UTI: A porta da batalha entre a vida e a morte.

 

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Reportagem elaborada sob orientação da professora Andréa Couto, na disciplina de Livro Reportagem

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uti a porta da batalha entre a vida e a morte por mariane mirandola matéria elaborada na disciplina de livro reportagem sob orientação da professora andréa couto universidade paulitsta unip

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uti a porta da batalha entre a vida e a morte por mariane mirandola de repende o mundo mudou a porta abriu-se para um ambiente diferente onde o silêncio humano muitas vezes predomina ambiente este que o canto natural dos pássaros é substituido por ruídos de aparelhos os quais comprovam a existência da vida a bela luz solar é substituida por potentes lâmpadas que ajudam profissionais da saúde a realizar procedimentos e o prazer pela profissão chega a ser substituido pela razão a qual trás detalhes necessários para ao menos tentar fazer com que a máquina humana volte a agir no mundo quando entrei na uti meu cabelo era longo e bonito chegava a bater nas costas lá dentro por ficar muito tempo deitada a coisa virou um bolo só e precisou cortar ­ relata sonia aparecida vidotti que no ano de 1991 quando tinha dois filhos pequenos foi vitima de um infarto e ficou cerca de 21 dias do lado de dentro da porta com determinação e firmeza ao relatar seus momentos dificeis sonia a mulher de pela clara de olhos azuis afirma que não consegue se lembrar muito do que aconteceu ali segundo o relatos de familiares em especial da sua mãe sua passagem pelo local foi diferente dos outros pacientes pois a filha que tornara-se mãe do segundo filho a pouco tempo ficou em coma natural mas em alguns momentos tinha reações de uma pessoa acordada seu problema iniciou quando tranquilamente amamentava seu filho cacçula em meio ao amor entre mãe e filho surgiu uma forte dor no braço que a levou ao hospital em primeiro momento não teve necessidade de ultrapassar a porta da uti porém alguns detalhes fizeram que ela entrasse lembro de pouca coisa apenas que eu vestia uma roupa de lã tinha o cabelo comprido e estava com muita febre eu sei que quando me buscaram com a cadeira de rodas eu me tranquei no banheiro e não queria sair ­ relata sem sinais vitais e ligada aos aparelhos sonia conseguia em alguns momentos conversar com médicos e quando percebia que seu ex marido a observava pelo vidro nos horários de visita com um corajoso ato de repúdio retirava os aparelhos e tentava expulsa-lo do local mas em pouco tempo era necessário que os mesmos aparelhos fossem religados já que objetivamente ela estava em coma teve um dia moça que ela ligou em casa quatro horas da madrugada pedindo absorvente eu que ajudava cuidar das crianças acordei para atender e tomei um

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susto ­ relata dona aurora simpática senhora que acompanhou os momentos de sua filha pouco antes de entrar em contato com sua mãe sonia retirou os aparelhos conseguiu encontrar o lado de fora da porta e desnuda procurou dentro do hospital um orelhão mais próximo a ligação foi a cobrar e o desespero da paciente era permancer sem absorvente higienico nos dias de menstruação mais uma vez a equipe conseguiu socorre-la com vida ultrapssaram a entrada da porta e religaram os aparelhos além das conversas e da fuga a paciente que apresentou o coma um pouco diferente construiu também a imagem de uma mulher invisivel lá dentro a qual estava internada pois tinha o corpo todo queimado o pessoal me conta dessas histórias mas não lembro de nada não lembro da ligação dos meus xingamentos e nem da mulher queimada inclusive essa história que o povo fala de buraco branco eu nunca vi não vi a luz que todo mundo que a gente vê ­ comenta a aminésia no caso de sonia prevaleceu por muito tempo a paciente não teve um acompanhamento psicológico após sua vitória na guerra contra a morte ­ a qual aconteceu no 21º primeiro dia de internação dona aurora conta que resolveu pedir que um padre fosse visita-la e ungi-la com o sacramento da extremunção já que estava há tanto tempo na mesma situação após a oração como de tradição na igreja católica apostólica romana o óleo sagrado é ungido sobre o paciente no caso de sonia a unção foi na mão e quando disse a frase denscanse em paz minha filha de um modo surpreendentemente ela acordou e afirmou que não estava morta seu caso ficou sem explicação um dos médicos que a acompanhou chegou a levá-lo no centro espirita mas preferiu não comentar mais sobre em uma consulta rotineira alegou que o coma poderia ter decorrido por uma vontade própria do subconsciente ou seja ela como mulher e mãe tinha consciência de que precisava acordar para cuidar de tudo ao seu redor mas devido aos problemas familiares o subconsciente pedia que o organismo permanecesse em coma a porta a entrada o milagre da vida a saída 20 de maio de 2008 sensação angustiante para família de luciani giacometti s magalhães e uma nova fase para a jovem professora a qual primeiramente viu a

