Conceitos da Geografia

 

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geografia conceitos e paradigmas apontamentos preliminares costa fábio rodrigues da1 rocha márcio mendes2 resumo o presente artigo de caráter introdutório tem como objetivo discutir a constituição e os desdobramentos da geografia como ciência bem como seus principais conceitos orientadores para isso buscamos apresentar no transcorrer do texto os principais paradigmas geográficos e as novas possibilidades para o século xxi isto feito através da leitura de livros e artigos científicos desta forma pretendemos apresentar uma abordagem geral sobre a geografia seus paradigmas e conceitos palavras-chave geografia paradigmas conceitos geography concepts and paradigms ­ preliminary notes abstract this article aims to discuss the evolution of the geography as science and its main concepts guiding are presented in the course of the text the main geographical paradigms and new possibilities for the twenty-first century this by reading books and scientific articles thus we intend to present in a preliminary way a general approach and introduction on the geography its paradigms and concepts keiwords geography paradigms concepts introduÇÃo o presente artigo tem como objetivo principal apresentar uma discussão introdutória sobre a geografia a partir da construção histórica de seus paradigmas e conceitos em virtude da complexidade do assunto não é possível no presente texto o aprofundamento das questões expostas desta forma a intenção é oferecer uma base orientadora para os estudantes sobre o processo de desenvolvimento da geografia assim professor assistente do departamento de geografia fecilcam doutorando pelo programa de pósgraduação em geografia ­ uem fabiorcmestrado@bol.com.br bolsa de estudo fundação araucária 2 1 professor associado do departamento de geografia uem campo mourão pr v.1n.2 p.25 56 2ºsem 2010 issn 2178-3306 rev geomae

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revista geomae geografia meio ambiente e ensino vol 01 nº 02 2º sem/2010 buscamos discutir os paradigmas e os conceitos considerados como de maior relevância cabe ao leitor aprofundar os estudos através das referências indicadas inicialmente fazemos uma breve discussão sobre a geografia pré-científica que se estendeu até o século xviii e foi caracterizada por ser um saber totalizante desprovido de sistematização na sequência buscamos apresentar os principais debates sobre a geografia científica abordamos os seguintes paradigmas determinismo ambiental possibilismo método regional nova geografia e geografia crítica também trazemos para o debate as discussões referentes às novas possibilidades para o século xxi através da geografia global no terceiro momento apresentamos os principais conceitos geográficos espaço território região paisagem e lugar as contribuições que a geografia vem trazendo para a sociedade são resultados de intensas descrições análises discussões debates divergências e até mesmo profundos enfrentamentos teóricos e metodológicos os enfrentamentos vão marcar a revisão de seus paradigmas e conceitos o que demonstra o dinamismo e as constantes críticas pelas quais passou e está passando debater e refletir sobre o desenvolvimento histórico da geografia mesmo que isso já tenha sido realizado por inúmeros estudiosos nunca é demais visto que proporciona um melhor entendimento sobre o tema É relevante o resgate e a revisão de importantes pensamentos e pensadores pois permite novos olhares sobre essa dinâmica e importante ciência breve relato sobre o perÍodo prÉ-cientÍfico da geografia o período pré-científico corresponde aos saberes geográficos desprovidos de sistematização e organização metodológica produzidos pelos seres humanos desde a préhistória até a consolidação científica abarcam as pinturas rupestres encontradas em cavernas representando a organização espacial da sociedade os estudos de astronomia cartografia correntes marinhas organização social entre outros manuel correia de andrade 1987 considera que os povos que viviam na préhistória já desenvolviam conhecimentos que podem ser considerados geográficos cita como exemplo os quéchuas na américa andina que possuíam noção de orientação visto que as estradas que partiam da capital seguiam na direção dos quatro pontos cardeais os polinésios povos navegadores conheciam a direção dos ventos e das correntes marinhas e utilizavam seus conhecimentos para a locomoção entre as diversas ilhas que compõem o arquipélago 26

