Mediação 21

 

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Revista Mediação

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re revista educação c revista de educação do colégio medianeira a medianeira r nÚmero 21 r 2 ano v vii issn 1808-2564 a educaÇÃo e os uma crônica de desafios para uma cidade luís henrique pellanda aberta à diversidade a cidade histórica entrevista a cidade de títulos e grupo fato outros pontos de vista 1 a tradição e o inusitado mediação furtar destinos

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expediente revista de educação editada e produzida pelo colégio medianeira issn 1808-2564 sumário e o cotid diretor pe rui körbes s.j diretor acadêmico prof adalberto fávero diretor administrativo gilberto vizini vieira iano 3 cidade e educação paulo venturelli coordenação editorial cezar tridapalli luciana nogueira nascimento mtb 2927/82v 8 13 a cidade e o cotidiano adriana rita tremarin e rivail vanin de andrade revisão cezar tridapalli redação diego zerwes a cidade projeto gráfico liliane grein a sala de aula vai ao centro histórico de curitiba um passeio pela história local dayane rúbila lobo hessmann ilustração e imagens shutterstock paulinha kozlowski leandro guimarães liliane grein e renata santoniero colaboraram nesta edição paulo venturelli adriana rita tremarin rivail vanin de andrade dayane rúbila lobo hessmann francisco carlos rehme danielle mari stapassoli mõnica luiza simião pinto martinha vieira grace torres marcelle borges daniel zanella luís henrique pellanda kleber klos bruno aguilar guimarães 17 impressões sobre a curitiba de 1982 francisco carlos rehme tiragem 3500 papel capa papel reciclato 180g miolo papel reciclato 90g 23 nas grandes cidades danielle mari stapassoli e mônica luiza simião pinto numero de páginas 48 impressão gráfica radial tel 3333-9593 28 30 tic-tac daniel zanella equipe pedagógica supervisão pedagógica claudia furtado de miranda danielle mari stapassoli juliana cristina heleno mayco delavy educação infantil e e fundamental de 1º a 5º ano coordenação profª silvana do rocio andretta ribeiro entrevista com o grupo fato entrevista elaborada por martinha vieira ensino fundamental de 6º e 7º ano coordenação profª eliane dzierwa zaionc a transformação do contexto urbano ensino fundamental de 8º e 9º ano coordenação profª roberta uceda 35 um breve relato da realidade brasileira atravéz do olhar de uma jovem voluntária ensino médio coordenação profº marcelo pastre marcelle borges lemes da silva coord comunitário e de esporte prof francisco alexandre faigle coordenação de pastoral pe guido valli s.j 39 42 vivendo a vida kleber klos coordenação de midiaeducação cezar tridapalli assessoria de comunicação e marketing luciana nogueira nascimento a bicicleta no dia-a-dia e até para viajar bruno aguilar guimarães os artigos publicados são de inteira responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião dos editores e do colégio nossa senhora medianeira a reprodução parcial ou total dos textos é permitida desde que devidamente citada a fonte e autoria linha verde av josé richa nº 10546 prado velho curitiba/pr fone 41 3218 8000 fax41 3218 8040 www.colegiomedianeira.g12.br mediacao@colegiomedianeira.g12.br 46 furtar destinos luís henrique pellanda mediação 3

