p. 1
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i teoria da literatura e literatura i a literatura e a não-literatura devemos começar por estabelecer que uma obra transmite sempre ao leitor uma concepção da realidade subjetiva ou psicológica e física percebida pelos sentidos um poeta lírico que confessa seu amor expressa uma concepção da realidade de seu estado passional um economista que por exemplo expõe suas idéias a respeito da economia brasileira expressa sua concepção de nossa realidade econômica há dois tipos de concepção da realidade a concepção intuitiva e individual e a concepção racional e universal a concepção intuitiva e individual é o modo que cada um de nós tem de sentir a si mesmo e ver a realidade externa real ou imaginada a concepção racional e universal é o modo como a inteligência humana trabalhando segundo regras específicas próprias de cada ramo das ciências humanas e das ciências naturais interpreta a realidade psicológica ou física a literatura expressa uma concepção intuitiva e individual da realidade em cada caso a concepção do autor da obra e a não-literatura expressa uma concepção racional e universal da realidade características da obra literária o conteúdo uma das características da obra literária é o tipo de conhecimento da realidade que ela transmite conhecimento intuitivo e individual o conhecimento intuitivo e individual é aquele que cada um de nós tem naturalmente dos fatos e das coisas sabemos o que se passa dentro de nós sentimentos ideias imaginação e em volta de nós o comportamento das pessoas fenômenos naturais e sociais etc e tudo isso somos capazes de expressar a viva voz ou por escrito o mesmo ocorre com um escritor por isso dizemos que sua obra expressa seu conhecimento intuitivo e individual da realidade a expressão do conhecimento intuitivo e individual só é literatura quando o conteúdo dessa expressão é uma intuição profunda e original da realidade o que caracteriza a obra literária é em princípio o seu conteúdo características da obra literária a forma a obra literária distingue-se da expressão de conhecimento do homem comum porque sua forma ou linguagem chamada linguagem literária é mais rica e mais variada que a do homem comum o que é compreensível pois o artista sente a existência com mais sensibilidade pensa os problemas da vida com mais inteligência e quem tem mais o que dizer diz com mais palavras e em mais complexa expressão na obra literária as regras da expressão são as criadas pelo próprio artista conclusão a literatura se distingue da não-literatura pelo conteúdo e pela forma e que as características essenciais da obra literária são duas um conteúdo intuitivo e individual e uma forma produto da criatividade expressiva do artista questionário 1 considerando-se toda a produção escrita e falada divide-se essa produção em dois grupos literatura e não-literatura por quê 2 que ideias é necessário estabelecer para distinguir a literatura da não-literatura 3 que caracteriza o conteúdo e a forma da obra literária 1
[close]
p. 2
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i temas para indagação e reflexão se uma obra literária é a expressão do conhecimento intuitivo de determinada realidade por que diante da mesma realidade dois escritores produzem obras diferentes leitura complementar noção de literatura a literatura seria uma forma de conhecimento ou de compreensão aplicada ao homem e às suas relações com o universo à sua luta pela assimilação desse universo uma forma de conhecer que não tem mais método que a intuição nem mais meio para se traduzir que a ficção imitativa a reprodução laboriosa quase impossível da paisagem interior todos os meios do conhecimento científico se multiplicam progridem e aperfeiçoam só os meios do conhecimento artístico são inalteravelmente os mesmos desde o primeiro dia as armas rudimentares da intuição a profundidade dessa intuição é que tem aumentado como se têm complicado os meios de expressão artística a ficção a criação duma suprarrealidade com os dados profundos singulares e pessoais da intuição do artista a sensação de beleza ou a emoção estética provém da harmonia entre a originalidade do fundo ou conjunto de dados intuitivos novos e o relevo expressivo da forma fidelino de figueiredo a obra literÁria seus elementos fundamentais uma obra literária apresenta-se a nós em princípio como uma realidade concreta essa realidade concreta é apenas a forma da obra sua expressão porque seu conteúdo ou aquilo que ela expressa é uma realidade abstrata que existiu no espírito do autor e passará a existir no espírito dos seus leitores auditores ou espectadores os elementos fundamentais da obra literária forma e conteúdo a forma expressão ou linguagem é um elemento concreto e estruturado concreto porque podemos