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costa f.r da rocha m.m na antiguidade as civilizações da mesopotâmia e do egito estudavam técnicas de irrigação regime extensão dos rios e variação do volume da água os estudos eram realizados em razão da necessidade de compreender a dinâmica fluvial para a prática da agricultura andrade 1987 considera tais abordagens como os primeiros passos para o desenvolvimento da hidrografia fluvial a contribuição dos gregos na antiguidade clássica é considerada a mais relevante e significativa os principais destaques foram a medição do espaço e a discussão da forma da terra o estudo da física da superfície terrestre e a descrição dos aspectos físico-espaciais podemos destacar que ao mesmo tempo em que se ampliava o conhecimento do espaço geográfico aguçando a pesquisa dos sistemas de relação entre a sociedade e a natureza ­ sistemas agrícolas técnicas de uso do solo relacionamento entre as cidades e o campo relações entre as classes sociais e entre o poder e o povo desenvolvia-se também a curiosidade sobre as características naturais os sistemas de montanha os rios com os seus variados regimes a distribuição das chuvas a sucessão das estações do ano etc andrade 1987 p 24 os estudos geográficos realizados pelos gregos tinham na maioria das vezes caráter descritivo e informativo o principal objetivo era descrever as características do espaço e sua possibilidade de utilização e exploração também estavam preocupados com o estudo da esfericidade da terra com o processo de erosão com as variações do clima com os mares rios e com a política a partir da decadência do império romano do ocidente no século v ocorreu na europa um retrocesso do pensamento foram descartadas importantes contribuições realizadas pelos gregos entre elas podemos destacar a negação da esfericidade da terra entendendo-a como um disco plano o sistema de produção feudal e a fragmentação do poder e do espaço somados com a intensa influência exercida pela igreja católica contribuíram para a retração do pensamento científico neste contexto histórico os conhecimentos que se enquadravam na geografia ficaram estagnados havendo poucos avanços merece destaque na idade média a contribuição dos povos árabes que motivados pelo processo de expansão territorial buscavam compreender melhor o espaço estudavam a herança grega ampliando e inovando conforme rodrigues 2008 os muçulmanos contribuíram para a evolução das ciências e das artes realizaram a tradução da obra de ptolomeu desenvolveram a geografia a geometria a astronomia e a matemática os séculos xv e xvi são marcados pelas grandes navegações portuguesas e espanholas a maior preocupação no período foi com a espacialização através do 27

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revista geomae geografia meio ambiente e ensino vol 01 nº 02 2º sem/2010 desenvolvimento de técnicas cartográficas tal fato é explicado em virtude das necessidades de expansão impostas pelo capitalismo comercial a escola de navegação de sagres em portugal criada pelo infante d henrique teria contribuído para o aprimoramento das técnicas de navegação e de cartografia até o século xviii se destacam os estudos sobre relatos de viagens estudos dos fenômenos naturais e a elaboração de mapas os conhecimentos caracterizados como geográficos estavam fragmentados e desorganizados cabendo a filosofia a matemática e a física as discussões e debates pertinentes a organização científica ocorreu somente no século xix na alemanha É possível notar que o desenvolvimento dos conhecimentos geográficos anteriores a sistematização estavam ligados ao processo expansionista territorial isso pode ser aplicado aos quéchuas nos andes aos gregos e romanos na europa aos povos árabes e italianos em busca de rotas comerciais no mediterrâneo e aos portugueses e espanhóis com as grandes navegações nos séculos xv xvi e xvii o objetivo principal era o conhecimento e a descrição do espaço para entre outros aspectos a elaboração de rotas que possibilitassem a ampliação do comércio também estavam preocupados com a expansão territorial e o domínio econômico de novos espaços o que denota o papel estratégico da geografia para os povos que a desenvolviam a organizaÇÃo da geografia e seus paradigmas milton santos 1986 nos ensina que se queremos encontrar os fundamentos filosóficos da geografia no momento da sua construção como ciência entre o final do século xix e inicio do xx temos que buscá-los em descartes 1596 1650 kant 1724 ­ 1804 darwin 1809 ­ 1882 comte 1789 ­ 1857 hegel 1770 ­ 1831 e marx 1818 ­ 1883 os pensamentos dos referidos autores contribuíram de forma diferente peculiar e ideológica para a construção dos paradigmas da geografia o filósofo francês rené descartes é considerado o pai da filosofia moderna tendo como principal contribuição o racionalismo o filósofo alemão immanuel kant analisou o espaço e o tempo o naturalista britânico charles darwin na obra a origem das espécies apresenta a seleção natural que impactou profundamente as ciências naturais o filósofo francês august comte elaborou o positivismo o filósofo alemão georg hegel o idealismo e o filósofo economista e revolucionário alemão karl marx o materialismo histórico dialético esses conhecimentos teóricos ofereceram suporte para o desenvolvimento dos 28

