A casa negra

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Sinopse - A Casa Negra - Stephen King, Peter Straub O mestre do terror Stephen King e Peter Straub escrevem, 18 anos depois, a continuação do livro "O talismã". Vinte anos se passaram e Jack Sawyer não é mais um menino. Aos 32 anos, não se lembra dos aco

Popular Pages


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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev a casa negra stephen king e peter straub tradução de adalgisa campos da silva © 2001 by stephen king e peter straub título original black house todos os direitos desta edição reservados à editora objetiva ltda rua cosme velho 103 rio de janeiro rj cep 22241-090 tel 21 2556-7824 fax 21 2556-3322 www.objetiva.com.br capa pós imagem design revisão umberto de figueiredo tereza da rocha editoração eletrônica abreu s system ltda 2003 2

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev orelha do livro vinte anos se passaram e jack sawyer não é mais um menino aos 32 anos não se lembra dos acontecimentos terríveis que o levaram quando tinha apenas 12 a um estranho universo paralelo os territórios em busca de um valioso talismã o pequeno jack enfrentou inimigos perigosos e situações de grande risco tudo para salvar a mãe desenganada hoje jack é um detetive de los angeles aposentado e mora no vilarejo de tamarak wisconsin um estranho acontecimento forçou-o a deixar a polícia há algum tempo e ele vive tranqüilo protegido das recordações perigosas mas sua tranqüilidade está prestes a acabar uma série de assassinatos macabros no oeste de wisconsin faz com que o chefe de polícia local amigo de jack lhe implore que ajude a polícia inexperiente a encontrar o assassino em algum ponto do universo parece estar escrito que jack terá de voltar aos territórios atormentado por mensagens enigmáticas que lhe aparecem como que em sonhos jack decide enfrentar o desafio e acertar as contas com seu próprio passado nesta aguardada seqüência de o talismã grande sucesso de stephen king e peter straub jack sawyer precisará encontrar novas forças para entrar numa casa medonha perdida em uma floresta e enfrentar os males insanos que a habitam jack não se recorda dos tormentos que teve que enfrentar quando menino mas de alguma forma ele sabe que o pior ainda está por vir stephen king é autor de mais de 30 livros todos best-sellers mundiais ele mora na cidade de bangor no estado americano do maine com sua esposa a romancista tabitha king peter straub é autor de 14 romances que foram traduzidos para mais de 20 línguas ele mora na cidade de nova york contracapa jack sawyer não tem mais 12 anos mas precisará da mesma coragem que o fez ainda menino enfrentar os mistérios dos territórios na ansiosamente esperada continuação de o talismã você será levado a mais um mergulho alucinado num mundo com suas próprias e implacáveis leis respire fundo e se tiver coragem entre em mais essa assustadora aventura com jack sawyer mas depois não diga que não avisei aqui e agora 3

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev parte um bem-vindo ao condado de coulee 1 aqui e agora como dizia um velho amigo estamos no presente fluido onde não basta enxergar bem para se ter uma visão perfeita aqui a uns 60 metros a altitude de uma águia voando sobre o extremo oeste de wisconsin onde os meandros do rio mississipi criam uma fronteira natural agora manhã de uma sextafeira de meados de julho de um ano do início de um século e de um milênio novos seus cursos imprevisíveis tão ocultos que um cego tem mais chance do que você ou eu de enxergar o que está à frente aqui e agora são seis e pouco da manhã e o sol está baixo no céu limpo do nascente uma bola amarelada gorda e confiante avançando como sempre pela primeira vez em direção ao futuro e deixando em seu rastro o passado que não pára de se acumular e que escurece à medida que recua deixando-nos todos cegos lá embaixo o sol da manhã realça as ondulações amplas e macias do rio com um reflexo líquido a luz do sol faísca nos trilhos da ferrovia burlington northern santa fe que corre entre o rio e os fundos das casas pobres de dois andares ao longo da estrada municipal oo conhecida como alameda nailhouse o ponto mais baixo da cidadezinha de aspecto confortável que se estende subindo para leste neste momento no condado de coulee a vida parece estar com a respiração em suspenso o ar parado à nossa volta é de uma pureza e uma doçura tão extraordinárias que é possível imaginar que um homem seria capaz de sentir o cheiro de um rabanete arrancado a quase dois quilômetros dali voando em direção ao sol afastamo-nos do rio sobrevoando os trilhos faiscantes os quintais e telhados da alameda nailhouse e uma fila de motocicletas harley-davidson estacionadas essas casinhas sem graça foram construídas no início do século recém-terminado para fundidores moldadores e caixoteiros empregados da fábrica de pregos pederson partindo do princípio de que seria improvável que os trabalhadores se queixassem dos defeitos de suas moradias subsidiadas estas foram construídas da forma mais barata possível a pregos pederson que tivera múltiplas hemorragias nos anos 50 acabou esvaindo-se em sangue em 1963 as harleys enfileiradas sugerem que os operários da fábrica foram substituídos por uma gangue de motoqueiros a aparência uniformemente feroz dos proprietários das harleys homens desgrenhados barbudos barrigudos usando brincos e jaquetas de couro e ostentando uma dentadura já desfalcada parece apoiar essa suposição como a maioria das suposições esta encerra uma meia verdade inquietante os atuais moradores da alameda nailhouse apelidados por nativos desconfiados de os thunder five logo após terem tomado as casas ao longo do rio não podem ser tão facilmente classificados eles possuem empregos qualificados na cervejaria kingsland situada ao sul da cidade um quarteirão a leste do mississipi se olharmos para a direita podemos ver a maior embalagem de meia dúzia do mundo tanques de armazenamento pintados com gigantescos rótulos de cerveja kingsland os homens que moram na alameda nailhouse conheceram-se no campus urbana-champaign da universidade de illinois onde todos exceto um cursavam inglês ou filosofia a exceção era um médico que fazia residência em cirurgia no hospital universitário uc-ui eles têm um prazer irônico em serem chamados de os thunder five parece-lhes um nome simpaticamente caricatural eles se chamam é de a escória hegeliana esses cavalheiros constituem um time interessante e vamos conhecê-los mais tarde por ora só temos tempo de reparar nos cartazes pintados à mão colados na frente de várias casas em dois postes e em alguns prédios abandonados os cartazes dizem pescador É melhor pedir ao seu deus fedido para a gente nÃo pegar vocÊ primeiro lembre-se de amy da alameda nailhouse a rua chase sobe íngreme entre prédios inclinados com fachadas decadentes e sem pintura da cor de nevoeiro o velho hotel nelson onde alguns moradores empobrecidos estão dormindo uma taberna inexpressiva uma sapataria cansada exibindo botas de trabalho red wing na vitrine embaçada alguns outros prédios apagados sem indicação de sua função estranhamente oníricos e vaporosos essas construções parecem ressurreições fracassadas resgatadas do escuro território a oeste embora ainda estivessem mortas de certa forma isso foi exatamente o que aconteceu com elas uma listra horizontal ocre três metros acima da calçada na fachada do hotel nelson e a 60 centímetros do chão do lado mais alto da rua nas faces cinzentas dos dois últimos prédios representa a marca deixada pela água na enchente de 1965 4

