magazine cultura urbana n 1 abril 2010

 

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01 abr 2010 gratuito magazine de cultura urbana indie lisboa `10 dai-nos fitas jorge pelicano interventivo

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magazine de cultura urbana 01 abr 2010 liberdade independência propriedade projecto editorial e gráfico paginação vasco lopes www.vlgraphicdesign.com vlgraphicdesign@gmail.com colaboradores ivo meco jorge castro nuno nóbrega rosa teixeira da silva imagens capa imagem superior portugal abril 2010 esta é também uma edição sobre nós como povo a revolução de abril pouca influência terá na sociedade actual mas permanece omnipresente na cultura que acontece e muitos dos temas aqui abordados são implicitamente identidade e história de portugal um documentário e um realizador interventivo em defesa de uma população e de uma zona esquecidas obras sobre um passado próximo ou um presente evidente artistas que inovam mas não esquecem o ser português todos tentarão talvez criar revoluções num mundo onde as revoluções perderam força e a sociedade muitas vezes se conforma com tudo precisamos de um novo 25 de abril garantimos que este ano isso vai acontecer sim pelo menos no calendário seja bem-vindo/a volubilis serie © nuno matos 2010 imagem inferior circense © pedro zamith 2009 todos os conteúdos textos imagens anúncios têm todos os direitos dos autores reservados qualquer reprodução com fins profissionais ou comerciais mesmo que parcial e por qualquer processo é formalmente proibida e dará lugar a sanções penais.

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índice 06 em abril convites mil volubilis sombras e rostos 08 jorge pelicano don´t tell me the truth 30 36 16 lebanon greenberg fantasia lusitana documente-se 20 agora a sério uma família portuguesa tuning dor fantasma o rei está a morrer 44 blu 40 46 26 cocorosie tracey thorn deolinda

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em abril convites mil texto nuno nóbrega hoje recebi mais um convite desta feita para a finissage de uma exposição que visitei de uma pintora à qual não comprei um único quadro segundo sei a capela fechar-se-á para um pequeno público e à luz de velas e rodeados por enormes ramos de rosas ouviremos cantar o fado e agradecimentos sendo eu um espírito menor gosto de receber convites sejam estes para o que forem sobretudo os que chegam por correio não há convite digital que se compare a um postal timbrado declarante da honra sentida com a nossa eventual presença apraz-me mais ainda claro comparecer às cerimónias às inaugurações aos lançamentos e às estreias para que sou convidado gosto particularmente de assistir à primeira representação para o público das peças teatrais por causa do frou-frou provocado pelos presentes quando a plateia se vai enchendo de caras conhecidas e após o pano cair durante o beberete para o qual ape6 nas alguns como eu são desviados para um convívio final privado sinto também prazer quando na impossibilidade de comparecer ou com vários convites em mão permito que outras pessoas possam usufruir destes momentos pois assim não serei apenas aquele que tantos convites recebe como também o que tantos convites oferece a vaidade alimenta-se tal como o poder não apenas daquilo que temos como também daquilo que damos como se sabe perguntar-me-ão por que razão a minha presença é tão requerida em eventos culturais e eu numa resposta biográfica mormente desavergonhada dir-vos-ei que tal se deve a uma constelação de episódios com uma natureza essencialmente sexual a explicação é simples quanto mais promíscuo se é maior número de convites se arranja numa primeira fase será necessário claro dormir com pessoas ligadas à cultura o que atendendo à fauna

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perguntar-me-ão por que razão a minha presença é tão requerida em eventos culturais e eu numa resposta biográfica mormente desavergonhada dir-vos-ei que tal se deve a uma constelação de episódios com uma natureza essencialmente sexual 7 ou à flora numa significativa parte dos casos em causa é conseguido com presteza nesta matéria como se entenderá com facilidade a bissexualidade é uma tremenda vantagem da qual infelizmente não beneficio não recebendo por isso ainda mais convites depois basta assegurar que em cada evento presenciado se durma com outra pessoa que nele também participe de preferência uma que seja visivelmente reconhecida pelas restantes uma vida sexual activa contribui também para se receber convites para festas aconteçam estas em casas particulares incluindo-se aqui grandes propriedades rurais e alguns palacetes ou em bares e discotecas e sejam esses feitos pessoalmente ou porque passámos a integrar a mailing list dos convidados considerados importantes vulgo vip não valorizo ­ e assim sendo não vale a pena dormir com ninguém para esse efeito como me parece óbvio ­ os convites para as festas ditas abertas enviados através de um mail para centenas ou milhares de pessoas em que toda a gente pode entrar desde que pague um convite é por definição a acção de pedir a alguém que compareça gratuitamente em determinado acto ou lugar um convite a pagar não é um convite é um bilhete que nem comprado foi os bilhetes esses prefiro ser eu a comprá-los e usá-los para convidar alguém a assistir por exemplo a um filme uma peça de teatro um concerto de jazz ou uma ópera neste caso a sequência dos factos inverte-se como poderão imaginar um convite pode não ter preço mas nunca é de graça.