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costa f.r da rocha m.m paradigmas da geografia no entendimento de antônio christofoletti 1985 a organização da geografia como ciência parte decisivamente das obras do geólogo botânico e naturalista alemão alexander von humboldt e do filósofo e historiador também alemão karl ritter esses pesquisadores construíram os alicerces necessários para a edificação de uma geografia científica para camargo e reis júnior 2007 somente nos meados do século xix na alemanha com a von humboldt k ritter e f ratzel que ela passou a ter status de ciência sendo a partir dessa época ensinada e praticada nas universidades formou-se então uma corrente de pensamento no seio da geografia que ficou conhecida como escola alemã cuja característica central era o fato de ser iminentemente determinista e naturalista camargo reis jÚnior 2007 p 83 foi na alemanha que se encontraram as condições teóricas para a organização da geografia como ciência horacio capel aponta humboldt como um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da geografia moderna quase todos os estudiosos da história da geografia concordam em considerar alexander von humboldt como o pai da moderna ciência geográfica sua obra sem dúvida foi decisiva para a configuração de muitas das idéias geográficas particularmente no campo da geografia física capel 2004 p 11 humboldt realizou inúmeras viagens ao redor do mundo entre o final do século xviii e inicio do xix o que contribuiu decisivamente para a formulação de suas principais ideias em suas viagens teve a preocupação em entender as diferenças e similaridades entre as paisagens da superfície terrestre usando para isso o método comparativo conforme relata capel em relação ao método comparativo usado por humboldt cabe destacar somente que o usou de forma abundante e que alguns consideram que é precisamente este uso de comparações universais sua contribuição mais importante humboldt comparava de fato sistematicamente as paisagens do setor que estudava com outras partes da terra assim por exemplo comparava as planícies do orinoco com os pampas os desertos do velho continente e os da américa o altiplano do méxico e o da península ibérica as montanhas da europa e as do novo mundo capel 2004 p 14 humboldt buscou reconhecer as relações gerais e as causas genéticas comuns entre áreas similares em diversas partes da superfície terrestre a comparação foi sua principal contribuição o estudo da distribuição espacial de diferentes fenômenos físicos também está entre as suas importantes investigações também foi o primeiro a 29

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revista geomae geografia meio ambiente e ensino vol 01 nº 02 2º sem/2010 unir através de linhas os pontos que possuíam a mesma temperatura média anual isotermas foi o primeiro a fazer referência às paisagens naturais com relação a áreas de características homogêneas para andrade 1987 as ideias de humboldt foram influenciadas pelo racionalismo francês idealismo alemão e pelo positivismo disso resulta sua preocupação em estabelecer leis gerais que explicassem o mundo em que vivia no entendimento de vitte 2007 a partir da herança humboldtiana a geografia física tem como objeto de estudo a superfície da terra mais precisamente sua epiderme visando entender a lógica dos fenômenos físicos e humanos em uma perspectiva sintética assim teríamos a constituição das paisagens naturais nas quais a diferenciação na superfície terrestre seria o resultado da dialética entre as forças endogenéticas e exogenéticas isso permitiria o zoneamento dos fenômenos da natureza na face da terra karl ritter também apresentou importante contribuição para o desenvolvimento da geografia segundo capel 2004 ele foi catedrático na universidade de berlim e em sua obra propõe de forma direta o estudo das relações entre a superfície terrestre e a atividade humana em seu trabalho o estudo das relações era central e as mesmas se estabeleciam entre fatos físicos e humanos a superfície terrestre é considerada o palco onde se desenvolviam as atividades praticadas pelo homem para ritter o princípio essencial da geografia estava na relação dos fenômenos e formas da natureza com a espécie humana capel 2004 explica como o geógrafo alemão entendia a geografia citando um trecho da obra erdkunde a expressão geografia utilizada no sentido de descrição da terra é infeliz e tem confundido as pessoas parece-nos que com isso simplesmente refere-se aos elementos cujos fatores são a verdadeira ciência da geografia esta ciência tenta possuir a mais completa e cósmica imagem da terra resumir e organizar em uma bela unidade de tudo o que conhecemos do globo a geografia é a parte da ciência que estuda o planeta em todas suas características fenômenos e relações como uma unidade interdependente e mostra a conexão deste conjunto unificado com o homem e com o criador do homem ritter in capel 2004 p 41 ritter buscava entender as relações dos fenômenos e formas da natureza com o homem por isso tinha um profundo interesse na história entendendo que a mesma estava bastante próxima da geografia compreendia que as relações espaciais não podem prescindir de uma relação temporal assim o estudo da geografia não pode ser desvinculado ou separado do estudo da história 30

