Tudo sobre a escola

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A Escola 2,3 /S Pedro Ferreiro publicou recentemente uma revista dedicada a dois temas: a própria escola e sobre a antiga geração de Ferreira do Zêzere.

Popular Pages


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revista de cidadania responsável ­ paulo marques nº 6 maio 2012 histórias de vida na primeira pessoa neste número traçamos o perfil dos nossos seis entrevistados cujas histórias de vida têm um destino comum a escola de ferreira do zêzere p 8 ­13 a escola básica 2,3 s pedro ferreiro integrante do agrupamento de escolas de ferreira do zêzere fez um caminho de crescimento e de desenvolvimento acelerado e dinâmico ao longo dos anos 90 em virtude do empenho competência e criatividade de todos os seus profissionais que equiparam uma escola antes incipiente em infraestruturas equipamentos organização administrativa e dinâmica pedagógica desempenhando um papel de vanguarda no concelho pelos saberes que soube mobilizar hoje responsáveis e professores pensam que o caminho realizado preparou bom terreno para um futuro que se avizinha exigindo todavia uma mudança a avaliar pelas palavras de um painel de entrevistados responsáveis e professores a escola parece encontrar-se agora na abertura dessa mudança painel de entrevistas p 6 ­8 eb 2,3 s pedro ferreiro uma escola em mudanÇa alunos entrevistam idosos histórias e memórias de ferreira do zêzere p 4 ­5 p 14 ­21 25 e 28 reportagem fotográfica grupo de animação sociocultural descobre pontos fortes e fracos da escola 1

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Índice capa ­ uma escola em mudança 3 fátima graça pegas 4 5 o que temos de bom e de mau na escola 6 8 tema de capa escola prepara mudança 8 13 os trabalhos e as paixões de seis profissionais da casa 14 21 25 e 28 histórias e memórias de ferreira do zêzere 22 ­ 24 inquérito sobre o uso de álcool drogas e tabaco 26 ­ 27 educação especial e gabinete de psicologia e orientação 28 editorial ficha técnica ponto de vista revista de cidadania eb 2,3/s pedro ferreiro ferreira do zêzere responsável paulo marques redacção alunos do 12º ano turma a alunas do 2º ano do curso profissional de animação sociocultural nº 6 maio 2012 escola 2,3/s pedro ferreiro ferreira do zêzere 2

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aconteceu a fátima pegas aquilo que apenas parece acontecer em novelas a aluna que casa com o professor a dona fátima é uma das auxiliares mais antigas da escola a sua mãe já o era costumava dizer-lhe «mãezinha um dia que saia da escola eu vou para lá» assim foi ingressou na escola de ferreira do zêzere em 1986 após uma experiência de vida em almeirim valpaços e lamego acompanhando o marido que era professor e com uma filha foi em valpaços que por concurso público conseguiu começar a trabalhar como auxiliar numa escola preparatória casou em 1980 foi para almeirim e depois para valpaços quando a filha já tinha dois anos tendo hoje 30 e é enfermeira em santarém quase esteve para construir uma vida no norte mas não foi possível adorou viver em valpaços as pessoas eram muito boas mas o lugar era muito pobre e isolado nem havia pediatra caso a filha precisasse o marido teve oportunidade de regressar a ferreira do zêzere e assim aconteceu a pequena família voltou à base hoje viúva fátima pegas vive e trabalha praticamente na escola pois do seu quarto vê o seu local de trabalho conta que no ano em que começou o namoro com antónio pegas professor de biologia também outras duas alunas começaram a namorar com professores e ambas como ela viriam a casar conta ainda um episódio cómico um dia já trabalhando como auxiliar na escola foi vista por uma professora em tomar de mão dada com antónio pegas e claro a professora em causa não sabendo da união entre ambos ficou chocada e não descansou enquanto não contou na sala de professores que tinha visto o colega antónio com a d fátima o resultado foi uma risota geral pois quase toda a gente sabia menos a pessoa que quis contar a novidade fátima graça pegas auxiliar de acção educativa 3

