Linguística e Comunicação

 

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roman jakobson lingÜÍstica e comunicaÇÃo prefácio de izidoro blikstein da faculdade de filosofia letras e ciências humanas e da escola de comunicações e artes da usp tradução de izidoro blikstein e josÉ paulo paes editora cultrix sÃo paulo

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a 1ª edição deste livro teve o apoio da editora da universidade de são paulo http groups.google.com.br/group/digitalsource o primeiro número à esquerda indica a edição ou reedição desta obra a primeira dezena à direita indica o ano em que esta obra ou reedição foi publicada ediÇÃo 19-20-21-22-23-24 ano -03-04-05-06-07 direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela editora pensamento-cultrix ltda rua dr mário vicente 368 04270-000 são paulo sp fone 272-1399 fax 272-4770 e-mail pensamento@cultrix.com.br http wwwpensamento-cultrix.com.br que se reserva a propriedade literária desta tradução impressos em nossas oficinas gráficas.

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Índice prefÁcio 7 a linguagem comum dos lingÜistas e dos antropÓlogos 15 dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia 34 aspectos lingÜÍsticos da traduÇÃo 63 lingÜÍstica e teoria da comunicaÇÃo 73 a concepÇÃo de significaÇÃo gramatical segundo boas 87 À procura da essÊncia da linguagem 98 lingÜÍstica e poÉtica 118 a numeração de páginas do Índice corresponde ao original impresso ps as páginas estão numeradas de acordo com o documento original indicando sempre o final de cada uma entre colchetes.

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i o presente volume que reúne textos básicos de roman jakobson acerca dos principais problemas e campos de interesse da lingüística visa primordialmente familiarizar o leitor com o pensamento do eminente lingüista cuja recente visita ao brasil teve o dom de recolocar na ordem do dia o papel nuclear da lingüística no quadro das ciências humanas e da cultura em geral assim é que aqui figuram ensaios nos quais é percucientemente estudada e avaliada a contribuição da linguística estrutural para a teoria da comunicação a antropologia a literatura sobretudo a poética a gramática a arte da tradução e as pesquisas acerca dos distúrbios da fala como se vê uma gama de assuntos que pela sua amplitude alcançará certamente interessar não apenas aos estudiosos de lingüística propriamente dita como também aos de outras disciplinas com as quais ela tem relações mais ou menos próximas acreditamos ser útil fazer preceder esta tradução de alguns dos principais ensaios de roman jakobson de uma breve notícia acerca de sua vida e de sua obra notícia de caráter meramente informativo sem qualquer pretensão analítica ou crítica de resto nem teria cabimento aqui semelhante pretensão acreditamos seja muito mais lucrativo para o leitor ir diretamente aos textos de jakobson parei conhecer-lhe as idéias do que demorar-se a ler glosas ou frases mais ou menos infiéis delas [pág.7 ii a biografia intelectual de roman jakobson espelha de certo modo o próprio encaminhar-se da lingüística contemporânea para a arte e a antropologia nasceu ele em mascou em 1896 e fez seus estudos no instituto lazarev de línguas orientais da universidade de sua cidade natal doutorou-se porém pela universidade de praga 1930 desde cedo deixou ele bem patente a variedade e a amplidão dos seus interesses intelectuais dedicando-se ao estudo da dialectologia e do folclore de sua pátria e acompanhando de perto as manifestações de arte de vanguarda notadamente do cubismo e do futurismo russo foi amigo pessoal de maiacóvski e khlebnikov e essa sua vinculação pessoal à poesia exerceu papel decisivo na gênese de suas idéias lingüísticas como o demonstra sua participação nas atividades do círculo lingüístico de moscou 1915-1920 de que foi um dos