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editorial q ue cidade é essa que espaços são meus e quais os seus e os nossos onde ficam a minha cidade a dos tempos pueris era a cidade da rua a dos descampados das carroças que traziam a lenha para os dias brancos da geada de março a primeira era a cidade que escolhia o nome de suas ruas entre as histórias mais comoventes ou impressionantes na comunidade era a cidade dos vizinhos que puxavam pelo nome a conversa no portão que discutiam a si próprios e sobre o cotidiano que passava em frente minha cidade não quer mais qualquer vizinhança nem anda pelas ruas sem o carro do ano e critica o fato do carro ser instrumento e espaço para qualquer um minha cidade gosta de construções altas e modernas despreza o sobrado que sobrevive espremido entre os arranha-céus porque ele atrapalha a paisagem da modernidade minha cidade tem muitos donos prefeitos de espaços privados delegados de quarteirões preocupa-se com o próprio bem esquece-se do bem comum a pobreza de minha cidade fica do lado de fora no retrovisor fica nos carrinheiros que escolhem os piores horários para atrapalhar o trânsito mais atrapalhado pelos motoristas fica nos fumantes de cachimbo de crack que a cidade prefere esconder com o insufilm ou desviar mudando a rota para os gramados verdes da terra prometida que fica logo ali depois da periferia mas minha cidade pode ser generosa se a gente olhar com cuidado nos cantos escondidos dos parques não tão propagandeados há espaço para velhos e novos casais se encontrarem para bola nos pés da piazada há academias e estímulo à prática esportiva a cultura bem esta fica por conta de uns poucos heróis que a mantêm viva às custas do próprio bolso e do incentivo do público parco porém entusiasmado com as iniciativas cultura mesmo é a do consumo esta sim estampada nos palácios espelhados de altos muros as portas abertas ao capital e as saídas vigiadas lugar esteticamente perfeito dentro dos padrões do mais avançado design ou reengenharia tudo salta aos olhos provoca ardência cítrica no canto das mandíbulas como se o laranja e o dourado cromassem os desejos mais escondidos de todo bom provador as páginas desta mediação pensam a cidade de cada um e a cidade de hoje paulo venturelli traz uma reflexão primorosa sobre a educação desigual e a aceitação do diferente outro artigo da pro fessora adriana tremarin desafia o personagem da cidade que deve escolher seu papel diário para combater ou intensificar os problemas urbanos o centro histórico pode ser a sala de aula e uma viagem no tempo nos leva a curitiba de 30 anos atrás a capital ecológica capital social capital da incoerência escondida em títulos e discursos contraditórios está no texto de danielle stapassoli e mônica simião pinto mas não falamos só de contexto e cidade você vai encontrar em mediação futebol as aventuras de uma bicicleta que curte trabalhar e viajar contos de daniel zanella e luiz henrique pellanda e uma entrevista exclusiva com o grupo fato sinônimo de inovação genuinamente curitibana e que promete encantar o público na segunda edição da flim em outubro no medianeira assim estamos aqui novamente pra matar a saudade a sede de conhecimento e reflexão coletiva pra despertar a vontade de escrever e comentar com a gente escreva para nós já demos telefone e endereço um abraço sem muros com uma xícara de açúcar do vizinho mais próximo e a promessa de um café com leite quente caso a conversa se estenda boa leitura luciana nogueira nascimento mediacao@colegiomedianeira.g12.br acesse www.colegiomedianeira.g12.br www.midiaeducacao.com.br 4 mediação envie sugestões e comentários para:

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cidade educação por paulo venturelli artigo e do corpo à identidade da questão do gênero à sexual do racismo à convivência com o diferente do capitalismo à indústria cultural a educação em curitiba tem sérios desafios pela frente mediação 5

