Artigo Design Vernacular

 

Embed or link this publication

Popular Pages


p. 1

as apropriaÇÕes do vernacular pela comunicaÇÃo grÁfica vera lúcia dones resumo este artigo tematiza a estética vernacular procurando evidenciar aspectos das apropriações no campo da comunicação gráfica pós-moderna interessa-nos com a reflexão fazer um resgate crítico dos designers sensíveis a essa estética que sinalizam uma nova relação com seu entorno mostrando-se sensíveis e receptivos aos idiomas ritmos e artefatos da iconografia vernacular/popular associada às novas tecnologias entendemos que as apropriações acontecem como forma de estabelecer um possível equilíbrio entre a visualidade popular e a erudita entre as construções espontâneas e as tecnológicas em um processo pluralístico que previlegia uma abordagem inclusivista onde ambas as posições são vistas como partes da mesma cultura palavras-chaves comunicação pós-modernidade vernacular design gráfico introdução desde a metade dos anos setenta a comunicação gráfica tem reagido ao dogmatismo e à uniformidade das estéticas no ocidente as experimentações neste campo permitiram a formação de um novo cenário em que o designer não apresenta mais suas mensagens em códigos claros e transparentes a passagem do racionalismo à intuição sinaliza uma mudança de atitude e um processo de revisão no campo da comunicação gráfica/visual vera lúcia dones é mestre em comunicação social e professora na feevale rs 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 1

[close]

p. 2

a contribuição das novas tecnologias através da computação gráfica aumentou as possibilidades de manipulação dos elementos gráfico-visuais assegurando resultados técnicos mas igualmente uma grande liberdade de criação o livre acesso a esses programas possibilitou ainda a recuperação do vernacular que transita ao lado do design gráfico oficial encontrando um espaço no campo da comunicação gráfica da cultura contemporânea como forma de enquadramento e de inclusão sem preconceitos e sem hierarquias libertando a criação da lógica reducionista do culto ao novo e fazendo o resgate de formas esquecidas e marginalizadas pertencentes à cultura popular como poderemos constatar no transcorrer deste ensaio as apropriações da estética vernacular pela comunicação gráfica sinalizam uma mudança de atitude dos designers que revelam uma nova relação com seu entorno buscam-se as particularidades de linguagens locais e regionais interessa-me principalmente avaliar e sublinhar no âmbito do debate pós-moderno as preferências dos designers pelo conteúdo vernacular da iconografia popular/comercial que paradoxalmente une-se ao contexto sofisticado das novas tecnologias 1 a estética vernacular antes do aparecimento da cultura impressa as linguagens européias eram consideradas línguas vernáculas em contraste ao latim e ao grego oficial usadas pelas classes instruídas o termo vernacular sugere a existência de linguagens visuais e idiomas locais que remetem a diferentes culturas na comunicação gráfica corresponde às soluções gráficas publicações e sinalizações ligadas aos costumes locais produzidos fora do discurso oficial o vernacular para rafael cardoso denis tem relação com aquilo que é feito à margem do conhecimento erudito 1 não muito diferente é a definição de ellen lupton 1996 que abre um leque de sentidos comunicação oral na palestra interseções do design no auditório da fabico/ufrgs porto alegre em 29/05/2003 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 2 1

[close]

p. 3

o design vernacular não deve ser visto como algo menor marginal ou anti-profissional mas como um amplo território onde seus habitantes falam um tipo de dialeto local não existe uma única forma vernacular mas uma infinidade de linguagens visuais resultando em distintos grupos de idiomas lupton 1996 p 111 figuras 1 e 2 acima letreiros realizados por juca figura 3 acima à direita nessas letras o autor busca uma representação tridimensional talvez para dar mais destaque às palavras fonte farias 2000b p 16 um exemplo de linguagem gráfica vernacular nos é dado por joão juvêncio filho o juca como é conhecido em recife ele é autor de um estilo popular de letreiros pintados à mão livre figuras 1 2 e 3 além das placas comerciais juca desenha mensagens de cunho religioso ou filosófico e aforismos típicos das traseiras de caminhões o mundo inteiro não vale o meu lar e bolso de pobre não carrega dinheiro nem lingua de mulher guarda segredo as cores que o letrista trabalha são puras e vibrantes seus letreiros possuem molduras de vários tipos com ilustrações de olhos e figuras humanas o desenhista combina estilos diferentes suas letras lembram cartazes e manuais de estilo vitoriano conforme define a designer e pesquisadora priscila farias É uma espécie de letra híbrida que mistura a estrutura formal das maiúsculas romanas com os terminais típicos da fratura uma variação de letra gótica germânica resultando em um tipo de serifa conhecida como toscana a quebra das hastes na altura média das letras estão presentes em algumas letras de fantasia do século 19 tem precedentes em modelos de letra romanescas dos séculos 2 e 3 farias 2000 p 16-18 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 3