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fundadores e cuja presidência ocupou dessa entidade nasceria o célebre grupo dos formalistas russos que teve atuação pioneira no que respeita ao moderno estudo científico da arte literária de 1920 até a invasão nazista do país jakobson viveu na tchecoslováquia onde lecionou na universidade masaryk e ande escreveu e publicou uma série de trabalhos importantes entre os quais um ensaio sobre a poesia russa moderna em que deu particular atenção à obra de khlebnikov 1921 um estudo de métrica comparada entre o verso russo e o verso tcheco 1923 um artigo sobre a prosa de pasternak no qual encontramos a primeira versão da teoria da metáfora e da metonímia em jakobson 1935 etc embora continuasse a manter contato com os formalistas russos ele se ia cada vez mais distanciando da problemática literária e se encaminhando para o estruturalismo já em 1928 num trabalho escrito em colaboração com j tynjanov antecipava um dos conceitos básicos da antropologia estrutural ao falar nas leis estruturais próprias das diversas séries históricas durante sua estada na tchecoslováquia jakobson exerceu sua atividade intelectual em contato estreito com o círculo lingüístico de praga fundado em [pág.8 1926 de que foi um dos luminares e participou com destaque na elaboração da teoria fonológica prenunciada em trabalhos seus acerca dos aspectos fônicos da poesia russa quando as tropas de hitler invadiram a tchecoslováquia jakobson se exilou na escandinávia onde lecionou em várias universidades e publicou seu livro fundamental kindersprache aphasie und allgemeine lautgesetze 1941 nesse mesmo ano transferiu-se para os estados unidos e ali reside até hoje tem ensinado em universidades norte-americanas colúmbia harvard instituto de tecnologia de massachusetts e participado das atividades do círculo 1ingüístico de nova iorque e da sociedade lingüística dos estados unidos da qual foi eleito presidente em 1956 nos estados unidos escreveu ensaios da maior importância inclusive os textos reunidos na presente coletânea o volume preliminaries to speech analysis em colaboração com fant e halle 1925 e estudos sobre mitologia folclore filologia e poética eslavas ali teve ocasião de na escola livre de altos estudos de nova iorque trabalhar em íntima colaboração com o antropólogo lévi-strauss cujas idéias no campo de antropologia estrutural têm inegáveis ligações com o estruturalismo lingüístico de jakobson a maior parte da extensa obra de roman jakobson está dispersa por revistas especializadas de vários países e por volumes de elaboração coletiva atualmente acham-se em curso de publicação pela editora mouton cia de haia as suas obras escolhidas que estão sendo editadas em russo alemão francês e inglês e que deverão abranger sete ou oito volumes com exceção do ensaio em busca da essência da linguagem os demais textos aqui coligidos foram publicados em francês num volume intitulado essais de linguistique générale paris les Éditions em a bibliography of the publications of roman jakobson cópia da qual nos foi gentilmente fornecida por haroldo de campos estão arrolados nada menos de 478 itens

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de minuit 1963 traduzido e prefaciado por nicolas ruwet [pág.9 jakobson anuncia para breve o tratado sound and meaning que será uma espécie de summa do seu pensamento lingüístico e quiçá a sua obra mais importante e mais significativa iii o germe do pensamento lingüístico de roman jakobson já pode ser rastreado na sua participação nas atividades do círculo lingüístico de moscou o qual nasceu sobretudo da preocupação de jovens intelectuais russos da década de 1910-1920 com o aspecto simbólico do som na poesia voltavam-se eles com especial atenção para a substancialidade do poema para a sua arquitetura formal por assim dizer razão por que foram depreciativamente chamados de formalistas pelos que defendiam um rígido sociologismo no campo dos estudos literários o epíteto foi aceito desafiadoramente pelos integrantes do círculo que todavia nada tinham de formalistas no sentido pejorativo da palavra malgrado sua preocupação com o elemento sonoro na estrutura poética jamais aceitaram eles a velha dicotomia entre forma e conteúdo bem ao contrário viam no poema uma hierarquia una de funções dentro da qual o som se vinculava ao sentido não se tratava portanto de atentar para a fonética e sim para a fonologia daí decorre um dos leit-motiv da obra de jakobson a preocupação com a relação entre sound som e meaning significado o seu ponto de partida é o caráter simbólico da arquitetura fônica do sistema lingüístico dessa arquitetura pode-se depreender uma meta-estrutura significativa válida em outros níveis que não o do simples fonema isto é ao nível da palavra da frase do período por sua [pág.10 vez o nexo sound/meaning decorre da superposição do principio da similaridade sabre o da contigüidade princípios que constituem os dois pólos básicos da linguagem humana o objetivo último de jakobson é pois a semântica tal visada semântica avulta com particular nitidez em dois dos ensaios aqui incluídos a saber a linguagem comum dos lingüistas e dos antropólogos e lingüística e teoria da comunicação ambos têm por base a constatação de que o instrumento principal de comunicação portadora de toda a informação é a foi da introdução de n ruwet que extraímos os dados biográficos acima valemo-nos igualmente de sua versão francesa como texto de cotejo para a nossa tradução feita a partir do original inglês de que nos foi enviada fotocópia pelo próprio prof jakobson somente no caso de À procura da essência da linguagem fez-se a tradução do francês no que respeita à fonologia o leitor brasileiro poderá consultar roman jakobson fonema e fonologia trad e pref de matoso câmara jr rio de janeiro livraria acadêmica 1967

