REVISTA PREÁ N 22

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teatro de cultura popular tcp chico daniel casa da cultura potiguar rua jundiaí 641 tirol ­ anexo a fundação josé augusto telefone 3232 5307

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editorial razões diversas nos impediram de manter a tão sonhada regularidade da nossa preá e quando as águas parecem finalmente que vão abrandar o destino me coloca mais um desafio profissional aqui estou rumo a novos horizontes e tendo que deixar pra trás a editoria desta revista que tanto me aproximou da cultura do nosso estado eternizo aqui minha gratidão de ter tido a oportunidade de poder me deparar com tantos textos e imagens que se candidatam às páginas da nossa revista deixo também meu respeitoso agradecimento a todos que tão prontamente e cordialmente aceitaram meu pedido de colaboração e como não poderia deixar de ser agradeço à direção da fja e a todos os meus colegas desta instituição por me ajudarem a burilar minha alma cultural e a ter mais consciência do rio grande do norte que vivo não só geograficamente mas principalmente apaixonadamente em minha substituição virá o jornalista carlos barbosa a quem acima de tudo desejo menos ­ de preferência nenhum ­ entrave burocrático para que assim a preá continue refletindo através da arte traços importantes da nossa essência potiguar no mais espero que curtam esta edição da revista vida longa à preá mary land brito governador preá revista de cultura do rio grande do norte ano 06 nº 22 editora mary land brito marybrito@rn.gov.br revisor josé albano da silveira foto capa alex fernandes projeto gráfico e design firenzze comunicação estratégica projeto gráfico paulo moreira assistência de arte roberto luiz e vitor pimentel fundação josé augusto rua jundiaí 641 ­ tirol cep 59020 120 84 3232 5304 www.fja.rn.gov.br iberê paiva ferreira de souza diretor geral crispiniano neto fjagabinete@rn.gov.br diretor adjunto fábio h lima de almeida fabiolima@rn.gov.br preÁ ago/set 2009 3

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sumário capa entrevista pedro grilo literatura artigo o poeta popular bob mota josé augusto costa jr alex fernades 22 08 artes visuais fotografia nas pegadas de lampião 32 vai vai vai começar a brincadeira luiz nepomuceno 16 jean lopes sua majestade o pirão vicente serejo 12 poesia galeria victor hugo zamorra 38 preá 4 preÁ ago/set 2008 joão andrade 28 crônica morre o circo vai-se uma infância norton ferreira 30 22.

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música rap potiguar juliana manzano mais trabalhando pela cultura do bem flávio rezende 58 um jeito negro de ser camila rodrigues 62 arez a terra que promete silvio santiago audiovisual cinema cinema e ficção científica nelson marques 48 40 música poesia e delicadeza delicatto michelle ferret 52 68 artes cênicas teatro os wanderley e o teatro do rio grande do norte racine santos 44 alex fernades militana salustino a romanceira do brasil ledson frança 88 arte-poesia yasmine lemos e venâncio pinheiro 90 seções editorial 03 crispiniano neto 06 preÁ out/nov 2008 5

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preá de novo ufa finalmente a preá volta a chover conhecimentos no chão da cultura potiguar depois de uma longa e tenebrosa estiagem críticas muito pesadas e dúvidas muito cheias de certezas como sempre são as dos nossos críticos agüentamos o prego no olho e fomos trabalhar aliás convencionouse que liberdade de expressão virou privilégio de quem quer destruir reputações as vítimas só têm direito as bordoadas como qualquer resposta escrita ou falada é vista como truculência vamos continuar respondendo com trabalho enquanto for possível deixemos de lado os desaforos vamos ao que interessa finalmente depois de todos os percalços da burocracia e da burrocracia com o tão elogiado quanto famigerado pregão eletrônico aqui estamos basta dizer que numa das nossas licitações para a impressão da revista preá tivemos como ganhadora uma gráfica de maceió e na outra uma de fortaleza já não bastava uma máquina off-set que tivemos que comprar em curitiba e que a assistência técnica é uma via-sacra internacional pois o fabricante está do outro lado do mundo e a importadora fechou depois da venda e mais uma licitação para hospedagem de artistas e oficineiros ganha por uma empresa do rio de janeiro que sublocou um hotel local mas não lhe deu qualquer autonomia no gerenciamento do contrato deixando a fundação josé augusto impossibilitada de usar o serviço que comprara por falta de interlocução para mudar um hóspede de apartamento tinha que oficializar com o rio de janeiro uma triangulação nada prática e mais uma licitação de um evento teatral ganha por uma empresa da paraíba que mandamos investigar sua sede em bayuex e descobrimos que se tratava de uma empresa laranja mas toda legalizada desqualificamo-la ao custo de uma trabalheira danada enfim estamos ainda por conhecer as vantagens do pregão eletrônico que são muitas mas ainda não chegaram à rua jundiaí até no pregão presencial tem problemas saibam todos que uma empresa que nunca construiu nada atrasou em dois meses as obras da cidade da criança criando dificuldades para tentar vender facilidades aprendemos que nessas horas não se pode ceder preferível perder o prazo a perder a postura anchieta xavier 6 preÁ ago/set 2009

