Livro Notícias da Favela - Cristiane Ramalho

 

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O Viva Favela foi o primeiro site jornalístico criado para as comunidades em contraponto ao jornalismo tradicional. Cristiane, editora do site entre 2001 e 2006, conta como foi a experiência pioneira de formar e trabalhar com repórteres, fotógrafos e edit

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notícias da favela

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notícias da favela cristiane ramalho patrocínio apoio

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copyright ©2007 cristiane ramalho coleÇÃo tramas urbanas curadoria heloisa buarque de hollanda consultoria ecio salles projeto gráfico cubÍculo noticÍas da favela produção editorial larissa de moraes e robson cÂmara revisão stephania matousek revisão tipográfica bruno dorigatti curadoria de imagens kita pedroza e sandra delgado assistência de curadoria walter mesquita fotos de capa kita pedroza r135n ramalho cristiane notícias da favela cristiane ramalho rio de janeiro aeroplano 2007 il tramas urbanas 1 anexos inclui bibliografia isbn 978-85-86579-93-6 1 viva favela portal rio de janeiro rj 2 favelas rio de janeiro rj recursos de redes de computadores 3 favelas aspectos sociais rio de janeiro rj 4 jornalismo eletrônico rio de janeiro rj 5 jornais comunitários rio de janeiro rj 6 organizações não-governamentais rio de janeiro rj 7 movimentos sociais rio de janeiro rj i título ii série 07-2853 cdd 070.43 cdu 070.1:004.73 25.07.07 26.07.07 002858 todos os direitos reservados aeroplano editora e consultoria ltda av ataulfo de paiva 658 sala 401 leblon ­ rio de janeiro ­ rj cep 22440 030 tel 21 2529 6974 telefax 21 2239 7399 aeroplano@aeroplanoeditora.com.br www.aeroplanoeditora.com.br

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nas tantas periferias brasileiras ­ periferia urbana periferia social ­ se reforçam cada vez mais movimentos culturais de todos os tipos os mais visíveis talvez sejam os de alguns segmentos específicos grupos musicais grupos cênicos grupos dedicados às artes visuais mas de idêntica importância embora com menos visibilidade é a produção intelectual que cuida além de questões artísticas de temas históricos sociais ou políticos a coleção tramas urbanas faz em seus dez volumes um consistente e instigante apanhado dessa produção amplificada e ao mesmo tempo abre janelas estende pontes para um diálogo com artistas e intelectuais que não são originários de favelas ou regiões periféricas dos grandes centros urbanos seus organizadores se propõem a divulgar o trabalho de intelectuais dessas comunidades e que pela primeira vez na nossa história interpelam a partir de um ponto de vista local alguns consensos questionáveis das elites intelectuais a petrobras maior empresa brasileira e maior patrocinadora das artes e da cultura em nosso país apóia essa coleção de livros entendemos que é de nossa responsabilidade social contribuir para a inclusão cultural e o fortalecimento da cidadania que esse debate pode propiciar desde a nossa criação há pouco mais de meio século cumprimos rigorosamente nossa missão primordial que é a de contribuir para o desenvolvimento do brasil e lutar para diminuir as distâncias sociais é um esforço imprescindível a qualquer país que se pretenda desenvolvido.

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a sven e nina minha alegria cotidiana a walter em memória diana e claudia ramalho por tudo aos correspondentes comunitários por me ensinarem um novo olhar sobre as favelas cariocas.

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agradecimentos a grande culpada pela existência deste notícias da favela é ilana strozenberg antropóloga e professora da universidade federal do rio de janeiro ufrj desde o primeiro momento ela acreditou ­ e me fez acreditar ­ na importância deste registro com sua animação contagiante ilana esteve presente ao longo de todo o processo trazendo sugestões iluminadas e questionando pontos fracos É dela acima de tudo o mérito de ter idealizado uma pesquisa sobre o viva favela que se provaria vital para a reconstrução de boa parte das histórias aqui relatadas merecem crédito ainda os estudantes que realizaram as entrevistas na pesquisa coordenada por ilana aletéia maria da silva ana carolina alves beatriz nascimento lins de oliveira clarissa peixoto carolina andrade eric macedo esther medeiros fernando vannier gênis fidélis luana monçores de lima luciano mello marcelo pereira garcia marília assad de oliveira rafael galdo renata giannini raphael bispo dos santos simone cunha thiago prado e thiago sabatinelli rodrigues gostaria acima de tudo de dividir os possíveis acertos desta publicação com os correspondentes comunitários e jornalistas que trabalharam no projeto no período abordado 2001 a 2005 e que aqui despontam como protagonistas com suas narrativas e reportagens.

