A Reprodução Social - I - TECNOLOGIA, GLOBALIZAÇÃO E GOVERNABILIDADE

 

Embed or link this publication

Popular Pages


p. 1

ladislau dowbor a reproduÇÃo social edição em três volumes revista e atualizada i tecnologia globalizaÇÃo e governabilidade são paulo fevereiro de 2001

[close]

p. 2

2 nota do editor originalmente publicada em um único volume a reprodução social propostas para uma gestão descentralizada foi aqui desmembrada em três pequenos volumes para facilitar a leitura e o uso autônomo de cada um i tecnologia globalização e governabilidade ii política econômica e social os desafios do brasil iii descentralização e participação as novas tendências os textos foram revistos e atualizados para a presente edição.

[close]

p. 3

3 nota do editor 2 prÓlogo 4 introduÇÃo 6 1 tÉcnicas tempo e organizaÇÃo social 9 2 da globalizaÇÃo ao poder local a nova hierarquia dos espaÇos 15 espaço global 16 a formação dos blocos 17 a erosão do estado-nação 18 os regionalismos 20 o papel das metrópoles 21 a cidade como base da organização social e política 22 o resgate da dimensão comunitária 24 os espaços articulados 25 3 as polarizaÇÕes econÔmicas 27 4 a reestruturaÇÃo demogrÁfica e as novas dinÂmicas do trabalho 33 5 governabilidade o deslocamento do poder 47 o poder do primeiro mundo 49 o papel das empresas transnacionais 50 capitalismo de pedágio 54 6 ­ as frÁgeis ferramentas de regulaÇÃo 58 os fatores de produção 59 a formação do pib 63 os meios de pagamento 67 os agentes da reprodução social 80 a regulação internacional 81 concentração e distribuição 85 bibliografia 91 sobre o autor 94

[close]

p. 4

4 prólogo não mais inevitável a pobreza deveria ser relegada à história ­ junto com a escravidão o colonialismo e a guerra nuclear ­ relatório sobre o desenvolvimento humano nações unidas 1997 não há grandes mistérios quanto ao que queremos como sociedade a tranquilidade no relacionamento social o sentimento de participar criativamente das coisas que acontecem a liberdade moderada pelas necessidades a paz do amor o estímulo do trabalho a alegria de rir com os outros o realismo de rir de si mesmo mas estes objetivos passam por um valor esssencial que precisa ser resgatado o da solidariedade humana primeiro porque é triste ver estes pobres seres humanos que passam numa breve viagem pela vida gastar o seu pouco tempo arreganhando os dentes uns para os outros como que impotentes frente às suas raizes animais ­ homo homini lupus ­ incapazes de ver ou de ter o tempo para ver a beleza do rio que passa o esplendor do pôr do sol a genialidade de um poema o gosto de um trabalho bem feito a magia de uma criança que descobre uma coisa nova cada vez mais motivados negativamente pela insegurança generalizada numa eterna fuga para a frente correndo como loucos atrás do sucesso ainda que sabendo perfeitamente onde termina a corrida a solidariedade é uma questão de elementar senso das realidades segundo porque não há dúvidas de que a nossa sociedade precisa de um choque de ética e de visão social e ambiental acostumamo-nos a ver como normal o latifundiário que acumula gigantescos espaços de terra que não consegue sequer utilizar enquanto familias passam fome sem poder cultivá-las o banqueiro que se enche de dinheiro enquanto unidades produtivas ficam estranguladas o político que gere privilégios corrompe e se deixa corromper afirmando que o mundo é assim mesmo o dono de meios de comunicação que negocia qualquer coisa sem atentar para os valores sociais que são necessários para a nossa sobrevivência social e ambiental o cientista que estremece de contentamento frente à manipulação genética sem pensar na responsabilidade e utilidade social o economista que esquece as dimensões humanas dos reajustes econômicos ou o juiz que esqueceu o seu juramento e justifica tudo e qualquer coisa são formas diversas de prostituição das oligarquias que atinge inclusive os advogados que as defendem os jornalistas que as comentam os policiais que por elas cometem barbaridades trata-se de um amplo espaço de esperteza e de prepotência com pouca inteligência da vida.

