Labirinto - Kate Mosse

 

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Sinopse Julho de 1209: na cidade francesa de Carcassonne, uma moça de 17 anos recebe do pai um misterioso livro, que ele diz conter o segredo do verdadeiro Graal. Embora Alaïs não consiga entender as estranhas palavras e símbolos escondidos naquelas pá

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kate mosse sinopse uma história de coragem destino e traição na frança contemporânea e na medieval julho de 1209 na cidade francesa de carcassonne uma moça de 17 anos recebe do pai um misterioso livro que ele diz conter o segredo do verdadeiro graal embora alaïs não consiga entender as estranhas palavras e símbolos escondidos naquelas páginas sabe que seu destino é proteger o livro serão necessários enormes sacrifícios e uma fé inabalável para preservar o segredo do labirinto um segredo que remonta a milhares de anos e aos desertos do antigo egito julho de 2005 durante uma escavação arqueológica nas montanhas ao redor de carcassonne alice tanner descobre dois esqueletos dentro da tumba na qual repousavam os antigos ossos experimenta uma sensação de malignidade impressionante e percebe que por mais impossível que pareça de alguma forma ela é capaz de entender as misteriosas palavras ancestrais gravadas nas pedras porém é tarde demais alice acaba de desencadear uma aterrorizante seqüência de acontecimentos incontroláveis e agora seu destino está irremediavelmente ligado à sorte dos cátaros oitocentos anos atrás nota da autora nota histórica em março de 1208 o papa inocêncio iii convocou uma cruzada contra uma seita de cristãos do languedoc hoje em dia seus membros são geralmente conhecidos como cátaros eles chamavam a si mesmos de bons chrétiens bernard de clairvaux os chamava de albigenses e os registros inquisitoriais se referem a eles como heretici o objetivo do papa inocêncio era expulsar os cátaros da região do midi e restaurar a autoridade religiosa da igreja católica barões franceses do norte que abraçaram sua cruzada viam nela uma oportunidade de obter terras riqueza e vantagens comerciais subjugando a nobreza do sul conhecida por sua feroz independência embora o princípio das cruzadas fosse um aspecto importante da vida cristã 2

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medieval desde o final do século xi e em 1204 durante o cerco a zara na quarta cruzada os cruzados houvessem atacado irmãos cristãos era a primeira vez que se pregava uma guerra santa contra cristãos e em solo europeu a perseguição aos cátaros levou diretamente à fundação da inquisição em 1233 sob os auspícios dos dominicanos os frades negros quaisquer que tenham sido as motivações religiosas da igreja católica e de alguns dos líderes cruzados laicos como simon de montfort a cruzada albigense foi em última análise uma guerra de ocupação e marcou uma guinada na história do que hoje é a frança ela significou o fim da independência do sul e a destruição de muitas de suas tradições ideais e modos de vida assim como o termo cátaro a palavra cruzada não era usada nos documentos medievais estes se referiam ao exército como a hoste ou l ost em occitano no entanto como ambos os termos são hoje de uso corrente empreguei-os algumas vezes para facilitar as referências nota sobre linguagem durante o período medieval a langue d oc-origem do nome da região do languedoc era a língua falada na região do midi da provença à aquitânia era também a língua da jerusalém cristã e das terras ocupadas pelos cruzados a partir de 1099 e era falada em algumas partes do norte da espanha e do norte da itália a língua occitana tem um parentesco estreito com o provençal e o catalão no século xiii a langue d oil precursora do francês moderno era falada nas regiões setentrionais do que é hoje a frança durante as invasões do sul pelo norte a partir de 1209 os barões franceses impuseram sua língua à região que conquistaram a partir de meados do século xx houve um ressurgimento da língua occitana conduzido por escritores poetas e historiadores como rené nelli jean duvernoy déodat roché michel roquebert anne brenon claude marti e outros na data da redação deste livro existe uma escola bilíngüe occitano/francês em la cité no coração da cidade medieval de carcassonne e a grafia occitana de cidades e regiões figura ao lado da grafia francesa nas placas rodoviárias em labirinto para distinguir entre os habitantes do pays d oc e os invasores franceses usei occitano ou francês conforme o caso o resultado é que alguns nomes e lugares aparecem tanto em francês quanto em occitano por exemplo carcassonne e carcassona toulouse e tolosa béziers e besièrs 1 os trechos de poemas e ditados foram tirados de proverbes dictons de la langue d oc compilado pelo abade pierre trinquier e de 33 chants populaires du languedoc inevitavelmente há diferenças entre a grafia occitana medieval e o uso contemporâneo para manter a coerência na maior parte das vezes usei como guia o dicionário occitano-francês de andré lagarde la planqueta também foi incluído um glossário ao final deste livro como referência a tradução brasileira manteve a grafia dos topônimos em francês ou occitano conforme o original optando por não aportuguesá-los n da t 1 3

