p. 3
1 zona norte era uma vez no meu bairro jeosa fÁ 3
[close]
p. 4
copyright © 2011 jeosafá fernandez gonçalves em conformidade com a nova ortografia todos os direitos reservados editora nova alexandria avenida dom pedro i 840 01552-000 são paulo sp fone/fax 11 2215-6252 e-mail novaalexandria@novaalexandria.com.br site www.novaalexandria.com.br editor marco haurélio revisão juliana messias projeto gráfico e capa graphorama diagramação viviane santos foto do autor claudinéia barbosa de azevedo dados para catalogaÇÃo cip jeosa fá era uma vez no meu bairro zona norte jeosa fá são paulo nova alexandria 2011 216 p il isbn 978-85-7492-316-1 1 literatura brasileira romance i título ii autor cdd 869.b 1 Índice para catalogação literatura brasileira romance 869.b 4
[close]
p. 7
a hora do almoço era de amargar o rosalva tinha dor de garganta direto e reto quando estava lá pelos quatro anos não comia nem a pau durante a semana a mãe enfiava a colher na boca dele à força Às vezes até machucava a gengiva e fazia sangrar come estrupício que mal eu fiz a deus um dia o céu vai cair na cabeça de todo o mundo e os primeiros a se lascarem vão ser os que fazem a mãe sofrer eu e a renata ficávamos com medo de o céu cair em cima de casa comí-amos rapidinho saíamos da mesa e íamos para a rua ver se o céu ia cair mesmo quando ele estava bem azul dava mais medo porque aí não ia ter nuvens para amortecer a calamidade no domingo se falássemos qualquer coisa na hora do almoço tinha pancada geral se déssemos uma risada então pensavam que estávamos rindo deles aí a gente quase desmaiava de tanto levar porrada ainda mais que éramos uns tremendos bocas-sujas 7
[close]
p. 8
vocês reclamam do quartel isso aqui é tratamento classe a de vez em quando um bofete às vezes um berro uma cana só pros muito trouxas mil vezes o quartel vocês não sabem o que é ter que voltar pro inferno todo dia uma vez o rosa estava com uma daquelas inflamações da garganta que ele sempre tinha estava com o pescoço enrolado num pano com álcool era domingo de páscoa dias de festa eram os piores meu pai tinha saído cedo para tomar uns birinaites antes do almoço a gente tinha que esperar eu estava com uns nove anos a renata sete e o rosa quatro o cara demorou uma vida quando chegou estávamos cada um em sua cadeira todos sentados em volta da mesa a comida já estava fria ele chegou de fogo sentou-se minha mãe falou um monte e sentou-se também eu e renata estávamos com tanta fome que comemos sem nem mastigar essa merda está fria meu pai falou com uma boca mole que deixou escapar as dentaduras fedia a cachaça mais que a peste É comida de cachorro repetiu afastando as dentaduras para o canto da mesa minha mãe foi comendo sem levantar os olhos do prato naquela época ela quase não bebia só mamava escondido enquanto fazia comida ou quando não estávamos em casa meu pai tocado na cangebrina continuou falando groselha minha mãe levantou-se com o prato cheio de comida e quebrou-o na cabeça dele o mel desceu junto com caldo de feijão frio arroz pedaços de peixe e farofa isso é pra você aprender a não ficar falando grosa o velho nem sentiu a pancada ficou lá no seu lugar falando merda como se estivesse sozinho minha mãe tirou o avental lavou a boca com um gole de cachaça cuspiu na pia e saiu deixou a gente com o velho totalmente mamado com sangue escorrendo da cabeça e baba da boca murcha nenhum de nós três se mexia da cadeira meu prato e o da renata já estavam limpos tínhamos até lambido parecia que tinham 8
[close]
p. 9
sido lavados aí o velho levantou e pôs sua cadeira perto da cadeira do rosa o coitado estava tão assustado que não conseguia nem chorar as sardas da cara dele ficavam mais vivas com a brancura da pele dava até pena nessa época ele era bem pequeno estava sempre doente acho que é por isso que não crescia agora não agora está grande apanhou tanto que cresceu de vez em quando vou ver ele jogar bola está sempre uma categoria acima dos outros por causa do tamanho bate um bolão então o pai começou vamos comer criança pegou a colher encheu e foi enfiar na boca dele errou e derrubou tudo de tão bêbado não quer comer né traste então vai ver deu uma tapona no moleque que ele rolou da cadeira senta já e come toda essa comida de cachorro tá pensando que dinheiro dá em árvore safado o rosa foi comendo e chorando porque a garganta inchada dele estava que era ferida só foi comendo foi comendo foi comendo quando não aguentou mais parou aí o velho pegou na colher e todo torto de cachaça foi enfiando a comida direto da panela na boca do menino o rosa foi engolindo engolindo engolindo até que vomitou tudo sobre a mesa o velho deu uma risada que parecia do diabo e caiu dormindo com a cara sobre o vômito pegamos o rosa e corremos para a casa da dona assunção a preta gorda do fim da rua que tinha adotado um moleque polaquinho o victor quase da idade do rosa ela cuidou da gente até minha mãe chegar já no fim da noite do domingo de páscoa catzo que páscoa mano seu pai é o judas que escapou da malhação no sábado de aleluia mermão quiá-quiáquiá-quiá-quiá no rabo dos outros é refresco mané meu esse rancho aqui do quartel é de primeira não vem misturado com desgosto vocês reclamam que vem pedra no feijão caralho tira a pedra e come porra 9