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev quando o mississipi transbordou inundou a linha férrea e a alameda nailhouse e quase chegou ao topo da rua chase acima da marca da enchente onde a chase fica plana ela se alarga e se transforma na rua principal de french landing a cidade lá embaixo o teatro agincourt o taproom bar grille o first farmer state bank o estúdio fotográfico samuel stutz especializado em fotos de formatura e casamento e retratos de crianças e lojas não as relíquias fantasmagóricas de lojas ladeiam suas calçadas toscas a drogaria benton s rexall a ferragens confiança o saturday night video a roupas régias o empório schmitt s lojas de equipamentos eletrônicos revistas e cartões de festas brinquedos e roupas esportivas ostentando os logotipos dos brewers dos twins dos packers dos vikings e da universidade de wisconsin algumas quadras depois o nome da rua muda para rua lyall e os prédios se espaçam e encolhem tornando-se construções de madeira com letreiros anunciando agências de seguros e de viagem em seguida a rua vira uma auto-estrada que segue para leste passando por uma 7-eleven pelo auditório dos veteranos de guerra reinhold t grauerhammer por uma grande revendedora de implementos agrícolas conhecida localmente como goltz s e vai dar numa paisagem de campos planos e contínuos subindo mais 30 metros no ar límpido e olhando o que há embaixo e à frente vemos morainas barrancos colinas arredondadas cobertas de pinheiros vales ricos em terra boa que não se vêem do chão antes que se tope com eles rios serpeantes um mosaico quilométrico de campos e cidadezinhas uma delas centralia não mais que prédios esparsos em volta de um cruzamento de duas rodovias estreitas a 35 e a 93 bem embaixo de nós é como se french landing tivesse sido evacuada no meio da noite não se vê vivalma nas calçadas nem se abaixando para enfiar uma chave em um dos cadeados das portas das lojas da rua chase nas vagas em ângulo em frente às lojas não há nenhum dos carros e picapes que começarão a aparecer primeiro um ou dois de cada vez depois num pequeno fluxo bem-comportado uma ou duas horas mais tarde não há luzes acesas atrás das janelas dos prédios comerciais nem das casas despretensiosas que margeiam as ruas vizinhas um quarteirão ao norte da chase na rua sumner quatro prédios parecidos de dois andares e tijolos aparentes abrigam de oeste para leste a biblioteca pública de french landing o consultório de patrick j skarda m.d o clínico geral local e o bell holland um escritório de advocacia agora dirigido por garland bell e julius holland os filhos dos fundadores a funerária heartfield son agora filial de um vasto império funerário cuja matriz fica em st louis e a agência de correios de french landing separado desses edifícios pela larga rua que dá acesso a um grande estacionamento nos fundos o prédio no fim do quarteirão onde a sumner cruza com a rua três é também de tijolos aparentes e de dois andares porém mais comprido que seus vizinhos imediatos barras de ferro por pintar protegem as janelas dos fundos do segundo andar e dois dos quatro veículos no estacionamento são viaturas com barras de luzes no teto e as letras dpfl nas laterais a presença de viaturas da polícia e de janelas gradeadas parece fora de contexto neste reduto rural que tipo de crime pode acontecer aqui nada sério por certo por certo nada mais grave que um pequeno furto dirigir embriagado ou uma eventual briga de bar como se para provar a paz e a regularidade da vida numa cidade pequena uma caminhonete vermelha com as palavras la riviere herald nas laterais desce lentamente a rua três parando em quase todas as caixas de correio para seu motorista enfiar exemplares do jornal do dia envolvidos num saco plástico azul em cilindros de metal cinza ostentando as mesmas palavras quando a caminhonete vira na sumner onde os prédios têm fendas de correio em vez de caixas o homem simplesmente atira os jornais ensacados na porta das casas pacotes azuis batem nas portas da delegacia da funerária e dos prédios de escritórios a agência de correios não recebe jornal o que você sabe as luzes estão acesas no primeiro andar da delegacia a porta se abre um jovem de cabelos escuros com uma camisa de uniforme azul-clara de mangas curtas cinturão sam browne e calça marinho sai à rua o cinturão e o distintivo dourado no peito de bobby dulac brilham na luz da manhã e tudo o que ele está usando inclusive a pistola 9mm presa à sua ilharga parece tão novo quanto o próprio bobby dulac ele olha a caminhonete vermelha virar à esquerda na rua dois e franze o cenho para o jornal enrolado empurra-o com a ponta de um sapato preto muito lustroso inclinando-se sobre ele o suficiente para sugerir que está tentando ler as manchetes através do plástico ainda de cenho franzido bobby se abaixa e pega o jornal com uma delicadeza inesperada como uma gata pega um filhote que precisa ser levado para outro lugar segurando-o a uma certa distância do corpo ele dá uma olhada rápida para os dois lados da rua sumner dá meia-volta com elegância e torna a entrar na delegacia nós que curiosos andávamos sempre descendo em direção ao interessante espetáculo apresentado pelo oficial dulac entramos atrás dele um corredor cinzento passando por uma porta sem indicação e um quadro de avisos com muito pouca coisa afixada leva a duas escadas de ferro uma que desce para um pequeno vestiário os chuveiros e um estande de tiro outra que sobe para uma sala de instruções e duas fileiras de celas uma em frente à outra nenhuma delas ocupada no momento perto um rádio sintonizado num programa de entrevistas está num volume que parece alto demais para uma manhã pacata bobby dulac abre a porta sem letreiro e entra com a gente em seus calcanhares lustrosos na sala de instruções de onde ele acabou de sair uma fileira de arquivos ergue-se contra a parede à nossa direita tendo 5

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev ao lado uma mesa de madeira surrada sobre a qual há pilhas organizadas de pastas de papéis e um rádio transistorizado fonte do barulho desagradável do estúdio próximo da kdcu-am seu locutor no condado de coulee o teatralmente raivoso george rathbun deu início à barragem dos bichos da terra seu popular programa matinal o bom e velho george parece falar alto demais para a ocasião por mais baixo que você regule o volume o cara é simplesmente esporrento isso é parte de sua atração no meio da parede à nossa frente há uma porta fechada com uma janela de vidro fosco onde foi pintado dale gilbertson chefe de polÍcia dale não estará ali antes de mais ou menos meia hora há duas mesas de aço colocadas em l no canto à nossa esquerda e da que está à nossa frente tom lund um policial louro mais ou menos da idade de seu parceiro mas sem o aspecto deste de quem acaba de ser produzido há cinco minutos olha para o saco que bobby dulac segura com a ponta de dois dedos da mão direita certo disse lund certo o último capítulo você achou que talvez os thunder five estivessem nos fazendo outra visita social aqui não quero ler o raio dessa matéria sem se dignar olhar para o jornal bobby com um movimento atlético do pulso faz um arremesso de três metros em arco sobre o chão encerado com o exemplar do dia de la riviere herald gira para a direita dá um passo largo e coloca-se em frente à mesa de madeira um segundo antes de tom lund pegar seu lançamento bobby olha ferozmente para os dois nomes e os vários detalhes rabiscados no comprido quadronegro pendurado na parede ao lado da mesa bobby dulac não está satisfeito olha como se fosse explodir de raiva gordo e feliz no estúdio da kdcu george rathbun grita ouvinte dê um tempo sim e mande aviar sua receita estamos falando do mesmo jogo aqui ouvinte vai ver que wendell tomou juízo e resolveu se licenciar diz tom lund wendell diz bobby porque lund só pode ver a parte de trás lisa de sua cabeça o pequeno trejeito de desdém que ele faz com o lábio é um desperdício mas assim mesmo ele o faz ouvinte deixe eu lhe perguntar só uma coisa e com toda a sinceridade quero que seja honesto comigo você viu mesmo o jogo de ontem à noite eu não sabia que wendell era muito amigo seu diz bobby eu não sabia que você já tinha descido até la riviere eu estava aqui pensando que sua idéia de uma grande noitada era uma caneca de cerveja e tentar fazer 100 pontos no boliche arden e agora descubro que você anda com repórteres em cidades universitárias provavelmente farreia com o rato de wisconsin também aquele cara da kwla você pega muitas garotas punk assim o ouvinte diz que perdeu o primeiro tempo porque teve que pegar o filho depois de uma sessão de aconselhamento especial na mount hebron mas depois disso viu tudo eu disse que wendell green era meu amigo pergunta tom lund por cima do ombro esquerdo de bobby ele pode ver o primeiro dos nomes no quadro-negro não consegue tirar os olhos dali e que eu o conheci depois do caso kinderling e ele não parecia tão ruim na verdade até gostei dele na verdade acabei tendo pena dele ele queria entrevistar hollywood e hollywood o mandou às favas bem naturalmente ele viu os tempos extras diz o infeliz ouvinte é assim que ele sabe que pokey reese estava seguro e quanto ao rato de wisconsin eu não o reconheceria se o visse e acho que aquela pseudomúsica que ele toca é a maior merda que já ouvi na vida para começar como é que aquele chato magro e branqueio ganhou um programa de rádio na emissora da universidade o que isso lhe diz sobre nossa maravilhosa uwla riviere bobby o que isso nos diz sobre nossa sociedade toda ah eu esqueci você gosta dessa merda não eu gosto de 311 e korn e você está tão por fora que não sabe a diferença entre jonathan davis e dee dee ramone mas esqueça isso sim devagar bobby dulac se vira e sorri para o parceiro deixe de fugir do assunto seu sorriso não é nada agradável estou fugindo do assunto tom lund arregala os olhos numa paródia de inocência ferida nossa fui eu quem atirou o jornal pela sala não acho que não se você nunca viu o rato de wisconsin como sabe como ele é assim como sei que ele tem cabelo de uma cor engraçada e piercing no nariz assim como sei que ele usa uma jaqueta preta de couro detonada entra dia sai dia chova ou faça sol bobby esperou pelo modo de falar dele a voz das pessoas é cheia de informações um cara diz parece que vai ser um dia bonito e conta a história dele toda quer saber mais uma coisa sobre o rato ele não vai ao dentista há uns seis ou sete anos os dentes dele estão um lixo de dentro da feia estrutura de blocos de cimento da kdcu perto da cervejaria na península drive do rádio que dale gilbertson doou para a delegacia muito antes de tom lund ou bobby dulac começarem a usar seus uniformes chega o afável grito de ultraje marca registrada do velho e bom george rathbun uma gritaria apaixonada contagiante que num raio de 160 quilômetros arranca sorrisos de fazendeiros que tomam o café da manhã sentados na frente de suas mulheres e gargalhadas dos caminhoneiros que passam 6

