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romance d a pedra do reino eo príncipe do sangue do vai-e-volta ariano suassuna romance edição integral circulo do livro s.a capa ilustração de luís antônio de moura licença editorial para o círculo do livro por cortesia da livraria josé olympio editora s.a 1
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um romance picaresco x a primeira vez em que ariano suassuna me falou na pedra do reino disse que estava escrevendo um romance picaresco me interessei logo lembrei-me das astúcias da picardia das artes graciosas do meu querido amarelinho joão grilo e de certa forma fiquei esperando novas e mirabolantes aventuras deste ou de outro amarelinho parecido desenvolvidas ao longo de uma história em muitos capítulos porque ele me avisara também de que o romance era comprido mas o paraibano me enganou picaresco o livro é ou antes o elemento picaresco existe grandemente no romance ou tratado ou obra ou simplesmente livro sei lá como é que diga porque depois de pronto a pedra iro reino transcende disso tudo e é romance é odisséia é poema é epopéia é sátira é apocalipse aliás pergunto se ele me enganou ou se enganou pode ser que a idéia de suassuna ao começar a escrever fosse apenas fazer um romance divertido usando aquela sua sábia dosagem de elementos literários propriamente ditos e elementos populares baseado sobretudo no folclore local e nos versos dos cantadores tendo como tema central os sucessos trágicos da pedra bonita e aí quem sabe o santo apanhou o autor de surpresa e baixou sobre ele de repente e se apoderou do seu pulso e lhe ditou essa estranhíssima epopéia calcada nos sonhos nas loucuras nas aventuras e desventuras e nas alucinações genealógicas do cronistafidalgo rapsodoacadêmico e poeta-escrivão dom pedro diniz ferreira-quaderna mas se o hábito da rotulagem faz a gente insistir na tentativa de situar o livro dentro de um gênero pois que então fique como romance será romance este livro tumultuoso de onde escorre sangue e escorrem lágrimas e há sol tirando fogo das pedras e luz que encandeia e um humor feroz e uma ainda mais feroz e desabrida aceitação da fatalidade contudo também poderia ele ser uma crônica no sentido de que relata casos supostamente históricos guerras e armadilhas e elevação e trucidamento de reis rainhas e princesas mas também é profecia e doutrinação também é romance de cavalaria e conto fantástico e romance erótico por que não?n erotismo seco reduzido aos essenciais uma espécie de erotico sem luxúria esfolado e ríspido É profético porque passa por ele todo um sopro religioso partindo embora de boca maldita mas nunca chega a ser demoníaco e o heroísmo é todo entremeado de covardia como o resumo do dom pedro diniz quaderna em pessoa os ouropéis heróicos apenas encobrem a sórdida velhacaria o medo e os suores frios de degenerado descendente dos ferozes reis sertanejos do castelo das duas torres tenho muito medo de livro de erudito livro de homem que leu tudo e sabe tudo e então compõe a sua obra reunindo todas aquelas sabedorias costuradas com fio de seda mas a gente sente logo que aquilo vem da cabeça inventiva não dos flancos criadores do homem e em arte a gente não quer astúcias intelectuais mas vida pulsando embora sem saber como pulsa e por que pulsa só comparo o suassuna no brasil a dois sujeitos a vilalobos e a portinari neles a força do artista obra o milagre da integração do material popular com o material erudito juntando lembrança tradição e vivência com o toque pessoal de originalidade e improvisação a tendência de muitos será comparar suassuna a guimarães rosa para mim não rosa era um inventador de pessoas e palavras inclusive de nomes próprios criador de um idioma novo às vezes belíssimo mas evidentemente manufaturado por 2
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ele no seu laboratório já suassuna a sua língua existe existiu sempre pode ser em momentos arcaica e preciosa dando a impressão de inventiva porém tudo ali são palavras que hoje ou ontem o uso poliu e afeiçoou e se a sua sintaxe não é g oficial também não foi composta em banca de trabalho visando o efeito eufônico ou poético É a sintaxe tradicional poético-coloquial-declamatória-literária a que recorrem os cantadores e repentistas e os contadores de romances naturalmente transfigurada pelo trato que suassuna lhe dá digamos agora que poderia haver isso tudo e então ariano suassuna ser apenas um bom compilador folclórico e restaurador competente de fórmulas bonitas e arcaicas podia ser mas não é pois o que há principalmente n a pedra do reino é uma força de paixão uma gana de recaptura dentro do elemento criador suassuna não apenas conta mas reivindica sente-se que há na paixão de quaderna a sua própria paixão dele suassuna naqueles sonhos loucos os próprios sonhos dele sonhados um reclamo contra usurpação uma ira enterrada uma deformação de vingança 6 o que eu sei é que o quaderna nos impõe e nos arrasta a ele e a nós pelos seus mundos alucinados através dos seus delírios genealógicos e seus mistérios e enigmas nem sempre decifrados e há uma beleza que dói e machuca como naquele rapaz do cavalo branco cordeiro inocente nascido de uma raça amaldiçoada formoso e assinalado e cuja sina é a morte como o rei dom sebastião no fim a gente dirá que este livro é o próprio suassuna o livro e não seu protagonista dom pedro dinis quaderna o quaderna é