Catálogo Escritos da Carne

 

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Escritos da Carne é uma exposição fotográfica e literária, que integra projeto de mesmo nome, aprovado no o Edital Elisabeth Anderle, da Fundação Catarinense de Cultura, de autoria da historiadora, pesquisadora e professora universitária. Carla Fernanda

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o que é o erótico a compreensão do erótico na sociedade ocidental mudou ao longo do tempo mesmo na grécia antiga havia três versões sobre a origem de eros hesíodo em teogonia dos deuses o descreve como um dos deuses primordiais junto com caos a terra e o tártaro o caos separa eros une num desejo de acasalamento que avassala todos os seres sem que se possa opor-lhes resistência já platão apresenta eros como filho de poro expediente e pínia pobreza pensando eros como uma busca constante pela satisfação pois enquanto filho de pínia eros é magro anda a mendigar por vezes sujo bem distante do belo eros representado na estatuária grega mas como filho de poro é corajoso audacioso conquistador ávido em busca de belos corpos de força primordial a um deus mendicante assim mudam as interpretações de eros ao longo da história grega na terceira versão eros é filho de afrodite e zeus um eros menino que preocupa sua mãe por permanecer sempre criança portanto imaturo em sua angústia afrodite procura métis prudência que a aconselha ter outro filho pois eros era muito solitário e por isso permanecia criança e apenas a presença de um irmão faria com que se tornasse adulto da união de afrodite e ares nasce anteros ordem aquele que permitirá que o desejo amadureça segundo o mito ordenar o desejo é necessário para o crescimento de eros assim seu irmão anteros anteros é também aquele que nega a busca interior pelo prazer do sexo pela beleza dos corpos pelo desejo impulsivo a avidez inconstância e a curiosidade infantil e assim busca-se a ordem fugindo de eros de sua força avassaladora e primordial anteros predomina até o renascimento quando a visão emerge lentamente como sentido erótico privilegiado logo depois do tato na história ainda não escrita dos sentidos essa erotização do olhar a partir da difusão da imprensa e a maior circulação das imagens teve um papel importante pois a erotização do olhar não se deu apenas pela circulação de livros ilustrados mas também porque houve uma intenção erótica na criação destas obras diversas imagens foram copiadas e se difundiram largamente sua clandestinidade também per mitiu a livre reprodução tornandoin ú merasim ag e n s conhecidas independente do texto que ilustravam gravuras mantidas em segredo com a intenção de excitação pelo olhar a i n ve n ç ã odaimprensa transformou a relação da sociedade com escritos e gravuras pois possibilitou que um maior número de pessoas tivesse acesso à palavra escrita e às imagens nesse mesmo período inicia-se um processo de maior repressão e controle da vida sexual relacionados aos movimentos de reforma e contrarreforma a repressão e a imprensa além de

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contribuir para uma ampliação da circulação de obras consideradas eróticas/pornográficas motivou o surgimento de uma cultura erótica sobretudo imagética tendo como apreciadores além da elite letrada um público das mais diversas classes sociais que através das obras encontrou um meio de transgressão das normas entre a concepção do erótico na antiguidade e na contemporaneidade o ponto divergente está na transgressão enquanto o erótico na cultura antiga eram textos com intuito de diversão educação e claro excitação no mundo moderno o erótico entre censores prisões e condenações tornou-se transgressão da moralidade social a repressão à ampla difusão das obras eróticas fez com que esta se torne um meio não apenas de transgredir a moral religiosa mas também instrumento de crítica social e política como as obras libertinas do século xviii as recorrentes punições àqueles que produziam e possuíam obras por nográficas conduziu a uma nova restrição à posse de livros assim brochuras baratas ilustradas eram produzidas com intuito de serem lidas e descartadas logo em seguida de forma a não se ser surpreendido com obras consideradas obscenas e portanto passíveis de punição no século xix a repressão aumenta com a ascensão da burguesia e a instauração da moral vitoriana ou seja um período em que a cultura erótica como movimento social político e anti-moralista marginal praticamente desaparece no mesmo sentido que a erótica é medicalizada e criminalizada e aqueles que tivessem em sua posse alguma obra suspeita eram considerados pervertidos após o século xix mais do que ordenar o desejo ao ser humano se impõe sua anulação refletindo mais do que nunca o eros descrito por platão em sua forma mendicante de desejos insatisfeitos reprimidos proibidos nublados pela moralidade pública que por vezes condena o erótico a `mass media e a indústria pornográfica também auxiliaram na banalização do corpo ao transformar a sexualidade numa mercadoria a ser consumida compulsivamente desejo e consumo se confundem corpos pensados e vendidos como perfeitos tornam-se banais o erotismo emaranhado à longa exposição de corpos e sexo perde-se é esquecido em escritos da carne o corpo do fotografado o corpo do fotógrafo o meu corpo e o teu corpo erótico estão presentes nessa exposição ou melhor nesse convite ao reencontro com eros primordial sobretudo na reflexão do desejo do corpo erótico ficcional presentes na literatura e na música em que a erótica tornase novamente uma exuberância da vida carla fernanda da silva historiadora pesquisadora professora universitária e aficionada por fotografia.