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sumÁrio prólogo a cité na colina os guardiães dos livros a volta às montanhas epílogo e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará evangelho segundo são joão 8,32 l histoire est un roman qui a été le roman est une histoire aurait pu être a história é um romance que aconteceu o romance é uma história que poderia ter acontecido e j de goncourt tên përdu jhamâi së rëcobro tempo perdido jamais se recupera provérbio occitano medieval 4

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prólogo 1 pic de soularac montes sabarthès sudoeste da frança segunda-feira 4 de julho de 2005 um único filete de sangue escorre pela parte interna muito pálida do braço dela como uma costura vermelha em um tecido branco de início alice pensa que é só uma mosca e não liga em uma escavação os insetos são ossos do ofício e por algum motivo há mais moscas no alto da montanha onde ela está trabalhando do que na escavação principal mais abaixo então uma gota de sangue pinga sobre sua perna nua explodindo como um fogo de artifício no céu em noite de ano-novo dessa vez ela olha e vê que o corte na parte interna de seu cotovelo abriu de novo É uma ferida funda que não quer sarar ela dá um suspiro e aperta mais contra a pele o curativo em seguida como não há ninguém por perto para ver lambe a mancha vermelha no próprio pulso fios de cabelo claros como açúcar queimado soltaram-se de baixo de seu boné ela os ajeita atrás das orelhas e enxuga a testa com o lenço antes de apertar outra vez o rabo de cavalo na nuca desconcentrada alice se levanta e estica as pernas esguias levemente queimadas de sol vestindo uma calça,jeans cortada uma camiseta branca justa e sem mangas e um boné ela mais parece uma adolescente antigamente se importava com isso agora à medida que vai ficando mais velha entende as vantagens de parecer mais jovem do que de fato é os únicos toques de elegância são seus delicados brincos de prata em forma de estrelas que reluzem como paetês alice desenrosca a tampa de seu cantil a água está morna mas a sede é tanta que ela não liga e sorve longos goles lá embaixo o calor forma uma névoa que cintila sobre o asfalto esburacado da estrada acima dela o céu tem um azul infinito as cigarras prosseguem seu coro incessante escondidas na sombra da grama seca É a primeira vez que alice visita os pireneus embora se sinta praticamente em casa ali já lhe disseram que no inverno os cumes pontiagudos dos montes sabarthès ficam cobertos de neve na primavera delicadas flores cor-de-rosa lilases e brancas surgem de seus esconderijos nos enormes rochedos no início do verão os pastos ficam verdes e salpicados de botões de ouro agora porém o sol achata a terra subjugando-a transformando os verdes em marrom É um lugar bonito pensa ela mas de certa forma inóspito um lugar de segredos que já viu coisas demais e escondeu coisas demais para poder estar em paz consigo mesmo na sede do acampamento mais abaixo na encosta alice pode ver os colegas em pé sob o grande toldo de lona com esforço consegue distinguir shelagh na roupa preta que 6