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meu agradecimento mais do que especial vai para a jornalista tetê oliveira companheira de todas as horas no viva favela que muito ajudou a construir a história do veículo ­ e a viabilizar o seu registro ­ com suas sugestões certeiras sua boa memória e sua dedicação carinhosa mais do que especial também é meu agradecimento a heloisa buarque de hollanda diretora da aeroplano editora pelas sábias considerações e pela fé inabalável no projeto É dela a idéia de fugir de um relato teórico e frio distante da realidade que experimentamos no portal e transformar notícias da favela numa grande reportagem sobre os bastidores do jornalismo nas favelas cariocas meu carinho ainda para toda a equipe da aeroplano aí incluída a revisora stephania matousek pela dedicação e gentileza aos jornalistas andré trigueiro cristina azevedo denise ribeiro flávio pinheiro isabela kasow marcelo beraba marcelo moreira márcia vieira marcos sá corrêa rafael casé sergio torres oscar valporto e xico vargas minha gratidão por terem ajudado a esclarecer aspectos importantes nesta narrativa o mesmo vale para peter lucas e sandra carvalho acima de tudo é impossível esquecer o papel desempenhado pelas amigas e editoras de fotografia kita pedroza e sandra delgado ex-companheiras de viva favela que além das bemvindas sugestões ao texto ainda se dispuseram a realizar a dificílima seleção das fotos aqui apresentadas todo o meu carinho a elas e também ao fotógrafo walter mesquita que deu grande força na pesquisa desse material por fim uma dívida eterna com os amigos que tiveram a disposição de ler os originais e de trocar idéias atenéia feijó christina vital fernando ewerton regina taccola silvia leitão e valéria propato a mônica maia um agradecimento especialíssimo pelas contribuições inspiradas e pela infinita paciência.

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aos tantos amigos e familiares queridos que trouxeram motivação deixo um abraço apertado entre eles claudia e diana ramalho helena vasconcelos mariflor rocha dieter heidi e sven hilbig finalmente agradeço a rubem césar fernandes pela confiança e apoio à idéia do livro e aos amigos do viva rio que ajudaram a viabilizar a experiência aqui relatada em especial adriana perusin e maria helena moreira alves marta ramos mônica cavalcanti chris magnavita e adriana lacerda um agradecimento especial vai ainda para a fundação roberto marinho que teve um papel fundamental na viabilização deste livro toda a minha gratidão a josé roberto marinho e a hugo barreto respectivamente presidente e secretário-geral da instituição por sua aposta na importância desta publicação bem como a luis erlanger diretor da central globo de comunicação.

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decifra-me ou te devoro diz a favela a cidade que não consegue enfrentar a questão é forçada a entregar seus filhos à morte dia após dia por anos e anos desesperada a cidade chama os generais mas eles falham e também se assustam pois a pergunta não cala e os jovens militares são os primeiros a matar e a morrer olha para mim diz a favela ouve o meu som quatro patas pela manhã duas à tarde três à noite É o enigma que os correspondentes do viva favela estão a revelar rubem césar fernandes mais do que nunca o poder está ligado à comunicação quanto mais informação circular mais difícil será a reprodução de autoritárias relações de poder mas como interromper a perversa dinâmica que restringe o acesso às informações e reproduz exclusão cultural regina novaes

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sumÁrio 12 14 cap.01 22 30 38 cap.02 52 63 71 cap.03 82 94 103 cap.04 116 128 138 cap.05 150 162 176 cap.06 186 197 210 214 311 324 331 332 apresentação ilana strozenberg introdução o portal decola em busca de novos ângulos notícias além do front na boca do lobo batalhas e alegrias cotidianas memória resgatada com o pé na lama segunda é dia de festa no rumo certo derrubando muros passarela de tábuas comando verde turbulência no ar repórter bom é repórter vivo um divisor de águas códigos de conduta favela em foco luz sobre o beco a bomba de mv bill do outro lado da tela o avesso do gueto rede virtual jornalismo é coisa de ong a semente estava lançada anexo 01 anexo 02 anexo 03 matérias selecionadas correio virtual todos no mesmo barco referências bibliográficas sobre a autora

