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organizador roy willis tradução de thaís costa e luiz roberto mendes gonçalves
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prefácio de robert walter 8 introduÇÃo 10 doutor roy willis os grandes temas mitolÓgicos 17 doutor roy willis criação as origens do mundo 18 arquitetura cósmica a estrutura do universo 20 mitos da humanidade causas da vida e da morte 22 seres sobrenaturais deuses espíritos e demônios 24 desastres cósmicos o fim do mundo 26 heróis e astuciosos agentes de mudança 28 animais e plantas energia transformação e afinidade 30 corpo e alma espírito e vida após a morte 32 casamento e afinidade mitos da ordem social 34 uma mitografia mundial 35 egito 36 professor john baines e doutora geraldine pinch Índia 68 doutor john brockington os primeiros deuses ordem a partir do caos 38 o ennead os nove deuses de heliópolis 40 osíris defensor da ordem 42 Ísis a viúva devotada 43 hórus e seth a luta pelo trono de osíris 44 mitos solares o eterno ciclo de renovação 46 mito e magia o nome secreto de rá o livro de thot 48 serpentes e escorpiões agentes do caos 49 deusas poderosas neith secmet e bastet 50 outras deusas anat astarte hator e taweret 51 os reis e os deuses o papel sagrado dos faraós 52 magos sacerdotes setna khaemwese e imhotep 54 vida após a morte a alma no mundo subterrâneo 55 o oriente médio 56 professor e cÔnego j.r porter origens do mundo sacrifício e conflito 70 indra guerreiro e rei dos deuses 72 brahma o deus criador 74 vishnu protetor do mundo 75 encarnações de vishnu os avatares 76 rama o avatar justo 77 krishna o adorável o oitavo avatar de vishnu 78 shiva o erótico e o ascético combinados 80 devi a deusa múltipla 82 círculo familiar de shiva shiva parvati skanda ganesha 84 mito jainista uma resposta ao hinduísmo 85 o iluminado mitos do budismo 86 china 88 doutor john chinnery suméria e babilônia mitos das primeiras cidades 58 gilgamesh o grande épico da mortalidade 60 ishtar e tamuz a descida aos infernos 61 mitos da criação enki marduc e os decretos divinos 62 o dilúvio destruição e sobrevivência 63 mitos ugaríticos realeza e sucessão 64 mitos dos hititas dragões e deuses perdidos 66 mitos persas ahura mazda e a batalha entre o bem e o mal 67 ordem a partir do caos pan gu e hun dun 90 nü gua e fu xi a criação da humanidade mitos do dilúvio 91 sol lua e estrelas mitos dos corpos celestes 94 budismo chinês amitaba e guanyin 96 mito taoísta deuses e imortais 98 mitos da família devoção filial e deuses do lar 101
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tibete emong ó l i a 102 roma 166 doutor martin boord doutora mary beard mitos da origem radiante miséria negra e o vento cármico 104 mitos dos antigos reis os governantes vindos dos céus 105 rei gesar o guerreiro-rei 106 a domesticação dos deuses o impacto do budismo 107 xamanismo mongol encontro com o reino dos espíritos 108 deuses e deusas o panteão emprestado deuses domésticos e virtudes cívicas 168 a fundação de roma o destino de enéias o troiano 172 rômulo e os reis de roma a loba e os mitos do passado 174 o mundo céltico 176 doutor john macinnes o panteão celta uma miscelânea de deuses 178 mitos e deuses da irlanda o ciclo mitológico 180 o herói de ulster contos de cú chulainn 182 finn e seus guerreiros os mitos fenianos 184 deusas maternidade guerra e soberania 186 viagens ao outro mundo conla mael dúin e bran 187 histórias de gales o mabinogion 188 a lenda arturiana /artur e seus cavaleiros 189 europa setentrional 190 japão 110 doutor c scott littleton izanagi e izanami o primeiro casal 112 amaterasu e susano ia luta das divindades irmãs 115 a crise divina a retirada de amaterasu do sol 116 o ciclo izumo a descida de susano à terra okuninushi e o coelho branco 118 deuses heróis e demônios inari hachiman e os oni 121 o reino de saga as proezas de jimmu tenno e yamato takeru 122 mitos budistas três figuras de misericórdia 123 grécia 124 doutora hilda ellis davidson doutor simon goldhill mitos e sociedade práticas públicas e privadas 126 o nascimento dos deuses ia ascensão dos olímpicos 128 as origens da humanidade prometeu pandora deucalião pirra 130 zeus rei dos deuses 132 as uniões de zeus consortes humanos e divinos 133 atena ia deusa virgem 136 posêidon deus do mar 137 apolo o deus esplêndido 138 Ártemis i deusa casta dos caçadores 139 dioniso deus do vinho e dos estados alterados 140 deusas da terra deméter e perséfone 142 ares e afrodite guerra amor e sexo 143 lar família e fogo /hermes héstia e hefaistos 