Cristianismo - a vitória em nossos tempos

 

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1 joseph ratzinger introduÇÃo ao cristianismo preleções sobre o símbolo apostólico herder sÃo paulo 1970

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2 os números entre colchetes [n indicam o início da página na edição portuguesa de herder ­ são paulo 1970 foram acrescentados a esta edição eletrônica para possibilitar a citação acadêmica da obra os títulos que precedem imediatamente ao número pertencem à página em questão as palavras hifenizadas entre páginas diferentes foram consideradas da página anterior a numeração das páginas do original tem início com o prefácio os números do índice correspondem ao original versão brasileira de padres josé wisniewski filho s.v.d do original alemão einführung in das christentum © 1968 by kösel-verlag münchen nihil obstat p frei arnaldo vicente belli ofmcap censor são paulo 26 de outubro de 1970 imprimatur j lafayette vigário geral são paulo 27 de outubro de 1970 © editora herder ­ sÃo paulo ­ 1970

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3 Índice prefácio introduÇÃo cap i ­ fé no mundo hodierno 1 dúvida e fé ­ situação do homem frente ao problema deus 2 o salto da fé ­ ensaio provisório de uma definição da essência da fé 3 o dilema da fé no mundo de hoje 4 limite da moderna compreensão da realidade e topografia da fé 5 fé como estar e compreender 6 razão e fé 7 creio em ti cap ii ­ forma eclesial da fé 1 preliminares à história e à estrutura do símbolo apostólico da fé 2 limite e importância do texto 3 fé e dogma 4 o símbolo como expressão da estrutura da fé i parte deus cap i prolegômenos ao tema deus 1 Âmbito da questão 2 o reconhecimento de um deus cap ii a fé em deus na bíblia 1 o problema histórico da sarça ardente 2 pressuposto intrínseco da fé em iahvé o deus dos pais 3 iahvé deus dos patriarcas e de jesus cristo 4 a idéia do nome 5 as duas faces da idéia bíblica de deus cap iii o deus da fé e o deus dos filósofos 1 opção da igreja antiga pela filosofia 2 metamorfose do deus dos filósofos 3 reflexo da questão no texto do símbolo cap iv creio em deus ­ hoje 1 o primado do logos 2 o deus pessoal cap v ­ fé no deus trino 1 introduzindo na compreensão 2 interpretação positiva 1 7 7 15 19 25 35 40 44 47 47 50 51 54 63 65 65 71 77 77 82 86 93 94 97 97 102 107 111 111 118 121 122 136

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4 ii parte jesus cristo cap i creio em jesus cristo seu filho unigênito nosso senhor i o problema da fé em jesus cristo hoje ii jesus o cristo forma fundamental da fé cristológica 1 o dilema da teologia nova jesus ou cristo 2 imagem do cristo do símbolo 3 ponto de partida da fé a cruz 4 jesus o cristo jesus cristo ­ verdadeiro deus e verdadeiro homem 1 introdução ao problema 2 clichê moderno do jesus histórico 3 o direito do dogma cristológico caminhos da cristologia 149 151 154 159 163 165 iii 167 169 172 iv 1 teologia da encarnação e da cruz 2 cristologia e soteriologia 3 cristo o último homem digressão estruturas do crístico 1 o individual e o todo 2 o princípio do para 3 a lei do incógnito 4 a lei do supérfluo 5 o definitivo e a esperança 6 o primado da aceitação e a positividade cristã cap ii ­ desenvolvimento da fé em cristo nos artigos cristológicos do símbolo 1 concebido do espírito santo nascido da virgem maria 2 padeceu sob pôncio pilatos foi crucificado morto e sepultado 3 desceu aos infernos 4 ressurgiu dos mortos 5 subiu ao céu onde está sentado à direita de deus pai todopoderoso iii parte o espÍrito e a igreja cap i ­ unidade intrínseca dos Últimos artigos do símbolo 184 185 189 197 198 205 208 210 215 219 225 225 234 246 254 262 281 283