[close]
p. 10
quero ver é tirar o amargo do desgosto que minha mãe serve todo dia naquele feijão de cachaça reclamam que eu enfio sal demais na bagaça do arroz quero ver engolir aquela papa salobra que ela serve com um bebum junto para dar dor de estômago vocês querem ir para a guerra cuzões estão é brincando de guerra aqui nesse exercício de selva de cascata cascata pura cascata esse exercício de cuzões amanhã ou depois o caminhão chega e leva todo mundo de volta para o acampamento quero ver é vocês enfrentarem meu pai e minha mãe uma semana todo santo dia os caras são o capeta na terra seus recos duma figa aí ronaldo fica na sua tu não é o único fodido aqui nessa bagaça não tu é homem ou que caralho você é se não é homem para dar um corretivo nos safados dos teus pais então fica na tua fica na sua você reco você está bêbado se boquejar enquadro no uso de bebida alcoólica durante exercício militar com farda o gancho é federal tá me ouvindo aí não é por aí certo todo mundo aqui bebeu demais ou deu pelo menos umas boas goladas então vamos dormir rapaziada que é o melhor lance sem essa de deduragem dormir como com essa puta chuva roda a garrafa que tou com frio falou esse papo de corretivo é sério aí peixe se seus pais são assim então demorou passa um corretivo que melhoram aí você errado está vendo você tá bêbado vai dar um conselho desses pro capeta meu vai bater no pai meu pirou o coco pai é pai aí rona não vai bater em ninguém certo seguinte companhia vamos votar essa porra levanta as duas mãos quem é a favor de dar um corretivo no pai do rona isso um dois três quatro trinta e oito agora quem é contra levanta uma mão só aí esse processo eleitoral está totalmente avacalhado quiáquiá-uk tá criticando a justiça militar reco um dois três quatro cinco 10
[close]
p. 11
ganhou o corretivo de lavada aí rona se precisar de apoio da tropa para dar um corretivo nos elementos é só solicitar mediante memorando ao comando da companhia aí totalmente de acordo mas tira as porras das pedras do feijão pô já quebrei um dente com esse seu rancho de merda come sem mastigar otário É cinquenta por cento de chance de se dar bem É cinquenta por cento é uma boa porcentagem nem a loteria federal dá uma boiada dessas ih-ih-ih não entra nessa não meu fiz isso outro dia e foi foda tive que cagar uma pepita cinquenta por cento uma pinoia só se os outros cinquenta por cento sem pedra ele manda para o comando você é peixada dos caras rona tamos sabendo ou gostam da sua comida ou de outra coisa olha você ficando inteligente chegou perto até que enfim sacou a parada mas se vai ficar boquejando é melhor pedir transferência para o pelotão de engenharia tão precisando de recruta para calçar estradas você caga as pepitas e eles vão alisando com as máquinas calem a boca cheia de pedras e passem a garrafa que tá frio até umas hora valeu abre outra que essa miou 11
[close]
p. 13
minha mãe entrou correndo tirou a gaveta de facas e talheres do armário entrou no quarto enfiou debaixo da cama e antes de nos trancar do outro lado da porta falou seu pai está uma manguaça só não abram a porta de jeito nenhum lá na cozinha eu me entendo com ele a porta do quarto era cheia de furos ficamos olhando por eles a lâmpada amarelada de sessenta velas da cozinha ficava pendurada pelo fio e estava toda picada de cocô de mosquitos meu pai entrou se escorando no batente da porta noite falou ele meio rindo e balançando de um lado para outro a cabeça vidrada no chão como se estivesse sacudindo ideias ruins boa noite meu velho minha mãe falou calma ela tinha conversado com a mãe do jardel vizinha da esquerda que ensinara essa manha a melhor forma da acalmar bêbado era concordar o tempo todo com ele sim sim sim tem razão me desculpe o erro foi meu era por aí 13
[close]
p. 14
um grupo de inocentes cresce no entroncamento das rodovias dutra e fernão dias em são paulo no fogo cruzado de quatro infortúnios os pais violentos os bandidos sanguinários os policiais criminosos e a escola falida na lei da selva dos adultos terão de inventar as estratégias de sobrevivência que os tornarão também adultos nem sempre sãos nem sempre salvos com que podem contar nessa travessia plena de riscos e potenciais naufrágios com seus sonhos zona norte é o primeiro romance do ciclo era uma vez no meu bairro do escritor jeosafá fernandez gonçalves resultado de mais de vinte anos de pesquisa sobre a violência particularmente contra crianças e jovens em jornais livros documentos oficiais e a partir de entrevistas em trabalho de campo zona norte é o ponto de partida de uma ficção cujo enredo em forma de espiral passa pelas zonas leste sul e oeste até atingir o centro cada região da metrópole um romance enraizado na realidade e como ela cheio de surpresas expectativas e naturalmente sonhos 978-85-7492-316-1 9 788574 92316 1 15
[close]