o conceito que suassuna faz dos homens e a obra de quaderna é o que ele espera dos homens nas contradições do comportamento do herói maldito e grotesco estão as contradições do seu coração a ambivalência dos seus sentimentos no fantástico cenário está a transfiguração do seu mundo sertanejo como ele queria que esse mundo fosse ou como imagina que é lembremo-nos de que suassuna olha para esse mundo com a visão do exilado ainda na adolescência arrancado ao seu sertão natal por isso sempre o descreve muito belo e mágico por isso tem recuo suficiente para descobrir o mistério onde os da terra naturalmente só vêem o cotidiano a sua inspiração se gera assim principalmente na perspectiva distorcida pela lembrança e pela saudade suassuna mesmo talvez já nem possa mais distinguir entre a coisa concreta e a miragem nem ele se importa com isso o quaderna ao fim de contas só é e só quer ser um exímio retratista de miragens rio junho de 1971 rachel de queiroz 7 em memória de joao suassuna josé de alencar jesuíno brilhante sílvio romero antônio conselheiro euclides da cunha leandro gomes de barros bao duarte dantas homero torres villar josé pereira lima alfredo dantas villar josé lins do rego e manuel dantas villar santos poetas mártires profetas e guerreiros do meu mundo mítico do sertão oferece dedica e consagra ariano suassuna epígrafes 3
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guardai padre esta espada porque um dia me hei de valer dela com os mouros metendo o reino pela Ãfrica adentro dom sebastião i ou dom sebastião o desejado rei de portugal do brasil e do sertão 1578 quem não sabe que o digno príncipe o senhor dom pedro iii tem poder legitimamente constituido por deus para governar o brasil das ondas do mar dom sebastião sahirá com todo o seu exercito tira a todos no fio da espada deste papel da republica e o sangue ha de ir até a junta grossa dom antônio conselheiro projeta e regente do império do belo-monte de canudos sertão da bahia 1897 soldados de todo o exército do império lembrai-vos das fogueiras do sertão bonito aqui me tendes quem defende o brasil não morre com esta bandeira em frente do campo da honra destruiremos os nossos inimigos e no maior dos combates gritaremos viva a independência do brasil dom pedro i imperador do brasil e rei de portugal 1822 passa o município de princesa a constituir com seus limites atuais um território livre que terá a denominação de território de princesa cidadãos de princesa aguerrida celebremos com força e paixão a beleza invulgar desta lida e a bravura sem-par do sertão dom josé pereira ou dom josé i o invencível rei guerrilheiro de princesa sertão da paraíba 1930 estejão certos que a república se acaba breve É princípio de espinhos entrando a monarquia serão formados novos batalhões pois por serem os batalhões feitos de canalhas é que tem chegado a tal ponto 11 o prinspo é o verdadeiro dono do brasil quem for republicano mude-se para os estados-unidos de uma carta encontrada no bornal de balas de e p almeida guerrilheiro do império de canudos sertão da bahia 1897 dom sebastião está muito desgostoso e triste com seu povo porque o perseguem não regando o campo encontrado e não lavando as duas torres da catedral de seu reino com o sangue necessário para quebrar de uma vez este cruel encantamento dom joão ferreira-quaderna ou dom joão ii 0 execrável rei da pedra bonita sertão do pajeú pernambuco-paraíba 1838 12 romance-enigmático de crime e sangue no qual aparece o misterioso rapaz do 4
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cavalo branco a emboscada do lajedo sertanejo notícia da pedra do reino com seu castelo enigmático cheio de sentidos ocultos primeiras indicações sobre os três irmãos sertanejos arésio silvestre e sinésio como seu pai foi morto por cruéis e desconhecidos assassinos que degolaram o velho rei e raptaram o mais moço dos jovens príncipes sepultando-o numa masmorra onde ele penou durante dois anos caçadas e expedições heróicas nas serras do sertão aparições as sombratícias e proféticas intrigas presepadas combates e aventuras nas catingas enigma ódio calúnia amor batalhas sensualidade e morte ave musa incandescente do deserto do sertão forje no sol do meu sangue o trono do meu clarão cante as pedras encantadas o a catedral soterrada castelo deste meu chão nobres damas e senhores ouçam meu canto espantoso a doida desaventura de sinésio 0 alumioso o cetro e sua centelha na bandeira aurivermelha do meu sonho perigoso folheto i pequeno cantar acadêmico a modo de introdução daqui de cima no pavimento superior pela janela gradeada da cadeia onde estou preso vejo os arredores da nossa indomável vila sertaneja 0 sol treme na vista reluzindo nas pedras mais próximas da terra agreste espinhenta e pedregosa batida pelo sol esbraseado parece desprender-se um sopro ardente que tanto pode ser o arquejo de gerações e gerações de cangaceiros de rudes beatos e profetas assassinados durante anos e anos entre essas pedras selvagens como pode ser a respiração dessa fera estranha a terra esta onça-parda em cujo dorso habita a raça piolhosa dos homens pode ser também a respiração fogosa dessa outra fera a divindade onça-malhada que é dona da parda e que há milênios acicata a nossa raça puxando-a para o alto para o reino e para o sol daqui de cima porém o que vejo agora é a tripla face de paraíso purgatório e inferno do sertão para os lados do poente longe azulada pela distância a serra do pico com a enorme e altíssima pedra que lhe dá nome perto no leito seco do rio taperoá cuja areia é cheia de cristais despedaçados que faíscam ao sol grandes cajueiros com seus frutos vermelhos e cor de ouro para o outro lado o do nascente o da estrada de campina grande e estaca-zero vejo pedaços esparsos e agrestes de tabuleiro cobertos de marmeleiros secos e xiquexiques finalmente para os lados do norte vejo pedras lajedos e serrotes cercando a nossa vila e cercados eles mesmos por favelas espinhentas e urtigas parecendo enormes lagartos cinzentos malhados de negro e ferrugem lagartos venenosos adormecidos estirados ao sol 5