[close]

p. 5

5 esta crítica é benigna a realidade enfrentada por grande parte da humanidade é muito dura hoje temos os olhos cheios das crianças das esquinas de são paulo dos sowetos sul-africanos das meninas prostituidas da asia dos massacres que transformam a insegurança dos poderosos em insegurança de todos e não se trata somente de justiça social com os poderosos instrumentos tecnológicos que hoje manejam o cientista o operador financeiro o dono de emissoras de televisão o militar ou o terrorista uma melhor organização social torna-se indispensável para a nossa sobrevivência ricos ou pobres de ninguém se exige a clarividência de todas as respostas mas de todos se exige o comprometimento pessoal por uma humanidade mais justa e solidária o egoismo como valor universal frágil construção que herdamos dos utilitaristas ingleses está deixando de ser útil como estão se tornando insustentáveis as grandes simplificações econômicas e sociais da sobrevivência do mais apto e de uma sociedade baseada no individualismo temos assim de iniciar a ampla reconstrução de uma ética social temos frequentemente uma curiosa tendência a identificar os culpados do estado de coisas que enfrentamos e a ficar à espera que de alguma forma desapareçam a identificação nos sossega pois podemos nos queixar dos culpados a cada momento sem carregar as nossas próprias responsabilidades sejam quais forem as soluções exigirão difícil costura política com todos os atores sociais da sociedade realmente existente e a construção do novo não se fará no caminho simplificado da punição dos culpados temos de reconhecer também que muitos dos que identificamos como inimigos são também os que contribuiram para a nossa relativa prosperidade seja descobrindo novos processos produtivos seja batalhando uma repartição mais justa do produto não se trata de olhar para trás com saudade de uma paz social que nunca existiu temos de olhar para a frente onde ideologias simplificadoras do século xix sejam de mercado ou estatistas já não correspondem às novas necessidades de regulação social não é preciso ter uma bússola muito afinada para saber qual é o nosso norte a mesma amplitude de tomada de consciência que permitiu no passado ultrapassar as grandes chagas mundiais que constituiram a escravidão e o colonialismo é hoje necessária para enfrentarmos o drama da pobreza no mundo esta trágica articulação de degradação humana e ambiental que nos aflige há pouco mais de um século a escravidão aparecia como natural e até há poucas décadas o colonialismo era visto como legítimo hoje temos instrumentos técnicos e meios econômicos amplamente suficientes para enfrentar este novo desafio de humanização do planeta.

[close]

p. 6

6 introdução o mundo pode estar se movendo inexoravelmente para um desses momentos trágicos que levará futuros historiadores a perguntar porque não foi feito nada a tempo 1 todos nos sentimos um pouco cansados com os parâmetros simplificados que nos têm orientado ou com propostas demasiado globais para se materializarem em políticas aplicadas em nome de marx se gerou o nacionalismo econômico o estado todopoderoso a redução dos espaços democráticos e em nome de adam smith se desenvolveram os gigantescos monopólios mundiais o encalacramento de direitos adquiridos através de patentes cada vez mais absurdas o controle manipulador da mídia os impressionantes sistemas de intermediação e especulação que cobram pedágio dos produtores e dos consumidores as realidades que enfrentamos são realidades novas e as bandeiras teóricas que levantamos passaram frequentemente a ser meros engôdos dando uma aparência de legitimidade intelectual a processos onde predomina simplesmente a despiedada e violenta corrida por vantagens a qualquer preço o debate econômico e com isto a teoria econômica têm se desenvolvido essencialmente na órbita das ideologias o fato real é que enquanto nos vamos acusando recíprocamente de acabar com o mundo entre esquerda e direita o mais provável é que terminemos efetivamente por acabar com o mundo o nosso consolo será que morreremos todos com a convicção de que tínhamos razão as boas vontades aqui não são suficientes porque não se sustentam os paradigmas com que se trabalha a problemática econômica nem na tradicional esquerda estatista nem na direita neoliberal o problema que enfrentamos não se coloca em termos de alternativas entre se assegurar justiça social ou as liberdades econômicas mas de se articular os dois de maneira adequada grande parte da esquerda trabalha ainda com uma visão clássica de que a justiça social e a solidariedade virão através do reforço de estruturas estatais tabalharemos aqui com a visão de que a própria visão de estado tem de ser revista pois o sistema atual não permite que um estado reforçado ou não responda a estes problemas forças socialistas que se apropriaram desta máquina viram a que ponto é difícil fazê-la funcionar visando o bem público e terminaram aplicando poíticas contrárias aos seus programas neste sentido the world may be moving inexorably toward one of those tragic moments that will lead future historians to ask why was nothing done in time será pergunta kapstein que as elites econômicas e políticas não estavam conscientes da ruptura produnda que as mudanças econômicas e tecnológicas estavam causando aos trabalhadores e trabalhadoras o que as impediu de tomar os passos necessários para prevenir uma crise social global ethan b kaptstein workers and the world economy foreign affairs mayjune 1996 p 16 1