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costa f.r da rocha m.m andrade 1987 analisa que ao tentar formular leis gerais para explicar os fatos humanos ritter teve dificuldades pois as leis sociais não eram uniformes com as leis físico-naturais essa teria sido sua grande dificuldade isto vem do fato de que as bases metodológicas usadas no nascimento da geografia foram oriundas das ciências naturais sendo que tais metodologias não podem ser aplicadas diretamente nas ciências humanas no entanto é notável sua contribuição no entendimento de inúmeros estudiosos entre eles morais 1983 christofoletti 1985 andrade 1987 e capel 2004 os estudos de humboldt e ritter foram decisivos e abriram as portas para o estabelecimento da geografia como ciência a organização cientifica ocorreu principalmente sobre as bases do positivismo É nessa concepção filosófica e metodológica que os geógrafos vão buscar suas orientações gerais para o positivismo os estudos devem restringir-se ao visível real mensurável e palpável como se os fenômenos se demonstrassem diretamente ao cientista que seria um simples observador moraes 1983 andrade 1987 traz a seguinte explicação para o surgimento da geografia como ciência dentro das bases positivistas as condições culturais econômicas e políticas do início do século propiciaram as diretrizes intelectuais e científicas que mudariam o pensamento do século xix e levariam as idéias ao positivismo estruturado por augusto comte os cientistas procuraram acumular conhecimentos empíricos e fazer as suas formulações teóricas os governos dos países mais comprometidos com a expansão colonial como a inglaterra a frança a prússia e com a expansão colonial após 1871 a alemanha a rússia etc estimularam a formação de sociedades geográficas que patrocinavam expedições científicas ao interior da África da Ásia e da américa do sul à procura de recursos susceptíveis de exploração antrade 1987 p 49-50 o contexto do surgimento e organização da geografia está relacionado com o processo imperialista e expansionista das grandes potências européias entre os séculos xviii e xix isso estruturado sobre as bases do positivismo o fato contribuiu decisivamente para a constituição de uma ciência preocupada em atender aos anseios capitalistas e voltada para a expansão territorial e comercial a geografia científica nasce durante o trunfo da burguesia na alemanha e passou a ser usada com fins políticos expansionistas os alemães que entram tardiamente nas relações capitalistas de produção em razão da unificação tardia utilizaram a nova ciência para atingir suas necessidades imperialistas de expansão territorial e comercial santos 1986 esclarece que a geografia teve profundas dificuldades para se 31

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revista geomae geografia meio ambiente e ensino vol 01 nº 02 2º sem/2010 desligar dos interesses imperialistas inclusos em sua formação neste sentido era grande o apoio do estado e do capital para a criação e efetivação de centros de pesquisa porém o que se desejava efetivamente era a constituição de uma ciência que atendesse as necessidades do estado e do capital corrêa 2003 argumenta que o determinismo ambiental foi o primeiro paradigma a caracterizar a geografia no século xix em razão da passagem do capitalismo da sua fase comercial concorrêncial para uma fase monopolista e imperialista o determinismo ambiental foi amplamente utilizado para justificar o processo de expansão no continente africano e asiático ainda para corrêa 2003 as idéias deterministas tiveram no geógrafo alemão friedrich ratzel o grande organizador e divulgador os defensores deste paradigma argumentavam que as condições naturais especialmente as climáticas determinam o comportamento do homem interferindo na sua capacidade de progredir para moraes 1983 a obra de ratzel foi um instrumento poderoso de legitimação do expansionismo do estado alemão segundo andrade 1987 friedrich ratzel tornou-se famoso por haver dado maior ênfase ao homem na sua formulação geográfica vivendo na alemanha e tendo assistido à sua unificação sob a égide de prússia formulou uma concepção geográfica que correspondia aos anseios expansionistas do novo império dedicando-se às ciências naturais sobretudo à antropologia encarou o homem como uma espécie animal e não como elemento social tentando explicar a evolução da humanidade dentro dos postulados de darwin a evolução se processaria através da luta entre as várias espécies vencendo as mais capazes na sua adaptação ao meio natural se isso ocorria entre as várias espécies ocorria também entre as raças humanas e os povos sendo selecionadas para a sobrevivência e para o mundo as mais capazes de se adaptar e de controlar o meio natural daí a ideia da superioridade dos europeus povos com uma civilização mais dinâmica frente aos coloniais ditos selvagens bárbaros e com civilizações estagnadas andrade 1987 p 54 fica claro que o determinismo ambiental apoiado no darwinismo social veio para justificar o processo expansionista da época ingleses alemães italianos russos norte-americanos entre outros estados assumiram as ideias deterministas com vistas a atender seus projetos imperialistas o homem é introduzido nas discussões porém é visto como uma espécie animal que busca se adaptar e controlar o meio natural em reação ao determinismo ambiental surge na frança no final do século xix um outro paradigma ­ o possibilismo a visão possibilista focaliza as relações entre o homem e o meio natural mas não o faz considerando a natureza determinante do 32