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a caracteriza fica surpresa que já tenham parado e cedo demais para um intervalo mas a verdade é que a equipe toda está meio desanimada cavar e raspar catalogar e anotar tudo isso é na maior parte do tempo um trabalho árduo e monótono e até agora eles desenterraram poucas coisas que valham a pena a ponto de justificar seus esforços encontraram alguns fragmentos de antigos jarros e vasilhas da alta idade média e uma ou duas pontas de lança do final do século xii ou início do xiii mas certamente não acharam nenhum sinal do núcleo de povoamento paleolítico que é o foco da escavação alice sente-se tentada a descer para juntar-se aos amigos e colegas e refazer seu curativo o corte está ardendo e suas batatas da perna estão doloridas de tanto ficar de cócoras os músculos de seus ombros estão tensos mas ela sabe que se parar agora perderá o pique se tudo der certo sua sorte pode estar prestes a mudar mais cedo ela reparou em alguma coisa cintilando debaixo de uma pedra grande encostada na lateral da montanha arrumada e posicionada como se houvesse sido posta ali pela mão de um gigante embora ainda não consiga ver que objeto é aquele nem sequer determinar seu tamanho passou a manhã inteira cavando e acha que não vai demorar muito para conseguir alcançá-lo ela sabe que deveria chamar alguém ou pelo menos falar com shelagh sua melhor amiga vice-diretora da escavação alice não tem formação de arqueóloga é só uma voluntária dedicando parte de suas férias de verão a alguma ocupação útil mas aquele é seu último dia completo na escavação e ela quer provar seu valor se descer agora até a sede da escavação e admitir que pensa ter descoberto alguma coisa todo mundo vai querer participar e não vai ser mais a sua descoberta nos dias e semanas que estão por vir alice vai se lembrar desse instante vai se lembrar da qualidade da luz do gosto metálico de sangue e poeira em sua boca e vai se perguntar como as coisas poderiam ter sido diferentes se ela tivesse resolvido descer e não ficar se tivesse seguido as regras ela sorve a última gota de água da garrafa e a joga dentro da mochila durante uma ou duas horas depois disso enquanto o sol vai ficando mais alto no céu e a temperatura vai subindo alice continua a trabalhar os únicos barulhos são o raspar do metal na pedra o zumbido dos insetos e o ronco ocasional de um pequeno avião ao longe ela pode sentir gotas de suor brotando acima de seu lábio superior e entre seus seios mas continua até que finalmente o vão debaixo da pedra fica grande o suficiente para ela poder pôr a mão lá dentro alice se ajoelha no chão e encosta a bochecha e o ombro na pedra para se apoiar então com um pequeno estremecimento de ansiedade insere os dedos bem no fundo da terra escura e cega percebe imediatamente que seu palpite estava certo e que encontrou alguma coisa importante o objeto tem uma textura lisa e escorregadia parece feito de metal e não de pedra empunhando-o com firmeza e dizendo a si mesma para moderar as próprias expectativas vai trazendo-o muito devagar até a luz a terra parece estremecer sem querer entregar seu tesouro o cheiro forte e pungente de terra úmida invade seu nariz e sua garganta embora ela mal perceba já está perdida no passado fascinada pelo pedaço de história que segura na palma das mãos e uma fivela pesada e redonda manchada de pontinhos pretos e verdes devido à idade e ao longo tempo debaixo da terra alice a esfrega com os dedos e sorri quando os detalhes de prata e cobre começam a se revelar debaixo da sujeira a primeira vista também parece ser medieval o tipo de fivela usado para fechar um manto ou uma túnica ela já viu alguma coisa parecida antes alice conhece os perigos de tirar conclusões apressadas ou de ser seduzida por primeiras impressões mas não consegue evitar pensar no dono daquela fivela morto há tanto tempo e que pode ter andado por aqueles mesmos caminhos um desconhecido cuja história ela ainda precisa descobrir 7

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a conexão é tão forte e alice está tão entretida que não percebe a pedra se mexendo em sua base então alguma coisa algum sexto sentido a faz olhar para cima por uma fração de segundo o mundo parece estar suspenso fora do espaço fora do tempo ela fica inteiramente hipnotizada pelo pedaço de rocha antiqüíssimo que balança se inclina e então graciosamente começa a cair em sua direção no último instante a luz muda o feitiço se rompe alice se joga para longe meio se arrastando meio escorregando de lado bem a tempo de evitar ser esmagada a pedra bate no chão com um baque surdo levantando uma nuvem de pó marrom claro depois sai rolando como em câmera lenta até parar mais abaixo na montanha alice se agarra desesperadamente aos arbustos e à vegetação rasteira para evitar escorregar mais por um instante fica estendida no chão tonta e desorientada quando percebe que só não foi esmagada por um triz seu corpo congela foi por pouco pensa respira fundo espera o mundo parar de girar aos poucos o latejar em sua cabeça diminui o enjôo passa e tudo começa a voltar ao normal o suficiente para ela poder se sentar e avaliar a situação seus joelhos estão esfolados e riscados de sangue e ela bateu com o pulso ao cair de mau jeito ainda segurando a fivela na mão para protegê-la mas no geral escapou ilesa a não ser por alguns cortes e hematomas não me machuquei ela se levanta e espana a poeira do corpo sentindo-se uma completa idiota não consegue acreditar que cometeu um erro tão elementar quanto não escorar a pedra então alice lança um olhar para a sede da escavação lá embaixo fica espantada e aliviada ao constatar que ninguém no acampamento parecer ter visto nem ouvido nada levanta a mão e está prestes a gritar para atrair a atenção de alguém quando percebe uma estreita abertura visível no flanco da montanha onde antes estava a pedra como uma porta escavada na rocha dizem que essas montanhas são coalhadas de passagens e cavernas escondidas de modo que ela não fica surpresa porém pensa alice de alguma forma ela sabia que a porta estava ali embora não seja possível vê-la do exterior ela sabia na verdade eu adivinhei diz a si mesma ela hesita alice sabe que deveria chamar alguém para entrar com ela É estúpido e talvez até perigoso entrar sozinha sem nenhum tipo de apoio ela sabe todas as coisas que podem dar errado mas de todo modo não deveria estar trabalhando ali em cima sozinha shelagh não sabe e além disso algo a está atraindo lá para dentro parece pessoal aquela descoberta é sua alice diz a si mesma que não faz sentido incomodar todo mundo aumentar suas expectativas sem motivo se houver alguma coisa que valha a pena investigar então ela contará a alguém não vai fazer nada quer apenas olhar vai levar só um minuto ela torna a subir há uma profunda depressão no solo na entrada da caverna onde antes ficava a pedra a terra úmida fervilha com a frenética atividade de minhocas e besouros subitamente expostos à luz e ao calor depois de tanto tempo seu boné está no chão no mesmo lugar onde caiu sua colher de pedreiro também está lá exatamente onde ela a deixou alice espia para dentro da escuridão a abertura não tem mais de um metro e meio de altura por cerca de um metro de largura e suas bordas são irregulares e ásperas parece uma abertura natural não algo feito pelo homem mas quando ela passa os dedos pela rocha para cima e para baixo encontra trechos curiosamente lisos nos pontos onde a pedra repousava lentamente seus olhos se acostumam à penumbra o preto aveludado cede lugar a um cinza escuro e ela vê que está diante de um túnel comprido e estreito sente os cabelos finos se eriçarem na nuca como a avisá-la de que na escuridão há algo à espreita que seria melhor deixar em paz mas é só uma superstição infantil e ela não se 8