ler ouvir ou ver e podemos analisar objetivamente a forma é o elemento que fixa o conteúdo e o transmite do espírito do escritor ao do leitor auditor ou espectador o conteúdo fixado e carregado pela forma é uma realidade imaterial por exemplo as personagens de um romance e suas ações são criadas pela imaginação do escritor e passam a existir para o leitor apenas na sua imaginação concomitância e unidade do conteúdo e da forma o conteúdo e a forma de uma palavra de uma frase e de uma obra surgem concomitantemente no ato criador do artista e concomitantemente se impõem à consciência do leitor auditor e espectador daí dizer-se que formam uma unidade conteúdo e forma são portanto realidades concomitantes no espírito e de tal modo inter-relacionadas e interativas que a teoria da literatura as vê como unidade perfeita o indizível para o escritor o indefinível para o leitor se penetrarmos profundamente no espírito do escritor chegaremos à conclusão de que um escritor apesar do empenho que põe em expressar o máximo de estado emocional que o domina o máximo de sua intuição da realidade e o máximo de seu pensamento depois de realizada sua obra ainda fica dentro de si muita coisa que ele não conseguiu dizer no ato criador do artista há um fundo indizível que é um conteúdo sem forma questionÁrio 1 quais são os elementos fundamentais de uma obra 2
[close]
p. 3
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i 2 por que se diz que esses elementos são concomitantes no espírito do autor e inseparáveis na sua obra 3 que é o indizível para o escritor e o indefinível para o leitor leitura complementar o conteúdo do poema poesia está na alma do escritor poesia gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever no entanto ele está cá dentro inquieto vivo ele está cá dentro e não quer sair mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira carlos drummond de andrade a obra literÁria suas formas na música a forma é o som a frase musical o ritmo a harmonia e a melodia na pintura é a linha o desenho a composição a perspectiva e a cor na escultura e na arquitetura são os volumes suas formas e sua composição na coreografia são as posições e os movimentos rítmicos e na literatura é fácil compreender a forma é a linguagem composta de fonemas palavras frases e quando escrita transformada em imagem visual a linguagem falada e escrita não é apenas o processo usado para nos comunicarmos com os nossos semelhantes mas também a forma ou material que os escritores trabalham para conseguir expressar da melhor maneira o que conscientizam de seus estados criativos tipos de forma ou linguagem um escritor não é apenas um homem que pensa e sente de modo diferente do comum dos homens é também um artista que se empenha tecnicamente na expressão estrutural da obra para que a estrutura obtida seja a mais adequada ao conteúdo que deseja expressar e a mais eficaz para levar o leitor a compreender e sentir sua obra a arte de escrever a arte de escrever não consiste em saber a gramática da língua em que se escreve é infinitamente mais é saber obter todos os efeitos nocionais sonoros e visuais da expressão lingüística e quando os materiais lingüísticos manipulados não satisfazem às necessidades expressivas do estado criativo ou artístico a arte de escrever passa a ser também criadora de expressão a obra literÁria sua forma poemÁtica quem pensa em estabelecer a diferença entre prosa e verso ou entre forma prosaica e forma poemática parte do princípio de que a prosa é a linguagem natural enquanto que a linguagem da poesia é artificial 1º a prosa literária se bem semelhante à linguagem comum não é evidentemente uma linguagem comum pois é sempre o resultado de um trabalho estético do escritor 2º a linguagem poemática é também trabalhada estilisticamente pelo escritor 3º poesia é o conteúdo do poema e nesse caso o poema resulta em ser a expressão ou a forma da poesia distinção que de pronto percebemos quando verificamos que poesia só os poetas são capazes de criar ao passo que poema qualquer pessoa aprende a construir relação entre conteúdo da obra literária e a realidade 3
[close]
p. 4