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porta do centro cirurgico se abrir e em seguida seguiu para a unidade de terapia intensiva luciani foi vítima de um meduloblastoma ou seja um tumor cerebral maligno bastante comum em crianças ou em homens adultos seu problema era pouco conhecido pelos médicos ouviu-se falar em apenas um caso parecido onde a mulher era moradora do nordeste e tratou-se em são paulo para alívio de todos a cirurgia foi bem sucedida mas luciani precisou encarar um novo desafio foram 7 dias em coma induzido e 8 dias de recuperação totalizando um periodo de 15 dias na uti durante o período que estava em coma surgiu uma nova necessidade de decisão para a família a venda do apartamente em que morava pouco antes de adoecer junto ao seu esposo estava negociando a troca dele porém com a correria de exames para a cirurgia deixou o corretor de imóveis no aguardo sem poder mais esperar o sr corretor entrou em contato com a família e solicitou uma resposta alegando que não podia mais segurar o apartamento que queriam comprar decididos mãe e esposo resolveram no horário de visita perguntar a maior interessada do asssunto se ainda valia a pena a troca os médicos sempre orientaram a família a conversar bastante pois mesmo em coma induzido ela pode nos ouvir no horário da visita eu e márcio que é o esposo dela perguntamos se queria mesmo que trocasse o apartamento como ela estava toda entubada orientei que se caso a reposta fosse positiva apertasse minha mão caso negativa a mão de marcio surpreendentemente ela apertou minha mão e o márcio fechou negócio ­ relata lucila sua doce e inseparável mãe durante esse tempo atrás da porta luciani afirma não lembrar de nada mas lucila cuidadosamente relembra a 1º visita em que fez para a filha após a cirurgia quando entrei e vi apenas um moicano tomei um grande susto não estava preparada para tudo aquilo mas na uti é assim primeiro a gente assusta depois o médico vem falar com a gente mas é tudo muito técnico tudo muito frio ­ relata como mãe lucila queria saber detalhes simples mas primordiais para sobrevivencia de todo ser humano queria saber como a filha estava se tinha dor se comeu ou até mesmo se tomou banho chegou a ligar para os médicos fora do horário de visita porém pouco a atendiam e quando retornavam segundo ela eram bastante frios ­ como no hospital.

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certo dia em casa enquanto alimentava sua preocupação de mãe e junto ao seu esposo sr anibal fortalecia sua fé recebeu uma ligação era karine a fisioterapeuta da unidade apenas informando que luciane tinha conseguido comer o tempo passou a tenebrosa porta da unidade abriu-se novamente e luciani foi para o quarto ainda falava e estava com os sentidos quase recuperados chegou a ligar para seu pai e dizer que estava tudo bem porém deste momento ela ainda não se recorda sua primeira lembrança é da enfermeira tentando pegar sua veia com voz frágil e jeito ainda tímido confessou que naquele momento sentiu uma forte dor e percebeu que estava na companhia da profissional de saúde sua história não parou ai ainda internada sofreu uma hidrocefalia ou seja uma junção de liquido no interior da cavidade craniana o que obrigou-a a ultrapassar novamente a porta do centro cirurgico onde drenou este liquido as sequelas foram aos poucos aparecendo chegou a ficar com a visão dupla e teve sua aparencia modificada nem os médicos sabiam mais das consequências mas ninguém nos preparou para elas apenas disseram que luciani teria dificuldades para falar e andar mas que voltaria rápido ­ desabafa lucila o tempo mero tempo também passou para luciani mas trouxe novas batalhas estava bem após a cirurgia mas apareceu um novo ponto em seu cerebro chegou a fazer radiocirurgia para combate-la ­ esta que era muito forte e foi substituida por uma quimioterapia diferenciada onde o tratamento resumia-se em quimioterapia vacina para produção de glóbulos brancos e antibióticos intercalados durante 6 meses em casa chegou a ter uma forte hemorragia a correria para hospital resultou na necessidade de uma transfusão de sangue com toda calma e coragem enfrentou também uma pneumonia e com um belo sorriso afirma que não se lembra de ter sentido medo quando luciani teve hemorragia eu a vi branca enxarcada de sangue então me desesperei na hora o médico não queria fazer a transfusão pois as bolsas estavam em falta fui até a ouvidoria armei o forfé no hospital até conseguir com que fossem buscar em outro hospital quando voltei para perto dela afirmou que eu não precisava acreditar no que os médicos ficam falando e sim nela mesma que sabia que iria dar tudo certo ­ conta orgulhosamente a mãe que criou uma heroína da descoberta do problema até a data da entrevista luciani passou três aniversários sendo um guerreando com os dois extremos do lado de dentro da porta o segundo na sala de quimioterapia onde foi presentada com uma linda festa