144 os infernos o reino de hades 146 heróis e monstros prodígios do mundo 147 héracles o herói arquetípico 148 teseu herói e estadista ateniense 150 jasão o grande aventureiro 152 os argonautas a busca de jasão pelo velo de ouro 154 perseu /assassino da medusa 156 a guerra de tróia epopéia de guerra de homero 157 depois de tróia odisseu e agamenon 160 transgressores infratores da ordem natural 162 centauros e amazonas raças de seres fabulosos 164 transformações mitos de metamorfose orfeu 165 deuses primitivos e esquecidos fragmentos de mitos nórdicos 192 cosmologia na era viking a arvore do mundo e seus reinos 193 loki e ragnarok o trapaceiro o lobo e a última grande batalha 195 odin o senhor de asgard 196 thor o deus do trovão 198 freyr e os vanir deuses do céu da terra e da água 200 deusas e espíritos femininos fréia maçãs douradas valquírias e nornas 202 os matadores de dragões beowulf e sigurd 204 europa central e do leste 2 0 6 doutor faith wigzell o outro mundo o décimo reino triplicado 208 baba iaga e as amazonas criaturas folclóricas femininas 209 espíritos ancestrais e do lar ivan o tolo e o domovoi 210 almas e espíritos dos mortos a rusalka vila e outros visitantes 211 espíritos malignos criaturas da floresta lobisomens e vampiros 212 as regiões árticas 214 doutor david riches e doutor piers vitebsky mitos dos inuítes espíritos do mar e do céu 216 mitos da sibéria /animais árvores e xamãs 218
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américa donorte 220 austrália 278 professor robert layton doutor guy cooper mitos da criação grande espírito e mergulhador da terra 222 origens da humanidade os primeiros ancestrais humanos 223 deuses e heróis formadores e controladores do mundo 224 xamãs a busca da visão e espíritos guardiões 226 trapaceiros entretenedores e intrigantes 227 mitos dos navajos cerimônias de cura e lendas do coiote 228 mitos das planícies wakan tanka e o cachimbo sagrado 230 mitos de animais os parentes da humanidade 232 a grande inundação mitos da origem 280 morte e luto as origens da mortalidade 282 origens do casamento a Águia e o corvo wodoy e djunggun 284 trapaceiros a ordem ancestral perturbada 285 formando a paisagem mitos de errâncias ancestrais 286 oceania 288 doutor james weiner meso-américa 234 doutor nicholas j saunders os velhos deuses o jaguar e a divindade do fogo 236 criações e cataclismas o mito dos sóis 237 tezcatlipoca senhor do espelho de fumaça 239 quetzalcoatl a serpente emplumada 240 huitzilopochtli deus do sol e da guerra 242 tlaloc e fertilidade deuses astecas da chuva e do milho 244 deuses do calendário sagrado ciclos solares sagrados 246 deuses dos maias o cosmos de três camadas 248 mitos da origem deuses criadores e heróis culturais 290 mitos do céu reinos humanos e celestiais 292 alimentos e fertilidade o sexo e a origem da horticultura 293 mitos dos maoris rangi papa e o panteão polinésio 294 ku e lono o ciclo ritual havaiano 296 maui o herói trapaceiro da oceania 297 cultos de carga o impacto europeu 298 mito e magia mito vivo da ilha de goodenough 299 sudeste asiático 300 doutora ing-britt trankell e doutor roy willis américa do sul 250 doutor nicholas j saunders religiões antigas espíritos sacrifício e jornadas sagradas 252 mitos dos andes os incas e seus predecessores 253 o panteão inca viracocha inti mama kilya e ilyap a 256 os céus sagrados constelações animais e linhas sagradas 258 mundos espirituais o universo transformado 260 a floresta ancestral mitos de origem dos povos da floresta 262 mitos de origem a criação do mundo e da humanidade 302 humanos deuses e espíritos as origens da civilização 304 encontros com a magia bárbaros demônios e feiticeiros 306 o doador da vida mitos sobre o arroz 307 leituras complementares 308 créditos das imagens 310 África 264 doutor roy willis origens do mundo mitos da criação africanos 266 o mundo invertido reinos dos vivos e dos mortos 268 morte e sexo a perda da imortalidade 269 mitos de realeza a linhagem divina dos governantes 270 mitos de torres a insensatez da presunção humana 273 exu o trapaceiro hábil mediador entre o céu e a terra 274 mitos de animais trapaceiros inventores e transformadores 276 índice 311