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costa f.r da rocha m.m comportamento humano corrÊa 2003 o francês vidal de la blache foi o grande expoente do possibilismo de acordo com moraes 1983 a proposta do autor manifestava um tom mais liberal consoante com a revolução francesa as críticas ao determinismo dizem respeito ao tratamento das questões políticas ao seu caráter naturalista a minimização do elemento humano e a concepção mecanicista das relações entre homens e natureza segundo moraes 1983 o geógrafo francês definiu o objeto da geografia como a relação homem-natureza na perspectiva da paisagem o homem deve ser compreendido como ser ativo que sofre a influência do meio porém que atua sobre este transformandoo no entanto como nos alerta suertegaray 2001 em la blache a geografia é a ciência dos lugares e não dos homens visto que a preocupação estava em estudar a ação humana materializada sobre o espaço e não as relações sociais e seus efeitos conforme aponta andrade 1987 la blache admitia que o meio exercesse alguma influência sobre o homem mas o homem dependendo das condições técnicas e dos recursos disponíveis poderia exercer influência sobre o meio assim surgia a expressão possibilismo divulgada principalmente por lucien febvre os estudos estavam voltados para pequenas áreas ficando conhecidos como estudos regionais levavam em conta os aspectos físicos e a eles sobrepondo os humanos e econômicos admitiam que o meio físico é o suporte que os seres humanos utilizam para sobreviver fazendo suas construções e produzindo o que necessitam sobre a geografia regional rodrigues 2008 explica que ele divide o estudo geográfico em quadros físicos humanos e econômicos assim tem-se por exemplo nos trabalhos monográficos e regionais a localização da área por meio de projeções cartográficas o quadro físico como relevo solo hidrografia clima vegetação etc a formação histórica de ocupação humana do território a estrutura agrária a estrutura urbana a estrutura industrial etc finalmente apresenta-se uma conclusão com um conjunto de cartas objetivando demonstrar uma relação entre os elementos humanos e naturais da região rodrigues 2008 p 86 o geógrafo francês tinha em seus estudos regionais a preocupação em descrever minuciosamente os quadros físicos humanos e econômicos para posteriormente apresentar as relações existentes formou importante escola na frança tendo inúmeros discípulos que levaram seus estudos adiante os possibilistas assim como os deterministas não consideravam o homem como um ser social os avanços do possibilismo estão em compreender a influência e a capacidade de transformação do homem sobre o meio natural o que interessava no debate era a ação transformadora do 33