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17 o abrigando cobras gaviões e outros bichos ligados à crueldade da onça do mundo aí talvez por causa da situação em que me encontro preso na cadeia o sertão sob o sol fagulhante do meio-dia me aparece ele todo como uma enorme cadeia dentro da qual entre muralhas de serras pedregosas que lhe servissem de muro inexpugnável a apertar suas fronteiras estivéssemos todos nós aprisionados e acusados aguardando as decisões da justiça sendo que a qualquer momento a onçamalhada do divino pode se precipitar sobre nós para nos sangrar ungir e consagrar pela destruição É meio-dia agora em nossa vila de taperoá estamos a 9 de outubro de 1938 É tempo de seca e aqui dentro da cadeia onde estou preso o calor começou a ficar insuportável desde as dez horas da manhã pedi então ao cabo luís riscão que me deixasse sair lá de baixo da cela comum e vir cá para cima varrer o chão de madeira do pavimento superior onde funcionava até o fim do ano passado a câmara municipal 0 cabo luís riscão é filho daquele outro de nome igual que morreu aqui mesmo na cadeia em 1912 na chamada guerra de doze num tiroteio da polícia contra as tropas de sertanejos que a mando de meu tio e padrinho dom pedro sebastião garcia-barretto atacaram tomaram e saquearam nossa vila tem portanto o cabo todos os motivos de má vontade contra mim mas como sou de família de certa ordem e lhe dou pequenas gorjetas abranda essa má vontade de vez em quando hoje por exemplo quando fiz o pedido ele me concedeu o cobiçado privilégio de preso-varredor abriu a porta de grades enferrujadas trouxe-me para cá deixou-me aqui sozinho trancado varrendo e foi-se a cochilar na rede da sua casa que fica no quintal da cadeia aproveitei então o fato de ter terminado logo a tarefa e deitei-me no chão de tábuas perto da parede pensando procurando um modo hábil de iniciar este meu memorial de modo a comover o mais possível com a narração dos meus infortúnios os corações generosos e compassivos que agora me ouvem pensei este como as memórias de um sargento de milícias é um romance escrito por um brasileiro posso começá-lo portanto dizendo que era e é no tempo do rei na verdade o tempo que decorre entre 1935 o este nosso ano de 1938 é o chamado século do reino sendo eu apesar de preso o rei de quem aí se f ala depois porém cheguei à conclusão de que além de anunciar o tempo eu devo ser claro também sobre o local onde sucederam todos os acontecimentos que me trouxeram à cadeia não tendo muitas idéias próprias lembrei-me então de me valer de outro 18 dos meus mestres e precursores o genial escritor-brasileiro nuno marques pereira como todos sabem o romance dele publicado em 1728 intitula-se compêndio narrativo do peregrino da américa latina ora este meu livro é de certa forma um compêndio narrativo do peregrino do sertão por isso adaptando ao nosso caso as palavras iniciais de nuno marques pereira falo do modo que segue sobre o lugar onde se passou a nossa estranha desaventura uns doze graus abaixo da linha equinocial aqui onde se encontra a terra do nordeste metida no mar mas entrando-se umas cinqüenta léguas para o sertão dos cariris velhos da paraíba do norte num 6
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planalto pedregoso e espinhento onde passeiam bodes jumentos e gaviões sem outro roteiro que os serrotes de pedra cobertos de coroas-de-frade e mandacarus aqui nesta bela concha sem água mas cheia de fósseis e velhos esqueletos petrificados vê-se uma rica pérola engastada em fino ouro que é a muito nobre e sempre leal vila da ribeira do taperoá banhada pelo rio do mesmo nome ora eu dom pedro dinis ferreiraquaderna sou o mesmo dom pedro iv cognominado 0 decifrador rei do quinto império e do quinto naipe profeta da igreja católico-sertaneja e pretendente ao trono do império do brasil por outro lado consta da minha certidão de nascimento ter nascido eu na vila de taperoá É por isso então que pude começar dizendo que neste ano de 1938 estamos ainda no tempo do rei e anunciar que a nobre vila sertaneja onde nasci é o palco da terrível desaventura que tenho a contar para ser mais exato preciso explicar ainda que meu romance é mais um memorial que dirijo à nação brasileira à guisa de defesa e apelo no terrível processo em que me vejo envolvido para que ninguém julgue que sou um impostor vulgar devo finalmente esclarecer que infeliz e desgraçado como estou agora preso aqui nesta velha cadeia da nossa vila sou nada mais nada menos do que descendente em linha masculina e direta de dom joão ferreira-quaderna mais conhecido como el-rei dom joão ii 0 execrável homem sertanejo que há um século foi rei da pedra bonita no sertão do pajeú na fronteira da paraíba com pernambuco