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p orrobert walter presidente da josephcampbellfoundation q u e tal este c.j perguntei entregando a o meu filho de 7 anos o livro de histórias que eu havia tirado da estante ele examinou a capa quer tentar lê-lo eu já sei como começa ele declarou sem abrir o livro sabe como era uma vez todos começam assim por quê porque são histórias sobre coisas que aconteceram há muito tempo sim m a s as mesmas coisas tamb é m acontecem hoje Às vezes ah está certo disse ele folheando as páginas m a s sabe o que mais bob o quê Às vezes quer dizer algumas histórias eu n ã o acho que aconteceram de verdade provavelmente n ã o mastudo bem ele acrescentou rapidamente continuam sendo boas histórias recontar antigas histórias pelo puro deleite do era uma vez é uma arte pouco praticada atualmente pelo menos no mundo oci dental mesmo assim quando uma amostra vivida da arte chega até nós oencantamento funciona e somos transportados na imagina ç ã oparauma terra donunca jamaisque de alguma forma conhecemos há muito tempo sua fascinação está em modos de vida fundamentalmente diferentes dos nossos os quais n ã o obstante falam de certa forma a alguma parte de nós a que tal vez n ã o estejamos prestandoaten ç ã o aparte da fantasia edosonho a qual pode levar à visão e daí a algum tipo d e revelação se n ã o sobre o universo então no mínimo sobre nós mesmos pois n o passado e hoje em dia no mundo primitivo que está desa parecendotaorapidamente até dos confins mais escondidos da terra as pessoas viviam em grande parte baseadas nas visões seja de grandes mestres como buda mois é s zaratustra jesus emaom é seja em terras menos desenvolvidas dos videntes exam ã s de sua própria aldeia em conseqüência os tecidos e obras de arte feitos por suas mãos eram moldados pelas visões q u e haviam mol dado sua vida e estas falam subliminarmente às nossas próprias possibilidades de visão contando sobre qualidades de vida que per demos ou q u e estão à espera de ser realizadas quase todo mundo adora uma boa história as crian ças certamente adoram nosso senso do eu nossa noção de quem somos de onde viemos e para onde vamos é definido pelas histórias que contamos somos na essência quem dizemos a nós mesmos que somos o narrador de um romance recente tem exata mente essa revelação parado no rochedo imerso em minha busca entendi qual era a história e esta é a história a vida é um sonho etudo uma história que estamos contandoanós mesmos as coisas são sonhos apenas sonhos quandon ã o estão diante de seus olhos oque está diante de seus olhosagora oque você pode alcançar e tocar agora se tornará um sonho a única coisa que nos impede de sair voando com o vento são nossas histórias elas nos d ã o um nomee nos situam permitem que continuemos em contato 1 há uma distinção crucial implícita nas observações de campbell quase toda boa história é capaz de nos encan tar e ensinar algo mas apenas certas visões sedutoras histórias com o poder de moldar e controlar nossa vida conseguem nos inspirar e com grande freqüência nos des truir tais histórias poderosas e atemporais ele insistia são as únicas que podem apropriadamente ser chamadas de mitos por extensão mitologia é para campbell o estudo de todas as histórias imbuídas dessa pujança n o entanto nem todo mundo concorda muitos na maior parte discutivelmente se sentem muito mais à vontade com a definição restrita de robert graves mitologia é o estudo de quaisquer lendas religiosas ou heróicas que sejam tão estranhas à experiência de um estudante que ele n ã o consegue acreditar em sua veracidade daí o adjetivo inglês mythi¬ cal significar incrível e daí a omissão nas mitologias européias padr ã o tais como esta de todas as narrativasbíblicas mesmoquandotêm paralelos estreitos com mitos da pérsia da babilônia d o egito e da grécia e de todas as lendas hagiológicas as histórias realmente nos capacitam a nos manter em contato uns com os outros elas são e sempre fo ram janelas cada uma enquadrando uma determinada visão de uma paisagem distinta que de outra forma jamais poderíamos conhecer e paradoxalmente não importa quão única seja a perspectiva quão exótica a vista se a observarmos atentamente poderemos apren der algo sobre nós mesmos meu amigo e mentor joseph campbell hábil contador de histórias que apre ciava uma história bem contada explica essas observações merecem consideração especial mente aqui num livro em que se fizeram omissões seme lhantes mas da perspectiva imparcial de campbell nenhuma hagiologia incluindo a bíblia é a revelação divina da verdade incontestável pois todas são essencial mente fabulosas sínteses mentais humanas lendas assom brosas de era uma vez mitos maravilhosos:
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d oponto de vista de qualquer ortodoxia mito pode ser defi nido simplesmente como a teligião de outropovo para o qual uma definição equivalente de religião seria mitologia mal com preendida a má compreens ã o consistindo na interpretação de metáforas míticas como referências a o fato real assim como os sonhos os mitos são produtos da imaginação humana em conseqüência suas imagens embora derivadas do mundo material e d e sua supostahist ó r i a s ã o aexemplo dos sonhos revelações das esperanças desejos e temores mais profun dos de potencialidades e conflitos da vontade humana que por sua vez é movida pelas energias dos órgãos do corpooperando de formas diversas uns contra os outros e em conjunto isso quer dizer que todo mito intencionalmente ou não é psicologicamente sim bólico portanto suas narrativas e imagens devem ser lidos n ã o literalmente mas como metáforas 4 sido aquela n ã o menos teimosa de tratar as metáforas como menti ras o que sem dúvida são quando assim construídas desfazendo-se assim de todoo dicionário da linguagem da alma isto é uma metá fora por meio do qual a humanidade tem sido elevada a interesses além da procriação da economia e do bem-estar da maioria 5 assim para campbell todos os mitos são transpa rentes à transcendência ou seja são metáforas psíqui cas reveladoras de axiomas universais mas para muitos seus próprios mitos são fatos literais enquanto os dos outros são construções imaginárias para que você não pense que essa distinção é meramente acadêmica basta ouvir o noticiário da noite ou dar uma olhada nas man chetes de qualquer jornal nós nos consideramos uma espécie inteligente mas mesmo assim no início do século xxi ainda somos devastados por antigos ódios tribais em sua maioria estimulados por interpretações reducio¬ nistas de lendas exemplares e sagas heróicas de mitos que são transmitidos de geração para geração além disso como campbell observou reiteradas vezes esse caos é e sempre foi a inevitável e trágica conseqüência de leituras literais de imagens mitológicas de metáforas n o popular pesadelo da história em que imagens míticas locais são interpretadas n ã ocomo metáforas mascomo fatos guerras brutais têm sido travadas entre os partidários de tais maneiras con trárias de representação metafórica n ã o se pode evitar a indagação para que tal litetalidade tribal pode contribuir senão para a agonia de um mundo de perspectivas globais interculturais como este d o século atual isso tudo provém de metáforas mal interpretadas q u e confundem denota ç ã o com conotação o mensageiro com a mensagem sobrecarregando o por tador conseqüentemente com u m significado sentimental e assim desequilibrando tanto a vida quantoo pensamento a única retifica ção geralmente reconhecida e proposta para isso até o momento tem você tem em mãos um livro sobre mitos o que signi fica uma obra sobre metáforas as ferramentas de poe tas e artistas suas páginas são vivas com vozes e visões dos artistas/construtores de mitos que partiram antes de nós com narrativas e imagens mitológicas com a lin guagem da alma leia estas páginas como se lesse um diário de sonhos pois a tarefa do ser humano moderno é interiorizar a simbologia mítica perceber que todos os deuses e demônios estão dentro dele entender que céu inferno e outros reinos dessa sorte não são lugares em algum ponto longínquo para os quais vamos depois da morte mas estados psicológicos dentro de todos nós em suma compreender que todas as imagens mitológi cas são aspectos de nossa própria experiência imediata assim se ler este livro com a mente aberta com a ino cência da criança para a qual o mundo é inerentemente mágico você vai explorar paisagens exóticas e descobrir maravilhas inenarráveis voltará a se familiarizar com os deuses de ouro com os demiurgos ancestrais que ainda vivem dentro de nós aprenderá muito sobre nos sos antepassados e entes próximos e mais ainda sobre si mesmo e é claro ouvirá muitas histórias encantadoras de era uma vez robert walter 1 spanbauer tom the man who tell in love with the moon nova york atlantic monthly press 1991 p 190 2 4 campbell joseph the inner reaches of outer space metaphor as myth and as religion nova york van der matck editions 1985 harper perennial 1988 p 55 5 campbell joseph myths from west to east ensaio em myths de alexander eliot nova york mcgraw-hill 1976 p 31 the inner reaches of outer space op cit p 58 new larousse encyclopedia of mythology londres hamlyn publishing da reed international books publicado originalmente em 1959 3
