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a histÓria sem fim michael ende martins fontes são paulo i993 alfarrabista dono karl konrad esta inscrição encontrava-se na porta envidraçada de uma pequena loja mas naturalmente só tinha este aspecto quando do interior sombrio da loja se olhava para a rua através da vidraça lá fora era uma manhã cinzenta e fria de novembro e chovia a cântaros as gotas escorriam pela vidraça e por cima das letras floreadas tudo o que se via através da vidraça era uma parede manchada pela chuva do outro lado da rua de repente a porta se abriu com tanta força que os sininhos de latão que pendiam sobre ela começaram a tilintar e só pararam depois de alguns instantes o causador deste tumulto era um garoto baixo gordo de uns dez ou onze anos o cabelo castanho-escuro molhado caía-lhe sobre o rosto tinha o casaco encharcado de chuva e trazia a tiracolo uma pasta escolar presa por uma correia estava um pouco pálido e ofegante mas apesar de há pouco parecer ter muita pressa continuava parado diante da porta aberta como se estivesse pregado no chão À sua frente estendia-se um compartimento comprido e estreito cujos fundos se perdiam na escuridão nas paredes havia estantes que iam do chão ao teto abarrotadas de livros de todos os tamanhos e formas no chão empilhavam-se montes de grandes manuscritos e em algumas mesinhas havia também montes de livros menores encadernados em couro com capas enfeitadas a ouro por trás de uma parede de livros da altura de um homem colocada ao fundo do compartimento brilhava a luz de um candeeiro desse local iluminado erguia-se de vez em quando uma argola de fumo que ia aumentando de tamanho para depois desaparecer lá em cima na escuridão pareciam sinais de fumaça usados pelos índios para enviarem mensagens de colina em colina era óbvio que havia alguém ali e com efeito o rapaz ouviu uma voz bastante rude que por detrás da parede de livros dizia ou entre ou saia mas feche a porta está ventando o rapaz obedeceu e fechou a porta de mansinho depois aproximou-se da parede de livros e espreitou cautelosamente para o outro lado um homem atarracado estava sentado por detrás dos livros numa poltrona de orelhas de couro muito gasto vestia um terno escuro amarrotado que parecia muito usado e como que empoeirado tinha a barriga apertada em um colete estampado o homem era calvo mas por cima das orelhas havia dois tufos de cabelos brancos espetados o rosto era vermelho e lembrava a cara de um buldogue feroz o nariz bulboso sustentava um par de óculos pequenos dourados além disso fumava um cachimbo curvo que lhe pendia dos lábios obrigando-o a torcer a boca segurava sobre os joelhos um livro que devia estar lendo pois fechara-o deixando o grosso indicador da mão esquerda entre as páginas como um marcador por assim dizer.
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o homem tirou os óculos com a mão direita examinou o rapaz pequeno e gordo que se mantinha de pé à sua frente com o casaco encharcado e fechando um pouco os olhos o que lhe acentuou o ar de ferocidade limitou-se a murmurar minha nossa depois abriu novamente o livro e recomeçou a ler o rapaz não sabia muito bem o que fazer por isso deixou-se ficar simplesmente ali fitando o homem com os olhos muito abertos finalmente o velho fechou novamente o livro deixando o dedo entre as páginas e resmungou preste atenção menino eu não gosto de crianças sei que está na moda fazer um grande alarido quando se trata de vocês mas comigo não não gosto nada nada de crianças para mim não passam de uns patetas choramingas de uns desajeitados que estragam tudo sujam os livros de geléia rasgam as páginas e não querem nem saber dos problemas e preocupações que os adultos possam ter digo isto para que você não se iluda além do mais não tenho livros para crianças e nem venderei outros livros a você espero ter sido claro disse tudo isto sem tirar o cachimbo da boca no fim tornou a abrir o livro e recomeçou a leitura o rapaz assentou em silêncio e fez menção de se retirar de alguma forma porém pareceu-lhe que não poderia aceitar aquele sermão sem protestar e por isso voltou-se uma vez mais e disse baixinho nem todos são assim o homem ergueu lentamente os olhos do livro e voltou a tirar os óculos você ainda está aí diga-me uma coisa o que é preciso fazer para eu me ver livre de você o que você tinha de tão importante para dizer não era importante respondeu o rapaz ainda mais baixinho eu só queria dizer que nem todas as crianças são assim como o senhor disse então é isso o homem levantou as sobrancelhas com ar de espanto e certamente você é a grande exceção não é o rapazinho gordo não soube o que responder encolheu ligeiramente os ombros e voltou-se para ir-se embora bela educação ouviu a voz resmungona dizer atrás de si isto você não deve ter muita senão pelo menos tinha-se apresentado meu nome é bastian disse o rapaz bastian baltazar bux mas que nome curioso resmungou o homem com esses três bês mas você não tem culpa de ter esse nome não foi você que o escolheu eu me chamo karl konrad koreander três ks disse o rapaz com um ar sério hum resmungou o velho correto deu umas baforadas no cachimbo mas pouco interessa como nos chamamos porque não vamos voltar a nos ver agora eu gostaria de saber uma coisa por que é que você entrou com tanta pressa em minha loja parecia que você estava fugindo de alguma coisa estava bastian acenou que sim com a cabeça seu rosto redondo empalideceu os olhos abriram-se ainda mais provavelmente assaltou a caixa de uma loja supôs o senhor koreander ou bateu em uma velhinha ou fez qualquer coisa dessas que vocês costumam fazer a polícia está atrás de você rapaz bastian sacudiu a cabeça vamos responda disse o sr koreander de quem você está fugindo dos outros.