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«quando dei por mim eu estava na mesma posição minha mão totalmente melecada por um líquido desconhecido levantei-me um pouco confusa e demorou muito para eu voltar ao normal era quase hora do dejeuner então apressei-me para vestir e descer.» fotógrafas carla fernanda da silva e sally satler

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«quero ficar no teu corpo feito tatuagem » chico buarque imagem projetada o beijo gustav klimt fotógrafos aline assumpção e charles steuck

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«o lodo lambuzou minha camisa branca ofuscante cheirando lama não tive medo arranquei-a exibindo brancas serenas e nuas mamas.» beli lessa fotógrafo carlos lobe

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fotógrafa mariana florêncio

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«e que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor a outra metade também -que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer» oswaldo montenegro

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«em cada silêncio do corpo indentifica-se a linha do sentido universal que à forma breve e transitiva imprime a solene marca dos deuses e do sonho entre folhas surpreende-se na última ninfa o que na mulher ainda é ramo e orvalho e mais que natureza pensamento da unidade inicial do mundo mulher planta brisa mar o ser telúrico espontâneo como se um galho fosse da infinita árvore que condensa o mel o sol o sal o sopro acre da vida.» carlos drummond de andrade a metafísica do corpo.

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«sugar e ser sugado pelo amor no mesmo instante boca milvalente o corpo dois em um o gozo pleno que não pertence a mim nem te pertence um gozo de fusão difusa transfusão o lamber o chupar o ser chupado no mesmo espasmo é tudo boca boca boca boca sessenta e nove vezes boquilíngua.» carlos drummond de andrade sugar e ser sugado pelo amor fotógrafo ivan schulze

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«quem és perguntei ao desejo respondeu lava depois pó depois nada i porque há desejo em mim é tudo cintilância antes o cotidiano era um pensar alturas buscando aquele outro decantado surdo à minha humana ladradura visgo e suor pois nunca se faziam hoje de carne e osso laborioso lascivo tomas-me o corpo e que descanso me dás depois das lidas sonhei penhascos quando havia o jardim aqui ao lado pensei subidas onde não havia rastros extasiada fodo contigo ao invés de ganir diante do nada ii ver-te tocar-te que fulgor de máscaras que desenhos e rictus na tua cara como os frisos veementes dos tapetes antigos.

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que sombrio te tornas se repito o sinuoso caminho que persigo um desejo sem dono um adorar-te vívido mas livre e que escura me faço se abocanhas de mim palavras e resíduos me vêm fomes agonias de grandes espessuras embaçadas luas facas tempestade ver-te tocar-te cordura crueldade iii colada à tua boca a minha desordem o meu vasto querer o incompossível se fazendo ordem colada à tua boca mas descomedida Árdua construtor de ilusões examino-te sôfrega como se fosses morrer colado à minha boca como se fosse nascer e tu fosses o dia magnânimo eu te sorvo extremada à luz do amanhecer» hilda hilst do desejo fotógrafas carla fernanda da silva e sally satler

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