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev eu juro ouvinte e isso vai para meu ultimíssimo ouvinte também e cada um de vocês aí porque adoro vocês essa é a verdade verdadeira adoro vocês como minha mãe adorava o canteiro de nabos dela mas às vezes vocês me levam À loucura ah garoto fim do décimo primeiro tempo dois fora seis-sete brewers homens na segunda e terceira o rebatedor alinha para o armador reese sai da terceira bom arremesso para a base do rebatedor jogada limpa jogada limpa um cego poderia ter marcado isso ei achei que a jogada foi boa e só ouvi o jogo no rádio diz tom lund ambos estão fugindo do assunto e sabem disso na verdade grita o sem dúvida mais popular locutor do condado de coulee deixem eu assumir uma posição perigosa aqui meninos e meninas deixem eu fazer a seguinte recomendação sim vamos substituir cada árbitro do miller park ei cada árbitro da liga nacional por cegos sabem de uma coisa meus amigos garanto que as marcações deles serão de 60 a 70 por cento mais precisas dÊ o trababalho a quem tem competÊncia para fazÊ-lo os cegos a alegria se irradia pela cara sem graça de lund aquele george rathbun é uma peça cara bobby diz vamos sim sorrindo lund tira o jornal dobrado do saco e abre-o em cima de sua mesa seu rosto endurece sem alterar a linha seu sorriso fica glacial ah não ah diabo o quê lund emite um gemido disforme e balança a cabeça nossa eu nem quero saber bobby enfia as mãos nos bolsos depois se levanta todo espigado puxa a mão direita do bolso e tapa os olhos com ela sou cego certo faça com que eu seja um árbitro não quero mais ser tira lund não diz nada É uma manchete a manchete principal É muito ruim bobby destapa os olhos e fica com a mão no ar bem lund lhe diz parece que wendell não tomou juízo afinal de contas e com certeza não decidiu se licenciar não posso acreditar que eu tenha dito que gostava daquele merda acorde diz bobby ninguém nunca lhe disse que policiais e jornalistas estão de lados opostos da cerca o amplo torso de tom lund inclina-se sobre sua mesa um grosso vinco lateral como uma cicatriz divide sua testa e suas faces impassíveis enrubescem ele aponta um dedo para bobby dulac isso é uma coisa que realmente me irrita em você bobby há quanto tempo está aqui cinco seis meses dale me contratou há quatro anos e quando ele e hollywood puseram as algemas no sr thornberg kinderling que foi o maior caso deste condado talvez em 30 anos não posso reclamar o crédito mas pelo menos fiz a minha parte ajudei a juntar algumas das peças uma das peças diz bobby lembrei dale da barwoman do taproom e dale contou a hollywood e hollywood falou com a garota e isso foi uma senhora peça ajudou a pegá-lo portanto não fale assim comigo bobby dulac assume uma expressão de contrição completamente hipotética desculpe tom acho que estou irritado e ao mesmo tempo exaurido o que ele pensa é então você tem uns anos de vantagem sobre mim e uma vez você deu a dale essa informaçãozinha de merda e daí sou melhor tira do que você jamais vai ser quão heróico você foi ontem a noite afinal de contas Às 11h15 da noite anterior armand beezer st pierre e seus colegas de viagem dos thunder five saíram roncando da alameda nailhouse e irromperam delegacia adentro para pedir a seus três ocupantes cada um dos quais tendo trabalhado um turno de 18 horas detalhes exatos do progresso que eles estavam fazendo na questão que mais lhes interessava o que diabo estava acontecendo ali e o terceiro caso hã e irma freneau já a encontraram esses palhaços tinham alguma coisa ou continuam só soltando fumaça precisam de ajuda rugiu beezer então nos comissionem vamos lhes dar toda a ajuda de que precisarem e mais alguma um gigante chamado ratinho fora com um sorriso besta até bobby dulac e continuara andando barrigão contra barriga de chope até encostar bobby num arquivo após o que o ratinho gigante perguntou misteriosamente com um bafo de cerveja e maconha se bobby já havia lido as obras de um cavalheiro chamado jacques derrida quando bobby respondeu que nunca havia ouvido falar no cavalheiro ratinho disse não diga sherlock e chegou para o lado para olhar os nomes no quadro-negro meia hora depois beezer ratinho e seus companheiros foram mandados embora insatisfeitos não comissionados mas sossegados e dale gilbertson disse que tinha que ir para casa dormir um pouco mas tom precisava ficar por via das dúvidas ambos os homens do plantão noturno haviam arranjado desculpas para não vir bobby disse que iria ficar também não tem problema chefe por isso a gente encontra esses dois homens na delegacia a essa hora da manhã me dê isso diz bobby dulac lund pega o jornal vira-o e segura-o para bobby ver pescador ainda À solta na Área de french landing diz a manchete em cima do artigo de três colunas no canto esquerdo superior da primeira 7

