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ensaios sobre a herança cultural japonesa incorporada à sociedade brasileira
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ministÉrio das r elaÇÕes exteriores ministro de estado secretário-geral embaixador celso amorim embaixador samuel pinheiro guimarães f undaÇÃo a lexandre de g usmÃo presidente embaixador jeronimo moscardo instituto rio branco irbr diretor-geral embaixador fernando guimarães reis a fundação alexandre de gusmão instituída em 1971 é uma fundação pública vinculada ao ministério das relações exteriores e tem a finalidade de levar à sociedade civil informações sobre a realidade internacional e sobre aspectos da pauta diplomática brasileira sua missão é promover a sensibilização da opinião pública nacional para os temas de relações internacionais e para a política externa brasileira ministério das relações exteriores esplanada dos ministérios bloco h anexo ii térreo sala 1 70170-900 brasília df telefones 61 3411 6033/6034/6847 fax 61 3411 9125 site www.funag.gov.br
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ensaios sobre a herança cultural japonesa incorporada à sociedade brasileira brasília 2008
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copyright © fundação alexandre de gusmão capa wakabaihashi gravura xii/xxx 1998 equipe técnica eliane miranda paiva maria marta cezar lopes cíntia rejane sousa araújo gonçalves projeto gráfico e diagramação cláudia capella e paulo pedersolli impresso no brasil 2008 ensaios sobre a herança cultural japonesa incorporada à sociedade brasileira fundação alexandre de gusmão brasília funag 2008 260 p isbn 978-85-7631-139-3 1 cultura japão 2 cultura japão brasil i título cdu 008 520 cdu 08 520:81 direitos de publicação reservados à fundação alexandre de gusmão ministério das relações exteriores esplanada dos ministérios bloco h anexo ii térreo 70170-900 brasília df telefones 61 3411 6033/6034/6847/6028 fax 61 3411 9125 site www.funag.gov.br e-mail funag@mre.gov.br depósito legal na fundação biblioteca nacional conforme lei n° 10.994 de 14/12/2004.
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sumÁrio apresentaÇÃo 7 embaixador fernando guimarães reis i a heranÇa cultural japonesa incorporada À sociedade brasileira 15 ana paula de almeida kobe ii um japÃo no brasil heranÇas de 100 anos de histÓria 43 candice sakamoto souza vianna iii ensaio sobre a heranÇa cultural japonesa incorporada À sociedade brasileira 85 cecília kiku ishitani iv campai saÚde um brinde ao brasil nipo-brasileiro 109 denis ishikawa dos santos v yoshiko baby ou passagens curiosas nos papÉis do capitÃo ezekiel hardy baleeiro e imigrante 137 henrique luiz jenné vi o japÃo de meus olhos 165 marcos mauricio toba vii o transbortamento da influÊncia brasileiros nÃo-descendentes e a imigraÇÃo japonesa 203 viviane ferreira lopes viii.reflexÕes 233 yukie watanabe
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apresentaÇÃo fernando g reis há exatamente um século os imig rantes japoneses trouxeram consigo uma herança talvez não soubessem que eram portadores dessa herança que a princípio ficou até isolada em um natural instinto de defesa cultural mas com o passar dos anos a herança se difundiu pela sociedade brasileira foi uma repartição generosa ao se universalizar a doação se tornou mais importante do que o doador É o momento de refletir sobre isso em 2008 celebramos o centenário da imigração japonesa para o brasil há rasgos heróicos nessa história todos sabemos foi uma verdadeira saga por outro lado quantas voltas não foram dadas nesses 100 anos quantas vezes o destino não riu dos homens que crêem poder antecipar o amanhã mas a história tem a força da água passa por todas as brechas e vai moldando a vertente que lhe convém alheia a queixas e a preconceitos ao fim do trajeto todas as águas se juntam a reflexão que me ocorre em meio a uma trajetória secular é que as heranças não são gratuitas têm que ser assumidas de geração para geração É aliás o que faz o mundo caminhar e a principal herança nem sempre percebida é a própria identidade É claro que a identidade nunca é dada mas há os que a recebem como um modelo quase pronto pode parecer um presente ou um empréstimo mas mais tarde sempre se acaba pagando um preço pela aparente facilidade identidade não se imita do ponto de vista étnico quando há mais de uma herança o que é uma dádiva pode se transformar numa dúvida os beneficiários são colocados diante de situações às vezes inesperadas dada a aparente 9