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que outros dos rapazes da minha classe por quê porque nunca me deixam em paz o que eles fazem ficam me esperando na saída da escola e depois ficam me xingando me empurram e riem de mim e você não faz nada o sr koreander fitou o rapaz por algum tempo com ar reprovador e depois perguntou e por que você não lhes dá um murro no nariz bastian olhou para ele com os olhos arregalados não gosto de bater e além disso não sou muito bom no boxe e brigar você também não sabe perguntou o sr koreander você sabe correr nadar jogar bola fazer ginástica ou não sabe fazer nada disso o rapaz fez que não com a cabeça em outras palavras você é um molengão não é verdade disse o sr koreander bastian encolheu os ombros mas falar você sabe disse o sr koreander por que não responde quando eles zombam de você já fiz isso uma vez e o que aconteceu eles me colocaram numa lata de lixo e amarraram a tampa fiquei chamando umas duas horas até que alguém me ouviu hum resmungou o sr koreander e agora você não se atreve a fazer outra vez a mesma coisa bastian fez que sim com a cabeça tudo isso quer dizer concluiu o sr koreander que você é um medroso bastian baixou a cabeça mas aposto que você é um bom aluno não é o melhor da classe que só tira dez o preferido dos professores ou não não disse bastian mantendo os olhos baixos no ano passado eu repeti pelo amor de deus exclamou o sr koreander então você é um fracasso total bastian não disse nada deixou-se simplesmente ficar onde estava os braços caídos o casaco pingando o que é que eles dizem quando zombam de você quis saber o sr koreander não sei tudo o que lhes vem à cabeça por exemplo gordo gordão parece um balão quando sobe na árvore se esborracha no chão esta não tem muita graça disse o sr koreander e que dizem mais bastian hesitou antes de responder maluco cabeça de vento mentiroso convencido maluco por quê sabe às vezes eu falo sozinho e o que é que você fica falando imagino histórias invento nomes e palavras que ainda não existem e outras coisas assim e você conta essas coisas para você mesmo por quê porque não interessam a mais ninguém o sr koreander calou-se durante algum tempo pensativo.
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e os seus pais que dizem disso tudo bastian não respondeu logo depois de algum tempo murmurou o meu pai não diz nada nunca diz nada não quer saber de nada e a sua mãe já não está conosco os seus pais são separados não disse bastian a minha mãe morreu nesse momento tocou o telefone o sr koreander levantou-se com alguma dificuldade da sua poltrona e arrastando os pés dirigiu-se para um pequeno gabinete que ficava nos fundos da loja tirou o fone do gancho e bastian com um pouco de esforço ouviu-o dizer o nome mas depois o sr koreander fechou a porta do gabinete e não se ouviu mais nada além de um murmúrio abafado bastian deixou-se ficar onde estava sem saber como aquilo tudo tinha acontecido e porque ele havia dito e confessado tudo aquilo detestava que lhe fizessem perguntas de repente apavorado deu-se conta de que ia chegar atrasado à escola sim tinha que se apressar correr mas deixou-se ficar onde estava indeciso alguma coisa o retinha e ele não sabia ao certo o que era continuava a ouvir no gabinete a voz abafada do sr koreander a conversa ao telefone não acabava mais bastian deu-se conta de que durante todo o tempo estivera olhando fixamente o livro que o sr koreander tinha nas mãos e que se encontrava agora sobre a poltrona de couro era como se o livro tivesse uma espécie de magnetismo que o atraía irresistivelmente aproximou-se da poltrona estendeu a mão devagar e tocou o livro e no mesmo instante ouviu dentro de si um clique como se tivesse sido pego em uma ratoeira bastian teve a estranha sensação de que aquele toque desencadeara qualquer coisa que agora devia forçosamente seguir seu curso levantou o livro e olhou-o por todos os lados a capa era de seda cor-de-cobre e brilhava quando ele mudava o livro de posição folheando rapidamente o volume observou que estava impresso em duas cores diferentes não parecia ter gravuras mas as letras que iniciavam os capítulos eram grandes e muito ornamentadas examinando melhor a capa descobriu duas serpentes uma clara e outra escura que mordiam uma a cauda da outra formando uma figura oval dentro dessa figura em letras cuidadosamente traçadas estava o título a história sem fim as paixões humanas são misteriosas e as das crianças não o são menos que as dos adultos as pessoas que as experimentaram não as sabem explicar e as que nunca as viveram não as podem compreender há pessoas que arriscam a vida para atingir o cume de uma montanha ninguém é capaz de explicar por quê nem mesmo elas outras arruínam-se para conquistar o coração de uma determinada pessoa que nem quer saber delas outras ainda destroem-se a si mesmas porque não são capazes de resistir aos prazeres da mesa ou da garrafa outras há que arriscam tudo o que possuem num jogo de azar ou sacrificam tudo a uma idéia fixa que nunca se pode realizar algumas pensam que só podem ser felizes em outro lugar que não naquele onde estão e vagueiam pelo mundo durante toda a vida há ainda as que não descansam enquanto não conquistam o poder em suma as .paixões são tão diferentes quanto o são as pessoas a paixão de bastian baltasar bux eram os livros.