[close]

p. 4

no texto de apresentação para a exposição a arte tipográfica de seu juca fragmentos vernaculares 2 priscila farias demonstra encanto e fascínio ao relatar a descoberta das placas de juca nunca me esquecerei da sensação de espanto e fascínio que senti ao avistar pela primeira vez a fachada da sapataria na avenida manoel borba coberta pelas placas de juca o pequeno sobrado mal parecia suportar a sobrecarga de informação contida em suas paredes À primeira vista chamavam a atenção sobretudo as placas indicativas do tipo de negócio ali desenvolvido peladeiros consertamos chuteiras sapataria aviso consertamos chuteiras e tênis farias 2003 figuras 4 5 e 6 coletânea de escritas populares registrados por edson meirelles fonte leon 2000 p 41-44 o fotógrafo edson meirelles tem registrado expressões tipográficas populares em letreiros de circos placas de bares caminhões cartazes e carrocinhas ambulantes seu trabalho é um exercício do olhar que captura nas letras que nos rodeiam o que poucos percebem É a comunicação gráfica vernacular revelando expressões locais através de cores e formas autênticas 2 as apropriações do vernacular no design gráfico em meados dos anos 80 a designer norte-americana katherine mccoy passou a substituir mensagens verbais neutras por artefatos tirados do vernacular comercial como etiquetas alimentares e anúncios de lista telefônica no lugar de composições uniformes em helvetica mccoy brincava com páginas repletas de 2 farias priscila in calendário a arte tipográfica de seu juca fragmentos vernaculares recife congresso da sbdi setembro 2003 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 4

[close]

p. 5

diversas fontes e com símbolos estranhos foi quando o idioma comercial começou a ser considerado uma fonte de inspiração espontânea o designer passa a interessar-se pela pluralidade de experiências que encontra na cultura da ruas de forma que esse repertório passa a fazer parte de suas construções visuais figura 8 peça gráfica para o restaurante florent figura 7 no cartaz desenhado para a fonte cuba pablo medina inspirou-se no vernacular das placas comerciais desenhadas à mão livre fonte coupland 1998 p 67 nessa perspectiva trabalhou o designer tibor kalman alcançando uma forma de comunicação direta na medida em que empregava objetos banais do dia-a-dia em suas peças comunicacionais com o objetivo de alterar e redimensionar seus significados kalman entendia que o uso do vernacular poderia ajudar a libertar o designer de sua aura lupton 1996 p 108 sua abordagem possuía um tom inconformista e irônico mesmo apresentando-se como um outsider seu trabalho causou um impacto cultural considerável abrindo caminho para outros designers que passaram a incorporar elementos da estética vernacular americana ao design gráfico inspirou-se por exemplo em placas de beira de estrada feitas à mão para criar a tipografia de cardápios do restaurante nova-iorquino florent figura 8 como se pode perceber kalman reagia ao estilo corporativo de grandes empresas de design dizia interessar-se por imperfeições e intencionalmente fazia as coisas parecerem erradas ou estranhas criando uma espécie de anti-design para ellen lupton 1996 p 108 tibor kalman esteve ligado ao design vernacular pela forma que abraçou a estética do ready-made como dicionários manuais de instruções ou painéis de sinalização 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 5

[close]

p. 6

figuras 9 e 10 capa de cd e logotipo para o grupo musical plap luís e a parede por sua vez o núcleo de design nú-dës que já desenvolveu projetos com foco na tipografia de rua desenhada por não-profissionais figuras 9 e 10 acredita estar homenageando aqueles que se comunicam indiferentes à qualquer tipo de regras ou normas impostas por convenções da linguagem estabelecida uma homenagem àqueles que instintivamente e por isso a veracidade da linguagem constroem a cultura popular plap 2003 figura 11 peça gráfica que integra a identidade visual da produtora de filmes might uk paul neale e andrew stevens os autores brincam com a iconografia dos cartões postais de londres e das placas de sinalizações fonte walton 1998 p 22 seria útil sublinhar a posição de jeffery keedy 1994 que afirma ser necessário resguardar as apropriações das forma discriminatórias pois o confronto desigual do design erudito com o vernacular tem revelado às vezes abordagens equivocadas keedy refere-se à consciência das diferenças culturais e históricas da compreensão de diferentes contextos para que as apropriações não aconteçam em desigualdade de poder e desautorizadamente pois nessas negociações a cultura dominante imita e manipula as verdades de outra cultura da mesma forma 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 6