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revista geomae geografia meio ambiente e ensino vol 01 nº 02 2º sem/2010 homem porém foram deixadas de lado as relações sociais constituídas historicamente e seus efeitos políticos e econômicos sobre o meio torna-se famosa na primeira metade do século xx a polêmica entre deterministas e possibilistas os segundos arrogando-se o privilégio de incluir a ação do homem e admitindo que os deterministas deram prioridade aos fatores naturais santos 1986 de acordo com corrêa 2003 o terceiro paradigma da geografia tradicional é o método regional nesta escola a diferenciação de áreas não é vista a partir das relações entre o homem e a natureza como ocorria em la blache mas sim tendo como referência a integração de fenômenos heterogêneos em uma porção da superfície da terra richard hartshorne geógrafo norte-americano foi o grande expoente do método regional nele busca a integração entre os fenômenos heterogêneos em seções do espaço terrestre moraes 1983 aponta que os conceitos básicos formulados por hartshorne foram de área e de integração em rodrigues 2008 encontramos que hartshorne articulou a geografia geral e a regional diferenciando-as pelo nível de profundidade das inter-relações dos elementos estudados quanto menor o número de elementos inter-relacionados maior a possibilidade de generalização quanto maior o número de elementos interrelacionadas mais profunda a análise efetuada maior o conhecimento da singularidade da área maior possibilidade de estudo regional rodrigues 2008 p 95 christofoletti 1985 explica que o método regional considerava que cada categoria de fenômeno era objeto de determinada ciência sociologia economia demografia botânica hidrologia etc todas essas ciências executavam a análise sobre os assuntos particulares Á geografia considerando a totalidade correspondia o trabalho de síntese reunindo e coordenando todas as informações a fim de salientar a visão global da região com base nas discussões apresentadas e nos autores consultados podemos classificar o determinismo ambiental o possibilismo e o método regional como os três principais paradigmas da geografia tradicional estes dominaram a produção geográfica e o debate durante o final do século xix até meados da década de 1950 mesmo na atualidade ainda podemos observar vestígios das escolas tradicionais tanto no ensino como na pesquisa no período pós segunda guerra mundial se iniciou o movimento de renovação segundo santos 1986 a geografia não podia escapar às enormes transformações ocorridas em todos os domínios científicos após 1950 as modificações vivenciadas a 34

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costa f.r da rocha m.m partir do inicio da segunda metade do século xx principalmente as inerentes as novas tecnologias desenvolvidas levaram inúmeros pesquisadores a refletir e buscar novas possibilidades teóricas e metodológicas moraes 1983 aponta que a renovação advém do rompimento de grande parte dos geógrafos com os paradigmas tradicionais o movimento de renovação é denominado de nova geografia por manley em 1966 santos 1986 explica que a nova orientação queria se caracterizar por não ser apenas diferente mas também ser oposição à geografia tradicional conforme camargo e reis júnior 2007 denomina-se geografia teorética e quantitativa ou geografia neopositivista a corrente que começou a se formar logo após a segunda guerra mundial e que terminou por trazer profundas modificações teóricas e metodológicas esta escola se caracterizou pelo emprego maciço das técnicas matemático-estatísticas na geografia provocando uma verdadeira revolução no seio dessa ciência camargo reis jÚnior 2007 p.84 a nova geografia se manifestou sobretudo através da quantificação e da abordagem sistêmica para santos 1986 a quantificação ocorreu em razão da procura de uma linguagem matemática para dar cientificismo à geografia na abordagem do positivismo lógico para ser considerado cientifico o conhecimento deve ser mensurável por técnicas matemáticas assim são utilizados o emprego de técnicas estatísticas como média desvio-padrão coeficiente de correlação entre outras corrÊa 2003 na interpretação de christofoletti 1985 a geografia quantitativa se caracterizou pelo maior rigor na aplicação da metodologia científica embasada no positivismo lógico ou neopositivismo no uso de técnicas de estatística e matemática na abordagem sistêmica e no uso de modelos desenvolveu-se especialmente na suécia nos estados unidos na grã-bretanha e na rússia o positivismo lógico ou neopositivismo teoria na qual foi embasada a geografia quantitativa tem como características só descartando a metafísica alcança-se o conhecimento científico o empirismo deve ser estendido a todo o domínio do pensamento todas as ciências são matematizáveis ciência significa compreensão do mundo e não intuição dele experiência e linguagem completam-se reciprocamente só tem sentido o que é fisicamente verificável proposições que não se prestam à verificação e à mensuração são destituídas de sentido a ciência não estuda leis objetivas da natureza mas somente os dados da experiência mediada pelos sentidos ou por instrumentos sciacca 1968 in camargo reis jÚnior 2007 p.91 35