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quem nunca passou tardes inteiras diante de um livro com as orelhas ardendo e o cabelo caído sobre o rosto esquecido de tudo o que o rodeia e sem se dar conta de que está com fome ou com frio quem nunca se escondeu embaixo dos cobertores lendo um livro à luz de uma lanterna depois de o pai ou a mãe ou qualquer outro adulto lhe ter apagado a luz com o argumento bem-intencionado de que já é hora de ir para a cama pois no dia seguinte é preciso levantar cedo quem nunca chorou às escondidas ou na frente de todo mundo lágrimas amargas porque uma história maravilhosa chegou ao fim e é preciso dizer adeus às personagens na companhia das quais se viveram tantas aventuras que foram amadas e admiradas pelas quais se temeu ou ansiou e sem cuja companhia a vida parece vazia e sem sentido quem não conhece tudo isto por experiência própria provavelmente não poderá compreender o que bastian fez em seguida olhou fixamente o título do livro e sentiu ao mesmo tempo arrepios de frio e uma sensação de calor ali estava uma coisa com a qual ele já havia sonhado muitas vezes que tinha desejado muitas vezes desde que dele se apoderara aquela paixão secreta uma história que nunca acabasse o livro dos livros tinha de o conseguir a qualquer custo a qualquer custo isso era muito fácil de dizer mesmo que o livro custasse mais do que os três marcos e cinqüenta pfennings da sua mesada que trazia no bolso e eram todo o dinheiro que possuía aquele antipático sr koreander já lhe tinha explicado com toda a clareza que não lhe venderia nenhum livro e com certeza também não o daria de presente não havia esperanças e no entanto bastian sabia que não podia ir embora sem o livro percebia agora que tinha entrado na loja por causa daquele livro que o livro o tinha atraído de alguma forma misteriosa porque queria pertencer a ele porque de fato a ele pertencera desde sempre bastian escutou atentamente o murmúrio que continuava a se ouvir no gabinete sem se dar conta do que fazia escondeu o livro embaixo do casaco e apertou-o contra o corpo com ambos os braços sem fazer barulho recuou até à porta da loja olhando sempre para a outra porta a do gabinete ergueu o trinco com cuidado não queria que os sininhos de latão fizessem barulho por isso entreabriu a porta de vidro só o necessário para poder escapulir para a rua fechou a porta com cuidado pelo lado de fora sem fazer barulho só então começou a correr os cadernos os livros da escola e o estojo que estavam dentro da pasta saltavam e faziam barulho ao ritmo dos seus passos começou a sentir uma pontada do lado mas continuou a correr a chuva escorria-lhe pelo rosto e entrava-lhe para o pescoço o frio e a umidade passavam pelo casaco mas bastian nem o notava sentia calor e não era só de correr a sua consciência que não tinha dado sinal de vida enquanto ele estava na loja começava a despertar todas as justificativas que antes lhe tinham parecido tão convincentes perdiam agora o seu valor derretiam-se como bonecos de neve ao sopro de um dragão que lança chamas pela boca tinha roubado era um ladrão o que fizera era ainda pior do que um simples roubo sem dúvida aquele livro era único e insubstituível fora certamente o maior tesouro do sr koreander roubar a um
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violinista o seu violino ou a um rei a sua coroa era muito pior do que assaltar um banco enquanto corria mantinha o livro bem apertado contra o corpo por baixo do casaco não o queria perder apesar do muito que lhe ia custar era tudo o que tinha no mundo pois é claro que agora não podia voltar para casa tentou imaginar seu pai sentado no grande aposento em que trabalhava À sua volta havia dezenas de moldes de gesso de dentaduras humanas pois seu pai era dentista bastian nunca tinha pensado se seu pai gostava ou não do trabalho que fazia pela primeira vez ocorrera-lhe isto mas nunca mais poderia perguntar aquilo a seu pai se fosse agora para casa o pai interrompendo o trabalho sairia da oficina com seu avental branco provavelmente trazendo na mão uma dentadura de gesso e perguntaria já voltou já responderia bastian você não teve aula hoje era como se visse o rosto triste e calmo de seu pai sabia que não seria capaz de lhe mentir mas também não podia dizer-lhe a verdade não a única coisa que podia fazer era ir embora para qualquer lado para muito longe seu pai nunca deveria saber que o filho era um ladrão e talvez nem sequer reparasse que bastian já não estava em casa esse pensamento era quase consolador bastian deixara de correr agora ia devagar e ao final da rua avistou a escola sem se dar conta tinha tomado o caminho de costume a rua parecia-lhe completamente vazia apesar de haver algumas pessoas mas para o aluno que chega tarde à escola o mundo que o rodeia sempre parece morto de qualquer modo bastian tinha medo da escola cenário das suas derrotas diárias medo dos professores que o corrigiam amavelmente ou lhe despejavam suas iras medo dos outros rapazes que dele zombavam e não perdiam uma oportunidade sequer de lhe mostrar como ele era fraco e desajeitado não era a primeira vez que a escola lhe parecia uma prisão onde ele sofria um castigo infindável que duraria até que ele crescesse e que tinha de suportar com muda resignação mas agora quando percorria os corredores cheios de ecos que cheiravam a cera e a casacos molhados quando o silêncio ameaçador lhe tapava os ouvidos como bolas de algodão e quando finalmente chegou em frente da porta da sua classe pintada com a mesma cor verde-espinafre das paredes percebeu de repente que também ali não tinha mais nada a perder tinha de ir embora e o melhor era fazê-lo já mas para onde bastian tinha lido em seus livros histórias a respeito de rapazes que se alistavam em um navio e corriam o mundo em busca de sua sorte alguns tornavam-se piratas ou heróis outros voltavam ricos para casa ao fim de muitos anos sem que ninguém os reconhecesse mas bastian não tinha coragem para tanto além disso estava convencido de que não o aceitariam como grumete nem sequer sabia o caminho para um porto onde houvesse navios apropriados para tão arriscados empreendimentos para onde ir então e de repente lembrou-se do lugar certo do único lugar onde pelo menos por agora ninguém o iria procurar e encontrar o sótão era grande e escuro cheirava a pó e a naftalina não se ouvia nenhum ruído a não ser o tamborilar suave da chuva sobre as chapas de cobre do enorme telhado grandes vigas enegrecidas pelo tempo erguiam-se a distâncias regulares sobre o chão de madeira encontravam-se lá em cima com as vigas do forro e desapareciam na escuridão daqui e dali pendiam teias de aranha grandes como redes de dormir que balançavam suave e fantasmagoricamente à corrente de ar lá de cima da clarabóia descia um raio de luz esbranquiçada.
