Embed or link this publication

Popular Pages


p. 1

Ano XII - Edição 141 - Agosto de 2019 Distribuição Gratuita Inspiração A maioria das pessoas acredita que para dar o primeiro passo em Retrospectiva: “Fulano é fascista!”, argumento pronto busca de uma colocação no trabalho voluntario, tem que ter uma Nós da esquerda, a nível do discurso, costumamos nos dar razão inspiração, alguns vão mais longe e dizem que há a necessidade muito facilmente. Também temos argumentos tanto fortes, quanto de ter uma inspiração divina. prontos: “Fulano é fascista!” ou “O importante é o social.” Na minha Acho um pouco demais, com todo o respeito às crenças individuais, caminhada como estudante de humanas (lá se vão 16 anos), a- mas voluntariado é muito mais racional... prendi a fazer uns exercícios que servem pra dosar essa força e a fazer circular Matéria completa: Matéria completa: Os dados, divulgados pelo IBGE em fins de julho, são alarmantes: 3% do total de crianças brasileiras de 6 a 14 anos se encontram fora da escola, o que representa quase 1 milhão de excluídos dos bancos escolares. Se incluirmos o contingente de 4 e 5 anos e de 15 a 17, o percentual aumenta para 8%, ou seja, 3,8 milhões de crianças e adolescentes. As razões da evasão escolar precoce são muitas. As mais frequentes, porém, são a falta de interesse (falha pedagógica dos educadores), repetência, gravidez precoce e o imperativo de ingressar no mercado de trabalho para ajudar a família. A desescolaridade provoca na criança e no adolescente baixa autoestima, tornando-os vulneráveis a propostas ilusórias de enriquecimento e consumismo fáceis através do tráfico de drogas e outras práticas criminosas. O programa “Todos pela educação”, do qual participo, estabelece 5 metas até 2022, data do bicentenário da independência do Brasil: 1) 98% das crianças e jovens entre 4 a 17 anos devem estar matriculados e frequentando a escola; 2) 100% das crianças deverão apresentar as habilidades básicas de leitura escrita até o final da 2a. série ou 3o. ano do ensino fundamental; 3) 70% ou mais dos alunos terão aprendido o que é essencial para a série que cursam; 4) 95% ou mais dos jovens brasileiros de 16 anos deverão ter completado o ensino fundamental e 90% ou mais de 19 anos deverão ter completado o ensino médio; 5) O investimento público em educação básica deverá ser de 5% ou mais do PIB. São metas elementares e, no entanto, essenciais para qualificar as gerações futuras e permitir ao nosso país acesso ao desenvolvimento sustentável com justiça social. Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), no mundo 215 milhões de meninos e meninas trabalham para sobreviver ou complementar a renda de suas famílias. Dessas crianças, metade está expostas a condições degradantes de trabalho, como escravidão, servidão por dívidas, exploração sexual com fins comerciais e atuação em conflitos armados. O governo brasileiro já desenvolve intensa campanha contra a exploração sexual de crianças e o trabalho infantil. No entanto, é preciso aprimorar o combate a toda forma de violência contra crianças, em especial no âmbito familiar. Há que considerar também como violência à infância a extrema pobreza e determinados conteúdos do ciberespaço, pelo qual atuam os pedófilos e disseminadores de pornografia. Frei Betto CULTURAonline BRASIL Palestras e boa música Palestras: - Cultura - Educação - Meio Ambiente - Cidadania Baixe o aplicativo Google Play no site www.culturaonlinebr.org + MATÉRIAS -Cerrado está sendo devastado mais rápido do que a Amazônia Página 3 A desigualdade no Brasil é uma forma de dominação econômica, social e cultural. Página 4 - Olhares... Página 5 - Após abolição, negro foi excluído do mercado de trabalho. - Escravidão moderna Página 6 - Pontos de Vista... - By By Brasil. A desconstrução da Nação Soberana. Página 7 - Descolonizar o saber e o poder Página 8 - A prova de fogo Página 9 - Página da Genha Auga Página 10 - Política Internacional Página 11 - Senhores do Mundo. A doutrina que está por trás do America First Página 12 - Algumas datas comemorativas Página 13 - O mito da caverna de Platão: a dualidade da nossa realidade. Página 14 - Por que os psicopatas chegaram ao poder Página 15 - Regressão e obscurantismo: “…e eu não me importei” Página 16 Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 2

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 2 Inspiração A maioria das pessoas acredita que para dar o primeiro passo em busca de uma colocação no trabalho voluntario, tem que ter uma inspiração, alguns vão mais longe e dizem que há a necessidade de ter uma inspiração divina. Acho um pouco demais, com todo o respeito às crenças individuais, mas voluntariado é muito mais racional do que emocional, olhamos para o lado, percebemos a necessidade, olhamos para nós, percebemos que podemos fazer algo, vamos lá e fazemos. Simples, rápido e prático, sem muitas elucubrações e chamamentos. Sim existem os que são tocados de forma diferenciada para uma prática, e existem práticas que só pessoas muito inspiradas para realizarem, como o trabalho em penitenciárias, admiro e respeito muito as que fazem esta atividade, nos manicômios, tão necessário e realizado por uma parcela pequena, mas importante de voluntários. Mas quero mais uma vez chamar a atenção para que não fiquemos paralisados esperando um chamamento, pois as oportunidades para exercer um trabalho voluntario que faça bem a você e ao próximo estão mais perto do que você imagina. Busque na sua rua, igreja ou templo, bairro, clube, escola, prefeitura, cidade, amigos etc., tenho certeza que quando começar a falar de seu interesse um trabalho virá até você. Assim o chamamento podemos dizer que será invertido, voe fara um chamamento para ajuda, afinal de contas um dos principais beneficiados da prática voluntaria é você, portanto é o maior interessado na ação. Grande parte dos trabalhos oferecidos estão muito próximo as pessoas, pois sempre ouvimos aquelas frases: “nossa como nunca percebi que aqui havia uma organização”. Certamente você se tornará uma pessoa muito mais interessante, a partir do momento que se interessar, é a regra da reciprocidade, eu me ofereço, para ter, doar para receber. Todas as crenças de alguma forma fazem este lema valer. E para os que não tem crença? Acredite em você, que você, seu tempo e talento, pode fazer a diferença na vida de muita gente e seja feliz. Roberto Ravagnani ALGUMAS DATAS COMEMORATIVAS (Todas as Datas? Visite nossa biblioteca no site) 01 - Dia Nacional do Selo 05 - Dia Nacional da Saúde 09 - Dia Internacional dos Povos Indígenas 11 - Dia dos Pais 11 - Dia da Televisão 11 - Dia Internacional da Logosofia 11 - Dia do Estudante 12 - Dia Internacional da Juventude 12 - Dia Nacional das Artes 15 - Dia da Informática 15 - Dia dos Solteiros 19 - Dia Mundial da Fotografia 19 - Dia do Artista de Teatro 19 - Dia do Historiador 22 - Dia do Folclore 29 - Dia Nacional da Visibilidade Lésbica PRECISAMOS VOLUNTÁRIO (A) REVISÃO ORTOGRÁFICA DO JORNAL Você sabe qual é a origem da pipoca? Descubra! Colaboraram nesta edição Ela combina com o cinema, com o sofá de casa, com parques de diversão, pracinhas, festas juninas e muito mais. É claro que estamos falando da pipoca, um dos petiscos mais consumidos no mundo, ideal para momentos descontraídos ou para curtir aventuras e emoções na tela. Mas você já parou pra pensar sobre a origem da pipoca? Se você sempre quis saber onde esse delicioso aperitivo surgiu, este post poderá ajudar. Continue lendo abaixo e descubra quem inventou a pipoca, além de outras curiosidades e dicas para degustar a sua. Quem inventou a pipoca? Assim como diversos outros alimentos, a pipoca é mais uma dessas receitas que não tem um criador, mas sim uma origem repleta de pesquisas e mistérios. No entanto, quando falamos de lugares onde se deu a origem da pipoca, pesquisadores apontam que o alimento possivelmente Surgiu Há Cerca De 9000 Anos Na Região Do México . Vestígios do petisco já foram encontrados em outros países como Peru e Estados Unidos, e muitos acreditam que o alimento era comum aos povos nativos das Américas do Norte, Central e do Sul. Como o milho era um importante alimento para os povos nativos das Américas, historiadores acreditam que a pipoca apareceu por acaso, quando alguém colocou espigas inteiras junto à fogueira , e os grãos estouraram por causa do calor. Com o tempo, algumas tribos passaram a separar os grãos e colocá-los em jarros de barro com areia, facilitando o processo de estouro da pipoca. Colunistas Fixos: Mariene Hildebrando Genha Auga Filipe de Sousa Fábio Luiz de Souza João Paulo E. Barros Callendar (datas) Colaboradores esporádicos nesta edição: Roberto Ravagnani Folha de São Paulo Frei Sérgio Antônio Görgen ofm Valéria Dias Matheus Silveira de Souza Boaventura de Sousa Santos Pedro Augusto Pinho Luis Pellegrini Diogo Araujo George Monbiot Adão Villaverde Frei Betto A melhor maneira de nos prepararmos para o futuro é concentrar toda a imaginação e entusiasmo na execução perfeita do trabalho de hoje. Dale Carnegie IMPORTANTE Todas as matérias, reportagens, fotos e demais conteúdos são de inteira responsabilidade dos colaboradores que assinam as matérias, podendo seus conteúdos não corresponderem à opinião deste Jornal. A Gazeta Valeparaibana é um jornal mensal gratuito distribuído mensalmente para download na web Diretor, Editor e Jornalista responsável Filipe de Sousa - FENAI 1142/09-J Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 3