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5 cap ii ­ duas questões fundamentais do artigo sobre o espírito santo e sobre a igreja 1 a igreja santa católica 2 ressurreição da carne 291 291 299

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6 prefÁcio [1 qual é afinal o conteúdo e o sentido da fé cristã eis uma pergunta que hoje em dia está cercada de uma névoa de incerteza mais pesada do que em qualquer outro momento da história o observador do movimento teológico do último século que não seja do número daqueles levianos que sempre julgam melhor o novo sem se dar ao trabalho de analisar poder-se-ia sentir lembrado da velha estória do joãozinho feliz era uma vez assim reza a lenda um joãozinho possuidor de uma riquíssima pepita de ouro mas feliz e comodista julgou-a pesada demais trocando-a por cavalo o cavalo por uma vaca a vaca foi barganhada por um ganso e o ganso por uma pedra de amolar finalmente a pedra foi lançada ao rio sem que o dono se achasse muito prejudicado pelo contrário acreditou ter finalmente conquistado o dom mais precioso da liberdade completa livre da sua pepita livre do cavalo da vaca do ganso e da pedra de afiar quanto tempo teria durado o seu fascínio quão tenebroso lhe foi o despertar na estória de sua presumida libertação a fábula silencia sobre isso deixando-o por conta da fantasia de cada leitor o cristão hodierno é avassalado não raras vezes por questões como a nossa teologia dos últimos anos não teria enveredado por um caminho parecido não teria minimizado a exigência da fé sentida como pesada demais interpretando-a gradativamente em sentido sempre mais largo sempre apenas o suficiente para poder arriscar o próximo passo e o pobre joãozinho o cristão que [2 se deixou levar confiante de interpretação em interpretação não acabará detendo entre as mãos em lugar da pepita de ouro uma simples pedra de amolar que poderá sossegadamente jogar no fundo de um rio certamente tais perguntas são injustas se excessivamente generalizadas porquanto para ser justo não se poderá simplesmente afirmar que a teologia moderna em geral entrou por um caminho semelhante contudo muito menos se poderá negar que certa mentalidade largamente espalhada apóia uma onda que de fato conduz do ouro à pedra de amolar claro que é impossível reagir contra essa tendência por um simples agarrar-se à pepita de ouro de fórmulas consagradas do passado que em tal caso continuariam sendo um peso como qualquer pedaço de metal em vez de conferir a possibilidade de uma verdadeira liberdade pelo dinamismo que lhes é inerente aqui se encaixa a intenção deste livro ele pretende ajudar a compreender de modo novo a fé como possibilidade de um verdadeiro humanismo no mundo hodierno deseja analisá-la sem trocá-la por uma pura dissertação que dificilmente encobriria seu vazio espiritual completo o livro nasceu de preleções que proferi no semestre de verão de 1967 em tübingen diante de ouvintes de todas as faculdades o que karl adam há quase meio século realizara magistralmente nessa universidade com o seu essência do catolicismo deveria novamente ser tentado agora nas circunstâncias modificadas da geração atual o texto foi convenientemente reformulado quanto à linguagem com vistas a uma publicação em forma de livro contudo não mudei nem a estrutura nem a extensão limitando-me a acrescentar as achegas científicas estritamente necessárias para indicar o instrumental de que lancei mão na preparação das preleções os números entre colchetes [n referem-se ao início das páginas da edição portuguesa herder ­ são paulo 1970

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7 a dedicatória do livro aos ouvintes das diversas etapas do meu magistério acadêmico visa já a exprimir a gratidão que sinto para com o interesse e a participação dos estudantes elementos [3 decisivos dos quais surgiu o presente ensaio também não me posso furtar ao reconhecimento para com o editor dr seinrich wild sem cujo empenho paciente e persistente dificilmente me teria resolvido a uma aventura que um tal trabalho sem dúvida representa finalmente quero agradecer a todos os colaboradores que contribuíram não pouco para a feitura desta obra tübingen verão de 1967 joseph ratzinger