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a única coisa viva neste lugar onde o tempo parecia ter parado era um ratinho que saltitava sobre as tábuas do assoalho e que deixava um rastro de pegadas minúsculas impressas no pó entre as pegadas havia um risco fino feito pela cauda que se arrastava no chão de repente o animalzinho parou e ficou à escuta e logo fsst desapareceu num buraco entre as tábuas ouviu-se o ruído de uma chave girando na grande fechadura devagar a porta do sótão se abriu rangendo e por alguns instantes um longo raio de luz atravessou o compartimento bastian entrou e fechou logo a porta que voltou a ranger meteu a grande chave pelo lado de dentro da fechadura e deu-lhe a volta depois empurrou o ferrolho e suspirou aliviado agora era impossível encontrá-lo ninguém viria procurálo ali raramente alguém ia até o sótão disso ele tinha certeza e mesmo que alguém tivesse alguma coisa para fazer ali nesse dia ou no dia seguinte encontraria a porta fechada e a chave tinha desaparecido mesmo que de alguma forma conseguissem abrir a porta bastian teria tempo para se esconder entre os trastes guardados no sótão pouco a pouco seus olhos se habituaram à escuridão conhecia bem aquele lugar seis meses antes o diretor da escola pedira-lhe que o ajudasse a transportar um grande cesto de roupa cheio de impressos e papéis velhos que deveriam ser guardados no sótão fora então que vira onde estava guardada a chave da porta num armário de parede pendurado no último patamar da escada desde então nunca mais tinha pensado nisso mas agora lembrara-se outra vez bastian começou a tiritar pois o casaco estava encharcado e ali em cima fazia muito frio antes de mais nada tinha de procurar um lugar confortável afinal ele ia ficar muito tempo ali por quanto tempo bem nisso ele não queria pensar nem na fome e na sede que em breve começaria a sentir começou a explorar o local o sótão estava entulhado de toda a espécie de trastes uns caídos outros em pé estantes cheias de dossiês e livros de atas que já há muito tempo não se utilizavam carteiras empilhadas e manchadas de tinta uma armação em que estavam pendurados uma dúzia de mapas velhos vários quadros-negros cuja tinta preta se descascara fogões de ferro enferrujados aparelhos de ginástica inutilizados tais como um cavalo cujo revestimento de couro estava tão rasgado que o forro saía lá de dentro bolas de ginástica rebentadas um monte de colchões de ginástica velhos e manchados e além disso alguns animais empalhados roídos pelas traças entre eles uma enorme coruja uma águia real e uma raposa toda a espécie de retortas químicas e recipientes de vidro rachados uma máquina eletrostática um esqueleto humano pendurado numa espécie de cabide e muitas caixas e caixotes cheios de velhos colchões de ginástica se se deitasse em cima deles seria como se estivesse sentado num sofá arrastou-os para debaixo da clarabóia onde havia mais luz perto dali estavam empilhadas algumas mantas da tropa rasgadas e bastante empoeiradas mas que ainda podiam servir bastian foi buscá-las tirou o casaco molhado e pendurou-o no cabide juntamente com o esqueleto o monte de ossos balançou um pouco para cá e para lá mas bastian não teve medo talvez porque estivesse habituado a coisas muito parecidas em sua casa tirou também as botas encharcadas de meias sentou-se sobre as pernas cruzadas em cima dos colchões de ginástica e cobriu os ombros com uma manta cinzenta como um índio tinha junto de si a pasta e o livro de capa cor-de-cobre pensou que nesse momento seus colegas deveriam estar na aula de língua talvez estivessem fazendo uma redação sobre algum tema desinteressante bastian olhou para o livro.
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gostaria de saber disse para si mesmo o que se passa dentro de um livro quando ele está fechado É claro que lá dentro só há letras impressas em papel mas apesar disso deve acontecer alguma coisa porque quando o abro existe ali uma história completa lá dentro há pessoas que ainda não conheço e toda a espécie de aventuras feitos e combates e muitas vezes há tempestades no mar ou alguém vai a países e cidades exóticos tudo isso de algum modo está dentro do livro É preciso lê-lo para o saber é claro mas antes disso já está lá dentro gostaria de saber como e de repente sentiu que aquele momento tinha algo de solene endireitou-se no assento pegou o livro abriu-o na primeira página e começou a ler a história sem fim i fantasia em perigo correr todos os animais do bosque de haule escondiam-se em suas tocas ninhos e buracos era meia-noite e um vento tempestuoso assobiava nos cimos das antiqüíssimas e gigantescas árvores os troncos grossos como torres estalavam e gemiam de repente uma luzinha fraca passou em ziguezague pelo bosque parou tremeluzindo aqui e ali subiu empoleirou-se em um ramo e logo a seguir continuou o seu caminho era uma esfera luminosa do tamanho de uma bola de criança que se deslocava em extensos saltos tocando o chão de vez em quando e logo voltando a flutuar no ar mas não era uma bola era um fogo-fátuo e tinha-se perdido era portanto um fogo-fátuo perdido uma coisa muito rara mesmo em fantasia normalmente são os fogos-fátuos que fazem com que as outras pessoas se percam dentro da esfera de luz via-se uma figurinha pequena e muito viva que saltava e corria o mais que podia não era homem nem mulher pois entre os fogos-fátuos não existem essas diferenças segurava na mão direita uma bandeirinha branca minúscula que se agitava atrás dele tratava-se portanto de um mensageiro ou de um embaixador não havia perigo de que a figurinha batesse no tronco de uma árvore durante seus vôos na escuridão pois os fogos-fátuos são extraordinariamente ágeis e rápidos podendo mudar de direção mesmo em meio a um salto daí o percurso em ziguezague descrito pela luz embora de uma maneira geral ela avançasse sempre em uma determinada direção até que chegou a uma saliência rochosa e retrocedeu assustado sentou-se no buraco de uma árvore ofegante como um cãozinho e meditou durante um momento antes de se atrever a aparecer de novo e olhar cuidadosamente para o outro lado do rochedo À sua frente estendia-se uma clareira da floresta onde estavam sentadas três figuras de aspecto e tamanho muito diferentes iluminadas pela luz de uma fogueira um gigante que parecia feito de pedra cinzenta e tinha quase três metros de comprimento estava deitado no chão de barriga para baixo tinha o tronco erguido e apoiado sobre os cotovelos e olhava a fogueira em seu rosto de pedra maltratada pelas intempéries estranhamente pequeno em relação a seus ombros poderosos destacavam-se os dentes que pareciam uma fila de cinzéis de aço o fogo-fátuo percebeu que o gigante era da raça dos come-rochas estes seres viviam muito longe do bosque de haule numa montanha mas não viviam só na montanha viviam da montanha pois devoravam-na