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apresentaÇÃo a palavra grega mythos da qual deriva a portu guesa mito originalmente significava simples mente palavra fábula ou história foi somente após o trabalho do escritor grego heró doto no século iv a c particularmente sua histó ria da guerra entre os gregos e os persas que o con ceito de fato histórico se tornou estabelecido no antigo pensamento grego em compensação mythos passou então a significar ficção e até mentira em oposição a logos a palavra da verdade dessa época em diante também foi reconhecido que logos sempre tem um autor iden tificável o qual nas tradições judaica cristã e islâ mica pode ser o próprio deus ao passo que mythos chega até nós anonimamente de alguma fonte remota e de um tempo indeterminado müller sugeria o que hoje parece um ponto óbvio que essa história havia originalmente simbolizado o revezamento sazonal do inverno e do verão no hemisfério norte outro teórico influente foi o antropólogo britâ nico j g frazer cuja obra em doze volumes the golden bough 1911-1915 reuniu histórias míti cas do mundo inteiro sobre o tema do reino divino e do sacrifício ritual de reis assassinados por seus sucessores assim que ficavam velhos demais para governar efetivamente uma hipótese similar foi apresentada mais recentemente por walter bur¬ kert folclorista alemão que em 1979 interpretou mitos de bode expiatório como oriundos da experiência supostamente freqüente na espécie humana primitiva de ser compelida a sacrificar um membro mais fraco do grupo para atrair carnívo ros e assim os demais poderem escapar teorias do mito apesar da rejeição insolente do mythos por heró doto histórias míticas continuam a capturar a ima ginação através dos séculos e cientistas e filósofos têm feito numerosas tentativas para descobrir o segredo de seu apelo duradouro no início da era moderna o italiano giambattista vico em seu scienza nuova nova ciência de 1725 argumen tou que os mitos não eram versões distorcidas de narrativas bíblicas conforme geralmente se acei tava na europa da época ao contrário eram tenta tivas imaginativas de solucionar os mistérios da vida e do universo e como tais podiam ser compa radas num estágio mais inicial do desenvolvi mento humano a modernas teorias científicas posteriormente teóricos tentaram descobrir uma causa única para a construção de mitos um famoso expoente do século xix por tal abordagem foi o fol¬ clorista alemão friedrich max müller para quem todos os mitos produzidos pelos povos indo-euro¬ peus poderiam ser entendidos como originários de histórias simbólicas ou alegorias sobre fenômenos naturais como o sol a lua o céu ou o amanhecer revestidos de atributos humanos um exemplo foi o antigo mito grego de perséfone uma moça que foi raptada por hades rei dos infernos mas que tinha permissão para voltar ao mundo superior durante dois terços de cada ano ou seja não no inverno mente e sociedade outros procuraram interiormente para explicar o apelo constante de determinados mitos ou do mito em geral alegando que eles têm ressonância com traços permanentes da mente humana ou psique um exemplo é a leitura de sigmund freud do mito grego de Édipo no qual o herói inadvertidamente mata seu próprio pai e casa-se com sua mãe segundo freud essa antiga história retrata o senti mento inconsciente de todos os jovens do sexo masculino em relação a seus pais uma teoria geral do mito foi proposta por carl gustav jung colabo rador e posteriormente adversário de freud para esse psicanalista suíço os mitos extraem seu poder misterioso do fato de que seus principais perfis morais incorporam arquétipos primitivos que con tinuam exercendo grande influência sobre a psique humana tais como o ancião sábio ou a mãe j g frazer trabalhou exclusivamente com biblio grafia mas um século antes antropólogos já haviam começado a estudar sociedades tribais em primeira mão essa abordagem os colocou em contato pela primeira vez com mitos vivos e a construção de mitos e contribuiu largamente para nossa com preensão do assunto em sua complexidade multifa cetada uma importante contribuição foi a demonstração
