Mulheres Obreiras

 

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“O que vi foi uma beleza sem igual, uma cor nunca vista, uma imponência tão grande nestas mulheres, maior inclusivé do que a envergadura dos edifícios que estas erguiam.” João Rodrigues

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mulheres obreiras o que vi foi uma beleza sem igual uma cor nunca vista uma imponência tão grande nestas mulheres maior inclusivé do que a envergadura dos edifícios que estas erguiam joão rodrigues

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fotografei as mulheres mais fortes do mundo no ano de 2011 na Índia onde me desloquei ao abrigo de um programa internacional denominado health on stage pela organização asef o programa tinha por objectivo o contacto com várias comunidades afim de discutir com elas assuntos relacionados com a escassez de água e a qualidade da mesma problemas de saúde relacionados com essa qualidade utilizando o teatro fórum como ferramenta primordial aproveitei o tempo de que dispunha entre viagens e os meus tempos livres para fotografar algo que os meus olhos não identificaram à primeira vista mais uma vez encontrei a mulher como o pilar mais importante duma sociedade são elas mulheres de olhar forte e ferido que levantam edifícios que alimentam os homens de amanhã que constroem e reconstroem florestas de cimento e catedrais de multinacionais a primeira vez que sai à rua na Índia vi mulheres a trabalhar na construção de passeios estavam a cavar uma conduta para escoar a água das chuvas foi tudo tão rápido que os meus olhos viram mas o meu cérebro não descodificou apenas algumas horas mais tarde ou até mesmo dias é que percebi este fenómeno até aquela data nunca tinha visto uma mulher trabalhar na construção civil mas agora apercebo-me de que há muitos países como a etiópia zimbábue etc onde as mulheres desempenham estas tarefas e há mesmo países onde são encorajadas a fazê-lo como nos eua.

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falei sobre estas mulheres aos meus colegas principalmente margarita estónia e morgane frança que me acompanharam nesta pesquisa fotográfica muitas vezes falávamos do encanto que estas mulheres reluziam uma doçura e uma amargura que nos ultrapassa de longe tornaram-se rapidamente um icone e quando víamos uma na rua o meu coração disparava como se fosse o primeiro contacto com uma super-estrela cheguei à conversa com estas mulheres graças à ajuda de 2 colegas indianos que agiam como tradutores raju e pavithra acompanhavam-me em caminhadas e traduziam as perguntas invasivas que lhes dirigia um dia numa favela de bangalore pedi a raju que perguntasse a uma mulher obreira qual era o seu sonho.o meu pedido foi acolhido com gargalhadas e risos de raju olhou para mim e disse sonhos joão mas elas não sonham esta é a vida delas não há tempo para sonhar comem dormem trabalham É assim É isto pavithra por outro lado mostrava uma sensibilidade e tristeza no decorrer deste meu projeto sempre que lhe pedia para falar com elas tirar fotos enquanto isto acontecia fazia-me sentir muitas vezes um ladrão sentia a adrenalina dum ladrão mantiveme sempre atento a sentir milhares de coisas mas sabia que tinha de pôr tudo isso de lado para que com a mão a tremer disparasse sobre elas era um sonho meu um dia viajar e fotografar pela Índia pensava que este sonho só seria realizado quando tivesse os meus 30 anos imaginei-me mais maduro nessa altura mas ao que parece conquistei a maturidade mais cedo e fui levado até aquela terra onde saberia que iria realizar pelo menos um projecto fotográfico só não sabia qual

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criei uma promessa enquanto realizava este trabalho um dia quando voltar a portugal vou trabalhar nestas fotos e vou escrever para desenvolver um trabalho à altura destas mulheres mostrá-lo ao mundo e angariar dinheiro com a venda da obra para ajudar estas deusas não me posso culpar por sonhar rapidamente fui preso pelo pessimismo português do qual me liberto hoje um pouco e volto a acreditar neste sonho a verdade é que nunca me achei capaz de fazer este trabalho ou escrever fosse o que fosse e fui adiando até hoje fevereiro 2012 na altura fiz um blogue jpnaindia.blogspot.com postei algumas fotos dessas mulheres algo a fazer on going mas o blog nunca teve muitas visitas então decidi contactar algumas organizações e anunciar o trabalho mas não resultou em nada como a maior parte dos meus trabalhos este receio estar condenado ao fracasso também a única coisa que mudou fui eu e o meu entendimento do fracasso agora aceito o fracasso público e torno a fotografia uma arte mais intimista que não abandono na qual me proponho a evoluirdiáriamente e acredito no sucesso da criação dum trabalho e não na propaganda do mesmo infelizmente não conseguirei mostrar ao mundo e á ribalta quem são estas mulhere mas eu sei quem são outros saberão também e a minha promessa tem de ser concluída porque o peso das minhas costas só sairá quando compilar tudo e o trabalho estiver terminado só assim poderei seguir em frente.

