A vida no sertão nordestino no início do século 19

 

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Pedro Salviano Filho JORNAL DE ARCOVERDE. Edição 267 - Caderno 1 - Pág. 3 - Maio-Junho de 2012

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a vida no sertão nordestino no início do século 19 pedro salviano filho vimos numa edição passada desta coluna http bit.ly/mjx3ov como era um pouco da vida em fazendas do sertão pernambucano no final do século 19 e início do século 20 através do olhar do memorialista ulysses lins de albuquerque desta vez vamos retroceder ao início do século 19 para conhecer pela visão de um viajante inglês alguns aspectos da vida dos sertanejos nordestinos tentando assim elaborar um melhor perfil do nosso passado a palavra sertão usada desde a idade média para se referir a áreas situadas dentro de portugal porém distantes de lisboa também é interpretada como corruptela de desertão [região sertão nação de janaína amado http bit.ly/kbjfbz pág.147 a ocupação do sertão vem das transformações políticas ocorridas com a capitania de pernambuco na segunda metade do século xvii e sua anexação ao contexto da américa portuguesa para um novo projeto colonial de uma região ainda não explorada a conquista do sertão a ideia da ocupação do sertão surge da busca tanto de expandir a economia quanto de desafogar os centros urbanos de elementos indesejados como os vadios e pobres do açúcar o sertão assumia assim caráter de terra livre de espaço aproveitável para onde poderia ser empurrado esse contingente populacional o avanço da fronteira interna a ocupação do sertão no século xvii de mirian s jesus e paulo c possamai http bit.ly/jfjzcq pág.5 porém devido a não linearidade cronológica e do ritmo da ocupação colonial no interior nordestino no final do século xvii os colonizadores do sertão pernambucano ainda estavam na fase de conquista da terra dos índios para efetivação do povoamento colonial nesta área [o vaqueiro símbolo da liberdade e mantenedor da ordem no sertão de tanya m p brandão http bit.ly/jczjpf pág 123 prendemonos desta vez a algumas informações pinçadas do interessante livro viagens ao nordeste brasileiro de henry koster volume xvii ­ sec educação e cultura de pernambuco recife1978 2ª edição 480 páginas considerado um dos mais importantes cronistas nordestinos filho de pais ingleses henry koster nasceu em lisboa falava fluentemente o português e era tratado como henrique da costa no brasil para onde veio devido ao clima tratarse de tuberculose em 1809 retornando à inglaterra em 1815 escreveu um livro e o publicou no ano seguinte pelo recrudescimento da doença voltou ao brasil em 1817 onde faleceu em 1820 luís da câmara cascudo no seu prefácio do tradutor revela que henry koster chegara a pernambuco justamente na melhor hora dezembro de 1809.

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e continua câmara cascudo em seu prefácio o depoimento de koster é o primeiro cronologicamente sobre a psicologia a etnografia tradicional do povo nordestino o sertanejo no seu cenário depoimento completo apaixonado de pormenores rico de cor de movimento de notícia antes dele nenhum estrangeiro atravessara o sertão do nordeste do recife a fortaleza em época de seca viajando em comboio bebendo água de borracha comendo carneassada dormindo debaixo das árvores tão integralmente adaptado ao mundo que escolhera para viver que suas notas parecem de um patrício letrado com maior ousadia para deixar os centros citadinos e aventurarse no sertão bravo bruto distante ninguém evocará sem simpatia as jornadas de koster seu comunicante afeto a todas as manifestações da vida que o cercava comendo o pirão de farinha de mandioca a banana comprida banhandose nos rios de enxurrada viajando a cavalo a pé de rede abrigado debaixo de couros enquanto desaba o temporal e no escurão urram as onças centenas de traços o situam como um familiar um velho parente que conheceu o encanto das casas grandes a preguiça faustosa dos senhores de engenho as histórias assombrosas da escravaria o pavor dos bichos terríveis que andam de noite em superfície e profundeza para a época ninguém fixou a sociedade pernambucana a sociedade dos fazendeiros do nordeste a psicologia do senhor de engenho o mundo escravo como henry koster fixou porque viveu intensamente essa existência que conhecemos descrita por mão contemporânea ou olhos atuais koster era contemporâneo aos capitãesmores viu as selas altas aparelhadas de prata o entrudo furioso as reixas nas residências senhoriais escuras e sinistras pelo silêncio morno e penumbra aristocrática pág.20