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev página as colunas foram impressas sobre um fundo azul-claro e uma linha preta as destaca do resto da página embaixo da manchete em caracteres menores lê-se identidade de assassino psicótico confunde polícia embaixo do subtítulo uma linha em caracteres ainda menores atribui o artigo a wendell green com o apoio da redação o pescador diz bobby desde que a coisa começou seu amigo ainda não fez nada o pescador o pescador o pescador se de repente eu me transformasse num macaco de 15 metros e começasse a pisar em prédios você me chamaria de king kong lund abaixa o jornal e ri certo bobby concede exemplo ruim digamos que eu assaltasse alguns bancos você me chamaria de john dillinger bem diz lund com um sorriso ainda mais rasgado dizem que o pau de dillinger era tão grande que o puseram num vidro no smithsonian então leia para mim a primeira frase diz bobby tom lund olha para baixo e lê como a polícia de french landing não consegue descobrir nenhuma pista da identidade do diabólico assassino e criminoso sexual apelidado de `o pescador por este repórter os sinistros espectros do medo do desespero e da desconfiança infestam cada vez mais as ruas daquela cidadezinha e dali se espalham para as fazendas e aldeias do condado francês contaminando com seu toque cada recanto do condado de coulee era só o que faltava diz bobby nossa e num instante já cruzou a sala e está inclinado sobre o ombro de tom lund lendo a primeira página do herald com a mão descansando na coronha da sua glock como se estivesse pronto para meter uma bala no artigo agora mesmo nossas tradições de confiança e boa vizinhança nosso hábito de estender carinho e generosidade a todos [escreve wendell green exagerando no tom editorial estão se erodindo diariamente sob o corrosivo ataque dessas emoções aterrorizantes o medo o desespero e a desconfiança são um veneno para a alma das comunidades pequenas e grandes pois viram vizinho contra vizinho e ridicularizam a civilidade duas crianças foram horrivelmente assassinadas e seus restos mortais parcialmente consumidos agora uma terceira criança desapareceu amy st pierre de oito anos e johnny irkenham de sete foram vítimas das paixões de um monstro em forma de gente nenhum deles conhecerá a felicidade da adolescência nem as satisfações da idade adulta seus pais enlutados jamais conhecerão os netos que teriam acarinhado os pais dos colegas de amy e johnny guardam seus filhos no recesso de seus próprios lares assim como os pais cujos filhos não conheceram as vítimas por isso grupos de jogos de verão e outros programas para crianças pequenas foram cancelados em praticamente todas as cidades e municípios do condado francês com o desaparecimento de irma freneau de dez anos sete dias após a morte de amy st pierre e apenas três dias após a morte de johnny irkenham a paciência do povo está por um fio como já disse este correspondente merlin graasheimer 52 um lavrador desempregado sem endereço certo foi atacado e espancado por um grupo não identificado de homens numa rua secundária de grainger na noite de terçafeira outro episódio semelhante ocorreu na madrugada de quinta-feira quando eivar praetorious 36 um turista sueco que viajava desacompanhado foi atacado por três homens também não identificados enquanto dormia no parque leif eriksson de la riviere graasheimer e praetorious necessitaram apenas de cuidados médicos de rotina mas futuros incidentes quase certamente acabarão de forma mais séria tom lund olha para o próximo parágrafo que descreve o desaparecimento abrupto da menina freneau de uma calçada da rua chase e se afasta de sua mesa bobby dulac lê em silêncio por algum tempo depois diz você precisa ouvir essa merda tom É assim que ele termina quando o pescador vai atacar de novo pois ele vai atacar de novo meus amigos não tenham dúvida e quando o chefe de polícia de french landing dale gilbertson vai cumprir o seu dever e livrar os cidadãos deste condado da obscena selvageria do pescador e da compreensível violência produzida por sua própria inércia bobby dulac vai para o meio da sala batendo os pés sua cor se intensificou ele inspira depois expira uma quantidade monumental de oxigênio e se da próxima vez que o pescador atacar diz bobby ele for direto na bunda mole de wendell green estou com você diz tom lund você pode acreditar nessa babaquice violência compreensível ele está dizendo que as pessoas podem se meter com qualquer um que parecer suspeito bobby aponta o indicador para lund vou prender pessoalmente esse cara isso é uma promessa vou trazê-lo vivo ou morto na hipótese de lund não ter entendido ele repete pessoalmente sabiamente escolhendo não dizer a primeira coisa que lhe vem à mente tom lund faz que sim com a cabeça o dedo continua apontando ele diz se quiser alguma ajuda para isso talvez você deva falar com hollywood dale não teve sorte mas quem sabe você tem bobby faz um gesto descartando essa idéia não precisa dale e eu e você também claro a gente dá conta mas vou pessoalmente pegar 8

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev esse cara isso eu garanto ele faz uma pausa além do mais hollywood se aposentou quando se mudou para cá ou você esqueceu hollywood é muito moço para se aposentar diz lund mesmo para um policial ele é praticamente uma criança então você deve ser pouco mais que um feto e na gargalhada compartilhada dos dois saímos voando da sala de instruções e voltamos para o céu onde avançamos uma quadra para o norte até a rua queen prosseguindo algumas quadras para o leste descobrimos lá embaixo uma construção baixa e cheia de cantos e recantos que se bifurca de um eixo central ocupando com seu amplo gramado salpicado aqui e ali de carvalhos e bordos altos todo um quarteirão orlado de sebes cerradas que pediam uma boa poda obviamente algum tipo de instituição de início o prédio parece uma escola primária progressiva em que várias alas representam salas de aula sem paredes e o eixo central representa o refeitório e os escritórios administrativos quando perdemos um pouco de altura ouvimos o grito afável de george rathbun subindo em nossa direção de várias janelas a grande porta de entrada de vidro se abre e uma mulher magra de óculos gatinho sai para a manhã luminosa com um cartaz numa das mãos e um rolo de fita adesiva na outra ela imediatamente se vira e com gestos rápidos e eficientes cola o cartaz na porta a luz do sol faísca numa pedra esfumaçada do tamanho de uma avelã no dedo médio de sua mão direita enquanto ela se detém um instante para admirar seu trabalho podemos espiar por cima de seu ombro retesado e ver que o cartaz anuncia com uma alegre explosão de balões desenhados à mão que hoje É a festa do morango quando a mulher volta para dentro percebemos a presença numa parte da entrada visível logo abaixo do vertiginoso cartaz de duas ou três cadeiras de rodas dobradas do outro lado das cadeiras a mulher cujo cabelo castanho foi preso na nuca numa espiral arquitetônica vem andando com seus escarpins de salto alto por um saguão agradável com cadeiras de madeira clara e mesas do mesmo material sobre as quais há revistas artisticamente espalhadas passa por uma espécie de central automática ou balcão de recepção na frente de uma bela parede de pedra bruta e desaparece saltitando imperceptivelmente por uma porta lustrosa onde se lê william maxton diretor que tipo de escola é essa por que está funcionando por que está organizando festivais no meio de julho podemos chamá-la de escola de pós-graduação pois quem reside aqui se formou em cada estágio de sua existência exceto o último que é vivido dia após dia sob a intendência relapsa do sr william chipper maxton diretor esta é a casa maxton para a velhice conhecida no passado numa época mais inocente e antes da reforma cosmética feita em meados dos anos 80 como lar maxton que pertencia a seu fundador herbert maxton pai de chipper e por ele era dirigida herbert era um homem decente embora sem personalidade que pode-se dizer com segurança ficaria apavorado com algumas coisas que seu filho único faz chipper nunca quis assumir o cercado da família como ele chama com sua carga de peguentos zumbis molhadores de cama e babões e depois de se formar em contabilidade na uw-la riviere com especializações duramente conquistadas em promiscuidade jogo e arte de beber cerveja nosso garoto aceitou um cargo na secretaria da receita federal de madison wisconsin com o fim precípuo de aprender a roubar do governo sem ser notado cinco anos na receita ensinaram-lhe muita coisa útil mas quando sua carreira posterior como free-lancer ficou aquém de suas ambições ele cedeu às súplicas cada vez mais fracas do pai e associou sua sorte aos zumbis e aos babões com um certo prazer sinistro chipper reconheceu que apesar de uma triste falta de glamour o negócio de seu pai ao menos lhe daria a oportunidade de roubar dos clientes e do governo igualmente vamos entrar pela grande porta de vidro atravessar o belo saguão notando enquanto o fazemos os odores misturados de aromatizante de ambiente e amônia que impregnam até as áreas públicas de todas as instituições deste tipo passar pela porta com o nome de chipper e descobrir o que aquela jovem bemarrumada está fazendo aqui tão cedo do outro lado da porta de chipper há um cubículo sem janela equipado com uma mesa um cabide e uma pequena estante abarrotada de impressos de computador panfletos e folhetos há uma porta aberta ao lado da mesa pelo vão vemos um escritório muito mais amplo revestido com a mesma madeira lustrosa da porta do diretor e contendo cadeiras de couro uma mesa de centro de tampo de vidro e um sofá cor de aveia no fim da sala há uma vasta escrivaninha abarrotada de papéis tão encerada que quase parece brilhar nossa jovem cujo nome é rebecca vilas está sentada na beira da mesa as pernas cruzadas de uma forma particularmente arquitetônica um joelho está dobrado sobre o outro e as panturrilhas formam duas linhas bem moldadas mais ou menos paralelas descendo até os bicos triangulares dos escarpins de salto alto dos quais um aponta para quatro e outro para seis horas rebecca vilas deduzimos arrumou-se para ser vista fez uma pose com intenção de ser apreciada embora certamente não por nós por trás dos óculos gatinho seu olhar parece cético e divertido mas não podemos ver o que despertou essas emoções supomos que ela seja a secretária de chipper e essa suposição também só expressa meia verdade como a desenvoltura e a ironia de sua atitude deixam implícito os deveres da srta vilas há muito ultrapassaram o secretariado puro e simples podemos especular sobre a origem daquele belo anel que ela está usando é só pensar em sujeira que acertamos em cheio 9

