eisFluências - Revista Literária e Informação

 

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eisFluências - Revista Literária e Informação eisFluências - Literary Magazine and Information Revista de Junho de 2012 Magazine 2012 June Revista literária e informação em lingua portuguesa e eventualmente com artigos em espanhol Literary m

Popular Pages


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issn 2177-5761 issn 2177-5761 9 772177 576008 revista bimestral junho/2012 ano ii núm xvii naÇÃo crioula e a teoria de bakhtin resenha por isabel c.s vargas nação crioula de autoria de josé eduardo agualusa autor nascido em angola com amplo conhecimento daquela realidade e profundo interesse pela realidade brasileira mostra o romance que ocorreu no século xix entre fradique mendes um aventureiro português e ana olímpia vaz de caminha uma figura capaz de enriquecer qualquer narrativa pela vida cheia de situações diferentes e antagônicas pois embora nascida escrava foi uma das mulheres mais ricas e poderosas daquela região africana de cultura portuguesa ou seja angola É importante ressaltar que fradique mendes é um personagem de eça de queirós que agualuza tomou por empréstimo para personagem central de seu romance incluindo na sua narrativa o próprio eça de queirós misturam-se personagens e pessoas reais a história se desenrola entre 1868 a 1900 e é contada através das cartas trocadas por fradique mendes e sua madrinha madame jouarre entre ele e ana olímpia e com eça de queirós nas cartas relata seu trânsito entre personagens ricos pobres do clero malfeitores passando por situações inusitadas desde sua chegada em angola sua às vezes turbulenta permanência o encontro casual com ana olímpia por quem de imediato nutre um sentimento especial e todo o suspense ­ poderia dizer drama ­ que envolve sua amada até poder libertá-la para com ela viver fradique não tem um trabalho vive da mesada que sua madrinha lhe envia mesmo assim tem uma vida de regalias em angola as cartas narram os episódios ocorridos em angola de 1868 a 1876 posteriormente viaja para pernambuco naquele que talvez fosse o último navio negreiro da época o naÇÃo crioula para fugir de seus perseguidores e de ana olímpia pois suas vidas corriam perigo a partir daí suas missivas são de olinda para onde se transferem a princípio para casa de amigos e mais tarde para uma propriedade que adquire na bahia onde passa a viver de forma abastada reproduzindo a vida de muitos senhores com quem tivera contato em suas andanças com escravos e bens lá tem uma filha mas não permanece no brasil posteriormente vai para a frança onde morre ana olímpia e a filha sophia fazem o caminho de volta para África o romance termina com uma carta de ana olímpia a eça de queirós onde ela relata a sua história a dialÓgica de bakhtin e o discurso romanesco as imagens romanescas fundamentais são representações dialogizadas interiormente das linguagens de outros dos estilos das concepções de mundo bakhtin 1988 p.367 todo romance em maior ou menor escala é um sistema dialógico de imagens bakhtin p 371 no seu processo de surgimento e desenvolvimento inicial a palavra romanesca refletiu a antiga luta de tribos povos culturas e línguas ela era uma ressonância completa dessa luta bakhtin p 371 bakhtin contrapõe-se aos seus contemporâneos que colocavam os personagens como aqueles de uma fotografia isto é numa cena muda É a linguagem o campo potencial de representação das tensões sociais inclusive as provocadas pelo desajuste entre produção social e apropriação privada machado p.284 bakhtin começou seus estudos sobre dostoievski com seu romance polifônico que foi o núcleo dos estudos de bakhtin para bakhtin o romance é um texto característico de um estágio na história da consciência não porque indica a descoberta do eu mas porque manifesta a descoberta do outro pelo próprio eu m.holquist 1990:75 apud machado p.286 o romance é multiforme e inacabado e mostra em si vários discursos gêneros e linguagens bakhtin não acreditava que princípios canônicos rígidos pudessem dar conta de todos os aspectos multiformes do romance e resultar numa poética consistente para ele o caráter épico do romance situa-se no uso da voz que bakhtin estudou nos procedimentos de transmissão do discurso de outrem do discurso bivocalizado e do romance polifônico machado p.288 vamos citar três particularidades fundamentais que distinguem o romance de todos os gêneros restantes segundo bakhtin 1 a tridimensão estilística ligada à consciência plurilíngüe que se realiza nele;

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02 eisfluências junho 2012 2 transformação radical das coordenadas temporais das representações literárias do romance 3 nova área de estruturação da imagem literária no romance justamente a área de contato máximo com o presente contemporaneidade no seu aspecto inacabado bakhtin 1988 p.404 os aspectos acima citados estão ligados entre si e refletem a mudança da sociedade patriarcal e fechada em direção às novas condições de relações internacionais e de ligações interlingüísticas que podemos dizer ocorreu não só na europa no século passado mas continua ocorrendo permanentemente com o desvelamento se assim se pode chamar de outras culturas pelo processo midiático global cada vez mais intenso terminou o período da coexistência surda e fechada das línguas nacionais bakhtin 1988 p.404 o romance se formou e se desenvolveu nas condições de uma ativação aguçada do plurilingüismo exterior e interior esse é o seu elemento natural É por isto que o romance encabeçou o processo de desenvolvimento e renovação da literatura no plano lingüístico e estilístico bakhtin 1988 p.405 o romance anteriormente identificado com gêneros inferiores não mais é assim considerado o romance está ligado aos elementos do presente inacabado que não o deixam enrijecer permitindo sua permanência e adequação ao tempo e espaço esta contemporaneidade entretanto não exclui a narrativa do passado o romance mantém estreita relação com os gêneros extraliterários-a vida corrente e a ideologia bakhtin p.422 o romance em sua evolução passou a retratar tanto um sermão quanto um tratado filosófico quanto questões políticas ou ainda questões íntimas interiores através de cartas diários e bilhetes entra em relação com o acontecimento que está se desenvolvendo agora no qual o leitor também está ligado de maneira substancial para concluir vamos às conclusões de bakhtin sobre o romance 1 o romance tem caráter inacabado 2 se formou no processo de destruição da distância épica no abaixamento do objeto da representação artística ao nível de uma realidade atual inacabada e fluída 3 com ele se originou o futuro de toda literatura 4 É acanônico É um gênero que eternamente se procura se analisa e que reconsidera todas as suas formas adquiridas conclusÕes o romance nação crioula de josé eduardo agualusa mostra em seu desenrolar vários discursos gêneros e linguagens nele estão presentes as vozes dos intelectuais inclusive pela intertextualidade óbvia com o empréstimo do personagem do homem comum do escravocrata do negro escravo da mulher ­ escrava ou liberta mostra o discurso familiar a voz do oficial do militar diferente do discurso do submisso apresenta as três peculiaridades anteriormente citadas nas quais salientamos o aspecto inacabado a tridimensão estilística ligada à consciência plurilíngüe que se realiza nele além da transformação radical das coordenadas temporais constata-se a mudança da sociedade fechada para uma sociedade internacional na qual os personagens têm livre trânsito e conseqüentemente mantendo relações interlingüísticas o romance em questão apresenta em si aquelas particularidades referentes à vida corrente e a ideologia utilizou o autor de recursos que os romancistas começaram a utilizar já em épocas mais evoluídas do romance que são as cartas o próprio nome nos indica a amplitude do seu conteúdo pois nação não está afeita a limites territoriais mas sim a sentimento coletivo crioula nos remete à mestiçagem mestiço é um outro sujeito que se constitui a partir de dois sujeitos distintos guardando em si elementos de cada um mas que se constitui em uma terceira voz distinta daquelas que o formou a partir do título já temos subentendida a polifonia de bakhtin encontramos a voz de uma África negra uma África que se diz portuguesa de uma nação portuguesa colonizadora da África que se tem superior e de um brasil mestiço que por vezes parece ignorar sua parcela negra temos no corpo do romance histórias questionamentos críticas à história críticas sociais dramas pessoais que espelham a dialógica de bakhtin e a polifonia núcleo de seus estudos referÊncias bibliogrÁficas agualuza josé eduardo nação crioula a correspondência secreta de fradique mendes rio de janeiro gryphus 2001 bakhtin mickhail questões de literatura e de estética 3.ed sp unesp hucitec 1998 machado irene a o romance e a voz a prosaica dialógica de bakhtin imago fapesp isabel c s vargas pelotas/rio grande do sul/br www.isabelcsvargas.com biografia da autora isabel c.s.vargas é professora advogada aposentada no serviço público jornalista especialista em linguagem verbal visual e suas tecnologias com cerca de trezentas publicações no diário da manhãpelotas rs publicações na revista eletrônica lápis e luz no varal do brasil suíça do clube dos autores;publicação acadêmica na biblioteca on-line de comunicação social em portugal na universidade leste de minas gerais e no jornal a página portugal participa das antologias on line da cbje além de mais uma centena de publicações em livros.participou de antologias brasileiras lançadas na argentina na frança portugal e suíça bem como de antologias editadas na argentina em 2011 e 2012 recebeu diversas premiações menções honrosas destaques em crônica contos e poesia prefaciou obras para a editora celeiro de escritores além de revisão literária participante de e-books da editora beco dos poetas e escritores ganhadora do prêmio literário alda do nascimento sena,pela publicação de livro a solo pedaÇos de mim seu site www.isabelcsvargas.com.