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 3 Retrospectiva: “Fulano é fascista!”, argumento mos trazer à discussão algumas forças enormemente autoritárias e pronto geradoras de neurose e inação que estão na raiz daquilo que para nós aqui interessa, ou seja, grande parte dos discursos críticos e Nós da esquerda, a nível do discurso, costumamos nos dar razão humanistas, inclusive (ou principalmente) no Brasil atual. Posso a- muito facilmente. Também temos argumentos tanto fortes, quanto menizar esta qualificação e dizer forças “inconscientemente laten- prontos: “Fulano é fascista!” ou “O importante é o social.” Na minha tes”, se isto fizer a nós mesmos enfrentarmos o nosso provincianis- caminhada como estudante de humanas (lá se vão 16 anos), a- mo esquerdista de maneira mais honesta. prendi a fazer uns exercícios que servem pra dosar essa força e a Uma dessas forças inconscientes é a ideia de que a organicidade fazer circular. Acredito que isso seja pensar: controlar as intensida- social é um fato indiscutível e que deveria ser percebido para se des das palavras e levar a sério o princípio de não ter dogmas ou construir melhores formas de coletividade, sendo um defeito não a ser autoritário. Ou seja: saber onde se quer chegar, mas sempre perceber. Briga-se pelo fortalecimento da ideia de que somos um fazer o pensamento estar em movimento. Quem se beneficiará dis- único corpo, de que nossos gestos interferem na ordem de um todo so é a ação. e que, por isso, devemos ser responsáveis por eles. Isto, porém, é Diante das duas afirmações citadas, estes exercícios de que falo um artifício argumentativo, não uma realidade. levam a perguntas do tipo: o fascista é aquele que não reconhece o A possibilidade que muitas vezes não queremos ver é a de que es- outro, mas, e eu, devo reconhecer o fascista? A pergunta pode pa- te “todo” é uma soma artificial de múltiplas forças dissonantes, dife- recer retórica, mas não a vejo assim. O que faço com a representa- rentes, instáveis, ora recolhidas (não-presentes), neutras, etc. For- ção interior e com o embate diante de alguém que não aceita o diá- ças estas que, em boa parte dos momentos, não querem se rela- logo? Eu quero dialogar com ela ou a quero calar? cionar umas com as outras e devem poder não querer. Caso con- Ou então: a reiteração da maior importância do social não termina trário, não quererão. O tamanho das cidades e das formas de orga- por criar um interdito na abordagem dos exercícios da criação da nização é pra lá de imenso, tornando impossível sustentar ideias de subjetividade enquanto tarefa individual? É possível criar revolução corpo social uniforme. sem que cada um dos combatentes seja sujeito? No limite, pode- Também pressupomos constantemente, com a ideia de justiça uni- mos pensar que se se imagina criar um coletivo cujos integrantes versal tradicional, que o amor é melhor do que o desamor. Isto po- não têm conhecimento da própria individualidade (ou subjetividade) de ser visto também como nociva mistificação. No lugar de amor talvez o projetado seja algo impossível ou mesmo catastrófico. podem estar infinitas coisas. Dentro desta lógica, porém, um sujeito Quem é essa pessoa que diz: “Pertenço a este conjunto?” que recusa uma oferta positiva de comunicação e mostra de solida- Para Freud (O mal-estar na civilização), a ideologia do amor univer- riedade, em situações tanto sociais quanto aleatórias ou burocráti- sal, bastante presente na origem do nosso humanismo e da nossa cas, é tachado de alienado. Podemos fazer a crítica de que um su- esquerda (que têm bases cristãs), está equivocada por duas ra- jeito, se for digno deste nome, deve sempre poder optar se quer zões. Em primeiro lugar, ao defender que a melhor atitude é a de expressar seus desejos, sua intimidade, ou não. Para serem cons- amar a todos por regra e sem esperar nada em troca, sou injusto cientemente políticos os sujeitos devem escolher. com o objeto (cada pessoa), pois não pergunto a ele se quer ser Na infinita diversidade de possibilidade de composição de subjetivi- amado. Tiro dele(a) o direito de escolha. dade, inclusive dentro do mesmo sujeito em momentos diferentes, Em segundo lugar, nem todos os seres humanos são dignos de a- pode-se encontrar ausência de entrega constante ao desempenho mor. Uma posição “naturalista”, que afirmasse o contrário deste ar- do papel de humanista. Também todas as formas de subjetivação gumento, estaria também justificando uma postura ideológica de podem ser como que cheias de vazios e espaços tensos que sim- piedade, que não quer assumir que cada ser humano pode come- plesmente no momento não podem ser preenchidos. ter erros catastróficos. (Veja-se nosso atual presidente, um ser his- O papel de solidariedade da esquerda brasileira tem origem cristã e tórico e não um homem inocente.) isto quer dizer tudo acima mais uma coisa fundamental: a arte, esta As objeções de Freud podem parecer frias e inviabilizadoras de um importantíssima forma de educação, fica em segundo plano em re- humanismo, mas defendo aqui que não se trata disso. Trata-se de lação a ações de redenção social ainda hoje no Brasil atual. fazer aqueles exercícios que mencionei no começo desta crônica e ver até onde levam. Desdobrando este argumento freudiano, pode- Diogo Araujo Cerrado está sendo devastado mais rápido cia. Ao contabilizarem o desmatamento do mesmo ano de 2009, o valor do que a Amazônia já estava na casa dos 10.000 km² de perdas anuais, próximo da marca pré-estabelecida para 2020, de 9.421 km². Números divulgados na última semana pelo Ministério do Meio Ambiente revelam um panorama desfavorável para o segundo maior bioma brasilei- Essa taxa de desmatamento equivale a cerca de 1% do bioma de cerrado ro. O cerrado tem atualmente níveis preocupantes de desmatamento – remanescente e é considerada alta por ambientalistas. 9.483 km² anuais. Isso equivale a uma perda de quase 0,5% do total ori- CAMPEÕES ginal do bioma ao ano. Os municípios que mais destruíram o bioma com a ocupação humana Para comparação, a Amazônia, entre 2014 e 2016, teve uma média de estão na região conhecida como Mapitoba (que contém envolve áreas do desmatamento de 6.400 km² ao ano. O bioma, porém, tem mais do que o Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia). dobro de área do cerrado, fazendo que o ritmo de desmatamento fique na O município com maior índice de antropismo (mudança do bioma por a- casa de 0,1% ao ano. ção humana) no triênio 2013-2015 é São Desidério (Bahia), com 337 km². Trocando em miúdos, o ritmo de destruição do cerrado é cinco vezes O pódio dos três mais é completado, nas sequência, por outros dois mu- mais rápido do que o da Amazônia. Os dados são do Programa de Con- nicípios Baianos –Jaborandi e Formosa do Rio Preto. trole e Prevenção do Desmatamento, do Ministério do Meio Ambiente. Completam a lista dos dez maiores desmatadores de cerrado Uruçuí (PI), Apesar dos números apresentados, a meta de redução do desmatamento Balsas (MA), Grajaú (MA), Baixa Grande do Ribeiro (PI), Cocos (BA), do cerrado foi cumprida. A ideia era reduzi-lo em 40% –baseado na mé- Correntina (BA) e Peixe (TO), nessa ordem. Esses dez municípios res- dia 15.700 km² de desmatamento anual do bioma entre 1994 e 2008. pondem por 89% do antropismo do período, segundo o Ministério do Mei- Segundo o Observatório do Clima, no entanto, a meta, calculada e pro- o Ambiente. posta em 2009, foi praticamente cumprida “por coincidência” na sequên- Da redação Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 4