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aos poucos alimentavam-se de rochedos felizmente eram muito modestos e podiam viver durante semanas ou meses com uma única dentada desse alimento para eles muito substancial além disso não havia muitos come-rochas e por outro lado a montanha era muito grande mas como estes seres ali viviam há muito tempo eram muito mais velhos do que a maior parte das outras criaturas de fantasia ao longo dos anos a montanha adquirira um aspecto muito estranho parecia um queijo emental gigante cheio de buracos e cavernas e por isso mesmo chamavam-lhe a montanha dos túneis mas os come-rochas não só se alimentavam de pedras como também usavam a pedra para fazerem tudo de que precisavam móveis chapéus sapatos ferramentas e até relógios-cuco por isso não seria de se estranhar que este come-rochas tivesse estacionado ali perto uma espécie d bicicleta totalmente feita daquele material com duas rodas que pareciam enormes mós de moinho no conjunto a bicicleta mais parecia um cilindro com pedais a segunda figura sentada à direita da fogueira era um pequeno gnomo noturno tinha no máximo o dobro da altura do fogo-fátuo e parecia uma lagarta preta como alcatrão coberta de pêlos que se tivesse posto em pé gesticulava vivamente ao falar com as suas minúsculas mãozinhas cor-de-rosa no lugar onde devia estar o rosto por baixo dos pêlos pretos eriçados brilhavam dois grandes olhos redondos como luas em fantasia havia muitos gnomos noturnos de todas as formas e tamanhos portanto à primeira vista não era possível adivinhar se este vinha de perto ou de longe de qualquer modo porém parecia estar de viagem pois o animal que os gnomos noturnos costumam montar um grande morcego estava pendurado de cabeça para baixo num ramo atrás do gnomo com as asas enroladas em volta do corpo como um guardachuva fechado só ao fim de algum tempo o fogo-fátuo conseguiu descobrir a terceira figura sentada à esquerda da fogueira pois ela era tão pequena que àquela distância quase não se distinguia pertencia à raça dos minúsculos e era um homenzinho muito elegante usava um terninho colorido e trazia na cabeça um chapéu vermelho alongado o fogo-fátuo quase nada sabia dos minúsculos já tinha ouvido dizer que esse povo construía cidades inteiras nos ramos das árvores e que as casinhas eram ligadas entre si por escadinhas escadas de corda e escorregadores no entanto esse povo vivia num lugar totalmente à parte no reino sem fronteiras de fantasia mais longe muito mais longe ainda do que os come-rochas tanto mais surpreendente era o fato de ser um caracol o animal que aquele minúsculo tinha perto de si e que usava para montar o animal estava parado atrás dele sobre a sua casca cor-de-rosa reluzia uma pequena sela prateada o freio e as rédeas que lhe pendiam das antenas também brilhavam como fios de prata o fogo-fátuo ficou admirado em ver três seres tão diferentes sentados juntos como bons amigos pois normalmente em fantasia nem todas as espécies viviam em paz e harmonia havia muitas lutas e guerras e também rivalidades seculares entre algumas das espécies além disso nem todas eram boas e honradas havia também criaturas trapaceiras perversas e cruéis o fogo-fátuo pertencia precisamente a uma família que deixava alguma coisa a desejar do ponto de vista da credibilidade e da honestidade só depois de ter contemplado durante algum tempo a cena iluminada pela fogueira é que o fogo-fátuo percebeu que os três personagens traziam uma bandeirinha branca ou uma fita também branca atravessada no peito portanto eram todos mensageiros ou negociadores e naturalmente isso explicava por que se comportavam tão pacificamente mas àquela distância não era possível entender o que diziam devido ao barulho do vento que assobiava na folhagem das árvores mas como se respeitavam mutuamente na qualidade de mensageiros talvez considerassem também como tal o fogo-fátuo e não
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lhe fizessem mal afinal de contas ele tinha de perguntar o caminho a alguém talvez não aparecesse outra oportunidade tão favorável em plena floresta e no meio da noite o fogo-fátuo encheu-se pois de coragem saiu do seu esconderijo acenou com a bandeirinha branca e ficou à espera tremeluzindo no ar o come-rochas que tinha o rosto virado em sua direção foi o primeiro a vê-lo há hoje muito movimento por aqui disse com uma voz áspera aí vem outro huhu um fogo-fátuo murmurou o gnomo e os seus olhos redondos brilharam que prazer que prazer o minúsculo levantou-se deu alguns passos na direção do recém-chegado e disse com uma voz que parecia o trinar de um pássaro pelo que vejo você também está aqui na qualidade de mensageiro estou sim disse o fogo-fátuo o minúsculo tirou o seu chapéu vermelho alongado fez uma pequena reverência e disse com voz agradável então aproxime-se por favor também nós somos mensageiros venha sentar-se conosco e apontou convidativamente com o chapéu para um lugar livre junto à fogueira muito obrigado disse o fogo-fátuo aproximando-se timidamente vou tomar essa liberdade permitam-me me apresentar eu me chamo blubb muito prazer respondeu o minúsculo eu me chamo ukuk o gnomo noturno inclinou-se sem se levantar o meu nome é vuchvusul muito prazer resmungou o come-rochas eu sou piornrachzark todos olharam para o fogo-fátuo que desviou os olhos nervoso os fogos-fátuos detestam que as outras pessoas os olhem nos olhos você não quer se sentar amigo blubb perguntou o minúsculo a verdade é que estou com muita pressa respondeu o fogo-fátuo eu só queria perguntar se vocês saberiam me ensinar o caminho para a torre de marfim huhu fez o gnomo noturno quer ir visitar a imperatriz criança É isso mesmo disse o fogo-fátuo tenho uma mensagem muito importante para ela que mensagem perguntou o come-rochas com sua voz estridente bem fez o fogo-fátuo mudando o peso do corpo de uma perna para a outra trata-se de uma mensagem secreta nós três temos a mesma missão que você huhu replicou o gnomo noturno vuchvusul estamos entre colegas pode ser até que levamos a mesma mensagem opinou o minúsculo ukuk sente-se e conte-nos rangeu piornrachzark o fogo-fátuo sentou-se no lugar vazio a minha terra começou ele depois de refletir um pouco fica muito longe daqui não sei se algum dos presentes a conhece chama-se o pântano da podridão huhu ganiu o gnomo noturno encantado uma linda região o fogo-fátuo sorriu É não é e isto é tudo guinchou piornrachzark por que você iniciou sua viagem blubb na nossa terra no pântano da podridão continuou o fogo-fátuo hesitante aconteceu uma coisa uma coisa inacreditável ou melhor ainda está para acontecer é difícil explicar começou assim a leste de nossa terra há um lago ou melhor dizendo havia que se chamava caldo fervente tudo começou quando certo dia o lago caldo fervente desapareceu pela manhã não estava mais ali compreendem quer dizer que secou perguntou ukuk.