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i realidade é tudo aquilo de que temos consciência todos os seres concretos e abstratos verdadeiros ou imaginados e todos os fatos ou fenômenos passam a ser para nós realidade desde que sejam objeto de nossa consciência ao conscientizarmos uma realidade criamos no espírito uma idéia noção abstrata ou uma imagem figuração dessa realidade o conteúdo de uma obra literária é um conjunto de ideias e imagens da realidade ou supra-realidade os dois mundos da realidade o natural e o sobrenatural a realidade física chega a esse psiquismo por intermédio de nossas percepções sensoriais vista olfato audição paladar tato etc a realidade psíquica é esse mesmo psiquismo de cujos fenômenos extremamente complexos temos consciência os sentimentos as manifestações do inconsciente o raciocínio o mundo sobrenatural mundo sem as limitações impostas ao nosso mundo pelas leis da natureza física e psíquica no conteúdo das obras literárias podem ser tanto uma imagem do mundo natural físico e psicológico como do sobrenatural a arte literária é um tipo de conhecimento da realidade questionÁrio 1 por que se diz que o conteúdo de uma obra literária é uma supra-realidade 2 que é a realidade natural e a sobrenatural leitura complementar poema surrealista chuva oblíqua atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito e a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios que largam do cais arrastando nas águas por sombra os vultos ao sol daquelas árvores antigas o porto que sonho é sombrio e pálido e esta paisagem é cheia de sol deste lado mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio e os navios que saem do porto são estas árvores ao sol fernando pessoa 4
[close]
p. 5
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i curso de literatura i introdução texto i descuidar do lixo é sujeira diariamente duas horas antes da chegada do caminhão da prefeitura a gerência de uma das filiais do mcdonald s deposita na calçada dezenas de sacos plásticos recheados de papelão isopor restos de sanduíches isso acaba propiciando um lamentável banquete de mendigos dezenas deles vão ali revirar o material e acabam deixando os restos espalhados pelo calçadão texto ii o bicho vi ontem um bicho na imundície do pátio catando comida entre os detritos quando achava alguma coisa não examinava nem cheirava engolia com voracidade o bicho não era um cão não era um gato não era um rato o bicho meu deus era um homem manuel bandeira questões os dois textos apresentam semelhanças quanto ao conteúdo qual é essa semelhança a diferença essencial entre os dois textos está na linguagem qual deles apresenta uma linguagem pessoal carregada de sentimento do emissor a função poética da linguagem linguagem figurada conotativa rica em sentidos 12345 os gÊneros literÁrios gênero lírico É certo tipo de texto no qual um eu lírico exprime suas emoções ideias e impressões ante o mundo exterior normalmente os pronomes e os verbos estão em 1ª pessoa e há predomínio da função emotiva da linguagem ardo em desejo na tarde que arde oh como é belo dentro de mim teu corpo de ouro no fim da tarde teu corpo que arde dentro de mim que ardo contigo no fim da tarde manuel bandeira olhei até ficar cansado de ver os meus olhos no espelho chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro 5
[close]
p. 6
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i os pulsos e os punhos que estão cortados e o resto do meu corpo inteiro titãs gênero épico nesse gênero há a presença de um narrador que quase sempre conta uma história que envolve terceiros isso implica certo distanciamento entre o narrador e o assunto tratado o que não ocorre no gênero lírico os verbos e os pronomes quase sempre estão na 3ª pessoa porque se trata dele ou deles além disso os textos épicos pressupõem a presença de um ouvinte ou de uma plateia os textos épicos são geralmente longos e narram histórias de um povo ou uma nação envolvem aventuras guerras viagens gestos heróicos e apresentam um tom de exaltação isto é de valorização de herois e seus feitos gênero dramático trata-se do texto escrito para ser encenado no teatro nesse tipo de texto não há um narrador contando a história ela acontece no palco ou seja é representada por atores que assumem os papeis das personagens todo o texto se desenrola a partir de diálogos obrigando a uma sequência rigorosa das cenas e de suas relações de causa e conseqüência estilos de Época o homem se modifica através dos tempos e com ele mudam também as formas de expressão acústica era medieval primeira época trovadorismo marcos histÓricos 1189 1198 segunda Época 1434 `cantiga da ribeirinha de paio soares de taveirós reino criação do cargo de cronista-mor do princi pais autores d dinis martim codax joão garcia de guilhade pero da ponte fernão lopes gil vicente garcia de resende curso de literatura portuguesa a plurissignificaÇÃo da linguagem literÁria denotação palavra com significação restrita palavra com sentido comum aquele encontrado no dicionário -palavra utilizada de modo objetivo -linguagem exata e precisa -conotação palavra com significação ampla criada pelo contexto palavra com sentidos que carregam valores culturais e sociais palavra utilizada de modo criativo artístico linguagem expressiva rica em sentimentos 6
[close]
p. 7