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eisfluências junho 2012 03 poesia de isabel c s vargas rumo certo isabel c s vargas Água pura e cristalina em teu curso irreversível lições de vida me passas calma persistência tenacidade transparência voltar atrás não te é permitido inexorável segues em frente como tu devo meu curso seguir e nesse percurso sem retorno de rumo certo e previsível minhas dores ir sossegando para meu espírito aliviar crescer e se purificar para no derradeiro encontro muita paz ofertar anoitecer isabel c s vargas com sofreguidão vai o sol lentamente se recolhendo em suaves e gentis movimentos para não macular a beleza alva da lua espalha suavemente seu brilho sobre a paisagem onde as nuances coloridas da água destacam a mansidão do momento de plena comunhão da natureza com a harmoniosa convivência dos diferentes que do alto de sua magnitude nos emprestam lições de humildade de respeito tolerância e amor indicando que o equilíbrio é o caminho certo para obtenção da paz e felicidade na vida notÍcia prémio camões 2012 o prêmio camões 2012 o mais importante da literatura lusófona foi concedido em 21 de maio/2012 ao escritor brasileiro dalton trevisan são poucos os que conhecem para além da escrita o brasileiro que foi anunciado como vencedor do prémio camões 2012 nascido em 1925 em curitiba dalton jérson trevisan é um autor enigmático conhecido por seus relatos em particular o vampiro de curitiba 1965 a decisão do júri representa uma escolha radical em favor da literatura como arte da palavra explicou seu presidente o escritor brasileiro silviano santiago destacando os incessantes experimentos do laureado com a língua portuguesa e sua dedicação ao saber literário sem concessão às distrações da vida pessoal e social são obras do autor vozes do retrato quinze histórias de mentiras e verdades 1998 o maníaco do olho verde 2008 violetas e pavões 2009 desgracida 2010 e o anão e a ninfeta 2011 são algumas das suas últimas obras cemitério de elefantes foi uma das primeiras obras do escritor editadas em portugal pela relógio d Água na década de 1980 o prêmio camões de 100 mil euros foi criado em 1989 por portugal e pelo brasil para premiar autores que contribuam para o reconhecimento da língua portuguesa o prêmio concedido no ano passado ao poeta português manuel antónio pina já foi entregue em edições anteriores aos portugueses antônio lobo antunes 2007 e josé saramago 1995 ao brasileiro jorge amado 1994 e ao angolano pepetela 1997 fontes dn artes e exame.com pesquisa e composição de carmo vasconcelos lisboa/portugal

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04 eisfluências junho 2012 entrevista com wilson araÚjo de souza por clóvis campêlo como você definiria a sua formação poética quais os autores ou movimentos literários que mais o influenciaram minha formação ou deformação poética se deu basicamente com elementos da música popular aquela atmosfera da década de 1960 a grande década do século breve com os compositores muito ilustrados pela cultura de modo geral fazia fortemente a cabeça da gente na transição para a universidade um poema em especial foi determinante para que minha vontade de fazer poesia realmente se manifestasse acrilírico de caetano veloso que aliás não foi musicado olhar colírico lírios plásticos do campo e do contracampo telástico cinemascope teu sorriso tudo isso tudo ido e lido e vindo do vivido ainda canto o ido o tido o dito o dado o consumido o consumado ato do amor morto motor da saudade meu primeiro poema foi um pastiche de acrilírico mas foi publicado na revista equipe muito boa da sudene eu ainda estava em são luís movimentos movimentos a parafernália infernal da tropicália com elementos da poesia concreta e dos manifestos de oswald de andrade e o movimento diário dos diários de notícias autores e autores não sei se me influenciaram tanto entre a angústia e o êxtase da influência desconfio que não esteja à altura das influências entrementes entre coração e mente digo que gosto da minha fluência com ou sem influência confluências sou fã incondicional da poesia concreta e do paideuma pai de uma proeza nada igual mas entendo que não me preparei o suficiente para uma proeza pró ezra agora tem os autores que admiro muito sousândrade trindade de andrade bandeira da vida inteira augusto de cidadecitycité afonso Ávila da vila rica em códigos e signos caetano medula e osso gil rouxin roll anjo torquato da vanguarda leminski in the sky with lennon o multitudo arnaldo antunes muito de tudo do frederico barbosa no recife gosto muito de alberto cunha belo e sou muitíssimo empolgado com a leveza densa condensada em agudeza de almir castro barros e a identidade com pedramérico meus ais viraram assobios e jomard muniz de brito e rito e ritual e ritmo do mito do orfeu do carnaval é total e joão cabral de melo neto fica sendo o nome mais belo do verso você nasceu na cidade de são joão dos patos no interior do maranhão como foi esse percurso de lá até a metrópole no caso o recife e como isso influiu na sua elaboração poética nasci na vila de sucupira hoje cidade sucupira do riachão distrito de são joão dos patos são joão dos pathos são joão dos pathos e ethos do poeta uma cidade pequena pacata mas que deu a primeira prefeita noca santos do brasil chefona política mais durona que os habituais chefes políticos uma cidade sem ginásio sem cinema sem padre sem rua calçada fui para caxias terra morena de gonçalves dias como diz o xote de joão do vale gravado por luís gonzaga com 12 anos de idade que mudança ruas e mais ruas calçadas ginásio cinema e bispo comparativamente uma metrópole foi meu encontro com a cultura urbana com o mundo já fui digamos pronto pra são luís azulejo azul vejo a luz de são luís em são luís casa de estudante sofrimento cinema e mais cinema sudene faculdade coisas da cultura não mais apenas como diversão e o tropicalismo cheguei em recife 1970 com essas coisas todas batendo e debatendo no meu sistema como diz minha irmã iracema e já compenetrado de poeta ­ ou de antipoeta foram então andanças e danças de um sobrevivente com ambição intelectual a passagem por caxias foi determinante adentrei a labiríntica pernambucália como um digamos ludovicense metropolitano antenado com o movimento soteropolitano-cosmopolita da tropicália aqui fixado aderi ao fluxo do momo sapiens não mais o ir-e-vire ir do homo duplex mas o passo em vai-e-vém de todas as variedades do momo sapiens o poeta é um fingidor ou é um demiurgo qual o papel do poeta no mundo de hoje nem a dicção farsesca nem a convicção messiânica o poeta é um homem como outro qualquer só que diferente pela ambição de ser antena da raça talvez o poeta seja aquele que Álvaro de campos heterônimo de fernando pessoa poetizou filosoficamente nada sois que eu não me sinta ou o outro da razão ­ o eu da loucura a loucura falando na primeira pessoa como mostrou erasmo ­ da lucidez se como disse descartes o bom senso é a coisa mais bem partilhada desse mundo o poeta quer partilhar o nonsense ­ ou o bom senso partilhando o nonsense pense o papel do poeta no mundo de hoje é ser e estar antenado para captar a demanda do mundo do mundo da oca ao oco do mundo e o inusitado do âmago ao mago divago no seu texto a forma e o conteúdo se confundem e se fixam nas aliterações no ritmo na sonoridade das palavras você acha que o leitor sempre estará pronto para esse jogo interpretativo ou o poeta deve desprezar o feed-back o poeta não tem que desprezar o feed-back mas deve construir o poema a seu modo incômodo que seja oswald deu a melhor resposta a massa ainda comerá do biscoito fino que fabrico acho que serei no máximo um cream cracker querendo alimentar feed-back o que o poeta quer mesmo é ser comido digo lido lido ou colido um poema é feito de sangue ou de signos há uma gota de sangue em cada poema mário gota gota a gota uma gota nunca pinga abruptamente nem impunemente gota a gota como no piano de jobim bom todos os signos o signo in-voluntário da pátria minha língua minha língua é meu sotaque pedramérico na atual conjuntura da literatura pernambucana você acha que a sua poesia é devidamente reconhecida ou você se sente marginalizado eu me sinto ou me situo automarginalizado discreto que desapareço reapareço com toda a nitidez da minha timidez mas até que sou um marginal que deu certo até título de cidadão recifense eu recebi este ano você não tem noção de qual foi a minha emoção este ano andei aparecendo desde o sesc santo amaro que encenou meus textos até esta digamos praça clóvis mas sou muito arredio só gosto da badalação nos amigos gosto mesmo é de conversa de botequim de preferência sobre cinema mas entendo que tem uma coisa estranha na minha linguagem que não entranha bem na viagem digamos canônica do lugar ­ talvez seja mediocridade mesmo meu ir-evir vai-e-vem num pra-lá-pra-cá meio que por fora do me cita que te cito e juntos citemos gilberto freyre ou recitemos ariano suassuna.

