que antes de qualquer cois a devemos observar que o regime político de cuba já fala por si É um regime autoritário e tirano logo não se pode duvidar de que o povo cubano viva amedrontado e em constante pensamento de guerra ou invasão e nem seria diferente o governo cubano como todo poder autoritário e aí lembremo-nos de nosso vizinho cha vez e nosso novo amigo ahmadinejad é justamente de controla r a mídia e manter o povo sempre informado das coisas do regi me concordo plenamente que nos são apresentadas nos jornais e na mídia informações controladas pela elite mas não podemos pensar que estes governantes cuba nos estão vivendo um socialismo romântico infelizmente não é assim o que se vê é tirania pura e em cuba isto começa na raiz não é socialismo é tirania socialismo é o que se vê na frança na holanda onde o povo vive com dignidade onde as empresas não detêm todo o capital onde se pode estudar ir ao hospital orgu lhoso de seu país não importando se nasceu nas cercanias de pari s ou se nasceu aqui na américa guiana francesa e suriname gostei muito do artigo realmente trouxe a polêmica mas não posso concordar que cuba é um país que trata bem seus presos políticos ou quem vai contra o regime que simplesmente diz para os contrários ao regime paguem sua passagem podem ir embora quando chegarem lá escrevam não não é isto e quem está em miami são filhos dos que saíram de cuba durante a revolução penso que é bom que nossos filhos e alunos do colégio leiam o artigo e pesquisem um pouco mais sobre cuba sua história problemas e soluções a medicina dom iciliar e do esporte é uma das melhores do mundo para que iden tifiquem e entendam este país e este povo tão sofrido desta form a todos nós e muito mais eles poderão ficar mais céticos quanto ao que a mídia lhes passa de informação ou desinformação obrigado abimael jr resposta do professor mauro braga olá abimael agradeço sua contribuição nesse debate achei pertinente dentro da perspectiva da boa polêmica apenas rebater algumas citações de seu comentário que produziram discordância de minha parte abimael falo com sinceridade se um dia você for a cuba e conversar com as pessoas verá lá uma realidade muito diferente disso o apoio ao regime é genuíno e maciço lá temos a noção do que seja um governo popular se você critica ahmadinejad e chavez por controlarem a mídia sugiro investigar as grandes corporações de informação que dominam o mundo ocidental e suas relações promíscuas com o poder pressuponho também que cidadãos cultos e educados como os cubanos por exemplo saibam como filtrar essas coisas muito melhor do que os milhões de miseráveis ou mal-informados da classe média de países como o brasil não discordo veementemente dessas afirmações por favor reveja a história imperialista da frança e da holanda para verificar a origem desse bem estar social depois informe-se sobre a enorme tensão gerada pela convivência entre os cidadãos nativos e os imigrantes e seus descendentes quanto à partilha desse bem estar social certamente verá que isso está anos-luz distante do socialismo ­ muito mais do que a sociedade cubana com certeza há um excelente artigo recentemente publicado no jornal brasil de fato entrevistando um defensor do regime que mora em miami e convive com os reacionários É importante registrar no entanto que miami hoje é como a chicago dos anos 30 controlada por poderosas máfias de cubanos poderosíssimos fico tranquilo em saber no entanto que estes nunca mais terão chance em cuba pois o povo jamais permitirá que eles voltem a governá-lo exatamente porque amam cuba e reconhecem as conquistas da revolução cordialmente mauro m braga 6

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uma às aulas de visita especial violão por lucas feron a música é ­ e ninguém duvida ­ uma forma de comunicação veja como compositores de outros tempos são atuais e enriquecem a experiência estética de crianças e vai o convite experimente você também 7

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e em um dia desses um dia qualquer resolvi convidar um amigo especial para visitar as oficinas de violão talvez alguns de vocês o conheçam de nome pois sua música com certeza já foi ouvida por todos nós em maior ou menor escala seja em casa em eventos festivos ­ como um casamento ou até mesmo em trilhas sonoras de filmes estou falando de johan sebastian bach dentre muitos os poderes que a música possui certamente um dos mais fascinantes é o de poder realizar uma conexão com nossos antepassados sejam eles mais recentes aqueles que acompanharam a vida de nossos avós por exemplo ou até mesmo antepassados de séculos atrás como é o caso de bach 16851750 através de sua obra deixada em manuscritos para a humanidade nos presenteou com tamanha genialidade e beleza artística seja em suas suítes seu cravo bem temperado suas tocatas e fugas