LOBATO, Monteiro. Dom Quixote das Crianças.

 

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m o n te ir oloba to dom quixote da s crianças cÍrculo do livro

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cÍrculo do livro s.a caixa postal 7413 01051 são paulo brasil edição integral copyright © by herdeiros de monteiro lobato layout da capa tide hellmeister ilustrações jorge kato coordenação izomar camargo guilherme capas adilson fernandes carlos avalone rocha eli marcos martins leon luiz padovin michio yamashita miriam regina da costa araújo paulo edson roberto massaru higa roberto souto monteiro licença editorial para o círculo do livro por cortesia dos herdeiros de monteiro lobato e da editora brasiliense s.a venda permitida apenas aos sócios do círculo composto pela linoart ltda impresso e encadernado pelo círculo do livro s.a 2468 10 97531 85 87 89 88 86

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como tem ocorrido com outros volumes da coleção monteiro lobato mantivemos nesta obra os dados originais em que se baseou lobato para escrevê-la por essa razão o leitor poderá encontrar referências desatualizadas os editores

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d omqu ix o te das c r ia n ç a s

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i emília descobre o dom quixote emília estava na sala de dona benta mexendo nos livros seu gosto era descobrir novidades livros de figura mas como fosse muito pequenina só alcançava os da prateleira de baixo para alcançar os da segunda tinha de trepar numa cadeira e os da terceira e quarta esses ela via com os olhos e lambia com a testa por isso mesmo eram os que mais a interessavam sobretudo uns enormes uma vez a pestinha fez o visconde levar para lá uma escada certa vez em que dona benta e os netos haviam saído de visita ao compadre teodorico foi um trabalho enorme levar para lá a escadinha o coitado do visconde suou porque emília embora o ajudasse ajudava-o cavorteiramente fazendo que todo o peso ficasse do lado dele afinal a escada foi posta junto à estante e emília trepou segure bem firme visconde disse ela ao chegar ao meio

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se a escada escorregar e eu cair v exa me paga não tenha nenhum receio senhora marquesa estou aqui agarrado nos pés da bicha como uma verdadeira raiz de árvore suba sossegada emília subiu alcançou os livrões e pôde ler o título era o dom quixote de ia mancha em dois volumes enormíssimos e pesadíssimos por mais que ela fizesse não conseguiu nem movê-los do lugar visconde disse a travessa criatura limpando o suorzinho que lhe pingava da testa parece que estes livros criaram raiz sem enxada não vai temos de arrancá-los como se arranca árvore vá buscar uma enxada se a senhora me permite uma opinião direi que o caso não é de enxada sim de alavanca dona benta já explicou que a alavanca é uma máquina própria para levantar pesos com a alavanca o homem multiplica a força do braço conseguindo erguer pedras e outras coisas pesadíssimas emília olhava para os livrões bom disse ela a alavanca multiplica a força do braço dos homens sei disso mas será que também multiplica a força do braço das bonecas experimente respondeu o visconde É experimentando que se fazem descobertas foi experimentando que edison descobriu o fonógrafo deixe edison em paz e traga a alavanca um cabo de vassoura está bem certo de que isto é alavanca senhor sabugo garanto que é experimente se a senhora enfiar a ponta do cabo da vassoura naquele vão e fizer uma forcinha o livro move-se experimente a boneca fez a experiência enfiou o cabo da vassoura num vão fez força e o livro que parecia ter raízes moveu-se três dedos viva viva berrou a diabinha É alavanca sim o visconde trouxe visconde e das legítimas desta vez eu tiro a prosa deste peso.

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e tirou mesmo tanto fez que o livrão se foi deslocando para a beirada da estante agora dois dedos agora mais dois dedos até que brolorotachabum despencou lá de cima arrastando em sua queda a escada a emília e o cabo de vassoura tudo bem em cima do pobre visconde a barulheira fez tia nastácia vir correndo da cozinha nossa senhora que terremoto será aquilo exclamara ela e ao entrar na sala vendo o desastre será possível santo deus a terra estará tremendo foi a alavanca explicou emília a alavanca arrancou o livrão lá de cima e o derrubou em cima do visconde em cima do visconde emília então o pobre do visconde está debaixo deste colosso alavanca levantando o livrão a negra viu que realmente o visconde estava embaixo mas completamente achatado credo exclamou parece um bolo de massa que a gente senta em cima será que morreu sacudiu-o virou-o dum lado para outro gritou-lhe ao ouvido nada o visconde não dava o menor sinal de vida só deixava sair de si um caldinho É o caldo da ciência observou emília vou guardá-lo num vidro pode servir para alguma coisa e agora disse a negra de mãos na cintura com os olhos naquele achatamento agora respondeu a boneca nós deixamos ele como está para ver como fica pedrinho logo chega e dá um arranjo pode ir cuidar do seu fogão emília estava ansiosa por ver as figuras do dom quixote como fosse uma boneca sem coração era-lhe indiferente que o visconde ficasse por ali naquele triste estado além disso tinha a certeza de que dum jeito ou de outro pedrinho o consertaria criaturas de sabugo têm está sim tão achatadinho que nem percebe malvada