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eisfluências junho 2012 05 na minha opinião a sua poesia é muito mais sonora do que imagética como explicaria essa sua paixão pelo cinema e que relação ele poderia ter com o seu trabalho poético minha paixão pelo cinema é um vício que é uma virtude sofro ou melhor gozo de cinefilia escurinho do cinema um onde chamado desejo no escurinho do cinema um brando chamado desejo um desejo chamado gilda mas de fato os meus textos têm mais relação com a música o tropicalismo fez isso na verdade faço poesia porque não vinguei como letrista de música gosto mais do letrista que do beletrista mas entendo que aqui e acolá há travelling admirando bogart ou godard um film noir ou renoir corte digo que não vinguei como letrista mas para mim a poesia é o almanaque da alma existe paz na poesia ou o poeta vive dividido entre a utopia e a realidade a poesia não tem paz a vida quer ser poema o poeta é um apanhador no campo de centelhas o poeta capta e coopta os flagrantes da vida surreal e cheira o pó do ópio da utopia você se sente um autor engajado acha que o poeta com o seu trabalho deve ter a pretensão de mudar o mundo glauber rocha a inquietação em pessoa ­ e no artista cita mário faustino em terra em transe pela boca de jardel filho que faz o papel principal um intelectual politicamente engajado a poesia e a política são demais para uma só pessoa É realmente difícil ser militante poético e político num mesmo diapasão no mesmo diapasão marcelo mário de melo é esse elo uma pessoa plenária plena de ária o que eu quero ser quando crescer marcelo mário de melo quando fiz ostensivamente militância política como cidadão servidor público sindicalista tempo de abertura de redemocratização de re-organização da sociedade de re-construção da cidadania fiz pouca poesia fiz mais palavra de ordem o preço da cidadania é a eterna militância para panfletos e manifestos mas acho que sou engajado inclusive pela inquietação com a linguagem mas também pela inquietação com a realidade ­ como neste poemeto de circunstância circunstância com daniel dantas toga de colarinho branco o promíscuo conspurca o conspícuo vide a capa capital de carta capital com gilmar mendes e neste poema anterior à crise a crise fede quem escafede da crise made in usura o inferno de wall street são os outros horror o horror o teor do horror em estado de terror em terror de estado democracia da suprema corte e da supremacia o cidadão é do poeta o poeta é do cidadão não digo a pretensão de mudar o mundo mas tensão tenso logo existo de domar a demanda do mundo com pulso político e impulso poético com pulsões eróticas e expulsões neuróticas para finalizar a internet é uma coisa boa ou ruim para a literatura de um modo geral como você lida com essa nova forma de comunicação a internet é mais ou menos uma redoma quem doma a rede quem dorme na rede meu ir e vir ainda não é do ritual virtual ainda estou mais no lugar que no login ainda estou mais no livro sete que no livro site ainda estou mais nos arroubos do emílio que nas arrobas do e-mail mas chego lá na miríade de ondes nômades e ondas mônadas da circunavegação interplanetária clóvis campêlo recife 2009 http geleiageneral.blogspot.pt se tu choras por ter perdido o sol as lágrimas te impedirão de ver as estrelas antoine de saint-exupéry

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06 eisfluências junho 2012 sonhos por antónio barroso tiago sonhei sim porque quando se deixa a fantasia vaguear em liberdade o sonho toma asas e percorre os espaços foi assim que num dos meus sonhos me deparei com florbela numa encruzilhada da via láctea e quando com euforia me apresentei como conterrâneo encetámos um agradável mas informal diálogo após um longo abraço de confraternização comecei então por lhe dizer florbela que prazer minha alma tem por saber que te encontras sempre bela que vagueias agora como estrela neste céu que é de todos de ninguém tomara eu ser um mago que contém poder p ra te fazer a cinderela serias mais formosa ainda que ela voltarias à terra para alguém e essa tua tristeza acabaria porque o amor buscarias dia a dia e sempre sempre de cabeça erguida e sonhei que isso vai acontecer para que nunca mais possas dizer eu sou a que no mundo anda perdida florbela meditou um pouco contemplativa e respondeu sorridente poeta pegaste no meu verso e conseguiste transformá-lo numa promessa de esperança que assim tu o queiras se poderá concretizar não não o amor se for esperança é sempre triste e raramente tem um epílogo feliz permite-me no entanto que me defina que te fale um pouco mais de mim não só para que me conheças melhor mas para te dizer realmente que eu sou a que no mundo anda perdida eu sou a que na vida não tem norte sou a irmã do sonho e desta sorte sou a crucificada a dolorida sombra de névoa ténue e esvaída e que o destino amargo triste e forte impele brutalmente para a morte alma de luto sempre incompreendida sou aquela que passa e ninguém vê sou a que chamam triste sem o ser sou a que chora sem saber por quê sou talvez a visão que alguém sonhou alguém que veio ao mundo p ra me ver e que nunca na vida me encontrou sou a que chamam triste sem o ser eis uma afirmação que não corresponde inteiramente à verdade já que ao longo de toda a tua poesia a tristeza é sempre uma constante talvez talvez mas porque o amor sempre me fugia e nunca deixou de ser apenas uma mera esperança porque corrias atrás dele e não o sabias conservar se tomarmos o teu último verso até te poderia afirmar e que nunca na vida me encontrou dizes tu com mágoa e com tristeza porque nunca quiseste com firmeza ir ao encontro de quem não te achou a sombra na tua alma se alojou e ali ficou retida ficou presa sem resquícios de amor e de beleza e a lágrima no rosto então brotou dizes que choras sem saber por quê É sofrimento atroz que ninguém vê que corre a noite até que o sol desponte as horas que curvada em noite escura passadas de joelhos numa jura horas mortas curvada aos pés do monte poeta tomaste o início dum soneto que dedico ao meu alentejo ao nosso pois seja ao nosso o que é bem raro na tua escrita segundo os teus biógrafos a tua poesia está totalmente impregnada duma tristeza interior talvez reflexo duma infância conturbada e que te leva a empregar a palavra morte em grande número dos teus sonetos não tanto como julgas mas mudemos de tema e para te provar que o alentejo nunca deixou de estar no meu pensamento horas mortas curvada aos pés do monte a planície é um brasido e torturadas as árvores sangrentas revoltadas gritam a deus a bênção duma fonte e quando manhã alta o sol posponte a oiro a giesta a arder pelas estradas esfíngicas recortam desgrenhadas os trágicos perfis no horizonte Árvores corações almas que choram almas iguais à minha almas que imploram em vão remédio para tanta mágoa Árvores não choreis olhai e vede também ando a gritar morta de sede pedindo a deus a minha gota de água como habitualmente é triste o teu soneto nele se espalha a melancolia dum entardecer alentejano tem porém o condão de na verdade referires um alentejo a que ambos pertencemos isto é apenas para te confirmar o que dizia o amor tanto se pode sentir por quem se almeja como pela terra onde se nasceu como pela árvore que se destaca na charneca e não só a árvore minha amiga toda a planície pedindo a deus a minha gota de água também dizia meu sobreiro amigo quando sedento falava comigo e nem pinga corria duma frágua meu alentejo seco a minha mágoa É não saber se é norma ou se é castigo andar sempre à procura dum abrigo numa busca constante eterna e árdua alentejo apesar dessa secura que queima esses trigais onde perdura a languidez e a calma tão plangente amar-te até mais não tudo mereces quando o calor aperta e tu aqueces meio-dia o sol a prumo cai ardente eu poderia responder-te mas o tempo não me permite vou seguir para outra galáxia espera espera só um pouco mais que o que temos para contar não se compadece com o avanço dos ponteiros do relógio só um pouco mais mas recordar-te-ás que

