Revista Mediação, número 19

 

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revista de educação editada e produzida pelo colégio medianeira diretor pe rui körbes s.j diretor acadêmico prof adalberto fávero coordenador administrativo gilberto vizini vieira coord comunitário e de esporte prof francisco alexandre faigle coordenação editorial nilton cezar tridapalli luciana nogueira nascimento mtb 2927/82v revisão nilton cezar tridapalli projeto gráfico e diagramação sonia oleskovicz ilustrações marcelo cambraia sanches colaboraram nesta edição adalberto fávero cláudio adriano piechnik gladis tridapalli gustavo dumas levis litz michelli miranda anfretta nilton cezar tridapalli paulo zerbato rodrigo soares santos valéria souza rocha issn 1808-2564 brasileiros e brasileiras votar ou não votar um direito ou um dever levis litz 6 o pré-juízo reflexos de um julgamento antecipado michelli miranda andretta e rodrigo soares santos 10 desaprender aprender aprender a desaprender gladis tridapalli 14 o grande desafio valéria souza rocha 20 do transitório do permanente e das âncoras adalberto fávero tiragem 3000 exemplares papel reciclato suzano 90g/m2 miolo reciclato suzano 240 g/m2 capa número de páginas 52 22 humanismo e liberdade na contemporaneidade mário soares 28 uma noite para muitas mais equipe pedagÓgica supervisoras pedagógicas cláudia furtado de miranda e juliana heleno educação infantil e ensino fundamental de 1ª à 4ª séries coordenadora profª silvana do rocio andretta ribeiro ensino fundamental de 5ª e 6ª séries coordenadora profª eliane dzierwa zaionc gustavo dumas 32 o futuro do livro nilton cezar tridapalli 35 antártica reserva natural consagrada a paz e a ciência cláudio adriano piechnik ensino fundamental de 7ª e 8ª séries coordenadora profª roberta uceda ensino médio coordenador prof marcelo pastre coordenador de pastoral pe guido valli s.j coordenador de midiaeducação nilton cezar tridapalli assessoria de comunicação e marketing luciana nogueira nascimento 41 galeria antártica natureza bela claudio adriano piechnik 47 os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do colégio nossa senhora medianeira a reprodução parcial ou total dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria linha verde · av josé richa 10546 prado velho · curitiba · paraná fone 41 3218-8000 fax 41 3218-8040 www.colegiomedianeira.g12.br mediacao@colegiomedianeira.g12.br 3

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contexto conhecer para transformar entender a trama de relações sociais políticas e econômicas da atualidade analisar e refletir sobre a sociedade contemporânea e ao mesmo tempo conseguir estabelecer novos olhares e tecer sonhos novas utopias são desafios impossíveis de encarar sem uma análise profunda do contexto atual e da nossa história considerar o passado principalmente o conhecimento e as experiência do tempo é requisito indispensável para avançarmos com inovação na verdade a relação entre a educação escolar a ciência e o contexto realidade é estrutural no projeto da formação das pessoas e deveria ser necessidade urgente e intransferível no trato dos conteúdos das escolas para que se recuperem os sentidos e os compromissos educativos com o olhar para o presente e inserção no mundo de maneira a se conseguir dar uma resposta capaz de ancorar essa geração num mundo em frenética transformação defende o professor adalberto beto fávero no artigo de capa desta edição o autor faz uma rica reflexão sobre o papel do estado e as imposições do neoliberalismo a partir da individualização da pessoa e do estado no mesmo caminho de uma análise de contexto em outro artigo sartre invade nossas mentes para lembrar-nos que somos livres para fazer nossas escolhas e portanto responsáveis únicos e diretos por nosso destino seguindo esse caminho de escolha reflexão e aprendizagem passaremos nesta edição por uma literal puxada de tapete É o que nos faz desinstalar-nos para reaprendermos com as lições da vida desaprender um tabu que nos acompanha durante o crescimento pode ser uma nova forma de buscar equilíbrio e porque não de rearranjar a vida para encerrar nosso passeio pelo contexto fazemos uma viagem ao extremo sul do planeta um ambiente belo ricamente preservado mas pouco amigável do ponto de vista do clima o ex-aluno professor e doutorando da ufpr claudio piechnik realiza pesquisas na antártica e nos conta uma pouco mais sobre o lugar no qual a exploração econômica é proibida e sobre a importância das pesquisas para a minimização dos riscos para a saúde ambiental e humana o autor ainda presenteia o leitor com uma galeria de imagens feitas por ele durante as pesquisas no local espero que goste se gostar elogie escreva para nós caso contrário critique escreva para nós de qualquer forma envie sugestões e comentários para mediacao@colegiomedianeira.g12.br boa leitura luciana nogueira nascimento mediacao@colegiomedianeira.g12.br 4