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8 introduÇÃo creio ­ amÉm

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9 capÍtulo primeiro fé no mundo hodierno 1 dúvida e fé ­ situação do homem frente ao problema deus [7 quem tentar falar hoje sobre o problema da fé cristã diante de homens não familiarizados com a linguagem eclesiástica por vocação ou convenção depressa sentirá o estranho e surpreendente de semelhante iniciativa provavelmente depressa descobrirá que a sua situação encontra uma descrição exata no conhecido conto de kierkegaard sobre o palhaço e a aldeia em chamas conto que harvey cox retomou há pouco em seu livro a cidade do homem 1 a estória conta como um circo ambulante na dinamarca pegou fogo o diretor manda à aldeia vizinha o palhaço já caracterizado para a representação em busca de auxílio tanto mais que havia perigo de alastrarem-se as chamas através dos campos secos alcançando a própria aldeia o clown corre à aldeia e suplica aos moradores que venham com urgência ajudar a apagar as chamas do circo incendiado mas os habitantes tomam os gritos do palhaço por um formidável truque de publicidade para aliciá-los ao espetáculo aplaudem-no e riem a bandeiras despregadas o palhaço sente mais vontade de chorar do que de rir debalde [8 tenta conjurar os homem e esclarecer-lhes de que não se trata de propaganda alguma nem de fingimento ou truque mas de coisa muito séria porquanto o circo realmente está a arder seu esforço apenas aumenta a hilaridade até que por fim o fogo alcança a aldeia tornando excessivamente tardia qualquer tentativa de auxílio circo e aldeia tornam-se presa das chamas cox conta esta estória como símile da situação do teólogo hodierno e vê a figura do teólogo no clown incapaz de transmitir aos homens a sua mensagem em sua roupagem de palhaço medieval ou de outro remoto passado qualquer o teólogo não é tomado a sério pode dizer o que quiser continua como que etiquetado e fichado pelo papel que representa qualquer que seja o seu comportamento e seu esforço de falar seriamente sempre se sabe de antemão que ele é um clown já se adivinha qual o assunto de sua mensagem e se sabe que apenas está dando uma representação com pouco ou nenhum nexo com a realidade por isso pode ser ouvido sossegadamente sem inquietar a ninguém com as coisas que afirma sem dúvida existe algo de angustiante neste quadro algo da angustiada realidade em que a teologia e formulação teológica de hoje se encontram algo da pesada impossibilidade de quebrar chavões do pensamento e da expressão rotineiros e de tornar reconhecível o problema da teologia como assunto sério da vida humana contudo talvez o nosso exame de consciência deva mesmo ser mais radical talvez tenhamos de reconhecer que esse quadro excitante ­ por muito verdadeiro e digno de consideração que seja ­ ainda simplifica em excesso as coisas pois dentro dele tem-se a impressão de que o palhaço ou seja o teólogo é quem sabe perfeitamente que traz uma mensagem muito clara os aldeões aos quais acorre isto 1 h cox the secular city trad port a cidade do homem paz e terra rio de janeiro 1968 270.