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i texto literÁrio e nÃo-literÁrio -texto literário linguagem pessoal contaminada pelas emoções e valores linguagem plurissignificativa conotativa função poética da linguagem recriação da realidade intenção estética ênfase na expressão -texto não-literário linguagem impessoal objetiva informativa linguagem que tende à denotação função referencial da linguagem informações sobre a realidade funÇÕes da linguagem -diálogo das funções numa mesma mensagem porém várias funções podem ocorrer uma vez que atualizando concretamente possibilidades de uso do código entrecruzam-se diferentes níveis de linguagem funÇÃo referencial da linguagem função cognitiva ou referencial ou denotativa é a função que ocorre quando o destaque é dado ao referente ou seja ao contexto ao assunto a intenção principal do autor é informar o leitor as principais características desse tipo de texto são >objetividade linguagem direta precisa denotativa clareza nas ideias finalidade é traduzir a realidade tal como ela é presença predominante em textos informativos jornalísticos textos didáticos científicos -funÇÃo poÉtica da linguagem ocorre quando a própria mensagem é posta em destaque ou seja chama-se a atenção para o modo como foi organizada a mensagem centralizada na mensagem revelando recursos imaginativos criados pelo emissor afetiva sugestiva conotativa ela é metafórica valorizam-se as palavras suas combinações exemplos de textos poéticos além dos provérbios e letras de música conforme citado encontramos esse tipo de função em textos escritos em prosa em slogans ditos populares logo não se trata de uma função exclusivamente encontrada em poesias o que É literatura literatura é a arte da palavra recria a realidade dando origem a uma supra-realidade ou realidade ficcional os gÊneros literÁrios -gênero lírico é certo tipo de texto no qual um eu-lírico a voz que fala no poema que nem sempre corresponde à do autor exprime suas emoções ideias e impressões ante o mundo exterior gênero épico nesse gênero há a presença de um narrador que quase sempre conta uma história que envolve terceiros isso implica certo distanciamento entre o narrador e o assunto tratado o que não ocorre no gênero lírico os textos épicos são geralmente longos e narram histórias de um povo ou uma nação envolvem aventuras guerras viagens gestos heróicos e apresentam um tom de exaltação isto é de valorização de heróis e seus feitos gênero dramático trata-se do texto escrito para ser encenado no teatro nesse tipo de texto não há um narrador contando a história ela acontece no palco ou seja é representada por autores que assumem os papéis das personagens 7
[close]
p. 8
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i trovadorismo sÉculo xii xiv -trovador membro da nobreza ou do clero era o autor da letra e da música das composições que executava para o seleto público das cortes -jogral cantor de origem popular raramente compunha limitando-se a executar composições dos trovadores -no trovadorismo os poemas eram sempre cantados e acompanhados de instrumentos musicais e de dança por isso o nome das produções poéticas é cantiga as cantigas -foram reunidas em cancioneiros coleções de cantigas merecendo destaque o cancioneiro da ajuda o cancioneiro da vaticana o cancioneiro da biblioteca nacional o primeiro texto literário em galego-português de que se tem registro data do final do século xii cantiga da ribeirinha ou cantiga da guarvaia garvaia do escritor paio soares de taveirós caracterÍsticas gerais da linguagem das cantigas -quanto à forma estrutura simples de fácil memorização repetição de palavras e versos inteiros presença constante de refrãos escrito em galego-português -quanto ao conteúdo lírica temas de amor e saudade satírica crítica aos costumes a lÍrica cantigas de amigo ambientação rural linguagem e estrutura simples tema freqüente lamento amoroso da moça cujo namorado partiu para a guerra -cantigas de amor amor cortês -coita amorosa sofrimento o homem é submisso à amada sendo o homem um vassalo e a amada uma suserana 8
[close]
p. 9
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i a satÍrica -cantigas de escárnio -crítica indireta -linguagem trabalhada com sutilezas -ironia cantigas de maldizer crítica direta linguagem agressiva obscena zombaria os poemas eram sempre cantados e acompanhados de instrumentos musicais e de dança por esse motivo foram denominados cantigas -criadas por um trovador alguém que fazia trovas rimas as cantigas deram origem ao trovadorismo período na literatura portuguesa que se entendeu do século xii a meados do século xiv caracterÍsticas da cantiga trovadoresca -os paralelismos têm um papel importante na construção das cantigas pois facilitam a memorização do texto e assim sua transmissão oral além de refrão outros dois tipos de paralelismos são freqüentes nas cantigas o paralelismo de par de estrofes e o leixa-pren deixa-toma observe non chegou madre o meu amigo e oje est o prazo saído ai madre moiro d amor non chegou madre o meu amado e oje est o prazo passado ai madre moiro d amor e oje est o prazo saído por que mentiu o desmentido ai madre moiro d amor e oje est o prazo passado por que mentiu o perjurado ai madre moiro d amor leixa pren leixa-pren refrão refrão refrão apesar de algumas diferenças as cantigas trovadorescas que se enquadram no gênero lírico geralmente tratam de temas como amor e saudade as que se enquadram no gênero satírico se voltam à crítica de costumes cantiga da ribeirinha no mundo non me sei parelha mentre me for como me vay ca já moiro por vos e ay 9