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© todos os direitos reservados all rights reserved 8

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jorge pelicano o cineasta interventivo `pare escute olhe estreou nas salas de cinema o documentário multi-premiado e polémico de jorge pelicano serviu de mote à conversa texto rosa teixeira da silva

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© todos os direitos reservados all rights reserved aos 33 anos jorge pelicano está a dar que falar pare escute olhe realização sua já pode ser visto nos cinemas o documentário sobre a eventual extinção da linha do tua a barragem do foz-tua cuja construção já foi aprovada pelo governo ameaça submergi-la participou no doclisboa e cine eco seia arrecadando seis prémios no mesmo dia incluindo o de melhor documentário português ao fim de vários anos de trabalho e após a primeira apresentação pública da obra pelicano ficou surpreendido com o reconhecimento no dia da exibição no doclisboa tivemos uma grande ovação foi muito emocionante recorda mas o veredicto do júri parece não ter agradado a alguns sectores do meio documental o que é afinal um docu10 mentário para raymond walrevens director e programador do rialto sala em amsterdão especializada em cinema independente e jurado na competição portuguesa do último doclisboa nem todos tinham o ritmo o tema ou a forma de contar a história suficientemente forte para manter a audiência atenta durante 90 minutos o facto de ser repórter de imagem da sic talvez contribua para o estigma de realizador televisivo que várias críticas têm realçado para pelicano contudo esta questão passou despercebida ao longo de todo o processo e assume não ser um ponto de relevo o tempo para trabalhar as estórias é diferente em televisão é tudo mais rápido no documentário temos tempo para viver a realidade criar intimidade

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no documentário temos tempo para viver a realidade criar intimidade com as pessoas o facto é que demorei três anos a fazer este filme com as pessoas o facto é que demorei três anos a fazer este filme diz as cancelas do circuito comercial abriram-se para receber pare escute olhe contrariamente ao que é hábito acontecer com grande parte dos documentários portugueses o filme está agora em exibição comercial depois da passagem por vários festivais retrato da zona do tua e da extinção da sua linha férrea em nome de um certo progresso este é um retrato do interior do país despovoado com uma população 11 © todos os direitos reservados all rights reserved envelhecida afastado do poder central vítima constante de promessas políticas incumpridas recorrendo a material de arquivo o realizador recuperou algumas dessas promessas seleccionou declarações sobre o tema de políticos de vários quadrantes partidários e sem receios não hesitou na sua inclusão no documentário numa em plena paisagem do vale do tua em conversa com antónio mexia da edp josé sócrates diz agora só falta aqui é cimento

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pelicano confessa que muita da política foi feita num só sentido retirando recursos do interior para o litoral o olhar de pelicano não hesita em ser interventivo nas causas que procura o que poderá adensar mais a polémica em defesa da identidade o fascínio pela interioridade por lugares que parecem já não existir por questões nacionais como o despovoamento já tinha ganho proporção no também aclamado ainda há pastores primeiro documentário realizado por pelicano o tema voltou a captar a atenção do realizador quando se desactivam linhas férreas é sinal que as terras estão ao abandono ao saber que nas últimas duas décadas foram encerrados mais de 800 quilómetros de via-férrea a questão despertou-me interesse de facto o filme realça que entre mirandela e tua o comboio é o único meio de transporte para muitos habitantes da zona para quem não tem capacidades de ter um carro ou carta de condução para as pessoas idosas são necessidades básicas que lhes são vedadas dificultadas uma ida ao médico ou a compra de alimentos são demasiadas vezes tarefas penosas com a linha do tua como fio condutor o realizador quis assim dar voz a quem nunca fora ouvido 12 © todos os direitos reservados all rights reserved o documentário também deve ter essa função de incentivar as pessoas a questionar a agir

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em 1991 encerraram a linha entre bragança e mirandela no ano seguinte pela calada da noite retiraram as automotoras alegando ser para manutenção os autocarros que substituíram os comboios duraram apenas dois anos e os comboios nunca mais voltaram àquele troço dezassete anos depois a ameaça paira com a construção da barragem pelicano não se assume como um detractor da construção de barragens desta em particular sim aquele património não é apenas das pessoas que lá vivem é de todos se há alternativas para buscar outras energias ou apostar na eficiência energética temos que as seguir porque o progresso não é só destruição por isso também a visita à suíça para mostrar um exemplo 14 © todos os direitos reservados all rights reserved de como se pode rentabilizar uma linha turística que não descura o serviço e o apoio às populações locais não precisamos de ter um país todo igual sem identidade se as pessoas querem uma albufeira podem ir ao alqueva se querem planícies podem ir ao alentejo o património do vale do tua também é único e isso é o que marca a diferença não é apenas um vale que se perde nem uma linha de comboio É também uma identidade documentarista para agitar quando chegou ao terreno o realizador esperava encontrar uma população revoltada em luta em vez disso encontrou resignação percebi que não havia luta porque não há pessoas.

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no caso do comboio esquecem-se de referenciar os horários desajustados e a falta de investimento na manutenção da via antes houve manifestações mas não deram em nada na perspectiva de pelicano também é importante falar-se da questão dos números há quem defenda `o comboio não dá lucro fecham-se as linhas as maternidades não têm determinado número de partos fecham-se no caso do comboio esquecem-se de referenciar os horários desajustados e a falta de investimento na manutenção da via pare escute olhe é um documentário militante evidente no lado emocional 15 © todos os direitos reservados all rights reserved a que pelicano se entrega envolvido na causa revelando vários pontos de vista a avaliação final será sempre dos espectadores da sociedade civil o documentário também deve ter essa função de incentivar as pessoas a questionar a agir cavaco silva por exemplo está sempre a incentivar que sejamos interventivos combatentes esta foi pois a forma que arranjei de dar o meu contributo www.pareescuteolhe.com

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