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10 é os homens sem fé seriam pelo contrário completamente ignorantes os que devem ser instruídos sobre o que lhes é desconhecido e ao palhaço em si bastar-lhe-ia mudar de roupagem retirar a [9 maquilagem ­ e tudo estaria em ordem mas por acaso a questão é tão simples assim bastar-nos-ia um simples apelo ao aggiornamento uma mera retirada da maquilagem e uma reformulação em termos de linguagem do mundo ou de um cristianismo arreligioso para recolocar tudo nos eixos bastará uma mudança espiritual ou metafórica de vestes para que os homens acorram animados e ajudem a apagar o incêndio que o teólogo afirma estar lavrando com sério perigo para todos vejo-me compelido a afirmar que a teologia de fato desmaquilada e revestida de moderna embalagem profana tal como hoje surge em muitos lugares torna muito simplória essa esperança sem dúvida cumpre reconhecer quem tenta explicar a fé no meio de homens mergulhados na vida moderna e imbuídos da moderna mentalidade de fato pode ter a impressão de ser um palhaço ou alguém surgido de um antigo sarcófago que penetrou no mundo hodierno revestido de trajes e pensamentos da antiguidade incapaz de compreender este mundo e de ser por ele compreendido todavia se quem tentar anunciar a fé exercer bastante autocrítica em breve notará não se tratar apenas de uma forma de uma crise do revestimento em que a teologia se apresenta na estranha aventura teológica frente aos homens de hoje quem tomar a sério a sua tarefa há de reconhecer e experimentar não só a dificuldade da interpretação mas também a insegurança da própria fé o poder arrasador da descrença dentro de sua própria vontade de crer por isso quem tentar honestamente prestar contas da fé cristã a si e a outros aprenderá a duras penas não ser ele em absoluto o mascarado ao qual bastaria depor o disfarce para poder ensinar eficazmente aos outros compreenderá que a sua situação não se diversifica muito da situação dos outros como talvez inicialmente tivesse pensado terá consciência de que de ambos os lados estão presentes as mesmas forças muito embora de maneiras diversas [10 para começar no crente existe a ameaça da incerteza capaz de revelar dura e subitamente em momentos de tentação a fragilidade de tudo o que em geral lhe parece tão evidente esclareçamo-lo com alguns exemplos teresa de lisieux a amável santinha aparentemente tão isenta de complexidades e de problemas cresceu em uma vida de completa segurança religiosa sua vida do começo ao fim foi tão perfeitamente e minuciosamente marcada pela fé na igreja que o mundo invisível se tornara parcela do seu cotidiano ou antes o próprio cotidiano seu parecendo quase tangível e impossível de ser eliminado de sua vida para teresinha religião era de fato um dado prévio e natural de sua existência diária ela manipulava a religião como nós somos capazes de manejar as trivialidades concretas da vida mas justamente ela aparentemente tão resguardada numa segurança sem risco deixou-nos comovedoras manifestações do que foram as últimas semanas do seu calvário manifestações que mais tarde suas irmãs assustadas atenuariam em seu legado literário e que só agora vieram à tona nas novas edições autênticas e literais de sua obra assim por exemplo quando ela afirma acossam-me as reflexões dos piores materialistas sente a inteligência torturada por todos os argumentos possíveis contra a fé o sentimento da fé parece desaparecido ela sente-se transportada para dentro da

