POR UM FIO

 

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drauzio varella por um fio

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companhia das letras copyright c 2004 by drauzio varella capa marcelo serpa preparação márcia copola revisão isabel jorge cury beatriz de freitas moreira 34-4474 dados internacionais de catalogação na publicação câmara brasileira do livro brasil varella drauzio por um fio drauzio varella são paulo companhia das letras 2004 ison 85-359-5534-0 médico e paciente 2 memórias autobiográficas 3 varella drauzio 1 toulo índice para catálogo sistemático 1 médicos memórias 610.92 todos os direitos desta edição reservados à editora schwarcz ltda.

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sumário introdução primeiros passos a outra fisionomia o filho da costureira segunda sem lei palavras o apego mrs parceil seu nino o sofrimento alheio seu raimundo dr sérgio sabedoria oriental seu israel seu joão fernando o velho mestre a herança solidão lin o presente de deus idishe mamme a epidemia de aids regime higieno-dietético a longa jornada de mãos dadas a obsessão de seu elias solidariedade lucy e o marido inglês a filha do professor os gêmeos antônio seu manoel a vertigem meu irmão

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introdução morte é a ausência definitiva tomei consciência desse fato aos quatro anos de idade dois meses depois de ter ficado órfão estava sentado à mesa do café-da-manhã encolhido por causa do frio minha avó espanhola de vestido preto vigiava o leite no fogão de costas para mim naquela noite tinha sonhado que passeava de mãos dadas com minha mãe por uma alameda de ciprestes que havia na entrada da chácara de meus tios na rua voluntários da pátria em santana um bairro de são paulo vó nunca mais vou ver minha mãe sem demonstrar a solicitude habitual com que respondia minhas perguntas ela permaneceu calada cabisbaixa na direção da leiteira vinte anos mais tarde na faculdade descobri que tratar de doentes graves era o que mais me interessava na medicina por essa razão passei os últimos trinta anos envolvido com pessoas portadoras de câncer ou de aids em convívio que moldou minha forma de pensar e de entender a existência humana no começo da carreira imaginei que se ficasse atento às reações dos que vivem seus momentos finais compreenderia melhor o sentido da vida no mínimo aprenderia a enfrentar meus últimos dias sem pânico se porventura me fosse concedido o privilégio de pressenti-los com o tempo percebi a ingenuidade de tal expectativa supor que por imitação ou aprendizado seja possível encarar com serenidade a contradição entre a vida e minha morte é pretensão descabida não me refiro à morte de estranhos nem à de entes queridos evidência que só nos deixa a alternativa da resignação mas à minha morte evento único definitivo no exercício da profissão aprendi que a reação individual diante da possibilidade concreta da morte é complexa contraditória e imprevisível impossível compartilhá-la em sua plenitude há muitos anos penso que se conseguisse construir um caleidoscópio com as histórias dos doentes que conheci na prática da cancerologia com as reações de seus familiares e amigos próximos talvez pudesse transformá-lo num livro se até hoje me faltou coragem para tanto foi por me considerar imaturo para a natureza da empreitada será possível na juventude compreender o que sente um senhor de oitenta anos ao perceber que não sairá vivo do hospital o