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reportagem fotográfica na escola o que temos de bom e de mau um grupo de alunas do curso técnico de animação sociocultural teve a ideia de sair da sala de aula para fazer um trabalho que consiste num verdadeiro exercício de cidadania a ana marisa salteiro a rita antunes e a vanessa alcobia pegaram numa máquina fotográfica e foram à procura das coisas boas que a escola tem mas também das coisas menos boas chamaram-nas pontos brancos e pontos negros descobriram que a maioria das coisas más é da responsabilidade ou da irresponsabilidade dos alunos que não respeitam as normas básicas de higiene e de ambiente ecológico mas também se explica por alguma deterioração do edifício felizmente os aspetos bons também são muitos ana marisa salteiro rita antunes vanessa alcobia pontos negros 4

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pontos brancos na escola existem coisas más e coisas boas dentro das coisas más existe material danificado nas salas nas casas de banho no interior e exterior do edifício e humidade em geral os materiais das salas de aula estão estragados e degradados como por exemplo as mesas cadeiras estores e pintura dos aquecedores por exemplo escritos quebrados sujos etc nas casas de banho algumas paredes e portas encontram-se por vezes riscadas pelos alunos por vezes sem papel para a higiene pessoal e muitas vezes os alunos atulham as sanitas com papel o que provoca desperdício de água nos autoclismos muitas vezes os alunos não cuidam do estado de limpeza dos espelhos no interior do edifício encontra-se também algumas paredes riscadas algum lixo no chão cacifos bastante degradados em certos pontos o mosaico do chão está levantado e há falhas e imensas fissuras no teto no exterior existe lixo no chão mais do que parece e do que deveria haver o que contribui mais tarde ou mais cedo para a degradação do ambiente existe uma vez mais material danificado desta vez no espaço exterior embora a escola disponibilize materiais para entretenimento alguns alunos têm tendência para estragar o material comportamento este que deveria ser modificado mas também encontramos coisas boas na escola como por exemplo informação exposta ao alcance dos alunos uma biblioteca com excelentes condições uma boa decoração interior e exterior e alguma infraestrutura para entretenimento na parte exterior a nível do meio ambiente há uma boa paisagem que mostra bom aspeto e é agradável à vista 5

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após quase 20 anos de desenvolvimento escola prepara mudanÇa seis pontos de vista sobre a evolução da desde a sua inauguração em finais dos anos 70 até aos dias de hoje há um traço que teimosamente define a eb 2,3/s pedro ferreiro de ferreira do zêzere realizando aquela boa verdade de que as instituições são criadas afinal para servir as pessoas que nelas diariamente laboram ­ o traço que português talvez a única docente que esteve colocada na escola em finais dos anos 70 conhecendo-a por isso quase desde a inauguração do edifício principal conta-nos que já desde essa altura se notava esse traço dominante «a escola era agradável estava-se bem o ambiente na sala de professores era fantástico havia um corpo docente jovem pequeno que passava o tem definido a escola é o bom tempo na escola dávamo-nos todos bem era um ambiente na sala de professores grupo coeso unido partilhávamos boleia refeições e desde sempre É o seu ponto forte todo o cresci saídas a escola cheirava a nova.» mento e desenvolvimento que a escola tem tido principalmente desde meados dos anos 90 e o papel que tem desempenhado na educação e formação de crianças jovens e adultos de ferreira do zêzere assumindo-se como «a vanguarda do concelho» paulo mendes professor de história tem a sua origem e segredo nos profissionais que nela trabalham professores funcionários administrativos e auxiliares e a base desse trabalho tem sido precisamente o «excelente relacionamento entre o pessoal docente» isabel saúde directora de facto como sublinha anabela maria professora de história «o bom ambiente na escola é o que a caracteriza melhor» etelinda vieira professora de 6