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revista geomae geografia meio ambiente e ensino vol 01 nº 02 2º sem/2010 camargo e reis júnior 2007 concordam com santos 1986 em que o uso da filosofia neopositivista teve como objetivo dotar a geografia de cientificismo ou seja torná-la mais científica visto que o uso de técnicas matemáticas modelos o empirismo e a experimentação seriam os requisitos básicos de uma ciência os críticos deste paradigma argumentam que a quantificação deixou de ser uma ferramenta auxiliar do geógrafo em sua análise e passou a ser o referencial básico das pesquisas os estudos passaram a se preocupar mais com os modelos matemáticos e com a estatística do que em compreender as relações sociais e espaciais presentes no espaço a quantificação tem como méritos o enriquecimento da geografia com o uso de modelos matemáticos-estatisticos inserção dos computadores na análise e a busca de aprimoramento metodológico no entanto o uso e abuso de técnicas e modelos típicos das ciências naturais não davam respostas a todas as questões e inquietações impostas as ciências sociais assim a partir da década de 1970 a nova geografia e os paradigmas tradicionais são intensamente questionados surgindo a geografia crítica christofoletti 1985 classifica as tendências críticas em geografia radical geografia humanística e geografia idealista o vetor mais significativo da geografia radical está baseado no materialismo histórico dialético elaborado pelos alemães k marx e f engels no final do século xix marx e engels buscaram entender as contradições inerentes ao sistema capitalista de produção e a divisão da sociedade em classes a burguesia minoria e dona dos meios de produção concentra a maior parte do capital em suas mãos já o proletariado a maior parte da população é detentora de pouco ou quase nenhum recurso financeiro para a dialética marxista o mundo deve ser compreendido como dinâmico em movimento contraditório histórico e a perspectiva da ciência é a transformação da realidade objetivando novas sínteses tais pensamentos chegam tardiamente no âmbito geográfico isto não significa que inexistiam anteriormente o que ocorria é que os pensadores sociais críticos foram abafados pelo pensamento tradicional que dominava e influenciava a geografia antes da década de 1970 o aprofundamento dos problemas sociais a ampliação da concentração de renda as constantes migrações para as cidades que não possuíam infraestrutura capaz de atender a grande demanda foram construindo um espaço degradado especialmente na américa latina África e Ásia os fatores apontados foram decisivos para a penetração do pensamento marxista na geografia e sua difusão entre um número significativo de pensadores 36

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costa f.r da rocha m.m as principais discussões dentro da linha de orientação marxista são encontradas em david harvey yves lacoste massimo quaine james anderson neil smith entre outros no brasil é importante destacar a intensa produção cientifica desenvolvida pelos geógrafos milton santos e ruy moreira a influência do marxismo significou uma nova orientação na prática política dos geógrafos que buscaram romper com a neutralidade pregada pelo positivismo e se envolver mais em propostas de mudanças sociais para moraes 1983 os geógrafos críticos em suas diferenciadas orientações assumem a perspectiva da transformação da ordem social a perspectiva vem da análise das grandes contradições do sistema capitalista e da produção de espaços desiguais a pobreza a miséria as desigualdades sociais o desemprego a corrupção e até mesmo a fome onde se produz alimentos se manifestam de forma escancarada a somatória desses problemas levou a configuração de uma geografia marcada pelo materialismo histórico dialético passou-se a compreender o homem como ser social e as relações políticas e econômicas são introduzidas no debate com o objetivo de compreender as profundas desigualdades espaciais existentes frigotto 1989 p 73 compreende o materialismo histórico e dialético como uma postura uma concepção de mundo um método que permite uma apreensão radical que vai à raiz da realidade e enquanto práxis isto é unidade de teoria e prática na busca da transformação e de novas sínteses no plano do conhecimento e no plano da realidade histórica o materialismo histórico e dialético diz respeito às contradições da realidade a concepção de mundo e de movimento que o pesquisador possui deve ser radical3 e ter por finalidade a transformação da realidade fica evidente a preocupação do método com a transformação da realidade não basta apenas compreender a essência é necessário compreender para mudar o pesquisador busca compreender a essência oculta nas relações sociais historicamente produzidas com a finalidade de transformá-las marx deixa isso claro na xi tese sobre feuerbach já a geografia humanística embasada na fenomenologia procura valorizar a experiência do individuo ou do grupo visando compreender o comportamento e as maneiras de sentir das pessoas em relação aos seus lugares christofoletti 1985 para cada individuo existe uma visão de mundo que se expressa através das suas atitudes 3 a palavra radical deve ser compreendida no sentido de ir à raiz 37