[close]

p. 7

7 batalham-se os ideais corretos através de caminhos que não são adequados e não é suficiente apontar os ideais sem apontar o como a direita imagina que se possa casar economia do século xxi com política do século xix a liberdade inovadora do padeiro e do fabricante de alfinetes perde qualquer sentido frente aos gigantes de impacto planetário da indústria automobilística da mídia da especulação financeira do comércio internacional de armas sofisticadas para citar alguns e quem manda no planeta não é uma abstração chamade de forças de mercado são poderosas e concretas empresas transnacionais o capitalismo na medida em que deixa a empresa se organizar livremente da forma que mais lhe convenha atinge uma eficiência indiscutível mas ao mesmo tempo em que dinamiza a produção gera estruturas de poder que tornam inviável a sua distribuição equilibrada e com isso reduz radicalmente a sua utilidade social um sistema que sabe produzir mas não sabe distribuir é no médio prazo inviável basta lembrar que cerca de 150 milhões de crianças passam fome que 2,8 bilhões de pessoas vivem com menos de dois dólares por dia que um bilhão de analfabetos pode apenas imaginar o que é a revolução informática todas estas cifras focam problemas que não constituem resíduos do passado pelo contrário estão se agravando e só os ideologicamente cegos podem deixar de ver que precisamos de soluções novas por trás da visão liberal há um a priori extremamente simplificador a de que o mero volume de riqueza produzida levaria necessariamente a que sobrem cada vez mais migalhas incluindo gradualmente os excluidos esta teoria do gotejamento do trickling-down constitui simplesmente um êrro teórico na medida em que isola os processos econômicos das estruturas de poder político que estes processos econômicos geram o que existe quando muito é um trickling-up uma elitização universal que coloca em cheque a nossa forma geral de organização social na gangorra ideológica que nos hipnotizou a todos em que a direita quer mais poder para os empresarios e a esquerda para o estado esquecemos que a sociedade não se divide em empresários e estado e que devemos restituir ao cidadão à sociedade civil formas efetivas de controle tanto sobre a empresa como sobre o estado sobre o que chamaremos aqui de macroestruturas do poder neste sentido defensores da economia liberal e da economia social têm de repensar a compatibilidade dos meios e dos fins ou até de redefiní-los na ausência de uma classe redentora burguesa na concepção liberal ou proletária na concepção marxista e numa sociedade que se transforma rapidamente através de um processo complexo de articulações já não se justifica um messianismo social herança teórica do século xix o tempo das grandes simplificações sociais já passou o universo dividido em nações e estas em burguesias proletariados e campesinatos deu lugar a um conjunto de sistemas mais complexos e intricados que ademais evoluem e se transformam com grande rapidez.

[close]