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sofrimento de uma mulher ao perder o companheiro de quarenta anos de convivência harmoniosa pode ser imaginado por alguém de trinta se me dispus a escrever agora aos sessenta anos foi menos por reconhecer a aproximação da maturidade do que por receio de morrer antes de me julgar preparado para alinhar as lembranças e inquietações que se seguem imaginar a morte como um fardo prestes a desabar sobre nosso destino é insuportável conviver com a impressão de que ela nos espreita é tão angustiante que organizamos a rotina diária como se fôssemos imortais e ainda criamos teorias fantásticas para nos convencer de que a vida é eterna por que comigo foi a indagação que mais ouvi de quem recebe o diagnóstico de uma enfermidade fatal nada transforma tanto o homem quanto a constatação de que seu fim pode estar perto existe acontecimento comparável um grande amor o nascimento de um filho certa ocasião fui ver um senhor acamado em frente à casa erguiam-se três coqueiros altos na garagem emparelha dos brilhavam dois mercedesbenz um cinza e o outro vermelho conversível o quarto iluminado tinha dois níveis no inferior três poltronas de couro e um tapete persa no de cima a cama de casal o criado-mudo e uma chaise-longue na qual ele se achava recostado foi a primeira vez que vi um telão com equipamento de som montado na parede o doente pálido barba branca por fazer olhar enérgico entregava a um rapaz franzino as contas a pagar no banco pela calça do pijama descia uma sonda urinária um frasco de soro irrigava continuamente a bexiga quando terminou a explicação ele perguntou ao garoto se havia entendido irrequieto o menino respondeu que sim virou-lhe as costas e saltou os três degraus da escada que separava os níveis do quarto com os olhos parados na direção da porta o doente falou como se ninguém o ouvisse dava o que tenho para dar um pulo desses o diagnóstico de uma doença fatal é um divisor de águas que altera radicalmente o significado do que nos cerca relações afetivas desejos objetos fantasias e mesmo a paisagem nunca mais foi como antes ouvi de muitos doentes curados e de outros que vieram a falecer certa manhã ensolarada fui à casa de um professor de agronomia que não cansava de elogiar as virtudes da mangueira frondosa plantada por ele mesmo no quintal mais de quarenta anos antes homem de gestos contidos sobrancelhas unidas passara a noite com dores fortes causadas por um tumor de esôfago que obstruíra a passagem para o estômago nos últimos dois dias

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regurgitava até a água tomada aos pequenos goles só havia conseguido pregar os olhos às cinco da manhã embriagado pela quinta dose de morfina o quarto estava na penumbra enrolado em dois cobertores ele dormia apenas com a cabeça de fora mas abriu os olhos e tentou sorrir assim que sentei na cadeira ao lado de pois de examiná-lo achei melhor levá-lo para o hospital pela última vez doutor honestamente não sei quando levantei para chamar a ambulância ele interrompeu com delicadeza não há necessidade minha mulher me leva de carro fechado na ambulância não enxergo nada tem sol quero ver as árvores e as moças bonitas na rua tratei de um senhor de mais de oitenta anos ex-combatente da guerra civil espanhola portador de um câncer de laringe que se negou a aceitar a laringectomia operação em que a laringe inteira seria retirada com ela as cordas vocais e a traquéia exteriorizada para sempre num orifício aberto no pescoço dizia preferir a morte a perder a voz e respirar por um buraco escondido atrás de uma toalhinha de nenhuma valia foi a insistência das filhas e dos dois genros que gostavam dele ao tomar a decisão estava consciente de que se o tumor crescesse um pouco mais o ar poderia faltar-lhe nos pulmões e a vida seria questão de minutos espanhol à antiga não voltou atrás para ele não era não diante da recusa fizemos um tratamento com drogas associado à radioterapia que havia acabado de ser descrito por um grupo da universidade de michigan a resposta foi brilhante cinco anos depois numa consulta de rotina entrei na sala de exame e o encontrei sem camisa sentado na maca parecia pablo picasso velho naquela foto famosa falei da semelhança e ele riu contou que tinha nascido numa aldeia vizinha à do pintor naquele momento de descontração fiquei feliz de vê-lo curado e perguntei se ele não teria aceitado a operação nem mesmo quando a falta de ar apertasse o cerco respondeu que não insisti o senhor é religioso acredita em outra vida não então qual o sentido de preferir morrer a perder a voz doutor a vida traz pessoas queridas e momentos de felicidade que um dia serão tomados de volta perdi meus pais minha companheira de cinqüenta e seis anos de casamento dois irmãos mais velhos na guerra e meu filho do meio num desastre a gente não encontra explicação para essas tragédias mas