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assim henry koster entre as muitas preciosidades registradas em seu livro mostranos que «sua roupa consistia em grandes calções ou polainas de couro taninado mas não preparado de cor suja de ferrugem amarrados da cinta e por baixo víamos as ceroulas de algodão onde o couro não protegia sobre o peito havia uma pele de

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cabrito ligada para detrás com quatro tiras e uma jaqueta também feita de couro a qual é geralmente atirada num dos ombros seu chapéu de couro tinha a forma muito baixa e com as abas curtas tinha calçados os chinelos da mesma cor e as esporas de ferro eram sustidas nos seus pés nus por umas correias que prendiam os chinelos e as esporas na mão direita empunhava um longo chicote e ao lado uma espada metida num boldrié que lhe descia da espádua no cinto uma faca e um cachimbo curto e sujo na boca na parte posterior da sela estava amarrado um pedaço de fazenda vermelha enrolada em forma de manto que habitualmente contém a rede e uma muda de roupa isto é uma camisa ceroulas e às vezes uma calça de nanquim [em meados do século xviii e xix as fazendas de nanquim tecidas na china foram usadíssimas no brasil eram tecidos de algodão e de ganga amarela azul e vermelha nas bruacas que pendiam de cada lado da sela conduzem geralmente farinha e a carne assada no outro lado e o isqueiro de pedra as folhas servem de mecha fumo e outro cachimbo sobressalente a todo esse equipamento o sertanejo junta ainda uma pistola cujo cano longo desce para coxa esquerda e tudo seguro a marcha comum do cavalo é um passo que se aproxima do pequeno trote assim os cavalos sertanejos adquiriram o hábito de arrastar as patas trazeiras levantando poeira a cor do sertanejo é morena e mesmo os que nascem brancos se tornam depois com a diária exposição ao sol completamente taninados como as roupas que usam a gravura anexa dará uma ideia de qualquer sertanejo tal qual é visto todos os dias no recife a cor do couro representado na gravura é mais brilhante que a roupa vestida comumente porque o desenho foi feito sobre modelo ainda não muito usado.» [pág 107 «creio que é sem dúvida possível melhorar cavando poços construindo reservatórios para água pluvial e sobretudo plantando árvores.» [pág 110 ­ referindose à seca isso em 1810 mais sobre seca em http bit.ly/hrvt1e «as casas tinham apenas o pavimento térreo e algumas eram rebocadas e caiadas de branco mas as paredes de muitas conservavam sua cor natural por dentro e por fora e o chão estava em seu estado bruto somente com grande esforço nessa terra onde a água é escassa os moradores conseguem manterse asseados os brasileiros mesmo de classes inferiores em todas as castas têm alguns hábitos que se ligam aos costumes da vida selvagem são de notável asseio em suas pessoas um dos maiores incômodos para um brasileiro é o lugar onde residir ficar distanciado de um rio ou poço d´água onde se possa banhar.» [pág 112 « o sertanejo tem sempre com ele a mulher e os filhos vivendo em comparativo conforto as casas são pequenas e construídas com barro e bastante abrigadas para o clima e cobertas com telhas quando podem adquirir ou geralmente com folhas de carnaúbas as redes usualmente tomam o lugar dos leitos,