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ao longo dos anos 80 a escola deteriorouse os mais antigos professores atualmente em fundepois o tempo passou e ções chegaram à escola entre finais dos 80 e início dos 90 contam que quando chegaram nessa altura encontraram uma «escola fantasma» anabela maria «tipicamente de província» paulo mendes «pobre a mostrar muita degradação» antónio pedro coordenador do departamento de ciências humanas e professor de história chovia nas salas não havia jardim o espaço exterior não estava arranjado como hoje está toda a logística era insuficiente com más condições era depois ainda na primeira metade dos anos 90 um grupo de três jovens professores isabel saúde manuela canas e paulo mendes decidiu mudar as coisas constituíram uma lista candidataram -se à eleição para o órgão de gestão da escola e surpreendentemente ganharam paulo mendes um dos eleitos em 1993/94 dava uma aula quando lhe foram comunicar freneticamente o resultado inesperado o imobilismo terminaria nesse ano abrir-se-ia uma época de revolução tudo mudaria da noite para o dia «Éramos jovens revolucioná rios que iam mudar o mundo» m canas escola nos últimos 20 anos tudo em madeira refletindo um pouco a comunidade em redor o concelho pobre isolado de mentalidade fechada contam os professores entrevistados que nessa altura o órgão de gestão era autoritário hierárquico rígido nada dinâmico conservador conformado monótono adjetivos que redundavam em «um vazio em termos de gestão a escola não era uma organização» isabel saúde paulo mendes lembra que «era uma escola parada no «quando não existe nada é fácil criar» diz isabel saúde «nos primeiros anos conseguimos mudar rapidamente» foi uma época de euforia e de crescimento acelerado o que mudou foram as instalações os equipamentos a organização administrativa e a dinâmica pedagógica o novo órgão de gestão mobilizou mundos e fundos para transformar o espaço escolar surge uma associação de estudantes uma biblioteca é criada começou a participação em projetos pedanacionais e europeus «a escola começou a tempo a apodrecer» não havia bibliote gógicosvida [paulo mendes agitando toda a comuganhar ca nem associação de estudantes o corpo docente era instável visto que 80 era constituído por professores nidade foi uma época em que tudo com colocação anual os alunos que eram poucos era novidade tudo o que se fazia manifestavam graves problemas familiares económico nunca tinha sido feito as mudanças -sociais com muitas dificuldades escolares e mesmo foram muito repentinas o poder tornou-se mais com problemas de alcoolismo em casa com os pais democrático participativo e partilhado.» a mudança maria manuela canas professora bibliotecádurou anos e a escola tornou-se melhor muito ria melhor continua na pág seguinte da esq para a dta antónio pedro etelinda vieira anabela maria maria manuela canas isabel saúde paulo mendes 7

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continuação da pág anterior atualmente a escola tem uma máquina diretiva e administrativa bem constituída e organizada possui bons equipamentos e instalações razoáveis possuindo meios logísticos e tecnológicos suficientes e um espaço exterior maravilhoso um corpo docente estável e continua a participar em muitos projetos de carácter pedagógico nacionais e europeus os alu nos gostam de estar na escola e a escola preparou-se bem estes anos todos para os receber e ter na escola a tempo inteiro e no entanto há sinais de um certo desencanto um certo desalento não tanto pelo traço que define a escola pois «é uma escola em que as pessoas se relacionam bem há um bom ambiente entre professores funcionários e alunos anabela maria «é uma escola simpática» antónio pedro mas mas «não mudámos» confessa manuela canas num forte desabafo quase como que a contradizer todo o projeto de mudança que ajudou a desenvolver desde os anos 90 «uma das coisas que mais me entristece no meu percurso profissional é andar há vinte e tal anos nisto e não conseguir mudar as mentalidades» manuela canas chegou a ser professora de pais de alunos seus de hoje portanto professora de duas gerações «e esperava que a nova geração estivesse diferente em termos culturais e mentais e [diz acho que não aconteceu nada o que me entristece é que tudo continue na mesma.» paulo mendes considera que seria impossível manter uma dinâmica continuada ao ritmo de antes e isabel saúde explica também que a rapidez de mudança dos primeiros tempos seria difícil de manter porque «depois de montada a máquina cada mudança torna-se mais lenta e pesada.» paulo mendes considera ainda que hoje o poder na escola é menos partilhado do que já foi e que as decisões do órgão de gestão são mais impostas ao mesmo tempo que lembra que a sua antiga colega de gestão isabel saúde se encontra na direção da escola desde 1993 todavia a atual diretora da escola confessa que ela própria provavelmente está «a precisar de mudar de vida» manuela canas por seu lado confessa que até a biblioteca está a precisar de uma mudança a professora que chegou a conhecer a escola quase na inauguração do seu edifício principal etelinda vieira conclui a sua entrevista com estas palavras «a os trabalhos e as paixões de seis profissionais da casa escola está velha É preciso mudar as coisas.» 8