isto significa que sou descendente não daqueles reis e imperadores estrangeiros e falsificados da casa de bragança mencionados com descabida insistência na história geral do brasil de varnhagen mas sim dos legítimos e verdadeiros reis brasileiros os reis castanhos e cabras da pedra do reino do sertão que cingiram de uma vez para sempre a sagrada coroa do brasil de 1835 a 1838 transmitindo-a assim a seus descendentes por herança de sangue e decreto divino 19 agora preso aqui na cadeia rememoro tudo quanto passei e toda a minha vida parece-me um sonho cheio de acontecimentos ao mesmo tempo grotescos e gloriosos sou um grande apreciador do jogo do baralho talvez por isso o mundo me pareça uma mesa e a vida um jogo onde se cruzam fidalgos reis de ouro com castanhas damas de espada onde passam ases peninchas e coringas governados pelas regras desconhecidas de alguma velha canastra esquecida É por isso também que do fundo do cárcere onde estou trancafiado neste nosso ano de 1938 faminto esfarrapado sujo prematuramente envelhecido pelos sofrimentos aos quarenta e um anos de idade dirijo-me a todos os brasileiros sem exceção mas especialmente através do supremo tribunal aos magistrados e soldados toda essa raça ilustre que tem o poder de julgar e prender os outros dirijo-me outrossim aos escritores brasileiros principalmente aos que sejam poetas-escrivães e acadêmicos fidalgos como eu e pero vaz de caminha o que faço aqui expressamente por intermédio da academia brasileira esse supremo tribunal das letras sim neste estranho processo a um tempo político e literário ao qual estou sendo submetido por decisão da justiça este é um pedido de clemência uma espécie de confissão geral uma apelação um apelo ao coração magnânimo de vossas excelências e sobretudo uma vez que as mulheres têm sempre o coração mais brando esta é uma solicitação dirigida aos brandos peitos das mulheres e filhas de vossas excelências às brandas excelências de todas as mulheres que me ouvem escutem pois nobres senhores e belas damas de peitos brandos minha terrível história de amor e de culpa de sangue o de justiça de sensualidade e violência de enigma de morte o disparate de lutas nas estradas e combates nas catingas história 7
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que foi a suma de tudo o que passei e que terminou com meus costados aqui nesta cadeia velha da vila real da ribeira do taperoá sertão dos cariris velhos da capitania e província da paraíba do norte folheto ii o caso da estranha cavalgada há três anos passados na véspera de pentecostes dia 1.0 de junho de 1935 pela estrada que nos liga à vila de estaca-zero vinha se aproximando de taperoá uma cavalgada que iria mudar o destino de muitas das pessoas mais poderosas do lugar incluindo-se entre estas o modesto cronista-fidalgo rapsodo-acadêmico e poetaescrivão que lhes fala neste momento era talvez a mais estranha cavalgada que já foi vista no sertão por homem nascido de mulher aliás não sei nem se o nome de cavalgada se ajusta bem àquilo que parecia antes uma espécie de tropel confuso de cavalos jaulas carretas tendas cavaleiros e animais selvagens era realmente uma verdadeira desfilada moura como muito bem a classificou depois na noite daquele mesmo dia o doutor samuel wandernes homem intelectual poeta e promotor da nossa comarca na verdade como ele vive afirmando freqüentemente os árabes negros judeus tapuias asiáticos berberes e outros povos mouros do mundo são sempre meio aciganados meio ladrões trocadores de cavalos irresponsáveis e valdevinos e o estranho grupo de cavaleiros que naquele dia iniciava a mais terrível agitação em nossa vila revelava no conjunto ao primeiro exame alguma coisa de errante como uma tribo selvagem nômade empoeirada e sem confiança era composta de cerca de quarenta cavaleiros os arreios dos cavalos que a compunham vinham cobertos de medalhas e moedas que refulgiam ao sol sertanejo devolvendo aos fulgores dos cristais das cercas-de-pedra as faíscas de seus metais as esporas como estrelas de fogo retiniam suas rosetas batendo nos estribos e centelhando nos sapatões de couro castanho sob as véstias e os canos poeirentos das calças-perneiras também castanhas mas providas de fortes placas de reforço costuradas a modo de joelheiras nas calças e de ombreiras nos gibões os chapelões de couro de largas abas dobradas e levantadas coroavam-se também de estrelas o moedas que reluziam três nas abas inumeráveis nas testeiras o barbicachos mais do que tudo porém pairava no ar sobre aquela esquisita tropa de bichos carretas e cavaleiros uma atmosfera de feira-de-cavalos de sortilégios e encantamentos de companhia de circo de comboio-de-mal-assombrados de cavalaria de rapina de comércio de raízes augúrios e zodíacos e tudo isso junto lembrava logo uma tribo de ciganos sertanejos em viagem uma coisa que talvez cause estranheza aos menos avisados é que o genial poetabrasileiro e patrono-académico antônio gonçalves dias tendo vivido um século antes desta cena já previsse que ela ia acontecer É que como diz o doutor samuel wandernes os poetas são verdadeiros visionários isto é gente que prediz o futuro e vê visagens e assombrações como antônio conselheiro via as dele no império pedregoso e sitiado de canudos 20 21 assim ninguém se espante de que gonçalves dias tantos anos antes visse como alumiado e visionário que era a chegada desse tropel de cavalos a taperoá descrevendo assim a estranha cavalgada que já perto do meio-dia daquela véspera de 8