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eisfluências junho 2012 07 meio-dia o sol a prumo cai ardente dourando tudo ondeiam nos trigais d ouro fulvo de leve docemente as papoulas sangrentas sensuais andam asas no ar e raparigas flores desabrochadas em canteiros mostram por entre o ouro das espigas os perfis delicados e trigueiros tudo é tranquilo e casto e sonhador olhando esta paisagem que é uma tela de deus eu penso então onde há pintor onde há artista de saber fecundo que possa imaginar coisa mais bela mais delicada e linda neste mundo É lindo florbela dá-me a tua mão antes de seguires amigo não é uma despedida se continuares a sonhar mais tarde nos encontraremos mas antes florbela escuta apenas esta lembrança que te deixo com muito carinho mais delicada e linda neste mundo a terra onde nascemos tão formosa que tem por seu nome vila viçosa de igreja ao alto e com castelo ao fundo quando se chega e se pára um segundo se contemplam as casas majestosas nas ruas perfumadas pelas rosas há um prazer enorme e bem fecundo por todo o lado há paz amenidade há sossego há amor felicidade e ternura tão simples tão singela que nunca mais alguém pode esquecer a glória desta terra por saber que em vila viçosa nasceu florbela adeus poeta de quem não sei o nome adeus adeus mas o teu porém jamais se esquecerá florbela espanca antónio barroso tiago parede/portugal o desespero do efêmero memória e tempo em lúcio cardoso e santo agostinho por isabella lígia moraes sangue de aventureiro cigano ou saltimbanco a inquietude é traço marcante nos diários de lúcio cardoso os projetos nem sempre concluídos as inúmeras cidades visitadas e a própria versatilidade do artista que se desdobra entre as tarefas de dramaturgo escritor diretor de cinema jornalista e poeta são reveladores do espírito inquieto que o habitava nascido a 14 de agosto de 1912 na cidade mineira de curvelo joaquim lúcio cardoso filho teve ainda na infância a manifestação dessa vida que não se fixava filho de maria venceslina cardoso e de joaquim lúcio cardoso ele viveu durante sua formação inicial acompanhando a família em constantes mudanças entre as cidades de curvelo belo horizonte e rio de janeiro os deslocamentos da família cardoso eram devidos ao espírito aventureiro do pai de lúcio que não se fixava em nenhum emprego ou negócio que se propunha realizar maria helena cardoso irmã de lúcio narra suas memórias no livro por onde andou meu coração no qual mostra a curiosa personalidade desse pai que entre longas ausências devido a trabalhos e algumas infidelidades no casamento levava a família consigo a diversas cidades a cultura do pai que tocava piano e conhecia literatura impressionava os conhecidos da família lúcio cardoso como vemos herdou do pai não apenas o nome o gosto pelas artes e a inquietação são também característicos comuns a ambos em seus diários o dramaturgo mineiro reconhece sua própria personalidade quando se define como possuidor de um sangue aventureiro de cigano ou saltimbanco aliado a uma diabólica fantasia que o fazia considerar-se capaz de tudo embora sua experiência muitas vezes revelasse o contrário em certo momento de sua vida entre 1949 e 1951 lúcio cardoso escreveu o diário i que foi publicado em 1961 sua intenção era a de escrever uma série de diários mas ficou impossibilitado de realizar tal tarefa por sofrer um derrame cerebral em 1962 cujas sequelas impossibilitaram o exercício da escrita com o falecimento do escritor em 28 de setembro de 1968 o diário ii escrito entre 1952 e 1962 foi organizado por otávio de faria e ambos foram publicados postumamente sob o título diário completo em 1970 a escrita do próprio diário inclusive pode ser reveladora de uma necessidade de fixar-se ao fazer um ano da data em que iniciara o diário por exemplo o diarista reflete sobre as motivações para sua escrita segundo lúcio cardoso o sentimento de ser percorrido por tendências e opiniões tão contraditórias teria sido a origem de seus diários que nasceram justamente de seu esforço para fixarse vemos assim no próprio deslocamento físico que acompanhou o escritor durante sua vida a representação das contradições interiores por ele vivenciadas inclusive no conflito entre seu pensamento religioso e sua orientação sexual a escrita de um diário íntimo passa por diversas motivações seja a vivência de um momento importante ou a necessidade de construção da própria identidade ao narrar a si mesmo embora seja mais comum na adolescência a escrita do diário não se atém a apenas essa fase da vida todos os diaristas embora escrevam por diferentes razões têm em comum o gosto pela escrita e a preocupação com o tempo de acordo com o estudioso de autobiografias phillipe lejeune sendo uma série de vestígios não necessariamente regulares o diário acompanha o fluxo do tempo há portanto uma tentativa de reter o tempo que passa o que também está intimamente relacionado à angústia de viver e ao medo da morte relendo as páginas escritas no decorrer dos meses lúcio cardoso indaga sobre quem teria inventado o gênero diário íntimo nessa reflexão o diarista conclui que apenas uma alma tocada pelo desespero do efêmero poderia ter criado o diário ele percebe o quanto mudou e perdeu com o tempo que passa e o conduz inevitavelmente ao aniquilamento essa angústia define o tom melancólico de sua escrita pois tem a consciência da impossibilidade de resgatar o passado À preocupação do diarista com o tempo aliam-se portanto as memórias impossíveis de serem reconstruídas pois estas consistem em fragmentos cujas lacunas apenas podem ser preenchidas pela imaginação humana essa angústia que leva a pessoa a escrever um diário íntimo é maximizada em lúcio cardoso por sua concepção de tempo cristã em que a progressão dos acontecimentos e o escoar vertiginoso do tempo levam unicamente à morte presença constante nos diários de lúcio a morte ronda a todo o tempo o pensamento e a escrita do autor cujo medo é responsável por terrores noturnos manias de perseguição e pela própria tentativa de sobrevivência através da escrita.

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08 eisfluências junho 2012 ambiguidade e paradoxo a luta do bem e do mal a leitura do diário completo de lúcio cardoso é reveladora de uma ambiguidade que como apontamos fazia parte de próprio diarista em seu discurso ele derruba certezas e nunca se revela por completo É perceptível em sua escrita inclusive o rompimento com o próprio gênero diário íntimo visto que o autor o escreveu para ser lido por outras pessoas e inclusive para ser publicado a escrita de um diário pressupõe a não alteração posterior do que foi escrito no registro de determinada data pois então o gênero deslizaria para a autobiografia lúcio entretanto altera corrige e aceita sugestões de amigos para que sua escrita resultasse em uma melhor recepção por parte dos leitores quando fosse publicada de acordo com lejeune 2008 é para si que se escreve um diário somos nossos próprios destinatários no futuro lúcio cardoso entretanto ao escrever sobre os motivos que o levavam a escrever o diário afirma o seguinte para mim mesmo para meu deleite íntimo confesso que jamais tentaria salvar estes fragmentos do passado aos meus olhos não possuem nenhum interesse e depois tudo o que morre é porque já teve o seu tempo mas insensivelmente penso nos outros nos amigos que nunca tive naqueles a quem eu gostaria de contar estas coisas como quem faz confidências no fundo de um bar esse diabólico e raro prazer da confidência que vai se desfazendo à medida que perdemos a confiança na amizade que ela mais e mais se afasta de nós como um bem inacessível cardoso 1970 p 5-6 de acordo com lejeune 2008 a autenticidade do momento é essencial para a configuração do gênero diário assim a entrada ou o registro ou seja aquilo que foi escrito sob uma mesma data não pode ter seu conteúdo modificado posteriormente um diário mais tarde modificado ou podado talvez ganhe algum valor literário mas terá perdido o essencial a autenticidade do momento quando soa a meia-noite não posso mais fazer modificações se o fizer abandono o diário para cair na autobiografia lejeune 2008 o diário funciona como um instrumento propiciador do autoconhecimento como forma de o diarista tentar superar sua própria ambiguidade e indefinição o papel é um espelho uma vez projetados no papel podemos nos olhar com distanciamento lejeune 2008 essa projeção de si próprio no papel em branco é comentada por lúcio cardoso por que escrevo é inútil procurar razões sou feito com estes braços estas mãos estes olhos ­ e assim sendo todo cheio de vozes que só sabem se exprimir através das vias brancas do papel só consigo vislumbrar a minha realidade através da informe projeção deste mundo confuso que me habita cardoso 1970 p 60 aliada a essas preocupações temos também a preocupação religiosa com as questões do bem e do mal em várias passagens do diário completo seja por seu valor literário pela religiosidade ou pela intenção de ser lido o tom de escrita nos remete às confissões de santo agostinho que confessa a deus e também aos homens enquanto lúcio se confessa a si mesmo e aos leitores por exemplo o diarista utiliza um vocabulário religioso para falar de coisas mundanas vejamos a seguinte passagem que trata de política escrevendo as linhas acima outras ideias me surgem e imagino que é preciso não somente acentuar o mal mas tentar também encontrar uma possibilidade de salvação a mim pois salvadores de última hora rasgadores de véus que ocultam miríficas batalhas econômicas deixai simplesmente que o abismo venha a nós como a graça de deus cardoso 1970 p 52 É importante ressaltarmos que o catolicismo praticado e defendido por lúcio é anti-moderno barroco paradoxal barros 2004 p 37 no qual não vemos a dicotomização do bem e do mal a concepção religiosa do escritor mineiro aproxima-se daquela do cristão do século xvii que acreditava na salvação através do sofrimento e do martírio sendo que o valor do pecador arrependido era considerado maior que o do bom religioso como lúcio cardoso octavio de faria crê no pecado como um caminho legítimo de se atingir a graça pois contrário ao cristianismo moralista e virtuoso da modernidade burguesa o catolicismo de lúcio cardoso e de octavio de faria conserva pois a dimensão sagrada do erotismo barros 2004 p 39 não só em seus textos mas também em sua vida lúcio cardoso teria buscado alcançar a graça através do pecado como vemos nas memórias de sua irmã maria helena cardoso sou daqueles sobre os quais disse ai dos mornos eu os vomitarei pela boca antes o pecado mesmo mortal que a indiferença que não conduz a nada nonô nunca foi morno errou muito mas sempre amou a deus com violência quisera ter sido uma grande pecadora para agora arrepender-me do fundo do coração assim como sou não sou nada incolor inodora e insípida aos olhos de deus cardoso 1973 p 133 em seus diários lúcio cardoso revela essa dualidade de sua personalidade e assume estar vivendo uma fase de transição na qual o homem antigo e o novo convivem vejamos a entrada de 30 de abril de 1950 sei muito bem que atravesso agora uma hora escura de transição ou adquiro o aspecto do novo homem que surge dentro de mim ou pereço sob os fragmentos do antigo se mudamos assim tão fundamentalmente é que nos aproximamos mais largamente de nossa essência neste minuto agora para citar um exemplo sinto-me extraordinariamente mais próximo da minha morte e que é a morte senão a essência de todos nós cardoso 1970 51 nessa passagem ecoa o trecho das confissões de santo agostinho na qual o filósofo fala sobre duas vontades que lutam em si a carnal e a espiritual deste modo minhas duas vontades a velha e a nova a carnal e a espiritual lutavam entre si e nessa luta dilaceravam-me a alma entendi por experiência própria o que havia lido a carne tem desejos contra o espírito e o espírito contra a carne eu vivia ao mesmo tempo a ambos embora mais o que aprovava em mim do que o que em mim desaprovava com efeito nesta última parte de mim eu era passivo e constrangido mais do que ativo e livre agostinho 2011 se lúcio cardoso em sua concepção de religiosidade acreditava na possibilidade de se alcançar a graça por meio do pecado possivelmente se identificava com a filosofia de santo agostinho pois o filósofo confessa ter sido um homem mundano até que através de um milagre foi redimido pela conversão a concepção de tempo lejeune ressalta ser a data a base do diário sob a qual é escrito um registro ou entrada pois um diário sem data a rigor não passa de uma simples caderneta lejeune 2008 a escrita dessa entrada pressupõe a ignorância quanto ao futuro além da não modificação posterior do conteúdo ressalta ainda que o diário é composto de uma série de registros que acompanhe assim o fluxo do tempo embora não precise ser quotidiana ou regular vemos portanto uma das principais características do diarista sua preocupação com o tempo e a necessidade de acompanhar ­ ainda que ilusoriamente ­ seu fluxo no decorrer da existência o próprio lúcio cardoso em seu diário cita alguns autores que se fixaram na noção de tempo homens artistas a quem a noção do tempo aprisionou ­ proust joyce virgínia woolf ­ é inútil a causa o tempo é um cavalo sem cor que emerge de um mar sem fundo não discutamos sua razão o que nos consome é sua verdade sem razão o tempo é reversível ­ decerto é um cavalo que emerge mas para felicidade nossa apenas corre sem nunca deixar o mar cardoso 1970 p 49 associada ao catolicismo de lúcio cardoso a questão do tempo assume uma faceta ainda mais angustiosa na concepção cristã de tempo linear contrária à concepção circular pagã todos os acontecimentos encaminham para o fim a morte.