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permite pensar nisso alice não acredita em fantasmas nem em premonições apertando a fivela na mão com força como um talismã ela respira fundo e dá um passo para dentro da passagem no mesmo instante o cheiro de um ar subterrâneo há muito escondido a envolve enchendo sua boca sua garganta seus pulmões o ambiente é fresco e úmido sem os gases secos venenosos de uma caverna lacrada com os quais lhe avisaram para tomar cuidado então ela conclui que deve existir alguma fonte de ar puro porém para garantir vasculha os bolsos dos shorts até encontrar seu isqueiro acende-o e ergue-o em direção ao espaço escuro confirmando que há oxigênio a chama é sacudida por uma corrente de ar mas não se apaga sentindo-se nervosa e ligeiramente culpada alice enrola a fivela em um lenço e a enfia no bolso em seguida avança com cautela a luz da chama é fraca mas ilumina o caminho imediatamente à sua frente lançando sombras sobre as paredes cinza e ásperas À medida que avança mais ela vai sentindo o ar frio se enroscar por suas pernas e braços nus como um gato está caminhando sobre uma rampa pode sentir o chão descendo sob seus pés irregular e arenoso o atrito das pedras e do cascalho ressoa alto naquele espaço confinado silencioso ela tem consciência de que quanto mais longe e mais fundo avança mais a luz do dia vai ficando pálida atrás de si de repente ela não quer mais continuar não sente nenhuma vontade de estar ali mas é como se houvesse algo irresistível naquilo algo a puxá-la para as entranhas profundas da montanha dez metros mais adiante o túnel termina alice se vê na soleira de uma câmara fechada como uma caverna ela está em pé sobre uma plataforma de pedra natural um ou dois degraus rasos e largos bem na sua frente levam à área principal onde o chão foi nivelado até ficar plano e liso a caverna tem cerca de dez metros de comprimento e talvez cinco de largura e foi obviamente construída por mãos humanas e não só pela natureza o teto é baixo e abobadado como o de uma cripta alice olha fixamente segurando mais alto a chama tremeluzente e incomodada por uma curiosa familiaridade que a vai dominando e que ela não consegue explicar está prestes a descer os degraus quando percebe letras gravadas na pedra do degrau de cima inclina-se e tenta ler o que está escrito apenas as três primeiras palavras e a última letra n ou talvez h estão legíveis as outras estão carcomidas ou lascadas alice limpa a poeira com os dedos e recita as letras em voz alta naquele silêncio o eco de sua voz parece de certa forma hostil e ameaçador p-a-s a p-a-s pas a pas passo a passo passo a passo o quê uma vaga lembrança percorre a superfície de sua mente consciente como uma canção há muito esquecida e logo desaparece pas a pas murmura ela dessa vez mas aquilo não significa nada uma prece um aviso sem saber o que vem depois não faz sentido agora nervosa ela se endireita e desce os degraus um a um curiosidade e um mau pressentimento brigam em seu íntimo e ela sente a pele dos braços finos e descobertos se arrepiar embora não saiba se é por ansiedade ou por causa do frio da caverna alice levanta a chama bem alto para iluminar o caminho tomando cuidado para não tropeçar nem tirar nada do lugar no nível inferior pára respira fundo e dá mais um passo rumo à escuridão de ébano mal consegue distinguir a parede da câmara aquela distância é difícil ter certeza se não se trata apenas de uma ilusão criada pela luz ou de uma sombra lançada pela chama mas parece haver um desenho circular de linhas e semicírculos pintados ou esculpidos na pedra no chão em frente ao desenho está uma mesa de pedra de pouco mais de um metro de altura como um altar 9