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pentecostes errava pelos campos do sertão do cariri eram ciganos errantes atilados e torcidos trocadores de cavalos com semblantes de atrevidos causa medo vê-los tantos tão astutos e crescidos vinham ladrões de cavalo vinham muitos raizeiros vinham do sol abrasados nossos bárbaros guerreiros bons dizedores de sortes muitos e bons cavaleiros e vinha o donzel errante no cerco dos roubadores de sua dama-de-copas no escudo trazia as cores tinha amor pela sonhosa eram claros seus amores enfim dizer quanto vimos não cabe neste papel vinham muitas alimárias são roubadas a granel e vinha o alumioso montado em branco corcel entretanto se eram mesmo ciganos em viagem seria uma tribo que ao lado das roupas principescas das medalhas nos arreios e da ladroagem meio acangaceirada possuía algumas singularidades primeiro os ciganos sertanejos comuns não andam encourados usam quase sempre camisa e calça cáquis chapelões de pano pardo e botas de cano alto ora aqueles estavam como fica dito de calça-perneira guarda-peito e gibão tudo de couro os gibões porém feitos de duro e castanho couro de bode além das placas de reforço nas ombreiras e joelheiras tinham debruns e emblemas cravejados de brochas de metal essas brochas ora se agrupavam em áreas maciças ora seguiam em fileiras as linhas das costuras e debruns mais importantes de modo que suas armaduras de couro faziam aqueles cavaleiros sertanejos semelhantes ao guerreiro mouro que o genial poeta pernambucano severino montenegro descreveu num soneto célebre vestido de armadura negra e escarlate de placas de aço incrustada de esmaltes e brasões parecendo o todo a carapaça dura calcária espinhosa e violeta-escarlate de um crustáceo gigantesco encravado num penhasco aqui porém as armaduras eram apenas de couro castanhonegro cravejado pelos metais das brochas e em vez dos penhascos estrangeirados do soneto de montenegro o fundo do quadro era formado pelos enormes lajedos sertanejos que de vez em quando apareciam ao lado da estrada enfeitados por macambiras roxas e amarelas e pelo vermelho sangrento dos topes das coroasde-frade a segunda singularidade era que a cavalgada tinha à frente três homens à guisa dos matinadores que iniciam nossos desfiles de cavalhada o primeiro o mais da frente estava a cavalo e conduzia na mão uma bandeira que depois devidamente instruído por mim e pelo doutor pedro gouveia o cantador lino pedra-verde descreveria assim no folheto que escreveu sobre o acontecimento dividida por dois campos um direito e outro esquerdo tinha três onças vermelhas em campo de ouro o direito e contra-arminhos de prata semeando o 9
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campo negro meu irmão bastardo taparica pajeú-quaderna é cortador-demadeira e riscador de todas as gravuras com que ilustro as capas dos folhetos impressos por mim aqui na gazeta de taperoá pedi a ele que fizesse uma cópia dessa bandeira e anexo a gravura resultante aos autos desta apelação pois ela é peça importante no processo que veio bater comigo aqui na cadeia de taperoá atrás porém desse primeiro matinador vinha um segundo homem a pé conduzindo uma pesada haste de madeira com outra menor cruzada em cima sendo que esta braço transversal da cruz vinha cheia de gaviões e carcarás amarrados pelos pés a argolinhas cravadas na madeira em seguida a cavalo vinha um terceiro homem o mais esquisito de todos creio era uma espécie de frade-cangaceiro 22 23 bandeira das onÇas que vinha na cavalgada do rapaz do cavalo branco 24 ou para ficar mais de acordo com o estilo de meu mestre o doutor samuel wandernes uma espécie de monge-cavaleiro únicas expressões capazes talvez de dar idéia desse personagem frei simão de nome e que posteriormente veio a se tornar em nossa vila centro de grandes controvérsias aliás a meu ver ou por ignorância ou por má-fé porque aqui no sertão a coisa menos surpreendente é um padre cangaceiro do tipo do padre aristides ferreira degolado em piancó pela coluna prestes em 1926 ou parecido com aqueles bispos e monges que segundo o genial acadêmico pernambucano doutor manuel de oliveira lima envergavam na idade média armaduras de ferro sob as sobrepelizes e pluviais colocando-se assim à frente de bandos armados entretanto o nosso monge-cangaceiro daquele dia não vinha nem com sobrepeliz nem com armadura de ferro envergava um burel branco com um enorme coração-de-jesus sangrento e flamejante bordado a seda vermelha no peito por baixo do burel arregaçado porque o frade viajava escanchado na sela viam-se calçasperneiras de couro esporas e sapatões iguais aos dos outros cavaleiros o que indicava que por baixo do hábito frei simão usava também guarda-peito e gibão se bem que não trouxesse chapéu de couro em compensação a essa falha trazia porém por cima do burel um grosso cinturão sertanejo de sola cartucheira e talabartes atulhados de balas assim como trazia às costas um mosquetão atravessado preso a seu tronco por uma correia de couro que lhe cruzava o peito a tiracolo 0 frade conduzia ainda presa na haste de uma lança de marmeleiro fincada no arção da sela uma bandeira mais alta do que larga vermelha e com peças de ouro enfeitando o campo encarnado ou de goles para os que são como eu entendidos na nobre arte da heráldica nos cantos formando uma aspa ou santor havia quatro peças que pareciam-ter sido bordadas em pano amarelo imitando ferros de ferrar boi mas que de fato simbolizavam chamas como o doutor pedro gouveia nos explicaria depois entre essas quatro peças mais ou menos no meio do campo vermelho havia um sol com dezesseis raios e com seu centro vazio formando um anel que circundava um pombo volante embaixo do 10