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eisfluências junho 2012 09 conforme já aproximamos o tom de escrita de lúcio cardoso ao de santo agostinho é fundamental que façamos uma breve exposição sobre a concepção agostiniana de tempo segundo santo agostinho teria sido o próprio deus quem criou o tempo quando se interroga sobre em que consiste o tempo o filósofo formula a questão o que é por conseguinte o tempo se ninguém mo pergunta eu sei se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta já não sei santo agostinho 2011 vem daí a originalidade da concepção agostiniana sobre o tempo segundo santo agostinho o que seria próprio do tempo é o nãoser isso porque de acordo com o filósofo o passado não existe mais o futuro ainda não existe e o presente torna-se pretérito a cada instante o presente seria um momento tão ínfimo no tempo que corre que ao tomar consciência dele ele já passou o passado existe de acordo com sua concepção através da memória que o presentifica da mesma forma o futuro existe apenas como expectativa do que virá ou seja acontece também no presente haveria portanto três tempos presente das coisas passadas presente das coisas futuras e presente das coisas presentes o tempo seria portanto subjetivo pois o modo como nos referimos às coisas depende totalmente da subjetividade manifesta na memória ou no sentimento o mais interessante é como a ideia de lúcio cardoso acerca do ontem do hoje e do amanhã se aproxima da concepção de santo agostinho sobre o tempo ontem a esta hora x estava aqui e eu sentia a casa inteira cheia de sua presença mas que é ontem somos cega e deploravelmente apenas hoje apenas o que nos vive entre essas ilhas de noite e de alvorada que se chamam passado e futuro o hoje o instante que nos faz respirar e nos possui entre seus dedos implacáveis colore-se com a única tinta possível mas nem sempre é real nem sempre nos eleva a uma categoria perfeita de verdade cardoso 1970 p 33 nesse sentido lúcio cardoso considera apenas a existência do hoje do instante ontem e amanhã seriam ilhas de noite e de alvorada como miragens ou sonhos inexistentes na escrita do diário essa relação com o tempo é evidenciada o diarista escreve sobre o passado pois ainda que o acontecimento seja o mais recente possível é necessário que seja rememorado então a escrita já não é fiel ao acontecimento visto que a memória responsável pela presentificação e portanto pela existência do passado trabalha com fragmentos esses fragmentos são preenchidos inconscientemente pelo próprio escritor lúcio afirma não são os acontecimentos que fazem um diário mas a ausência deles cardoso 1970 p 60 talvez dessa angústia surja a necessidade de se escrever sobre o próprio ato da escrita em diversos momentos lúcio cardoso se indaga sobre as razões de se escrever o diário e ele diz na entrada do dia 07 de maio de 1950 utilizando o tempo presente escrevo ­ e minha mão segue quase automaticamente as linhas do papel escrevo ­ e meu coração pulsa por que escrevo infindável é o número de vezes que já fiz a mesma pergunta e sempre encontrei a mesma resposta escrevo apenas porque em mim alguma coisa não quer morrer e grita pela sobrevivência escrevo para que me escutem ­ quem um ouvido anônimo e amigo perdido na distância do tempo e das idades ­ para que me escutem se morrer agora cardoso 1970 p 60 de acordo com lejeune um dos motivos que leva a pessoa a escrever um diário é a ânsia de sobreviver para fixar um tempo passado que se esvanece atrás de nós e também por apreensão diante de nosso esvanecimento futuro da angústia em relação ao tempo nasce o desejo de fixar-se e sobreviver para um tempo posterior quando o diarista será lido e lembrado no centenário do escritor lúcio cardoso 1912 2012 a leitura de seus diários é reveladora da inquietude e da angústia que perpassam suas obras frutos da preocupação do artista com o tempo que ­ em sua concepção cristã ­ escoa vertiginosamente rumo à morte reveladores de uma alma que não se fixava seus diários são angustiados apelos de um artista por constância e sobrevivência sua angústia em relação ao tempo e à religiosidade se evidencia nas passagens que ecoam trechos das confissões de santo agostinho pois o filósofo é emblema do homem mundano redimido através do milagre e da conversão lúcio cardoso nesse sentido esperava alcançar a graça através do pecado e tal ambiguidade está manifesta no uso da linguagem de cunho religioso para falar de trivialidades além disso a semelhança da concepção de tempo no diarista e no filósofo que acreditam apenas na existência do tempo presente vem ao encontro da presentificação do passado através da memória no exercício de escrita do diário referências agostinho confissões disponível em