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revista geomae geografia meio ambiente e ensino vol 01 nº 02 2º sem/2010 e valores com relação ao meio ambiente as noções de espaço e lugar surgem como conceitos chaves na geografia humanística o lugar é aquele em que o indivíduo se encontra ambientado no qual está integrado o lugar não é toda e qualquer localidade mas aquele que tem significância afetiva para uma pessoa ou grupo de pessoas cavalcanti 1998 um dos principais geógrafos que discutem o conceito sobre a ótica da percepção é yi-fu tuan na obra topofilia conforme tuan 1980 o termo topofilia é definido como o elo afetivo entre a pessoa e o lugar é um termo concreto como experiência pessoal vivida o autor considera a percepção as atitudes e os valores envolvidos na relação entre os seres humanos e o meio ambiente a geografia cultural inserida na vertente humanística tem origem nos estudos sobre paisagem de otto schlüter e august meitzen no final do século xix e inicio do xx e de carl sauer a partir da década de 1920 sendo retomados posteriormente com o movimento de renovação da geografia na década de 1970 atualmente tem em paul claval seu principal expoente este geógrafo francês está ligado à renovação dos estudos culturais estuda as relações entre a cultura e a vida social a transmissão dos conhecimentos e regras de conduta a relação do indivíduo com a sociedade e também as articulações e relações entre cultura e poder para claval 2001 o desaparecimento da geografia cultural que parecia estar programado para a década de 1970 não ocorreu mesmo com a uniformização das técnicas e também da vida material fato comum nos dias atuais os estudos culturais não desapareceram pelo contrário o que se observa é a sua retomada agora com ênfase nas representações outrora negligenciadas ainda para claval 2001 desde que em 1976 yi-fu tuan propõe falar simplesmente de abordagem humanista a partida está ganha a nova corrente aparece como um dos componentes indispensáveis de toda démarche geográfica insistindo sobre o sentido dos lugares sobre a importância do vivido sobre o peso das representações religiosas torna indispensável um estudo aprofundado das realidades culturais É necessário conhecer a lógica profunda das ideias das ideologias ou das religiões para ver como elas modelam a experiência que as pessoas têm do mundo e como influem sobre sua ação claval 2001 p 53 no brasil merece destaque os estudos dos geógrafos roberto lobato corrêa e zeny rozendahl ambos estão debruçando esforços significativos para a divulgação e o desenvolvimento de uma geografia cultural no país 38

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costa f.r da rocha m.m o idealismo para christofoletti 1985 é uma alternativa ao positivismo tomando plena consideração da dimensão do pensamento do comportamento humano o idealismo considera que as ações humanas não podem ser explicadas adequadamente a menos que se compreenda o pensamento subjacente a elas onde os positivistas procuram explicar o comportamento como uma função dos atributos externos dos fenômenos o idealista procura compreende-lo em termos dos princípios internos do indivíduo ou do grupo a geografia global como novo paradigma no século xxi a tecnologia passa cada vez mais a fazer parte da vida e também das necessidades dos seres humanos o computador e a internet não são mais artigos de luxo ou de uso restrito estão presentes nas casas nos carros nas ruas no comércio no trabalho etc a geografia também se encontra inserida nessa realidade pois o espaço seu objeto de estudo também se torna espaço virtual no artigo geografia y tecnologias digitales del siglo xxi uma aproximación a las nuevas visiones del mundo y sus impactos científico-tecnológicos o geógrafo argentino gustavo buzai 2004 procura apresentar um panorama geral referente às relações entre geografia e tecnologia atenta para os seguintes temas paradigma geotecnológico geografia global ciberespaço e cibergeografia as discussões são sobre a apropriação das novas tecnologias digitais pela geografia aplicações perspectivas e possibilidades buzai 2004 apresenta uma breve retomada histórica dos principais paradigmas que nortearam o pensamento geográfico desde sua sistematização como ciência no final do século xix explica que os movimentos renovadores podem se apresentar em ondas curtas 20-25 anos ondas médias 50 anos e ondas largas 100 anos com relação às ondas curtas teríamos no século xx paradigma regional década de 10 racional década de 30 quantitativo década de 50 radical crítico e humanista década de 70 e ecologia da paisagem geografia pós-moderna e geografia automatizada década de 90 os ciclos de ondas médias representariam em finais do século xx o paradigma geotecnológico ou seja o positivismo ligado à informática e os movimentos de ondas longas representado atualmente pela geografia global pelo qual a geografia apresenta uma visão espacial a partir da incorporação em seus conceitos e métodos dos sistemas computacionais amplamente difundidos a geografia global e seus conceitos incluídos no interior das geotecnologias propiciam uma nova visão do mundo não como um paradigma de geografia e sim como 39

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