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11 pele dos pecadores 2 isto é em [11 um mundo que parece completamente sólido e sem brechas torna-se visível a alguém o abismo que espreita a todos ­ também a ele ­ sob a crosta firme das convenções que sustentam a fé em tal situação não está mais em jogo apenas isto ou aquilo ­ assunção de maria ou não confissão desse ou daquele modo ­ tudo coisas que se tornam completamente irrelevantes porquanto trata-se realmente do todo do conjunto tudo ou nada É a única alternativa que parece restar e em parte alguma surge um pedaço de chão firme ao qual se agarrar nessa queda vertiginosa para o abismo somente o báratro hiante e sem fundo do nada é o que se percebe onde quer que se dirijam os olhares paulo claudel evoca em um quadro grandioso e convincente essa situação do crente na abertura do seu soulier de satin um missionário jesuíta irmão do herói rodrigo o homem mundano aventureiro errante e incerto entre deus e o mundo é representado como náufrago sua nau foi afundada por piratas ele mesmo amarrado a uma trave do barco afundado vaga nesse pedaço de madeira pelas águas tormentosas do oceano 3 o drama principia com o seu derradeiro monólogo senhor agradeço-te por me teres amarrado assim por vezes sucedeu-me achar difíceis os teus mandamentos senti desnorteada fracassada a vontade diante dos teus mandamentos mas hoje não poderia estar mais fortemente atado a ti do que o estou e muito embora meus membros se movam um sobre o outro nenhum deles é capaz de afastarse um pouco de ti e assim realmente estou preso à cruz e a cruz à qual me vejo atado não está presa a nada mais ela voga pelo mar 4 [12 atado à cruz ­ e a cruz ligada a nada vogando sobre o abismo dificilmente se poderia descrever mais acurada e exatamente a situação do crente hodierno apenas um madeiro oscilante sobre o nada um madeiro desatado parece sustê-lo e tem-se a impressão de ser possível adivinhar o instante em que tudo irá submergir um simples madeiro solitário liga-o a deus mas sem dúvida liga-o inevitavelmente e no final de tudo ele tem a certeza de que esse madeiro é mais forte do que o nada que fervilha debaixo dele esse nada que apesar dos pesares continua sendo a força ameaçadora propriamente dita do seu presente o quadro apresenta além disso uma dimensão mais vasta que aliás me parece a mais importante pois esse náufrago jesuíta não está sozinho nele se encontra como que evocada a sorte do seu irmão nele está presente o destino do irmão daquele irmão que se considera descrente que deu as costas a deus por não considerar tarefa sua a espera mas a posse do atingível como se este pudesse estar em parte outra do que onde tu ó deus estás confira-se a síntese informativa da herderkorrespondenz 7 1962/3 561-565 sob o título die echten texte der kleinen heiligen thérese textos autênticos de sta teresinha as nossas citações encontram-se à pág 564 sua fonte principal é o artigo de m morÉe la table des pécheurs em dieu vivant no 24,13-104 morÉe refere-se sobretudo às pesquisas e edições de a combes principalmente le probleme de i histoire d une âme et des oeuvres completes de ste thérese de lisieux paris 1950 outras fontes a combes theresia von lisieux em lexikon für theologie und kirche lthk x,102-104 ­ de a combes foi traduzido por mim sainte thérese de lisieux et sa mission publicado pela editora lar católico sob o título uma santa na era atômica 1961 onde se podem conferir os conceitos aqui abordados sobretudo à pág 125 138 e seguintes e 174 nota do tradutor 3 o que evoca impressionantemente o texto de sab 10,4 tão importante para a teologia da cruz da igreja antiga à terra inundada salvou-a a sabedoria dirigindo o justo num lenho desprezível sobre este texto na teologia patrística confira-se h rahner symbole der kirche salzburgo 1964 502-547 4 conforme o texto alemão de h u von balthasar salzburgo 1953 16 2