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saudações ao editores e colaboradores da revista mediação no anços tec sobre av o mento do li o artig ção e trata na preven em feliz lógicos e fiquei b e mama me trac â n c er d eu estou mo poís que es c om o m ma e tudo cer de m a ler cân procuro tando do portagem de re s que gra aparece os avanço que mpanhar o para aco os e tud são rápid s edimento s a deus ça proc sobre os to conesta escri é o que a a doença ctar após dete omigo teceu c neira do media de aluna dos sou m ã e trabalho panhar o a com m proporgosto de continue e alunos cimenmestres s o c onh e aos leitore cionando quisa to da pes o pelo artig parabéns anne as duas últimas edições de 2010 fecharam este ano com chave de ouro por isso não posso me furtar de tecer efusivos comentários os artigos que versaram sobre o consumismo me trouxeram grande alento primeiro por explicitar com todas as letras necessárias a visão bastante madura e corajosa do colégio em relação a este assunto de grande impacto nos rumos da sociedade segundo por revelar que eu e minha família não estamos sozinhos na contramão do consumo desenfreado posto que demoramos vários anos para trocar de carro computador celular e outros só adquirimos aquilo que de fato é útil ou necessário não premiamos e nem adestramos nossos filhos com recompensas materiais em troca de boas notas nas provas etc neste assunto gostaria de aproveitar para indicar a todos que assistam a história das coisas um documentário resultante de uma pesquisa de 2 décadas sobre de onde vem e para onde vão todas as coisas fabricadas e consumidas por nós ­ dura 20 minutos é muito didático e está disponível legendado na internet no endereço http www.storyofstuff.org/international há também uma boa versão dublada no youtube na última revista fiquei surpreso com a qualidade dos artigos publicados pelos alunos como frequente crítico de que a escola deve sempre buscar o máximo crescimento dos seus alunos eu fiquei muito satisfeito com as empreitadas e reconheci nos trabalhos apresentados a maneira do medianeira de buscar o magis assim gostaria de sugerir para os próximos trabalhos que os pesquisadores sejam convidados a efetuar uma apresentação oral dos artigos em formato de congresso visando uma vivência científica ainda maior parabenizando a todos os envolvidos nos trabalhos alberto heitor molinari sempre-aluno pai do caio da 5ª série e do davi do 3º ano para semear ideias capa de paulo zerbato a arte do paulista paulo zerbato foi tema de aula de arte em maio pelos alunos da 8a série seus trabalhos inspirados no surrealismo tratam de temas voltados a psicologia como a conscientização consciência planetária e autoconhecimento que refletem a complexidade da psique humana os comportamentos nas relações e uma profunda compreensão do que realmente somos descreve o autor no seu blog para conhecer melhor o trabalho de paulo zerbato visite o blog http paulosergiozerbato.blogspot.com 5

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por levis litz quem é beneficiado realmente com a obrigatoriedade dos votos por que ela pode ser considerada antidemocrática descubra como o voto livre pode ser uma alternativa ao modelo atual da nossa democracia 6