p. 8

8 frente a estas mudanças o mais importante não é mais definir a sociedade ideal que queremos e sim gerar na sociedade instituições e mecanismos de regulação que permitam à sociedade ir se transformando e reconstruindo de acordo com os seus desejos e necessidades ou seja o único compromisso real é com a democracia efetiva enquanto os caminhos que as populações decidirão democraticamente trilhar no futuro pertencem a elas e não a nós o que nos propomos aqui é recuperar as implicações práticas de um objetivo social que hoje já é razoavelmente consensual a visão de um mundo justo é tão essencial para a nossa sobrevivência como a de um mundo produtivo e a de um meio-ambiente sustentável discutir qual dos tres é mais importante é não entender que não se trata de alternativas e sim de objetivos articulados onde conseguir o avanço de um em detrimento dos outros não constitui avanço e sim recúo o autor é o primeiro a considerar este livro pretencioso pois mexe com questões muito amplas não se trata aqui de uma convicção de ter as respostas a bola de cristal universal e tampouco tentamos buscar fórmulas simplificadas para enfrentar a complexidade das nossas contradições trata-se de uma tentativa com todas as fragilidades que daí resultam de redefinir problemáticas e conceitos com os quais creio sentimos todos um crescente desconforto É como se a realidade como sempre mal educada tivesse evoluido muito mais rapidamente do que a ciência deixando-nos com instrumentos insuficientes dividimos o trabalho em três volumes cada um com autonomia de utilização no primeiro tecnologia globalização e governabilidade nos concentraremos no estudo das mega-tendências que estão transformando o nosso planeta e nos desafios que isto implica para as políticas econômicas e sociais no segundo volume política econômica e social estudaremos as propostas práticas de reformulação das políticas setoriais seja na agricultura na organização financeira ou na educação e outros setores no terceiro volume descentralização e participação as novas tendências de gestão social estudaremos as diversas alternativas de organização política e de gestão do desenvolvimento que estão sendo implementadas no brasil e em outros países e que apontam para novos rumos.

[close]

p. 9

9 1 técnicas tempo e organização social as realizações da ciência ultrapassam a nossa capacidade de administrar o poder que ela nos confere j.m roberts history of the world2 as mudanças estruturais partem essencialmente das transformações tecnológicas quer utilizemos o conceito de divisão do trabalho de adam smith ou o desenvolvimento das forças produtivas estudado por marx não há dúvida que o motor da história encontra-se nos processos produtivos as bases tecnológicas do nosso desenvolvimento estão passando pela mais dramática transformação da história da humanidade em nenhum momento nem na imensa abertura que significou a renascença com gigantes como leonardo da vinci nem no explosivo final do século passado que nos deu a energia elétrica o motor a combustão e as bases da física moderna houve qualquer coisa que se comparasse com a atual abertura dos nossos horizontes considera-se hoje que os conhecimentos novos adquiridos nos últimos vinte anos correspondem grosso modo ao conjunto dos conhecimentos técnicos que a humanidade acumulou durante a sua história um balanço do estado da arte em termos de conhecimento do cérebro por exemplo constatava em meados de 1995 que 95 destes conhecimentos haviam sido desenvolvidos nos cinco anos anteriores.3 qualquer balanço nesta área torna-se rapidamente desatualizado para efeitos metodológicos no entanto identificaremos alguns grandes eixos de transformação porque muito do nosso futuro já está em boa parte contido nas transformações que hoje se consolidam o eixo da eletrônica e particularmente o da informática já invade literalmente o nosso cotidiano em termos de simples poder de tratamento de informações considera-se que em dez anos este foi multiplicado por cem a imagem utilizada para dramatizar este processo é de um carro que hoje anda a 100 quilómetros por hora e que em dez anos chegasse aos 10 mil mas enquanto o carro acelera as nossas pernas e outras máquinas substituem os nossos braços a informática coloca nas nossas mãos instrumentos revolucionários de dinamização do próprio conhecimento apropriar-se do eletron e do foton como instrumentos de expressão estocagem organização busca inteligente e transmissão de informação significa simplesmente que o conjunto dos processos vinculados ao conhecimento passa a utilizar um meio cuja rapidez é a da velocidade da luz significa também que a informação adquire a fluidez da corrente elétrica podendo ser transmitida a cada casa a cada indivíduo a cada empresa ou instituição científica criando um ambiente global de conectividade e interação de cuja existência mal se podia suspeitar alguns anos atrás 2 3 j m roberts history of the world penguin books london 1995 pág 1105 ver joel swerdlow quiet mircales of the brain national geographic vol 187 n.6 june 1995