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com o tempo se conforma na esperança de que ainda haverá de entender o verdadeiro significado delas precisei ficar velho para compreender que esse dia jamais chegará porque a vida não tem sentido nenhum nós é que insistimos diariamente em atribuir um significado a ela uma hora o destino exige um sacrifício tão grande para continuarmos vivendo que a gente se cansa em nome do quê vou passar por isso esse senhor morreu de ataque cardíaco anos depois enquanto dormia hoje fico em dúvida se ele recusaria mesmo a operação no momento em que se desesperasse de dor ou falta de ar o apego à vida é uma força selecionada impiedosa mente pela natureza nos milhares de gerações que nos prece deram os desapegados levaram desvantagem reprodutiva no hospital do câncer de são paulo fui médico de uma senhora italiana casada com um pedreiro português aposentado que não saía do lado dela no dia em que a esposa faleceu encontrei-o na portaria do hospital para entregarlhe o atestado de óbito e o convidei para tomar café com a intenção de confortá-lo quando perguntei como organizaria a vi da sozinho uma vez que não tinham filhos respondeu tenho que ir em frente de que jeito doutor meu avô dizia que viver é como percorrer um caminho num desfiladeiro de onde partem tiros disparados a esmo as balas podem acertar qualquer um mas derrubam com mais freqüência os velhos as crianças pequenas e os debilitados quando um corpo cai alvejado os outros são obriga dos a se desviar e a continuar em frente porque a ordem é seguir sempre em frente mesmo sem saber aonde o caminho nos levará.

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por um fio

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primeiros passos por razões éticas as personagens tiveram suas identidades preservadas meu primeiro encontro profissional com a morte foi num plantão noturno logo no início do internato no pronto-socorro do hospital das clínicas em são paulo estava sozinho examinando os doentes numa sala tão cheia de macas que fui obrigado a empurrar duas delas na direção do corredor para dar passagem à de um homem lívido cabelo à escovinha que entrava ofegante com dor no peito e gotas de suor na fronte enquanto conectei o aparelho de eletrocardiograma em seu corpo ele explicou com sotaque cearense que estava cantando na festinha de aniversário da filha quando a dor começou opressiva acompanhada de falta de ar no meio da conversa comigo subitamente arregalou os olhos crispou os músculos da face cerrou os dentes e apoiado nos cotovelos elevou o tronco num esforço contraído que lhe deixou o rosto cianótico fez saltar as veias do pescoço e provocou um gemido visceral assustador apesar de tentar tornar a deitá-lo não consegui tal a força mobilizada no espasmo um minuto depois o tronco despencou para trás com o rosto congesto e os olhos vidrados trêmulo trepei na maca estreita ajoelhei espremendo o corpo dele entre minhas pernas e comecei a massagem cardíaca na presença dos outros doentes tão apavorados quanto eu por causa do nervosismo não me ocorreu chamar alguém para ajudar e nem notei quando entrou na sala a voz que berrou atrás de mim parada cardíaca bisturi e um par de luvas era o dr euclides marques um dos pioneiros do transplante cardíaco o primeiro do brasil seria feito no ano seguinte conhecido rato de prontosocorro não estava nem de plantão mas viu a cena e decidiu intervir pediu que eu descesse da maca calçou as luvas e com o bisturi abriu um rasgo profundo no tórax do cearense em seguida enfiou a mão direita pela abertura e começou a massagear o coração fiquei abismado com a pronta iniciativa do cirurgião imaginei quantos anos ainda se passariam até chegar o dia em que me considerasse preparado para tomar uma atitude como aquela quando o coração voltou a bater descompassado senti uma emoção forte misto de fascínio pela medicina e pela ante visão da alegria daquele homem ao