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não respondeu o fogo-fátuo se assim fosse haveria ali um lago seco mas não foi assim no lugar onde havia o lago não havia nada nada mesmo compreendem havia um buraco rangeu o comedor de rochedos não não havia um buraco o fogo-fátuo parecia cada vez mais atrapalhado um buraco ainda é alguma coisa e ali não há nada os três outros mensageiros olharam uns para os outros e que aspecto tinha então huhu esse nada perguntou o gnomo noturno exatamente isto é que é tão difícil de explicar replicou o fogo-fátuo com um ar infeliz na verdade não se parece com coisa alguma É como como bom não há palavras para explicar É como se uma pessoa ficasse cega quando olhasse para esse lugar não é interrompeu o minúsculo o fogo-fátuo fitou-o boquiaberto É exatamente isso exclamou mas como é que você sabe quero dizer onde é que já se viu uma coisa assim espere rangeu o come-rochas intervindo na conversa isso só aconteceu nesse lugar a princípio sim explicou o fogo-fátuo quer dizer só que o lugar do nada foi crescendo pouco a pouco cada vez faltava mais um pedaço de nossa terra o velhosapo umpf que vivia com seu povo no lago do caldo fervente desapareceu num passe de mágica outros habitantes do nosso país começaram a fugir mas pouco a pouco começou a acontecer a mesma coisa em outros lugares do pântano da podridão a princípio o que sumia era muito pequeno uma coisa de nada do tamanho de um ovo de galinha mas esses lugares foram aumentando se alguém por descuido pusesse o pé num desses lugares o pé desaparecia também ou a mão ou tudo o que lá entrasse não doía mas de repente a pessoa ficava com um pedaço a menos algumas pessoas atiravam-se de propósito lá para dentro ao verem que o nada se aproximava demais É que o nada exerce uma atração irresistível tanto mais forte quanto maior é o lugar ninguém na nossa terra sabia o que era aquela coisa horrível de onde vinha e o que podia fazer para combatê-la e como não desaparecia por si pelo contrário cada vez crescia mais resolvemos finalmente mandar um mensageiro à imperatriz criança para lhe pedir conselho e ajuda e sou eu esse mensageiro os outros três olhavam para a frente em silêncio huhu disse ao fim de um momento a voz lastimosa do gnomo noturno lá no lugar onde eu moro aconteceu exatamente a mesma coisa e eu comecei minha jornada pela mesma razão huhu o minúsculo voltou o rosto para o fogo-fátuo todos nós prosseguiu ele piando como um passarinho vivemos em regiões diferentes de fantasia encontramo-nos aqui totalmente por acaso mas todos trazemos a mesma mensagem para a imperatriz criança e isso quer dizer gemeu o come-rochas que fantasia inteira está em perigo o fogo-fátuo fitou-os assustadíssimo mas então gritou ele levantando-se de um salto não podemos perder nem mais um segundo nós também queríamos partir imediatamente explicou o minúsculo tivemos de interromper aqui a nossa viagem por causa da escuridão impenetrável do bosque de haule mas agora que você está aqui blubb você poderá iluminar nosso caminho impossível gritou o fogo-fátuo não posso esperar por pessoas montadas em caracóis sinto muito mas é um caracol de corrida disse o minúsculo um tanto ofendido.