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e ei você aí que está lendo este texto sabia que tudo que fazemos que pagamos que produzimos que demandamos que consumimos em sociedade gera uma ação É claro que sabia e aposto que você também tem noção de que essa ação se converte em algo que certamente vai influenciar nosso sistema de vida nosso cotidiano nosso desenvolvimento como indivíduo o conforto do nosso lar a segurança de todos nós enfim todas essas manifestações estão felizmente ou não intimamente relacionadas à política aristóteles ensinando alexandre o grande acredita-se que as reflexões aristotélicas sobre a política originam-se da época em que ele era preceptor de alexandre esta imagem é de domínio público quando nos referimos à política apesar de muitos cidadãos brasileiros torcerem o nariz seria bom entendermos a raiz dessa palavra saber que ela se originou nos tempos em que os gregos se organizavam em cidades-estado denominadas polis palavra que deu origem aos termos como política em geral politiké e pertencente aos cidadãos politikós e que nessa sua trajetória de nominações acabou no latim como politicus refletindo como ciência do governo dos estados a partir de 1265 nos idiomas modernos europeus então agora que sabemos um pouquinho mais sobre de onde vem o termo política podemos compreender um pouco o que o conhecido filósofo grego aristóteles que viveu em atenas de 384 a 322 a.c aluno de platão e professor de alexandre o grande quis dizer quando o homem é por natureza um animal político aristóteles acreditava e por isso apresentou em sua filosofia prática a política como um desdobramento natural da ética nessa linha de pensamento enquanto a ética estaria preocupada com o bem-estar do indivíduo a política se encarregaria de buscar formas de se governar com o objetivo de assegurar a felicidade da sociedade como um todo a política pensou-se então deveria se voltar para as necessidades referentes à sociedade em geral doce ilusão ou amarga ingenuidade acredite ou chore se quiser nifica força poder cuja personificação mitológica era cratos demo por sua vez é povo no que tange à política nos regimes democráticos a exemplo do brasil que é visto como uma das referências da atualidade no mundo a democracia é aceita e defendida como uma ciência política em que seus cidadãos são responsáveis pelos assuntos públicos através da manifestação do seu voto voto este que elege seus representantes isto é um sistema em que os cidadãos podem participar da vida política do país a que pertencem sobre a aplicabilidade da democracia se é boa ou ruim é muito discutível principalmente porque a ideia parte do pressuposto de que a maioria elege quem irá governar todos não importando se por obra do acaso a falta de qualidade do voto legitimou o dirigente na democracia todos serão governados e terão suas vidas afetadas segundo os votos da maioria mesmo se elegeram aqueles governantes que apenas pensam em seu próprio orifício que se encontra na região do abdômen aquele bem conhecido e pequenino buraco chamado umbigo e no brasil o voto como é mesmo democracia ou demo+kratos lá vamos nós relembrar um pouquinho de história novamente kratos de origem grega sigaqui na região dos tupiniquins as eleições daqueles que vão interferir em nosso sistema de vida são pelo voto direto secreto e obrigatório 7

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para a imensa maioria ou seja para homens e mulheres com mais de 18 anos o voto é facultativo para os maiores de 70 anos para os jovens com idades entre 16 e 18 anos e para os analfabetos essa obrigatoriedade veio após a revolução de 1930 país nem que fosse apenas pela manifestação de seu voto livre entretanto obrigar alguém a fazêlo não importando como se faça isso de olhos fechados ou comprados é imoral É importante ter em mente que o político eleito não está prestando nenhum favor aos seus comandados quando faz algo de bom é o mínimo que ele deve fazer afinal esse é o emprego dele pelo qual recebe muito bem e como por seus préstimos a atual democracia brasileira gosta de apregoar que o voto é um direito do povo deste país ­ e isso é verdade mas pela sua imposição e obrigatoriedade o voto acaba sendo um dever antidemocrático pois a população não pode ter a opção de não votar sem ser penalizada triste e muito vergonhoso o voto de cabresto deve ser expurgado das entranhas da obrigatoriedade É evidente que isso não resolverá o problema principal o caráter no âmbito da política nacional no entanto um passo nesse sentido terá sido firmemente dado concordemos ou não o fato do voto ser obrigatório no brasil arranha e fere profundamente a essência da democracia pois fornece sustentação às formas retrógradas e antigas de dominação política além de nivelar por baixo a qualidade do voto se o voto da maioria numa democracia é ruim com certeza o político será ruim e a vida da maioria do povo será cheia de lamúrias das mazelas dos dirigentes há pessoas que defendem a tese de que o voto livre e facultativo desestimula o comparecimento às urnas se elas pensam assim é porque deve haver alguma razão de ser não é mesmo pensemos juntos será por acaso que existem aquelas pessoas desestimuladas e que em sua convicção já perderam a esperança na existência de algum político honesto e desconfiam de que todos os candidatos são farinha do mesmo saco ou seriam então aquelas que apenas querem exercer o direito da livre escolha que a plena democracia lhes concede de simplesmente não querer votar independente de seu motivo É claro que é relevante e muito fundamental para não escrever essencial que todos em sã consciência deveriam participar da política do seu mas pensemos qual seria a razão em pleno 2011 de continuarmos empacados no voto obrigatório a resposta parece simples esse seu voto deve valer ouro para quem se nutre da política ­ minoria que não é só formada por políticos mas também por interesses de corporações nacionais e internacionais e outros grupos de pressão muitos denominados e conhecidos por lobistas imaginemos que efeito de mudança e impacto o voto livre e facultativo ocasionaria em nosso sistema político seria interessante observar e acompanhar do ponto de vista antropológico e filosófico o frio na espinha que os velhos barões e coronéis da política sentiriam com essa nova estrutura política lembremos que a constituição federal foi elaborada por políticos deputados e senadores através da assembléia nacional constituinte assim eles é que decidiram incluir na carta maior por definição a obrigatoriedade do voto isso parece ser coisa de quem faz uma legislação em causa própria e não de um povo o qual representa ­ não parece com o fim do voto obrigatório o eleitor teria poder sobre seus representan 8