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev passamos pela porta aberta seguimos a direção do olhar cada vez mais impaciente de rebecca e nos vemos contemplando a robusta bunda vestida de cáqui de seu patrão ajoelhado que enfiou a cabeça e os ombros dentro de um cofre grande no qual entrevemos pilhas de livros de registro e alguns envelopes de papel pardo aparentemente recheados de dinheiro algumas notas caem desses envelopes quando chipper os tira do cofre você fez o anúncio o cartaz pergunta ele sem se virar sim sim mon capitaine responde rebecca vilas e vamos ter um dia maravilhoso para a grande ocasião também como deve ser seu sotaque irlandês é surpreendentemente bom ainda que um pouco genérico ela nunca esteve em um lugar mais exótico que atlantic city onde chipper usou suas passagens de milhagem para ser seu acompanhante durante cinco dias encantados dois anos atrás ela aprendeu o sotaque vendo filmes antigos odeio a festa do morango diz chipper tirando o último envelope do cofre as mulheres e os filhos dos zumbis passam a tarde inteira zanzando por aí excitando-os e a gente tem que apagá-los com sedativos só para ter um pouco de paz e se você quer saber a verdade eu odeio balões ele joga o dinheiro no tapete e começa a separar as notas em pilhas de várias denominações eu só estava querendo saber com a minha simplicidade do interior diz rebecca por que eu deveria ser solicitada a aparecer ao romper da aurora no grande dia sabe o que eu mais odeio a parte da música zumbis cantantes e aquele dj imbecil o stan sinfônico com seus discos de grandes bandas ah garoto isso é que é emoção suponho diz rebecca abandonando o sotaque irlandês teatral que você quer que eu faça alguma coisa com o dinheiro antes do início da ação hora de mais uma viagem a miller uma conta sob um nome fictício no state provident bank em miller a 40 quilômetros dali recebe depósitos regulares de dinheiro desviado de fundos de pacientes destinados ao pagamento de bens e serviços extras chipper gira os joelhos com as mãos cheias de dinheiro e olha para rebecca senta nos calcanhares de novo e deixa as mãos caírem no colo puxa você tem umas pernas maravilhosas com umas pernas assim você devia ser famosa pensei que você não fosse reparar nunca diz rebecca chipper maxton tem 42 anos tem bons dentes muito cabelo uma cara larga sincera e olhos castanhos miúdos que sempre parecem um pouco úmidos tem também dois filhos trey de nove anos e ashley de sete que como se diagnosticou recentemente sofre de deficiência da atenção um problema que chipper calcula irá custar-lhe talvez dois mil por ano só em comprimidos e naturalmente ele tem uma mulher sua parceira de vida marion de 39 anos l,65m e mais ou menos uns 86 quilos além dessas bênçãos desde a noite passada chipper deve ao seu bookmaker $13,000 em consequência de um mau investimento no jogo dos brewers sobre o qual george rathbun continua berrando ele reparou ah reparou sim chipper reparou nas maravilhosas pernas da srta vilas antes de você ir lá diz ele eu pensei que talvez a gente pudesse deitar no sofá e brincar um pouquinho ah diz rebecca brincar como exatamente glu glu glu diz chipper rindo como um sátiro seu diabo romântico diz rebecca uma observação que escapa completamente a seu patrão chipper acha que realmente está sendo romântico ela desce elegantemente de onde está empoleirada e chipper levanta-se deselegantemente e fecha a porta do cofre com o pé com um brilho úmido nos olhos ele dá alguns passos rufianescos e emproados pelo tapete passa um braço em volta da cinturinha de rebecca vilas e com o outro deixa o gordo envelope de papel pardo na mesa já está arrancando o cinto antes mesmo de começar a puxar rebecca para o sofá então eu posso vê-lo diz a esperta rebecca que sabe exatamente como transformar o cérebro do amante em mingau e antes que chipper a satisfaça fazemos a coisa sensata e nos retiramos para o saguão que ainda está vazio um corredor à esquerda da mesa da recepção nos conduz a duas portas largas e claras com suas janelas de vidro onde se lê margarida e campÂnula os nomes das alas a que elas dão acesso no final da cinzenta ala campânula um homem de macacão folgado bate a cinza do cigarro no ladrilho sobre o qual ele está passando com requintada lentidão um esfregão imundo entramos na ala margarida a área residencial da maxton é muito menos atraente do que a comunitária há portas numeradas ao longo de ambos os lados do corredor cartões escritos à mão dentro de envelopes de plástico embaixo dos números indicam os nomes dos residentes quatro portas depois uma mesa atrás da qual um assistente corpulento de uniforme branco sujo cochila sentado empertigado dá paira a entrada dos banheiros masculino e feminino na maxton só os quartos mais caros os do outro lado do saguão na ala asfódelo fornecem tudo menos uma pia há marcas sinuosas de esfregão sujo endurecendo e secando por todo o chão ladrilhado que se estende por uma distância incrível à nossa frente aqui também as paredes e o ar parecem ser do mesmo tom de cinza se olharmos de perto para as pontas do corredor na junção das paredes com o teto vemos teias de aranha manchas velhas sujeira acumulada desinfetante amônia urina e aromas piores 10