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vamos à revista que você tem em mãos a última editada por mary land brito que nos deixou por ter assumido um emprego internacional bem melhor que os sofridos e mal pagos cargos de confiança que não nos permitem uma qualidade de vida confiável esta edição da revista preá traz na capa a figura romântica de pedro grilo um artista de qualidade e multifacetado pintor poeta e cantor lírico que precisa andar de sombreiro em natal para garantir seu lugar ao sol onde prevalecem a cultura dos donos e os donos da cultura bob mota é o poeta popular destacado um poeta do asfalto que se fez matuto por opção e aprendeu cantar o sertão como se lá morasse o artigo de vicente serejo sobre sua majestade o pirão é majestoso o texto de serejo que segundo canindé queiroz escreve com uma pena de ouro cravejada de brilhantes tem cheiro e sabor de pirão tem poemas de joão andrade vencedor do prêmio de poesia luis carlos guimarães cujo livro com versos dos premiados está finalmente prestes a sair a crônica de norton ferreira morre o circo vai-se uma infância tem gosto de espetáculo sim senhor o ensaio fotográfico nas pegadas de lampião nos traz a nostalgia e a beleza de um sertão ainda hoje setenta e três anos depois ainda marcado em sua cultura pela passagem de um bandido que se fez capitão um homem de ferro que carregava consigo o código de honra de um cavaleiro andante e a ferocidade de um huno de nova espécie como o qualificou lauro da escóssia vendo esse ensaio lembro meu neto de nove anos na casa da fazenda onde virgulino viveu sua infância pai Ôto lampião era do bem ou do mal era do bem e do mal depende de com quem ele estava falando do bem ou do mal o fato é que a influência do cangaço na cultura nordestina é incomensurável por falar em cultura do bem temos também flávio rezende com sua casa do bem que agora é projeto patrocinado pela petrobrás com incentivo da lei câmara cascudo um artigo primoroso como ele próprio o é da lavra do cineclubista nelson marques joga luzes sobre a ficção científica no cinema vitor hugo zamorra da associação dos artistas plásticos do rn mostra uma galeria de traços e cores nossos na música vamos aos extremos os bons extremos juliana manzano nos traz o rap potiguar e michelle ferret registra o rastro de luz deixado pelo delicatto que soube casar tão bem o erudito com o popular camila rodrigues ganhadora do prêmio rubens lemos de jornalismo cultural nos premiou com um jeito negro de ser sílvio santiago com fotos de alex fernandes nos traz as grandezas históricas e as belezas de arez uma cidade que promete e ainda se tem a poesia de yasmine lemos com ilustrações de venâncio pinheiro todos à leitura preá de novo crispiniano neto diretor geral preÁ ago/set 2009 7

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literatura artigo 8 preÁ ago/set 2009