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voltar para casa depois de ha ver renascido graças à obstinação de um médico competente dez minutos depois no entanto o coração parou definitivamente assim que se convenceu da irreversibilidade da parada cardíaca o cirurgião tirou as luvas e saiu da sala sem fazer nenhum comentário dois meses mais tarde estagiei no pronto-socorro de pediatria do hospital das clínicas na época um dos poucos centros especializados nesse tipo de atendimento na cidade era uma sala grande atulhada de berços com colchões cobertos de plástico e uma cadeira ao lado para a mãe providência necessária para não deixar a criança sozinha e ao mesmo tempo aliviar as tarefas da enfermagem sobrecarregada o movimento era absurdo às vezes não havia outro jeito senão acomodar dois bebês numa cama só a maioria vinha com diarréia e desidratação os outros sofriam de infecções respiratórias coqueluche complicações de sarampo meningite e até paralisia infantil com trinta quarenta crianças internadas num mesmo espaço a choradeira não dava trégua nos horários de pico quando cismavam de esgoelar-se em coro era necessário muito equilíbrio psicológico para resistir ao ímpeto de fugir daquele inferno a figura das mulheres dia e noite ao lado dos filhos era comovente estavam sempre a afagar-lhes a cabeça oferecer lhes o peito pegá-los no colo para niná-los quando se desesperavam se por alguma razão eram obrigadas a se afastar as avós ou as tias das crianças vinham substituí-las homem a cuidar do filho era ave rara na década de 60 as brasileiras tinham em média cinco ou seis filhos criança pequena morrer era acontecimento tão freqüente que ao tirarmos a história a primeira pergunta era quantos filhos haviam dado à luz e a segunda quantos deles permaneciam vivos os serviços de saúde da cidade não estavam preparados para assistir à massa de imigrantes nordestinos que chegava à periferia criando vilas e bairros populosos os doentes envoltos em múltiplas camadas de fraldas e em xales baratos vinham febris de olhos encovados com história de diarréia instalada havia muitos dias conseqüência do saneamento básico precário da falta de higiene ao manipulá-los e de esclarecimento aos pais para trazê-los logo no início da doença como ainda não existiam unidades de terapia intensiva os que corriam risco de vida dividiam o espaço com os demais o trabalho de enfermagem era executado por auxiliares mais velhas experientes treinadas na labuta diária capazes de puncionar veias invisíveis no dorso do pé ou no couro cabeludo de recém-nascidos no meio da confusão quando pediam que fôssemos depressa ver um doente era melhor largar tudo e

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obedecer porque o olho clínico daquelas mulheres era mais acurado do que nosso olhar principiante raros os plantões em que não perdíamos duas ou três crianças às vezes morriam cinco ou seis eram tantas que no caminho para casa ficava difícil lembrar do rosto de todas paravam de respirar ao lado das mães resignadas era comum estarmos entretidos com um doente em estado grave e outro morrer no berço vizinho sem que nos déssemos conta o choro da mãe que perdia o filho contagiava as outras ao redor então se calavam e sobrevinha um silêncio que durava horas chegávamos às sete da manhã e saíamos às oito ou nove da noite depois de passar o plantão para a equipe notuma ao atravessar a porta do prontosocorro tomávamos consciência do mundo exterior das ruas movimentadas e das pessoas alheias à sorte daqueles de quem havíamos cuidado o dia inteiro deixava os plantões arrasado revoltado com a ordem econômica responsável por tamanha desigualdade em dúvida se os comunistas não estariam certos ao pregar que a única saída para o país era a revolução guardo dessa época lembranças gratas apesar de tudo lidar diariamente com a morte daquela forma foi o golpe de misericórdia em minha onipotência juvenil tenho a impressão de que comecei a ser médico naquele pronto-socorro no final do estágio ao sair de um plantão à noite vi uma mulher sozinha chorando baixo com a testa encostada num poste de sinalização mesmo com pouca luz reconheci a mãe de um menino de dois anos portador de miocardite a criança tivera uma parada cardíaca e havíamos tentado reanimá-la com massagem por mais de duas horas em vão assim que me viu ela se desencostou do poste e caminhou em passos lentos na direção da saída ao passar por ela me senti na obrigação de dizer alguma coisa mas nada me ocorreu assim pus a mão em seu ombro e seguimos juntos até o portão era moça ainda mas tinha o rosto marcado como o de uma senhora de idade fomos sem dizer palavra até a calçada quando nos separamos ela se curvou e beijou minha mão fiquei sem graça e dei um beijo na mão dela no hospital do câncer de são paulo onde trabalhei por vinte anos logo senti a diferença entre enfrentar a perda ocasional de um doente e conviver cotidianamente com a onipresença da morte ainda que a experiência no pronto-socorro de pediatria tivesse sido a mais dolorosa pela qual já havia passado ali a morte invadia a sala pousava ao acaso sobre uma das crianças e se recolhia à espreita nos pacientes com câncer a morte adquiria outra fisionomia no ambulatório a simples leitura do prontuário médico muitas vezes deixava claro