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evidÊncias do mito nosso conhecimento de mito tribal provém sobretudo de fontes indiretas de viajantes missionários administradores coloniais e mais recentemente de pesquisas de campo conduzidas por antropólogos alguns povos tribais têm produzido escritores que tomaram nota de antigas histórias para um público leitor ocidental mas obviamente somos obrigados a confiar naquilo que esses autores decidiram nos contar as civilizações letradas da antiguidade deixaram um legado de escritos e inscrições dando testemunho de sua herança mitológica no entanto aqui também estamos lidando com os resultados finais de um longo processo de seleção c ordenamento do que foram originalmente narrativas orais os textos antigos têm brindado os arqueólogos com tremendos problemas de interpretação a compreensão dos hieróglifos do antigo egito só foi possível depois de 1799 com a descoberta perto de alexandria da pedra da roseta trilíngüe sem esse avanço no conhecimento as riquezas da tumba de tutancâmon trazidas à luz em 1922 teriam perdido pintura-mural da tumba de horemheb soberano do egito 1319-1292 a.c em tebas ele está entre o deus com cabeça de falcão hórus e a deusa-vaca hator grande parte de sua importância para nossa compreensão do pensamento egípcio a decifração da chamada escrita linear b na década de 1950 nos deu acesso aos mitos da antiga cultura micênica de creta mas a escrita da civilização do vale do indo onde hoje se situam o paquistão e a Índia continua indecifrada.
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a região de gandara na índia era uma encruzilhada cultural a julgar pelo estilo escultórico que mistura iconografia budista com motivos greco-romanos aqui héracles hércules com seu bastão transmissÃo do mito narrativas míticas como histórias folclóricas geralmente viajam facilmente de um grupo de povos para outro naturalmente os mitos podem mudar no processo e até dentro do mesmo grupo é possível ocorrerem mudanças à medida que os mitos são contados e recontados um exemplo bem conhecido da mobilidade do mito é o motivo do grande dilúvio o qual c encontrado cm todo o oriente médio e no leste do mediterrâneo incluindo a grécia assim como no sul e no leste asiático c nas américas por toda a África os motivos semíticos e bíblicos de uma torre sendo construída em direção ao céu e das águas se abrindo por obra de um líder real ou religioso ocorrem em diversas versões locais e as histórias de prometeu e de jasão c do velo de ouro são parte da mitologia local das culturas caucasianas da geórgia e da armênia muitas vezes é impossível descobrir o local de origem de um motivo mítico amplamente distribuído há mais certeza quando os registros sugerem a incorporação de um contexto local do mito cm uma tradição culta introduzida isso aconteceu por exemplo no tibete onde o budismo oficial absorveu elementos xamanísticos da cultura indígena baco mostrado à esquerda num mosaico dos séculos i-ii d.c substituiu dioniso como deus do vinho e do êxtase na mitologia que os romanos adotaram dos gregos.
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tração de bronislaw malinowski de que o mito da origem dos habitantes melanésios das ilhas tro briand embora aparentemente se referisse a um passado remoto extraía sua significância de sua relevância direta para a ordem social presente essa história contava que os antepassados dos quatro clãs de trobriand eram certos animais que surgiram de um buraco no chão no início dos tempos as bes tas míticas porém não apareceram simultanea mente mas em uma ordem que era sempre a mesma em todas as versões do mito malinowski mostrou que essa ordem correspondia precisamente ao sta tus social existente dos quatro clãs em relação uns aos outros o antepassado animal do clã de status mais elevado surgiu primeiro da terra primitiva o segundo animal foi antepassado do próximo clã em termos de importância e assim por diante oposições e contradições o fato de que fábulas arcaicas podem aparente mente se relacionar de forma direta com o modo como a sociedade está organizada no presente naturalmente não significa que os mitos não pos sam conter uma variedade de outros significados talvez igualmente ou mais importantes na última metade do século xx nenhum acadêmico fez mais pelo entendimento profundo do mito do que o antropólogo francês claude lévi-strauss em suas análises exaustivas dos mitos dos povos nativos das américas do norte e do sul lévi-strauss pro curou mostrar como as narrativas visam a resolver contradições percebidas na experiência humana estas podem ser imediatas e sensoriais tal como o conflito entre vida e morte fome e saciação ou extremamente abstratas como o problema filosó fico do um e dos muitos lévi-strauss argumenta que os construtores de mitos buscam resolver toda sorte de contradições relacionando ou tentando relacionar um aspecto da vida ao seu oposto numa cadeia de oposições binárias por exemplo juventude e envelhecimento chuva e seca macho e fêmea humano e animal cultura e natureza vida e morte na análise de lévi-strauss