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percursos de vida que têm na escola um destino comum paulo mendes professor de história «percebi que era partilhando que teria amigos» entrevista com colaboração de joão marmelo e júlio magalhães se por político entendermos a pessoa que faz uso público da palavra para discutir racionalmente os assuntos da comunidade no sentido de contribuir para a tomada de decisões e para a solução conjunta e dialogada de problemas comuns a todos então paulo mendes é um homem profundamente político É não apenas uma questão de atitude profissional mas também uma questão de personalidade profundamente interessado nos assuntos e destinos da escola pertenceu durante dois mandatos ao órgão de gestão assume uma postura quase permanente de questionamento das decisões e ações em curso sempre no sentido de procurar calibrar de acertar agulhas e pontaria relativamente ao alvo que considera estar verdadeiramente em causa nota-se que ser interventivo ativo e amplamente sociável interessado na resolução de questões sociais amigo dos amigos são qualidades que fazem parte da sua natureza hoje é um homem que procura com o uso crítico da palavra o esclarecimento a justificação quase à maneira de inquérito judicial chegou a estudar direito e o pai destinava-lhe advocacia parece uma espécie de contrapoder faz uso abundante da ironia essa qualidade que tanto faz rir como faz azedar o riso e o azedume que sempre desinstalou o poder de águas paradas a sua sociabilidade é marca de uma profunda e primitiva necessidade o homem é um animal político mas alguns são mais políticos do que outros e outros são mais animais do que outros mas isso não vem agora ao caso paulo mendes foi e é filho único e ao contrário do que é comum pensar-se ou suceder essa situação forçou-o a não se tornar egoísta pois para compensar a ausência de irmãos aprendeu a convencer os outros a serem seus amigos e percebeu que era partilhando que conseguiria ter amigos eis aqui a origem do lugar que sempre procurou na comunidade a procura dos outros ter amigos já a mania do contrapoder foi uma arma que usou contra o pai militar de profissão o pai queria que o filho se tornasse advogado formado em lisboa o filho a contragosto obedeceu mas a verdade acabou por vir à tona o jovem gostou muito de lisboa frequentou bares círculos de amigos ia a concertos e ouvia muita música tudo menos estudar «em lisboa andava a passear» conta e o sonho do pai foi ao fundo paulo mendes pela sua capacidade natural de argumentar e de fazer uso crítico da palavra daria um bom advogado mas não seria esse o seu projecto queria história o pai aceitou a contragosto mas mandou-o para coimbra fez o curso e tornou-se professor depois ao mesmo tempo desmultiplicou-se em actividades desde a fotografia à política partidária passando pela música ser professor era apenas uma parte da sua vida fez fotografia no grupo o grafo de tomar uma fotografia artística e interventiva foi disc -jockey tornou-se membro do psr hoje integrado no bloco de esquerda e esteve no órgão de gestão da escola onde hoje trabalha as crescentes exigências burocráticas da profissão escolar obrigaram-no a abandonar muitas daquelas actividades gosta de ser professor e de ensinar mas se tivesse de começar de novo nas atuais condições não quereria gosta de contar a história do seu primeiro dia de trabalho na escola foi proibido de entrar na sala de professores pelo auxiliar de então o senhor albertino que o confundiu com um aluno «não pode entrar aí é só para professores!» proferiu albertino «calha bem porque sou professor!» respondeu o irreverente paulo mendes o tamanho do cabelo contribuiu para a confusão 9