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por josé augusto costa júnior pesquisador da cultura popular o poeta popular bob motta bob motta natalense nascido em 1948 é um artista múltiplo que tem dado importantes contribuições à cultura popular principalmente à nordestina sua obra transita entre várias vertentes de memória prodigiosa bob declama centenas de poemas décor a maioria de sua autoria e outros de consagrados poetas como pinto do monteiro lourival dimas e otacílio batista louro branco geraldo amâncio zé laurentino entre outros as temáticas abordadas são as mais variadas espaço geográfico e sentimental do nordeste suas tradições religiosidade festas sacras e profanas culinária superstições jogos etc os gêneros poéticos de bob também são vastos segue a tradição dos grandes cordelistas e muitos dos seus poemas podem figurar ao lado dos mestres abraão batista josé da costa leite patativa do assaré zé saldanha xexéu e inúmeros outros herdou também muitos dos gêneros da cantoria de viola nordestina e tem predileção especial pelos martelos agalopados e pelos galopes à beira mar ambos com estrofes de dez versos contudo sua verve poética aflora mesmo quando compõe suas trovas e glosas este último gênero notadamente a glosa fescenina é bastante difundido no rio grande do norte e imortalizou poetas como moisés sesyom e celso da silveira bob segue a linha dos dois em natal a trova foi e é cultivada por grandes poetas como esmeraldo siqueira renato caldas palmira wanderley zé lucas de barros e seu sogro arlindo castor desse último bob recebeu grandes ensinamentos e influências na arte de escrever trovas na prosa suas criações são igualmente repletas de caráter telúrico lírico satírico e anedótico no entanto o carro-chefe são os seus causos burlescos e apimentados o seu livro no cantinho do zé povo cada causo é um causo título é o resultado de uma seleção de cem causos das centenas que escreveu para o jornal de hoje no qual o poeta mantém uma coluna semanal a coluna cantinho do zé povo é dedicada àqueles que vibram com as presepadas do matuto do sertão e se emocionam com o romantismo e com as tiradas geniais dos boêmios da cidade neste livro estão presentes através dos seus causos crônicas e poemas a atmosfera geográfica e humana dos lugares em que o escritor viveu com saudosismo discorre sobre a natal boêmia do seu tempo seus bares e casas de tolerância beréus como diz bob redutos de cafetinas damas da noite pederastas alegres bebedores inveterados que freqüentam o escritório nos quatro expedientes exalta também saborosas estórias de artistas intelectuais enfim figuras humanas possuidoras das características mais diversas pitorescas tragicômicas amáveis e inusitadas está também preÁ ago/set 2009 9

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inserido nas narrativas o cenário do cariri paraibano onde o senhor joão francisco da motta seu joão motta pai de bob tinha suas propriedades lá aprendeu os costumes e tradições da terra por ele adotada e que também o adotou bem como do seu povo ouviu desafios de repentistas assistiu e participou das festas de apartação e viu momentos de afeto entre seus camaradas e as jumentas boas de sela evoca personagens com os quais conviveu amigos de farra amigos do peito cozinheiras da fazenda e vaqueiros como seu júlio preto pivô de inúmeras presepadas o autor confessa suas traquinagens como o episódio em que derramou pimenta-do-reino no salão do forró de chão batido com intuito de provocar espirro nas pessoas que dançavam bob nos conta ainda causos de domínio público que foram recriados pelo seu inconfundível talento narrativo falar sobre a obra completa de bob seria um não-acabar são nove livros publicados dois cd s gravados com letras poemas e melodias de sua autoria e mais de cem títulos de folhetos de cordel publicados ressalto que há ainda muito de sua produção que está inédita a arte feita por bob motta consegue traçar um painel significativo do nordeste e do nordestino nos seus aspectos psicológicos sociológicos antropológicos e folclóricos dos seus sessenta anos de vida mais de trinta são dedicados à cultura popular nordestina o artista tem representado o rio grande do norte em diversos eventos interestaduais entre eles a quinta edição da flip-festa literária internacional de paraty-rj primeiro encontro de contadores de causos do nordeste na fundação gilberto freyre-pe terceira conferência nacional das cidades em brasília-df além disso tem sido agraciado com prêmios literários homenagens e títulos em vários estados brasileiros o que merece ser lembrado e comemorado por todos aqueles que cultivam nossas tradições 10 preÁ ago/set 2009

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m oteo mundo sÓ vÊi prestÁ dispÔi qui eu num presto mais glosa no tempo in qui eu era môço era rim de namorá era só biête e oiá era difíce era ôsso hoje porém é um colôsso para a môça e p ru rapaiz qui dão boa noite aos pais se tranca e vão se deitá o mundo sÓ vÊi prestÁ dispÔi qui eu num presto mais quem num tem qué sê artista e se diz neocordelista só qué mêrmo aparicê e cuma num aparece cum o valô do verso seu agride faiz e acuntece na seara in qui se meteu dirmetrifica num rima e qué ainda pru cima dizê qui o cordel morreu tombém mostra no qui fala totá discunhincimento cordel num tem só cem ano lhe afirmo nêsse mumento no século dizêssêis afirmo a todos vocêis cordel já era instrumento dais narrativa e de históra da sua divurgação duis mito de cada povo e da sua tradição de uma séivintia imensa era bem antes da imprensa a fonte de infóimação cordelista verdadêro iscreve o verso rimado num agride o cumpanhêro seu verso é metrificado p ro neocordel nem dá bola purisso é qui nais iscola êle é tão solicitado neocordelista veíce lhe juro sem brincadêra normaimente é respeitada de tôda e quaiqué manêra lhe dêxa isigí respeito porém lhe tira o dêreito de andá falando bestêra bob motta natal-rn 26.mar.2009 disabafo de um cordelista verdadÊro sinhô neocordelista quero in verso lhe dizê qui cordel ninguém aprende nasce cum o dom pode crê preÁ ago/set 2009 11