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língua não tanto a língua dos intelectuais dos escritores das pessoas doutas opressivamente controlada pela gramática como o falar de todos os dias cujos trocadilhos cujas invenções verbais notadamente suas figuras de linguagem nos revelam as estruturas subliminares patterns a que recorre o povo no processo da comunicação o destinatário da mensagem a decodifica amiúde através de um signo interpretante ocorrendo então o fenômeno conhecido por comutação de código code switching que teve em c s peirce para cuja alma pioneira jakobson não se cansa de chamar a atenção o seu mais ilustre estudioso aquele que deu uma nova visão do caráter supostamente arbitrário do signo a noção de code switching é tratada mais detidamente em outro ensaio deste volume aspectos lingüísticos da tradução visto ser a comutação de código uma operação essencial na tradução dentro de um mesmo idioma intralingual de um idioma para outro interlingual ou de um sistema semiótico para outro intersemiótíco no mesmo ensaio insiste jakobson em quão precária é a noção de indissolubilidade do signo lingüístico a noção de que haja um elo indissolúvel entre significante e significado e o significado meaning implique vivência não se podendo compreender a palavra queijo sem ter tido uma experiência não-língüística do queijo tais conceitos reaparecem também no ensaio À procura da essência da linguagem em que passando em revista as bases teóricas da lingüística contemporânea jakobson nela situa com o devido e justo destaque a obra inovadora de peirce [pág.11 o ensaio a concepção de significação gramatical segundo boas versa o caráter de obrigatoriedade das categorias gramaticais assim as frases o homem matou o touro e o touro foi morto pelo homem revelam não apenas a oposição ativo/passivo como manifestam dois pontos de vista diferentes por parte do destinador ou codificador o significado das duas frases é pois diferente outras funções gramaticais como o gênero têm igualmente função significativa em suma o que caracteriza a comunicação lingüística não é a possibilidade e sim a obrigatoriedade no emprego dos recursos gramaticais a noção fundamental de conotação avulta com particular nitidez num dos mais importantes ensaios de jakobson lingüística e poética no qual após referir o caráter abrangente da lingüística mostra a legitimidade de sua adjudicação da poética finalmente em dois aspectos da linguagem e dois tipos de afasia encontraremos o que de mais original produziu talvez o pensamento lingüístico de jakobson o seu notável aprofundamento dos conceitos de metáfora e metonímia partindo da observação dos distúrbios da fala nos afásicos estabelece ele uma nova distinção entre os diferentes tipos de afasia À distinção clínica de afasia de emissão e afasia de recepção jakobson contrapõe as afasias de substituição e associação na dissolução da linguagem nos afásicos vai ele encontrar o próprio mecanismo formativo da linguagem dessarte a criança após possuir o signo significante/significado só chega realmente à fala quando se mostra capaz de