[close]

p. 7

priscila farias 2003 refere-se a essa prática que deve acontecer de dentro não esquecendo que o erudito e o popular são faces de uma mesma cultura evitar o olhar do alto onde as manifestações populares são percebidas por suas supostas falhas e erros a designer defende o design vernacular como uma forma de comunicação eficiente que cumpre seu propósito de levar informação àqueles que habitam no entorno do sapateiro do dono do bar do homem do povo farias 2003 s/p vale lembrar que as intervenções do tipo pichação ou grafites que nos circundam nas cidades e nos perímetros urbanos são uma forma de manifestação gráfica vernacular esses sinais anônimos para o tipógrafo e designer inglês herbert spencer representam duas motivações fundamentais do ser humano o desejo de deixar sua marca e a necessidade de comunicar-se ele explica que dessa forma os grafiteiros procuram mostrar que o público pode modificar e controlar seu meio ambiente tanto quanto os produtos do design profissional farrelly 1991 p 65 3 as releituras no design gráfico tráfego ou tráfico de signos o design gráfico através da estética vernacular representaria a superação de uma visão dicotômica do pensamento moderno que coloca de um lado o design erudito fruto do conhecimento acadêmico e de outro lado aquele produzido à margem desse sistema parece cada vez mais difícil enquadrá-lo como algo fixo em uma hierarquia de espaços culturais acadêmico versus vernacular ou em uma linearidade histórica o pesquisador e designer americano andrew blauvelt no ensaio cultures of design and the design of cultures 1995 nota como a circulação de signos e imagens no design gráfico dos grandes centros urbanos e dos espaços marginalizados de subculturas jovens ocidentais são importantes para que compreendamos sua relação com a cultura e como as linguagens visuais operam na sociedade em apropriações e dispersões que por sua vez afetam os significados 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 7

[close]

p. 8

o design não tem um lugar fixo ele reside em todos os espaços o tráfico de signos que o design produz circula entre esses espaços negociando as diferenças e as múltiplas posições de identidades sociais e culturais blauvelt 1995 p 23 o advento das novas tecnologias representa um marco na redefinição do papel do tipógrafo permitindo maior liberdade e estímulo para a experimentação o desenvolvimento de novas plataformas de trabalho e principalmente o advento do desktop publishing 1984 fizeram crescer o interesse pela tipografia campo reservado anteriormente aos especialistas figura 12 à esquerda placa comercial los angeles usa que serviu de modelo para a criação da fonte los feliz figura 13 à direita família los feliz roman desenhada por christian schwartz fonte schwartz 2003 as ruas do bairro los feliz em los angeles eua estão repletas de surpresas tipográficas etnicamente diversificada e constituída principalmente por pequenos negócios essa área é percorrida por designers americanos especializados em tipografia a maioria das placas comerciais e letreiros são pintados à mão às vezes diretamente na parede de pequenos prédios com a aparência de residências a fonte los feliz3 figura 13 criada por christian schwartz é uma releitura de um letreiro comercial encontrado em uma das ruas do bairro que leva o mesmo nome o projeto de reconstrução tipográfica teve o desafio de conservar os traços de autenticidade e sensibilidade do desenho original utilizando o máximo 3 a fonte los feliz é comercializada e distribuída por emigre fonts cfe pesquisa realizada no site www emigre.com 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 8

[close]

p. 9

de detalhes curiosos e ímpares do traço original exibindo os adornos que fazem dela uma fonte interessante ainda que um olhar desatento possa interpretá-la como tosca seu redesenho não perdeu de vista os traços principais da fonte original a placa comercial figura 12 do bairro los feliz sua retórica gráfica manifesta contraditoriamente rudeza e delicadeza pelo desenho desigual os remates são ora serifados ora não serifados entretanto a forma levemente trapezoidal indica o caráter comercial da peça sua origem vernacular placa desenhada à mão-livre conota expressividade e autenticidade num balanceamento entre convenção tipográfica e exuberância do traço à mão-livre figura 14 fonte bananas figuras 15 e 16 fontes desenhadas por priscila farias seu desenhada por fernanda martins juca à esquerda e a dingbats ruraldings à direita fonte moretto 2001 fonte moretto 2001 alguns designers de fontes trabalham com temas ligados à cultura popular nacional são abordagens que vão desde ilustrações da literatura de cordel às famosas bananas brasileiras figura 14 passando por grafites e outras manifestações gráficas urbanas priscila farias inspirou-se no trabalho do letrista pernambucano para desenhar a fonte seu juca figuras 15 e 16 sem dúvida o contexto por onde circulam as releituras são fundamentais para compreendermos o seu funcionamento Às vezes é necessário que empreguemos um vocabulário suplementar que proveja a mensagem de um nível ulterior de significados se não possuirmos o estoque de conhecimento visual com base no contexto ao qual recorremos interpretamos a mensagem como a indicação de uma situação paradoxal as releituras tipográficas revelam o interesse dos designers pela espontaneidade e autenticidade da cultura popular em suas expressões locais através de cores e formas autênticas e em particular por aquelas que evocam a mão de artesões ou autores anônimos 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 9