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u ma questão pouco pensada educativo que a auxilie juntar na dispersão para que sua posição na cidade seja ativamente genuína são também palavras de sennett navegar pela geografia da sociedade moderna requer muito pouco esforço físico e por isso quase nenhuma vinculação com o que está ao redor nossos meios de transporte são decantados em verso e prosa mas que vínculo eles permitem aos seus usuários entre si e a paisagem urbana que pode não passar disto paisagem sem que com ela se tenha a mínima interação porque na trilha de sennett o corpo se move passivamente anestesiado no espaço para destinos fragmentados e contínuos seguindo a ótica do autor desde as suas origens nossa civilização tem sido desafiada pelo corpo sofrido e aqui não vamos nos atrever a falar numa civilização curitibana mas podemos já enfatizar uma cultura curitibana com tudo que produzimos na literatura no teatro no cinema na música na pintura na arquitetura no urbanismo etc o conjunto destas manifestações tem contribuído para o curitibano ser um corpo menos sofrido ou nada disto atinge a massa de cidadãos que se arrasta pelas ruas siderada pelos shoppings sem sequer ligarse à cultura corpo e educação também fazem sentido quando pensamos como guacira lobo o argumento de que homens e mulheres são biologicamente distintos e que a relação entre ambos decorre dessa distinção que é complementar e na qual cada um deve desempenhar um papel determinado secularmente acaba por ter o caráter de argumento final irrecorrível seja no âmbito do senso comum seja revestido de uma linguagem científica a distinção biológica ou melhor a distinção sexual serve para compreender ­ e justificar a desigualdade social em nossa curitiba de primeiro mundo certamente homens e mulheres já alcançaram a igualdade eliminando toda forma de opressão da mulher em nossa vila de primeiro mundo certamente todos os homossexuais têm liberdade de viver sua orientação sem sofrer nenhuma espécie de constrangimento uma educação de primeiro mundo consegue superar as diferenças melhor integra-as num plano harmonioso em que ninguém mais é discriminado sob que fator for À sombra de lobo sabemos que os sujeitos têm identidades plurais múltiplas identidades que se transformam que não são fixas ou permanentes que podem até mesmo ser contraditórias assim o sentido de pertencimento a diferentes grupos ­ étnicos sexuais de classe de gênero etc ­ constitui o sujeito e pode levá-lo a se perceber como se fosse `empurrado em diferentes direções como diz stuart hall quantas de nossas escolas trabalham dentro desta cosmovisão em que o eu não é unitário nem fixo sofrendo em termos educacionais diz respeito às relações entre o processo educativo e a cidade no entorno da escola sob este ângulo é preciso primeiro pensar o corpo richard sennett em seu carne e pedra diz que a civilização ocidental não tem respeitado a dignidade dos corpos humanos e a sua diversidade a partir daí podemos perguntar curitiba é uma cidade que respeita o corpo e a diversidade no sentido de todos terem habitação condigna para que a partir daí o processo educacional se dê com eficiência o mesmo autor ainda firma que experimentamos nossos corpos de uma maneira mais passiva do que faziam nossos bisavôs curitiba que tanto se orgulha de ser uma cidade de excelências com os equipamentos que nos oferece permite a vivência ativa do corpo ou apenas a passiva ainda segundo sennett a transferência geográfica das pessoas para espaços fragmentados produz efeito muito mais devastador enfraquecendo os sentidos e tornando o corpo ainda mais passivo cabe outra pergunta em curitiba bairros e centro parques e praças museus e cinemas etc guardam uma unidade em que o homem possa se sentir em casa ou tudo está espalhado como um enorme quebra-cabeça em que os sentidos estão enfraquecidos e uma pessoa assim terá dificuldades de absorver um discurso 6 mediação