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dominar os mecanismos de substituição e associação toda expressão metafórica se faz pela substituição de paradigmas ao passo que a expressão metonímica deriva da associação de paradigmas a formar sintagmas trata-se pois de uma ampliação das noções de similaridade e contigüidade na faculdade sintagmática de contigüidade utilizada com extrema rapidez estaria porventura o germe da criação poética quando carlos drummond de andrade diz caio verticalmente e me transformo em [pág.12 notícia no seu poema a morte no avião cria um exemplar sintagma metonímico proveniente de rápida associação antes de finalizar queremos registrar nossa gratidão aos seguintes alunos da universidade de são paulo que nos auxiliaram sobremaneira no trabalho de tradução e cotejo dos textos deste volume wanderley rodrigues rodolfo hilari haquira osakabe regina de oliveira rocha sonia ribeiro leite eni pulcinelli orlandi e ana maria balogh agradecemos igualmente a ester regina duchovni da pontifícia universidade católica de são paulo como fecho destas breves considerações introdutórias nada melhor que transcrever as palavras que a nosso pedido o prof roman jakobson escreveu especialmente para esta edição brasileira de seus ensaios a tendência cardinal dos ensaios apresentados neste volume aos leitores do brasil e de portugal é a de contribuir para os esforços lingüísticos de nossa época no sentido de superpor uma ciência da língua à ciência de línguas diversas as questões de estrutura e de funções próprias a todas as línguas do mundo não são somente um corolário necessário do estudo aprofundado de línguas variadas no curso do desenvolvimento da lingüística moderna como ao mesmo tempo um complexo de noções indispensáveis para uma interpretação adequada de fenômenos lingüísticos particulares os conceitos de invariância e de variações múltiplas implicam-se mutuamente e sua complementariedade permite antecipar uma verdadeira topologia lingüística do futuro isidoro blikstein [pág.13 [pág.14 página em branco por ocasião do contato pessoal que tivemos com o prof jakobson fez-nos ele uma breve análise lingüística de cidadezinha qualquer poema igualmente de carlos drummond de andrade no qual destacou o valor expressivo da oposição fonológica entre /v e /k os leitores interessados na aplicação dos princípios da análise lingüística dentro da orientação jakobsoniana a textos de literatura brasileira poderão consultar isidoro blikstein pesquisa lingüística vidas secas in revista de letras n° 2 maio de 1967 p 61 editada pelo centro acadêmico de estudos literários da universidade de são paulo

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a linguagem comum dos linguistas e dos antropÓlogos resultados de uma confÊncia interdisciplinar eu poderia dizer que apreciei tudo nesta conferência o único ponto negativo para mim é que devo recapitular seus resultados sob o ponto de vista lingüístico poderia começar por dizer que a conferência foi extremamente bem sucedida mas como estudei a teoria da comunicação sei que um enunciado só contém informação no caso de uma situação de escolha binária nunca se ouvirá dizer que a conferência não foi bem sucedida gostaria de apresentar todos os resultados lingüísticos desta conferência tal como os vejo É claro que os interpretarei e não serei uma máquina de tradução que como o mostrou de modo excelente nosso amigo y bar-hillel não compreende e por conseguinte traduz literalmente desde que haja interpretação emerge o princípio da complementaridade promovendo a interação do instrumento de observação e da coisa observada tentarei no entanto ser o mais objetivo possível qual é na minha opinião o resultado mais importante desta conferência o que mais me impressionou antes de tudo a unanimidade houve espantosa unanimidade [pág.15 É claro que quando falo de unanimidade não quero dizer uniformidade era como se fosse uma estrutura polifônica cada um de nós aqui posso dizer emitia uma nota diferente mas éramos todos como tantas variantes de um mesmo e único fonema evidentemente o fato mais sintomático foi a nítida liquidação de qualquer espécie de isolacionanismo esse isolacionanismo que é tão odioso na vida científica quanto na vida política quantos slogans não houve que opunham a lingüística à antropologia a lingüística do hemisfério ocidental à do hemisfério oriental a análise formal à semântica a lingüística descritiva à lingüística histórica o mecanismo ao mentalismo e assim por diante isto não quer dizer que recusemos a importância da especialização a necessidade de enfocar problemas limitados mas sabemos que se trata de diferentes modos de experimentação e não de pontos de vista exclusivos como foi muito bem expresso aqui não podemos verdadeiramente isolar os elementos mas tão somente distingui-los se os tratarmos separadamente no processo de análise lingüística deveremos sempre lembrar-nos do caráter artificial de uma tal separação pode-se estudar o nível morfológico da linguagem fazendo abstração do nível fonológico pode-se estudar o nível formal sem referência ao nível semântico e assim por diante mas entendemos que agindo assim tudo se passa informe final apresentado à conferência de antropólogos e lingüistas realizada na universidade de indiana e .u a de 21 a 30 de julho de 1952 publicado no suplemento do int journal of american linguistics xix n.° 2 abril 1953.