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e além disso huhu murmurou o gnomo noturno se você não esperar por nós não lhe ensinaremos o caminho com quem é que vocês estão falando rangeu o come-rochas É que o fogo-fátuo já não ouvira as últimas palavras dos outros mensageiros e afastara-se pela floresta em grandes saltos ora comentou ukuk empurrando para a nuca o seu chapéu vermelho e alongado também este fogo-fátuo não era o mais indicado para nos iluminar o caminho e saltou para a sela do seu caracol de corrida também eu disse o gnomo noturno chamando o seu morcego com um suave huhu preferiria que cada um viajasse por sua conta afinal nem todos podem voar e desapareceu na escuridão o come-rochas apagou a fogueira dando-lhe simplesmente algumas pancadas com a palma da mão também prefiro ir sozinho rangeu ele na escuridão porque assim não preciso tomar cuidado para não esmagar um minúsculo ouviu-se o estalar de ramos e o rangido provocado pela sua bicicleta de pedra atravessando a floresta de vez em quando ele se chocava surdamente com um tronco gigantesco e ouviam-se os estalos e os rangidos da pedra pouco a pouco toda essa barulheira foi sumindo na escuridão ukuk o minúsculo ficou sozinho pegou as rédeas de fino fio de prata e disse bom vamos ver quem chega primeiro vamos lá meu velho pra frente e estalou a língua depois disso não se ouviu mais nada senão o vento tempestuoso que assobiava no cimo das árvores do bosque de haule o relógio da torre próxima bateu nove horas os pensamentos de bastian regressaram contrariados à realidade sentia-se contente por a história sem fim nada ter a ver com esta realidade não gostava dos livros que com mau humor e acidamente narravam acontecimentos absolutamente vulgares da vida absolutamente vulgar de pessoas absolutamente vulgares conhecia muito bem tudo isso da sua vida real por isso não precisava ler essas coisas além disso detestava quando queriam convencê-lo a fazer alguma coisa e esses livros queriam sempre convencer as pessoas de alguma coisa de uma maneira mais ou menos óbvia bastian preferia os livros emocionantes ou divertidos ou que falavam à imaginação livros que contavam as aventuras fabulosas de criaturas fantásticas e em que se podia imaginar tudo o que se quisesse pois isso ele sabia fazer talvez a única coisa que soubesse fazer bem imaginar uma coisa com tanta clareza que era quase capaz de a ver e ouvir quando contava uma história a si mesmo esquecia-se de tudo o que o rodeava e só acordava para a realidade no final da história como se tivesse sonhado e aquele livro era exatamente do mesmo gênero das histórias que ele inventava .ao lê-lo era como se ouvisse os estalos da madeira dos troncos grossos das árvores o assobio do vento nos cimos das árvores as vozes diferentes dos quatro estranhos mensageiros e quase pudera sentir o cheiro do musgo e do chão da floresta lá embaixo na escola começava a aula de ciências naturais em que só se falava de inflorescências e de estames bastian sentia-se contente por estar aqui em cima no seu esconderijo lendo o livro era exatamente do tipo que ele gostava seu gênero preferido!
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uma semana depois vuchvusul o gnomo noturno foi o primeiro a chegar ao seu destino ou melhor estava convencido de ser o primeiro porque viera pelo ar o sol já se punha e as nuvens crepusculares pareciam ouro em fusão quando ele percebeu que seu morcego pairava sobre o labirinto era esse o nome de uma grande planície que se estendia de um horizonte ao outro e que não era senão um grande jardim florido recendente aos perfumes mais estonteantes e onde se misturavam as mais lindas cores entre os arbustos as sebes os prados e os canteiros de flores raras e estranhas desenhavam-se ruas largas e caminhos estreitos tão ramificados e entrelaçados que todo o jardim formava um enorme labirinto É claro que este labirinto era feito para brincadeiras e divertimentos e não para que as pessoas se perdessem de verdade ou para desorientar os estrangeiros não poderia ser esta a finalidade deste lugar e a imperatriz criança também não precisava dessa proteção não havia em todo o reino sem fronteiras de fantasia ninguém de quem ela tivesse de se defender e isso por uma razão que já vamos explicar enquanto o pequeno gnomo noturno montado em seu morcego pairava silenciosamente sobre este labirinto florido ele via toda espécie de estranhos animais numa pequena clareira entre lilases e citisos brincava uma manada de jovens unicórnios iluminados pelo sol da tarde depois pareceu-lhe ver debaixo de uma gigantesca campainha azul o célebre pássaro fênix em seu ninho mas não conseguiu ter certeza e também não quis voltar para trás para ver melhor a fim de não perder mais tempo agora no meio do labirinto erguia-se à sua frente resplandecente a torre de marfim o coração de fantasia e a residência da imperatriz criança a palavra torre pode dar uma idéia errada a uma pessoa que nunca tenha visitado este lugar pois esta torre em nada se parecia com a torre de uma igreja ou de um castelo a torre de marfim era tão grande como uma cidade de longe parecia o cume de uma montanha alto e pontiagudo retorcido em espiral como a concha de um caracol e cujo ponto mais alto desaparecia nas nuvens só quando as pessoas se aproximavam é que percebiam que esse gigantesco pão-de-açúcar se compunha de uma infinidade de torres torrinhas cúpulas telhados varandas terraços portões escadas e balaustradas que se cruzavam e entrelaçavam tudo isso era feito em marfim de um branco puríssimo e feérico e todos os detalhes estavam esculpidos com tanta perfeição que o conjunto parecia uma finíssima renda em todos esses edifícios viviam os membros da corte da imperatriz criança os camareiros e criados as feiticeiras e os astrólogos os mágicos e os bobos os mensageiros os cozinheiros e os acrobatas os equilibristas e os contadores de história os arautos jardineiros guardas alfaiates sapateiros e alquimistas e lá em cima na ponta mais alta da poderosa torre morava a imperatriz criança em um pavilhão que tinha a forma de um botão de magnólia certas noites quando a lua cheia brilhava esplendorosa no céu estrelado as pétalas de marfim se abriam e desabrochavam em maravilhosa flor no centro da qual se sentava a imperatriz criança o pequeno gnomo noturno aterrissou seu morcego em um dos terraços mais baixos onde se situavam as cavalariças para os animais alguém devia ter anunciado a sua chegada pois já estavam à sua espera cinco guardas imperiais que o ajudaram a desmontar inclinaram-se perante ele e em seguida silenciosamente estenderam-lhe a bebida cerimonial de boas-vindas para respeitar o protocolo vuchvusul apenas molhou os lábios na taça de marfim devolvendo-a depois aos guardas cada um dos guardas bebeu então um gole inclinaram-se novamente e conduziram o morcego às cavalariças tudo isto se passou em silêncio o morcego instalado no lugar que lhe estava reservado não tocou nem na comida nem na bebida enrolou-se novamente pendurou-se de cabeça para baixo em seu poleiro e