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literatura artigo sua majestade o pirÃo o pirão glÓria do brasil gilberto freyre por vicente serejo fotos anchieta xavier na história do pirão tudo é majestoso de sua ancestralidade humilde e rupestre desde os mingaus da cozinha indígena cinco vezes secular até a glória quase heráldica ungido que foi por gilberto freyre num artigo de louvação há quase setenta anos hábito velho de índios e negros sobrevive até hoje na mesa de ricos e pobres como uma companhia indispensável aos cozidos de carnes aves peixes e crustáceos sua história vasta e erudita repousa em livros clássicos e populares com uma bibliografia consagradora e é sem dúvida nenhuma um dos mais importantes complexos culturais na história da alimentação brasileira a história do pirão tem uma raiz ­ verdadeira e ao mesmo tempo alegórica a mandioca com uma presença em todo o brasil desde o caminho sinuoso do rio amazonas pontilhado de aldeias até sua larga presença ao longo de todo interior e litoral brasileiros nossos índios quando os portugueses colonizadores aqui chegaram com seus olhos cheios de ambição já dominavam duas técnicas na fabricação da farinha descascavam ralavam secavam ao sol e peneiravam ou deixavam de molho nas suas canoas nas águas correntes dos rios até largarem a casca virando a puba macia e fermentada os mingaus salgados portanto nascidos das culinárias indígena e negra existem antes mesmo do batismo do nome pirão com presença nas narrativas dos melhores viajantes e cronistas desde o brasil colonial e se mantém nos livros e roteiros gastronômicos até hoje seu valor cultural e sociológico pode ter sido um pioneirismo do olhar de gilberto freyre na primeira metade dos anos vinte há mais de oitenta anos no artigo que publicou no diário de pernambuco 12 preÁ ago/set 2009

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o pirão é uma obra prima nacional câmara cascudo e fez constar na seleção do seu livro `artigos de jornal velha edição mozart no recife de 1940 mas foi câmara cascudo quem contou e fixou sua história divino pirão É assim exclamativo e esplêndido que gilberto defende a importância do pirão antes mesmo da existência formal de uma gastronomia brasileira para ele nunca `se pintou no brasil um quadro nem se escreveu um poema nem se plasmou uma estátua nem se compôs uma sinfonia que igualasse em sugestões de beleza a um prato de pirão e cita artur ferreira `uma onda de ouro por onde se espaneja o verde das couves cobra a pintura e até sugere ao pintor imaginário um `fundo todo de pirão amarelo considera freyre que a cozinha do brasil patriarcal foi na formação do nosso gosto a idade de ouro do pirão consagrando sua permanência na mesa das nossas conversas sociais e políticas e lembra um então recente movimento inglês nascido nas rodas literárias daquela inglaterra de meados do século xix para a defesa da culinária com um dever que recomendava `trabalhar pela elevação da arte culinária na inglaterra não a fez mais rica e criativa registra freyre mas ressalva a qualidade insuperável da carne de carneiro palmilhando um chão velho de quinhentos anos numa introdução vasta e erudita onde desenha o retrato do índio sua fome e sua mesa câmara cascudo parte da carta de pero vaz de caminha percorre os grandes cronistas e viajantes como as testemunhas fiéis ao tempo e à experiência do olhar e fixa o ponto de partida da história da alimentação brasileira no cardápio dos tupiniquins quando não mais apenas coletavam cita na carta do piloto anônimo registro de 1584 `uma raiz chamada inhame confirmando a observação de pero de magalhães gandavo bem antes em 1573 `o que lá se come em lugar de pão é farinha-de-pau a mandioca é pois literalmente a raiz dessa história se gandavo foi o primeiro a descrevê-la nas hastes avermelhadas nos pequenos ramos que partem com os ventos tormentosos e no porte que varia de cinco a seis palmos caminha percebe sua importância 73 anos antes quando preÁ ago/set 2009 13