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10 eisfluências junho 2012 considerables gestiones de la mujer en el 2012 el liderazgo en el 2012 y la discriminación en el lenguaje ii parte do artigo publicado na revista anterior de maría cristina garay andrade notoriamente como he demostrado en toda esta investigación del lenguaje podemos apreciar visiblemente y en demasía el complejo de palabras hacia el género femenino definido a manera de discriminación en abundancia y violento atropello a nuestra autoestima la arbitrariedad de la expresión es un ultraje a nuestra vilipendiada personalidad detallada minuciosamente en el diccionario y debe ser tomado como grave agravio consumado por la autocracia manejadora de valores y conceptos humanos determinados en antiquísimas palabras preconcebidas que acarrea el idioma peninsular en la exposición anterior sobre el liderazgo de la mujer en el 2012 bien dejo sentado la opinión que me merece la inminente toma de poder y por consiguiente con esta nueva exposición manifestada al descubierto enfatizo que es tiempo de hacernos cargo de nuestra legitima potestad y modificar infranqueables incoherencias del sistema cultural que nos humilla y nos cosifica no podemos seguir estando sujetas a desigualdades lingüísticas la mitad de las integrantes en un total de habitantes globales según los últimos datos estadísticos la población mundial alcanza a los 7 mil millones de seres de ambos sexos y en el 2011 advertimos que quedó atrás el mito de que a los hombres les tocan varias mujeres para cada uno a nivel mundial hoy los hombres han pasado a ser mayoría sobre el sexo femenino dejando atrás el cuento de que había mujeres por montones para cada hombre y que los machos podían estar tranquilos porque a cada uno le correspondían varias medias naranjas a elección pues al paso que van los cambios demográficos si se sigue asesinando niñas a mansalva en vez de abundancia habrá una seria escasez de mujeres de acuerdo con la actualización de datos hecha por la oficina del censo de los estados unidos según sus estimativos en el 2010 hay casi 50 millones de hombres más que mujeres es turno entonces de tomar el espacio usurpado con piratería malintencionada el lenguaje hispanoparlante carece de legitimidad si involucra un desnivel al señalar una marcada diferencia de apreciaciones entre los géneros o sexos en una estadística de entre casa podemos afirmar que con un hombre y diez mujeres en 9 meses podemos duplicar la humanidad proyectando de tener por cada mujer únicamente un hijo pero si invertimos los números de 10 varones y una mujer la consecuencia es grave puesto que si parimos una vez al año tardaríamos 10 años consecutivos para lograr la reproducción de la misma cantidad de personas entonces cuidado con tanto descrédito y eliminación del único medio de concretar la concepción para una economía de mercado las mujeres estamos consideradas como la reproducción de la fuerza del trabajo no se tiene en cuenta que si decidiéramos impedir la proliferación como esta pasando en algunos países de europa a cambio de sociedad de consumo se vería más que comprometida no solo la administración financiera del sistema sino también los recursos de manutención entre otras diversas consecuencias trascendentales veremos como democracia implica de acuerdo con la definición de wikipedia en síntesis que es una forma de organización de grupos de personas cuya característica predominante es que la titularidad del poder reside en la totalidad de sus miembros haciendo que la toma de decisiones responda a la voluntad colectiva de los miembros del grupo en sentido estricto la democracia es una forma de organización del estado en la cual las decisiones colectivas son adoptadas por el pueblo mediante mecanismos de participación directa o indirecta que les confieren legitimidad a los representantes en sentido amplio democracia es una forma de convivencia social en la que los miembros son libres e iguales y las relaciones sociales se establecen de acuerdo a mecanismos contractuales la democracia se define también a partir de la clásica clasificación de las formas de gobierno realizada por platón primero y aristóteles después en tres tipos básicos monarquía gobierno de uno aristocracia gobierno de los mejores para platón democracia gobierno de la multitud para platón y de los más para aristóteles el término democracia proviene del antiguo griego äçìïêñáôßá y fue acuñado en atenas en el siglo v a c a partir de los vocablos ä?ìïò «demos» que puede traducirse como «pueblo» y êñÜôïò krátos que puede traducirse como «poder» o «gobierno» si bien la terminología es mas compleja en realidad esto nos da la pauta del sentido de democracia vivir en democracia al parecer es una ilógica utopía o solo una definición errónea debido al mal comportamiento social por una de las partes intervinientes al institucionalizar palabras y propagar su uso tal vez llame la atención sobremanera mi irrupción en el tema especifico pero no se debe a un cuestionamiento político sino exclusivamente de análisis gramatical concretando entonces que democracia es el gobierno de un pueblo un pueblo esta comprendido por personas de diferentes sexos y ha sido singularmente comandada por varones en tiempo y forma como lo viene escribiendo la historia no tiene otro sentido que el que conocemos explícitamente estamos frente a un patriarcado encubierto con un término erróneo reconocido como democracia esta situación bajo presión e impulso de las mujeres resueltas y creadoras de un nuevo mundo se esta revirtiendo aceleradamente lo extraño del caso entonces es la denominación que el gobierno de las mujeres tiene adjudicado es ginecocracia o matriarcado en el marco legal y jurídico este término no debiera existir dado a que las mujeres gozamos al igual de inteligencia conciencia para discernir autonomía integridad capacidad de mando y metafóricamente suficientes ovarios para conducir una nación pueblo alcaldía etc los genitales son exclusivamente órganos reproductores de nuestro organismo y no conductores de gobiernos populares en el sistema sátrapa actual en el que permanecemos para hacer una justa equivalencia irónicamente sugiero cambiar la palabra democracia por los términos de falocracia testículocracia o penecracia por así sugerir algunas terminologías y dejando a criterio de cada lectora persona más aplicaciones para tal fin sin embargo democracia encubre al fatídico patriarcado tras una palabra cuyo origen griego aparentemente los condiciona desde entonces y hasta la actualidad a aplicarlo genéricamente que es común o se refiere a un conjunto de elementos del mismo género por otra parte sería conveniente así mismo aclarar la terminología pornocracia atribuida al gobierno de las cortesanas cuyo término es originario según wikipedia «saeculum obscurum» para otras acepciones véase siglos oscuros el término pornocracia acuñado en el siglo xvi por el cardenal césar baronio se conoce una etapa de la historia de la iglesia católica caracterizada por la influencia que sobre el papado van a ejercer dos mujeres teodora esposa del senador romano teofilacto i y la hija de ambos marozia dicho periodo conocido como saeculum obscurum y como gobierno romano de las cortesanas se inicia en el año 904 con la elección como papa de sergio iii y finaliza en el año 935 cuando el papa juan xi hijo de marozia y esta misma fueron encarcelados por alberico ii hijo también de marozia fruto de su primer matrimonio por consiguiente si dama cortesana es el equivalente en la actualidad a ramera o meretriz y por derivación ambas sinónimos de prostituta evidencia que la mujer desde tiempos muy remotos habiendo llegado al poder a través de arroja como resultado final que su sexualidad es sumamente impugnada y no así la del varón.

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eisfluências junho 2012 11 son estamentos culturales que se vienen arrastrando formativamente desde épocas ancestrales el resultante de desenmarañar tantos términos desempoderantes es lograr llegar a la esencia misma de cada mujer en su valoración innegable como integrante de la sociedad sin segregaciones ni arbitrariedad comencemos a descubrir nuestro propio altruismo maría cristina garay andrade monte grande ­ buenos aires ­ argentina http mariacristinadesdemissilencios.blogspot.pt Ámame poeta maría cristina garay andrade Ámame amor sin tiempo y sin cordura con esa pasión tan particular y tan sentida que marca en mi cuerpo la hermosura de tus manos recorriendo mi entrega concedida háblame susurrando despacito melodías los ensueños de utopías hechos poesías de amor que mi piel sedienta de ti se alimenta con dulzor de tus versos enaltecidos de caricias todos los días bésame con la palabra enternecida bésame con la suavidad del alma conmovida bésame el corazón que por tu devoción suspira bésame con la pluma que con fervor te inspira tiéntame a perderme en tus jardines más sublimes que entre aromas de rosas lirios y jazmines en contemplación mi admiración esgrime el amarte en silencio cuando sutilmente escribes escribir maría cristina garay andrade escribir tan solo escribir para decir escribir desde el alma que no sabe mentir escribirle al amor que vive dormido escribirle al amigo que te confinó en el olvido escribir en soledad sin que nadie te vea escribir por pasión de que alguien te lea escribirle al silencio para que te responda escribirle a la espina que se clavo muy honda escribir el contenido más profundo y sentido escribir para decir adiós por algún motivo escribirle al hastío en un día sombrío escribir de corazón al mundo en desafío escribir con fervor despojada de falacias escribir simplemente dándote gracias escribirle a dios siendo el único testigo de mi cariño hacia ti poeta como un mendigo escribe humildemente estas palabras notÍcia a revista eisfluências parabeniza o prezado membro do seu conselho de redação escritor e poeta carlos lÚcio gontijo pelo lançamento do seu livro quando a vez É do mar no passado dia 27 de abril em belo horizonte bem como pelo prÊmio mÉrito literÁrio poeta antÔnio fonseca que lhe foi concedido pela academia betinense de letras abel veja pronunciamento do autor em http www.youtube.com/watch?v=5iyfsyhpymw