ou em praticamente qualquer obra que tenha produzido deixe-me contar um pouco melhor sobre essa história de visita às aulas de violão em certa classe como de costume trouxe algumas músicas de gêneros variados e autores diversos para uma breve apreciação no final da aula neste dia escolhi trazer para a audição algumas obras de bach o famoso compositor alemão que influenciou ­ e ainda influencia ­ muitos compositores músicos e amantes da música é claro deixei rolarem algumas obras como a famosa Ária na corda sol e também a célebre tocata e fuga em ré menor após as audições pedi para que os alunos imaginassem a cena de um filme que se adequasse a cada obra ouvida e que cada um descrevesse para a turma o que foi imaginado para a primeira obra ouvida Ária na corda sol as descrições feitas pelos alunos giraram em torno de cenas de despedidas sejam de amigos e pessoas queridas se despedindo por tempo indeterminado sejam de pessoas prestes a partir para o outro lado da vida outros relatos descreveram reencontros de pessoas que não se viam há muito tempo também como destaque coloco a sinceridade das crianças como no caso de um aluno da primeira fase do ensino fundamental que se disse realmente encantado pelos sons do violino até mesmo simulando um maestro na aula um pouco desajeitado pela empolgação mas certamente muito sincero e animado com a ideia para a segunda obra o clima de suspense tomou conta das mentes atentas ao fabuloso som do órgão de tubo executado na tocata e fuga em ré menor aí a imaginação foi longe e ­ minha nossa ­ como essa geração possui talento para descrever cenas de suspense ao ouvir a música o nome de conde drácula tomou conta de quase todos os relatos além de castelos e figuras das mais diversas que foram descritas com detalhes e muita atenção pelos alunos no início das audições houve alguns comentários por parte dos alunos questionando o porquê de ouvir este tipo de música em uma aula de violão porém foi apenas uma questão de minutos para que vários alunos se rendessem à música quando observei já estavam anotando em seus cadernos o nome de johan sebastian bach e as obras citadas para imagino eu procurar no youtube ou até fazer um download na internet a fim de apreciar a obra com mais calma o mesmo ocorreu com heitor villa-lobos considerado o maior compositor das américas uma verdadeira surpresa para qualquer brasileiro é saber que é de nossa terra que brotou o maior compositor das américas e que o próprio chegou a reunir 40.000 cantores para um concerto no estádio de futebol do clube vasco da gama para se familiarizar melhor com a magnitude da obra do villa recomendo a audição de sua série das bachianas brasileiras comece pelas de número 2 o trenzinho do caipira 4 e 5 além é claro de sua obra completa para violão ou seja os cinco prelúdios os doze estudos a suíte popular brasileira o choros nº 1 e o concerto para violão e orquestra aliás talvez você possa ter feito alguma analogia do nome bachianas com o nome do compositor alemão que citei no início deste artigo realmente as bachianas que são inspiradas em melodias do sertão brasileiro são homenagens do compositor carioca ao alemão que tanto o influenciou em suas obras cada um deles inspirado em seu próprio folclore 8

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uma observação de minha parte é que ­ não importa a época ou o estilo ­ todas as obras de arte possuem algo em comum ou seja a vida humana e seus diversos momentos pois ao ouvir uma obra com cerca de 300 anos de vida um aluno de ensino fundamental relata que imaginou uma cena de despedida isso nos demonstra que a conexão da obra de arte com a vida é inevitável sendo como um espelho da própria vida em que cada um enxerga um pouco de si de sua imaginação e de seus sentimentos quando em contato com uma obra seja ela de qualquer época o que realmente importa é sua beleza a vida e o autoconhecimento que ela nos traz É claro que neste artigo resumo apenas alguns trechos destes momentos temos muitos outros artistas que também nos honraram com suas visitas não apenas os vulgos compositores eruditos também fomos visitados por luiz gonzaga os mutantes geraldo vandré e para o segundo semestre muitos outros já estão com visita previamente agendada convido todos sugerirem novas visitas em nossa aula para que a oficina fique cada vez mais bem frequentada e torne-se um verdadeiro ponto de encontro de construção de conhecimento de amizade de paz de crescimento de história e muita música é claro uma breve histÓria da mÚsica autor bennet roy editora jorge zahar este livro apresenta os caminhos da música do ocidente a partir do século ix quando surgiram as primeiras `composições o desenvolvimento da escrita e das idéias musicais e também os instrumentos e práticas adotadas nos diversos períodos dessa evolução quadros sinópticos de cada