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caiu no sono profundo do cansaço o pequeno gnomo noturno tinha-lhe exigido demais os guardas deixaram-no em paz e saíram na ponta dos pés para não fazer barulho nesta cavalariça por sinal havia muitos outros animais um elefante azul e outro corde-rosa um grifo gigantesco cuja metade superior do corpo era de águia e a inferior de leão um cavalo alado branco cujo nome fora conhecido outrora fora de fantasia mas que hoje está esquecido alguns cães voadores outros morcegos e até libélulas e borboletas para cavaleiros especialmente pequenos em outras cavalariças havia também animais que não voavam mas que corriam rastejavam saltavam ou nadavam e junto de cada um deles havia um guarda para os tratar e limpar normalmente seria de se esperar que aqui se ouvisse uma confusão de vozes diferentes rugidos uivos gritos pios grasnidos e cacarejos mas reinava um silêncio total o pequeno gnomo noturno continuava ainda onde os guardas o tinham deixado sentiuse de repente abatido e desanimado sem saber ao certo por quê estava muito cansado da sua longa viagem e o fato de ter sido o primeiro a chegar nem sequer o animava olá ouviu de repente uma vozinha gorjeante não é o nosso amigo vuchvusul ainda bem que você já chegou o gnomo noturno olhou à sua volta e seus olhos redondos brilhavam de admiração quando viu que em cima de uma balaustrada encostado a um vaso de marfim estava o minúsculo ukuk que agitava o seu chapéu vermelho e alongado huhu fez o gnomo noturno desconcertado depois de alguns instantes repetiu huhu não lhe ocorria nenhuma observação mais inteligente os outros dois explicou o minúsculo ainda não apareceram eu estou aqui desde ontem de manhã mas como huhu isso foi possível perguntou o gnomo noturno bem replicou o minúsculo sorrindo com uma certa condescendência eu disse que tinha um caracol de corrida o gnomo noturno cocou a penugem negra da cabeça com a mãozinha cor-de-rosa tenho de falar imediatamente à imperatriz criança disse ele em tom queixoso o minúsculo contemplou-o pensativo huhu fez ele eu já anunciei ontem a minha chegada anunciou a sua chegada perguntou o gnomo noturno então não se pode ir logo falar com ela não pode ser replicou o minúsculo É preciso esperar muito tempo há aqui como direi um grande número de mensageiros huhu queixou-se o gnomo noturno e por quê o melhor trinou o minúsculo é ver com seus próprios olhos venha meu caro vuchvusul venha comigo e puseram-se os dois a caminho a rua principal que subia pela torre de marfim formando uma espiral cada vez mais estreita estava apinhada de uma multidão de estranhas figuras gênios gigantescos usando turbante duendes minúsculos ogres de três cabeças anões barbudos fadas luminosas faunos de patas de bode gênios da floresta de pelagem loira encara-colada resplandecentes espíritos das neves e inúmeros outros seres fantásticos subiam e desciam a rua formavam grupos e falavam baixinho ou estavam agachados no chão em silêncio olhando para frente com ar melancólico quando vuchvusul viu aquilo tudo parou huhu disse mas o que aconteceu aqui o que é que toda esta gente está fazendo aqui?
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são todos mensageiros explicou ukuk baixinho mensageiros de todas as regiões de fantasia e todos trazem a mesma mensagem que nós já falei com muitos deles parece que por toda parte surgiu o mesmo perigo o gnomo noturno soltou um longo e lamentoso suspiro e alguém sabe perguntou o que é esta coisa e de onde vem e a imperatriz criança a imperatriz criança está doente disse o minúsculo baixinho muito doente talvez seja essa a causa da incompreensível desgraça que se abateu sobre fantasia mas até agora nenhum dos muitos médicos que vieram ao palácio e estão reunidos lá em cima no pavilhão da magnólia foram capazes de descobrir o que ela tem e como se trata essa doença ninguém conhece o remédio mas isso disse o gnomo noturno surdamente é huhu uma verdadeira catástrofe pois é respondeu o minúsculo É isso mesmo dadas as circunstâncias vuchvusul desistiu de anunciar pelo menos de momento sua chegada à imperatriz criança dois dias depois chegou o fogo-fátuo blubb que tinha se perdido como era de se esperar e por isso fizera um enorme desvio e finalmente três dias depois chegou também o come-rochas piornrachzark vinha a pé marcando o chão com profundas pegadas porque tinha comido sua bicicleta de pedra durante um ataque de fome repentino comera-a como se ela fosse sua provisão de viagem durante o longo período de espera esses quatro mensageiros tão diferentes tornaram-se muito amigos e mais tarde prosseguiram viagem juntos mas essa é uma outra história e terá de ser contada em outra ocasião ii atreiú É chamado bastava descerem-se alguns andares a partir do pa hão de magnólia para se chegar à grande sala do tron da torre c marfim situada no interior do palácio propriamente dito ali se realizavam via de regra as conferências em que se discutiam o bem-estar e o futuro de fantasia esta grande sala circular estava agora cheia do rumor surdo de muitas vozes os quatrocentos e noventa e nove melhores médicos do reino de fantasia encontravam-se ali reunidos e sussurravam ou cochichavam uns com os outros em grupos pequenos ou grandes todos eles tinham examinado a imperatriz criança uns há mais tempo outros há menos e todos tinham tentado ajudá-la com a sua sabedoria mas nenhum fora bem-sucedido nenhum sabia qual a doença de que ela sofria ou conhecia a sua causa nenhum deles sabia como curá-la e o médico de número quinhentos o mais célebre de todos os de fantasia do qual dizia a lenda que conhecia todas as ervas medicinais todos os remédios mágicos e todos os segredos da natureza já estava há algumas horas junto à paciente e todos esperavam ansiosos pelo resultado do seu exame É claro que esta reunião não se parecia em nada com um congresso médico humano havia no reino de fantasia muitos seres que tinham um aspecto mais ou menos humano mas havia pelo menos outros tantos que se pareciam com animais ou que tinham uma aparência estranha diferente da de todas as outras criaturas assim como os mensageiros que esperavam lá fora tinham aspectos muito diferentes também o grupo
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