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surpresa e o 3º em casa ao lado dos seus pais marido e filha ­ esta que mesmo criança não deixou de reconhece-la como mãe na minha festa em casa tinha bolo e até bexigas foi muito legal ­ relata atualmente sua rotina resume-se em tratameto psicológico fonoaudiólogo e fisioterapeutico sua família bastante fervorosa atribui todas as conquista inclusive a passagem pela saída da porta à fé sua trajetória foi além dos hospitais passou pela igreja pelas bençãos e pela sua fé interior que segundo os médicos foi um dos grandes motivos que trouxeram a cura de um câncer até então pouco conhecido por eles hoje eu tenho limitações sou bastante diferente do que eu era aprendi a comer com a mão esquerda meu cabelo é bem curto mas eu to feliz mesmo com as limitações eu gostaria de fazer mais coisas mas sei que vou conseguir com certeza passei a dar mais valor a vida ­ finaliza a guerreira de 33 anos que ultrapassou a porta da uti venceu da batalha contra a morte e junto aos familiares comprovaram a importância fé com nome de flor olhos claros esperança de menina e uma admirável adoração ao pai eterno rosa pascon polizelli conhecida por todos como dona rosa também conheceu o lado de lá da porta e os familiares afirmam que só conseguiu sair graças a sua fé a cada visita que fazíamos os médicos diziam que o caso não tinha mais jeito de acordo com eles era para irmos nos preparando que provavelmente ela não sobreviveria na madrugada ­ relata sua filha maria inez a qual acompanhou todos os momentos de sua mãe na unidade dona rosa precisou fazer uma longa cirurgia porém pela idade o leito na uti já estava reservado ­ mesmo que não houvesse complicações tudo ocorreu bem parte do intestino assim como a vesicula foram retiradose a sua beixiga foi reconstruida a fístula no canal da beixiga as pedras na visicula e os diverticulos no intestino já não faziam mais parte de trajetória porém ao acordar sentiu o efeito da anestesia geral rosa que sempre foi bastante reservada começou a conversar bastante com os profissionais da saúde queria contar que em sua casa a neta lhe massageava com cremes e chamava a todo instante sua filha a maria inez devido esse esforço sua musculatura abriu fazendo com que fosse necessário uma nova cirurgia quando cheguei no hospital para fazer a vista da manhã fui surpreendida com minha mãe entubada estava na companhia de uma vizinha e meu filho que não gosta de hospitais nos esperava no carro fui até seu leito na certeza de que ela

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estava bem o médico disse que eu estava proibida de ir embora pois após visita ela voltaria ao centro cirurgico ­ relembra agunstiadamente maria inez segundo ela o médico afirmou que sua mãe nunca esteve bem já que estava na uti eles falavam extremamente a verdade queriam nos preparar para a morte mas eu sempre tive a certeza que minha mãe não iria morrer ali ­ conta surpreendentemente a cirurgia foi um sucesso o tempo para dona rosa também passou uma média de 17 dias sem mover um dedo aos poucos o sedativo foi sendo tirado mas a esperança de vida por parte dos profissionais diminuia cada vez mais já que sua idade não ajudava na recuperação no 18º dia de internação dona rosa foi para o quarto segundo maria inez estava com várias feridas na boca o tubo da uti machucou seu organismo de um modo muito grande a paciente ainda não tinha consciência reclamava de dores na barriga e chamava sua filha a todo momento ­ a quem sempre depositou grande confiaça pouco antes do natal recebeu alta em casa começou a retomar a consciência porém ainda com muitos pesadelos do hospital quando conseguia dormir gritava que não queria que abrisse sua barriga sem perceber que era apenas um pesadelo das tristes lembranças chamava sua filha para ajudá-la eu só lembro te ter visto uma bola de sangue em cima de mim mas do médico da uti não lembro de nada todo mundo conta que chamava a maria que é minha filha mas não lembro não ­ conta a simpática senhora do cabelo branco como o algodão o tempo considerado por muitos como senhor da razão e a paciência foram requisitos primordiais para a família de rosa e luciani eu sempre acreditei no divino pai eterno só pedia pra ele não deixar eu colocar aquela bolsinha do intestino que todo mundo coloca e ele me atendeu ­ completou dona rosa a fé das pacientes fizeram da porta que abre-se para um mundo diferente montanhas as quais moveram-se e abriram-se novamente para a vida entre aparelhos e remédios palavras frias e preocupantes por parte dos profissionais da saúde o milagre da vida trouxe a certeza para as duas famílias que a fé a força e a coragem prevaleceram acordada é bem pior filha eu to sumindo do meu corpo procura o sal ­ foi com essa frase que therezinha ilde rodrigues cia 70 anos conheceu o outro lado da porta.