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transformações ao longo de sua história e educar é justamente facilitar que este eu multifacetado e incongruente seja modelado segundo suas contingências em curitiba há espaço para a diferença temos parques para todas as etnias que nos constituem onde está o parque dedicado aos negros lobo nos ensina que sujeitos masculinos ou femininos podem ser heterossexuais homossexuais bissexuais e ao mesmo tempo eles também podem ser negros brancos ou índios ricos ou pobres etc ou seja numa cidade minimamente civilizada a educação entre outros pontos leva em consideração estes fatores a partir dos quais a liberdade de ser floresce sem barreiras numa dinâmica urbana de cunho humanístico em que a opressão dissolveuse no horizonte mais distante seguindo lobo em seu livro gênero sexualidade e educação quando afirmamos que as identidades de gênero e as identidades sexuais se constroem em relação queremos significar algo distinto e mais complexo do que uma oposição entre dois polos preten demos dizer que as várias formas de sexualidade e de gênero são interdependentes ou seja afetam umas às outras pelo que se alardeia de curitiba como cidade para a família podemos deduzir que curitiba é uma família em que há espaço para a interdependência das expressões de gênero e sexo e nossa educação atenta desde o início fornece aos alunos principalmente nas séries iniciais elementos para a compreensão vívida deste cenário de contradições municiando o aluno para uma correta postura como cidadão diante da crescente exposição de variedades de comportamento seja pelas mídias seja no próprio perímetro da escola que não se restringe aos seus muros mas se espraia por toda a cidade estas são algumas considerações breves sobre o corpo na educação porém queremos levantar outros pontos para que sirvam ao menos de meada para o início de uma reflexão mais profunda peter mclaren em seu importantíssimo livro multiculturalismo revolucionário apregoa vivemos em um tempo em que os desejos antes dirigidos para o interior são agora construídos na superfície dos corpos a bem dizer são tatuagens patologicamente narcisistas que refletem a esperança perdida e os sonhos vazios assim as identidades são confiscadas transformadas em coisas grotescas incapazes de escapar do circuito de desengano e desespero circuito este construído a partir das razões e racionalizações capitalistas se nossa cidade é tão humana como afirma a ideologia oficial tudo que é construído nela é para a população ou segue a racionalização capitalista que mclaren aponta tudo deságua no lucro de uns poucos enquanto a maioria fica vendo a banda sem som passar nas pegadas de mclaren enquanto ele o capitalismo tiver a razão burguesa universal e o privilégio epistêmico da ciência como seu porta-voz o eurocentrismo como sua âncora cultural e a condição branca como sua base de cálculo cultural deveria ser desafiado pelos movimentos populares de renovação dentro de um meio cultural policêntrico a propósito em nosso meio quantas escolas já se livraram do padrão burguês de ensinar um tipo de racionalização que é eurocêntrica e branca na cidade qual o espaço para os movimentos populares e quanto estes definem a face da cidade e pressionam os currículos para absorverem o que é autenticamente popular que dizer brasileiro quer dizer curitibano vamos nos contentar com a feirinha de domingo no largo da ordem uma pitada mediação 7

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de sal onde está o teatro popular de nossa cidade onde está o rap onde estão todas as intrincadas manifestações do hip-hop ou nada disto ocorre em curitiba e nossas escolas não sabem como se comportar na absorção destas escalas de arte eminentemente populares zygmunt bauman capitalismo parasitário faz menção ao seguinte para além de qualquer dúvida razoável o recente `tsunami financeiro demonstrou a milhões de indivíduos ­ convencidos pela miragem da `prosperidade agora e sempre de que os mercados e bancos capitalistas eram os métodos incontestáveis para a solução dos problemas ­ que o capitalismo se destaca por criar problemas e não por solucioná-los levando isto em vista curitiba é uma cidade capitalista suas imensas torres de bancos espalhadas pelo centro não o negam a cidade ao ser planejada leva em conta o homem ou o lucro as escolas educam o homem ou o tubarão financeiro quantas escolas aqui já se livraram da famigerada ditadura do mercado quantas estão preocupadas/ocupadas com o humanismo e as artes e não com o empreendedorismo pomposa palavra para disfarçar a exploração de mão de obra barata porque os donos do poder e das finanças entendem que só quem explora o trabalho alheio enriquece e não propriamente quem labuta na jornada cotidiana se o capitalismo é parasitário como todos os parasitas pode prosperar durante certo período desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro destruindo assim cedo ou tarde as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência a educação em curitiba já despertou para esta tragédia ou continua formando parasitas que se hospedarão no corpo do trabalhador para dali retirar sua seiva em estudo de grégory chambart sobre pelloutier instruir para revoltar encontramos a seguinte passagem pelloutier sabe que a miséria não é adubo do saber ele entende igualmente que as ocupações os divertimentos concedidos às massas desviamnas do esforço `da cultura em si mesmo denunciando a arte fácil jogada como pasto ao povo ele demonstra tão bem os mecanismos dessa manipulação ideológica quanto explica as razões que levam o operário esgotado a buscar reconforto e relaxamento em seus fúteis divertimentos e vejam que ele ignorava tudo dos poderes hipnóticos do cinema e da televisão É em cima disto que a passagem dos ônibus de curitiba aos domingos custa apenas 1,00 o povão deve ir se divertir com as futilidades que a cidade oferece no circuito dos shows claramente curitiba se insere no cenário comercial é só ver a quantidade de duplas do sertanojo que transitam por aqui e muito raramente a música que merece este nome tem lugar na cidade dê uma olhada nos festejos institucionais e troquemos a palavra operário na citação acima por jovem/aluno e teremos a extensão do problema desta forma do corpo à identidade da questão do gênero à sexual do racismo à convivência com o diferente do capitalismo à chula indústria cultural a educação em curitiba tem sérios desafios pela frente não apenas renovar-se mas mudar de rumo de discurso de paradigma de acento e a cidade como tal deve abandonar seus mitos oficialescos e participar não como cenário e sim como substância daquilo que se chama educação a cidade pode ser um porto-seguro ou um vácuo uma referência de respeito ou apenas nota de rodapé se consagrada à educação de modo efetivo e crítico ela gera a tão badalada cidadania que tão pouco se vê fora dos ambientes sofisticados dos bairros de alto padrão da cidade comente este artigo mediacao@colegiomedianeira.g12.br paulo venturelli nasceu em brusque sc e desde a década de 1970 vive em curitiba formado em letras com mestrado e doutorado é professor da universidade federal do paraná É autor entre outros dos livros admirável ovo novo o anjo rouco paisagem com menino e cachorro a casa do dilúvio no vale dos sentidos fantasmas de caligem e a morte www.pauloventurelli.wordpress.com 8 mediação