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 4 A desigualdade no Brasil é uma forma de dominação econômica, social e cultural. bom capital cultural, pagando altas mensalidades em escolas ou universidade privadas de ponta. Ao realizar uma pesquisa nas escolas da França, Bourdieu observa que algumas crianças possuíam um melhor desempenho no ensino em virtude do contato precoce que tiveram com a cultura legítima no próprio ambiente familiar. Assim, mesmo uma escola pública, universal e gratuita era incapaz de diminuir as desigualdades esco- lares, pois os estudantes traziam de casa diferentes bagagens de capital cultural, que por sua vez, eram determinantes para o de- sempenho de cada aluno. Assim, crianças que tiveram contato com a dita cultura legítima – desde o vocabulário, gosto artístico, etc – se saiam melhores que os demais estudantes. Isso não se explica pelo fato de que a cultura dessas famílias era superior, mas sim porque a estrutura escolar, embora se apresente como neutra, va- loriza um tipo de cultura específico: a cultura da classe dominante e suas frações de classe. Deste modo, a depender da organização do sistema de ensino, a escola servirá para reproduzir as desigual- dades presentes na estrutura social, motivo pelo qual Bourdieu de- Pierre Bourdieu, sociólogo francês, demonstra como a concentra- nominou este livro de A reprodução. ção de diferentes tipos de capitais – econômico, social e cultural – Ao mesmo tempo que a educação pode servir para diminuir as depodem ser usados como forma de dominação de algumas classes sigualdades sociais e regionais, ela também pode servir para inten- sociais sobre outras. sificá-las, ao reproduzir as diferenças estruturais da sociedade e Estão enganados aqueles que acreditam que o Brasil não ocupa os aumentar a profundidade do abismo social que separa a educação primeiros lugares nas disputas com outras nações e é um país rele- para indivíduos de diferentes classes sociais. O atual governo paregado às posições inferiores quando o assunto é comparação inter- ce apostar nesta última funcionalidade da educação. Tais ideias nacional. É só olharmos para os índices de desigualdade social e trazem à mente uma música do Inquérito: “por que uns tem que briconcentração de renda para vermos o Brasil ali, no topo, disparado, lhar e outros tem que polir?” como um dos países mais desiguais do mundo, ocupando o primei- É óbvio que essa desigualdade educacional está entrelaçada com ro lugar quando tratamos da concentração de renda na fatia do 1% a desigualdade econômica, e que a última aprofunda a primeira. mais rico. Para quem deseja concentrar capital, pagar pouco tributo Em outras palavras: a desigual distribuição de riqueza aprofunda a sobre renda e propriedade, ou fazer dinheiro em cima de dinheiro falta de acesso à educação de qualidade, e a escassez da educa- (juros), o Brasil parece uma ótima opção. ção de qualidade intensifica, ainda mais, a desigualdade econômi- Mas será que o abismo social que encontramos por aqui se restrin- ca. A relação aqui não é unilateral, mas dialética. ge ao aspecto econômico? A desigualdade é uma mazela que atin- No Brasil, as desigualdades de acesso à educação e cultura comege apenas a distribuição de dinheiro, ou também podemos falar em çam pelo estado em que o indivíduo nasce: se você gosta muito de desigualdade educacional? Existe algo como desigualdade de a- ir ao cinema, teria dificuldade para praticar esse gosto caso more cesso às políticas públicas? Desigual acesso ao transporte, ao sa- no Acre, considerando que há apenas 5 salas de cinema no estado neamento básico, às políticas habitacionais? Bom, se você leitor, inteiro. Embora em São Paulo tenhamos a maior quantidade, em não mora no centro das capitais brasileiras, acredito que a última nível nacional, de salas de cinema por habitante, uma pergunta a- pergunta será um tanto retórica. perta meus botões: quem são os frequentadores dessas salas? O É evidente que o dinheiro – enquanto representação da riqueza – plano de passar a tarde em uma biblioteca pública também pode pode intensificar ou amenizar as demais desigualdades. Entretanto, ser dificultado se você estiver em Roraima, considerando que há algumas especificidades podem ser apontadas sobre o tema da de- apenas 16 bibliotecas em todo o estado. sigualdade. Para afunilar nossa discussão em termos de educação, Se você está entre os 75% dos alunos que frequentam a escola podemos prosseguir com as seguintes interrogações: existe ape- pública no Brasil – a maioria da população brasileira-, o município nas capital econômico, ou é possível falarmos em algo como capi- que você nascer terá grande influência na qualidade da educação tal cultural? Será que apenas o capital econômico pode ser acumu- que terá, considerando a disparidade de distribuição de recursos lado, concentrado e, principalmente, herdado? entre os municípios no país. Para citar um exemplo, em Minas Ge- Pierre Bourdieu, sociólogo francês, demonstra como a concentra- rais, enquanto a cidade de Douradoquara recebe 17,7 mil reais em ção de diferentes tipos de capitais – econômico, social e cultural – investimento de aluno/ano, em São João da Ponte esse valor cai podem ser usados como forma de dominação de algumas classes para 3,5 mil reais. sociais sobre outras. Os indivíduos utilizam o acúmulo desses capi- Embora a solução de alguns problemas demande o esforço contítais como forma de dominação de outros indivíduos. Não é só o di- nuo de gerações, podemos destacar medidas atuais e urgentes nheiro que pode ser acumulado, monopolizado ou transmitido, mas que devem ser tomadas (ou negligenciadas) ainda esse ano. Meditambém a cultura e a educação, ou nos termos de Bourdieu, o capi- das que garantam que a educação de qualidade – com infraestrutu- tal cultural. Esse capital é utilizado pelas classes altas, por vezes, ra escolar, professores bem remunerados e material didático de como forma de se distinguir dos demais assalariados, daí o nome ponta – não seja apenas um privilégio dos que podem pagar altas de um dos principais livros do sociólogo: A distinção: crítica social mensalidades, mas um direito público de todo indivíduo. Isso passa do julgamento. pelo fortalecimento de um local frequentado durante muitos anos É interessante observarmos que esses capitais podem ser conver- por ¾ dos alunos no país: a escola pública. tidos entre si. Uma pessoa pode utilizar o seu capital cultural – por exemplo, diploma – para obter mais capital econômico. Do mesmo modo, é possível utilizar o capital econômico para ter acesso a um Matheus Silveira de Souza A pobreza existe em todos os países, pobres ou ricos, mas a desigualdade social é um fenômeno que ocorre principalmente em países não desenvolvidos. ... No Brasil, a desigualdade social tem sido um cartão de visita para o mundo, pois é um dos países mais desiguais. Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 5

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 5 Olhares... Sobre olhares, sobre pontos de vista, sobre novos olhares... Impressionante como não conseguimos às vezes ser empáticos. Eu diria que é uma qualidade que poucas pessoas possuem. Como conseguimos achar que aquilo que aconteceu conosco é sempre pior, e o que aconteceu com o outro não foi tão ruim assim. Pessoas sofrem com coisas que acontecem e muitas vezes o que se ouve é: isso não foi “nada”, “já passou”,“ esquece”, como se aquela dor não fosse real , como se bastasse dizer – Agora passou, já foi- . Infelizmente não é assim que as coisas acontecem, nem é assim que funcionam. Somos pessoas, seres humanos providos de sentimentos, eu até poderia dizer que alguns parecem não possuírem sentimentos, mas na verdade o próprio desprezo pela dor do outro, o fato de achar que seus problemas são mais relevantes e que sua dor é maior, já demonstra sentimentos: A falta de amor e a falta de alteridade. A tolerância faz parte desse processo de nos colocarmos no lugar do outro. O perdão também. Perdoar não é algo simples, requer vontade e tem que vir do coração. Não basta querer, tem que surgir, e não devemos resistir, com certeza nos liberta de muitos sofrimentos. Sofrimentos que muitas vezes são causados por nós, pela maneira como encaramos alguns problemas. Conseguimos perceber melhor o que nos acontece quando dividimos o que nos atormenta com outras pessoas. São outros olhares sobre o mesmo problema, que nos fazem refletir sobre a maneira como estamos enfrentando aquela situação. Claro que sempre vão surgir pessoas menosprezando o que estamos sentindo, mas outras trarão respostas. Pontos de vista! Verdades absolutas são perigosas, nada nunca é tão definitivo assim. Não podemos é desmerecer o que o outro pensa, nem querer impor nossa opinião. Se não concordo, posso argumentar, mas não posso achar que a minha verdade é absoluta. O menosprezo do outro pelo que sentimos nos causa dor, as vezes raiva e indignação, é aí que temos que praticar a tolerância e entender que ele não está errado só porque não sente e nem vê o que eu vejo e sinto. Somos diferentes e essa diversidade nos faz ter pontos de vista diferentes. Cada um passou por experiências e aprendizados únicos, o que fatalmente nos leva a pensar de maneira única. Nossas experiências nos fazem ter atitudes, opiniões e pensamentos de acordo com nossas vivências, com nossa educação, com a cultura em que estamos inseridos. Nossa capacidade de perceber e compreender o outro tem a ver com a bagagem que trazemos conosco. Podemos fazer desses embates algo bom e proveitoso, mesmo quando o que o outro me diz se distancia completamente do que penso e acredito. Tenho aí uma oportunidade de crescimento e aprendizado, Não é fácil ficar quieto diante daquilo que contraria totalmente o que pensamos, mas entrar numa discussão que pode levar não só muito tempo, como também uma amizade embora, não me parece saudável. O ideal seria fazer da diversidade de pensamentos uma oportunidade para crescer. Isso não quer dizer que tenho que engolir tudo quieta. É saudável a discussão. Pontos de vista diferentes nos ajudam a evoluir e a fazer as coisas de uma maneira diferente. O ponto de vista que não considero saudável é aquele que menospreza a dor do outro., que não respeita a opinião alheia. Só quem passa por algo muito difícil e dolorido sabe o que está sentindo. Quem defende suas ideias com “unhas e dentes” sabe no que acredita. Fato é que novos olhares podem nos levar a novos caminhos, novas soluções, mas nada disso fará sentido se eu não praticar a empatia. Isso é o que nos torna humanos, isso é o que faz a diferença. Como dizia o nosso querido poeta Mario Quintana, O TEMPO É UM PONTO DE VISTA. VELHO É QUEM É UM DIA MAIS VELHO QUE A GENTE... Mariene Hildebrando Professora e especialista em Direitos Humanos Email: marihfreitas@hotmail.com A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida. Fernando Pessoa MAIS... O valor fundamental da vida depende da percepção e do poder de contemplação ao invés da mera sobrevivência. Aristóteles Frases sobre o Tempo O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incompa- ráveis. Maria Julia Paes de Silva ... Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver. Dalai Lama ... Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazêla, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. Fernando Teixeira de Andrade ... A saudade é o que faz as coisas pararem no Tempo. Mario Quintana ... Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado consegue estar certo duas vezes por dia. Paulo Coelho ... Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes. Carlos Drummond de Andrade ... Se me esqueceres, só uma coisa, esqueceme bem devagarinho. Mario Quintana ... O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente... Mario Quintana ... O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenha- mos, nisso, um dia a menos nela. Fernando Pessoa ... O maior erro que você pode cometer é o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum. Elbert Hubbard Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 6