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etelinda vieira professora de português esteve colocada em ferreira do zêzere em 1979 sendo talvez a única ou das muito poucas professoras que tem memória do que era a escola pouco depois da inauguração do edifício principal ensinou a disciplina de português nesse ano e no entanto apenas viria a licenciar-se quase vinte anos depois em coimbra É que a vida de etelinda vieira não foi traçada a régua e esquadro teceu-se antes num emaranhado de avanços e recuos de voltas e contravoltas um arabesco houve mesmo uma fase em que coincidiram a doença o divórcio o desemprego o atraso na formação e três filhos para cuidar a volta foi dada por cima e sublinha que se não fossem os próprios filhos não teria conseguido passamos a contar natural de torres novas aos dez anos ingressou no colégio interno de santa maria e lá ficou até completar o 9º ano de escolaridade depois foi hospedada num quarto em tomar cidade onde viviam os seus irmãos e onde fez o ensino secundário tendo deixado filosofia por fazer em seguida foi para lisboa onde iniciou o curso de secretariado e administração no isla ao mesmo tempo que completava filosofia corria o ano de 1974 ano da revolução democrática nesse ano ingressou na faculdade de letras em lisboa em românicas no ano do verão quente de 1975 a faculdade fechou as portas e etelinda vieira regressou a tomar em 1976 começou a dar aulas com o curso realizado no isla e como era titular do 2º ano do curso complementar de nível secundário e como tinha feito latim tinha habilitações para trabalhar no ensino público assim em 1976 ensinou português em torres novas no mesmo ano que casou e teve o seu primeiro filho três anos depois em 1979 faz o propedêutico pela televisão que era um equivalente a um terceiro ano do ensino secundário nesse ano trabalha em ferreira do zêzere em 1980 regressa ao curso de românicas mas desta vez na universidade nova de lisboa vivendo em tomar desistiu logo porque não aguentou nasce o seu segundo filho manteve-se sempre a trabalhar como professora não licenciada em 1985 pede o reingresso na unl com transferência para a universidade de lisboa fez quatro disciplinas trabalhava e vivia em tomar nasceu o terceiro filho em 1987 vida cansativa exigente ficou muito fragilizada em 1988 surge um grave problema de saúde em 1991 divorciase ano em que é hospitalizada recomeçou depois a trabalhar em abrantes e a seguir em tomar já em 1992 nesse ano pede o reingresso na ul para recomeçar românicas e acaba por recomeçar desta vez de vez mas a partir do zero e em coimbra a odisseia do curso terminará em 1998 licenciando-se em línguas e literaturas modernas variante de estudos portugueses e franceses durante o tempo de estudo viveu sempre em tomar tinha três filhos os mesmos que lhe deram a força de que precisou e trabalhava trabalhou em tomar figueiró dos vinhos santarém ferreira do zêzere já licenciada avis portalegre estágio samora correia salvaterra de magos tomar e por fim de novo e pela terceira vez ferreira do zêzere no ano 2002/03 onde ainda se encontra a ensinar português 10

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maria manuela canas professora bibliotecária entrevista com participação de joão marmelo e júlio magalhães professora bibliotecária licenciada em história pela universidade nova de lisboa natural de santarém ainda que tenha vivido grande parte da vida em torres novas residente agora em ferreira do zêzere estudar história em lisboa foi o ponto de chegada de fantasias da primeira juventude e o ponto de partida para a realidade da vida quem não se lembra de os cinco de enid blyton e das suas aventuras que povoavam as fantasias de muitos de nós quando éramos pequenos pois foram essas histórias que ao longo do tempo conduziram manuela canas à história por causa das aventuras de descoberta daquele grupo de jovens da ficção inglesa explica foram os cinco e também uma professora de história do 7º ano conta que não se limitava a dar a matéria mas incutia nos alunos o fascínio também da descoberta para manuela canas a história é o prazer da descoberta em lisboa a sua formação derivou principalmente de um novo modo de vida que foi conhecer numa grande cidade aconselha os seus alunos a fazerem o que ela fez ­ que escolham um curso por gosto e vocação e não por utilidade pois «escolher um curso só pela saída profissional esvazia-nos» foi um drama ir para lisboa e sair de lisboa primeiro porque foi sozinha e deixou a família e depois porque deixou a cidade e os amigos após o curso começou a trabalhar no instituto vaz serra em cernache do bonjardim como professora de francês valeu-lhe uma formação na alliance française em lisboa no primeiro dia de trabalho perguntaram-lhe se «a menina era aluna de dia ou de noite» seria aí professora de francês e de história nos três anos seguintes e depois concorrendo ao ensino público ficou colocada em ferreira do zêzere em 1987/88 seis anos depois integraria o órgão de gestão eleita com isabel saúde e paulo mendes ficaria depois responsável pela biblioteca da escola porque gosta de livros como objecto e como texto para ler tudo começou numa pequena salinha onde havia uns armários e umas mesas e poucos livros depois foi sempre a crescer num trabalho em equipa até se levantar a biblioteca que a escola hoje tem 11