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fica a dica carne e pedra autor richard sennett editora record da grécia antiga à moderna nova york da celebração da revolução francesa à simples história da cadeira da sina dos judeus no gueto de veneza em plena renascença ao destino do cidadão burguês na paris do século xix richard sennett trabalha com a relação entre o corpo humano e o espaço urbano `carne e pedra é ao mesmo tempo realista e corajosamente imaginativo ele extrapola os limites entre as disciplinas acadêmicas levando o leitor a repensar as questões sociais e estéticas do nosso tempo gênero sexualidade e educação autor guacira louro editora vozes este livro tem o caráter de introdução aos estudos de gênero a obra apresenta conceitos e teorias recentes no campo dos estudos feministas e suas relações com a educação estuda as relações do gênero com a sexualidade as redes do poder raça classe a busca de diferenciação e identificação pessoal e suas implicações com as práticas educativas atuais multiculturalismo revolucionário autor peter mclaren editora artmed o novo livro de peter mclaren é um passo importante no sentido de estabelecer um contato cultural real o que é um dos maiores desafios globais enfrentados pelos educadores de hoje multiculturalismo revolucionário avança muito na compreensão do multiculturalismo em novas e significativas formas capitalismo parasitário autor zygmunt bauman editora zahar esta obra traz o olhar crítico do autor sobre temas variados do mundo contemporâneo como cartões de crédito anorexia bulimia a crise financeira de 2009 e suas possíveis soluções a inutilidade da educação nos moldes contemporâneos a cultura como balcão de mercadorias entre outros instruir para revoltar autor grégory chambart editora imaginário pode-se considerar que a escola desempenha o mesmo papel que a arte esta obra revela que esses dois `aparelhos ideológicos de estado têm em comum o fato de que eles são simultaneamente as piores cadeias para a humanidade explorada e os instrumentos que lhe permitirão forjar um outro futuro mediação 9

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artigo a cidade as cidades precisam ser planejadas mas são as pessoas no seu dia a dia que a constroem e que devem orientar esse planejamento elas são produzidas cotidianamente e de forma coletiva mas é uma decisão pessoal e diária combater ou intensificar os problemas urbanos por por adriana rita tremarin e rivail vanin de andrade 10 mediação e o cotid iano