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12 É dispensável acompanharmos a trama da concepção claudeliana a mestria com que conserva como fio condutor o jogo dos dois destinos aparentemente contraditórios até ao ponto em que a sorte de rodrigo finalmente se toca com a do irmão quando o conquistador termina como escravo em um navio devendo dar-se por muito feliz ao ser levado por uma velha freira que de contrapeso leva uma caçarola e alguns trapos aliás deixando de lado o símile podemos voltar à nossa própria situação e dizer o crente é capaz de realizar-se em sua fé somente sobre o oceano do nada e o oceano da incerteza foi-lhe destinado como único lugar possível de sua fé apesar disso não se pode considerar o descrente numa falha evidente de dialética apenas como um incréu assim como até agora reconhecemos que o crente não vive sem problemática mas sempre ameaçado pela queda no nada assim é forçoso admitir [13 que também o incréu não representa absolutamente uma existência fechada e coesa em si mesma por brutal que seja o seu comportamento de ferrenho positivista que já de há muito deixou para trás as tentativas e os embates supranaturais vivendo apenas no âmbito do que é diretamente certo ­ jamais o abandonará a secreta insegurança de se o positivismo está realmente com a última palavra o crente vê-se sufocado pela água salgada da dúvida que o oceano lhe lança sem cessar à boca do mesmo modo existe a dúvida do incrédulo quanto à sua descrença quanto à totalidade do mundo que ele se resolveu a declarar como o todo jamais conseguirá certeza plena sobre a globalidade do que viu e declarou como o todo mas continuará sob a ameaça de que ­ quem sabe ­ a fé venha a representar e a afirmar a realidade portanto como o crente se sabe ameaçado sem cessar pela descrença obrigado a ver nela a sua perene provação assim a fé representa a ameaça e a tentação do incréu dentro do seu universo aparentemente fechado e completo em uma palavra não existe escapatória ao dilema da existência humana quem deseja fugir à incerteza da fé há de experimentar a incerteza da descrença que por sua vez jamais conseguirá resolver sem sombra de dúvida a questão de se por acaso a fé não se cobre com a verdade somente na recusa revela-se a irrecusabilidade da fé talvez venha a propósito aduzir neste lugar uma estória judaica escrita por martin buber nela aparece com clareza o citado dilema da existência humana um dos sequazes do iluminismo homem estudado ouvira falar de berditschewer foi-lhe à procura com o fito de comprar uma discussão como era do seu feitio e arrasar suas provas ultrapassadas da verdade da fé ao entrar no quarto do zaddik viu-o de livro à mão indo e vindo mergulhado em entusiásticas reflexões nem pareceu dar pela chegada do visitante finalmente deteve-se olhou para ele superficialmente e disse e contudo talvez seja verdade o sábio debalde tentou fincar pé defendendo sua dignidade [14 própria não o conseguiu sentiu os joelhos chocalharem tão terrível era o aspeto do zaddik tão horrível de se ouvir a sua singela frase mas o rabi levi jizchak voltou-se completamente para ele e lhe disse sereno meu filho os grandes da torá com os quais disputaste desperdiçaram palavras tu te riste deles ao te afastares não foram capazes de colocar deus e o seu reino sobre a mesa diante de ti eu também sou incapaz mas meu filho reflete talvez seja verdade o iluminista concentrou todas as forças para revidar mas aquele terrível talvez a ecoar sem

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13 cessar quebrou-lhe qualquer resistência 5 apesar da roupagem estranha temos aqui uma descrição muito precisa da situação do homem frente ao problema deus ninguém é capaz de servir aos outros o cardápio de deus e do seu reino nem o próprio crente pode servi-lo a si mesmo mas por mais que a descrença se possa sentir justificada com isso permanece de pé o horror daquele talvez seja verdade o talvez representa o inevitável ataque ao qual se é incapaz de fugir no qual se deve experimentar na recusa a irrecusabilidade da fé em outras palavras crente e incrédulo cada qual a seu modo participam da dúvida e da fé caso não se ocultem de si mesmos e da verdade da sua existência nenhum é capaz de evadir-se completamente à dúvida nenhum pode escapar de todo à fé para um a fé torna-se presente contra a dúvida para outro pela dúvida e em forma de dúvida temos aí a figura fundamental do destino humano ser capaz de encontrar o definitivo de sua existência somente nesse inevitável embate de dúvida e fé de agressão e certeza talvez esteja aqui o caminho para transformar em ponto de encontro de contato a dúvida que preserva a um e a outro do perigo de encapsular-se em si mesmo ambos estão impedidos de enrolar-se em si mesmos o crente é impelido para o que duvida e [15 este para o crente para um temos aí uma participação no destino do incréu para o outro a forma pela qual a fé apesar de tudo continua sendo um desafio 2 o salto da fé ­ ensaio provisório de uma definição da essência da fé a figura do palhaço incompreendido e dos campesinos despreocupados não basta para descrever a interdependência de fé e descrença em nossos dias contudo não se pode negar que ela representa de algum modo um problema específico da fé pois a questão fundamental de uma introdução ao cristianismo abrangendo a tarefa de esclarecer o que significa o homem afirmar creio ­ essa questão fundamental apresenta-se-nos carregada de um conteúdo temporal muito preciso devido à nossa consciência histórica que se tornou parcela de nossa autoconsciência e de nossa concepção fundamental do humano essa questão só pode ser posta na forma seguinte que é e que significa a confissão cristã creio nos dias de hoje dentro das contingências da nossa existência atual e da nossa posição presente diante da realidade em seu conjunto chegamos assim a uma análise do texto que deverá constituir a diretriz a coluna mestra de todas as nossas considerações a saber do símbolo apostólico o qual a partir de sua origem quer ser introdução ao cristianismo e resumo do seu conteúdo essencial É sintomático o fato de principiar esse texto com a palavra creio claro está que de início abrimos mão de uma análise deste termo dentro do seu contexto também deixamos por ora de pesquisar por que essa declaração básica creio em sua forma estereotipada surge em conexão com determinados conteúdos e se desenvolve dentro de um contexto litúrgico o contexto da fórmula litúrgica com o do conteúdo molda o sentido da palavrinha credo como vice-versa a palavrinha credo sustenta e caracteriza tudo o [16 que se lhe segue e o próprio ambiente 5 m buber werke iii munique-heidelberg 1963 348.