[close]
p. 10
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i mia senhor branca e vermelha queredes que vos retraya quando vus eu vi en saya mao dia me levantei que vus enton non vi fea e mia senhor dês aquel di ay me foi a mi muyn mal e vos filha de don paay moniz e bem vus semelha d aver eu por vos guarvaya pois eu mia senhor d alfaya nunca de nos ouve nen ei valia d ua correa tradução para a língua portuguesa no mundo não conheço ninguém igual a mim enquanto acontecer o que me aconteceu pois eu morro por vós e ai minha senhora alva e rosada quereis que vos lembre que já vos vi na intimidade em mau dia eu me levantei pois vi que não sois feia e minha senhora desde aquele dia ai venho sofrendo de um grande mal enquanto vós filha de dom paio muniz a julgar forçoso que eu lhe cubra com o manto pois eu minha senhora nunca recebi de vós a coisa mais insignificante o trovadorismo foi a primeira manifestação literária da língua portuguesa surgiu no século xii em plena idade média período em que portugal estava no processo de formação nacional localize no mapa o condado portucalense 10
[close]
p. 11
apostila de literatura professor renan de mello felix volume i renan humanismo -humanismo é o nome que se dá à produção escrita do final da idade média e início da idade moderna ou humanismo seja parte do século xv e início do século xvi mais precisamente de 1434 a 1527 há três tipos de atividades literárias que mais se destacam nesse período a produção historiográfica de fernão lopes a produção poética dos nobres por isso dita poesia palaciana e a atividade teatral de gil vicente contexto histórico no final do século xv a europa passava por grandes mudanças provocadas por invenções como a bússola china pela expansão marítima que incrementou a indústria naval e o desenvolvimento do comércio com a substituição da economia de subsistência levando a agricultura a se tornar mais intensiva e regular deu-se o crescimento urbano especialmente das cidades portuárias o florescimento de pequenas indústrias e se todas as demais mudanças econômicas provenientes do mercantilismo inclusive o surgimento da burguesia todas essas alterações foram agilizadas com o surgimento dos humanistas estudiosos da cultura clássica ões antiga alguns eram ligados à igreja outros artistas ou historiadores independentes ou protegidos por mecenas esses estudiosos tiveram uma importância muito grande porque divulgaram de forma mais sistemática os porque novos conceitos além de identificarem e valorizarem os direitos dos cidadãos acabaram por situar o homem como senhor de seu próprio destino e elegeram elegeram-no como a razão de todo conhecimento estabelecendo para ele um papel de destaque no processo universal e histórico ara essas mudanças na consciência popular aliados ao fortalecimento da burguesia graças à intensificação das atividades agrícolas industriais e comerciais foram lenta e gradativamente minando a estrutura e o espírito minando medieval em -em portugal todas essas alterações se fizeram sentir evidentemente ainda que algumas pudessem chegar ali com menor força ou talvez difusas sobretudo porque o impacto maior vivido pelos portugueses foi proporci proporcionado pela revolução de avis 1383-1385 na qual d joão mestre de avis foi ungido rei após liderar o povo contra 1385 injunções de castela alguns fatores ligados a esse quadro histórico indicam sua influência no rumo que as manifestações artísticas tomaram em portugal -são eles as mudanças processadas pelo país pela revolução de avis os efeitos mercantilistas a conquista de ceuta 1415 fato que daria início a um século de expansionismo lusitano o envolvimento do homem comum com uma vida mais prática e menos lirismo cortês morto em 1325 mais o interesse de novos nobres e reis por produções literárias diferentes do lirismo tudo isso explica a restrição do espaço para o exercício e a manifestação da imaginação poética a marginalização da arte lírica e o fim do trovadorismo rte a partir daí o ambiente se tornou mais propício à crônica e à prosa histórica ao menos nas primeiras décadas do período 11
[close]
p. 12