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sol uma coroa real encimada por esfera e cruz sendo todas estas peças de ouro em campo de goles e como do mesmo modo essa bandeira é ponto importante no meu processo aqui vai também a gravura que taparica cortou em casca de cajá e que é cópia dela atrás dos dois porta-bandeiras o leigo e o frade numa jaula colocada sobre uma carreta puxada por dois burros bem tosados e escovados ripados à moda ciganosertaneja vinha uma onça25 pintada um soberbo animal de malhas negras e pêlo cor de ouro manchado aqui e ali de um vermelho que se fundia no fulvo em tons cambiantes que o sol incendiava depois em jaulas semelhantes vinham uma onça-parda dessas chamadas no sertão de suçuaranas ou onças-de-bode um casal de pavões abrindo o macho ao sol sua cauda incrustada de jóias e pedrarias uma onça-negra ou seja uma maçaroca que é uma onça mestiça de negra e pintada dessas que têm o dorso meio pardo em cima do espinhaço e sob cujo pêlo negro e aveludado vêem-se malhas meio-negras meio-vermelhas mas sempre luminosas são chamadas também de onças lombopardo assim como a negra é chamada onça-tigre ou onça lombo-preto e como no sertão não existem tigres animal estrangeiro onça falsificada fora certamente já antevendo como alumiado e visionário esta cena da minha história que o excelso bardo brasileiro joaquim de souza-andrade escreveu aqueles famosos versos que dizem no sertão no sertão vede a tremente ondulação das malhas luminosas num relâmpago o tigre atrás da corça para que vossas excelências não estranhem que eu seja tão entendido em onça e bandeira explico primeiro que sou membro do nosso querido e tradicional instituto genealógico e histórico do sertão do cariri fundado pelo doutor pedro gouveia e no qual para se entrar a gente tem que fazer um curso completo de bandeiras brasões e outras coisas armoriais quanto às onças posso dizer em sã consciência que fui criado junto com uma na fazenda onça malhada pertencente a meu tio e padrinho dom pedro sebastião garcia-barretto na onça malhada não sei se como alusão ao nome da fazenda havia uma onça-pintada mansa criada solta no pátio e no tabuleiro da frente da casa em segundo lugar porém aqui no sertão quem não cuidar nas onças pode muito bem acabar sendo comido por elas É daí aliás que se originam todas essas histórias e ditados sertanejos sobre onças todos muito instrutivos por exemplo aquele ditado que diz quem banca o carneiro e não o homem a onça chega por trás e come ou então aquele outro depois da onça estar morta qualquer um tem coragem de meter o dedo no cu dela temos ainda uma história do meu amigo eusébio monteiro conhecido aqui na rua como dom eusébio monturo ele me dizia certa vez eu vejo esse pessoal por aí dizer a toda hora eu tive um susto dei um salto um grito povo mole dos seiscentos diabos olhe quaderna no dia em que eu der um salto e um 26 demanda novelosa da guerra do reino causa principal da minha prisão o doutor pedro gouveia trazia paletó preto com debruns de seda negra na gola uma rosa vermelha à botoeira colete cinza com relógio e correntão de ouro calças 11
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justas riscadas de negro e cinza botinas negro-pardas abotoadas de lado por uma fieira de botões e polainas brancas com uma das mãos segurava as rédeas do cavalo com a outra sobraçava um meio-termo de pasta-de-documentos e maleta de viagem como logo descobriríamos depois ali naquela pasta é que vinham todos os papéis e documentos que terminariam causando tanta complicação tantas mortes e tantos infortúnios amarrada ao pescoço por uma fita branca e amarela as cores do papa como ele mesmo nos explicou o doutor carregava uma espécie de condecoração uma cruz semelhante à da ordem de cristo mas com esmaltes diferentes pois era de ouro e goles ou de amarelo e vermelho para os não traquejados na heráldica no dedo anular da mão esquerda o doutor usava um anel brasonado no indicador da direita uma pedra-de-grau de licenciado em direito um enorme rubi cercado por pequenos diamantes encravados em chuveiro explico a vossas excelências que sendo já como sou um acadêmico tive na infância muito contato com os cantadores sertanejos tendo mesmo sob as ordens de meu velho primo joão melchíades ferreira da silva praticado um pouco da arte da cantoria depois porém por influência do doutor samuel e do professor clemente passei a desprezar os cantadores até que lá um dia li um artigo de escritor consagrado e acadêmico o paraibano carlos dias fernandes artigo no qual depois de chamar os cantadores de trovadores de chapéu de couro ele os elogiava dizendo que o espírito épico da nossa raça andava certamente esparso por aí nos cantos rudes daqueles aedos sertanejos depois daí senti-me autorizado a externar meu velho e secreto gosto minha velha e secreta admiração perdi o acanhamento acadêmico a que tinha me visto obrigado de modo que agora para descrever melhor o doutor pedro gouveia posso e devo lançar mão dos versos do genial cantador jerônimo