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essa vantagem são consertáveis como os relógios as máquinas de costura e as chaleiras que ficam com buraquinhos mas tia nastácia sempre de mãos à cintura não tirava os olhos do pobre sabuguinho chega berrou emília não enjoe vá cuidar das suas panelas e foi empurrando a negra até a porta da cozinha em seguida voltou correndo para o livro abriu-o e leu os dizeres da primeira página o engenhoso fidalgo dom quixote de la mancha por miguel de cervantes saavedra saavedra exclamou para que estes dois aa aqui se um só faz o mesmo efeito e procurando um lápis riscou o segundo a feita a correção começou a folhear o livro que beleza estava cheio de enormes gravuras dum tal gustave doré sujeito que sabia desenhar muito bem a primeira gravura representava um homem magro e alto sentado numa cadeira que mais parecia trono com um livro na mão e a espada erguida na outra em redor pelo chão e pelo ar havia de tudo dragões cavaleiros damas curingas e até ratinhos emília examinou minuciosamente a gravura pensando lá consigo que se aqueles ratinhos estavam ali era porque doré se esquecera de desenhar um gato nisto ouviu barulho na varanda dona benta e os meninos vinham entrando que é isso emília indagou a velha ao dar com o dom quixote esparramado no chão quem desceu esse livro foi a alavanca respondeu a boneca artes do senhor visconde e por isso mesmo ficou mais chato que um bolo que a gente senta em cima e mudo parece que morreu narizinho e pedrinho correram a examinar o visconde coitado exclamou a menina um visconde tão bom tão

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científico veja pedrinho se dá um jeito nele o caldo da ciência eu salvei disse emília mostrando um vidro de homeopatia tia nastácia veio da cozinha explicar o desastre mas de que modo o livro caiu lá de cima quis saber dona benta não sei sinhá ouvi um barulho corri e achei o livro no chão quando levantei o livro encontrei embaixo uma chatura era o pobre visconde nem gemia estava morto duma vez mas como foi que o livro caiu lá de cima não sei sinhá o que vi foi uma escada no chão o livro em cima do visconde e um cabo de vassoura diz a emília que foi não sei quê duma tal alavanca hum hum rosnou dona benta cravando os olhos na boneca estou compreendendo tudo alavanca é ela .

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ii dona benta começa a ler o livro o que não tem remédio remediado está o visconde ficou encostado a um canto e dona benta na noite desse mesmo dia começou a ler para os meninos a história do engenhoso fidalgo da mancha como fosse livro grande demais um verdadeiro trambolho aí do peso de uma arroba pedrinho teve de fazer uma armação de tábuas que servisse de suporte diante daquela imensidade sentou-se dona benta com a criançada em redor este livro disse ela é um dos mais famosos do mundo inteiro foi escrito pelo grande miguel de cervantes saavedra quem riscou o segundo a de saavedra fui eu disse emília por quê porque sou inimiga pessoal da tal ortografia velha coroca que complica a vida da gente com coisas inúteis se um a diz tudo para que dois?

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mas você devia respeitar esta edição que é rara e preciosa tenha lá as idéias que quiser mas acate a propriedade alheia esta edição foi feita em portugal há muitos anos nela aparece a obra de cervantes traduzida pelo famoso visconde de castilho e pelo visconde de azevedo ah exclamou emília então foi por isso que o nosso visconde mexeu nele para conhecer a linguagem dos seus colegas viscondes que raça abundante três só aqui nesta salinha dona benta continuou o visconde de castilho foi dos maiores escritores da língua portuguesa É considerado um dos melhores clássicos isto é um dos que escreveram em estilo mais perfeito quem quiser saber o português a fundo deve lê-lo e também herculano camilo e outros o português perfeito é melhor que o imperfeito vovó indagou narizinho está claro minha filha uma coisa se é perfeita está claro que é melhor que uma imperfeita essa pergunta até parece da emília então comece pediu pedrinho e dona benta começou a ler num lugar da mancha de cujo nome não quero lembrar-me vivia não há muito um fidalgo dos de lança em cabido adarga antiga e galgo corredor ché exclamou emília se o livro inteiro é nessa perfeição de língua até logo vou brincar de esconder com o quindim lança em cabido adarga antiga galgo corredor não entendo essas viscondadas não pois eu entendo disse pedrinho lança em cabido quer dizer lança pendurada em cabido galgo corredor é cachorro magro que corre e a adarga antiga é é engasgou disse emília eu confesso que não entendo nada lança em cabido pois se lança é um pedaço de pau com um chuço na ponta pode ser lança atrás da porta lança no canto mas no cabido uma ova cabido é de pendurar coisas e pedaço de