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mantendo o olhar fixo no símbolo na parede para se guiar alice avança mais agora pode ver o desenho com mais clareza parece algum tipo de labirinto embora sua memória lhe diga que há algo errado com ele não é um labirinto de verdade as linhas não conduzem ao centro como deveriam o desenho está errado alice não consegue explicar por que tem tanta certeza disso só sabe que está certa mantendo os olhos cravados no labirinto vai chegando cada vez mais perto seu pé bate em algo duro no chão ouvem-se um baque leve e oco e o barulho de algo rolando como se um objeto houvesse sido deslocado alice olha para baixo suas pernas ficam bambas a pálida chama em sua mão estremece chocada ela não consegue respirar está de pé na beirada de uma cova rasa uma leve depressão no solo não mais do que isso nela há dois esqueletos do que um dia foram seres humanos os ossos totalmente limpos pelo tempo os buracos vazios dos olhos de um dos crânios a encaram o outro crânio deslocado por seu pé está virado de lado como alguém que desvia o olhar os corpos estão dispostos um ao lado do outro de frente para o altar como estátuas em uma tumba estão simétrica e perfeitamente alinhados mas não há nada de plácido naquele túmulo nenhuma sensação de paz os ossos malares de um dos crânios estão esmagados amassados para dentro como uma máscara de papier mâché várias das costelas do outro esqueleto estão quebradas e apontam para fora de modo estranho como os galhos secos de uma árvore morta eles não podem fazer mal a você determinada a não se deixar dominar pelo medo alice se força a se agachar tomando cuidado para não desarrumar mais nada corre os olhos pela sepultura uma adaga repousa entre os corpos o fio cego devido aos anos assim como alguns fragmentos de tecido ao lado da adaga há uma bolsa de couro fechada por uma tira embutida grande o suficiente para conter uma pequena caixa ou um livro alice franze o cenho tem certeza de ter visto algo assim antes mas a lembrança não vem o objeto redondo e branco encaixado entre os dedos que parecem garras do esqueleto menor é tão pequeno que alice quase não o vê sem parar para pensar se é a coisa certa a se fazer tira rapidamente sua pinça do bolso abaixa-se e com cuidado retira o objeto em seguida ergue-o em direção à chama soprando delicadamente a poeira para ver melhor e um pequeno anel de pedra simples e sem atrativos com uma faceta redonda e lisa o anel também é estranhamente familiar alice olha mais de perto há um desenho gravado no interior no início ela pensa que é algum tipo de selo então com um choque percebe levanta os olhos para as marcas na parede dos fundos da câmara depois torna a olhar para o anel os desenhos são idênticos alice não é religiosa não acredita nem no céu nem no inferno nem em deus nem no diabo nem nas criaturas que dizem assombrar aquelas montanhas mas pela primeira vez na vida sente-se dominada pela sensação de estar na presença de algo sobrenatural algo que ultrapassa sua experiência e sua compreensão pode sentir a maldade se esgueirando sob sua pele seu couro cabeludo as solas dos seus pés ela perde a coragem a caverna parece subitamente fria o medo aperta sua garganta congelando o ar em seus pulmões alice se põe de pé atabalhoadamente não deveria estar ali naquele lugar ancestral agora está desesperada para sair da câmara para se distanciar das provas de violência e do cheiro da morte para estar novamente na luz do sol segura e brilhante mas é tarde demais acima ou atrás de si não consegue distinguir onde ela ouve passos o som ecoa 10

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pelo espaço confinado ricocheteando nos rochedos e nas pedras vem vindo alguém alice se vira alarmada deixando cair o isqueiro a caverna mergulha na escuridão ela tenta correr mas fica desorientada no escuro e não consegue achar a saída tropeça suas pernas parecem incapazes de sustentá-la ela cai o anel é lançado de volta para junto da pilha de ossos onde é o seu lugar ii los seres sudoeste da frança alguns quilômetros em linha reta a leste dali em um vilarejo perdido nos montes sabarthès um homem alto e magro vestido com um terno claro está sentado sozinho diante de uma mesa de madeira escura e encerada o teto do cômodo onde ele está é baixo e o chão feito de grandes quadrados de cerâmica da cor da terra vermelha da montanha que mantêm o aposento fresco apesar do calor lá fora a única veneziana está fechada tornando o lugar escuro exceto por uma poça de luz lançada por uma pequena lamparina a óleo em cima da mesa ao lado da lamparina há um copo de vidro cheio quase até a borda com um líquido vermelho espalhadas pela mesa há várias folhas de um papel grosso cor de creme cada uma delas inteiramente coberta de linhas em tinta preta com uma caligrafia caprichada o cômodo está silencioso exceto pelo arranhar e deslizar da caneta e pelo tilintar das pedras de gelo nas laterais do copo quando ele bebe paira no ar um leve cheiro de álcool e frutas as batidas do relógio marcam a passagem do tempo enquanto ele pára pensa e torna a escrever o que deixamos para trás nesta vida é a lembrança de quem fomos e do que fizemos uma marca não mais do que isso eu aprendi muito tornei-me sábio mas será que fiz alguma diferença não saberia dizer pas a pas se va luènh vi o verde da primavera dar lugar ao dourado do verão o cobre do outono dar lugar ao branco do inverno enquanto eu sentado esperava a luz se esvanecer muitas e muitas vezes perguntei a mim mesmo por quê se eu soubesse como seria viver em tamanha solidão suportar como única testemunha o ciclo interminável de nascimento vida e morte o que eu teria feito alaïs o fardo da minha solidão tornou-se prolongado demais para que eu o possa suportar eu sobrevivi esta longa vida com um vazio no coração um vazio que ao longo dos anos,não parou de aumentar até se tornar maior do que o meu próprio coração eu lutei para manter minhas promessas a você uma delas foi cumprida a outra não pelo menos até agora já faz algum tempo que sinto você perto nossa hora está quase chegando de novo tudo aponta para isso logo a caverna será aberta sinto a verdade disso a toda minha volta e o livro que durante tanto tempo repousou em segurança também será encontrado o homem faz uma pausa e estende a mão para pegar os óculos seus olhos estão anuviados de lembranças mas o guignolet é forte e doce e reacende sua energia eu a encontrei enfim e me pergunto se puser o livro em suas mãos será que ela o reconhecerá estará sua lembrança escrita no sangue e nos ossos dela será que ela se lembrará de como a capa cintila e muda de cor se desatar sua tira e o abrir tomando cuidado para não danificar o velino seco e quebradiço será que se lembrará das palavras ecoando pelos séculos passados 11