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f lávia é uma jovem curitibana de dezoito anos em seu dia a dia muito pouco se altera na sua rotina ela acorda toma rapidamente o café da manhã enquanto escuta música em seu ipod entra no ecosport que ganhou do pai quando passou no vestibular e se dirige para uma universidade particular perto de sua casa entre o condomínio-clube em que mora e o local de estudo são apenas dois quilômetros percorridos em menos de cinco minutos no entanto a fila para entrar no campus e o tempo para encontrar uma vaga no estacionamento adicionam ao trajeto outros quinze minutos ao retornar para casa descobre que dona maria a diarista que mora em colombo faltou pois a escola de seus filhos entrou em greve e ela não tinha com quem deixálos flávia pede comida chinesa em um delivery após quarenta minutos a comida chega já meio fria ela almoça sozinha pois é filha única e seus pais trabalham longe fazendo com que o tempo de deslocamento inviabilize que eles retornem para casa na hora do almoço À tarde flávia leva seu cachorro para brincar no petground do condomínio em seguida vai passear no shopping onde compra um tablet recém-lançado pois o seu já estava obsoleto ao retornar vai até o fitness center do condomínio e assiste a tv enquanto corre na esteira em casa liga o chuveiro a gás na vazão máxima e enquanto espera que a água aqueça escova os dentes seus pais chegam e flávia discute com eles quando a mãe cobra que ela deveria ter arrumado seu quarto e lavado a louça irritada flávia se tranca em seu quarto e conversa com os amigos pelo facebook a noite passa poderíamos fazer uma análise sociológica do texto ou até mesmo linguística dada a profusão de palavras de origem estrangeira em vez disso propomos uma leitura sob a perspectiva do urbanismo como o cotidiano de flávia é impactado e como influencia a cidade em que ela mora flávia como outros tantos curitibanos mora em um condomínio de residências com a estrutura de equipamentos de recreação intramuros típicos de clubes particulares em curitiba os condomínios de residências isoladas condomínios horizontais fechados com mais de 20 mil metros quadrados vêm crescendo sistematicamente nos últimos anos de acordo com o relatório mensal de alvarás de construção no ano 2000 foram liberados seis alvarás para essa tipologia em 2010 esse número saltou para cento e quarenta ou seja um acréscimo de 2.300 a principal justificativa da existência desses condomínios é a violência urbana ora um condomínio gera extensos muros com poucos pontos de acesso já que é preciso controlar quem entra e quem sai os moradores se enclausuram pois têm uma estrutura de serviços que torna desnecessário frequentar a cidade afinal lá há sempre o perigo quando saem do condomínio deslocamse majoritariamente de carro com as janelas fechadas mesmo para ir à panificadora ou à banca de re vistas portanto há poucas pessoas caminhando pelas calçadas ao redor do condomínio os muros normalmente são altos e construídos em alvenaria não possibilitando uma permeabilidade visual e os habitantes intramuros não querem que sua privacidade seja violada agora imagine dona maria a diarista da flávia chegando para trabalhar ela desce do ônibus e começa a andar por uma rua deserta a paisagem ao seu lado é um extenso e alto muro possivelmente com algumas heras plantadas para evitar pichações do outro lado da rua outro condomínio deixa a paisagem ainda mais erma ninguém circula nas ruas apenas ela então ela se lembra da vila por onde passou no caminho as crianças ainda brincam na rua se ela for assaltada ou passar mal ninguém verá que segurança pode haver em uma rua sem pessoas jane jacobs em seu livro morte e vida de grandes cidades 1961 já descrevia a importância dos olhos da rua e argumentava que para a segurança mais importante que a polícia é a existência de uma intrincada rede de desconhecidos que se apropriam do espaço os condomínios também suscitam a questão de territorialidade para os condôminos o espaço intramuros é seu e o externo aos muros é do outro ora se o espaço público é do outro não há porque cuidar dele isso cria um sentimento de não pertencimento à urbe é como se o condomínio e a cidade fossem distintos por outro lado pode criar naqueles que es mediação 11