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14 litúrgico apesar disso por ora devemos prescindir de ambos para enfrentar com radicalismo tanto maior e analisar muito a fundo que espécie de atitude se intenciona quando a existência cristã se revela primeiro e antes de tudo no verbo credo e com isso ­ o que de modo algum é evidente ­ demarca o cerne do crístico como sendo uma fé as mais das vezes supomos irrefletidamente que religião e fé são uma e mesma coisa e se cobrem podendo por isso qualquer religião ser definida como fé o que contudo só se realiza de fato em proporção limitada muitas vezes as outras religiões assumem nomes diferentes colocando assim outros pontos de apoio que não a fé o antigo testamento como um todo não se apresenta sob o conceito de fé mas de lei É primariamente uma ordem um teor de vida em que sem dúvida o ato da fé assume importância crescente a religiosidade romana por sua vez compreendeu praticamente sob o nome de religio a observância de determinadas formas rituais e de costumes para ela não era decisivo que um ato de fé assentasse sobre elementos supernaturais tal ato poderia mesmo faltar por completo sem que houvesse infidelidade à religião por ser essencialmente um sistema de ritos a sua exata observância era o elemento decisivo acima de tudo o mesmo poderia constatar-se perlustrando toda a história das religiões mas essa alusão baste para esclarecer quão pouco evidente é em si o fato de o ser cristão exprimir-se fundamentalmente na palavra credo designando a sua posição frente ao real pela atitude da fé com o que aliás a nossa pergunta só se torna é mais premente que atitude afinal se pretende manifestar por esta palavra e mais por que se torna tão difícil penetrar o nosso eu sempre pessoal no âmago desse creio por que sempre nos parece de novo quase impossível transferir o nosso eu hodierno ­ cada qual o seu diverso e separado do eu [17 dos outros ­ para a identificação com o eu do creio tal como nos vem determinado e moldado por gerações não nos iludamos penetrar naquele eu de fórmulas do credo assimilar na carne e no sangue do eu pessoal o eu esquemático da fórmula constituiu sempre empresa excitante e aparentemente impossível em cuja realização não raro ao invés de perpenetrar o esquema com carne e sangue o eu acaba transformado em esquema e se crentes no nosso tempo talvez ouçamos com alguma inveja que na idade média todos sem exceção eram crentes em nosso país seria bom lançar um olhar atrás dos bastidores olhar possível graças às conquistas da pesquisa histórica moderna ela está em condições de ensinar-nos que também naquela época havia a grande massa dos que iam na onda e um número relativamente restrito dos que de fato penetravam até ao âmago da fé a história pode mostrar-nos que para muitos a fé não passava de um sistema preexistente de vida pelo qual a fascinante aventura escondida no bojo da palavra creio lhes estava pelo menos tão encoberta como patente e tudo isso apenas porque entre deus e homem se abre um abismo infinito porque a feitura do homem é tal que seus olhos só podem ver aquilo que não é deus permanecendo deus sempre essencialmente invisível fora do campo visual do homem deus é essencialmente invisível essa declaração fundamental da fé bíblica em deus em oposição à visibilidade dos deuses é simultaneamente ­ e sobretudo mesmo ­ uma declaração sobre o homem o homem é o ser vidente para o qual o o autor se refere à alemanha n da editora