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 6 Após abolição, negro foi excluído do mercado de trabalho. minava que as profissões de cocheiros, aguadeiros [que carrega- Entre 1912 e 1920, a po- vam baldes d’água], caixeiros viajantes e guarda-livros [contadores] pulação negra da cidade não poderiam ser exercidas por escravos”, explica. de São Paulo perdeu O segundo motivo é que muitos escravos libertos, antes da aboli- postos de trabalho, foi ção, se dedicavam à pecuária e à agricultura familiar de subsistên- prejudicada por leis mu- cia em lotes de terra pela cidade. Porém, o poder público determi- nicipais que de forma ex- nou que esses lotes deveriam ser concedidos aos chamados plicita ou não a proibiam “homens bons”, ou seja: brancos, cristãos e pais de família. Os ne- de exercer certas profis- gros – todos excluídos desse critério – foram obrigados a abando- sões, além de ter sido nar as terras e a se mudar para outras regiões: as mais remotas da retirada de terras onde desenvolvia a agricultura de subsistência. cidade. “Esses fatores podem ser considerados indícios de que houve uma O terceiro motivo é que uma série de leis gerais acabaram por mar- construção ideológica gestada pelas elites que visava a exclusão ginalizar os negros. A Lei de Terras, de 1850, determinava que a do negro da sociedade brasileira”, aponta o pesquisador Ramatis posse da terra seria feita mediante a compra. No Império, as terras Jacino, professor do ensino médio, em sua tese de doutorado pela eram divididas por meio de sesmarias e muitos posseiros eram Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da brancos pobres, índios, caboclos e negros. Com a Lei de Terras, a USP. maioria teve dificuldade em comprar os lotes. Lei Municipal de 1886 proibia escravos do exercício de algumas profissões Segundo o pesquisador, muitos empregadores publicavam em jornais anúncios de oferta de emprego. Na maioria, explicitavam a ne- Jacino analisou cerca de 43 mil boletins de ocorrência emitidos na cessidade de o candidato ser branco e imigrante (italiano, alemão), cidade na segunda década após a abolição da escravatura, entre etc. “Em anúncios de grandes empresas da cidade, não encontrei 1912 e 1920. “Com o fim da escravidão, os únicos documentos ofi- um texto explícito sobre a cor do candidato. Entretanto, na compo- ciais que mencionavam a cor da pele e a profissão exercida eram sição do quadro de funcionários, a maioria era estrangeiro e havia os boletins de ocorrência da polícia”, explica. O pesquisador tam- pouquíssimos negros”, comenta. bém analisou anúncios de jornais da época e alguns processos cri- Mito fundador minais. Durante o Império (1822-1889), diz Jacino, o mito fundador do BraNo mestrado, que abordou o mesmo tema, a análise esteve focada sil era representado pela união de brancos, negros e índios na luta na população negra que vivenciou o período pré e pós abolição. contra os invasores holandeses, nas figuras de Antonio Felipe e Jacino pesquisou os anos de 1872 e 1890 (datas em que houve Clara Camarão (índios), Henrique Dias (negro) e Matias de Albu- recenseamento na cidade) e pode verificar quais profissões os ne- querque (português). gros exerciam na época. A maioria eram ligadas à baixa qualifica- ção e mal remuneradas: trabalhadores domésticos, criados, ama- Já na República, proclamada em 1889, esse mito foi alterado pelas secas, jornaleiros, carregadores, operários da construção civil, artí- elites e a formação do Brasil passou a ser associada à índia Bartira ficies, parteiras, etc, mas havia também alguns jornalistas, profes- e ao português João Ramalho. “É mais um indício de que a inten- sores e intelectuais. ção das elites era excluir a figura dos negros da história da funda- ção do país. O índio era considerado como o “bom selvagem”; já o Já no doutorado, sob a orientação da professora Vera Lúcio Amaral negro era o “mau selvagem” “, diz. Ferlini, da FFLCH, o foco foi a primeira geração de negros que nas- ceu após a abolição. O pesquisador comparou os dois períodos e Na transição do trabalho escravo para o assalariado, intelectuais da ficou surpreso ao perceber que, de 1912 a 1920, com a industriali- Faculdade de Direito de São Paulo, da Faculdade de Direito do Re- zação da cidade, os negros haviam perdido as ocupações que an- cife, da Escola de Medicina na Bahia e do Instituto Histórico e Geo- tes exerciam. Profissões de ama-seca, domésticas e criados come- gráfico Brasileiro (IHGB) foram construindo um discurso ideológico çaram a ser exercidas por imigrantes. Isso levou a um processo de que foi apropriado pelas oligarquias de que a população negra não marginalização da população negra. era adequada para o trabalho assalariado; que a miscigenação le- vava à doenças; e que os negros tinham problemas de caráter e Exclusão legalizada que sua idade mental era inferior a dos brancos. “A meu ver, esse Para o pesquisador, esse processo de exclusão ocorreu devido a discurso tinha a intenção de branquear a sociedade. Para as elites, três fatores. O primeiro foi a promulgação de uma série de leis que a sociedade moderna e capitalista que eles almejavam precisava proibia, de forma implícita ou explícita, que escravos exercessem ser branca”, finaliza. certas profissões. “Em 1886, por exemplo, uma lei municipal deter- Valéria Dias ESCRAVIDÃO MODERNA (22 para mil), a Mauritânia (21 para mil), o Sudão do Sul (20,5 para mil), o Cerca de 40,3 milhões de pessoas em todo o mundo foram submetidas a Paquistão (17 para mil), o Camboja (17 para mil) e o Irã (16 para mil). atividades análogas à escravidão em 2016, segundo um relatório Índice O Brasil registrou uma taxa de apenas 1,8 pessoas em condição de es- Global de Escravidão 2018, publicado pela fundação Walk Free e apre- cravidão moderna para cada mil habitantes. Por outro lado, em números sentado na ONU nesta quinta-feira (19). No Brasil, são quase 370 mil absolutos, o Brasil detém a segunda maior quantidade de pessoas em pessoas. regime escravocrata na América do Sul, com 369 mil habitantes. Os EUA No contexto do relatório, o conceito de escravidão moderna abrange um registraram 403 mil pessoas (1,3 para mil). conjunto de conceitos jurídicos específicos, incluindo trabalho forçado, No total, a organização estimou que quase 2 milhões de pessoas em toda servidão por dívida, casamento forçado, tráfico de seres humanos, escra- a América estavam em 2016 em situação de escravidão – dois terços for- vidão e práticas semelhantes à escravidão. çados a trabalhar. O número absoluto representa apenas 5% da estimati- De acordo com o documento, 71% das vítimas são mulheres, enquanto va global. 29% são homens. Das 40,3 milhões de pessoas afetadas, 15,4 milhões No número absoluto de pessoas consideradas em regimes de escravidão estavam em casamentos forçados, enquanto 24,9 milhões se encontra- moderna, Índia (7,99 milhões de indivíduos estimados), China (3,86 mi- vam em condições de trabalho escravo. A Ásia representa 62% da esti- lhões), Paquistão (3,19 milhões), Coreia do Norte (2,64 milhões), Nigéria mativa global de pessoas em regime de escravidão. (1,39 milhões), Irã (1,29 milhões), Indonésia (1,22 milhões) e República Completam o ranking dos países com maior percentual de escravidão Democrática do Congo (1,05 milhões) são os oito países acima de um moderna em relação à própria população a Eritreia (93 para mil), o Burun- milhão de "escravos". di (40 para mil), a República Central Africana (22 para mil), o Afeganistão Fonte: G1 Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 7

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 7 Pontos de Vista Nada é eterno! Devemos nos preparar para enfrentar o fim porque nem sempre o casamento será para sempre, a escolha de sua profissão nem sempre te levará ao sucesso, uma amizade de anos pode ser abalada e que nem tudo deveria ser, poderia ter sido mudado. Isso pode resultar em frustrações e cicatrizes, porém se conseguir ver isso como aprendizado, haverá como se reerguer e retomar novas buscas em prol da felicidade. Assim como o sol se põe, a tempestade passa... Quantas pessoas tentam te afastar dos teus objetivos? Provavelmente muitas e, se gastar seu tempo com elas, perderá seu rumo pela provocação de quem tenta minar sua autoconfiança e, quanto mais atenção der a isso, estará alimentando quem quer tirar sua positividade. Às vezes, mesmo quando se tenta ajudar alguém não se é apreciado, pois há quem acredita ter respostas para tudo e assim, apenas perde-se tempo e energia. Dessa forma, no mínimo aprende-se que conviver é uma arte e deixar de conviver também, não ter medo de ser criticado é melhor que ser sacrificado pelo medo de não ser aprovado. Ao afastar-se daqueles quem criam conflitos é tirar uma pedra do caminho e a vida fluirá bem mais leve, pois pessoas desagradáveis vivem testando a paciência dos outros, no entanto, pode-se aprender a exercitar a calma e tolerância, se estiver a fim disso, é claro! Neutralizar gente mal resolvida te faz seguir e, ninguém é obrigado a concordar com o outro embora isso, não impede de serem amigos por ser verdadeiro e assertivo. Respeitar o outro não significa manter relacionamentos hipócritas, mas, afastar-se delas também é uma maneira de se respeitar e a respeitar. Melhor que fingir é refletir e fazer uma autoanálise que te levará a novos desafios e entender suas verdadeiras razões. Nada é eterno, tudo tem sua finita existência, mesmo que alguém lhe machucar não é bom deixar sempre “a porta aberta” para quem te decepcionou. Pode-se superar o mal feito e se reconstruir e, mesmo que o machucado fique sem doer, não poderá mais entrar a hora que quiser. Não podemos “abrir a mente” dos outros e nem elas a de ninguém o que não lhe dá o direito de fazer julgamentos, cada um é livre para viver como desejar mesmo que seja incompreensível aos seus olhos. As pessoas não querem receitas de como viver, apenas disposição de ser olhado pelo outro, ser entendido e acima de tudo respeitado e, talvez, o segredo seja não odiar ninguém, mas, também não amar qualquer um. A vida já te policia a cada ato e cada palavra dita ou escrita e, sempre haverá quem fique aguardando seu deslize para te desequilibrar e te fazer gritar e usar seu próprio grito para se defender. Afinal, dificilmente se represa no peito o que não cabe dentro dele próprio e, dessa forma fica cada vez mais inviável construir relacionamentos verdadeiros. Nada irá melhorar ao apontar o dedo para o outro e sim transformar isso em um acolhedor abraço, conversar sem revidar, principalmente quando alguém só quer disseminar a discórdia. Quando o erro não é seu, apenas relaxe e não deixe a opinião do outro incomodar seu interior, não deixe o “barulho” da opinião alheia impedir sua coragem de prosseguir o que é mais importante que qualquer dogma. Evitar ir contra seus melhores pontos de vista é melhor que dar ouvidos ao que para você não parece certo. Sua intuição, criatividade devem ser valorizadas e o que te soa importante e verdadeiro é o que valerá para não deixar de ter sua própria opinião. Isso não te impedirá de crescer, poderá ouvir outras opiniões mas, preste sempre mais atenção no que é mais importante para você. BYE, BYE, BRASIL. A DESCONSTRUÇÃO DE UMA NAÇÃO SOBERANA Marcos de Oliveira, Diretor de Redação do Monitor Mercantil, escreveu em sua coluna Fatos e Comen- tários, no dia 16 de julho de 2019: “Muitas vezes, os atos de desconstrução do Brasil que vêm sendo praticados nos últimos anos são criticados de forma isolada. Perde-se o “grande quadro”, tão valorizado pelos norte-americanos. Estes atentados recentes ao país não vêm só do Governo Bolsonaro; eles marcaram o Governo Temer e começaram antes dele, no autogolpe de Dilma Rousseff, ao terceirizar a condução da política econômica. Vamos a alguns deles: – Redução de verbas para universidades – Cortes na pesquisa – Mutilação do Mais Médicos – Fim da produção, por laboratórios nacionais, de medicamentos de uso contínuo – Acordo com a União Europeia – Desmonte das empresas nacionais capazes de competir no exterior – Redução da importância da Petrobras – Entrega do pré-sal – Fim do Fundo Soberano (o da Noruega, grande produtor de petróleo, como o Brasil, tem mais de US$ 1 trilhão) – Ataques aos direitos trabalhistas – Cortes nas verbas dos sindicatos (inclusive patronais, mantendo fortes apenas as federações que recebem recursos compulsórios via Sistema S) – Independência do Banco Central – Demolição do BNDES e demais bancos públicos – E os mais óbvios: reformas da Previdência e Tributária, ampliando a desigualdade social Vistos em conjunto, tem-se o quadro de um projeto destinado a tirar do Brasil qualquer capacidade de se desenvolver e exercer uma posição soberana no mundo”. Só faltou dizer que por trás de tudo isso estão também a banca, o capital financeiro internacional, em sua trajetória para a dominação da aldeia global, e os agentes estrangeiros no judiciário e no legislativo que propõe a entrega das receitas tributárias, sob o manto do sistema de securitização da dívida pública, projeto de lei complementar 459/17, de autoria do senador José Serra, várias vezes denunciado e detalhadamente explicado pela Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã, auditora fiscal Maria Lucia Fattorelli. Pedro Augusto Pinho Avô, administrador aposentado Deixar de confiar na sua verdade por medo de ir contra a opinião alheia, pode ser metade da sua tristeza e a felicidade do outro. Seja dono de seu destino e faça suas próprias escolhas. Conselhos são bemvindos, mas não precisa seguir o que te falam porque a decisão final deve ser sua! Genha Auga Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 8

