magazine cultura urbana n 2 maio 2010

 

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02 mai 2010 gratuito magazine de cultura urbana festivais maio maduro maio isilda sanches a melómana

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magazine de cultura urbana 02 mai 2010 os éfes propriedade projecto editorial e gráfico paginação vasco lopes www.vlgraphicdesign.com vlgraphicdesign@gmail.com colaboradores ivo meco jorge castro nuno nóbrega rosa teixeira da silva todos os conteúdos textos imagens anúncios têm todos os direitos dos autores reservados qualquer reprodução com fins profissionais ou comerciais mesmo que parcial e por qualquer processo é formalmente proibida e dará lugar a sanções penais político rouba gravadores a jornalistas pausa inês de medeiros abdica das viagens para paris pagas pelo estado campeonato de futebol termina e milhares celebram a vitória festivos e eufóricos estado português laico concentra-se com tolerâncias de ponto mil esforços e muitos milhões de euros para a visita do papa a portugal pausa fátima e futebol continuam a ser o nosso fado lia-se recentemente numa faixa algures governo não desiste do tgv e anuncia aumento de impostos para muito breve presidente da república não se pronuncia sobre o assunto porque está a acompanhar a visita do papa o país continua a viver numa `fantasia lusitana estamos fodidos pausa abençoado mês de maio fértil em actividades culturais e artísticas seja bem-vindo/a.

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índice 06 jantamos hoje zoom in zoom out joana rosa bragança 08 isilda sanches some of us will always stay behind 32 16 ilha da cova da moura ciclo rupturas go get some rosemary mother mark jenkins 36 40 fimfa lx alkantara 22 fitei amor com amor se paga donna quichotte a rainha da beleza de leenane 46 48 26 iamamiwhoami ceo laurie anderson ratatat

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escolademulheres oficinadeteatro

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jantamos hoje texto nuno nóbrega nos países pobres e patéticos como o nosso a comida é sempre um factor de orgulho ainda que traumatizados que somos pela nossa pequenez a designemos com vergonha arrozinho com bifinhos em sopinha à moda de é com o peito inchado que apresentamos a cozinha nacional à estrangeirada quer se trate de uma delegação governamental quer de um conhecimento travado num qualquer aeroporto paralisado pelas cinzas da nova lesbos desculpa o atraso da reunião ou a falta de erecção prova mas é este bacalhauzinho assado com batatinhas a murro esta fogueira de vaidade alimenta-se também do local de degustação a escolha de um restaurante não é isenta de perigos sendo necessário conciliar critérios que dignificam a descida da comida goela abaixo por exemplo se o olhar entre garfadas deve recair sobre a cidade o rio ou o mar oceano em rigor se a decoração deve incluir elementos regionalistas leia-se uns tachos dourados e ramos entrançados de cebolas e alhos pendurados sobre as nossas cabeças ou apresentar um compósito design de inspiração pós-moderna descaradamente reproduzido a partir de uns restaurantes visitados em tempo de férias ou se última alternativa a clientela deve ser nacional para que se possa observar ao jeito do trabalho de campo dos antropólogos os costumes gastronómicos dos autóctones ou optar por um ambiente foreigner-friendly na vã tentativa de mostrar uma vida cosmopolita que os portugueses tanto ambicionam mas para a qual não têm dinheiro todavia se há despesa que o plafond do nosso cartão de crédito comporta sempre no final do mês é a de um jantar quase sempre segundo a regra do quanto-menos-dinheiro-tenho-mais-dispendiosoquero-que-seja no que toca a jantar fora a vida social citadina portuguesa é 6

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ainda que traumatizados que somos pela nossa pequenez a designemos com vergonha arrozinho com bifinhos em sopinha à moda de é com o peito inchado que apresentamos a cozinha nacional à estrangeirada 7 com efeito intensa mas os propósitos internacionalmente comparados têm um baixo valor estratégico contrastando com o calórico É certo que a nossa decisão de jantar fora tem na sua génese o convívio com amigos e isso é salutar mas noutros países radica na intenção de embrionar think tanks estabilizar lobbies realizar negociatas reunir pessoas com interesses próximos e potencialmente sinergéticos ou caso típico e bastante distinto tentar que amigos comuns se conheçam se apaixonem e se casem de uma vez por todas para grande alívio dos restantes cansados que estão das suas estórias de desamor quando a única vontade é a do prazer da amizade presencial e falada janta-se em casa e com a mesmíssima qualidade com os portugueses não é bem assim aquilo de que gostamos mesmo é de comer à grande e à francesa com os amigos mas desde que o restaurante seja caro e concorrido e nas mesas contíguas estejam sentados os nossos chefes clientes e concorrentes um ou outro vizinho se vivermos num condomínio fechado com piscina e court de ténis engates há muito ambicionados antigos amantes estou tão bem sem ti ex-amigos não me fazes falta nenhuma e sobretudo inimigos a minha mulher é mais bonita sem dinheiro vivo no bolso são estas as únicas circunstâncias em que julgamos valer a pena usar o de plástico caso contrário ficamos por casa e convidamos os amigos que trazem pelo menos o vinho e a sobremesa e claro com os quais poderemos falar mal e ruidosamente sobre os que nesse momento estarão a jantar fora.