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houve duas coisas nestas mulheres que me chocaram profundamente uma que ainda hoje é difícil de ler os seus olhos e a outra a feminilidade com que se moviam ao fazer um trabalho tão bruto a foto da mulher obreira é sem duvida para todos uma foto pura forte e impactante tanto a nível visual como conceptual a vibrante cor nos seus vestidos na magnifica apresentação que o sari proporciona uma indumentária majestosa aplicada a uma contexto tão sujo frio e duro é uma mistura mirabolante a ligação com o solo na pequenez dos instrumentos a vertente rudimentar do trabalho em si que o torna quase em vão é desconcertante.

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tecnicamente não acho que as fotografias sejam algo perfeito não são mas o que fotografei mesmo que o fizesse do modo mais imperfeito não é nada mais do que a perfeição em si por outro lado imaginei a propósito desta lacuna aceitar o facto dessa imperfeição e assumi-la transformando-a porque não transformar estas fotos em algo mais em algo mais real mais ligado à construção civil mais pesado maior neste momento não tenho a força o apoio ou o saber para o fazer opto então por falar do que gostaria que fosse feito opto por falar do que tenho do que vi do que senti para que a memoria não me atraiçoe mais do que já fez o que vi foi uma beleza sem igual uma cor nunca vista uma imponência tão grande nestas mulheres maior inclusive do que a envergadura dos edifícios que estas erguiam a vergonha e o riso a perplexidade e a alegria com que me viam entusiasmado a fotografar isso é algo que jamais esquecerei e nem era preciso tradutor para saber o que lhes passava pela cabeça encaradas como o mais subalterno produto da sociedade o mais baixo do da estratificação social perguntavam-se rindo porque raio este estrangeiro está a tirar uma foto minha fui reconhecido por elas sorriam e acenavam e eu nunca pude dizer que as amava que queria saber os sonhos delas porque eu sei que sonhavam quando regressei a portugal investiguei mais sobre o assunto e percebi que a injustiça não estava no desempenho desta tarefa função que era rude sem seguro sem remuneração justa sem contracto sem subsidio ou assistência a maior injustiça era nada mais nada menos que um preconceito sexista que originava uma estagnação da carreira destas mulheres um entrave ao desenvolvimento genericamente por serem mulheres não podiam aprender outras funções mais complexas ou desempenhar outros cargos como tal não evoluíam como os homens e ficavam presas ao mesmo salário e ao mesmo trabalho duro para toda a vida.

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noutro dia que estava com tempo livre fui visitar com a pavithra uma obra enorme andamos de rickshaw e a pé até à obra mas infelizmente os seguranças e responsáveis das obras não permitiam a nossa entrada talvez por pensar que eu fosse um jornalista uma câmara fotográfica assusta muita gente principalmente sendo eu estrangeiro esperei enquanto tomava um tchai pela saída das mulheres para almoço motivei a pavithra para interpelar algumas destas mulheres quando saíssem e eu optei por ficar mais longe com uma teleobjectiva e aguardei pela saída destas mulheres assim que saíram comecei a disparar mas nenhuma delas aceitou ser fotografada por vergonha continuei a seguir-las e deparei-me com um gueto enorme onde entrei e tirei algumas fotos a medo a pavithra pediu-me para sair pois não aguentava estar mais tempo ali mas a minha vontade era entrar naqueles casebres e conhecer o que se passava ali era chocante testemunhar a qualidade de vida destas mulheres que dormiam em acampamentos para poder trabalhar em arranha-céus.

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o termo mulher obreira nem é justo para descrever a realidade e as fotos que fiz isto porque muitas delas nem mulheres chegavam a ser reparei que jovens meninas e adolescentes trabalhavam igualmente na obra mesmo assim seria mais justo encarar esta situação como algo sistémico ­ famílias obreiras uma vez que a profissão da mulher é extensível ao agregado familiar.

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lembro-me de caminhar num bairro com morgane e raju e vi um portão enorme que dava para uma obra estavam ali 4 crianças a chamar pela sua mãe

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assim como me lembro de ver outros miudos a brincar no espaço das obras enquanto as suas mães trabalhavam as obras são um local perigoso para qualquer individuo experiente ou não imagino como será que a mãe trabalha e mantem o olho naqueles pequenitos

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projecto

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projecto gostava que outros artistas fotógrafos pintores ilustradores designers escultores etc pegassem numa foto das mulheres obreiras e a transformasse criassem algo próprio as obras criadas seriam todas reunidas e postas à venda parte desse dinheiro seria devolvido aos artistas para compensar os gastos de produção da sua obra a outra parte reverteria a favor duma ong ou a favor dum grupo de mulheres indianas que faria a melhor gestão do dinheiro angariado contactos joão rodrigues jpcostar@gmail.com 918 590 679

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