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como no caso de uma filtragem acústica podem-se excluir por exemplo as altas freqüências ou pelo contrário as baixas freqüências num caso e noutro sabemos que se trata simplesmente de um método de experimentação científica de igual maneira é muito interessante observar um jogo de cabra-cega como se comporta uma pessoa de olhos vendados que podemos dizer da linguagem quando nada sabemos das significações É muito instrutivo ver correr uma pessoa com os movimentos embaraçados como nas corridas de sacos ninguém entretanto pretenderá que se corre melhor e mais depressa dom as pernas presas em um saco do que com elas livres assim nós nos damos conta cada vez mais do fato de que nosso objetivo supremo é a observação da linguagem em toda a [pág.16 sua complexidade eu diria parafraseando terêncio linguista sum linguistici nihil a me alienum puto se agora estudamos a linguagem juntamente com os antropólogos devemonos regozijar com a ajuda que eles nos trazem com efeito os antropólogos têm sempre afirmado e provado que a linguagem e a cultura se implicam mutuamente que a linguagem deve ser concebida como uma parte integrante da vida social que a lingüística está estreitamente ligada à antropologia cultural É inútil insistir nesse problema que c lévi-strauss apresentou de modo tão esclarecedor gostaria antes de voltar ao que dizia d bidney durante a discussão da tarde um gênero mais próximo ainda que o gênero cultura engloba a espécie linguagem a linguagem é um caso particular dessa subclasse de signos que sob o nome de símbolos nos foi descrita de modo tão penetrante por chao que diga-se de passagem encarna simbolicamente o que há de melhor tanto no pensamento ocidental como no pensamento oriental É por isso que quando determinamos o que seja linguagem devemos com h l smith compará-la aos outros sistemas simbólicos por exemplo o sistema de gestos a cujo estudo kuleshov m critchley e agora r birdwhistell se dedicaram de modo tão estimulante esse sistema de gestos oferece estou de acordo semelhanças instrutivas com a linguagem e também é bom acrescentar diferenças não menos notáveis em face da iminente tarefa de analisar e comparar os diferentes sistemas semiológicos devemos lembrar-nos não somente da divisa de f de saussure de que a lingüística é parte integrante da ciência dos signos mas também e antes de tudo da obra monumental de seu eminente contemporâneo um dos maiores precursores da análise estrutural lingüística charles sanders peirce peirce não só estabeleceu a necessidade da semiótica como esboçou-lhe também as grandes linhas quando se estudarem cuidadosamente as idéias de peirce a respeito das teorias dos signos dos signos lingüísticos em particular ver-se-á o precioso auxílio que trazem às pesquisas sobre as relações entre a linguagem e os outros sistemas de signos seremos então capazes de discernir os traços próprios do signo lingüístico [pág.17 no mais só se pode concordar com nosso amigo n mcquown que compreendeu perfeitamente que não há igualdade entre os diferentes sistemas de signos e que o sistema semiótico mais importante a base de todo o restante é a linguagem a linguagem é de fato o próprio fundamento da cultura em relação à linguagem todos os outros sistemas de símbolos são acessórios ou derivados o instrumento principal da comunicação informativa é a linguagem.