do junqueiro nos seguintes termos quanto ao segundo cavaleiro para evocá-lo aqui talvez seja ainda mais necessário que eu me socorra das musas de outros poetas brasileiros e da minha própria aquele gavião macho-efêmea e sertanejo ao qual devo minha visagem poética e profética de alumiado cercava-o efetivamente uma atmosfera sobrenatural uma espécie de aura que só mesmo o fogo da poesia pode descrever e que mesmo depois de sua chegada ainda podia ser entrevista em torno da sua cabeça pelo menos por aqueles que tinham olhos para ver tinha cerca de vinte e cinco anos não era simplesmente um rapaz era um mancebo mais do que isso era um donzel e tem gente aí pela rua que ainda hoje garante que naquele tempo ele chegava mesmo a ser um donzelo fosse como fosse a primeira pergunta que nos ocorria diante dele era aquela que eu tantas vezes li na antologia nacional de carlos de laet dom donzel onde está el-rei via-se que ele era o centro motivo e honra da cavalgada porque tinham lhe destacado a maior mais bela e melhor das montarias um enorme e nobre animal branco de narinas rosadas de cauda e crinas cor de ouro cavalo que como soubemos depois tinha o nome legendário de tremedal ele o montava como observou mais tarde o doutor samuel com um ar ao mesmo tempo modesto e altivo de jovem príncipe recém-coroado e que por isso mesmo ainda está convencido de sua realeza alto esbelto de pele ligeiramente amorenada e de cabelos castanhos montava com elegância e de seus grandes olhos também castanhos e um pouco melancólicos espalhava-se sobre todo o seu rosto uma certa graça sonhadora que suavizava até certo ponto suas feições e sua natureza às vezes arrebatada enérgica quase dura e meio enigmática como depois viemos a notar principalmente depois dos terríveis acontecimentos da morte de arésio 12
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como ao que parece tinha se convencionado que ninguém com a luz do sol na mão de botinas-borzeguim passa-pé como um barão sobre o colete cinzento ajeitava o correntão no dedo da mão direita seu anel de condição no dedo da mão esquerda um outro anel com brasão era um dele outro emprestado mau costume do sertão 28 era magro e espigado metido um tanto a pimpão trazia cruz ao pescoço trancelim colar cordão todo vestido de preto sela bride estribo arção com seu chapéu também negro 29 se vestisse de maneira mais comum naquela tribo o rapaz do cavalo branco usava um gibão mais artisticamente trabalhado do que os dos outros cavaleiros assemelhava-se aos gibões de honra e boniteza que se usam nos desfiles de cavalhadas e puxadasde-boi era feito de três qualidades diferentes de couro de bode de vaqueta e de veado combinando de maneira variada o amarelo o castanho o vermelho e o negro tinha as mesmas joelheiras e ombreiras dos outros as dele porém eram negras e costuradas ao couro castanho da véstia e das guardas por tiras de couro vermelho de modo que mais do que qualquer outro seu gibão parecia a armadura de um cavaleiro sertanejo com os couros trançados em ouro púrpura goles e sable para narrar com esmaltes heráldicos esta heráldica cena da mais armorial cavalaria sertaneja e o próprio donzel assim com aquela roupa de couro dominantemente amarela e vermelha parecia todo ele ouro sangue e coração um valete de copas montado num cavalo branco e escoltado por uma tropa sertaneja de peninchas e valetes de paus ou de espadas 0 mais notável porém é que atado ao pescoço por uma fechadura de prata caía por trás das costas do donzel de modo a cobrir a garupa do cavalo tremedal um manto vermelho no qual estava bordado um grande escudo com as mesmas armas da bandeira as três onças vermelhas em campo de ouro e os treze contra-arminhos de prata em campo negro aqui porém havia uma novidade o escudo era encimado por uma figura a modo de timbre uma bela dama de cabelos soltos vestida com um manto negro semeado de contra-arminhos de prata e mantendo as mãos cobertas era a dama jovem e sonhosa de olhos verdes de cabelos lisos finos compridos e castanhoclaros que seria para o rapaz do cavalo branco o grande amor de sua vida notem vossas excelências que gonçalves dias já fazia referência a ela pois escreveu assim como eu já disse de sua dama de copas no escudo trazia as cores tinha amor pela sonhosa eram claros seus amores ora naquele dia em que iniciava sua desaventura o rapaz do cavalo branco ainda não reconhecera aquela moça meio ausente absorta e sonhosa de cabelos castanhos o olhos verde-azuis aquela que veio a ser o grande amor de sua vida como se explica pois que já trouxesse a imagem dela gravada em seu escudo respondo fácil tudo isso são coisas cifradas e enigmáticas como costuma dizer o doutor samuel coisas que somente um poeta-escrivão acadêmico ex-seminarista 13