[close]

p. 10

10 estas transformações coincidem com outro processo de avanço vertiginoso o das telecomunicações se em dez anos o potencial informático foi multiplicado por cem na área das comunicações o aumento foi de um para mil e nos setores que já utilizam sistemas óticos foi de um para um milhão.4 de repente temos o planeta enfeixada num espaço unificado de comunicações via satélites cabos óticos e sistemas de retransmissão que no dizer do business week está transformando editoriação distribuição a cabo programação de tv filmes e telefone em um só sistema de distribuição 5 na realidade tudo que pode ser expressado através de sinais positivos e negativos da eletricidade ou outro sistema binário de simbolização como palavras números sons e imagens tornouse hoje extremamente fluido e universalmente acessível um terceiro eixo de avanços fenomenais é o conhecimento da vida o projeto genoma está pela primeira vez desvendando o código genético humano lançam-se os primeiros micro-organismos genéticamente manipulados para digerir poluentes químicos a agricultura prepara-se para a sua revolução genética os poderosos microscópios eletrónicos associados aos computadores permitem uma autêntica revolução no conhecimento do funcionamento das células e assim por diante não se trata mais de reproduzir apenas os animais e de aproveitá-los de diferentes maneiras e sim de avanços cada vez mais preocupantes de interferência no próprio sistema de reprodução criando um espaço econômico de arquitetura de seres vivos um quarto eixo importante concerne as energias o laser já entrou no nosso cotidiano através do disco cd da medicina dos sistemas de gestão de estoques nos supermercados do microcomputador na nossa mesa o próprio uso direto da energia solar através de filmes foto-voltáicos está abrindo novos horizontes os led s light emitting diodes preparam uma revolução em todo o sistema de iluminação novos materiais como os supercondutores já estão saindo da fase experimental permitindo formas radicalmente novas de utilização da energia estes e outros eixos de transformação tecnológica pode-se citar a pesquisa espacial os avanços da química fina e tantos outros provocaram uma ruptura qualitativa na forma da sociedade se relacionar com o conhecimento a mudança entrou nas nossas culturas como o fato normal e não a exceção e esta mudança já não resulta de saltos individuais e pontuais o microscópio eletrônico e o computador permitem o trabalho com unidades atómicas o que permite por sua vez desenvolver novos materiais que permitem novos avanços na informática e assim por diante num processo sinérgico e cumulativo É o próprio processo de transformação que se transformou a verdade é que estamos vivendo a mais profunda e mais acelerada revolução que a humanidade já conheceu 4 ver a este respeito os relatórios do pace program for advanced communications in europe da ocde vários anos 5 business week editorial august 14 1995 the expanding entertainment universe o entretenimento substituiu a defesa e a indústria automobilística como força motora da economia dos estados unidos

[close]

p. 11

11 É essencial revermos as nossas ideologias as nossas concepções sobre as formas de organização social e política levando esta revolução em conta isto porque na medida em que este prodigioso aceleramento do tempo de transformação se dá de forma profundamente desigual os referenciais tradicionais perdem boa parte do seu sentido ou no mínimo se tornam demasiado grosseiros e globais frente a uma realidade muito mais diferenciada não é a situação que mudou exigindo novas políticas não há mais situação e sim um processo de mudança permanente exigindo formas de gestão social radicalmente alteradas o tempo atinge de forma muito diferente as instâncias da reprodução social enquanto as técnicas avançam em ritmo que sequer temos capacidade de acompanhar mesmo em áreas muito especializadas o mesmo não acontece com o universo cultural que constitui as nossas formas individualizadas ou sociais de ver o mundo.6 o ritmo incomparavelmente mais lento da evolução das culturas pode ser verificado no nosso cotidiano na nossa dificuldade de utilizarmos o potencial informático não por razões técnicas mas por atitudes enraizadas em décadas de uma determinadas cultura do trabalho pesquisas realizadas em empresas informatizadas nos estados unidos mostram que somente com a chegada ao mercado de trabalho dos jovens que já se formaram no ambiente informático é que efetivamente o uso do novo potencial passou a ser inovador e criativo antes só se fazia acelerar os mesmos procedimentos tradicionais o resultado é que de certa forma passamos a conviver com as novas tecnologias mas não as assimilamos efetivamente e não dominamos nem o seu potencial positivo nem os perigos que representam de repente chegam às nossas casas as mensagens mais obscurantistas de igrejas ou de demagogos da violência pelos meios eletrônicos mais modernos e com os mais diversos efeitos especiais e nos damos conta de que progresso técnico e progresso cultural podem evoluir em ritmos completamente diferentes e inclusive em sentidos inversos podemos legitimamente nos perguntar sobre o que faria um goebbels com as tecnologias modernas de comunicação muito mais lento ainda do que o nosso universo cultural é a evolução das instituições que desenvolvemos para gerir a nossa reprodução social estruturas empresariais instituições de governo ou organizações da sociedade civil como sindicatos e outros acumulam além das resistências culturais à mudança que vimos acima o conjunto de fatores de inércia como interesses corporativos lutas por poder e prestígio que fazem com que instituições possam permanecer inertes ainda quando todos os seus membros estejam de acordo que se deva mudar se considerarmos o universo jurídico que de certa forma codifica o contexto das próprias mudanças institucionais esta diversidade de ritmos de evolução das diferentes instâncias de uma sociedade fica ainda mais gritante periodicamente afloram leis em pleno vigor sobre o tratamento a se dar a um ladrão de cavalos datando de quando este era um meio vital de transporte ou o detalhamento de penas previstas para quem utilize de forma 6 otávio ianni utiliza o conceito rico de não contemporaneidade dos processos de mudança