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i caracterÍsticas do humanismo culturalmente a melhoria técnica da imprensa propiciou uma divulgação mais ampla e rápida do livro democratizando um pouco o acesso a ele o homem desse período passa a se interessar mais pelo saber convivendo com a palavra escrita adquire novas ideias e outras culturas como a greco-latina o homem sobretudo percebeu-se capaz importante agente acreditando-se dotado de livre arbítrio isto é capacidade de decisão sobre a própria vida não mais determinada por deus afasta-se do teocentrismo assumindo lentamente um comportamento baseado no antropocentrismo isso implica profundas transformações culturais de uma postura religiosa e mística o homem passa gradativamente a uma posição racionalista o humanismo funcionará como um período de transição entre duas posturas por isso a arte da época é marcada pela convivência de elementos espiritualistas teocêntricas e terrenos antropocêntricos a historiografia a poesia a prosa doutrinária e o teatro apresentaram características específicas prosa doutrinÁria -com o aumento de interesse pela leitura houve um significativo e rápido crescimento da cultura com o surgimento de bibliotecas e a intensificação de traduções de obras religiosas e profanas além de atualização de escritos antigos esse envolvimento com o saber atingiu também a nobreza a ponto de as crônicas históricas passarem a ser escritas pelos próprios reis especificamente da dinastia de avis com os exemplos de d.joão i d.duarte e d.pedro essa produção recebeu o nome de doutrinária porque incluíam a atitude de transmitir ensinamentos sobre certas práticas diárias e sobre a vida poesia palaciana -o mercantilismo e outros acontecimentos de âmbito português modificaram o gosto literário do público diminuindo-o quanto à produção lírica o que manteve a poesia enfraquecida durante um século mais ou menos de 1350 a 1450 no entanto em portugal graças à preferência do rei d.afonso v 1438-1481 abriu-se um espaço na corte lusitana para a prática lírica e poética assim essa atividade literária sobreviveu em portugal ainda que num espaço restrito e recebeu o nome de poesia palaciana também identificada por quatrocentista essa produção poética tem certa limitação quanto aos conteúdos temas e visão de mundo porque seus autores nobres e fidalgos abordavam apenas realidades palacianas como assunto de montaria festas comportamentos em palácios modas trajes e outras banalidades sem implicação história abrangente o amor era tratado de forma mais sensual do que no trovadorismo sendo menos intensa a idealização da mulher também neste gênero poético ocorre a sátira formalmente são superiores à poesia trovadoresca seja pela extensão dos poemas graças à cultura dos autores seja pelo grau de inspiração seja pela musicalidade ou mesmo pela variedade do metro estes dois últimos recursos conferiam a cada poema a chance de possuírem ritmo próprio a diferença mais significativa em relação às cantigas do trovadorismo é que as poesias palacianas foram desligadas da música ou seja o texto poético passou a ser feito para a leitura e declamação não mais para o canto o teatro vicentino estudos literários o teatro vicentino tem como característica principal a sátira por meio dela gil vicente criticou todas as 12
[close]
p. 13
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i camadas sociais a nobreza o clero e o povo apesar de sua extrema religiosidade o alvo das sátiras de gil era o frade que se entregava enlouquecidamente aos amores proibidos a venda de indulgências ao misticismo ao mundanismo à depravação dos costumes gil não fez exceção à hierarquia clerical criticou desde o frade de aldeia até o papa no âmbito dos fiéis criticou aqueles que rezavam mecanicamente os que solicitavam a deus favores pessoais e os que assistiam às missas por obrigação social sapateiro quantas missas eu ouvi nom me hão elas de prestar diabo ouvir missa então roubar é caminho para aqui diálogo entre um sapateiro e o diabo enxerto do auto da barca do inferno digno de observação é que no teatro de gil vicente o diabo nunca força ninguém ao pecado as próprias pessoas o cometem por si só por exemplo na peça auto da feira o diabo do mesmo modo que um camelô monta sua banca para oferecer os pecados quando é interpelado por um anjo que assim argumenta o diabo mas cada um veja o que faz porque eu não forço ninguém se me vem comprar qualquer clérigo ou leigo ou frade falsas manhas de viver muito por sua vontade senhor que lhe hei-de-fazer outra classe social muito criticada por gil foi a baixa nobreza representada pelo fidalgo decadente por outro lado ele tinha especial carinho pelo lavrador que considerava o verdadeiro povo vítima da exploração de toda a estrutura social sempre é morto