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que o próximo a entrar não teria a menor chance de cura não era raro serem pessoas que ignoravam a gravidade de seus casos sem sintomas nem sinais sugestivos do estado avançado dos tumores que cresciam em seus órgãos internos impossível evitar identificá-las com alguém da família amigos queridos ou mesmo comigo se morrer era o evento mais infeliz da existência como evitar considerá-las dignas de compaixão com a piedade pela sorte do outro como pano de fundo entretanto como incutir nele otimismo vontade de lutar ou crença no futuro como conviver intimamente com a infelicidade alheia sem me tornar um homem amargurado ou insensível nessa época tratei de um rapaz chamado vicente de vinte e cinco anos e dois metros de altura que chegou acompanhado pela irmã mais nova quase tão alta quanto ele e pela mãe de capa de chuva os pais eram primos-irmãos e os dois filhos nasceram com numerosas pintas no corpo associa das a um defeito genético que os tornava suscetíveis a tumores malignos nas zonas da pele expostas à luz solar ambos já tinham sido submetidos a diversas cirurgias para retirada de lesões nos braços nas mãos e na face o quadro do rapaz era bem pior porque uma delas havia dado origem a três metástases no pulmão esquerdo naquele tempo por falta de opção mais eficaz tratávamos esses casos experimentalmente com a vacina bcg oral utilizada na prevenção da tuberculose curiosamente seis meses depois um dos nódulos pulmonares tinha desaparecido e os outros dois diminuído nos meses que se seguiram a doença permaneceu estável não surgiram outras metástases nem houve redução das já existentes como o estado geral continuava muito bom imaginei que uma operação poderia livrá-lo da doença e propus a ele discutirmos a idéia com o departamento de cirurgia antes fiz questão de explicar que a conduta contrariava o dogma vigente na época que contra indicava a cirurgia em casos de metástases nos pulmões consciente do perigo que enfrentaria vicente aceitou a sugestão com entusiasmo por ele seria operado no dia seguinte infelizmente entretanto todos os cirurgiões ouvidos discordaram com veemência da indicação por julgá-la agressão inútil num caso incurável tive tanta dificuldade em convencê-los dos benefícios da tentativa que cheguei a duvidar da sua conveniência achava-me nesse estado de espírito quando apareceu em minha sala no ambulatório o dr antônio amorim cirurgião da velha guarda um dos mais hábeis do hospital:

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a outra fisionomia ouvi dizer que você deu de indicar ressecção de metástases pulmonares perdeu o juízo É possível respondi com má vontade não adianta ser mal-educado se você me convencer de que vai ajudar o doente e ele estiver de acordo eu opero não será o primeiro desatino da vida na sexta-feira seguinte as lesões foram retiradas em menos de duas horas no final agradeci a boa vontade e elogiei sinceramente a habilidade do cirurgião e o resultado obtido num tom cético ele respondeu não fique muito animado daqui a três meses a doença voltará se ele ainda viver seis meses pode dar graças a deus então por que você concordou em operar em respeito à vontade dele e à sua domingo à noite dois dias depois da cirurgia recebi o telefonema de um colega do hospital liguei para dar uma notícia triste o antônio amorim morreu de ataque cardíaco vicente viveu cinco anos mais nesse período foi promovido no emprego duas vezes comprou um apartamento no tatuapé e casou com uma filha de árabes de corpo miúdo e olhos enormes que brilhavam quando ela olhava para ele.