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no estudo da linguagem em ação a lingüística tem sido solidamente escorada pelo impressionante desenvolvi mento de duas disciplinas aparentadas a teoria matemática da comunicação e a teoria da informação as pesquisas dos engenheiros de comunicações não estavam no programa desta conferência mas é sintomático que a influência de c e shannon e w weaver de n wiener e r m fano ou do excelente grupo de londres seja encontrada praticamente em todos os trabalhos involuntariamente mantivemos discussões usando termos como codificação decodificação redundância etc qual é então exatamente a relação entre a teoria da comunicação e a lingüística haveria por acaso conflito entre esses dois métodos de abordagem não de modo algum em verdade a lingüística estrutural e as pesquisas dos engenheiros de comunicações convergem no que respeita à sua destinação mas então de que ordem é exatamente a utilidade da teoria da comunicação para a lingüística e vice-versa É preciso reconhecer que sob certos aspectos os problemas da troca de informação encontraram por parte dos engenheiros uma formulação mais exata e menos ambígua um controle mais eficaz das técnicas utilizadas bem como prometedoras possibilidades de quantificação por outro lado a imensa experiência acumulada pelos lingüistas no tocante à linguagem e à sua estrutura permite-lhes expor as fraquezas dos engenheiros quando estes lidam com material lingüístico a par da colaboração entre lingüistas e antropólogos creio que uma colaboração sistemática dos lingüistas e talvez dos antropólogos também com os engenheiros de comunicações será muito frutuosa [pág.18 analisemos os fatores fundamentais da comunicação lingüística qualquer ato de fala envolve uma mensagem e quatro elementos que lhe são conexos o emissor o receptor o tema topic da mensagem e o código utilizado a relação entre esses quatro elementos é variável e sapir analisou os fenômenos lingüísticos principalmente do ponto de vista de sua função cognitiva a qual ele considerava como a função essencial da linguagem mas essa ênfase da mensagem no seu tema está longe de ser a única possibilidade desde há alguma tempo tanto nos estados unidos como em outros países os lingüistas começam a dar mais atenção às possibilidades evidenciadas pela ênfase da mensagem em outros fatores em particular a ênfase nos dois protagonistas do ato de comunicação o emissor e o receptor É assim que acolhemos com prazer as penetrantes observações de smith acerca dos elementos lingüísticos que servem para caracterizar quem fala sua atitude em relação ao que diz e a quem o ouve Às vezes essas diferentes funções agem em separado mas normalmente aparece um feixe de funções tal feixe de funções não é uma simples acumulação constitui uma hierarquia de funções e é sempre muito importante sabor qual a função primária e quais as funções secundárias fiquei satisfeito com os estímulos que encontrei no tocante a esse assunto no artigo de smith no entanto não empregarei sua rica terminologia devo confessar que nesse ponto estou de acordo com v ray os termos novos são muitas vezes a doença infantil de uma nova ciência ou de um ramo novo de uma ciência prefiro evitar hoje termos novos em excesso quando discutíamos problemas fonológicos na década de 1920 eu próprio introduzi muitos