um mito tanto sus cita questões quanto as responde em suas inter pretações de mais de 800 mitos a maioria deles com diversas variantes dos povos das américas do norte e do sul lévi-strauss mostrou minucio samente como as questões colocadas pelos mitos são absorvidas por outros mitos em um pro cesso de entendimento que incessantemente atra vessa e reatravessa limites geográficos e tribais a teoria e o método de lévi-strauss têm sido aplicados com êxito aos mitos da Índia da África da austrália e da oceania assim como aos da antiga grécia incluindo uma análise pioneira do mito de Édipo pelo próprio lévi-strauss em 1955 mas ainda restam muitas questões uma via de pesquisa negligenciada por lévi-strauss em seu interesse por oposições binárias é a questão da estrutura narrativa a maneira como episódios são reunidos para fazer uma história em sua análise de Édipo lévi-strauss afirma que o ordenamento de tais episódios é um aspecto sem conseqüência para a compreensão do significado da narrativa mas será esse realmente o caso o trabalho do folclorista russo vladimir propp e de seus seguidores sugere ao contrário que a estrutura narrativa é de importância fundamental para o sentido de todas as histórias tradicionais incluindo os mitos propp identificou um total de 31 episódios ou funções que constituem os blocos básicos de construção de todas as lendas populares russas estas incluem interdição viola ção da interdição vilania partida do local de ori gem em busca de algo diálogo com auxiliares mágicos aparição do vilão vôo perseguição e libertação da perseguição além disso embora poucas das 100 histórias tradicionais analisadas por propp contenham todas essas 31 funções esses episódios que aparecem em qualquer lenda particular sempre o fazem na mesma ordem o tra balho do folclorista americano alan dundes sobre histórias dos índios norte-americanos sugere que também nesse caso embora a lista de episódios básicos seja muito menor eles ocorrem novamente em uma seqüência fixa resultados similares têm sido obtidos em pesquisa na África onde lee haring aluno de dundes identificou uma seqüên cia de seis episódios em uma história característica do povo camba do quênia mito e conto popular sobre a distinção entre mito e conto popular os especialistas tendem não só a ficar divididos mas surpreendentemente pouco elucidativos há consenso geral de que os dois modos de narrativa têm muito em comum ambos são produtos comu nais o que significa que carecem de autores identi ficáveis e existem em múltiplas versões mas qual é a diferença entre eles se é que existe embora as duas formas se misturem de maneira complexa uma abordagem é aplicar o rótulo mito a essas histórias anônimas que buscam explicar as origens do mundo incluindo a sociedade e a cultura humana uma vez que esses são tópicos de preocu pação humana universal não nos surpreendemos ao descobrir que todo mundo pode reconhecer de
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mito histÓria e literatura mito c história estão intrincadamente entrelaçados nos registros documentais de civilizações letradas um exemplo famoso de mito histórico deliberadamente fabricado é a elaboração épica do poeta romano virgílio na eneida de uma história preexistente que liga a fundação do que veio a tornar-se o império romano com o exílio do troiano enéias ver pp 172-173 mitos da origem comumente têm sido usados de formas similares em diversas culturas para afirmar um senso de prestígio comunal no início da era moderna a relativa facilidade com que o aventureiro espanhol hernán cortés destruiu o poderoso império asteca em 1521 é geralmente relacionada a um mito asteca contemporâneo que previa a chegada de estrangeiros brancos barbudos com atributos divinos comenta-se que existiam mitos semelhantes entre os incas da américa do sul que podem ter influenciado o colapso do império inca no século xvi assim como o mito pode reforçar a história a história também pode tornar-se parte da matéria-prima da imaginação mítica com freqüência a probabilidade é estirada a limites fabulosos o cronista william de newburgh c 1198 aponta que geoffrey de monmouth em sua history of the kings of britain faz o dedo mínimo do rei artur mais grosso do que o pênis de alexandre o grande fatos indisputáveis sobre o verdadeiro artur são singularmente escassos embora seja possível que ele fosse o líder a quem nênio dá o crédito pela decisiva batalha de monte badon contra os saxões c 500 d.c artur e os trinta cavaleiros ilustrados na crônica medieval de peter langtoft.