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 8 Descolonizar o saber das forças de direita para se promiscuírem em amálgamas ideológi- cas na mesma cama do poder. e o poder A continuidade da dominação segrega um senso comum capitalis- ta, racista e sexista que serve as forças de direita, até porque é re- O drama do nosso tempo é domina- produzido incessantemente por grande parte da opinião publicada ção articulada e resistência frag- e pelas redes sociais. Porque age na corrente, a direita pode dar-se mentada. Muitas vezes, os movimentos anticapitalistas, feministas ao luxo de ser indolente e transmitir a ideia de “estar ao corrente” e, e antirracistas têm combatido uma destas formas de opressão – e quando tal não funciona, aciona a sua asa de extrema direita (tão fechado os olhos às outras. presa ao seu tronco quanto a asa de direita moderada) para drama- Os conflitos sociais têm ritmos e intensidades que variam consoan- tizar o discurso e provocar novas divisões nas esquerdas, sobretu- te as conjunturas. Muitas vezes acirram-se para atingir objetivos do se estas ocupam o poder de governo e estamos em período pré que permanecem ocultos ou implícitos nos debates que suscitam. -eleitoral e a ausência de alternativas credíveis salta aos olhos. Pe- Num período pré-eleitoral em que as opções políticas sejam de es- lo contrário, as forças de esquerda estão sempre à beira do abismo pectro limitado, os conflitos estruturais são o modo de dramatizar o da fragmentação por terem sido treinadas no mundo eurocêntrico indramatizável. para desconhecer ou descartar as articulações entre os três modos de dominação. As dificuldades são ainda maiores por terem de agir Os conflitos estruturais do nosso tempo decorrem da articulação contra a corrente do senso comum reacionário. desigual e combinada dos três modos principais de desigualdade estrutural nas sociedades modernas. São eles, capitalismo, coloni- Identifico duas tarefas urgentes para superar tais dificuldades. A alismo e patriarcado, ou mais precisamente, hetero-patriarcado. Es- primeira é de curto prazo e tem um nome: pragmatismo. Se a a- ta caracterização surpreenderá aqueles que pensam que o colonia- gressividade do pensamento reacionário, explicitamente racista e lismo é coisa de passado, tendo terminado com os processos de encobertamente hiper-capitalista e patriarcal, é a que se observa e independência. Realmente, o que terminou foi uma forma específi- ocorre num país cujos cidadãos ainda há cinquenta anos eram víti- ca de colonialismo — o colonialismo histórico com ocupação territo- mas de racismo por toda a Europa dita desenvolvida e antes disso rial estrangeira. Mas o colonialismo continuou até aos nossos dias tinham sido ostracizados como brancos escuros — ou portygyes no sob muitas outras formas, entre elas, o neocolonialismo, as guerras Caribe, Havaí e EUA – se tudo isto ocorre num país cujo poder de imperiais, o racismo, a xenofobia, a islamofobia, etc. Todas estas governo é ocupado por forças de esquerda, é fácil imaginar o que formas têm em comum implicarem a degradação humana de quem será quando voltarmos (se voltarmos) a ser governados pela direi- é vítima da dominação colonial. A diferença principal entre os três ta. O entendimento entre as forças de esquerda tem contra si for- modos de dominação é que, enquanto o capitalismo pressupõe a ças imensas, nacionais e internacionais: capitalismo financeiro glo- igualdade abstrata de todos os seres humanos, o colonialismo e o bal, privatarias público-privadas, Comissão Europeia, Embaixadas patriarcado pressupõem que as vítimas deles são seres sem plena norte-americana e de muitos países europeus, agências da socie- dignidade humana, seres sub-humanos. Estes três modos de domi- dade civil supostamente promotoras da democracia, Igrejas conser- nação têm atuado sempre de modo articulado ao longo dos últimos vadoras, a razão indolente da direita infiltrada há muito no PS por- cinco séculos e as variações são tão significativas quanto a perma- tuguês contra a militância corajosa do último Mário Soares, a razão nência subjacente. indolente do sectarismo de pequenos grupos de esquerda radical que têm sempre os dois pés no mesmo sítio para acreditarem que A razão fundante da articulação é que o trabalho livre entre seres são firmes em vez de estáticos. Mas o que está em jogo é muito e humanos iguais, pressuposto pelo capitalismo, não pode garantir a o pragmatismo impõe-se. Quando a direita começa a defender sobrevivência deste sem a existência paralela de trabalho análogo transportes públicos e saúde pública, a esquerda no governo deve ao trabalho escravo, trabalho socialmente desvalorizado e mesmo lembrar-se do que está a esquecer. A resposta à extrema-direita não pago. Para serem socialmente aceitáveis, estes tipos de traba- racista tem de ser tanto política como jurídica e judicial. Defendo há lho têm de ser socialmente vistos como sendo produzidos por seres muito que as lutas jurídicas contra o senso comum reacionário só humanos desqualificados. Essa desqualificação é fornecida pelo devem ocorrer depois de tais lutas terem adquirido forte densidade colonialismo e patriarcado. Esta articulação faz com que as pesso- política. É, pois, imprudente determinar em abstrato a validade da as que acham desejável a desigualdade social do capitalismo ten- via jurídico-judicial ou da via política. dam a desejar também a continuação do colonialismo e do patriar- cado, e sejam, por isso, racistas e sexistas, mesmo que jurem não A segunda tarefa é de longo prazo e consiste em descolonizar o sê-lo. Esta é a verdadeira natureza dos grupos políticos de direita e saber científico e popular e o poder, tanto social como cultural e po- de extrema direita. Se, numa dada conjuntura, as preferências ra- lítico. Esta tarefa é particularmente difícil em Portugal por duas ra- cistas e sexistas vêm à tona, é quase sempre para expressarem a zões. Em primeiro lugar, a última fase da descolonização do coloni- oposição ao governo do dia, sobretudo quando este é menos pró- alismo português ocorreu há muito pouco tempo (1961-1975). As capitalista que o desejado por tais grupos. feridas coloniais estão ainda tão abertas e fundas que, tal como as crateras produzidas pela mineração a céu aberto, parecem parte O drama do nosso tempo é que, enquanto os três modos de domi- integrante da paisagem. O longo ciclo colonial está inscrito na car- nação moderna atuam articuladamente, a resistência contra eles é ne do país até ao mais íntimo tutano. Um país com tanta falsa es- fragmentada. Muitos movimentos anticapitalistas têm sido muitas perança histórica sente-se agora dominado por tanto falso medo de vezes racistas e sexistas, movimentos anti-racistas têm sido fre- ser menos europeu que a Europa desenvolvida que sempre recolo- quentemente pró-capitalistas e sexistas e movimentos feministas nizou o colonialismo português para maior benefício dela. Por sua têm sido muitas vezes pró-capitalistas e racistas. Enquanto a domi- vez, os países que nasceram da luta anticolonial contra Portugal nação agir articuladamente e a resistência a ela agir fragmentada- tiveram o privilégio de sofrer o menor ônus neocolonial. Todos sem mente, dificilmente deixaremos de viver em sociedades capitalistas, exceção se afirmaram orgulhosamente socialistas e não apenas colonialistas e homofóbicas-patriarcais. Talvez, por isso, e como se independentes. Foram, porém, rapidamente postos na ordem pelo tem visto ultimamente, aos jovens de muitos países seja hoje mais capitalismo financeiro global. Sucederam-se lideranças que querem fácil imaginar o fim do mundo (pelo agravamento da crise ambien- esquecer a violência e rapina colonialistas para melhor ocultarem a tal) do que o fim do capitalismo. A assimetria entre a dominação violência e a rapina que elas próprias vão exercendo contra as su- articulada e a resistência fragmentada é a razão última da tendên- as populações. cia das forças de esquerda para se dividirem em guetos sectários e CONTINUA NA PÁGINA SEGUINTE Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 9