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12 eisfluências junho 2012 patrocÍnio em famÍlia artigo exclusivo para a revista eisfluências por carlos lúcio gontijo um ditado é certo nesta vida sorrir é sempre o melhor remédio como a lágrima não paga dívida mas pelo menos nos espanta o tédio no livro vintém de cobre de cora coralina a festejada poetisa semeou o poema o poeta e a poesia em que assinala poeta é a sensibilidade acima do vulgar poeta é operário o artífice da palavra e com ela compõe a ourivesaria de um verso poeta não somente o que escreve É aquele que sente a poesia se extasia sensível ao achado de uma rima à autenticidade de um verso o autêntico sabe que jamais chegará ao prêmio nobel o medíocre se acredita sempre perto dele não aprendemos com os primeiros passos o aprendizado é fruto da caminhada que amadurece substituindo passadas por bater de asas os poetas e pintores descrevem ou desenham o mar e nós escutamos a brisa e o vento movimentando as marés os políticos discursam sobre os oceanos e percebemos o naufrágio das embarcações jesus cristo ao reunir os apóstolos em torno de si nos deixou a prova concreta de que devemos evitar a caminhada solitária pois tudo nesta vida deve ser dividido a vitória em conjunto se transforma em festa de todos ao passo que o fracasso é inegavelmente menos doloroso quando contamos com o ombro de algum amigo fraterno não há espaço para lamentar ausência ou indiferença pois a festa da vida é feita com pessoas que marcam presença e respondem efetivamente aos nossos apelos ou convites por isso faço absoluta questão de registrar o espontâneo apoio do amigo olívio dos santos lima residente em contagem/mg um ser humano que me veio pelas mãos do desígnio literário ou seja mais um desconhecido leitor que entrou em contato e se transformou em amigo do peito ele não foi procurado por mim para me apoiar na edição mas ao tomar conhecimento de minha luta me telefonou e pediu o número de minha conta bancária com o objetivo tanto de me ajudar a cobrir os custos de impressão quanto de expressar a sua amizade e apreço por minha literatura foi dessa forma que ele se juntou a mim bafejado pela providencial sorte de contar com algum recurso disponível graças à venda de sítio de herança após 22 anos da morte de minha mãe betty rodrigues gontijo que me socorreu mesmo habitando os mistérios do invisível minha filha amanda de oliveira gontijo que me concedeu a glória de experimentar tal gesto em vida meu irmão marcílio múcio gontijo que pouco tem mas que muito passou a ter à medida que se dispôs sem que nada lhe houvesse pedido a me ajudar provando-me que o apoio advém do verdadeiro desejo interior e não de portentosa riqueza material depois me apareceu o engenheiro eli antônio de oliveira sobrinho de minha esposa nina amigo que muito frequentou a confraternização vivenciada pela família no sítio do choro próximo de pedra do indaiá e santo antônio do monte e não se fez de rogado e em último lugar porém em iluminado grau de adesão meu pai o paitrocinador josé carlos gontijo que na realidade puxou a fila levado pela sabedoria de seu caminhar de homem de 88 anos para a materialização deste 14º livro É por abençoadas manifestações como essas que não me recuso a estimular os poetas e escritores que me procuram para elaboração de prefácio ou a emissão de algum parecer sobre o mundo da literatura cada vez mais envolto no abissal caos da falta de leitores e da opção editorial por produtos intelectuais desprovidos de valor capaz de auxiliar na edificação de uma sociedade melhor enfim ainda bem que o esforço que realizei no transcorrer de minha trajetória é reconhecido por pessoas sensíveis ou por companheiros de empreitada na área do exercício da arte da palavra escrita amenizando a triste constatação de que tem gente que não lê nada que não prestigia nem apoia qualquer projeto cultural agindo como se conhecimento e livros não fizessem parte da cesta básica necessária à sobrevivência digna de todo e qualquer ser humano carlos lúcio gontijo poeta escritor e jornalista www.carlosluciogontijo.jor.br escafandrista carlos lúcio gontijo a vez do mar carlos lúcio gontijo no imenso mar de águas e gente viver é tão ingente quanto navegar quem não sente o contratempo não caminha tudo se aninha ao entender natural da maré o conhecimento jamais se sobrepõe à fé É preciso ter fé para aprender o vento a síntese da matemática não está na exatidão já que só é entendida no acerto da repartição bom jangadeiro não se dispõe a enfrentar tempestade reconhece humildemente quando a vez é do mar só os incautos se entregam ao simplismo da vontade a humanidade não avança pela tecnologia mas pela magia multiplicadora da divisão mola propulsora da verdadeira felicidade quando toda vaidade cede espaço à convivência uma ciência dependente do amor ao próximo quando eu morrer traga-me o escafandrista não me deixe sofrer na mão do médico-legista minha alma requer quem entenda de espírito alguém com a profundidade mediúnica de chico xavier capaz de mergulhar em mim com a túnica dos olhos e me vislumbrar navegando para a prometida eternidade remando rumo ao mar de luzes com sobriedade e afã como se eu fosse irmão gêmeo de toda manhã!

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eisfluências junho 2012 13 fiestas de primavera en andalucÍa de maría sánchez fernández feria de abril en sevilla y llegó la primavera y se durmió el silencio del duro invierno en su nido vacío de perfumes y de cálidos gorjeos y sueña acurrucado vencido cansado y despertó la savia saliendo a la luz como un torito bravo que pinta su bravura con pinceles y paleta de colores en las plazoletas y en los jardines en los parques y en las avenidas en las almas y en los corazones y andalucía hierve en azahares y en jazmines en manzanilla de oro en trotes de caballos tordos en requiebros de miel y luna entre rejas cuajadas de claveles rojos mientras una copla rasga el aire enredándose en las cuerdas de una guitarra y las fuentes ríen y las estrellas callan mirando con embeleso a sevilla que entra escoltada por alazanes blancos como una reina gitana en su gran feria de abril revuelos de volantes recamados de encajes y lunares pasean a la grupa de acompasados trotes guiados por juncales mozos tocados con sombrero de ala ancha ceñidos por chaquetilla corta y calzados con ricas espuelas de plata mantones alfombrados de jardines ciñen con grandes flecos la esbeltez de cinturas quebradizas repiqueteos de castañuelas al compás de sevillanas rompen los silencios de la noche que se ilumina retando a la luna con miles de farolillos de colores mientras corre el vino fino el rebujito la alegría y la copla y sevilla ríe como mocita casadera a la sombra mañanera de los naranjos cuajados de azahar entre lluvia de jazmines en el atardecer dorado entre el rumor adormecido de las aguas de su río guadalquivir que abrazan mimosas la torre del oro ¡sevilla ¡sevilla engalanada siempre de sol y piedra enredada de jazmines trepadores enamorada siempre de su puente de triana mientras se mira en el redondel blanco y albero de la maestranza y allá más arriba la giralda en el alto campanario el giraldillo vela sus pájaros de bronce voltean en la mañana enloquecidos cantando con sus picos de badajo bienvenidas y alboradas entre bandadas de palomas blancas ¡¡sevilla ¡ay sevilla sevilla me perderé en tus plazas cuando el azahar se encienda en hogueras de nieve cuando el rumor del agua se funda con el aire y crines de alazanes tan blancos como lunas se enreden en los dedos de la tarde ¡ay sevilla sevilla me perderé en tus calles cuando el día se apague y el horizonte prenda sus candeleros rojos cuando escuche el silencio de mudos muecines recitando reclamos en el alto alminar de tu vieja mezquita ¡ay sevilla sevilla me perderé en tus puentes cuando el alfanje plata de ese río agareno te multiplique en risas de colores cuando la noche abra sus cofres de fragancias y te lluevan jazmines como vuelos de mariposas locas ¡ay sevilla sevilla me perderé en tu alma ¡ay sevilla sevilla ­ del poemario en los silencios del alma