[close]

p. 12

12 inadequada os seus diversos órgãos sexuais enquanto não temos sequer embriões de regulamentação das manipulações genéticas descontroladas que se multiplicam em todo o planeta.7 de certa forma somos vítimas de um cérebro cujas capacidades inventivas são incomparavelmente maiores do que a nossa frágil capacidade de nos organizarmos como sociedade civilizada o resultado prático é que o conjunto do movimento de transformações tecnológicas na ausência de amadurecimento cultural e de transformações institucionais capazes de canalizá-lo para o que poderíamos chamar simplesmente pelo conceito tradicional de bem público transforma-se em ameaça para a sociedade.8 um bom exemplo do hiato entre o nível técnico e o nível institucional nos é dado pelas pescas navios modernos de pesca permitem hoje níveis de captura praticamente ilimitados teoricamente estas empresas não estariam interessadas na sobre-pesca pesca que ultrapassa a capacidade de reprodução da vida marítima pois estariam prejudicando o seu próprio futuro na realidade como são numerosas empresas cada uma tenta capturar o máximo possível antes que outras empresas o consigam negociações com grandes empresas de pesca industrial tentando limitar a destruição dos recursos pesqueiros levam sempre ao mesmo argumento final e bastante realista por parte das empresas se não formos nós serão outros assim aguardar dos mecanismos de mercado que assegurem o equilíbrio dos processos é simplesmente inviável e a própria sobrevivência das empresas no longo prazo exige sólida organização das regras do jogo com força suficiente para se impor às próprias empresas.9 o exemplo da exploração da madeira é igualmente significativo em princípio todos são a favor da preservação das florestas no entanto poucos têm esta preservação como interesse exclusivo trata-se de um interesse difuso é praticamente unânime mas 7 josé eduardo faria lembra que o código comercial por exemplo é de 1850 o código civil é de 1916 o código penal na sua parte especial é de 1940 o código de processo penal é de 1941 eles têm em comum o fato de terem sido concebidos em função dos valores de uma sociedade rural e patriarcal organizada em torno de uma economia agrário-exportadora de produtos primários hoje porém o país tem uma sociedade urbana de massas organizada em torno de uma complexa economia industrial o descompasso entre os textos legais e o contexto socioeconômico por isso é gritante reforma da justiça o estado de são paulo 3 de marcço de 1997 8 a idéia é bem formulada no belíssimo livro organizado pelo africano joseph ki-zerbo les compagnons du soleil antologia dos principais textos do mundo que tratam da relação entre o ser humano e a natureza descobrimos que os fatos ­ o impacto acumulado dos homens sobre o seu meio a globalização da economia a amplitude do controle dos homens sobre seres vivos ­ evoluíram mais rápido bem mais rápido do que as ideologias com as quais nos pensamos o mundo e a nossa ação no mundo bem mais rápido que as instituições que levamos séculos para nos dotar para regular as atividades humanas deste hiato entre os fatos as ideologias e as instituições pode nascer um perigo mortal para a toda a humanidade joseph ki-zerbo les compagnons du soleil la découverte/unesco/fondation pour le progrès de l homme paris 1992 p 5 avant-propos de pierre calame 9 para uma visão rápida dos dados básicos da destruição da vida nos mares ver time 14-08-97 voltaremos em detalhe ao assunto mais adiante.