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tes como deveria ter sido desde sempre isto é mais legitimado a classe política teria que deixar para trás antigos métodos de discursos pois o eleitor que fosse votar seria aquele que possui mais discernimento da importância do seu voto e não se deixaria enganar tão facilmente por velhas artimanhas e factoides na constituição federal está escrito em seu preâmbulo nós representantes do povo brasileiro reunidos em assembleia nacional constituinte para instituir um estado democrático destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais a liberdade a segurança o bem-estar o desenvolvimento a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna pluralista e sem preconceitos fundada na harmonia social e comprometida na ordem interna e internacional com a solução pacífica das controvérsias promulgamos sob a proteção de deus a seguinte constituiÇÃo da repÚblica federativa do brasil [veja texto na íntegra em www.planalto.gov.br com o voto livre e facultativo a todos os brasileiros o cenário político se transformaria em algo melhor certamente seria outro bem mais consistente e limpo seríamos estimulados a pensar melhor dando assim um salto de qualidade como eleitor e então amigo leitor pensante é melhor deixarmos passivamente como está essa lengalenga de sempre ou vamos optar pelo voto livre já afinal pelo que você vota comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br levis litz é jornalista e repórter fotográfico com mba em marketing e relações públicas expôs a triste condição de pessoas que sofriam com a hanseníase no interior do estado do paraná no ano de 1996 contato www.fotoserumos.com a repÚblica autor platÃo editora martin claret a república de platão cujo título original é politeia É uma das obrasprimas de platão nela o filósofo expõe suas idéias políticas filosóficas estéticas e jurídicas aqui se encontra a alegoria da caverna uma das mais belas passagens de toda a obra de platão o filósofo imaginou um estado ideal sustentado no conceito de justiça 9

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o prÉ-juÍzo ­ reflexos julgamento antecipado de um por michelli miranda andretta e rodrigo soares santos o reflexo do contato com a justiça na posição de suposto autor de um delito é desastroso na vida social e profissional do acusado amigos e familiares se afastam surgem problemas no trabalho ­ ou dificuldade em conseguir um ­ e ocorrem represálias que vão desde depredação da moradia até agressões físicas 10