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neologismos e depois por acaso livrei-me dessa doença terminológica quando eu estava na suécia b collinder que detesta a fonologia disse-me que gostaria que eu escrevesse um livro para a sociedade lingüística de upsala mas por favor nada de fonologia eu estava justamente terminando meu livro sobre a fonologia da linguagem infantil e da afasia contentei-me em eliminar os termos fonológicos diante do que ele disse agora está ótimo o livro foi de fato [pág.19 bem acolhido e compreendido num vasto círculo e eu por minha vez entendi que era possível mesmo ao discutir problemas totalmente novos livrar o trabalho de termos novos pouco importa que eu diga lingüística e os senhores microlingüística para designar as diferentes seções da lingüística sirvo-me de termos tradicionais os senhores preferem os compostos microlingüística e metalingüística embora os termos tradicionais sejam perfeitamente satisfatórios microlingüística é inofensivo o neologismo metalingüística e nisso estou de acordo com chao e outros é um pouco perigoso porque metalingüística e metalinguagem querem dizer algo completamente diferente em lógica simbólica como é melhor ter relações desanuviadas com os lógicos seria preferível evitar tais ambigüidades além disso os senhores se espantariam se um zoólogo ao descrever o que um determinado animal come e em que parte do mundo o encontramos chamasse tais questões de metazoologia mas não insistirei continuo a seguir o conselho de meu falecido mestre a m pechkovsky não nos atormentemos com a terminologia dizia ele se você tem um fraco pelos neologismos empregue-os você pode até chamar a isto ivan ivanovich desde que todos saibamos o que você quer dizer voltemos às funções lingüísticas mencionei a ênfase no tema topic no emissor e no receptor vemos quantas coisas novas podemos descobrir ao analisar esse problema fundamental do emissor e do receptor além disso é ainda possível dar ênfase ou ao código ou à mensagem esta ênfase na mensagem propriamente dita constitui a chamada função poética estou contente em saber que se não nesta conferência pelo menos na próxima essa função será colocada no programa de debates o bem sucedido seminário que a hill e h whitehall mantêm sobre a linguagem poética neste instituto de lingüística é uma prova eloqüente de que os problemas da linguagem poética estão no primeiro plano das preocupações dos lingüistas norte-americanos estou satisfeito com o fato de que como o proclama whitehall no excelente panfleto publicado recentemente pelo foreign service institute uma ponte entre a lingüística e a crítica literária tenha sido finalmente edificada neste país o tema [pág.20 próprio das pesquisas sobre poesia não é outro senão a linguagem considerada do ponto de vista de sua função predominante a ênfase na mensagem essa função poética entretanto não se confina à poesia há s uma diferença na hierarquia tal função pode estar subordinada e outras funções ou ao contrário aparecer como a função central organizadora da mensagem a concepção da linguagem poética como uma forma de linguagem onde a função poética é predominante ajudar-nos-á a compreender melhor a linguagem prosaica de todos os dias em que a hierarquia de funções é diferente mas em que tal função poética ou estética tem necessariamente um lugar e desempenha um papel tangível

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tanto do ponto de vista sincrônico como sob o ponto de vista diacrônico há casos fronteiriços instrutivos a mais alta unidade lingüística codificada funciona ao mesmo tempo como o menor todo poético nessa área marginal as pesquisas de nosso amigo d b shinkin sobre os provérbios constituem um tema fascinante já que o provérbio é ao mesmo tempo uma unidade fraseológica e uma obra poética mencionamos os fatores implicados no ato da fala mas nada dissemos das interações e permutações possíveis entre esses fatores por exemplo os papéis de emissor e de receptor podem confundir-se ou alternar-se o emissor e o receptor podem tornar-se o tema da mensagem etc mas o problema essencial para a análise do discurso é o do código comum ao emissor e ao receptor e subjacente à troca de mensagens qualquer comunicação seria impossível na ausência de um certo repertório de possibilidades preconcebidas ou de representações pré-fabricadas como dizem os engenheiros e notadamente d m mackay um dos mais próximos dos lingüistas entre eles quando li tudo o que escreveram os engenheiros de comunicações sobretudo nos estados unidos e na inglaterra em particular e c cherry d gabor e mackay sobre código e mensagem dei-me conta é claro de que desde há muito esses dois aspectos complementares são familiares às teorias lingüísticas e lógicas da linguagem tanto aqui como alhures é a mesma dicotomia que encontramos sob denominações diversas tais como langue-parole língua-fala sistema lingüístico enunciado [pág.21 legisigns-sinsigns type-token tipo-caso particular sign-de-sign sign-event etc modelo semiótico-processo semiótico mas devo confessar que os conceitos de código e mensagem introduzidos pela teoria da comunicação são muito mais claros muito menos ambíguos muito mais operacionais do que tudo o que nos oferece a teoria tradicional da linguagem para exprimir essa dicotomia creio ser preferível trabalhar agora com esses conceitos bem definidos mensuráveis e analisáveis a substituí-los por termos novos e ademais um tanto vagos tais como common core fundo comum a teoria da comunicação parece-me uma boa escola para a lingüística estrutural assim como a lingüística estrutural é uma escola útil para os engenheiros de comunicações penso que a realidade fundamental com que se tem de haver o lingüista é a interlocução a troca de mensagens entre emissor e receptor entre remetente e destinatário entre codificador e decodificador ora verificamos atualmente uma tendência para a volta a um estágio muito antigo eu diria mesmo um estágio pre-whiteyano de nossa disciplina falo da tendência a considerar o discurso individual como a única realidade como já mencionei qualquer discurso individual supõe uma troca não há emissor sem receptor exceto é claro quando o emissor é um doente mental ou um bêbado quanto ao discurso não-exteriorizado nãopronunciado a chamada linguagem interior trata-se apenas de um substituto elíptico e alusivo do discurso explícito e exteriorizado o diálogo aliás subentende mesmo o diálogo interior como uma série de observações o demonstraram de pierce a l s vygotsky foi com o costumeiro grande interesse que li o artigo sobre o idioleto distribuído por meu velho amigo c f hockett esse artigo confina o idioleto aos