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 9 A prova de fogo incólume sobre a fogueira, armada e preparada para que os dois entrassem nela ao mesmo tempo com igual intensidade de fogo. O representante de Savonarola veio com um hábito (veste religiosa) velho. Os franciscanos não aceitaram. Poderia ser um hábito encantado e à prova de fogo, que expressaria a santidade do hábito e não do frade. Enfim, os dois de hábitos novos: o dominicano de branco e o franciscano com o marron. Aí o dominicano agarrou-se a um crucifixo para cruzar o fogo. Os franciscanos também não aceitaram. Teria que ser sem nenhum objeto que pudesse dar qualquer proteção. O dominicano, por fim, quis entrar no fogo segurando o Santíssimo Sacramento, a hóstia consagrada. Longo debate teológico se estabeleceu e os franciscanos também vetaram o uso da eucaristia, símbolo divino, que não poderia ser usado numa querela entre vis mortais. Assim o dia foi passando entre uma desculpa e outra e nada dos Algum tempo atrás o renomado cientista brasileiro Rogério Cézar dois se jogarem ao fogo. Por fim, o franciscano escafedeu-se e su- Cerqueira Leite, em artigo na Folha de São Paulo (Desvendando miu da cidade. O povo ficou frustrado e revoltado, mas exigiu do Moro, 11/10/2016), escreveu comparando o moralismo punitivista dominicano que fosse sozinho ao fogo e provasse a santidade de de Moro com o de outro personagem da história universal, o frade Savonarola. dominicano Jerônimo Savonarola, também moralista e fanatizado por sua ideia própria de mudar os costumes de Florença e de fazer justiça, no final do século XV, segundo suas próprias convicções Enquanto este arrumava abateu-se sobre a cidade. novas desculpas, um enorme temporal pessoais. A massa popular considerou aquilo um castigo divino e a culpa re- O artigo do professor Cerqueira Leite teve enorme repercussão e caiu sobre Savonarola. Pouco a pouco sua força moral foi esvane- levou o então juiz Sérgio Fernando Moro a questionar a Folha co- cendo até que foi condenado pelo Papa e entregue à justiça da ci- mo permitira publicação de tal tipo de artigo, classificado pelo ma- dade. Tropas cercaram o convento exigindo que Savonarola se en- gistrado como difamatório. tregasse. Ele e mais dois frades, fiéis a ele, foram presos, tortura- Pois bem, a analogia proposta pelo professor Cerqueira Leite ainda rende. Savonarola se colocava como a voz do próprio Deus, acima dos e condenados à morte. O moralista punitivista acabou vítima de seu próprio método. O que fez com tantos, fizeram com ele. do bem e do mal. Nada o alcançava, e cercado de um grupo sectá- Sérgio Moro está em sua Prova de Fogo, desafiado à conta gotas rio que o seguia, quando chegou ao poder máximo em Florença, pelas revelações de Greenwald. Passará pela prova de fogo? pontificava e punia. Caso não passe, espera-se que os avanços civilizatórios ocorridos Quando Florença foi invadida pela França, Savonarola colocou-se entre os séculos XV e o XXI, que não se aplicaram aos persegui- ao lado do rei da França. dos, se apliquem ao perseguidor – seja julgado por um juiz natural, Quando o rei francês se foi, restou desemprego, miséria e a economia de Florença quebrada. As cidades vizinhas e o Papado em Roma, desafiados pelo poderoso frade, cortaram negócios com Florença e com seus comerciantes. O povo começou sentir na pele as consequências e a colocar em Savonarola as culpas das desgraças, da fome, das falências, do desemprego e a cobrar soluções. isento e transparente com presunção de inocência; com amplo direito à defesa, com paridade de armas entre defensor e acusador e sem jogo combinado entre juiz e acusação; sem prisão arbitrária como tortura psicológica para arrancar confissões forjadas e sem celeridade artificial; não seja preso antes de trânsito em julgado e possa recorrer até última instância; sem condução coercitiva e sem vazamentos de conteúdos cobertos pelo sigilo judicial; que não se- Dizia-se ele, porém, profeta com mensagens diretas de Deus e daí ja condenado sem provas e possa usufruir de habeas corpus se viria sua autoridade e por isto fazia suas próprias leis. Desafiava concedido; possa conceder entrevistas e possa recorrer em liberdaem seus sermões que, se assim não fosse, que Deus o fulminasse. de – enfim, que não padeça o Sérgio Fernando do que padeceu o Apareceu então um frade franciscano, frei Francisco de Puglia, que Jerônimo e padeceram e padecem os hoje perseguidos pelo inquidesafiou Savonarola a uma Prova de Fogo, as famosas “ordálias”, sidor de Curitiba. populares na época medieval. Ambos atravessariam uma fogueira, Há outro vivendo uma provação duríssima, jogado por ele, em sua especialmente preparada, e se Savonarola fosse mesmo represen- fúria moralista perseguidora, numa masmorra solitária há mais de tante direto de Deus, as chamas não lhe causariam qualquer dano. ano, condenado sem provas. Pelo visto, sem desconhecer a dor e O franciscano dizia saber que morreria assado nas chamas, mas o sofrimento do cárcere, este está se saindo bem melhor e com que desmascararia a falsa aura de santidade do moralista. mais dignidade e altivez que o Savonarola do Brasil do século XXI. Savonarola amarelou. Não topou a prova. Disse que isto seria colo- Para este, mais fácil buscar analogias em Ghandi e Mandela. car Deus à prova e que jamais o faria. Cada qual com o espelho que merece. Mas um confrade seu, do mesmo convento, topou a ordália em seu nome. Frei Sérgio Antônio Görgen ofm Marcaram o dia e a praça da cidade lotou para ver quem passaria Frei Franciscano, autor de “Em Prece com os Evangelhos”. CONTINUAÇÃO DA PÁGINA ANTERIOR de pacificação e certamente cometeram as atrocidades correspon- Descolonizar o saber e o poder dentes, são também os heróis de que muito nos orgulhamos por terem aberto o caminho às independências sem peias neocoloniais A segunda decorre do fato de os processos de independência te- e pela democracia que nos devolveram em Portugal. Passará ainda rem ocorrido como uma dupla revolução: nas então colónias, a re- algum tempo para que as feridas se exponham, e assim possam volução da independência, e em Portugal, a revolução da democra- ser eficazmente curadas. cia do 25 de Abril de 1974. Os mesmos militares que sustentaram o regime colonial no seu último período, participaram na guerra dita Boaventura de Sousa Santos Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 10

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 10 Fada Vampiro PAI! Era uma vez, um reino num lugar bem distante e perto da aldeia de uma cidade pequena chamada “Viraluz”. Os habitantes desse povoado adoravam participar das festas do reinado e contribuíam para o progresso da aldeia e do rei que ali vivia com sua única filha, uma linda moça cobiçada pelos rapazes e bem cuidada pelo pai. PAI CONSTRÓI O ALICERCE DA VIDA DOS FILHOS. No entanto, surgiu uma “fadinha vampira” – com vestimenta e aparência de fada, porém, os dentes eram iguais a de um vampiro e que rondava por lá aterrorizando a todos e, por conta do medo que se instalou no lugar, ninguém mais visitava o castelo onde todos viviam muito felizes e, assim, já não idolatravam esse reinado e exigiam que o rei tomasse providências ou se afastariam dali e deixariam de produzir e movimentar a economia da aldeia e abandonariam definitivamente o lugar. SERENAMENTE OS GUIA PELAS MÃOS PARA QUE NÃO FUJAM DO BOM CAMINHO. ATENTO SABE PUNIR SEM AGREDIR, FIRME NO OLHAR E GRANDE NA COMPREEN- SÃO. PAI TEM OLHOS DE RESPONSABILIDADE Desesperado o rei resolveu agir e, teve a ideia de prometer a sua bela filha a princesa, formosa e rica em casamento, a quem capturasse a “fada vampiresca”. Eis que após o anúncio dessa proposta, dois rapazes que eram rejeitados pelas moças da aldeia por serem grosseiros e bastardos se apresentaram e se ofereceram para capturar a fada. Ficaram dias à espreita na espera do aparecimento da fada, que já sabendo dos planos para sua captura, transformou-se em um soldado valente empunhando uma espada mágica e seguiu à procura dos dois irmãos. FAZ DOS FILHOS ORGULHO DA SOCIEDADE, EXEMPLO NO TRABALHO, NÃO FALHA, NÃO SE DESOBRIGA DA MISSÃO. LUTA PELOS QUE CONCEBEU, MANTÉM AQUECIDO O CORAÇÃO, PAI É PRESENÇA CONSTANTE, ABRAÇO APERTADO E AMIGO, OLHAR NUNCA DISTANTE, O mais moço passou o dia todo bebendo e na espera que seu irmão cumprisse o trato feito para apenas partilhar da recompensa e, como era bonito, acreditava que certamente a princesa não iria querer se casar com o irmão feio e desengonçado e dessa forma ganharia a causa sem nenhum trabalho. Eis que então surge a fada (disfarçada de soldado), oferecendo ao irmão mais velho a espada mágica que mataria a fada e em troca só queria que após o casamento ele o colocasse no castelo como soldado do rei. Feito o acordo e certo da vitória, lançou mão da espada e foi de encontro ao irmão que se encontrava caído de tão bêbado, aproveitou-se da fragilidade dele e o matou com a espada pensando em ficar como herói e com a princesa sem ter que compartilhar nada com ninguém e menos ainda de ter que correr o risco dela não o escolher por sua feiura e, justificaria a morte dele, como feito da “fada vampiro”. MÃOS FIRMES, CAMINHA COM A PROLE. PAI TEM SORRISO E LUZ QUE FASCINA, AO PAI DEVE-SE AGRADECER, POR DAR A CONDIÇÃO DE VIVER, SER FELIZ PELOS FILHOS FELIZES. NO DIA A DIA UM ORIENTADOR, MOSTRA O CAMINHO DO BEM COM MAGIA, ENTREGA-OS PARA A VIDA PELA SORTE E FÉ, QUE SEJAM ABENÇOADOS E PROTEGIDOS. ESPERAM TÊ-LOS SEMPRE POR PERTO, Saiu então em busca da fada e logo a encontrou, oportunamente distraída, lançou a espada nela pelas costas e certo de sua morte inevitável... QUE UM DIA OS FILHOS, LHES DEVOLVAM VITORIOSOS, Acontece que ao atingir a fadinha ela se transformou em um lindo príncipe quebrando um feitiço que uma bruxa havia lançado sobre ela e, nisso, pela maldade do rapaz a espada virou um morcego enorme que agarrou os dois irmãos levando-os para longe dessa história e, para os que moram lá hoje, dizem que tudo isso não passou de boato. Lá longe, a bruxa malvada deu muita risada e não se importou que a fada tivesse um final feliz, afinal ela ganhou dois rapazes fortes e que não iriam servir para mais nada. Colocou-os no caldeirão com uma pitada da asa do morcego que lhe trouxera as presas e, feliz cantarolava enquanto mexia o caldo feito de rapazes incapazes que só serviria mesmo para dar uma boa e suculenta sopa. TODO ESSE AMOR E AGRADECIDOS! Genha Auga Homenagem a uma Mãe que também é Pai. Esse texto é para você, que sozinha carrega a maior das responsabilidades, a mais elevada das missões. Você que é mulher, mãe e pai, que mesmo sozinha não fugiu da responsabilidade e sempre colocou a felicidade do seu filho em primeiro lugar, merece todos os elogios, todas as homenagens. E assim, nessa fake history, a bruxa acaba fazendo uma boa ação, os rapazes foram punidos e a “fadinha vampira” libertou-se do feitiço e fez a aldeia e o reino todo feliz. Moral dessa história: Nem sempre o feitiço vira contra o feiticeiro #boato... Você é mulher guerreira, corajosa, uma força da natureza, pois você não se diminuiu e assumiu os dois grandes papeis do teatro da vida, mãe e pai. Você é essência que ilumina, que orienta. Você é colo, sorriso e palavra de conforto. Você é exemplo de vida, autoridade que educa. Genha Auga Jornalista MTB: 15.320 PRECISA-SE VOLUNTÁRIO (A) Revisão de textos do jornal. Você é tudo em uma pessoa só, às vezes esquecendo ou negligenciando seus próprios interesses em favor de outros, pois seu coração é maior que o universo e nele vive um amor infinito e incondicional. Desconheço a autoria Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 11