período mostram os vários tipos de música seus locais de origem sua gênese cronológica e os principais compositores da época alucinaÇÕes musicais autor oliver sacks editora companhia das letras a música é uma das experiências humanas mais assombrosas e inesquecíveis e o livro do neurologista e escritor oliver sacks `alucinações musicais nos faz entender por quê a exemplo de seus livros anteriores entre os quais se destacam `tempo de despertar e `o homem que confundiu sua mulher com um chapéu sacks nos oferece aqui histórias musicais cheias de drama e compaixão humana envolvendo pessoas comuns ou portadoras de distúrbios neuroperceptivos o estudo de casos surpreendentes de pessoas com distúrbios neurológicos ou perceptivos ligados à música reitera a crença de sacks em uma medicina que humaniza o paciente e tenta junto com a abordagem clínica integrar as dimensões psicológica moral e espiritual tanto das afecções quanto de seu tratamento comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br a mÚsica e a ciÊncia se encontram autor leinig espÍnola clotilde editora juruá email para sugestões lucas.feron@gmail.com lucas feron é professor de violão do departamento de arte e cultura do colégio medianeira É também graduando nos cursos de educação musical na ufpr e bacharel em violão ­ embap neste livro a professora e musicoterapeuta clotilde espínola nos presenteia com sua enorme bagagem de conhecimentos trazendo as mais diversas relações da música com nosso mundo de conhecimentos os capítulos trazem assuntos como a música e a física a biologia a química a antropologia a psicologia e muito mais 9

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a capital europeia por diego zerwes se falta sensibilidade para que as pessoas percebam que há muitos negros em curitiba poderia ser dito que em grande parte isso seria causado pela falsa representação de curitiba que estamos acostumados a ver e a ouvir desde crianças c caro leitor se você estiver em curitiba olhe ao seu redor observe as pessoas se você encontrar algum negro preto ou pardo e ele estiver trabalhando tome nota que de acordo com os dados do instituto brasileiro de geografia e estatística ibge ele recebe em média 2,6 salários mínimos já digo de antemão que será uma tarefa difícil porque de acordo com alguns curitibanos há poucos aqui essa máxima de que há poucos negros em curitiba é contestada pelos dados do ibge de acordo com o senso de 2005 19,7 dos moradores da capital são pretos ou pardos a média de anos que os negros estudaram e do salário que recebem já pode soar alarmante imagine então compará-los com os dos brancos os negros estudam 7,4 anos os brancos 9,3 enquanto os negros recebem os 2,6 salários mínimos os brancos 4,7 para o instituto paranaense de desenvolvimento econômico e social ipardes os negros recebem em média 60,5 do salário dos brancos bem esse fenômeno tem uma explicação histórica e atende pelo nome de invisibilização ele foi objeto de estudo de marcilene lena garcia de souza doutora em sociologia pela unesp e pesquisadora sobre relações raciais no paraná ela junto com o também doutor em sociologia pedro bodê remontam as ques 10

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tões históricas curitiba recebe a alcunha de a capital europeia do brasil o que seria para os pesquisadores utilizando um termo de eric hobsbawn um processo de `invenção de tradições não que curitiba não tenha recebido imigrantes europeus o que de fato aconteceu mas o problema contudo é a supressão da identidade negra sob esse aspecto um jovem negro ­ que participa de um movimento que valoriza a cultura afro-brasileira entrevistado por souza e bodê indica algo sintomático foi criado um monte de praças aí criaram a praça do zumbi [dos palmares esse monte de praças referenciado por ele diz respeito às que carregam várias etnias em seus nomes como a praça do japão praça da espanha praça da ucrânia bosque do alemão memorial polonês memorial Árabe quanto à praça do zumbi ele relata me diga aonde que é bem lá no pinheirinho tem um bairro tem a favela e depois da favela a valeta depois da valeta é a praça sendo este artigo de 1999 revista de sociologia e política nº 13 7-19 nov ainda não podia contar com a informação da reforma salientada por rogério waldrigues galindo na matéria curitiba descobre seus negros publicada pela gazeta do povo em 29/05 a inauguração da nova praça com direito a homenagem aos 54 países africanos teve direito a pompa e circunstância o prefeito luciano ducci que terminou a obra iniciada por beto richa fez questão de dizer o quanto o local era importante e de homenagear a comunidade afro da cidade reflexos da copa parece ser mais que isso o que galindo pretende dizer é que os negros descobriram sua própria força ou seja não foram os próprios políticos que descobriram uma comunidade