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c como o próprio nome indica esse artigo tem por escopo discutir o julgamento que por muitas vezes é feito antes do julgamento oficial seja pela população opinião pública em geral ou pela mídia ao divulgar fatos que nem sempre correspondem à realidade ou ao disposto no processo judicial na maioria dos crimes com exceção dos envolvidos ninguém mais toma conhecimento do que decorre nos procedimentos judiciais porém há certos crimes que tomam dimensões muito maiores seja pela natureza do delito pela notoriedade dos envolvidos vítima ou acusado ou pela comoção social com o fato no momento em que determinado crime chega ao conhecimento de pessoas que não estão diretamente e provavelmente nem indiretamente relacionadas ao ocorrido muitas opiniões surgem mais do que o interesse em como o delito foi cometido preocupa-se com quem o cometeu encontrar um responsável é a ideia primordial a partir do momento em que a mídia passa a acompanhar o caso as proporções se multiplicam o assunto é citado várias vezes ao dia nos meios de comunicação e se torna o preferido nas rodas de amigos nas reuniões familiares nas mesas de bar o interesse neste tipo de ocorrência é perfeitamente compreensível a criminalidade atinge números alarmantes e muitas vezes choca aos que se julgam incapazes de realizar um ato desta natureza o anseio de que haja punição também é comum seja pela própria retribuição à conduta delituosa seja para que o criminoso sirva de exemplo e desmotivação a atos semelhantes seja pelo mais primário desejo de vingança apesar disso é necessário cautela não se pode deixar que a investigação e o decorrer do processo sejam contaminados pela opinião popular claro que em nosso estado democrático de direito devem ser defendidas a liberdade de expressão e de imprensa estando asseguradas constitucionalmente nos artigo 5º iv e ix e 220 §1º da carta magna em contraponto atentandose ao artigo 5º x também da constituição federal há os direitos do acusado principalmente quanto às suas garantias individuais a um processo isento e que respeite sua privacidade ainda que o processo seja público faz-se mister destacar que o primeiro contato da mídia com um caso criminal ­ e por conseguinte as primeiras informações passadas à população ­ se dá em momentos de vertente essencialmente acusatória a fase inicial é de investigação o inquérito policial e segue um modelo inquisitorial ou seja não há manifestação da defesa e portanto os dados ali contidos referemse tão somente à versão dos fatos levantada pela polícia finalizado o inquérito o próximo ato que dá início ao processo criminal propriamente dito é a denúncia elaborada pelo promotor de justiça membro do ministério público onde novamente o caráter é acusatório há ainda que se considerar a disparidade entre a velocidade com que as informações são vinculadas atualmente e a quantidade de atos processuais necessários à conclusão do caso sem citar a lentidão da justiça e a burocracia deste trajeto as prisões processuais ­ ou cautelares em flagrante temporária e preventiva ­ ou seja aquelas que ocorrem no decurso do processo e antes da sentença muitas vezes são entendidas pela população como penas antecipadas o que cria a falsa impressão de que o acusado seja realmente culpado na verdade é preciso entender que cada uma destas modalidades de prisão possui uma função específica dentro do processo e em nada se relaciona com antecipação de penalidade ou lastro de culpa lato sensu o que é fundamental lembrar é que a acusação é uma suposição de quem seja o autor do crime tanto durante o inquérito policial quanto no processo judicial há muito o que investigar descobrir e esclarecer até a condenação formal a inocência deve ser a regra há inúmeros casos em que as acusações não correspondem à realidade por vezes a própria condenação torna-se injusta pelo surgimento de 11

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novas provas ou mudanças em depoimentos nos estados unidos existe um dado interessante citado no livro memória de alan baddeley et al ed artmed e numa reportagem do programa norte-americano 60 minutes que demonstra que com o advento do exame de dna cerca de 200 pessoas foram inocentadas sendo que muitas delas já cumpriam pena há vários anos um caso no brasil ficou conhecido nacionalmente pela injustiça cometida trata-se do caso da escola base de são paulo no qual professores e funcionários tornaram-se suspeitos de abuso sexual contra alunos caso fictício semelhante é retratado no filme acusação em documentário realizado por estudantes do curso de jornalismo da universidade mackenzie-sp e disponível no site youtube demonstra-se o quanto a vida dos acusados foi modificada e o quanto sofreram depreciação pública em virtude da acusação infundada não entrando em mais detalhes sobre o exemplo supracitado o que deve ser destacado é que o reflexo do contato com a justiça na posição de suposto autor de um delito é desastroso na vida social e profissional do acusado amigos e familiares se afastam surgem problemas no trabalho ­ ou dificuldade em conseguir um ­ e ocorrem represálias que vão desde depredação da moradia do acusado até agressões físicas se esta já é uma situação complicada para alguém que realmente cometeu um crime o que acaba se tornando uma segunda penalização é inimaginável quão difícil é para uma pessoa inocente as consequências da estigmatização e segregação acompanham a pessoa pelo resto de sua vida até a família do acusado torna-se alvo de ofensas e retaliação posto que mesmo a penalidade aplicada pelo estado não pode passar da pessoa do condenado como prevê a constituição federal é inaceitável que agressões sociais o façam infelizmente porém atitudes nesse sentido são com frequência observadas não se pode olvidar que somente o estado tem o direito de punir e ainda assim após o devido processo legal ­ conforme o artigo 5º liv da constituição não cabe à sociedade tomar essa postura para si fazendo justiça com as próprias mãos na ânsia de punir conforme a lei de talião ­ olho por olho dente por dente outro ponto a ser destacado é que só é crime o que a lei define como tal são ações humanas selecionadas e que para as quais cabem determinadas penalidades apesar de haver um semnúmero de tipos penais a atenção da mídia e da população está sempre mais voltada para os crimes mais dramáticos mais visíveis crimes como os denominados colarinho branco econômicos financeiros empresariais etc não geram a mesma revolta que os crimes de rua homicídio roubo etc aos primeiros está garantida a discrição da imprensa como elucida michel foucault em sua obra clássica vigiar e punir também por isso a sociedade não se choca com o resultado destas transgressões e portanto não estigmatiza esse tipo de criminoso um dos motivos que justificam essa reação ou falta de é o fato de as vítimas destes crimes não se enxergarem como tal isso porque os danos são difusos se comparados aos de crimes comuns em casos que envolvem por exemplo má utilização de recursos públicos é quase impossível calcular precisamente quantas pessoas foram atingidas por essa conduta e geralmente isso ocorre indiretamente a verdade é que como explica james w coleman em a elite do crime há um percentual muito maior de vítimas destes crimes do que das demais modalidades delituosas além de os danos sociais serem maiores enquanto os crimes de colarinho branco são quase desconsiderados pela sociedade os demais delitos geram um clamor público bastante 12