[close]

p. 13

13 representa um espaço limitado do interesse de cada um a empresa madereira ao contrário representa um interesse pontual com a perspectiva concreta de realizar um lucro de milhões de dólares vendendo mogno um grupo determinado saberá subornar autoridades financiar os meios de comunicação neutralizar populações locais obter os apoios políticos necessários e o resultado será o desmatamento os procedimentos não são novos mas com o machado e os bois substituidos por tratores de esteira e motoserras a fragilidade do interesse difuso de bilhões de pessoas frente aos interesses pontuais de alguns torna-se gritante na ausência de um reforço radical de organização do interesse público para fazer frente aos interesses deste tipo os resultados não são difíceis de prever a nossa trágica fragilidade frente ao caso das minas antipessoais ilustra outra dimensão da nossa impotência institucional são hoje segundo estimativas da unicef cerca de 100 milhões de pequenas minas destinadas essencialmente a criar insegurança entre as populações espalhadas nos mais diversos países trata-se de pequenos artefatos com diversas formas às vezes com aparência de brinquedos que são lançados em grandes quantidades sobre regiões conflagradas como os adultos são alertados para o perigo as vítimas preferenciais são as crianças o interesse propriamente militar é praticamente nulo morrem anualmente desta forma cerca de 100 mil crianças sem falar das mutilações as tentativas do ex-diretor da unicef james grant de obter uma moratória de 5 anos não sobre a produção o que seria uma ambição excessiva mas sobre as exportações destas minas não obtiveram resultado a dinâmica é compreensível pois enquanto na venda a mina é baratíssima custando alguns dólares os contratos de deminagem posteriores à guerra envolvem mais de mil dólares por mina desativada e em geral são as mesmas empresas produtoras que detêm as tecnologias necessárias quando tecnologias avançadas permitem produzir pequenos instrumentos explosivos de efeitos mortais ao preço de pouco mais de um dólar e a sociedade se organiza segundo a lei do mais forte o mercado continuará existindo e qualquer um de nós pode ser acionista involuntário de iniciativas deste tipo através de aplicações financeiras são apenas negócios na realidade o lucro gerado pelas iniciativas gera ao mesmo tempo estruturas de poder que tornam extremamente difícil a regulação e controle destas iniciativas.10 o caso das drogas é igualmente interessante mascar folhas de coca ou fumar um cachimbo da paz constituem práticas milenares sem efeitos dramáticos mas quando os avanços da química fina permitem fabricar produtos químicamente puros e portanto de efeitos devastadores sobre o organismo humano como cocaina ou heroina em qualquer fundo de quintal e de forma totalmente dispersa destruindo milhões de vidas a própria 10 onu ­ land mines ­ vol 2.2 may 1997 a conferência de tókio sobre minas antipessoais estimava o número de minas espalhadas no campo em 110 milhões de unidades em 1997 as cifras referentes às crianças mortas por minas variam esforços empreendidos para mostrar que seriam apenas cerca de 20 mil por ano no entanto não mudam muito o problema e mostram o nível de absurdo a que chegamos neste ano de 2001 os estados unidos a rússia e a china grandes exportadores continuam sem assinar o acordo internacional de proibição.

[close]