a mais de eleitores para ele o movimento negro é que criou um grupo que se reconhece como força nova a ideia de por cotas na prefeitura a reforma na praça o projeto de mapear quilombos no interior do estado e tudo o mais são uma tentativa de correr atrás desse novo público ele lista alguns feitos por essa comunidade como o cursinho pré-vestibular para afrodescendentes ou as pesquisas do instituto de pesquisa da afrodescendência e ainda as cotas da ufpr há outro fato que revela a natureza da tentativa de branqueamento da capital paranaense pare para pensar além da praça há algum monumento que suscite a presença negra em curitiba muito bem você pode ter pensado na negra lata d água nos fundos do paço da liberdade souza e bodê constataram que a escultura não é um tributo aos negros É uma homenagem ao escultor erbo stenzel a jornalista e estudante de ciências socias da ufpr marisa rodrigues conta que a obra foi realizada no período em que erbo estava no rio do janeiro para ela a influência negra vem do local onde ele se encontrava o rio contudo a escultura estava abandonada no quintal de sua casa já em curitiba rafael greca a resgatou em 1966 não por ser uma representação da cultura afro mas por ser uma obra de um artista paranaense além desse monumento descobrimos ainda um bloco de granito localizado na praça santos andrade no centro da cidade na qual há uma placa em bronze com uma dedicatória `à colônia afro-brasileira a `homenagem da câmara de vereadores de curitiba à `etnia negra vem reforçar nossa tese a obra que lembraria a população negra passa despercebida em meio à paisagem dizem souza e bodê há ainda outros lugares ou nomes históricos bairro rebouças ou os voluntários da pátria se a presença negra em curitiba passa ao largo dos políticos para alguns intelectuais não wilson martins ruy wachowicz romário martins são os que se destacam segundo souza e bodê por exemplo ao negar a existência de escravos no paraná cuja definição wilson martins compõe sem escravidão sem negro sem português e sem índio dir-se-ia que a sua definição humana não é brasileira essa corrente de pensamento é contestada por octavio ianni em linhas gerais o que ocorreu foi inicialmente uma predominância de índios ou seus descendentes depois os negros e mestiços seus começaram a aumentar relativamente aos outros chegando a dominar numericamente ele chega a afirmar que em 1767 a população negra de curitiba chegou a 50 mesmo que a fonte apresentada não seja totalmente precisa indica a presença de escravidão por estas terras ao contrário do que pensa wilson martins 11

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se falta sensibilidade para que as pessoas percebam que há muitos negros em curitiba poderia ser dito que em grande parte isso seria causado pela falsa representação de curitiba que estamos acostumados a ver e a ouvir ­ eu pelo menos ­ desde crianças resolvi pesquisar no youtube o que há sobre curitiba no vídeo de aniversário de 316 anos da cidade aparecem quase 40 pessoas dessas três ou quatro podem ser consideradas pardas nenhuma negra outro intitulado orgulho de seis personagens uma é negra os mesmos números são para um vídeo sobre vandalismo talvez do início dos anos 2000 talvez antes há um vídeo sobre o transporte público de curitiba o sempre elogiado transporte público eu não identifiquei nenhum negro bem há algo de errado já sei no começo dos anos 2000 ou ainda no final dos 90 ainda não havia esse dito politicamente correto portanto a necessidade de colocar figurantes de todas as etnias não era uma obrigatoriedade quando esse assunto veio a mim pela primeira vez eu olhei na minha sala de aula 4° ano de publicidade e propaganda em uma universidade privada de curitiba quantos negros na minha sala nenhum olho agora a foto da formatura com mais de 100 alunos três pardos aí eu me lembro da sala de aula da especialização dessa vez em uma universidade pública de 40 alunos um negro tudo bem que isso é uma amostra pequena no grande universo que é o de curitiba contudo para mim é uma amostra irrefutável de que há um sério problema por aqui o objetivo deste texto não foi mostrar algo inédito já que como vocês puderam notar ele é um recorte de uma realidade já apresentada a proposta é tentar desmascarar este embuste que há décadas esconde a verdadeira curitiba é tornar visível estes 19,7 que formam a linda capital europeia que das cidades do sul é a que mais concentra negros e a que mais tenta escondê-los a capital europeia é aliás uma das poucas capitais em que o dia da consciência negra não é feriado comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br diego zerwes é formado em publicidade e propaganda universidade positivo especialista em literatura brasileira utfpr e aluno de letras ufpr no medianeira trabalha na biblioteca da fase ii a utopia brasileira e os