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev perfumam o ambiente como uma senhora na ala campânula gosta de dizer quando se vive com um monte de gente velha que sofre de incontinência nunca se fica longe do cheiro de cocô os quartos em si variam de acordo com o estado e os recursos de seus habitantes já que quase todo mundo está dormindo podemos dar uma olhada em algumas dessas acomodações aqui no m10 um quarto de solteiro duas portas depois do empregado sonolento está deitada a velha alice weathers roncando delicadamente sonhando que dança em perfeito entrosamento com fred astaire por um chão de mármore cercada por tanta coisa de sua vida passada que ela precisa navegar por entre cadeiras e mesas para ir da porta até a cama alice ainda conserva uma parcela maior de suas faculdades mentais do que de sua mobília velha e limpa pessoalmente o quarto deixando-o imaculado ao lado no ml2 dois velhos fazendeiros chamados thorvaldson e jesperson que não se falam há anos dormem separados por uma cortina fina numa confusão alegre de fotografias de família e desenhos de netos descendo o corredor o ml8 apresenta um espetáculo completamente diferente do atravancamento limpo do m10 assim como seu habitante um homem conhecido como charles burnside poderia ser considerado o extremo oposto de alice weathers no m18 não há mesas laterais arcas cadeiras superestofadas espelhos dourados lâmpadas tapetes tramados nem cortinas de veludo esse quarto despido contém apenas uma cama de ferro uma cadeira de plástico e uma cômoda não há fotografias de filhos nem de netos em cima do móvel nem há desenhos a lápis de casas quadradas e bonecos magros decorando as paredes o sr burnside não tem interesse em arrumação de casa e uma fina camada de poeira cobre o chão o parapeito da janela e o tampo nu da cômoda o ml8 não tem história nem personalidade parece tão brutal e sem alma quanto uma cela de prisão um cheiro forte de excremento contamina o ar apesar de toda a diversão oferecida por chipper maxton e todo o charme de alice weathers foi principalmente charles burnside burny que viemos ver 11

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev 2 os antecedentes de chipper nós conhecemos alice chegou à maxton vinda de um casarão da rua gale a parte velha da rua gale onde sobreviveu a dois mandos criou cinco filhos e ensinou piano a quatro gerações de crianças de french landing nenhuma das quais jamais se tornou pianista profissional mas todas se lembram dela com carinho e pensam nela com afeição alice chegou a este lugar como a maioria das pessoas chega num carro dirigido por um de seus filhos entre relutante e vencida ficara muito velha para morar sozinha no casarão da parte antiga da rua gale tinha dois filhos casados que eram bastante bons mas não podia tolerar dar mais trabalho para eles alice weathers passara a vida toda em french landing e não desejava morar em qualquer outro lugar de certa forma sempre soubera que terminaria seus dias na maxton que embora não fosse nada luxuosa era bem agradável no dia em que o filho martin levou-a para inspecionar o local ela viu que conhecia pelo menos metade das pessoas ali diferentemente de alice charles burnside o homem alto magro deitado à nossa frente coberto com um lençol em sua cama de ferro não está em pleno gozo de suas faculdades mentais nem sonhando com fred astaire a superfície cheia de veias de sua estreita cabeça calva desce abaulada até as sobrancelhas como emaranhados de arame cinza embaixo dos quais de cada lado do gancho carnudo de seu nariz dois olhos estreitos brilham para uma janela voltada para o norte e a extensão de bosque para além da maxton burny é o único de todos os moradores da ala margarida que não está dormindo seus olhos faíscam e seus lábios estão retorcidos num sorriso bizarro mas estes detalhes não querem dizer nada pois a mente de charles burnside pode ser tão vazia quanto seu quarto burny sofre de mal de alzheimer há muitos anos e o que parece uma forma agressiva de prazer poderia não ser mais que uma satisfação física de um tipo muito elementar se não tivermos conseguido adivinhar que ele era a origem do fedor deste quarto as manchas que brotam dentro do lençol que o cobre deixam isso claro ele acabou de evacuar maciçamente na cama e o mínimo que podemos dizer sobre sua reação à situação é que ele não está nem aí não senhor a vergonha não faz parte deste quadro mas se diferentemente da encantadora alice burny já não está em seu juízo perfeito tampouco ele é um paciente de alzheimer típico É capaz de passar um ou dois dias resmungando para seu mingau como o resto dos zumbis de chipper depois revitalizar-se e tornar a se unir aos vivos quando não está morto-vivo em geral consegue ir até o banheiro no corredor quando necessário e passa horas ou se esquivando sozinho ou patrulhando o terreno sendo desagradável na verdade ofensivo com todo mundo restabelecido do estado morto-vivo ele é manhoso enrustido rude cáustico teimoso desbocado mesquinho e ressentido em outras palavras no mundo segundo chipper um irmão de sangue dos outros velhos que residem na maxton algumas das enfermeiras e alguns dos ajudantes e assistentes duvidam que burny realmente tenha alzheimer acham que ele finge foge da raia fica na moita fazendo de propósito com que eles trabalhem mais enquanto ele descansa e reúne forças para mais um episódio de antipatia dificilmente podemos recriminá-los por essa desconfiança se não foi mal diagnosticado burny provavelmente é o único paciente de alzheimer avançado no mundo a ter surtos prolongados de remissão em 1996 seu 78° ano o homem conhecido como charles burnside chegou à maxton numa ambulância do hospital geral de la riviere não num veículo dirigido por um parente solícito ele aparecera na sala de emergência certa manhã levando duas malas pesadas cheias de roupas sujas e exigindo aos altos brados atenção médica suas exigências não eram coerentes mas eram claras ele afirmava ter percorrido uma distância considerável para chegar ao hospital e queria que o hospital tomasse conta dele a distância variava a cada afirmação 16 quilômetros 24 quilômetros 40 ele passara ou não algumas noites dormindo em campos ou na beira da estrada seu estado geral e o cheiro que exalava sugeriam que ele andara vagando pelo interior e dormindo ao relento durante talvez uma semana se algum dia teve uma carteira ele a perdera na viagem o hospital geral de la riviere limpou-o alimentou-o deu-lhe uma cama e tentou extrair dele uma história a maioria de suas declarações acabava em uma fala ininteligível mas na ausência de qualquer documento pelo menos esses fatos pareciam confiáveis burnside fora marceneiro moldureiro e gesseiro na região durante muitos anos trabalhando por conta própria e para empreiteiros uma tia que morava na cidade de blair lhe dera um quarto ele fizera a pé os 29 quilômetros de blair até la riviere então não começara sua caminhada em outro lugar não se lembrava onde mas foi 16 quilômetros antes não 40 quilômetros antes em alguma cidade e as pessoas naquela cidade eram babacas inúteis e burras como era o nome da tia dele althea burnside quais eram o endereço e o telefone dela?não tinha idéia não se lembrava a tia dele tinha algum emprego tinha era babaca e burra em tempo integral mas permitira que ele morasse na casa dela quem permitira o quê charles burnside não precisava da permissão de ninguém fazia o que bem entendia sua tia o expulsara de casa está falando com quem seu burro idiota o médico da emergência registrou um diagnóstico inicial de mal de alzheimer sujeito ao resultado 12