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isabel saúde diretora do agrupamento de escolas de ferreira do zêzere diretora da eb 2,3/s pedro ferreiro ferreira do zêzere natural de tomar faculdade de letras da universidade de coimbra 1983 começou a carreira profissional no ensino em mira d´aire depois passou por caldas da rainha açores tomar e por fim ferreira do zêzere foi professora de história português e estudos sociais chegou a ferreira do zêzere em 1988/89 e cinco anos depois integraria o órgão de gestão como presidente onde ainda se mantém como diretora quando chegou a ferreira do zêzere assim o quis para ficar próxima de tomar gostou da escola passou a sentir-se bem nela ao ponto de a desejar gerir o ambiente entre os jovens professores era muito bom candidatou -se à presidência da escola em 1993/94 por considerar que havia condições para que a escola funcionasse de outra forma quis com colegas mudar a escola diz que muito foi mudado hoje confessa um certo cansaço pensa que provavelmente está a «precisar de mudar de vida» acha que a escola tem «pernas para andar» tem um corpo docente estável organização administrativa e infraestruturas que lhe garantem estabilidade e possibilidades para quem lhe possa dar continuidade conquistou-se um «saber-fazer» que não se vai perder 12

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antónio pedro coordenador do departamento de ciências humanas natural do porto professor de história licenciado pela universidade de lisboa coordenador do departamento de ciências humanas desde pequeno que quis ser advogado e ainda esteve um ano a estudar direito mas abandonou o curso «não gostei» viveu no porto até aos cinco anos e depois foi para lisboa estudou na escola d pedro v e na passos manuel após o curso de história a sua experiência profissional foi construída em silves vila de rei cernache do bonjardim instituto vaz serra torres novas e finalmente ferreira do zêzere enquanto coordenador do departamento de ciências humanas apresenta um estilo pessoal muito marcado organizado aprumado racional quase mecânico ­ aliás o seu discurso transparece o mesmo um discurso no tom na forma e no conteúdo com uma mecânica de lei muito jurista uma engenharia de frases ­ e no entanto quando solicitado a definir o que é ser professor responde com uma base emocional «ser professor é alegrias e tristezas» pertenceu ao órgão de gestão entre 1988 e 1992 atualmente faz parte do conselho pedagógico e coordena o departamento de ciências humanas considera que o problema maior da educação está na diferença entre as culturas informais das famílias de onde provêm os alunos onde o baixo grau de escolaridade dos pais é um agravo e a cultura formal da escola o que provoca muitas dificuldades de integração dos jovens no mundo escolar anabela maria professora de história natural de alcobaça reside em torres novas professora de história e licenciada pela faculdade de letras da universidade de lisboa É uma especialista no ensino educação e formação de adultos mas hoje trabalha com adolescentes do 3º ciclo gostava de ter uma escola de qualidade em que os alunos aprendessem efetivamente gosta que os seus alunos aprendam a descobrir e a construir os seus saberes para adquirir autonomia mas isso é o mundo cor-de-rosa o mundo pintado a cores reais não é bem assim anabela maria que já pertenceu ao órgão de gestão da escola durante quase uma década tendo ficado com a pasta da educação e formação de adultos gostava de ter uma escola de qualidade mas acha que palavras suas e no plural «nunca o conseguimos e não sei porquê» por exemplo os alunos do 3º ciclo ao qual gostou de voltar e ao qual conseguiu adaptar-se «querem as coisas já feitas» o que choca com o seu estilo de ensino voltado para o ensino da construção dos próprios conhecimentos É diretora de uma turma de percursos alternativos que tem um currículo específico diz que são alunos muito desafiantes a sua evolução é invisível mas o resultado é interessante anabela maria fez o 12º ano na escola secundária cidade universitária lisboa trabalhou no tramagal mação benavente e alcanena antes de chegar a ferreira do zêzere «ai onde vim parar!» foi a primeira coisa que sentiu quando viu a escola pela primeira vez diz que a escola mudou muito para melhor 13