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sendo mais confortáveis e mais frequentemente utilizadas como cadeiras algumas residências têm mesa mas o uso comum é a família acocorarse derredor de uma esteira com as tigelas cabaços e travessas no centro e ai comer sua refeição sobre o solo facas e garfos não são muito conhecidos e nas classes pobres nenhum uso possuem É um costume em todas as casas das altas às baixas ordens sociais desde muito tempo e praticado em toda parte que visitei levarse em bacia de prata ou de barro e mesmo numa cuia com toalha de cambraia franjada ou pedaço de tecido de algodão feito no país para lavar as mãos depois que os convivas se assentam para comer esta mesma cerimônia ou ato de asseio necessário tem lugar quando a refeição termina » [pág.159 «são ótimos cavaleiros e as selas altas à portuguesa parecem bem cômodas nunca vi uma brasileira montar a cavalo à maneira dos homens como ocasionalmente reparei em portugal o trabalho feminino consiste inteiramente nos serviços domésticos os homens tiram o leite das vacas e cabras as mulheres fiam e se ocupam nas tarefas de agulha nenhuma mulher de condição livre aceitará um encargo ao ar livre exceto ir buscar acidentalmente água ou lenha quando o homem não está em casa as crianças geralmente andam despidas até certa idade e se pode ver no recife meninos de seis e sete anos correndo pelas ruas sem qualquer peça de roupa.» [pág.160 «o interior de pernambuco rio grande paraíba e ceará não contém propriamente gado selvagem duas vezes por ano os vaqueiros de várias fazendas se reúnem com o fim de apanhar o gado as vacas são levadas de toda a parte para uma área em frente da casa e aí cercadas por numerosos cavaleiros são impelidas para os espaçosos currais isto feito desmontam os homens e se alguma vaca se torna furiosa como sucede um laço pelos cornos é bastante para prendêla bem ou ainda outro meio é adotado que é passar o laço numa pata traseira e trazer a corda enrolando completamente o animal sendo fácil derrubálo os bezerros são presos sem grandes dificuldades e marcamlhe a coxa direita com ferro incandescente com que é feito o sinal anteriormente fixado pelo dono como sua marca privativa.» [pág 163 «a alimentação dos sertanejos consiste principalmente de carnes nas suas três refeições às quais ajuntam a farinha de mandioca reduzida a uma pasta ou arroz que às vezes o substitui o feijão chamado comumente na inglaterra favas francesas é a iguaria favorita deixamno crescer em grãos só o colhendo quando estão completamente duros e secos surpreendeume verificar o limitado emprego do milho como mantimento embora algumas vezes usado a despeito de tudo fazem uma pasta com a carnaúba e vi comer carne com coalhada os vegetais verdes não são conhecidos em seu uso e riram à ideia de comer qualquer espécie de salada os frutos selvagens são numerosos e podem ser colhidos abundantemente mas

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poucos tipos são cultivados entre esses a melancia e a bananeira o queijo do sertão é excelente quando fresco mas ao fim de quatro ou cinco semanas fica duro e coriáceo poucas pessoas fabricam manteiga batendo o leite em garrafas comuns tratase entretanto de experiências pessoais e não uma prática geral nas próprias cidades do sertão a rançosa manteiga da irlanda é a única que se pode obter onde as terras permitem plantam mandioca arroz etc mas a grande parte dos alimentos é vegetal e provém dos distritos mais férteis vizinhos os vales e as fraldas dos cariris serra do teixeira e outras serras da região.» [pág 166 «o comércio no sertão consiste em receber uma pequena quantidade de manufaturas europeias os tecidos de algodão dos quais uma boa parte é fiado na região uma pequena porção de louça de barro branco e quantidade considerável de cerâmica escura feita no local na maior parte pelos indígenas que vivem nos distritos onde existe o barro próprio para sua fabricação aguardente em raros barris manteiga fumo rapé açúcar ou melado em formas esporas freios para bridas e outros acessórios para seus cavalos excetuando as selas as quais em porção sensível vêm dos próprios distritos ornamentos de ouro e prata encontram mercado com certos preços os mascates vêm de povoação em povoação de fazenda em fazenda trocando suas mercadorias por gado de todo tipo queijos e couros de bois.» [pág 167 mais artigos desta coluna http bit.ly/ysucsy

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