p. 14

14 concepção de organização social se vê afetada em termos propriamente de mercado é incomparavelmente mais lucrativo para o camponés colombiano produzir drogas para o mercado norte-americano do que mandioca para a sua família e há realmente diferença ética entre o camponés colombiano que produz droga para os norte-americanos e o industrial notre-americano que produz armas para o resto do mundo?11 multiplicar exemplos e denunciar situações absurdas não é o objetivo deste trabalho o que é essencial para nós é constatarmos que há hoje um gap um fosso gritante entre a evolução das tecnologias e a evolução das outras instâncias de reprodução social e a consequência prática é que o homem não pode mais se dar ao luxo de um liberalismo descontrolado quando maneja tecnologias de impacto planetário e irreversível a recuperação da nossa capacidade de governo no sentido amplo de controle da sociedade sobre as dinâmicas que gera já não é mais um luxo de quem gosta de política trata-se de uma questão de sobrevivência a questão da governabilidade emerge assim como questão central É relativamente pouco importante frente às explosões sociais e ambientais que se avolumam inventar un chip mais veloz ou enviar uma sonda a um planeta mais distante o que é realmente importante é fazer estes avanços responderem prosaicamente às exigências de uma melhor qualidade de vida não podemos mais nos contentar com alternativas que para privilegiar estruturas eficientes de produção paralizam o desenvolvimento social ou inversamente para assegurar o desenvolvimento social terminam por estrangular o processo de crescimento econômico na realidade um não pode evoluir sem o outro as próprias empresas estão condenadas a assumir as suas responsabilidades sociais e ambientais enquanto as demandas sociais deverão encontrar formas de organização que assegurem a sua viabilização econômica assim da própria revolução tecnológica em curso surgem novos pontos de referência enfrentamos um mundo que muda rapidamente com complexidade e diversidade qualitativamente mais amplos para enfrentar mudança complexidade e diversidade temos de gerar instrumentos de regulação social mais ágeis flexíveis e participativos e não há mais soluções que não sejam simultaneamente econômicas sociais e políticas veremos mais adiante a função da ética na organização da economia fortemente afetada pela desarticulação da dimensão comunitária da reprodução social e pela rapidez da evolução das tecnologias sobre a economia da droga ver nicolás h hardinghaus el desarrollo de la narcoeconomía internacional nueva sociedad caracas julio-agosto 1995 n 138 na linha de frente da lavagem de dinheiro de drogas estão os grandes bancos dos estados unidos e da suíça com montantes estimados entre 500 bilhões e 1,5 trilhão de dólares em 2001 11

[close]

p. 15

15 2 da globalização ao poder local a nova hierarquia dos espaços o estado-nação se torna mais fraco enquanto as tomadas de decisão se deslocam para os níveis local e global nações unidas 1994 as tecnologias mudaram radicalmente não só a dimensão temporal mas também a dimensão espacial da reprodução social o conceito de espaço no nosso desenvolvimento está sem dúvida gerando interesse crescente mas também crescente confusão afinal para onde vão as macrotendências globalização blocos poder local entre o small is beautiful 12 e o global reach alcance global há razões de sobra para se discutir de forma mais aprofundada ou em todo caso mais organizada o conceito de espaço e a importância que assume no nosso cotidiano referiremo-nos aqui aos espaços da reprodução social na realidade a simples reprodução do capital ou reprodução econômica já não é suficientemente abrangente para refletir os problemas que vivemos inclusive para entender a própria reprodução do capital na linha imprimida pelos sucessivos relatórios sobre desenvolvimento humano das nações unidas o objetivo central do desenvolvimento é o homem enquanto a economia é apenas um meio.13 ninguém mais se impresiona com o simples crescimento do pib e tornou-se cada vez mais difícil identificar bem estar humano com o bem estar da economia por outro lado trabalharemos com o conceito de reordenamento dos espaços na medida em que conceitos como globalização trazem uma visão simplificada de abertura e unificação dos espaços da reprodução social o que está ocorrendo é uma nova hierarquização dos espaços segundo as diferentes atividades envolvendo tanto globalização como formação de blocos fragilização do estado-nação surgimento de espaços subnacionais fracionados de diversas formas transformação do papel das metrópoles reforço do papel das cidades e uma gradual reconstituição dos espaços comunitários desarticulados por um século e meio de capitalismo e estes diversos espaços em plena transformação e rearticulação abrem novas dimensões para a inserção do indivíduo no processo de reprodução social permitindo talvez a reconstituição de um ser humano mais integrado a partir dos segmentos hoje fragmentados 12 no brasil o small is beautiful de schumacher foi editado com o título de o negócio é ser pequeno pela zahar 13 É possível que os mercados impressionem dos pontos de vista econômico e tecnológico no entanto têm pouco valor se não servem para melhorar o desenvolvimento humano os mercados são meios o desenvolvimento humano é o fim pnud desarrollo humano 1992

[close]

Comments

no comments yet

YOUBLISHER
About
What Others Say
Sitemap
Impressum

PUBLISHERS
Login
Signup
Tutorials
FAQ
Support

BUSINESS
Overview
Advertising
Support

DEVELOPERS
API

LEGAL
Report a Copyright Violation
Copyright FAQ
Terms of Use
Privacy Policy