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grande reportagem histórias e memórias de ferreira do zêzere alunas da escola realizaram uma reportagem sobre o viver de antigamente em ferreira do zêzere procurando compreender um pouco da história da região as suas memórias principalmente através de entrevistas realizadas a avós tias e outras pessoas já de idade contando igualmente com o apoio da biblioteca municipal de ferreira do zêzere que as orientou na pequena investigação e lhes disponibilizou bibliografia e fotografias antigas ao mesmo tempo fizeram um pequeno retrato da nova geração falando com jovens da escola e do concelho descobrindo o seu perfil e aspirações catarina peixoto ferreira do zêzere o concelho é limitado pelo importante curso de água rio zêzere que deu nome à vila as águas sobem vidas submersas em 1895 foi inaugurada a primeira ponte de vale da ursa por fontes pereira de melo a segunda viria a ser construída em 1950 e 1951 com o intuito de substituir a antiga que ficaria submersa devido à construção da barragem de castelo de bode e enchimento da albufeira em 1951 a construção da barragem e o nascimento da respetiva albufeira teve um grande impacto socioeconómico na região terrenos agrícolas as tradicionais rodas os lameiros e várias povoações ficaram submersas foi um processo doloroso para os habitantes do rio fundeiro e dornes o antigo rio fundeiro por exemplo era um lugar movimentado havia bailes todos os fins-de-semana com mais de 40 habitações estes na grande maioria reconstruíram a sua vida noutras povoações dentro do concelho antigamente as casas eram simples as paredes eram construídas de xisto a pedra dominante na região habitualmente não caiadas com divisões de madeira e o chão térreo ou seja sem soalho em regra as casas tinham apenas rés-do-chão ou também rés-do-chão e primeiro andar para onde dava uma escada exterior que por vezes terminava numa pequena varanda ao lado ou no rés-do-chão das habitações viviam os animais domésticos a população abastecia-se de águas em más condições de captação água de poços fontes de mergulho e bicas dado que não existia água canalizada para além disso poucas eram as casas com luz elétrica a maioria das pessoas utilizavam um candeeiro a petróleo a base da alimentação era o pão de milho ou centeio e hortaliça principalmente nabos e couves galegas os produtos produzidos e passíveis de venda não eram consumidos leite ovos galinhas porcos coelhos queijo e até mesmo a fruta sobretudo ameixa cereja e medronho era utilizada para fazer 14

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alunos em busca da identidade da região apontamento de viagem ao passado aguardente era vendido tudo o que fosse possível a mulher que era maioritariamente doméstica contribuía para o sustento da casa através destas vendas a alimentação deficiente era visível e o abuso de álcool comum a pobreza e atraso estavam patentes no modo de vida da população as tabernas abundavam e pelo menos ao domingo e dias santos depois da missa recebiam farta freguesia neste tipo de locais era comum jogar-se o jogo da medalha jogo do fito cartas chinquilho e matraquilhos existia o hábito de embriagar as crianças de peito para poderem ficar em casa sozinhas a dormir superstições e outros costumes influenciavam os atos das pessoas por exemplo na utilização da pequena cruz ou das figas para evitar o mau-olhado geralmente em todas as freguesias existia uma igreja a religião tinha uma certa importância e era a figura materna que se encarregava de manter vivos os hábitos de oração tais como rezar o terço as tradicionais festas religiosas que perduram até aos dias de hoje acabavam ao pôr-do-sol depois de uma missa procissão taberna aberta e sorteios a população nascia e morria quase sem assistência médica na vila existia um centro de saúde com um só médico na frazoeira existia uma clínica privada onde o dr real como é conhecido ainda hoje dava consultas as pessoas só visitavam o médico no caso de sofrerem de um problema de saúde não existia o hábito de fazer consultas de rotina as crianças brincavam como podiam e construíam os seus próprios brinquedos tais como carros e motas de madeira e bonecas de trapos nas escolas um só professor encarregava-se de ensinar dezenas de alunos normalmente estudavam até à quarta classe trabalhavam nas férias e depois iam trabalhar no campo na cerâmica no tijolo na madeira o dinheiro que recebessem era dado aos pais com o passar dos anos a escolaridade expandiu-se até à sexta classe muitas coisas mudaram e evoluíram contudo as memórias continuam vivas e deste modo ferreira do antigamente foi a base do que esta vila e todo o concelho é atualmente 15

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