quem do arado há-de viver nos somos a vida das gentes e morte de nossas a tiranos pacientes que a unhas e a dentes nos tem as almas roídas excerto do auto da barca do purgatório dos outros tipos humanos que povoaram os textos de gil vicente temos o judeu ganancioso a velha beata o médico incompetente a mulher adúltera o padre corrupto o sapateiro que rouba o povo a alcoviteira o velho apaixonado que se deixa roubar gil vicente não tem a preocupação de fixar tipos psicológicos e sim sociais pondo em relevo os vícios da época ridiculariza a imperícia dos médicos físicos na farsa dos físicos as práticas da feitiçaria no auto das fadas o relaxamento dos costumes clericais no clérigo da beira no auto da barca do inferno e na farsa de inês pereira porém a maior parte das personagens de seu teatro não tem nome de batismo são designados pela profissão ou pelo tipo humano que representam quanto à forma cenários e montagens o teatro de gil é extremamente simples o texto apresenta estrutura poética com predomínio da redondilha maior havendo varias cantigas populares no corpo de sua peça promovendo a participação da plateia a produção completa de gil vicente constitui-se de 44 peças sendo 17 escritas em português 11 em castelhano e 16 bilíngues o auto da barca do inferno 13
[close]
p. 14
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i antes de mais nada auto é uma designação genérica para peça pequena representação teatral originário na idade média tinha de início caráter religioso depois tornou-se popular para distração do povo foi gil vicente 1465-c 1537 que introduziu esse tipo de teatro em portugal o auto da barca do inferno c 1517 representa o juízo final católico de forma satírica e com forte apelo moral o cenário é uma espécie de porto onde se encontram duas barcas uma com destino ao inferno comandada pelo diabo e a outra com destino ao paraíso comandada por um anjo ambos os comandantes aguardam os mortos que são as almas que seguirão ao paraíso ou ao inferno chegam os mortos os mortos começam a chegar um fidalgo é o primeiro ele representa a nobreza e é condenado ao inferno por seus pecados tirania e luxúria o diabo ordena ao fidalgo que embarque este arrogante julga-se merecedor do paraíso pois deixou muita gente rezando por ele recusado pelo anjo encaminha-se frustrado para a barca do inferno mas tenta convencer o diabo a deixá-lo rever sua amada pois esta sente muito sua falta o diabo destrói seu argumento afirmando que ela o estava enganando um agiota chega a seguir ele também é condenado ao inferno por ganância e avareza tenta convencer o anjo a ir para o céu mas não consegue também pede ao diabo que o deixe voltar para pegar a riqueza que acumulou mas é impedido e acaba na barca do inferno o terceiro indivíduo a chegar é o parvo um tolo ingênuo o diabo tenta convencê-lo a entrar na barca do inferno quando o parvo descobre qual é o destino dela vai falar com o anjo este agraciando-o por sua humildade permite-lhe entrar na barca do céu o frade e a alcoviteira a alma seguinte é a de um sapateiro com todos os seus instrumentos de trabalho durante sua vida enganou muitas pessoas e tenta enganar também o diabo como não consegue recorre ao anjo que o condena como alguém que roubou do povo o frade é o quinto a chegar com sua amante chega cantarolando sente-se ofendido quando o diabo o convida a entrar na barca do inferno pois sendo representante religioso crê que teria perdão foi porém condenado ao inferno por falso moralismo religioso brísida vaz feiticeira e alcoviteira é recebida pelo diabo que lhe diz que seu o maior bem são seiscentos virgos postiços virgo é hímen representa a virgindade compreendemos que essa mulher prostituiu muitas meninas virgens e postiço nos faz acreditar que enganara seiscentos homens dizendo que tais meninas eram virgens brísida vaz tenta convencer o anjo a levá-la na barca do céu inutilmente ela é condenada por prostituição e feitiçaria de judeus e cristãos novos a seguir é a vez do judeu que chega acompanhado por um bode encaminha-se direto ao diabo pedindo para embarcar mas até o diabo recusa-se a levá-lo ele tenta subornar o diabo porém este com a desculpa de não transportar bodes o aconselha a procurar outra barca o judeu fala então com o anjo porém não consegue aproximarse dele é impedido acusado de não aceitar o cristianismo por fim o diabo aceita levar o judeu e seu bode mas não dentro de sua barca e sim rebocados tal trecho faz-nos pensar em preconceito antissemita do autor porém para entendermos por que gil vicente deu tal tratamento a esse personagem precisamos contextualizar a época em que o auto foi escrito durante o reinado de dom manuel de 1495-1521 muitos judeus foram expulsos de portugal e os que ficaram tiveram que se converter ao cristianismo sendo perseguidos e chamados de cristãos novos ou seja gil vicente segue nesta obra o espírito da época representantes do judiciário o corregedor e o procurador representantes do judiciário chegam a seguir trazendo livros e processos quando convidados pelo diabo para embarcarem começam a tecer suas defesas e encaminham-se ao anjo na barca 14