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isilda sanches melómana pensadora É conhecida como locutora e coordenadora de programação da rádio oxigénio assume que pode entregar-se facilmente ao ócio mas movem-na também um sentido de responsabilidade castrador a música e a vontade de saber texto vasco lopes nota nas fotografias que ilustram esta entrevista o rosto de isilda nunca surge nítido inteiramente revelado propositadamente por 2 motivos um isilda não gosta de ser fotografada dois tal como na rádio queremos deixar espaço para a imaginação de cada um.

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isilda sanches é uma melómana coordenadora de programação e locutora na rádio oxigénio escutada particularmente na grande lisboa e arredores mas acessível a todos através da internet dj e professora de jornalismo musical isilda precisa desdobrar-se 24 horas por dia na verdade não consigo gerir bem o tempo por isso faço de conta que consigo É uma espécie de fantasia sei que às vezes é impossível conseguir fazer tudo mas vou fazendo e para surpresa minha as coisas até funcionam tenho grandes momentos de dúvida e cansaço em que vacilo o truque acho é viver um dia de cada vez e projectar o trabalho por etapas confesso que há dias em que me levanto de manhã a antecipar o momento em que voltarei para a cama gosto de dormir acho que isso também me ajuda isso e fechar-me na minha `bolha com regularidade entrego-me facilmente ao ócio mas há 3 coisas que sempre me moveram um sentido de responsabilidade castrador a música e a vontade de saber nada disso combina com ócio uma das actividades recentes é a do ensino de jornalismo musical disciplina que ministra numa escola privada o jornalismo musical ensina-se há muito pouco tempo e penso que o meu amigo rui miguel abreu terá sido pioneiro nessa cruzada não há manuais não há estudos no fundo não há certo nem errado porque a base acaba por ser quase sempre subjectiva e impressionista e não tanto factual e quem quer jornalismo 10 tenho grandes momentos de dúvida e cansaço em que vacilo o truque acho é viver um dia de cada vez e projectar o trabalho por etapas © todos os direitos reservados all rights reserved

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musical meramente factual penso que é possível e sobretudo importante passar alguns conhecimentos a quem tem vontade de escrever sobre música porque isso é um impulso que toma conta de nós quase com espírito de missão É verdade que toda a gente pode escrever sobre tudo mas a forma como se faz pode ser mais ou menos interessante e enriquecedora para o leitor para se ser jornalista musical há que ter noções mais do que básicas de história da música e também algum conhecimento de como se faz música dos métodos de criação mas também ter noções de jornalismo de argumentação e retórica de português e também os clássicos do género como lester bangs ou greil marcus questões da indústria da sociologia etc hoje sabe-se que a música é marcada por uma massificação do hip-hop género que domina grande parte da indústria há mesmo quem afirme que no geral o mainstream musical se tornou rotineiro e pouco inovador pouco havendo para reinventar segundo isilda tenho tendência para acreditar que já está tudo inventado e que no máximo surgem novas versões do conhecido também tendo a acreditar que as revoluções musicais estão intimamente ligadas às inovações tecnológicas o rock `n roll e a guitarra eléctrica o dub e os estúdios de produção de kingston o hip-hop e o sampler o acid house e o roland 303 o drum n bass e o time stretch no entanto somos muitas vezes sacudidos por música que não é propria11

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mente inovadora mas que soa fresca porque se destaca da cacofonia geral o bom de trabalhar com música é que não há teorias definitivas da mesma maneira que não há tops definitivos a música funciona a um nível não racional é epidérmico etéreo às vezes mesmo transcendente essa magia também pode manifestar-se em canções pop que parecem inconsequentes às vezes até irritantes mas que tocam nos botões certos há que estar aberto à surpresa senão tornamo-nos cínicos mas é verdade que o `mainstream do hip-hop se tornou aborrecido e um palhaço de si próprio como dizia o dj shadow naquela faixa do `endtroducing why hiphop sucks in 96 `it s the money a música digital tem também ganho terreno como meio e suporte mas isilda não considera que tal seja causa para a extinção por exemplo dos cds desconfio sempre quando me dizem que alguma coisa vai desaparecer para sempre desconfiei quando tentaram vender a ideia de que o vinil estava ultrapassado desconfio quando me dizem que no futuro tudo vai ser digital embora seja óbvio que a `indústria está a trabalhar para isso se alguém se lembrar de tornar o acesso à internet menos fácil se calhar os formatos digitais não têm um futuro assim tão brilhante tudo isso depende de tanta coisa há 2 meses alguém achava provável que um vulcão na islândia pudesse parar o mundo durante dias além disto hoje os singles estão a adquirir uma renovada força como 12 há que estar aberto à surpresa senão tornamo-nos cínicos mas é verdade que o `mainstream do hip hop se tornou aborrecido e um palhaço de si próprio © todos os direitos reservados all rights reserved