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 11 O Chile se tem que investir na diversificação da economia para que, quando chegar a época das “vacas magras”, se tenha outras opções. Não é que o Chile não tenha tido nenhuma crise política, mas é evi- Dizem por aí que o Chile está a alguns anos de se tornar um país dente que tem uma democracia madura, mais estável que a de al- desenvolvido. Se isso for mesmo verdade, então o Chile é um obvio guns vizinhos seus. É claro que o Chile passa por períodos de re- exemplo a ser seguido por seus vizinhos. De qualquer forma, o IDH cessão, de contração do ciclo econômico, em que o crescimento é do Chile é 0.843, e o PIB per capta do Chile é acima de US$25 mil, reduzido e a economia estagna. É claro que no Chile ainda há po- é o melhor posicionado na América Latina, atualmente. breza! Mas o desempenho do Chile no que se refere a IDH e renda Se o Chile realmente se tornar um país desenvolvido, quebra-se o per capta tem sido melhor do que a dos seus vizinhos. Diferente mito em que muitos acreditam, de que um país que foi colônia de dos que se passa em países próximos, no Chile, tanto a direita exploração nunca vai conseguir se tornar desenvolvido, ou seja, quanto a esquerda evoluíram, se aprimoraram e, os chilenos são pode-se ter esperanças! O Chile teve uma ditadura militar, a de Au- bastante conscientes dos seus direitos como cidadãos, embora gusto Pinochet, entre 1973 e 1990, que removeu do governo um possam melhorar mais. presidente socialista, o Salvador Allende, o que evidencia que o Para um país deixar de ser subdesenvolvido e se tornar desenvolvi- Chile também é alvo do imperialismo dos Estados Unidos. Se o do, não é um processo rápido. Requer tempo, persistência, um pla- Chile realmente se desenvolver em breve, então o imperialismo dos no de governo à um prazo bem longo, muitos problemas não se re- EUA não está impedindo o Chile de se desenvolver, então é possí- solvem instantaneamente e nem em poucos anos. Enquanto per- vel sim ser país desenvolvido debaixo do imperialismo norte- corre o caminho, governos podem tomar decisões equivocadas, os americano. Colonialismo e imperialismo estrangeiro não prende ne- mercados podem tomar decisões desastrosas, crises vindas de fora nhum país ao subdesenvolvimento eterno, pelo que parece, há podem prejudicar a economia, mas se as pessoas que têm o poder mais detalhes que impendem um país de se tornar desenvolvido. E de fazer as coisas acontecerem tiverem realmente compromisso tais detalhes certamente são internos, já que não são externos. com a nação, mesmo demorando, conseguem chegar lá. Desde a redemocratização do Chile, foi respeitada a alternância de Se o Chile vai mesmo se tornar um país desenvolvido, quem viver, partidos no governo nacional. O Chile não teve só governantes ne- verá. Contudo, o que é certeza, é que sociedades cujos indivíduos oliberais, a Michele Bachelet é esquerdista e foi presidente do Chile ficam indignados quanto veem que os seus concidadãos que esta- duas vezes, entre 2006 e 2010, e entre 2014 e 2018. Os presiden- vam em má situação socioeconômica passam a prosperar, e rea- tes que assumiram no Chile pós-ditadura militar não acabaram com gem combatendo as políticas públicas de bem-estar social com a todos os programas de políticas públicas do governo anterior. Tam- finalidade de fazê-los voltar ao estado de má situação, nunca vão bém, a burocracia no Chile existe, mas não é um país muito buro- chegar lá! País desenvolvido não é país que tem um PIB gigantes- crático. Mas o modelo de capitalização da Previdência chileno pre- co, pois o Produto Interno Bruto é apenas uma medida de fluxo de judicou os aposentados. Isso significa que o Chile cometeu um er- produção, não leva em consideração a distribuição de renda. País ro, e não que tenha feito tudo errado. Mas o Chile é exportador de desenvolvido, atualmente, é um país que tem os setores terciário e commodities, exporta cobre e uma possível queda do preço do co- quaternário predominando em sua economia, e o Índice de Desen- bre pode prejudicar o Chile. A Austrália e a Nova Zelândia são ex- volvimento Humano e a renda per capta são elevados, além de ter portadoras de commodities, o Canadá é exportador de commoditi- uma população cuja média é bem escolarizada. es, a Rússia é exportadora de commodities, é uma forma de se ob- ter dinheiro. Quando se está na época das “vacas gordas”, aí que João Paulo E. Barros Estados Unidos e Irã há um Estado teocrático islâmico sunita, prefere ser aliada dos Estados Unidos do que o Irã. Tanto o Irã quanto a Arábia Saudita se- guem a Sharia, a lei islâmica. Mas a interpretam de forma diferente. Os Estados Unidos e o Irã têm tido uma relação hostil desde a Re- Os EUA são um Estado laico. volução Islâmica do Irã, em 1979. Nessa divergência, não é um Um ponto louvável da parte o Irã é que é o Irã é um país em que os conflito “bem contra o mal”, é uma divergência ideológica entre dois interesses nacionais têm primazia sobre os interesses potências países em que nenhum dos dois é o “herói”. Os Estados Unidos estrangeiras. Agora, se o regime iraniano é ou parece ser desagra- têm tentado sufocar economicamente o Irã. O presidente Barack dável aos olhos de quem não é muçulmano, é outra discussão. Já Obama fez um acordo nuclear com o Irã, no qual outros países faz tempo que os Estados Unidos e o Irã trocam “rosnar de dentes” também participam, com o objetivo de melhorar as relações entre entre si. O território iraniano é grande e montanhoso, é um território os dois países, mas Donald Trump abandonou o acordo e decidiu mais difícil de se atacar do que os territórios do Iraque e do Afega- reprimir o Irã. nistão. E o Irã tem forças armadas muito bem equipadas. Mesmo Aqui, temos que levar em consideração uma variedade de deta- que um drone norte-americano tenha sido derrubado pelo Irã, navi- lhes. O Irã é um Estado teocrático, um Estado regido por religião. os petroleiros atacados no Golfo de Omã, não bastaram para co- No Irã, a religião oficial é o Islã xiita. O ponto de vista religioso fun- meçar uma guerra. O presidente Donald Trump fez uma escolha ciona assim. Nem sempre evidências irrefutáveis são apresenta- (sair do acordo nuclear com o Irã) e escolhas têm consequências. das. Não se baseia em empirismo como a ciência, se baseia em fé Contudo, dificilmente os Estados Unidos e o Reino Unido atacarão e dogmas. Está escrito no cânon sagrado, é a palavra de Deus e o Irã da mesma forma que atacaram o Iraque e o Afeganistão na não se duvida dela, não se contesta, apenas se crê e se aceita. E, década passada, é provável que os americanos e os iranianos fi- não há como todas as religiões estarem certas ao mesmo tempo, quem na guerra “por procuração”, por enquanto, usando de tercei- se elas creem de forma diferente entre si! Apesar disso, em todas ros países (como a Síria e o Iêmen) como campo de batalha. Num as religiões, há pessoas moderadas, flexíveis, que toleram opiniões futuro próximo, pode acontecer de o Irã entrar em guerra direta diferentes, e há pessoas radicais, autoritárias, extremistas, que não contra Israel ou contra a Arábia Saudita, estes dois últimos repre- admitem discordâncias de seu ponto de vista. E ambos os tipos de sentando o lado dos Estados Unidos. Mas desta vez, por hora vão comportamento também existem fora das religiões, no meio laico, ficar na troca de acusações e na guerra “por procuração”, provavel- principalmente no meio político. Dentro do Islã, há dois grandes mente. grupos principais, que são os xiitas e os sunitas. As divergências entre os dois grupos são tão grandes que a Arábia Saudita, onde João Paulo E. Barros Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 12