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fernando g reis diferença queiram ou não são obrigados a fazer opções têm que se afirmar são então induzidos a achar sua própria identidade digo achar porque obviamente a identidade já está lá esperando para se manifestar o problema é que nessa busca não há propriamente roteiro é mais a eventualidade de um encontro consigo mesmo um dia ele acontece ainda que a custo de desencontros o processo não é apenas acidentado é sofrido mas o sofrimento ainda que indesejável é muitas vezes redentor gera prodígios e abre a percepção faz compreender que a realidade gosta de inventar caminhos próprios às vezes com ironia outras vezes aos solavancos neste particular a história não tem muito método a rigor também não tem pressa o fato é que um século pode ser medido em apenas quatro gerações ora os autores reunidos neste volume se declaram em sua maioria pertencentes à quarta geração dos imigrantes que chegaram em 1908 assim a visão dos yonsei contribui para decifrar o delicado enredo de uma herança que veio de fora sim mas aqui deitou raízes e deu frutos genuinamente brasileiros são oito os ensaios agora publicados ao cabo de um concurso aberto e democrático a meu ver cada um dos textos tem seu valor intrínseco e propõe uma perspectiva original além de reveladores e instrutivos são escritos saborosos não hesito em dizer que certas passagens são antológicas seja pelo lado anedótico seja pela profunda veracidade já se conclui que os colegas-autores não merecem simples parabéns são credores de respeito e admiração pois em maior ou menor medida aceitaram o desafio de falar de sua própria experiência foram corajosos e sob diferentes ângulos todos trataram de um tema de grande interesse para a sociedade brasileira e em conseqüência para a diplomacia brasileira por mais que o exercício fosse louvável e oportuno havia que enfrentar uma tripla dificuldade pessoal intelectual e funcional sejamos francos é sempre difícil falar de si mesmo digo falar com autenticidade a palavra eu é certamente das mais freqüentes em todos 10
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apresentaÇÃo os discursos mas em geral o indefectível ego é apenas uma fachada quando se trata de ir além da superfície as pessoas hesitam resistem ou até se rebelam de resto sabemos que os diplomatas não costumam ser diretos nem transparentes não foi o que aconteceu neste concurso franqueado sem distinções aos membros da carreira até o nível de conselheiro seria natural que o tema do concurso mobilizasse de forma mais direta aos que têm vínculos pessoais com o japão a propósito o serviço exterior brasileiro conta atualmente com 22 nipo-descendentes pode parecer pouco mas é um número expressivo em termos relativos considerando-se o percentual de origem japonesa no total da população brasileira o pioneiro que ingressou na carreira em 1975 já é hoje embaixador seu exemplo foi seguido a princípio de forma tímida mas dentro de uma linha agora constante e ascendente de qualquer forma a amostragem foi ampla pois o concurso recebeu também contribuições importantes de diplomatas sem ascendência nipônica o que ilustra e comprova a forte influência da cultura japonesa no nosso meio ao se escolher o tema do certame não se excluiu a possibilidade de uma resposta acadêmica que seria válida mas o que se esperava era algo mais que o tratamento da questão tivesse a marca de um testemunho pessoal É verdade que o desafio foi formulado na linguagem neutra de um edital oficial como corresponde a um certame público patrocinado conjuntamente pelo irbr e pela funag nem por isso os concorrentes deixaram de compreender que se tratava de um convite para dar um depoimento de primeira mão em outras palavras havia plena liberdade para a sensibilidade de cada um graças a isso foram recuperadas lembranças que de outra forma talvez ficassem perdidas ou quem sabe permanecessem secretamente encerradas nos arcanos de vagas memórias da infância e da adolescência acontece que tais lembranças são indispensáveis para compreendermos a verdadeira história do brasil que é antes de mais nada a história das pessoas em seu cotidiano essa riqueza é inesgotável 11
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fernando g reis através das vivências é mais fácil entender os fatos no caso tratava-se de pensar a nossa herança japonesa nossa de todos os brasileiros e não apenas dos que de uma forma ou de outra estão mais ligados ao japão nas respostas ao inusitado convite não faltou objetividade e não faltou sinceridade até o limite de um discreto intimismo o resultado em seu conjunto é muito bonito diria mesmo que é tocante porque em última análise o que encontramos nesses ensaios são relatos existenciais o enfoque pode guardar um certo recuo analítico mas a matéria é a própria vida que não se deixa aprisionar em fórmulas definitivas sob apelo emocional a memória é muito mais do que um depósito de informações a coragem que salientei está justamente em ir ao encontro da verdade a verdade de cada um que é o