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após sofrer um desmaio em casa precisou ficar em observação no hospital enquanto descansava no quarto sua pressão caiu e foi necessaário um controle maior do batimento cardiáco e da pressão eu não queria ir tenho fobia a lugaes fechados e quando entrei a uti tive mais mal estar ­ relatou eu não tinha como levantar nem para fazer xixi foi uma situação desagradável o desconforto foi muito grande não conseguia nem dormir a noite ­ relatou com uma voz firme e palavras cuidadosas therezinha relatou que o tempo todo ouvia gemidos de outros pacientes chegou a ve-los entubados e com a sensação do tempo não passar utilizava da comunicação para tentar fazer com que a angústia fosse embora tinha uma sensação de inutilidade pois estava com o soro nos braços e fios pelo corpo não podia ler não podia me mexer nada os enfermeiros tinham na salinha deles uma televisão mas eu não conseguia assistir ­ afirma a paciente que permaneceu 24h em observação na unidade sentada à mesa da copa em uma chuvosa tarde de domingo therezinha contou que para passar o tempo chegava a perguntar detalhes para os enferemeiros inclusive que horas eram mas nem todos era simpáticos ao responder não sei se é o ambiente que deixa a pessoa assim ou se é da própria personalidade mas acredito que a pessoa que trabalha com humano tem que ser acima de tudo humana ­ indagou seu tempo de permanecia no local foi curto mas o suficiente para ela ter a certeza de que não deseja mais voltar hoje quando ficou de alguém que esteja internado eu rezo deixo a pessoas em suas mãos pois ele para saber o que é melhor para cada um ­ afirmou seu problema foi passageiro o medo de ter que voltar ao ambiente foi embora com a realização de novos exames que mostraram que todo aquele momento foi apenas um susto em sua vida perda subjetividade e afeto quando a porta se abre o ser humano torna-se um paciente em cima do leito perde suas roupas e a liberdade de se expressar as mãos são doadas para medicação o corpo fica a merce dos equipamentos e os olhares a volta são para o problema que esta sendo tratado.

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milena maróstica jovem psicóloga de 25 anos formada pela unesp afirmou que a que a uti é um ambiente bastante propricio a trazer sofrimento e ansiedade maior ao paciente a árdua batalha em favor da vida parece não deixar tempo para a afetividade e subjetividade milena argumenta que os procedimentos ali realizados são bastante invasivos fazendo com que o ser humano ali deitado tenha a sensação de não ser dono nem do próprio corpo a subjetividade neste ambiente parece ser preterida a objetividade ­ relata a jovem psicologa os profissinais guerreiros armados na batalha também são vitimas do peso do ambiente milena afirma que este tipo de trabalho trás a tona muitos sentimentos e angústias nos profissinais fazendo com que eles criem mecanismos de defesas para conseguir lidar com a batalha ali é um local no qual se entra em contato com o sofrimento a dor e a finitude humana são questões dificeis de lidar o tema da morte é algo pouco discutido pelas pessoas ainda hoje por mais que se mostre de maneira escancarada assassinatos e mortes violentas nos jornais e na tv antigamente a morte era mais cotidiana as pessoas morriam em casa e eram veladas em suas residências com toda comunidade envolvida a morte era menos escondida hoje tenta-se transferir o local da morte para os hospitais e utis isso mostra também uma dificuldade do homem moderno em lidar com a finitude de aceitar sua condição de mortal ­ detalha a porta quando se abre não apresenta um ser humano ao ambiente ela o leva diretamente para a batalha prepara os armamentos sintetiza as perdas e convida o tempo para que ele traga a resposta certa a todos os soldados ali presentes a cada vitória a porta novamente se fecha mas deixa a todos o triste pensamento de que poderá abrir-se a qualquer momento.

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