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imediato um mito enquanto definido como tal independentemente de quão distante ou estranha seja a cultura da qual ele emana que tipo de condições sociais produzem o mito nesse sentido cósmico parece que tais his tórias são mais proeminentes em sociedades précientíficas com o tipo mais simples ou mais sofisti cado de organização social por um lado nós as encontramos em sociedades não estratificadas dependentes da caça e da coleta que dentre todas as comunidades humanas são as mais intima mente dependentes da natureza exemplos disso vêm dos povos caçadores-coletores das américas do norte e do sul sudeste asiático austrália e África assim como dos esquimós por outro lado encontramos algumas das mitologias mais com plexas em sociedades pré-científicas que se liberta ram suficientemente da dependência de seu meio ambiente para desenvolver uma hierarquia que inclui um privilegiado sacerdócio intelectual alguns exemplos provêm da antiga índia da gré cia da china e do japão e dos povos dogon bam bara e iorubá da África ocidental dos incas da américa do sul e dos povos maia e asteca da amé rica central assim como dos povos celta e germâ nico do norte europeu conto popular é o produto de sociedades que se baseiam em agricultura e cuja complexidade se situa entre as comunidades simples de caçadorescoletores e os estados estruturados em classes o conteúdo do conto popular caracteristicamente tem mais a ver com conflito e problemas sociais do que com as questões cósmicas tratadas no mito os contos populares anônimos e oralmente transmitidos devem ser cuidadosamente diferen ciados dos contos de fadas criações literárias do romantismo do século xix o conto popular transmite uma mensagem social por exemplo pode enfocar o conflito entre o empreendedorismo juvenil e a autoridade madura muitas vezes porém tais contos também portam ecos de fases anteriores de evolução social por exemplo em contos populares eslavos muitos dos quais surgiram bem antes do período em que os falantes de russo se tornaram um grupo étnico dis tinto sete ou oito séculos atrás e mesmo antes da primeira aparição dos eslavos no século v d.c a presença da ogra baba iaga pode refletir um culto à deusa associado à morte e aos infernos similar mente mitos relativos a maçãs de ouro também encontrados em lendas eslavas podem estar ligados a algum culto solar há muito extinto e muito possi velmente a crenças ainda mais antigas relacionadas a jornadas aos infernos efetuadas pelo xamã tribal antigas associações com xamanismo também podem ser encontradas com freqüência nos contos populares da rússia e de outros países europeus que falam da metamorfose de seres humanos em animais e vice-versa como no caso do lobisomem basicamente pode-se dizer que contos populares são mitos domesticados histórias construídas com base em elementos míticos com o duplo propósito de entreter e apontar alguma moral sobre a socie dade humana a construção dos mitos uma vantagem da imersão moderna de antropólo gos e folcloristas em estudos de campo é que não pensamos mais em mitos e contos populares con forme era corrente no século xix como os equiva lentes primitivos de textos impressos em vez disso pesquisas nas muitas sociedades rurais e tribais pelo mundo nas quais mitos ainda estão vivos nos têm conscientizado sobre a natureza dinâmica e em constante mutação da narrativa oral em certo sen tido toda vez que um mito ou um conto popular é recontado trata-se de uma nova criação o momento de composição é a narração um poema oral é composto não para mas em apresentação isso não significa que o poema conto ou mito seja criado inteiro saído do nada ele é feito a partir de um estoque de idéias e imagens geradas em incontá veis apresentações anteriores que existem na memó ria do narrador e também na memória de todos aqueles que não só ouvem mas participam da apre sentação uma vez que a produção performática do mito e do conto popular é tipicamente o trabalho não só de um indivíduo mas de um grupo inteiro a participação da audiência na construção da história toma a forma de perguntas e comentários que estimulam tanto a memória quanto a imagina ção do contador de histórias isso é algo que passei a apreciar em sessões de narrativas de histórias das quais participei com um grupo do povo fipa no sudoeste da tanzânia na África oriental mitoe lenda e o que dizer da lenda outro conceito freqüente mente oposto a mito acadêmicos em geral con cordam que uma lenda é uma história original mente literária baseada numa figura ou evento supostamente histórico uma história que contém elementos ou temas provenientes de uma narra tiva mítica bem mais antiga transmitida pela tra dição oral histórias lendárias são encontradas no mundo inteiro em culturas com antigas tradições literárias tais como china japão Índia mesopo tâmia egito grécia roma e bretanha celta um
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