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tendência para o lançamento de novos trabalhos nos tempos que correm fazer álbuns é uma arte difícil e em vias de extinção até porque as editoras estão sem dinheiro hoje é tudo muito urgente os projectos têm que se fazer notar rápida e repetidamente se querem receber alguns dividendos ter algum crédito por isso é como se tivéssemos voltado à era do single só que agora convém lançar pelo menos um por mês de preferência com várias remisturas nos produtores de música de dança a velocidade de produção chega a ser estonteante o incrível é que mesmo assim há quem consiga lançar continuamente discos bons hoje os álbuns tentam ser algo mais ou a embalagem é especial ou tem dvd ou brilha no escuro e é um portal para outra dimensão o álbum do lindstrom where you go i go too por exemplo e o segundo lindstrom prins thomas são `discos à antiga com uma lógica narrativa que sobressai para lá da soma das canções individualmente deve ser uma cena nórdica os noruegueses parecem gostar de épicos a sua música tem um fôlego mais prolongado explica as transformações e os novos caminhos do universo sonoro também se sentem numa nova geração de artistas portugueses na música feita em portugal segundo isilda vivemos um momento incrível tão incrível que a maior parte das pessoas nem se apercebe porque está quase tudo a passar ao lado das correntes de informação dominantes há uma boa cena indie legendary o documentário também deve ter essa função de incentivar as pessoas a questionar a agir 13

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tigerman b fachada samuel Úria há gente a fazer bom reggae freddy locks e afro beat cacique 97 bandas de funk clássico cais sodré funk connection têm saído bons discos de hip-hop bob da rage sense orelha negra há gente a fazer soul expensive soul dino há um circuito de jazz e há muita música incrível para a qual não temos rótulos gala drop paus aquaparque há muitos produtores a fazer excelentes discos de dança ou electrónica tantos que não dá para dizer todos mas tenho que falar do tiago miranda dos photonz social disco club kaspar johnwaynes octapush o que os buraka conseguiram é uma coisa absolutamente notável e inédita e está a abrir caminho para que uma série de música nova e excitante se manifeste coca o fsm batida há o trabalho de editoras que remam contra a corrente como a bloop a meifumado a enchufada a clean feed no fundo acho que como é habitual o menos interessante é o que se passa no `mainstream mas mesmo aí não nos podemos queixar muito porque há coisas lá fora muito piores quer dizer já ninguém aguenta ouvir o `perfeito coração versão sónia tavares mas por mim darei sempre atenção a uma canção do ary dos santos a melomania de isilda é evidente na rádio oxigénio estação ouvida e apreciada por uma audiência na maioria jovem na idade e/ou espírito e urbana isilda continua a surpreender-se com o facto de ser uma audiência tão dedicada ao que fazemos chega a ser 14 © todos os direitos reservados all rights reserved

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vivemos um momento incrível tão incrível que a maior parte das pessoas nem se apercebe porque está quase tudo a passar ao lado das correntes de informação dominantes comovente sobretudo quando temos `feedback improvável famílias de pais e filhos que nos seguem um taxista em massamá que nos ouve um italiano que acorda e manda mails a perguntar as músicas que estão a passar gente que aparece em directo no `facebook a dizer que nos ouve nos estados unidos ou na suíça o trevor jackson dar-nos os parabéns e dizer que não conhece mais nenhuma rádio assim foi particularmente especial os nossos trunfos são a música e as pessoas as que fazem a rádio e as que nos ouvem gostamos mesmo de mostrar música às pessoas e pelos vistos elas gostam do que lhes mostramos apesar de ser uma hedonista moderada confessa e do ócio ser uma doce e cativante melodia isilda aos 40 anos não quer nem pode parar este vai continuar a ser um ano de muita dedicação ao trabalho nos tempos livres deixar-se-á tomar por outras paixões como a ciência e a ficção científica e gostava que houvesse um universo paralelo para portugal por um lado acho que seria melhor se portugal vivesse de facto uma época de ficção científica havia sempre a hipótese de passarmos para um universo paralelo mas por muito que às vezes me sinta uma personagem do k dick acho que não há fendas no espaço por onde possamos escapar ou há enquanto a realidade quiser isilda além de tudo o resto irá continuar a dar-nos música para respirar respiremos então www.oxigenio.fm 15

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