movimentos negros autor antÔnio risÉrio editora 34 o que É racismo autor joel rufino dos santos editora brasiliense alguns tentam provar que as diferenças sociais são determinadas por fatores biológicos outros explicam que o racismo surgiu da necessidade de justificar a agressão seria verdade faria o racismo parte da natureza humana neste livro os primeiros passos para a compreensão deste fenômeno universal suas modalidades e suas implicações sociais avesso ao academicismo e alheio ao politicamente correto o poeta sociólogo e ensaísta antonio risério aborda neste livro atualíssimo o sempre controverso debate sobre a questão racial brasileira mobilizando noções de história política lingüística sociologia semiótica estética e antropologia com rara e poderosa intuição o autor examina sob diferentes ângulos os mais variados aspectos relacionados ao tema como as enormes diferenças da questão racial no brasil e nos estados unidos a influência africana em nossa história e cultura da língua à literatura da culinária ao urbanismo da religião à música e ao cinema a mestiçagem e o sincretismo como traço e valor do modo de ser brasileiro e os movimentos negros na história do brasil desde a luta contra a escravidão até os atuais debates sobre cotas e ações afirmativas livro escrito não para os especialistas embora com eles também dialogue mas para um público amplo `a utopia brasileira e os movimentos negros desloca os problemas de seus nichos habituais e revela perspectivas insuspeitadas para a compreensão da realidade brasileira 12

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os na era da desafios da escola por carolina prestes yirula digitalização para entender como as tecnologias podem ser mais do que produtos de marketing escolar e realmente ser um integrador entre a escola e outros espaços educativos é necessário ampliar o conceito de educação o aluno não se educa apenas quando está dentro de uma sala de aula 13

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d diante do cenário global da atualidade é possível pensarmos em uma nova configuração de mundo em que as relações sociais se dão predominantemente por meio de aparatos tecnológicos como televisão rádio computador celular podemos assumir devido a essas novas maneiras de interação social que o mundo está de forma crescente tornando-se um espaço digital para pierre lévy estudioso do tema o ciberespaço é hoje o terreno onde está funcionando a humanidade esse fenômeno gera diversos impactos sociais altera comportamentos e reorganiza a dinâmica de um mundo antes marcado pela cultura do impresso diferentes campos sociais são afetados por essa crescente presença da tecnologia em nossas vidas dentre eles o da educação o aluno que hoje está na sala de aula acessa diversos aparelhos tecnológicos fazendo deles extensões de seu próprio corpo consome conteúdos midiáticos vai ao cinema vai a shows vai à escola vemos então que a instituição de ensino deixa de ser o elemento que centraliza as referências do jovem frente a este cenário o surgimento e a intensificação do uso de novas tecnologias representam uma nova possibilidade de repensar e desenvolver as práticas educativas a presença significativa das tecnologias da informação na vida dos alunos cria novos desafios para a escola que deve arriscar-se e questionar-se frente às novas exigências que surgem em decorrência deste mundo cada vez mais digital não há escola e por toda parte pode haver redes e estruturas sociais de transferências de saber desta forma a instituição de ensino conhecida como escola passa a dividir espaço com outras instituições que cooperam para a construção do saber e então ocorre o que podemos chamar de pedagogia cultural termo que segundo os autores shirley steinberg e joe kincheloe enquadra a educação numa variedade de áreas sociais incluindo ­ mas não se limitando ­ a escola essas áreas sociais podem ser segundo os referidos autores denominadas também como áreas pedagógicas que seriam aqueles lugares onde o poder é organizado e difundido incluindo-se bibliotecas televisão cinemas jornais revistas brinquedos propagandas videogames livros esportes etc sob este ponto de vista podemos entender portanto que o poder da instituição escolar divide espaço com outras instituições sociais como a igreja trabalho família mídia entre outros e assim aqueles que se encontram dentro da dinâmica social os agentes sociais buscam e constroem suas referências de mundo e seus saberes não apenas a partir do conteúdo exposto em sala de aula mas a partir das mais diversas áreas pedagógicas com as quais entram em contato desta maneira entenderemos por educação não apenas o ensino institucionalizado encontrado na escola mas sim o contato do homem com essas diferentes áreas pedagógicas portanto ao pensarmos no ensino formal iremos pensar também nessas outras