que importa mas em geral o processo do auto-descobrimento é caprichoso a revelação por natureza é uma surpresa nas páginas que se seguem há momentos assim alguns mais dramáticos outros tratados com o disfarce do humor o que comprova o distanciamento inerente à reflexão madura em suma são inesperadas lições de humanidade contadas com simplicidade e sem qualquer pretensão de generalizações apressadas na boa ciência sobretudo nas humanas a teoria não pode ser surda aos sussurros da experiência vale o exemplo dito isso cabe notar que por acréscimo o exercício tem um inegável interesse acadêmico os participantes do concurso fazem parte de um universo perfeitamente identificável eles pertencem às gerações mais jovens do itamaraty o que já por si confere valor documental a essa amostra sob outro prisma a espontaneidade dos textos não prejudica sua importância como material de estudo muito pelo contrário a colheita foi farta e diversificada por outro meio teria sido bastante difícil obtê-la o que se vai ler mostra claramente que estamos diante de uma temática atual que desperta reações fortes e suscita problemas além disso é uma questão que interessa a todos seja por seu apelo antropológico seja 12
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apresentaÇÃo porque permite uma reflexão em profundidade sobre a própria sociedade brasileira aliás o livro vem preencher uma lacuna são muitos os depoimentos da primeira e da segunda gerações dos imigrantes em tempos sabidamente árduos mas são ainda escassos os escritos da terceira e quarta gerações notavelmente exitosas e já perfeitamente integradas ao meio brasileiro em confronto com a literatura anterior sobre a matéria os depoimentos dos mais jovens exibem uma perspectiva diferente como era de se esperar o que talvez fosse menos previsível é o grau de isenção e de maturidade a sensibilidade fica bem à mostra mas não há o páthos do ressentimento a evolução é nítida ao articular esta apresentação que só pretende ser um convite resisto ao desejo de comentar os ensaios um por um a tentação é grande mas seria uma deslealdade para com o leitor nas páginas que se seguem há matéria para contos e mesmo romances assim que não quero retardar o prazer dos que já estão com o livro na mão não vou contudo me fur tar a dar também o meu depoimento talvez subjetivo ao fim e ao cabo a impressão maior que me ficou destes ensaios é a de uma benigna nostalgia benigna e curiosa ela se manifesta por exemplo no apreço por uma ética inabalável que antes comportava gestos heróicos mas hoje de forma talvez não menos corajosa tem que se provar na banalidade do dia-a-dia creio que essa comparação permeia a maioria dos textos da mesma forma subsiste a fantasia da terra dos antepassados quase um mito de transmissão oral na verdade o japão dos avós ou bisavós pioneiros é um país único que só tem realidade na memória assim é muito legítimo o anseio de querer preservar um passado prestes a se desvanecer e que sobrevive nos instantâneos de lembranças fugidias para completar o desenho é preciso juntar os pedaços com carinho e esforço assim os vazios se vão preenchendo aos poucos seja por adivinhação seja através de sons associados a entes queridos seja graças ao inesperado retorno de cheiros e de sabores remanescentes 13
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fernando g reis de reuniões da família ampliada bem à moda nipônica são dias distantes mas ainda presentes o reflexo desse mundo combina mal com a atualidade assim a tradição cede lugar a um outro tipo de apelo não há desencanto com o presente mas há o desejo de imobilizar o tempo uma tempo que já pertence tanto à crônica como à ficção se há nostalgia há igualmente serenidade pois nada se perdeu os jovens sabem por intuição que o passado não está extinto ao contrário ele se tornou mais tangível e mais protegido foi incorporado a algo maior com a perspectiva que só o passar do tempo permite através da vivência das gerações que se sucedem a dúvida ao se explicitar voltou a ser dádiva a identidade herdada foi assumida as águas se juntam talvez o mérito do concurso1 tenha sido o de haver tornado mais clara essa percepção para os autores e agora para os leitores 1 cabe um especial reconhecimento ao embaixador frederico cezar de araújo ao embaixador valdemar carneiro leão neto e à embaixadora vitória alice cleaver que se dispuseram a integrar a banca julgadora que avaliou todos os ensaios foram contemplados com viagem de estudos ao japão prêmio adicional previsto no edital do concurso o secretário marcos maurício toba e a secretária candice sakamoto souza vianna 14
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i a heranÇa cultural japonesa incorporada À sociedade brasileira
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