[close]

p. 10

4 considerações finais nossa cultura tem por hábito a identificação de um trabalho em termos de autoria atribuindo-o necessariamente à alguma pessoa ou escola a noção do vernacular estaria atrelada ao sentido de que não é necessário privilegiar um criador aqueles que estão ligados ao vernacular reconhecem a ausência do herói criador visto que o lugar privilegiado reservado ao designer profissional foi superado pela democratização tecnológica a invenção de estilos quer nas ruas ou na tela dos micros continuará contrariando as forças de homogeinização porque é sobretudo o reflexo da heterogeneidade da vida blauvelt 1995 23 aos poucos o vernacular deixa de ser visto como uma realidade empírica do design reinvindicando um lugar de autenticidade e espontaneidade no campo da comunicação gráfica se afirmando como uma estética que se refere à cultura local paradoxalmente a comunicação gráfica tem avançado com as novas tecnologias e descoberto o local o regional e o popular em meio a outras propostas globais as novas formas híbridas e sincréticas não se utilizam de modelos prontos universalistas tampouco estão baseadas numa noção nostálgica ou exótica de recuperação de idiomas locais o vernacular se constrói num espaço simbólico onde as novas tecnologias avançam e encontram formas primitivas populares e particulares como forma de estabelecer um possível equilíbrio compartilha e se cruza com as novas tecnologias em um processo pluralístico previlegiando uma abordagem inclusivista onde ambas as posições o erudito e o popular são vistas como partes de uma mesma cultura por fim acreditamos que refletir as dicotomias entre o erudito e o popular e questionar as nomenclaturas simplificadoras pode nos ensinar a perceber o vernacular como uma oportunidade de contextualização da comunicação gráfica com seu entorno do relacionamento entre objetos e pessoas num sentido amplo recuperando linguagens populares simples e mesmo marginalizadas pois enquanto não nos libertarmos de padrões elitistas ditados pelo gosto e por modelos prontos dificilmente avançaremos além de soluções universalistas que ignoram o particular e o local que encontramos no cartaz do vendedor de picolés da sapataria ou da farmácia da esquina 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 10

[close]

p. 11

referências bibliográficas blackwell lewis brody neville g1 new dimensions in graphic design new york rizzoli 1996 blauvelt andrew in and around cultures of design and the design of cultures emigre sacramento usa n 33 p 2-23 1995 cauduro flávio vinicius design gráfico pós-modernidade revista famecos mídia cultura e tecnologia faculdade de comunicação social pucrs porto alegre n 13 p 127-139 dez 2000 connor steven cultura pós-moderna introdução às teorias do contemporâneo são paulo loyola 1992 coupland ken making faces how cincinnati v 13 n 1 p 76-83 jan fev 1998 farrelly liz herbert spencer traces of man eye the international review of graphic design london v 1 n 3 p 64-69 abr maio 1991 farias priscila tipografia digital rio de janeiro 2ab 2000 a seu juca letrista pernambucano tupigrafia são paulo bookmakers 2000 b a arte tipográfica de seu juca fragmentos vernaculares texto de introdução do calendário recife congresso da sbdi set 2003 featherstone mike cultura de consumo e pós-modernismo são paulo nobel 1995 hall peter bierut michel tibor kalman perverse optimist london booth-clibborn 1998 keedy jeffery i like the vernacular not looking closer 2 critical writings in graphic design new york allworth press and american institute of graphic arts p 101-108 1994 7ª conferência brasileira de folkcomunicação 11

[close]

p. 12

leon ethel altas longas redondas ou vazadas uma mostra das letras populares brasileiras em ensaio fotográfico de edson meirelles design belas artes são paulo publ curso de desenho industrial da faculdade de belas artes de são paulo set 2000 lupton ellen the academy of deconstructed design eye the international review of graphic design london v 1 n 3 p 44-63 1991 mixing messages graphic design in contemporary culture new york princeton architectural press 1996 maffesoli michel a contemplação do mundo porto alegre artes e ofícios 1995 moretto paulo tipografia brasilis reportagem publicada originalmente em projetodesign ed 255 maio 2001 disponível em

[close]

Comments

no comments yet