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tão fora dos muros a sensação de que não são bem vindos naquele espaço criando conflitos fragmentando a cidade em pequenos guetos e consequentemente aumentando a violência jane jacobs também criticava o modelo de subúrbio americano passado mais de meio século curitiba importa um modelo esgotado que já foi abandonado por aqueles que o criaram os condomínios são a negação da cidade a personagem flávia da abertura desse texto mora a apenas dois quilômetros da faculdade cerca de vinte minutos de caminhada também tinha opções de ônibus mas opta em ir para a faculdade de carro assim como ela muitos personagens reais fazem o mesmo como consequência a cidade tem cada vez mais pontos de congestionamento ainda como muitos a personagem foi sozinha em seu carro agora vamos imaginar que flávia e outros 71 colegas de sua turma resolvessem ir de ônibus o espaço ocupado na via por esse ônibus com 72 alunos seria de 30 metros quadrados se esses alunos fossem de carro com uma média de 1,2 alunos por carro seriam necessários 60 carros ocupando mil metros quadrados do sistema viário vale ressaltar que a rede integrada de transporte público de curitiba embora repleta de deficiências é uma das melhores do brasil não obstante a cidade que exporta o seu modelo de brt bus rapid transit para o mundo é um dos municípios com maior taxa de motorização do brasil de acordo com o censo de 2010 curitiba possui 1.751.907 habitantes e uma frota total de 1.247.998 veículos perfazendo uma taxa de motorização de 0,71 em comparação a taxa de porto alegre é de 0,49 e de são paulo de 0,57 em alguns bairros de curitiba existem mais carros registrados do que pessoas morando o uso do transporte coletivo vem decrescendo gradativamente nos últimos anos se flávia pegasse carona com algum colega fosse de bicicleta ou até mesmo a pé reduziria o congestionamento e a poluição da cidade o poder público além do discurso poderia optar pelo transporte coletivo também na concretização de políticas de governo para as cidades nos últimos anos o governo federal criou uma série de incentivos fiscais como a redução do ipi dos automóveis que aliada à expansão do crédito possibilitou um grande aumento da frota de carros alguns estudos apontam que se as três esferas de governo abrissem mão dos impostos seria possível reduzir a passagem do ônibus em cerca de 50 apesar do crédito fácil e da redução dos valores dos impostos dona maria não conseguiu comprar seu carro e depende do transporte coletivo até bem pouco tempo dona maria morava em uma vila perto do condomínio e ia a pé para o trabalho no entanto começaram a surgir rumores de que a vila passaria por um processo de regularização fundiária do dia para a noite os terrenos passaram a valer mais afinal a vila ia virar cidade dona maria não teve dúvidas vendeu seu direito de posse para um especulador imobiliário e comprou um lote legalizado em colombo o que dona maria não percebeu é que agora ela ia ter que gastar duas horas por dia para se locomover até o trabalho além disso parte do salário passaria a ser gasto com o ônibus que antes ela não pegava seus filhos também reclamam na escola em que estão matriculados não há contraturno e eles têm que ficar com a vizinha à tarde dona maria perdeu qualidade de vida gostaria de voltar para curitiba mas se vender seu lote em colombo não consegue comprar outro na capital assim como dona maria grande parte da população de baixa renda de curitiba vem sofrendo um processo de autossegregação vendem os seus lotes e se mudam para a franja metropolitana no entanto via de regra continuam trabalhando e/ou estudando em curitiba e dependendo dos equipamentos sociais e de lazer da sede esse movimento pendular cria cidades dormitórios possivelmente dona maria continua fazendo suas compras do mês em curitiba e aí deixa o seu dinheiro em colombo vai apenas para dormir embora não saiba dona maria pagou uma série de impostos para curitiba mas 12 mediação