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rezo para que à medida que meus longos dias se aproximam do fim eu tenha enfim a oportunidade de consertar o que um dia estraguei para que eu enfim conheça a verdade a verdade me libertará o homem se recosta na cadeira e estende diante de si sobre a mesa as mãos cobertas pelas manchas marrons da idade a oportunidade de saber tanto tempo depois o que aconteceu no final isso é tudo que ele quer iii chartres norte da frança mais tarde nesse mesmo dia quase mil quilômetros para o norte outro homem está de pé em um corredor mal iluminado sob as ruas de chartres esperando a cerimônia começar as palmas de suas mãos estão suadas sua boca está seca e ele tem consciência de cada nervo cada músculo de seu corpo até mesmo do pulsar das veias em suas têmporas sente-se pouco à vontade aéreo embora não saiba dizer se isso se deve ao nervosismo e à expectativa ou aos efeitos do vinho a túnica branca pesa em seus ombros um peso pouco familiar e as cordas feitas de cânhamo torcido repousam sem naturalidade sobre seus quadris ossudos ele olha de relance para as duas figuras silenciosas de pé ao seu lado mas os capuzes lhes escondem o rosto ele não sabe dizer se estão tão ansiosos quanto ele ou se já passaram por esse mesmo ritual muitas vezes antes estão vestidos da mesma maneira que ele mas suas túnicas são douradas em vez de brancas e eles estão calçados os seus próprios pés estão descalços e as pedras do piso são frias bem lá em cima acima da rede escondida de túneis os sinos da grande catedral gótica começam a badalar ele sente os homens ao seu lado se retesarem e o sinal pelo qual estavam esperando imediatamente ele abaixa a cabeça e tenta se concentrar no momento presente je suis prêt murmura mais para reconfortar a si mesmo do que em uma afirmação nenhum de seus dois companheiros esboça qualquer reação quando a última reverberação dos sinos se transforma novamente em silêncio o acólito à sua esquerda dá um passo à frente e com uma pedra parcialmente escondida na palma da mão desfere cinco batidas na porta maciça lá de dentro vem a resposta dintrar entrar o homem pensa por um instante que reconhece a voz da mulher mas não tem tempo de adivinhar de onde nem de quando porque a porta já está se abrindo para revelar a câmara que ele esperou tanto tempo para ver mantendo-se no mesmo passo as três figuras se adiantam devagar ele ensaiou isso e sabe o que esperar sabe o que se espera dele embora sinta os próprios pés um pouco instáveis faz calor ali dentro em comparação com o corredor e está escuro a única luz vem das velas arrumadas nas alcovas e sobre o altar projetando sombras que dançam pelo chão a adrenalina corre por seu corpo embora ele se sinta estranhamente alheio aos acontecimentos a porta se fechando atrás dele o faz sobressaltar os quatro ajudantes mais graduados estão em pé marcando norte sul leste e oeste do aposento ele quer desesperadamente levantar os olhos e ver melhor mas força-se a manter a cabeça baixa e o rosto escondido como foi instruído a fazer pode sentir as duas fileiras de iniciados alinhadas nas laterais mais compridas da câmara 12