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comum exige-se a criação de mais leis e de penalidades mais severas o que não é considerado neste anseio é que a legislação penal brasileira está entre as mais avançadas do mundo e em verdade necessária é a sua correta aplicação a justiça brasileira não necessita de mais leis ou penas mais rígidas o que realmente desmotiva a conduta delituosa é a certeza da punição e não necessariamente a quantidade de penalização com base nisso a impunidade torna-se o maior problema ao mesmo tempo em que a crença na impunidade acaba por estimular condutas criminosas é importante ter em mente que alguma parcela de crimes sempre ficará impune por mais que essa ideia não agrade eugenio r zaffaroni em em busca das penas perdidas explica que se todos os furtos todos os abortos todas as lesões etc fossem criminalizados praticamente não haveria nenhum indivíduo que não fosse criminalizado por diver sas vezes ­ destacam-se hoje os downloads ilegais de músicas filmes etc fica claro que este nível de criminalização não é desejado por ninguém além disso não há como imaginar um sistema penal que conseguisse investigar julgar e condenar esse volume de infrações diante do exposto permito-me concluir que ainda pior que não punir um culpado é condenar judicialmente ou não um inocente comente este artigo em mediacao@colegiomedianeira.g12.br michelli miranda andretta é ex-aluna do colégio medianeira bacharel em direito pelo unicuritiba e advogada oab-pr nº 56.566 email michelliandretta@yahoo.com.br rodrigo soares santos é psicólogo clínico e perito forense crp 08/7213 graduado pela ufpr mestre em avaliação psicológica pela usf-sp e professor de psicologia forense do curso de direito e de psicologia da universidade positivo email psicologiajuridica@terra.com.br injustiÇados the exonerated diretor bob balaban distribuidora focus um grande elenco se une para viver a emocionante história do filme injustiçados um drama perturbador sobre justiça e pena de morte baseado em fatos inquietantemente reais injustiçados mostra a dor de seis prisioneiros condenados à morte aguardando apenas o momento de suas execuções ao desespero dos condenados se une a uma forte sensação de revolta e impotência principalmente porque nenhum deles realmente é culpado dos crimes pelos quais foram erroneamente julgados o filme é baseado na peça de mesmo nome interpretada nos palcos por susan sarandon e seu marido tim robbins quem sÃo os criminosos autor augusto thompson editora lumen juris o reconhecimento da incapacidade recuperadora das penas e medidas de segurança evidenciou o sentido oculto reacionário desumanizante interessado do direito penal corretivo engalanado com as cores vistosas do progresso e da benemerência por isso endossado ingenuamente por liberais e homens de boa vontade atua de fato como eficiente fermenta da opressão/repressão a fornecer lhe meios tão duros e cruéis quanto os castigos empregados pelo direito penal retributivo pior na medida em que oculta o verdadeiro objetivo atrás da fraseologia da ressocialização do delinqüente cega as pessoas quanto à violência dos métodos empregados dificultando assim o surgimento de movimentos de resistência contra eles 13