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ela vive em colombo que precisa arcar com a iluminação pública da rua da dona maria e com a escola de seus filhos mas parte do imposto que serviria para manter esses equipamentos de colombo ficaram em curitiba com isso temos na região metropolitana de curitiba uma cidade polo cada vez melhor nos indicadores sociais e cidades periféricas cada vez mais dependentes a região de curitiba vem sofrendo um intenso processo de periferização é como se a malha urbana de curitiba extravasasse seus limites político-administrativos e invadisse os municípios vizinhos a região do maracanã em colombo por exemplo está contígua à malha de curitiba com a qual possui intensa dinâmica mas está separada do centro tradicional de colombo para os moradores do maracanã é como morassem em curitiba curitiba também tem uma intensa dependência dos demais municípios da região metropolitana pense por exemplo de onde vem a água gasta pela flávia enquanto esperava seu chuveiro a gás esquentar certamente não é do rio belém para possibilitar que a população de curitiba tenha água potável uma série de municípios vizinhos precisam ter restrições de uso e ocupação do solo leis que restringem a implantação de indústrias e o adensamento de pessoas e que via de regra deixam os municípios dependentes de transferências de verbas de acordo com a sanepar o consumo residencial per capita em 2011 no bairro mossunguê você deve conhecê-lo melhor como ecoville foi de 365 litros e no batel 289 litros enquanto no prado velho foi de 79 litros e no são miguel foi de 38 litros per capita por dia fica evidenciado que embora a população de maior poder aquisitivo tenha mais acesso a informação é a que mais gasta e desperdiça ao trocar seu tablet por um modelo mais recente flávia produziu lixo tecnológico sem perceber ela alimentou uma indústria que produz aparelhos planejados para ter um ciclo de vida curto seja pela obsolescência programada que cria produtos como impressoras que deixam de funcionar após imprimirem determinado número de páginas ou pela obsolescência percebida que faz as pessoas trocarem de produto mesmo estando em perfeito funcionamento porque ele tem aparência desatualizada aliás vale ressaltar que o lixo produzido pela população de curitiba não é processado na cidade esse volume de lixo que aumenta a cada ano em sua produção per capita é enviado para municípios vizinhos vivemos em uma cidade de contrastes ao mesmo tempo em que exportamos um modelo de transporte público temos taxa de motorização elevada nossos par ques são modelos de espaços públicos no entanto criamos cada vez mais condomínios onde apenas pessoas de mesmo nível social e econômico interagem criamos um centro de compras democrático junto com o calçadão da rua xv mas deixamos que um shopping o descaracterizasse vendemos a imagem de cidade ecológica mas temos o segundo rio mais poluído do brasil o iguaçu a cidade precisa ser planejada mas são as pessoas no seu dia a dia que fazem a cidade e que devem orientar esse planejamento a cidade é produzida cotidianamente e de forma coletiva mas é uma decisão pessoal e diária combater ou intensificar os problemas urbanos de acordo com o mapa da cidade conforme imagem na página seguinte a linha tracejada em magenta representa o núcleo urbano central que é composto pela conurbação das malhas urbanas de diversos municípios da rmc os pontos em vermelho são as ocupações irregulares É como se a cidade de curitiba extravasasse seus limites político-administrativos expulsando a população de baixa renda para a franja metropolitana mediação 13

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adriana rita tremarin é mestre bacharel e licenciada em geografia ufpr e professora do 7º ano do colégio medianeira rivail vanin de andrade é doutor em arquitetura e urbanismo usp mestre em geografia ufpr arquiteto e urbanista puc-pr e professor da universidade positivo fica a dica vida para consumo autor zygmunt bauman editora zahar neste livro bauman procura examinar o impacto da conduta consumista em diversos aspectos da vida social política democracia comunidades parcerias construção de identidade produção e uso de conhecimento e analisa ainda como esta característica parece evidente no mundo virtual por exemplo em redes de relacionamento vida em fragmentos autor zygmunt bauman editora zahar este livro é uma coletânea de oito ensaios sobre diversos temas identidade inospitalidade peregrinação e errância pânico violência racismo antissemitismo modernização da crueldade função dos intelectuais na política e construção de uma moral não baseada em contrato mas incondicional e irrestrita através destes textos bauman tenta refletir sobre a possibilidade de se resolver o dilema de viver em um mundo fragmentado de modo a exercer uma atitude moral que leve em conta o outro e as questões de humanidade 14 mediação

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centro histórico de curitiba por dayane rúbila lobo hessmann não é preciso atravessar o além-mar para conhecer e apreciar monumentos e patrimônios tombados no caso de curitiba é só fazer um passeio pelo centro histórico veja como isso é útil e interessante se utilizado na sala de aula paço municip al de curitiba fundação cultural de curitiba um passeio pela história local mediação a sala de aula vai ao 15

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