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15 espaço da vida parece demarcado pelo espaço de sua visão e percepção mas deus jamais aparece e nunca pode aparecer nesse espaço de sua visão e percepção determinantes da localização existencial do homem por mais que tal espaço seja sempre ampliado acredito [18 o que é importante que em princípio essa declaração se encontra no antigo testamento deus não é apenas aquele que agora e de fato se acha fora do campo visual podendo contudo ser percebido se fosse possível avançar não ele é aquele que se encontra essencialmente fora deste campo por mais que nossa área visual se alargue com isso porém só se revela um primeiro esboço da atitude expressa pela palavrinha creio ela conota um homem que não considera como o máximo a totalidade de suas capacidades o ver o ouvir e o perceber que não considera o espaço do seu universo balizado pelo que se encerra no seu campo visual auditivo perceptivo mas procura uma segunda forma de acesso à realidade forma essa que chega a encontrar aí a abertura essencial de sua concepção do mundo sendo assim a palavrinha credo encerra uma opção fundamental face à realidade como tal não conotando apenas a constatação disso ou daquilo mas apresentando-se como uma forma fundamental de comportamento para com o ser para com a existência para com o que é próprio da realidade para com a sua globalidade trata-se de uma opção que considera o invisível o absolutamente incapaz de alcançar o campo visual não como o irreal mas pelo contrário como o real propriamente dito que representa o fundamento e a possibilidade da restante realidade É a opção de aceitar esse algo que possibilite a realidade restante a proporcionar ao homem uma existência verdadeiramente humana a torná-lo possível como homem e como ser humano dito ainda em outros termos fé significa o decidir-se por um ponto no âmago da existência humana o qual é incapaz de ser alimentado e sustentado pelo que é visível e tangível mas que toca a orla do invisível de modo a torná-lo tangível e a revelar-se como uma necessidade para a existência humana tal atitude certamente só se conseguirá através daquilo que a linguagem bíblica chama de volta ou conversão [19 a tendência natural do homem leva-o ao visível ao que se pode pegar e reter como propriedade cumpre-lhe voltar-se internamente para ver até que ponto abre mão do que lhe é próprio ao deixar-se arrastar assim para fora da sua gravidade natural deve converter-se voltar-se para conhecer quão cego está ao confiar apenas no que os olhos enxergam a fé é impossível sem essa conversão da existência sem essa ruptura com a tendência natural sim a fé é a conversão na qual o homem descobre estar seguindo uma ilusão ao se comprometer apenas com o palpável e sensível e aqui está a razão mais profunda por que a fé não é demonstrável é uma volta uma reviravolta do ser e somente quem se volta recebe-a e porque nossa tendência não cessa de arrastar-nos para outro rumo a fé permanece sempre nova em seu aspecto de conversão ou volta e somente através de uma conversão longa como a vida é que podemos ter consciência do que vem a ser eu creio a partir daí é compreensível que a fé representa algo de quase impossível e problemático não apenas hoje e nas condições específicas da nossa situação moderna mas quiçá de modo um tanto menos claro e identificável já representou sempre o salto por cima de um abismo infinito a saber da contingência que esmaga o homem:

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