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artigo chega e escreve `eles não lavram nem criam nem há aqui boi ou vaca cabra ovelha ou galinha ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem e não comem senão deste inhame de que aqui há muito e depois `e com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto com quanto trigo e legumes comemos o pirão nasce portanto como informa a professora paula pinto e silva no artigo que escreveu em março de 2001 para a gazeta mercantil quando os índios usaram a farinha e fizeram uma papa ou uma sopa grossa e cremosa na mistura com o caldo de peixe ao descobrirem a cerâmica puderam cozinhar presos que viviam aos peixes e caças moqueados ou assados ela informa o sucesso do pirão no brasil colonial há cinco séculos `originário do mingau que na língua geral da costa significa aproximadamente `comida gosmenta o mingau indígena conquistou o paladar do branco que acabara de chegar era o pirão as raízes indígenas são brasileiras as negras são africanas mas as duas se misturam na história do pirão câmara cascudo em `made in África livro de 1965 avisa `o português levou o pirão brasileiro para angola e o angolano trouxe o funje para o brasil e faz a reserva de importância das três influências o indígena contribuiu com as constâncias e permanências o negro sofreu `um processo de aculturação em que se perderam muitos elementos originais de sua culinária o português introduziu a técnica e a arte de fazer ainda para cascudo não há diferen ça essencial entre o pirão e o funje e cita oscar ribas para explicar que a palavra `pirão é indígena com a sua origem `nhengatu e se fixou no brasil no século xvi `fúnji é africana É ribas quem explica o fúnje `É a massa cozida de farinha denominada fubá geralmente de milho massambola mandioca ou batata-doce a professora angela delouche aceita a receita africana mas avisa que é diferente do funje da zona da mata em pernambuco a massa é molhada e fresca e não de farinha seca o pirão portanto cumpre a função de ser um dos traços da identidade cultural brasileira constante e permanente no cardápio de todas as mesas ricas e pobres tradicionais e modernas não foi à toa que numa velha crônica de acta diurna em junho de 1947 há mais de sessenta anos câmara cascudo considerou a comida como reveladora da identidade cultural e social de um povo a partir do título `dize-me o que comes à frase que completa e conclui `dizeme o que comes e direi se és realmente homem do teu país no texto relaciona ícones de várias culturas gastronômicas do mundo `um churrasco que tem história real no passado continental a feijoada completa o cozido com todos os pertences o peixe cozido com pirão vatapá que traz todos os vícios e virtudes da grande bahia são os elementos constantes de uma civilização traços indisfarçáveis de uma nacionalidade como o puchero uruguaio o cocido espanhol a polenta napolitana o porridge da escócia o bacalhau à portuguesa o borsh russo a sexa sueca 14 preÁ ago/set 2009

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o cuscús árabe a tortilha mexicana o tofu do japão o knackebrood da finlândia o bife inglês a salada francesa no pequeno dicionário de gastronomia de maria lucia gomensoro há dois verbetes indispensáveis como citações escaldado ­ o pirão mexido que os pescadores nordestinos chamam de `escaldaréu e o pirão que a autora aponta como traço da cozinha nacional separando no caso o pirão escaldado do pirão mexido no primeiro basta derramar o caldo fervente sobre a farinha seca É o pirão coberto ou pirão de pobre no segundo a farinha é posta em pequenas porções sempre mexendo até ganhar consistência É o pirão de rico no sertão o pirão de leite acompanhador da carne de sol e da rapadura o leite quente substitui o caldo nas regiões sul e sudeste os dicionários de gastronomia registram o escaldado de peru prato típico do dia seguinte ao natal e ano novo feito a partir dos restos da ceia e no caso da carcaça do peru e o pirão de ovos estalados que maria lucia gomensoro registra como sendo uma espécie de escaldado `ovos refogados com pimenta ardida servido com farinha de mandioca engrossada na gordura onde os ovos foram feitos sem falar do pirão de galinha gorda caipira fonte de sustança para o nordestino forte e sem carrego para guardar o resguardo das mulheres paridas assim como os povos do mar acreditam na bondade do peixe com escama na água e no sal porque não é reimoso o pirão é nosso filho legítimo da farinha que segundo câmara cascudo na sua monumental história da alimentação no brasil tem uma explicação `técnica portuguesa com material brasileiro o pirão brasileiro é uma obra prima nacional colaboração afetuosa e positiva da permanência realizadora como a mulata a farinha ainda é cascudo quem explica é o alimento nacional primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade e depois `a alimentação é o espaço das permanências e portanto aquele em que se fixa mais profundamente a tradição rogéria campos de almeida dutra professora de antropologia da universidade federal de juiz de fora estudando a culinária na formação da cultura brasileira parte de câmara cascudo e gilberto freyre da importância dos dois nordestinos como os portadores do projeto da `inteligentsia brasileira na primeira metade do século passado de construir a identidade nacional valorizando exatamente o que era considerado o grande empecilho para nossa construção como nação e para o progresso da sociedade brasileira a mistura a mestiçagem que nos distanciava do padrão europeu de tradição cujo prejuízo estaria relacionado a fortes componentes raciais eis o pirão na sua majestade de obra prima com quinhentos anos de glória preÁ ago/set 2009 15

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