[close]
p. 15
renan apostila de literatura professor renan de mello felix volume i do céu o anjo os impede de entrar são condenados à barca do inferno por manipularem a justiça em benefício próprio ambos farão companhia à brísida vaz revelando certa familiaridade com a cafetina o que nos faz crer em trocas de serviços entre eles e ela o próximo a chegar é o enforcado que acredita ter perdão para seus pecados pois em vida foi julgado e enforcado mas também é condenado a ir ao inferno por corrupção por fim chegam à barca quatro cavaleiros que lutaram e morreram defendendo o cristianismo estes são recebidos pelo anjo e perdoados imediatamente o bem e o mal como você percebeu todos os personagens que têm como destino o inferno possuem algumas características comuns chegam trazendo consigo objetos terrenos representando seu apego à vida por isso tentam voltar e os personagens a quem se oferece o céu são cristãos e puros você pode perceber que o mundo aqui ironizado pelo autor é maniqueísta o bem e o mal o bom e o ruim são metades de um mundo moral simplificado o auto da barca do inferno faz parte de uma trilogia autos da barca da glória do inferno e do purgatório escrito em versos de sete sílabas poéticas possui apenas um ato dividido em várias cenas a linguagem entre os personagens é coloquial e é através das falas que podemos classificar a condição social de cada um dos personagens valores de duas épocas escrita na passagem da idade média para a idade moderna a obra oscila entre os valores morais de duas épocas ao mesmo tempo em que há uma severa crítica à sociedade típica da idade moderna a obra também está religiosamente voltada para a figura de deus o que é uma característica medieval a sátira social é implacável e coloca em prática um lema que é rindo corrigem-se os defeitos da sociedade a obra tem portanto valor educativo muito forte a sátira vicentina serve para nos mostrar tocando nas feridas sociais de seu tempo que havia um mundo melhor em que todos eram melhores mas é um mundo perdido infelizmente ou seja a mensagem final por trás dos risos é um tanto pessimista histÓria o renascimento cultural como já sabemos anteriomente que a intensificação do comércio e da produção artesanal resultou no desenvolvimento das cidades no surgimento de uma nova classe social a burguesia e na posterior formação das monarquias nacionais estas transformações vieram acompanhadas de uma nova visão de mundo que se manifestou na arte e na cultura de maneira de geral a cultura medieval se caracterizava pela religiosidade a igreja católica como vimos controlava as manifestações culturais e dava uma interpretação religiosa para os fenômenos da natureza da sociedade e da economia a esta cultura deu-se o nome de teocêntrica deus no centro a miséria as tempestades as pragas as enchentes as doenças e as más colheitas eram vistas como castigos de deus assim como a riqueza a saúde as boas colheitas o tempo bom a fortuna eram bênçãos divinas a própria posição que o indivíduo ocupava na sociedade nobre clérigo ou servo tinha uma explicação religiosa a arte medieval feita normalmente no interior das igrejas espelhava esta mentalidade pinturas e esculturas não tinham preocupações estéticas e sim pedagógicas mostrar a miséria do mundo e a grandiosidade de deus as figuras eram rústicas desproporcionais e acanhadas os quadros não tinham perspectiva como as obras de arte eram de autoria coletiva o artista medieval é anônimo a literatura medieval era composta de textos teológicos biografias de santos e histórias de cavalaria isto refletia o domínio da igreja e da nobreza sobre a sociedade essa visão de mundo não combinava com a experiência burguesa essa nova classe devia a sua posição social e econômica ao seu próprio esforço e não à vontade divina como o nobre o sucesso nos negócios dependia da observação do raciocínio e do cálculo características que se opunham às explicações sobrenaturais próprias da mentalidade medieval por outro lado era uma classe social em ascensão portanto otimista sua concepção de mundo era mais materialista queria usufruir na terra o resultado de seus esforços e também claro que o comerciante burguês era essencialmente individualista quase sempre o seu lucro implicava que outros tivessem prejuízo a visão de mundo da burguesia estará sintonizada com a renovação cultural ocorrida nos fins da idade média e no começo da idade moderna a essa renovação denominamos renascimento 15
[close]