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retangular seis de cada lado pode sentir o calor de seus corpos e ouvir o subir e descer de sua respiração mesmo que ninguém se mova nem diga nada graças aos documentos que recebeu ele decorou a disposição do aposento e enquanto caminha em direção ao sepulcro em seu centro pode sentir os olhos de todos nas suas costas pergunta-se se conhece algum deles colegas de profissão mulheres de outros homens qualquer um pode ser membro não pode evitar que um tênue sorriso lhe suba aos lábios enquanto se permite fantasiar por um instante sobre a diferença que fará o fato de ele ser aceito na sociedade É trazido bruscamente de volta ao presente quando tropeça e quase cai por cima da pedra que serve de genuflexório na base do sepulcro a câmara é menor do que a planta o fizera pensar mais confinada e claustrofóbica ele esperava que a distância entre a porta e a pedra fosse maior quando ele se ajoelha sobre a pedra ouve-se um arquejo vindo de alguém perto dele e ele se pergunta o motivo seu coração começa a bater mais depressa e quando baixa os olhos ele vê que as articulações de seus dedos estão brancas envergonhado junta as mãos antes de se lembrar e tornar a deixar os braços caírem ao lado do corpo onde devem ficar há uma leve depressão no centro da pedra que parece dura e fria sob seus joelhos através do fino tecido da túnica ele mexe o corpo de leve tentando encontrar uma posição mais confortável o desconforto lhe dá algo em que se concentrar e ele se sente grato por isso ainda está tonto e tem dificuldade para se concentrar ou se lembrar da ordem em que as coisas devem acontecer muito embora a tenha repassado vezes sem conta na mente um sino começa a soar dentro da câmara uma nota aguda cortante um cântico baixo a acompanha de início tênue mas rapidamente mais alto à medida que vai ganhando novas vozes fragmentos de palavras e expressões reverberam por sua cabeça montanhas noblesa nobreza libres livros graal a sacerdotisa desce do grande altar e caminha pela câmara ele mal pode escutar o arrastar de seus pés e imagina como sua túnica dourada deve cintilar e ondular à luz vacilante das velas esse é o momento pelo qual ele estava esperando je suis prêt repete entre os dentes dessa vez com convicção a sacerdotisa se imobiliza diante dele ele pode sentir seu perfume sutil e leve sob o aroma pungente do incenso solta um arquejo quando ela se inclina e segura sua mão os dedos dela estão frescos e as unhas bem-feitas e um espasmo de eletricidade quase desejo sobe por seu braço quando ela aperta algo pequeno e redondo na palma de sua mão e em seguida faz seus dedos se fecharem sobre o objeto nesse momento mais do que tudo que jamais quis na vida ele quer ver o rosto dela mas mantém os olhos voltados para o chão como lhe foi ensinado os quatro ajudantes mais graduados deixam suas posições e se movem para junto da sacerdotisa sua cabeça é inclinada para trás com delicadeza e um líquido espesso e doce escorre por entre seus lábios É o que esperava e ele não resiste conforme o calor se espalha por seu corpo ele levanta os braços e seus companheiros ajeitam um manto dourado sobre seus ombros aquelas pessoas estão acostumadas com o ritual mas mesmo assim ele pode sentir o nervosismo de repente ele sente algo como uma tira de ferro em volta do pescoço apertando sua traquéia suas mãos voam para a própria garganta enquanto ele luta para respirar tenta gritar mas as palavras não vêm a nota aguda e cortante do sino começa outra vez a ressoar constante e persistente submergindo-o uma onda de náusea percorre seu corpo ele pensa que vai desmaiar e agarra o objeto em sua mão em busca de conforto com tanta força que suas unhas cortam a pele macia da palma de sua mão a dor intensa o ajuda a não cair agora ele entende que as mãos em seus ombros não são reconfortantes não o estão amparando mas sim segurando-o outra onda de náusea o 13