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev de vários exames e a assistente social foi ao telefone e solicitou o endereço e o número do telefone de uma certa althea burnside residindo atualmente em blair a companhia telefônica respondeu que não constava do guia pessoa alguma com aquele nome em blair nem constava dos guias de ettrick cochrane fountain sparta onalaska arden la riviere ou quaisquer outras cidades num raio de 80 quilômetros ampliando sua rede a assistente social consultou o registro civil e os departamentos da previdência social de trânsito e da receita para informações sobre althea e charles burnside das duas altheas que surgiram do sistema uma era proprietária de um restaurante em butternut no norte do estado e a outra era uma negra que trabalhava numa creche em milwaukee nenhuma delas tinha qualquer ligação com o homem no hospital geral de la riviere os charles burnsides localizados pelos registros não eram o charles burnside da assistente social althea parecia não existir charles ao que parecia era uma dessas pessoas fantasmas que passam pela vida sem jamais pagar impostos ter título de eleitor inscrever-se para receber um cartão da previdência social abrir uma conta bancária ingressar nas forças armadas tirar carteira de motorista ou passar alguma temporada na penitenciária do estado outra rodada de telefonemas resultou na classificação do vago charles burnside como protegido do município e em sua admissão à casa maxton para a velhice até poderem ser encontradas acomodações no hospital estadual em whitehall a ambulância entregou burnside à maxton às custas do generoso povo e o resmungão chipper jogou-o na ala margarida seis semanas depois vagou um leito numa ala do hospital estadual chipper recebeu a ligação alguns minutos antes de a correspondência do dia lhe trazer um cheque emitido por althea burnside de um banco em de pere para a manutenção de charles burnside em sua instituição o endereço de althea burnside era uma caixa-postal de de pere quando o hospital estadual ligou chipper anunciou que no espírito do dever cívico ficaria feliz em continuar com o sr burnside na casa maxton para a velhice o velho acabara de se tornar seu paciente favorito sem fazer chipper passar por nenhum dos esquemas usuais burny contribuíra em dobro para o fluxo de rendimentos pelos seis anos seguintes o velho foi escorregando ininterruptamente para a escuridão do alzheimer se estava fingindo teve uma atuação brilhante foi indo abaixo pelas estações descendentes da incontinência da incoerência das explosões de raiva frequentes da perda da memória da perda da capacidade de se alimentar da perda da personalidade ele se reduziu à infância depois ao vazio e passava os dias amarrado a uma cadeira de rodas chipper pranteou a inevitável perda de um paciente singularmente cooperativo depois no verão do ano anterior a esses acontecimentos deu-se a espantosa ressurreição o rosto flácido de burny recobrou ânimo e ele começou a pronunciar veementes sílabas sem sentido abalá gorg munshun gorg queria comer sozinho queria exercitar as pernas andar cambaleando pela casa e se reacostumar com o ambiente em volta em uma semana estava usando palavras em inglês para insistir em usar as próprias roupas e ir ao banheiro sozinho engordou ganhou forças tornou-se novamente um estorvo agora muitas vezes no mesmo dia ele oscila entre a inexpressividade do estágio avançado do alzheimer e uma rabugice circunspecta e brilhante tão saudável num homem de 85 anos que poderia ser chamada de vigorosa burny parece uma pessoa que foi a lourdes e teve uma experiência de cura mas partiu antes de ficar completamente curada para chipper milagre é milagre desde que o velho ficasse vivo quem lá queria saber se ele ficava zanzando pela casa ou escorado no cinto de segurança de sua cadeira de rodas chegamos mais perto tentamos ignorar o fedor queremos ver o que podemos descobrir pela cara desse sujeito curioso nunca foi uma cara bonita e agora a pele é cinza e as faces são covas murchas veias azuis saltadas serpeiam pela calva cinzenta manchada como um ovo de maçarico o nariz parecendo borracha tem um ligeiro desvio para a direita o que aumenta a impressão de manha e retraimento os lábios retorcidos se enroscam num sorriso inquietante o sorriso de um incendiário contemplando um prédio em chamas que afinal de contas pode ser apenas um esgar aí está um verdadeiro solitário americano um andarilho do interior uma criatura de quartos feios e restaurantes baratos de viagens sem objetivo feitas por ressentimento um colecionador de feridas e injúrias apontadas e reapontadas com amor aí está um espião sem uma causa mais elevada do que ele próprio o nome verdadeiro de burny é carl bierstone e sob este nome ele conduziu em chicago dos 25 aos 46 anos atos de violência secretos uma guerra não oficial durante a qual fez coisas deploráveis pelos prazeres que elas lhe davam carl bierstone é o grande segredo de burny pois ele não pode deixar ninguém saber que sua encarnação anterior esse eu primeiro ainda vive dentro de sua pele os prazeres terríveis de carl bierstone seus brinquedos perversos também são de burny e ele precisa mantê-los ocultos no escuro onde só ele pode achá-los então esta é a resposta para o milagre de chipper que carl bierstone encontrou uma forma de se esgueirar por uma junção no estado morto-vivo de burny e assumir o controle do navio que naufragava a alma humana contém uma infinidade de salas afinal de contas algumas delas amplas algumas não maiores que um armário de vassouras algumas trancadas algumas imbuídas de uma luz radiante chegamos mais perto do crânio cheio de veias do nariz sinuoso das sobrancelhas hirsutas abaixamo-nos mais sobre o fedor para examinar aqueles olhos interessantes eles parecem néon negro brilham como o luar numa margem de rio inundada no geral parecem perturbadoramente alegres mas não particularmente humanos isso não ajuda muito os lábios de burny se mexem ele continua sorrindo se é que se pode chamar aquele ríctus de sorriso mas começou a murmurar o que está dizendo 13

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev eles estão se esgondento em suas maltidas tocas e tapanto os olhos estão gemento de meto meus pobres bebes pertitos não não isso não fai achutar fai ah fecha os motorres sim ah aqueles motorres lintíssimos que cena os lintos motorres contra o foco como eles xirram como xirram e artem vejo um purrago sim sim lá está ele ah tão prilhante nas pontas tão toprato carl bierstone pode estar fazendo um relato mas sua fala ininteligível não ajuda muito vamos seguir a direção do olhar embotado de burny esperando que ele possa nos dar uma pista do que deixou o velho tão excitado sexualmente também como observamos a partir da forma sob o lençol ele e chipper parecem estar em sincronia aqui já que ambos estão armados só que em vez do benefício das atenções experientes de rebecca vilas o único estímulo de burny é a vista de sua janela a vista dificilmente está à altura da srta vilas a cabeça ligeiramente elevada sobre um travesseiro charles burnside olha embevecido por sobre um pequeno gramado para uma carreira de bordos e o início de um vasto bosque mais adiante assomam as grandes copas frondosas dos carvalhos alguns troncos de bétulas brilham como candeias na escuridão interior pela altura dos carvalhos e a variedade das árvores sabemos que estamos contemplando um resquício da grande floresta que um dia cobriu toda essa parte do país como todos os vestígios de florestas antigas a mata que se estende ao norte e a leste da maxton fala de mistérios profundos numa voz quase profunda demais para ser ouvida embaixo de sua cobertura verde tempo e serenidade abraçam carnificina e morte a violência incomoda sem ser vista constantemente absorvida em cada aspecto de uma paisagem silenciosa que nunca pára mas se move com uma falta de pressa glacial o solo cintilante e mole cobre milhões de ossos espalhados em camadas superpostas tudo que cresce e viceja aqui viceja na podridão mundos dentro de mundos se agitam e grandes universos sistemáticos zumbem lado a lado cada qual sem saber trazendo abundância e catástrofe para seus vizinhos não-imaginados será que burny contempla essa mata e é animado pelo que vê nela ou aliás será que continua realmente dormindo e carl bierstone faz travessuras por trás dos olhos esquisitos de charles burnside burny murmura rapossas em tocas de rapossa ratos em purracos de rato hienas riem de parrica facia ohó ahá isso é muito alecre meus amicos cada fez mais as criancinhas caminham caminham caminham com os pecinhos sancranto vamos nos mandar daqui certo vamos sair da boca feia do velho burny já chega vamos procurar o ar fresco e voar para o norte sobre a mata raposas em tocas de raposa e ratos em buracos de rato podem estar gemendo é verdade é assim que funciona mas não vamos encontrar nenhuma hiena faminta no oeste de wisconsin de qualquer forma as hienas estão sempre com fome ninguém tem pena delas também a pessoa tem que ter o coração realmente mole para ter pena de uma criatura que não faz outra coisa senão rondar pela periferia das outras espécies até o momento em que rindo e gargalhando pode pilhar suas sobras vamos sair direto pelo telhado a leste da maxton a mata cobre o solo por cerca de 1.600 a 3.200 metros antes que uma estreita estrada de terra saia da rodovia 35 como um repartido descuidado numa basta cabeleira a mata continua por uns 90 metros depois dá lugar a um loteamento de 30 anos que consiste em duas ruas aros de basquete balanços de fundo de quintal triciclos bicicletas e veículos da fisher-price atravancam os acessos das casas modestas na schubert e na gale as crianças que farão uso destas coisas estão na cama sonhando com algodão-doce filhotes de cães home runs excursões a territórios distantes e outras maravilhosas infinitudes também deitados estão seus ansiosos pais fadados a ficar mais ansiosos ainda após ler o artigo de wendell green na primeira página do herald alguma coisa nos chama a atenção aquela estreita estrada de terra sinuosa saindo da rodovia 35 e entrando na mata mais um caminho que uma estrada de verdade seu ar de privacidade não combina com sua aparente inutilidade o caminho entra serpeando no bosque e 1.200 metros depois termina de que adianta para que serve da altitude em que estamos sobre a terra a trilha parece uma linha fraca feita com um lápis n° 4 é preciso quase ter olho de águia para vê-la mas alguém teve um trabalho considerável para traçar esta linha através do bosque Árvores tiveram que ser abatidas e retiradas tocos tiveram que ser arrancados se um homem fez isso deve ter levado meses de árduo trabalho braçal o resultado de todo esse esforço bárbaro tem a notável propriedade de se ocultar de fugir da vista de modo que desaparece se a atenção se distrai e precisa ser localizado de novo podemos pensar em anões e minas secretas de anões a trilha para o tesouro oculto de um dragão uma riqueza tão protegida que o acesso a ela foi camuflado por um feitiço mágico não minas de anões tesouro de dragão e feitiços mágicos são muito infantis mas quando descemos para um exame mais atento vemos que há um aviso de entrada proibida apagado no início da trilha prova de que algo está sendo guardado ainda que seja apenas a privacidade tendo visto o aviso olhamos de novo para o fim da trilha na escuridão sob as árvores ali uma área parece mais escura que o resto mesmo quando torna a sumir no escuro essa área possui uma impassibilidade que a distingue das áreas vizinhas ahá ohó dizemos a nós mesmos ecoando o tatibitate de burny o que temos aqui algum muro parece que sem traços marcantes quando atingimos o meio da curva da trilha um triângulo de escuridão quase obscurecido pelas copas das árvores se define como um telhado 14