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pau a gente encosta não pendura sabem que mais meus queridos amigos vou brincar de esconder com o quindim meus filhos disse dona benta esta obra está escrita em alto estilo rico de todas as perfeições e sutilezas de forma razão pela qual se tornou clássica mas como vocês ainda não têm a necessária cultura para compreender as belezas da forma literária em vez de ler vou contar a história com palavras minhas isso berrou emília com palavras suas e de tia nastácia e minhas também e de narizinho e de pedrinho e de rabicó os viscondes que falem arrevesado lá entre eles nós que não somos viscondes nem viscondessas queremos estilo de clara de ovo bem transparentinho que não dê trabalho para ser entendido comece e dona benta começou da moda dela em certa aldeia da mancha que é um pedaço da espanha vivia um fidalgo aí duns cinqüenta anos dos que têm lança atrás da porta adarga antiga isto é escudo de couro e cachorro magro no quintal cachorro de caça para que a lança e o escudo quis saber emília era sinal de que esse fidalgo pertencia a uma velha linhagem de nobres dos que antigamente na idade média usavam armaduras de ferro e se dedicavam à caça como sendo a mais nobre das ocupações vagabundos é que eles eram exclamou a boneca não atrapalhe emília murmurou narizinho continue vovó dona benta continuou morava em companhia duma sobrinha de vinte anos e duma ama de quarenta chamava-se dom quixote era magro alto muito madrugador e amigo da caça e mais amigo de ler só lia porém uma qualidade de livros os de cavalaria eu sei o que é cavalaria disse pedrinho depois das cruzadas a gente da europa ficou de cabeça tonta e com mania de guerrear os fidalgos andavam vestidos de armaduras de ferro capacete na cabeça e escudo no braço com grandes lanças e espadas montavam

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em cavalos que eles diziam ser corcéis e saíam pelo mundo espetando gente abrindo mouros pelo meio com espadas medonhas as proezas que faziam eram de arrepiar os cabelos já li a história de carlos magno e os doze pares de frança isso mesmo confirmou dona benta eram os cavaleiros andantes depois de lermos o dom quixote havemos de procurar o orlando furioso do célebre poeta italiano ariosto e vocês vão ver que coisa tremenda eram os tais cavaleiros andantes por que se chamavam assim indagou a menina porque viviam a cavalo sempre a correr mundo atrás de aventuras e tais e tantas foram suas aventuras que os poetas começaram a contá-las em seus poemas como esse de ariosto e os prosadores também de modo que a literatura daquele tempo era só de cavalaria andante como hoje é quase só de bandidos e policiais cervantes escreveu este livro para fazer troça da cavalaria andante querendo demonstrar que tais cavaleiros não passavam duns loucos mas como cervantes fosse um homem de gênio sua obra saiu um maravilhoso estudo da natureza humana ficando por isso imortal não existe no mundo inteiro nenhuma criação literária mais famosa que a sua dom quixote não é somente o tipo do maníaco do louco É o tipo do sonhador do homem que vê as coisas erradas ou que não existem É também o tipo do homem generoso leal honesto que quer o bem da humanidade que vinga os fracos e inocentes e acaba sempre levando na cabeça porque a humanidade que é ruim inteirada não compreende certas generosidades pois é isso de tanto ler aqueles livros de cavalaria o pobre fidalgo da mancha ficou com o miolo mole entendeu de virar também cavaleiro andante e sair com a velha armadura herdada de seus avós mais a lança e o escudo a correr mundo atrás de aventuras isto é atrás de outros cavaleiros andantes com quem se bater e de maus a quem castigar no delírio do seu sonho imaginava até a conquista de um grande reino lá pelo oriente.

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tanto imaginou aquilo que um dia se resolveu largando os livros foi ver o cavalo que tinha na cocheira era um pobre cavalo desses que por aqui chamamos matungo e velho até não poder mais ossos só mas a imaginação desvairada de dom quixote via tudo ao contrário da realidade olhou para o feixe de ossos sem ver osso nenhum viu um maravilhoso cavalo igual aos mais famosos do mundo como aquele bucéfalo de alexandre o grande ou o babieca do cid que babieca é esse vovó indagou a menina o cid foi um famosíssimo herói espanhol que a lenda pinta como o maior fazedor de proezas da espanha chama-se dom rodrigo de bivar e como um herói desse tamanho tem que ter um cavalo também heróico apareceu o babieca que hoje ocupa na literatura um lugar semelhante ao de bucéfalo dom quixote olhou para o seu cavalo magro a pensar no nome que lhe daria tinha de ser um nome e tanto que ficasse famoso como o de bucéfalo ou de babieca depois de muito pensar achou um rocinante que quer dizer nada talvez a palavra venha de rocim que hoje significa animalzinho magro cavalinho à-toa o fidalgo achou sonoro o nome de rocinante e com ele batizou o seu cavalo esse nome se tornou tão célebre no mundo inteiro que hoje quem vê um cavalo velho magríssimo diz logo ali está um rocinante passou de nome próprio a nome comum muito bem o nome do cavalo estava arranjado restava arranjar um bom nome para si próprio visto que todos os cavaleiros andantes tinham lindos nomes como o célebre amadis de gaula que entre todos os cavaleiros andantes era o que dom quixote mais admirava sendo quisana ou quezana o verdadeiro nome do fidalgo da mancha dessa palavra tirou ele quixote e como fosse nascido naquela aldeia da mancha ajuntou ao nome quixote o nome da mancha ficou sendo dom quixote de ia mancha bonito hein?

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