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submerge e a pedra parece se mover e escorregar sob o peso de seu corpo seus olhos estão embaçados e ele não consegue focalizar nada mas pode ver que a sacerdotisa está segurando uma faca embora não tenha idéia de como a lâmina prateada foi parar em sua mão tenta se levantar mas a droga é forte demais e já lhe tirou as forças ele não consegue mais controlar os braços e pernas non tenta gritar mas é tarde demais de início pensa ter levado um soco entre os ombros só isso então uma dor difusa começa a se espalhar por seu corpo algo morno e macio escorre lentamente por suas costas sem aviso as mãos o soltam e ele cai para frente desabando como uma boneca de pano enquanto o chão parece se erguer e vir ao seu encontro não sente dor quando sua cabeça bate no chão cujo contato em sua pele parece de alguma forma fresco e agradável todo barulho toda confusão e medo estão indo embora suas pálpebras estremecem e se fecham ele não tem mais consciência de nada a não ser da voz dela que parece vir de muito longe une leçon pour tous ela parece dizer embora isso não faça sentido em seus últimos e entrecortados instantes de consciência o homem acusado de revelar segredos condenado por ter falado quando deveria ter ficado calado segura o cobiçado objeto com força na mão até sua ligação à vida cessar e o pequeno disco cinza do tamanho de uma moeda rolar para o chão em uma das faces do disco estão inscritas as letras nv na outra está gravado um labirinto iv pic de soularac montes sabarthès por um instante tudo é silêncio então a escuridão se dissolve alice não está mais na caverna está flutuando em um mundo branco sem gravidade transparente pacífico e silencioso está livre segura alice tem a sensação de deslizar para fora do tempo como se estivesse caindo de uma dimensão para outra a linha entre passado e presente agora desaparece nesse lugar onde não existe tempo nem espaço então como o alçapão de um cadafalso alice sente um súbito puxão uma queda e começa a despencar pelo céu aberto caindo caindo em direção à encosta coberta de florestas da montanha o ar frio silva em seus ouvidos enquanto ela mergulha cada vez mais depressa e com mais força rumo ao chão o instante do impacto nunca chega os ossos não se partem nas pedras e sílices cinzentos em vez disso alice cai no chão correndo e segue aos tropeços por um caminho íngreme e irregular no meio da floresta entre duas colunas de árvores altas densas imponentes elas se erguem acima dela tornando impossível ver o que há atrás rápido demais alice se agarra aos galhos como se eles pudessem reduzir a velocidade de sua queda impedir esse vôo de cabeça rumo a um lugar desconhecido mas suas mãos passam direto pela vegetação como se ela fosse um fantasma ou espírito suas mãos arrancam tufos de pequenas folhas como cabelos em uma escova ela não pode senti 14

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los mas a seiva tinge de verde as pontas de seus dedos ela os leva até o rosto para inalar seu aroma delicado acre tampouco consegue sentir seu cheiro alice sente uma dor na lateral do abdômen mas não consegue parar porque há algo atrás dela se aproximando cada vez mais o caminho continua muito íngreme sob seus pés pela textura tem consciência de que raízes secas e pedras substituíram a terra macia o musgo e os galhos no caminho mesmo assim não há ruído nenhum pássaro canta nenhuma voz chama não se ouve nada a não ser sua respiração irregular o caminho arqueia e se dobra para um lado e para o outro lançando-a para lá e para cá até que ela faz uma curva e vê o silencioso muro de chamas que impede a passagem logo adiante um pilar de fogo em movimento branco dourado e vermelho vergando-se em todas as direções mudando constantemente de forma por instinto alice ergue as mãos para proteger o rosto do calor intenso embora não consiga senti-lo pode ver rostos presos nas chamas que dançam bocas contorcidas em silenciosa agonia enquanto o fogo as acaricia e devora alice tenta parar precisa parar seus pés estão feridos e sangrando sua longa saia está molhada atrapalhando seus movimentos mas quem a persegue está logo atrás dela e algo além de seu controle a está conduzindo para o abraço fatal do fogo ela não tem outra escolha senão pular para evitar ser consumida pelas chamas lança-se no ar em espiral como uma coluna de fumaça flutuando bem alto acima dos amarelos e laranjas o vento parece sustentá-la liberando-a da terra alguém está chamando o seu nome uma voz de mulher embora a pronúncia seja estranha alaïs ela está segura livre então sente a conhecida pressão de dedos frios em seus tornozelos prendendo-a ao chão não não são dedos são correntes alice então percebe que está segurando alguma coisa nas mãos um livro fechado por tiras de couro entende que é aquilo que ele quer que eles querem Ê a perda desse livro que os deixa zangados se ao menos ela conseguisse falar talvez pudesse fazer um acordo mas sua cabeça está vazia de palavras e sua boca é incapaz de falar ela se debate chuta tentando escapar mas está presa a pressão inflexível em suas pernas é forte demais À medida que é arrastada de volta para o fogo ela começa a gritar mas tudo é silêncio ela grita de novo sentindo a voz lutar bem dentro de si para ser ouvida dessa vez o som sai num jato alice sente o mundo real voltar à toda velocidade som luz cheiro o gosto metálico do sangue em sua boca até que por uma fração de segundo ela pára subitamente envolta por um frio translúcido não é o frio conhecido da caverna mas algo diferente intenso e brilhante dentro dele alice consegue distinguir com dificuldade o turvo contorno de um rosto bonito indistinto a mesma voz torna a chamar seu nome alaïs chama pela última vez É a voz de um amigo não de alguém que lhe quer mal alice se esforça para abrir os olhos sabendo que se conseguisse ver entenderia não consegue não completamente o sonho começa a se dissipar libertando-a hora de acordar preciso acordar então ouve outra voz em sua cabeça diferente da primeira a sensação retorna a seus braços e pernas seus joelhos esfolados ardendo e sua pele arranhada e dolorida no ponto onde ela caiu pode sentir alguém segurar seu ombro com força sacudindo-a de volta à vida alice alice acorde 15

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