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stephen_king peter_straub a_casa_negrarev pontudo só quando estamos quase em cima dela a construção inteira se define como uma casa de madeira de três andares cuja estrutura parece estranhamente instável com um alpendre baixo e bambo na frente esta casa visivelmente ficou vazia por muito tempo e após captar sua excentricidade a primeira coisa que notamos é sua inospitalidade a novos locatários uma segunda placa de entrada proibida inclinada num ângulo incrível contra um pilar de escada meramente sublinha a impressão dada pela própria construção o telhado pontudo só cobre a parte central a esquerda um puxado de dois andares recua para o bosque a direita brotam acréscimos baixos do prédio como telheiros exagerados mais parecendo excrescências que idéias posteriores em ambos os sentidos da palavra a construção parece desequilibrada uma mente perturbada concebeu-a depois a criou inexoravelmente torta o resultado difícil de controlar desvia a investigação e resiste à interpretação uma estranha invulnerabilidade monolítica emana dos tijolos e das madeiras apesar do estrago feito pelo tempo obviamente construída em busca de privacidade se não de isolamento a casa ainda parece buscá-los o mais estranho de tudo de nossa posição privilegiada a casa parece ter sido pintada de um preto uniforme não só as madeiras mas cada centímetro do exterior o alpendre as esquadrias as calhas até as janelas preto de cima a baixo e isso não pode ser possível neste canto ingênuo e benfazejo do mundo nem mesmo o construtor mais loucamente misantrópico transformaria sua casa em sua própria sombra descemos até rente ao chão e nos aproximamos pelo caminho estreito quando chegamos suficientemente perto para um julgamento confiável o que vem a ser inconfortavelmente perto descobrimos que a misantropia pode ir além do que havíamos suposto a casa já não é negra mas foi a tonalidade para a qual desbotou nos faz sentir que talvez tenhamos sido excessivamente críticos quanto à cor original a casa hoje tem o cinza-chumbo das nuvens de tempestade dos mares lúgubres e dos cascos dos navios naufragados preto seria preferível a esta absoluta falta de vida podemos ter certeza de que muito poucos dos adultos que moram no loteamento próximo ou quaisquer adultos de french landing ou das cidades vizinhas desafiaram a advertência na 35 e se aventuraram a subir a trilha estreita quase nenhum deles sequer nota mais o aviso nenhum deles sabe da existência da casa negra mas podemos ter certeza também de que alguns de seus filhos exploraram o caminho e algumas dessas crianças foram longe o bastante para encontrar a casa elas a teriam visto de uma forma que seus pais não poderiam ver e o que elas viram as teria feito voltar correndo para a rodovia a casa negra parece tão deslocada no oeste de wisconsin quanto um arranha-céu ou um palácio cercado de fossos na verdade a casa negra seria uma anomalia em qualquer lugar em nosso mundo exceto talvez como uma casa assombrada um castelo de terrores num parque de diversões onde sua capacidade de repelir compradores de ingressos levaria o negócio à falência em uma semana no entanto de uma forma específica ela talvez nos lembre os prédios sombrios da rua chase ao longo de sua ascensão à respeitabilidade a partir da margem do rio e da alameda nailhouse o feio hotel nelson a taberna obscura a sapataria e as outras lojas marcadas com a listra horizontal desenhada pelo lápis-cera do rio compartilham o mesmo sabor sinistro onírico meio irreal que impregna a casa negra neste momento de nosso avanço e ao longo de tudo o que vem depois deveríamos nos lembrar que este estranho sabor onírico e ligeiramente antinatural é característico das terras de fronteira pode ser detectado em cada confluência entre dois territórios específicos por mais significativa ou insignificante que seja a fronteira em questão terras de fronteira são diferentes de outros locais são fronteiriças digamos que por acaso você esteja passando de carro pela primeira vez por uma parte semi-rural do condado de oostler em seu estado natal indo visitar um amigo recém-divorciado do sexo oposto que se mudou abruptamente e segundo você insensatamente para uma cidadezinha no contíguo condado de orelost no banco do carona ao seu lado em cima de uma cesta de piquenique contendo duas garrafas de vinho branco superior de bordeaux bem calçadas por várias iguarias em requintadas caixinhas há um mapa cuidadosamente dobrado para expor a área relevante você pode não saber a localização exata mas você está na estrada certa e fazendo um bom tempo gradualmente a paisagem muda a estrada vira circundando uma berma inexistente depois começa a serpear em curvas inexplicáveis dos dois lados a postura das árvores é largada embaixo de seus galhos tortos as casas intermitentes ficam menores e mais decadentes a frente um cachorro de três pernas passa se contorcendo por uma cerca e investe contra seu pneu dianteiro uma velha usando um chapeuzinho de palha e o que parece ser uma mortalha ergue os olhos vermelhos de um balanço de alpendre adernado dois jardins à frente uma garotinha vestida de gaze cor-de-rosa suja e uma coroa de lata abana uma faiscante varinha de condão com uma estrela na ponta para um monte de pneus em chamas depois aparece uma placa retangular com a legenda bem-vindo ao condado de orelost logo as árvores melhoram a postura e a estrada fica reta libertado das ansiedades que você mal notou até que elas desaparecessem você pisa no acelerador e se apressa para chegar ao seu amigo carente terras de fronteira têm o sabor de indisciplina e distorção o grotesco o imprevisível e o sem lei enraízam-se nelas e vicejam o sabor das terras de fronteira centrais é de resvalamento e enquanto estamos num cenário de maravilhosa beleza natural também estamos viajando por uma terra de fronteira natural delineada por um grande rio e definida por outros rios menores largas morainas glaciais escarpas de calcário 15

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