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apresentação a primeira vez em que entrei numa favela foi pela tela do computador viva favela o nome no alto da página do portal criado pelo viva rio parecia um convite aceitei e a cada click do mouse aquela visita virtual fazia com que me sentisse cada vez mais próxima do cotidiano das favelas e de seus moradores um cotidiano que contrastava fortemente com o que me era dado conhecer através das notícias que num contexto marcado pelo acirramento da violência urbana ­ estávamos no início da década de 2000 ­ predominavam nos meios de comunicação ao invés de criminalidade e perigo cenas de uma sociabilidade original dinâmica e criativa ao invés de pessoas fadadas a um destino de carência e desesperança personagens fascinantes empreendedores e cheios de histórias para contar aquela diferença me conquistou e me intrigou ao mesmo tempo ali sem dúvida alguma coisa inédita estava acontecendo no campo do jornalismo inédita em primeiro lugar no que se refere ao tipo de enfoque e informação veiculada de espaço do estigma a favela se transformava em espaço de vida mas inédita também como percebi logo depois na sua forma de produção com uma equipe composta por jornalistas profissionais e correspondentes comunitários moradores de diferentes comunidades faveladas do rio de janeiro o viva favela estava implementando uma experiência totalmente nova em que relações de parceria e criação de redes eram as palavras-chave essa iniciativa precisava ser investigada movida por um interesse que como descobri posteriormente era compartilhado com outros estudiosos do campo da comunicação e das ciências humanas e sociais o viva favela foi tema de alguns trabalhos universitários no brasil e no exterior reuni alguns alunos da graduação da escola de comunicação da universidade federal do rio de janeiro num laboratório e pesquisa e juntos buscamos conhecer um pouco mais sobre o funcionamento do site e

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13 compreender melhor a sua proposta o modo como era realizada seus sucessos e impasses tudo isso na perspectiva dos responsáveis diretos pela sua criação e produção cristiane ramalho que na época desempenhava a função de editora mas integrava o projeto praticamente desde o seu início em 2001 foi nossa anfitriã e mediadora junto à equipe do viva favela a convicção e não seria exagero dizer paixão com que realizava seu trabalho jamais comprometeu a abertura com que falava e discutia a esse respeito ou com que colaborava para que outras vozes mesmo que divergentes fossem ouvidas no decorrer da pesquisa acabamos parceiras a oportunidade e urgência de fazer o registro da experiência de implantação do viva favela nos seus primeiros cinco anos de existência era uma evidência para ambas e certamente ninguém melhor para escrever essa história do que a própria cristiane a sobriedade com que lida com sua participação pessoal e profissional no projeto somada à sua sensibilidade e talento jornalístico só fazem tornar o seu relato mais fluente e vívido levando o leitor a participar da aventura muitas vezes complexa de fazer do jornalismo um espaço em que a informação seja ao mesmo tempo resultado e estímulo de trocas em que democracia e interatividade não sejam meras palavras mas práticas efetivas ilana strozenberg

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paulo cardoso morador do cantagalo matéria vizinhos de toda hora viva favela 18/04/2003 crédito walter mesquita

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15 introdução impossível entender o rio de janeiro sem conhecer a favela mas quem realmente a conhece mais de um milhão de pessoas que vivem nela com certeza fora isso talvez um ou outro cidadão movido pela curiosidade ou por algum trabalho que exija uma subida ao morro e só em geral é raríssimo encontrar moradores do asfalto dispostos a fazer uma visitinha a essas áreas consideradas cada vez mais de risco não sabem o que estão perdendo para quem consegue vê-la de perto a favela carioca é um dos lugares mais intensos da cidade e infinitamente mais interessante do que o que se vê na imagem transmitida pela grande mídia que tende a cobrir majoritariamente fatos ligados à violência uma cobertura monocromática que levou um grupo de líderes comunitários a sonhar mais de uma década atrás com uma nova forma de se falar da favela eles queriam uma abordagem mais precisa e menos preconceituosa dessas áreas e pediram ao viva rio leia-se rubem césar fernandes diretor-executivo dessa ong que articulasse uma mudança nesse sentido o desejo foi levado em 1995 a representantes dos três jornais de maior circulação na época no rio de janeiro walter mattos o dia joão roberto marinho o globo e kiko brito jornal do brasil que se comprometeram a ajudar na empreitada seria preciso esperar até julho de 2001 no entanto para conhecer o viva favela ­ um portal criado pelo viva rio capaz de produzir uma visão mais abrangente dessas comunidades e para a surpresa de muitos interferir na pauta da mídia tradicional o segredo estava na redação formada por quinze moradores de favela ­ os correspondentes comunitários ­ que atuavam como repórteres e fotógrafos sob a supervisão de jornalistas profissionais.

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