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hábitos que caracterizam o falar de um único indivíduo num dado momento e exclui tudo o que nos hábitos lingüísticos desse indivíduo se refere à compreensão do discurso dos outros se todas as minhas comunicações em cambridge por um longo período fossem observadas e gravadas jamais me ouviriam pronunciar a palavra idioleto e agora entretanto como me dirijo aos senhores eu a emprego porque me adapto à [pág.22 linguagem de meus adversários potenciais à de hockett por exemplo e do mesmo modo emprego muitas outras palavras quando fala a um novo interlocutor a pessoa tenta sempre deliberada ou involuntariamente alcançar um vocabulário comum seja para agradar ou simplesmente para ser compreendido ou enfim para livrar-se dele empregam-se os termos do destinatário a propriedade privada no domínio da linguagem não existe tudo é socializado o intercâmbio verbal como qualquer forma de relação humana requer pelo menos dois interlocutores o idioleto é afinal uma ficção algo perversa de fato os lingüistas têm muito a aprender da teoria da comunicação um processo de comunicação normal opera com um codificador e um decodificador o decodificador recebe uma mensagem conhece o código a mensagem é nova para ele e por via do código ele a interpreta no compreender essa operação a psicologia nos pode dar um grande auxílio devemos um dos momentos mais significativos desta conferência ao sagaz relatório de osgood sobre a análise psicolingüística dos processos de codificação e decodificação É a partir do código que o receptor compreende a mensagem a posição do lingüista que decifra uma língua que não conhece é diferente ele tenta deduzir o código da mensagem dessarte ele não é um decodificador é o que se chama um criptanalista o decodificador é um destinatário virtual da mensagem os criptanalistas norte-americanos que durante a guerra liam as mensagens secretas dos japoneses não eram os destinatários dessas mensagens É evidente que os lingüistas devem explorar a técnica dos criptanalistas e naturalmente quando nos servimos durante muito tempo de uma técnica acabamos por acreditar que é o procedimento normal mas em verdade um método desses representa apenas um papel marginal e excepcional na comunicação comum e a tarefa do lingüista é começar como criptanalista para acabar como o decodificador normal da mensagem seu ideal é tornar-se semelhante a um membro da comunidade lingüística estudada o criptanalista observa alofones e busca os fonemas mas os fonemas os invariantes [pág.23 são muito mais familiares ao decodificador ao membro da comunidade lingüística do que as variantes pouco importa a este o que sejam alofones interessalhe distinguir os contrastes fonológicos de modo a compreender o texto diga-se de passagem que os termos alofones e contraste são em minha boca outros exemplos da adaptação de quem fala a seus ouvintes de outro modo eu diria variante e oposição no domínio da interação entre mensagem e código esta conferência assinala um grande progresso discutimos aqui em diferentes níveis a relação entre os dois protagonistas da comunicação lingüística ora como sabemos muito bem uma das tarefas essenciais da linguagem é vencer o espaço abolir a distância criar uma

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