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o astrólogo sertanejo como eu pode decifrar vamos adiante que aos poucos vossas excelências terminarão por entender tudo em seu verdadeiro significado de fato nobres senhores e belas damas de peitos macios o escudo que acabei de descrever era o brasão familiar do donzel como o doutor pedro gouveia explicaria logo mais mas não deixa também de ser uma coincidência epopéica astrosa e fatídica que o timbre desse escudo fosse exatamente uma dama de cabelos soltos e com as mãos cobertas porque a moça heliana aquela que veio a ser o grande amor e o segredo da sua vida vivia sempre com as mãos cobertas não se conhecendo notícia de homem nenhum a quem ela conscientemente consentisse desvendá-las com exceção dele é claro e para concluir a descrição da parelha de homens de pró que viria subverter nossa vila naquele sábado de 1935 valho-me do genial amador santelmo que deles falou assim na sua bem conhecida vida aventuras e morte de lampião e maria bonita dizem que uma sombra escura com duas pontas na testa por onde o donzel caminha ao lado se manifesta desde a cadeia onde o moço na morte foi sepultado esta sombra cornipeta caminha sempre a seu lado como irmã-de-caridade seguindo o jovem defunto o carcará de chavelhos vai sempre ao mancebo junto o doutor luz verde-escura da cidade dos pés juntos lampa acesa dos jazigos fogo-fátuo dos defuntos o donzel estrela errante facho dos lumes eternos ouro do sol desafio às negras chamas do inferno o doutor vela de sebo sinal dos magos errôneos lume lúgubre da morte lampadário do demônio o donzel lustre e candeia que o sol do sangue espadana carne cravada de estrelas coroa da raça humana 30 31 bandeira do divino espirito santo do sertÃo que 0 frade conduzia folheto iii a aventura da emboscada sertaneja vossas excelências não imaginam o trabalho que tive para arrumar todos os elementos desta cena colhidos em certidões que mandei tirar dos depoimentos dados por mim no inquérito numa prosa heráldica como dizia o grande carlos dias fernandes só o consegui porque além de pertencer ao oncismo do professor clemente pertenço também ao movimento literário do doutor samuel wandernes o tapirismo ibérico-armorial do nordeste graças a este último é que omiti nas descrições que fiz até aqui qualquer referência ao tamanho diminuto e à magreza dos cavalos sertanejos que serviam de montada aos cavaleiros assim como às pobrezas e sujeiras mais aberrantes e evidentes da tropa no movimento literário de samuel é assim onça é jaguar anta é tapir e qualquer cavalinho esquelético e crioulo do brasil é logo explicado como um descendente magro ardente nervoso e ágil das nobres raças andaluzas e árabes cruzadas na península ibérica e para cá trazidas pelos 14
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conquistadores fidalgos da espanha e de portugal quando realizaram a cruzada épica da conquista tendo sido eu discípulo desses dois homens durante a vida inteira nota-se à primeira vista que meu estilo é uma fusão feliz do oncismo de clemente com o tapirismo de samuel É por isso que contando a chegada do donzel parti oncisticamente da realidade raposa e afoscada do sertão com seus animais feios e plebeus como o urubu o sapo e a lagartixa e com os retirantes famintos sujos maltrapilhos e desdentados mas por um artifício tapirista de estilo pelo menos nessa primeira cena de estrada só lembrei o que da realidade pobre e oncista do sertão pudesse se combinar com os esmaltes e brasões tapiristas da heráldica cuidei de só falar nas bandeiras que se usam realmente no sertão para as procissões e para as cavalhadas nos gibões de honra que são as armaduras de couro dos sertanejos na cobra-coral na onça nos gaviões nos pavões e em homens que estando de gibão e montados a cavalo não são homens sertanejos comuns mas sim cavaleiros à altura de uma história bandeirosa e cavalariana como a minha entretanto é deste relato que depende a minha sorte e ninguém é tão fanático a ponto de fazer literatura em troca de cadeia devo ser exato e infelizmente no mesmo instante em que consigo arrumar tudo tenho que desarrumar tudo de novo porque naquele 33 dia quando a cavalgada vinha perto do legendário riacho de cosme pinto ela mesma foi desarrumada por um incidente sujo o oncístico que causou alguns rasgões raposos na bandeira da frente sujou homens e cavalos de suor e poeira e chegou mesmo a derramar sangue se bem que esta última parte ainda possa ser considerada tapirista e heráldica pois houve tiros e reluzir de facas nos riscos de sol o que não deixa de ser armorial naquele ponto da estrada do lado direito de quem vem para taperoá existe um lajedo não dos maiores manchado aqui e ali de líquenes avermelhados e separado da estrada por um pedaço de tabuleiro raso coberto de ralos pés de marmeleiro pinhão velame malva e cardo-santo pouco antes de atingir esse lajedo a carreta da onçapintada enganchou-se na subida de uma ladeira atendendo a uma ordem rápida do cigano praxedes que como soubemos depois não era o verdadeiro chefe mas sim seu preposto o uma espécie de sargento-mor da tropa alguns dos almocreves que tangiam os burros começaram a empurrar a carreta atrasando a marcha do grupo compacto de cavaleiros 0 doutor pedro gouveia impaciente pela demora esporeou seu cavalo e foi se colocar com o rapaz perto de frei simão lá na frente e como o resto da cavalgada parasse com o contratempo a parte da frente dela se adiantou de modo que foram eles os primeiros a cair numa emboscada cujos componentes estavam escondidos no lajedo por trás de umas pedras que em seu topo se equilibravam 0 tiroteio começou de maneira um tanto inusitada na grimpa do lajedo erguendo-se de trás da pedra apareceu de repente um negro moço desempenado vestido de cáqui encruzado de cartucheiras e de chapéu de couro à cabeça erguendo um rifle bem alto no ar com a mão direita o negro cantou uma estrofe desafiadora rindo com os dentes alvos e perfeitos que luziam no sol filha de branco 15
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