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desaprender aprender aprender a desaprender por gladis tridapalli por que pensar que o desaprender é sempre uma coisa terrível na verdade ele faz parte de um processo dialético e de estranhamento É aí que o aprender e o desaprender dialogam gerando dois novos seres eu e outro você vai ler um artigo-depoimento sobre trabalho socioeducativo dentro da experiência da faculdade de artes do paraná fap como parte do programa universidade sem fronteiras 14

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i imaginemos alguém de maneira estável em cima de um tapete ambos parados tapete e corpo ­ pés lado a lado tronco alinhado seguido da cabeça com olhos na altura do horizonte imaginemos agora uma literal e desavisada puxada de tapete ­ um sofrível desequilíbrio tronco alterado bruscamente para frente ou para trás olhos perdendo o foco pés desalinhados na tentativa de achar novamente o chão perigo de cair de duas uma o corpo tomba no chão ou o corpo em movimento se desloca se reorganiza encontra novamente seus apoios e ainda alterado respiração ofegante permanece em pé em alinhamento precário mas atento ao presente eis a metáfora que instaura a discussão sobre o desaprender como exercício constante vigilante e tão necessário para agentes e propositores de projetos de extensão o desaprender se parece em muito com essa sensação de que o tapete foi tirado dos nossos pés em que por uma fração de segundos não sabemos como agir e ficamos suspensos no ar sujeitos a nos espatifarmos ou tratamos de arranjar um jeito de colocar os pés no chão e permanecer em pé depois do susto e quantas vezes nessa aventura prazerosa e dolorosa de conviver numa comunidade os tombos são inevitáveis e ficamos sem ação diante das diferenças que ferem as respostas previamente organizadas quantas vezes nos sentimos frustrados porque a proposta não deu certo não caminhou como imaginávamos quantas as vezes que nos preocupamos com o visível desinteresse e apatia por parte dos alunos quantas as vezes que usamos de velhas formas de autoridade para achar que as coisas estão sob o controle quantas quantas inúmeras vezes lidar com os revezamentos entre arte e educação em regiões que contemplam diferenças sociais econômicas naturais culturais um poucobastante distantes das nossas como é o caso desses projetos coloca em xeque muito do que sabemos somos aprendemos e essencialmente altera os modos como os relacionamentos se dão ainda mais quando a diversidade é visível conflituosa e não se pretende igualá-la e esse se encarado como desafio é que pode ser o bacana de experimentar a extensão na graduação um convite ao desconhecido ao pouco habitual ao estranhamento ao encantamento também matinhos cidade de praia das tantas coisas e gentes matinhos do comércio das bicicletas das crianças que não vão muito no mar dos adolescentes na praça e como em tantos outros lugares da violência como o tema da arte matinhos do menino que chega atrasado no projeto porque teve que ajudar o pai no mercadinho matinhos do outro menino que imita o michel jackson das meninas das meninas como tantas outras no brasil vestidas com roupinhas ditadas pela mídia bonito ou feio o que vemos certo ou errado em relação àquilo com que precisamos lidar não é essa a questão na tentativa de ir muito além das polaridades a extensão é um convite a reconhecer que processos educacionais quando vivos incompletos imprecisos são tecidos de instabilidades idas e voltas acertos e quase erros enfim processos feitos de nomes histórias afetos de gente gente como bem formula paulo freire gosto de ser homem de ser gente porque sei que minha passagem pelo mundo não é predeterminada preestabelecida que meu destino não é um dado mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir gosto de ser gente porque a história em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não determinismo daí que insista tanto na problematização do futuro e recuse sua inexorabilidade não foram poucas as vezes que munidos de um plano de aula bem formulado e de ideias ótimas anteriormente experimentadas pelo grupo fomos surpreendidos e desestabilizados pela realidade tão particular humana e problematizadora das comunidades envolvidas por mais que haja planejamento detalhado estudo prévio da metodologia formulação de planos de aula bem feitinhos e cronometrados a puxada de tapete 15

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