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o filho da costureira a chegada da morte nem sempre tem o significado de desgraça não há quem discorde quando essa afirmativa é aplicada a pessoas decrépitas aos que enfrentam graves padeci mentos físicos dores incontroláveis ou àqueles que perderam o domínio das faculdades mentais fora de tais situações no entanto associamos esse momento à tragédia à tristeza profunda e ao desconsolo pessoalmente fui marcado pela conotação dramática da morte em minha infância no brás habitado por imigrantes oriundos de pequenas aldeias da itália portugal e espanha que vinham atrás de trabalho nas fábricas do bairro paulistano quando morria alguém da família estendiam na janela um pedaço de veludo preto com franjas douradas e montavam o velório na própria casa com o caixão sobre a mesa de jantar entre quatro castiçais de prata que espalhavam o cheiro forte das velas para mim definitivamente associado à presença da morte Às crianças não permitiam entrar na sala em que jazia o corpo nossa única oportunidade de acesso visual à cerimônia acontecia na saída para o enterro momento que aguardávamos com ansiedade na calçada o sinal de que esse instante se aproximava era dado pela chegada do carro funerário que estacionava em frente à casa pela janela ouvíamos a oração final do padre seguida dos lamentos e gritos de desespero das mulheres quando a tampa do caixão era fechada não demorava para saírem os homens de semblante pesaroso e terno escuro com uma faixa preta na lapela carregando o caixão pelas alças nessa hora a intensidade da choradeira atingia o auge havia mulheres que se agarravam ao caixão para puxá-lo de volta outras se atiravam contra as janelas do rabecão a tragédia da morte representada por essas imagens teatrais permaneceu congelada em minha imaginação até os primeiros meses de exercício da cancerologia tomei consciência e comecei a me livrar dela aos trinta e dois anos graças a seu vitorino um senhor nascido no interior de minas no início do século xx como conseqüência da paixão de uma costureira por um mascate sírio que visitava a cidade a cada três semanas para fugir do falatório do lugar a jovem mãe solteira veio para são paulo com o menino e se instalou na casa da tia-avó numa travessa do largo são josé

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do belém um fim de mundo naquele tempo costureira habilidosa e infatigável em poucos anos ela pôde morar só com o filho e pagar-lhe os estudos no colégio coração de jesus dos padres salesianos até formá-lo contador seu vitorino tinha mulher e duas filhas casadas quando o conheci com o abdômen distendido cheio de líquido por causa de um tumor avançado no fígado tratei dele apenas um mês a segunda metade do qual em visitas diárias a seu leito hospitalar nesse período jamais o encontrei sozinho a esposa e as filhas se revezavam atenciosas e solidárias numa das visitas deparei com as três a cuidar dele e em tom de brincadeira disse-lhe que me sentiria realizado se um dia recebesse de minha mulher e de minhas filhas o amor que as dele lhe dedicavam não é difícil é só o senhor ser para elas o marido e o pai que ele tem sido para nós respondeu a mais velha minutos antes de seu vitorino falecer fui chamado para vê-lo no quarto a esposa acariciava-lhe os cabelos do outro lado de frente para o pai as filhas em pé abraçadas pelos ma ridos guardavam pequena distância do leito o pôrdo-sol deixava o quarto alaranjado inconsciente seu vitorino respirava com grande dificuldade acelerei o gotejamento do soro com morfina para impedir que ele sentisse algum malestar e aguardei ao lado a observar em silêncio os movimentos respiratórios cada vez mais espaçados e superficiais cinco minutos depois uma pausa demorada antecedeu um último estertor que produziu a contração dos músculos do pescoço e provocou a emissão de um som rouco quase inaudível de curtíssima duração nada mais ninguém chorou ficamos na posição em que nos encontrávamos estáticos por um tempo longo nunca havia imaginado que a morte pudesse trazer tamanha paz.

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