áreas pedagógicas pois existe uma permeabilidade entre elas a escola os meios de comunicação a família acontecem simultaneamente na vida do jovem além de acontecerem entre si o que é divulgado na mídia pode ser pautado na escola o que se discute na escola pode aparecer como tema de debate em casa o que se passa em casa pode ser retratado pela mídia e assim segue-se a lógica que entrelaça as diversas áreas pedagógicas presentes na vida dos jovens com a revolução tecnológica as possibilidades de comunicação expandiram-se e os educadores passaram a ter ao seu alcance novos sistemas capazes de contribuir com o ensino em sala de aula a inserção de aparatos tecnológi educação e comunicação para falarmos sobre o encontro das áreas da educação e da comunicação sugiro compreendermos de início o que entendemos neste texto por educação em um primeiro momento falar em educação pode remeter ao espaço escolar que se constitui como um espaço de ensino institucionalizado de aprendizagem formal contudo para o professor carlos brandão doutor em ciências sociais pela usp é importante con siderarmos também que a educação existe onde 14

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cos ao ensino formal é fundamental pois amplia as possibilidades de aprendizado além de exercitar novas capacidades e habilidades dos jovens contudo essa aproximação requer uma análise profunda pois para que a revolução tecnológica possa contribuir com o sistema de ensino da escola é preciso que ela seja incorporada e entendida como fundamental para que junto com o progresso tecnológico ocorra uma abertura que permita pensar e questionar a educação formal ­ colocando-a em sintonia com as mudanças e avanços que ocorrem fora do espaço físico da escola porém para que seja possível o alcance dessa sintonia existem diversos pontos que devem ser repensados no que diz respeito ao currículo escolar o qual segundo ruth sabat doutora em educação pela universidade federal do rio grande do sul ufrgs é diretamente afetado pelos saberes que são produzidos através do currículo cultural desenvolvido pela mídia desta forma para atualizar-se frente às mudanças do ambiente externo a educação formal deve levar em consideração estímulos que afetam os seus alunos fora do ambiente da escola e esses estímulos encontram-se na relação dos alunos com a família com os amigos e com conteúdos midiáticos para margarida kunsch professora titular da usp a escola coloca-se como a institucionaliza ção da educação formal em uma determinada sociedade que tem por função possibilitar a apropriação e a assimilação de conhecimentos e habilidades úteis e/ou necessários à vida do indivíduo dentro da vida social portanto ao sugerir que almeja preparar o jovem para a vida e para o convívio social é indispensável que a escola dê atenção ao que ocorre com esse aluno fora da sala de aula ­ assim a escola deve entender quem são os educadores deste aluno quando ele não está em aula para então compreender se há adequação do currículo escolar à realidade do aluno fora da sala de aula nas palavras de roxana morduchowizc professora de comunicação na universidade de buenos aires e especialista em comunicação e culturas juvenis as identidades dos jovens se definem não apenas pelo livro que lêem mas também e principalmente pelos programas que as sistem na televisão pelos sites que visitam pela música que escutam e pelo filme que decidem ver tradução nossa ­ desta forma as relações que se dão fora do espaço escolar também educam e geram comportamentos e por isso são tão importantes quanto a educação formal a educação informal pode acontecer por meio do contato com mensagens midiáticas veiculadas em cinema televisão revistas internet jornais rádio ela é uma realidade incontestável na vida dos jovens pós-modernos os quais segundo a professora da faculdade de educação da usp maria da graça setton pertencem a uma geração que precocemente sociabilizou-se com a cultura midiática assim frente a esta convivência do jovem com o conteúdo midiático é importante entender como ocorre a conciliação entre o consumo do conteúdo escolar e o consumo do conteúdo disponibilizado pela mídia a interação do jovem com o conteúdo divulgado pela mídia interfere diretamente nas condutas por ele assumidas para tânia esperon porto doutora em educação pela usp e mestre em tecnologia educacional o aluno convive com duas situações ora tendo que seguir parâmetros propostos e exigidos por uma escola reprodutora e ora vendo através da mídia uma realidade dinâmica e estética da sociedade cuja cultura está em constante efervescência esse paralelismo interfere no comportamento do jovem em sala de aula por isso surge a necessidade de repensar a educação formal e de considerar a integração com a educação informal se a escola 15

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