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14 eisfluências junho 2012 la cruz de mayo en andalucÍa la celebración de la cruz de mayo en españa es tan antigua que aparece en todos los calendarios y fuentes litúrgicas mozárabes dice la historia dentro de sus matices de leyenda que el emperador constantino en el sexto año de su reinado y estando luchando en plena batalla vio una cruz brillante en el cielo sobre la cual se distinguían unas palabras in hoc signo vinci con esta señal vencerás ordenó construir una cruz de madera que llevaba al frente de su ejército venciendo así al enemigo de vuelta a la ciudad averiguó el significado de la cruz se hizo bautizar en la religión cristiana y mandó edificar numerosos templos su madre santa elena fue a jerusalén a petición de constantino y consiguió de sabios y sacerdotes la confesión del lugar donde crucificaron a cristo hallaron tres cruces ocultas para averiguar cual de ellas era la verdadera las pusieron una a una sobre un hombre muerto el cual resucitó al serle impuesta la tercera era la cruz de jesús santa elena murió rogando a todos los que profesaban la fe cristiana que celebraran la conmemoración del día en que fue encontrada el tres de mayo y andalucía en estos días de avanzada primavera hierve de flores de bailes de música de convivencia el día tres de mayo se celebrara la gran fiesta de la cruz la fiesta de las cruces como la llama el pueblo llano donde el pueblo llano engalana sus calles sus plazas sus patios vecinales sus jardines sus corazones el tres de mayo en andalucía ¡cualquier rincón es engalanado con una cruz de flores el vecino se vuelca en rivalizar con el vecino más próximo saca de sus arcas mantones colchas floreadas trajes de flamenca guitarras utensilios de cobre heredados de las abuelas vajillas de barro de vivos colores quizás desconchados pero de alto valor sentimental porque pertenecieron a un tiempo ya pasado y tiestos de geranios de margaritas y de rosas y todo rodea a la cruz que preside majestuosa el lugar allí está erigida sobre un altar cubierto con una fina sábana de hilo con rica blonda encajes allí está erigida por una tradición que viene desde muy lejos en el tiempo y se arma la fiesta y el día se apaga y se encienden las almas con la llama de la alegría hasta altas horas de la madrugada donde la música acompaña el revuelo de volantes y el repiqueteo de castañuelas el rebujito corre de copa en copa y más tarde cuando el día clarea el humo pegajoso de las churrerías hace su llamada matizando el aire con el aroma embriagador del chocolate y llega el cuatro de mayo y todo rincón es desarmado con el mismo amor que se armó y la fiesta de la cruz seguirá y seguirá cada año mientras el alma de la gente sepa respetar la cultura y las tradiciones de su pueblo la romerÍa del rocÍo ¡¡y el rocío los caminitos que llevan a huelva se olvidan del polvo y del calor y se alfombran de carretas enjaezadas por pacíficos y adornados bueyes por guirnaldas de flores y cintas de colores por coplas y sevillanas por batas de flamenca por botas camperas y sombreros del más puro estilo andaluz por requiebros y guitarras por sudor y fina manzanilla por risas y lágrimas sí también lágrimas ¡¡ son tantas las promesas del romero al hacer el camino hasta el rocío la aldea de almonte se vuelve gran ciudad al ser la casa grande de miles de personas que van a honrar a la blanca paloma en esos días en que el sol también está de fiesta numerosas hermandades rocieras se dan cita cada año y se encuentran se saludan se abrazan como un deber que hay que cumplir como un fraternal homenaje de amor a la virgen del rocío y maría sale de su santuario a dar un paseíto sobre su trono de flores mientras cientos de brazos se alzan hacia ella porque quieren tocarla sentirla más cercana y la virgen sonríe contenta como una romera más mientras es bamboleada y jaleada y llevada casi al vuelo por el sentir popular allá en las alturas el aire que mece las marismas matiza las voces exaltadas de las gentes que invocan a la virgen del rocío a la blanca paloma cuando la algarabía termina y el cuerpo pide descanso el alma del romero sueña su regreso sueña que pronto llegará otra cita otro nuevo año festivales de mÚsica y danza la primavera se cierra con un broche de alta joyería en las ciudades de granada y Úbeda se celebran en los meses de mayo y junio los ya legendarios festivales de música y danza en granada dentro del maravilloso entorno de la alhambra o el jeneralife allí la música se mezcla con el murmullo de las fuentes y el rumor de sus jardines morunos en Úbeda se expande en sus patios renacentistas o se encierra recatada en el soberbio marco de numerosos palacios de piedra dorada y luminosa tallada y viva allí la música y la danza se recuestan y tienen ensoñaciones de siglos nos visitan los más prestigiosos artistas de fama internacional como grandes orquestas sinfónicas orquestas de cámara solistas maravillosos ballets convivimos día tras día en elevados diálogos de alma con alma con beethoven con mozart con bach con tchaikovsky con laló con haydn con stravinsky con sibelius con manuel de falla este año el festival de música y danza de Úbeda está dedicado al compositor gaditano manuel de falla podremos deleitarnos entre otras de sus muchas obras con el amor brujo el sombrero de tres picos el retablo de maese pedro noches en los jardines de espaÑa ¡qué maravilla amigos ¡tener la música viva palpitante tan cerca al alcance de nuestros sentidos y la primavera termina en andalucía con un regusto de fiesta de convivencia de alegría de hermandad de saber estar con un regusto de elevación del alma que alcanza también el misticismo la música es su colofón su rúbrica ¡¡andalucía es así una edición de maría sánchez fernández Úbeda ­ españa 2012

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eisfluências junho 2012 15 rivkah cohen suas prosas e poesias sou rivkah rivkah no brasil é rebeca na itália é regina na frança é rejane geminiana com ascendente em gêmeos também sou uma pessoa muito voltada a tudo na vida fiz ciências sociais mas gosto muito do estudo esotérico estudei sobre bhavachakra arqueômetro e a kabalah meu interesse é pela evolução do espírito pois acho que estamos aqui para crescer espiritualmente como boa geminiana que sou amo duas pátrias o brasil e israel e pertenço aos dois resido em brasília e sinto como se fosse minha terra natal há quem a critique pois não sabe compreendê-la mas brasília não é só o governo que aqui está sediado brasília é a confluência do brasil mas além de tudo seus habitantes é a feliz visão de don bosco e justamente desse maravilhoso lugar que avisto o mundo e daqui escrevo sempre fui de jogos competições atléticas disputas em geral na verdade enquanto as meninas de minha idade trocavam de namorados eu só queria saber de jogos e colecionar medalhas como não sou grande parecia mais uma moleca enquanto as outras se preocupavam em cruzar as pernas na hora certa para chamar atenção dos rapazes teve um ano que consegui onze medalhas e isso era a glória para mim em compensação tinha que estudar muito pois não tinha colher de chá nas provas orais sempre detestei história lia lia e pensava isso aconteceu nada quem ganha é que conta a história e quem me garante que isso é real prova final estudei horrores sobre a história da rússia coloquei na cabeça que era isso que ia cair para mim tenho essas manias como meu nome começa com r eu era uma das últimas e estava só reparando que cada uma que ia lá dava uma cruzada de pernas e as perguntas eram as mais corriqueiras possíveis e eu ficando quente da cara com aquilo até que chegou minha vez fechei a cara não dei o risinho das anteriores e não cruzei perna nenhuma aí só escutei a sentença rivkah falemos sobre revolução francesa claro que me ferrei mas com a prova escrita passei raspando como sempre eram minhas notas de história anos passaram já não era mais aquela moleca e quem eu vejo o famigerado professor de história ele não me reconheceu é claro veio com um olhar de sou mais eu e me disse não nos conhecemos de algum lugar sou rivkah quer falar sobre revolução francesa senhor É um dia é da caça e o outro é do caçador no meu caso o caçador se deu mal do final rivka cohen brasília/br israel por rivkah cohen seu nome significa venceu com yisrah d us el em hebraico israel é também o segundo nome do patriarca jacó cujos descendentes na tradição hebraica são chamados bnei yisra el filhos de israel o registro histórico mais antigo que se conhece sobre o nome israel está mencionado na estela de merneptah num poema dedicado ao faraó merneptah em que o nome é associado a um povo mas não a uma localização geográfica ao que se sabe o povo de israel surgiu de grupos nômades que habitavam a mesopotâmia há cerca de cinco mil anos no fim do século xvii a.c este povo foi atacado e escravizado pelos egípcios após o fim do cativeiro no egito os hebreus vagaram pela região da península do sinai até que reconquistaram sob o comando do rei saul uma parte de seu território original as terras de canaã por volta de 1029 a.c saul foi sucedido por david em torno do ano 1000 a.c que expandiu o território de israel e conquistou a cidade de jerusalém onde instalou a capital do seu reino israel alcançou seu apogeu durante o reinado de salomão entre os anos 966 a.c e 926 a.c porém pouco depois do fim do reinado de salomão israel foi dividido em dois a norte o reino das dez tribos também chamado de reino de israel e ao sul o reino das duas tribos também chamado de reino de judá cuja capital ficou sendo jerusalém do nome judá nasceram as denominações judeu e judaísmo entretanto o território dos judeus foi sendo conquistado e influenciado por diversas potências de sua época entre elas assírios persas gregos selêucidas e romanos em 586 a.c o imperador nabucodonosor invadiu jerusalém e obrigou os israelitas ao exílio levados à força para a babilônia os prisioneiros de judá e israel passaram cerca de 50 anos como escravos sob o domínio dos babilônios o fim do primeiro Êxodo possibilitou a volta dos israelitas a jerusalém que foi reconstruída mais tarde os romanos invadiram e dominaram a região e estabeleceram que o reino judeu seria seu protetorado a primeira grande revolta contra o domínio romano e sua intromissão nos assuntos religiosos se iniciou no ano 66 e durou até 70 d.c quando o general tito invadiu a região e destruiu jerusalém e o seu templo a região então foi transformada em província romana e batizada com o nome de provincia judaea a segunda e última rebelião contra os romanos foi a revolta de bar kochba a rebelião foi esmagada pelo imperador adriano em 135 d.c e os judeus sobreviventes foram feitos escravos e expulsos de sua terra na chamada diáspora naquele mesmo ano adriano rebatizou a provincia judaea para provincia siria palaestina um nome grego derivado de filistéia como tentativa de desligar a terra de seu passado judaico a mishná e o talmude yerushalmi dois dos textos sagrados judaicos mais importantes foram escritos na região neste período depois dos romanos os bizantinos e posteriormente os muçulmanos conquistaram a palestina em 638 seu território foi controlado por diferentes estados muçulmanos ao longo dos séculos à exceção do controle dos cristãos cruzados no século xi até fazer parte do império otomano entre 1517 e 1917 o sionismo termo derivado de sion nome de uma colina da antiga jerusalém surgiu na europa em meados do século xvii inicialmente de caráter religioso pregava a volta dos judeus à terra de israel como forma de se proteger sua religião e cultura ancestral entre os séculos xiii e xix o número de judeus que fizeram aliá ato de um judeu imigrar para a terra santa foi constante e sempre crescente estimulado por periódicos surgimentos de crenças messiânicas e de perseguições anti-judaicas estas perseguições tinham quase sempre um caráter político-religioso os judeus que retornaram à palestina se estabeleceram principalmente em jerusalém mas também desenvolveram significativos centros em outras cidades nos arredores os judeus já eram a maioria da

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