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 12 Senhores do Mundo. çaram a chegar à América do Norte provenientes da Inglaterra. Mu- A doutrina que está por trás do America First lheres com toucas e coifas apertadas, homens com roupas escuras, todos extremamente determinados, fundaram passo a passo as 13 colônias que, no final daquele século, pertenciam à Inglater- A crença de ser a melhor nação do mundo, a mais justa, a que foi ra. Em 1783, sete anos após a Declaração de Independência, con- escolhida por Deus, foi a força que moveu a política expansionista seguiram se livrar definitivamente das amarras que os mantinham norte-americana. Quando, em 1969, um astronauta fincou a ban- ligados à mãe pátria.” deira norte-americana na Lua, seu gesto ainda espelhava essa Para muitos historiadores modernos, no entanto, a própria guerra crença que permanece viva no inconsciente coletivo do grande país pela independência já seria uma primeira grande expressão da do Norte. vontade imperial dos Estados Unidos. Segundo essa leitura da his- No século 19, a Doutrina do Destino Manifesto (em inglês: Manifest tória, os colonos queriam se separar da Grã-Bretanha porque, con- Destiny) era um conjunto de ideias extremamente difundido entre trariando as ordens do rei, George III, queriam criar assentamentos os habitantes dos Estados Unidos. Essa doutrina dizia que os colo- nas terras situadas a noroeste. A região compreendida entre as ca- nizadores americanos deveriam expandir o seu domínio da Améri- deias montanhosas dos Allegheny-Apalaches e o rio Mississippi era ca do Norte, até onde pudessem chegar. Expressava a crença de habitada por nativos americanos muito aguerridos, e os ingleses, que o povo americano fora eleito por Deus para civilizar o continen- que tinham acabado de concluir a guerra dos sete anos com a te, e se assentava sobre um conjunto (o “manifesto”) de três temas França, não queriam se empenhar em um outro conflito. “A guerra fundamentais: A virtude especial do povo americano e suas institui- de 1775-1783 não teria sido, portanto, uma guerra pela indepen- ções; a missão dos Estados Unidos de redimir e refazer o oeste à dência, mas sim pela conquista de mais territórios na América”, afir- imagem da América agrária; o destino irresistível – já que designa- ma o historiador italiano Stefano Luconi: “Como um tipo de pecado do por Deus – para cumprir esse dever essencial de conquista e original, esse desejo expansionista caracterizou toda a política ex- domínio. terior dos Estados Unidos”. Essa doutrina impulsionou todo o processo de colonização da Amé- Os indígenas norte-americanos pagaram a conta dessa marcha ir- rica do Norte, e está muito bem representada na pintura American refreável em direção ao oeste. Quando ela finalmente terminou, Progress, de John Gast, feita em 1872. O tema da pintura é justa- nas praias do oceano Pacífico, os norte-americanos já não tinham mente o “Destino Manifesto” da nação, na vertente interpretativa uma fronteira a ser conquistada e ultrapassada. Mas o gosto da vi- que foi chamada de “Espírito da Fronteira” (em inglês: Spirit of the tória territorial agora estava profundamente arraigado em suas al- Frontier). A obra mostra uma cena popular de pessoas se dirigindo mas inundadas pelo sentimento do destino manifesto. Que fazer? para o Oeste, guiados e protegidos por uma entidade mística à qual “A coisa mais óbvia, naturalmente”, explica Maria Leonarda: foi dado o nome de Colúmbia (simbolizando a América vestida com “Transpor a fronteira mais à frente”. Segunda ela, nessa corrida infi- uma toga romana de modo a representar o republicanismo clássi- nita para o horizonte, passo a passo os norte-americanos alcança- co). ram o espaço planetário, “guiados pelo espírito resoluto do capitão Ajudadas pelas mais modernas tecnologias existentes na época Achab, o caçador da baleia branca Moby Dick do romance de Her- (armas de fogo, ferrovias, telégrafo, etc) tais hordas colonizadoras man Melville”. pouco a pouco expulsaram e eliminaram do seu caminho tudo aqui- A expansão continua lo que, na época, era considerado obstáculo perigoso à expansão No século 19, o destino manifesto estava no apogeu: os norte- (indígenas, bisões, lobos, etc). É importante observar que Colúm- americanos prosseguiram na caça a novos território. Começaram bia, no quadro de John Gast, traz consigo a “luz” do Sol nascente, pela Louisiana (1803), continuaram com a Flórida (1819), depois o e com ela ilumina os territórios conquistados à medida que avança Texas (1845) e o Oregon (1846), depois entraram no México (1846- em direção ao oeste ainda envolvido pela obscuridade. 1848) e em Cuba, teatro da guerra hispano-americana de 1898. Como os cruzados medievais, os americanos justificaram os mas- Ao mesmo tempo, crescia no país um sentimento de xenofobia que sacres que perpetraram como “missões divinas”. Na foto, a atriz até hoje determina posturas grotescas como as do atual governo Hazel Down (1891-1988) posa vestida com a bandeira americana. Trump no trato dos imigrantes ilegais. Para os historiadores, isso A cena, e tudo aquilo que ela representa, permanece profundamen- deriva diretamente da influência exercida desde o início pelo coloni- te gravada no inconsciente coletivo dos norte-americanos. É nessa zadores ligados a seitas cristãs, notadamente os puritanos. “Antes doutrina que tem raízes a “America First”, referindo-se a uma políti- de desembarcar no litoral de Massachusetts em 1630, o líder puri- ca externa nos Estados Unidos que enfatiza o nacionalismo ameri- tano John Winthrop incitou seus correligionários a edificar no Novo cano, o nacionalismo econômico e o unilateralismo, na rejeição de Mundo uma “cidade sobre a colina”, ou seja a transformar o assen- políticas internacionalistas. É a atual política oficial da administra- tamento que estavam fundando em um exemplo no qual o resto da ção do presidente Donald Trump. humanidade deveria se inspirar com vistas à própria regeneração Missão divina espiritual”, conta o historiador Stefano Luconi: “Deus se tornou a Como diz a jornalista italiana Maria Leonarda Leone, na vida o im- autoridade à qual os norte-americanos recorreram para legitimar o portante é estar convencido de alguma coisa, e os norte- seu expansionismo”. americanos sempre estiveram convencidos da sua “missão divina”. Uma missão em nome de Deus Convencidos, como disse um século atrás o presidente Woodrow Assim, os americanos justificaram a guerra que lhes permitiu tomar Wilson, de ser “a nação mais justa, mais progressista, mais honrá- do México toda a sua região setentrional (os atuais estados da Cali- vel e mais iluminada do mundo”. Convencidos de serem portadores fórnia, Utah, Novo México e Arizona) com a teoria do destino mani- de uma ideologia boa e sadia; convencidos de dever exportar para festo, segundo a qual a Divina Providência designou que o controle o mundo todo a sua própria ideia de democracia. Diz Maria Eduar- da América do Norte fosse deles, para que nela pudessem difundir da Leone, “com estes e outros pressupostos similares, há pelo me- a democracia e as suas próprias instituições. “Inclusive o extermí- nos cem anos os Estados Unidos dominam a cena mundial. Porque nio das populações nativas, que no início do século 18 os puritanos é isso que, desde as suas origens, eles são: um império”. consideravam criaturas demoníacas, além de estar ditado por ra- Livres e autodeterminados: os primeiros a se definirem assim fo- zões de segurança se inspirava no convite bíblico para andar, se ram, em 1787, os “pais fundadores” dos Estados Unidos, seguidos, multiplicar e ocupar a Terra. Um princípio que serviu para legitimar um quarto de século depois, por uma outra voz ilustre, Thomas Jef- o genocídio de inteiras populações pagãs”, ressalta Luconi. ferson. Segundo ele, que foi o terceiro presidente dos Estados Uni- Um racismo evidente (e de qualquer modo não limitado à América dos, ao expandir o seu domínio para todo o território da América do do Norte) que se manifestou e de muitos modos ainda se manifesta Norte os americanos estavam criando um “império da liberdade”. em relação a todos aqueles povos etiquetados como não-brancos Maria Leonarda explica que tudo começou quase dois séculos an- e, enquanto tais, considerados inferiores e não civilizados. tes, no início do século 17, “quando especuladores londrinos, católi- cos, puritanos, quakers e membros de outras seitas cristãs come- Luis Pellegrini Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 13

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 13 ALGUMAS DATAS COMEMORATIVAS "cria, interpreta ou executa obra de caráter cultural de qualquer natureza, para efeito de exibição ou divulgação pública, através de 09 - Dia Internacional dos Povos Indígenas meios de comunicação de massa ou em locais onde se realizam espetáculos de diversão pública". Origem do Dia Internacional dos Povos Indígenas O artista usa de toda a sua imaginação, criatividade e talento para O Dia Internacional dos Povos Indígenas foi instituído pela Organi- emocionar, chocar ou mesmo registrar momentos importantes da zação das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura história da humanidade. A arte nasceu com o homem e permane- – UNESCO, em 23 de dezembro de 1994, através da resolução 49- cerá após a sua morte. /214. 19 - Dia do Historiador O primeiro Dia Internacional dos Povos Indígenas foi comemorado em 9 de agosto de 1995, marcando o início da primeira década in- O principal objetivo desta data é homenagear os profissionais que ternacional dos indígenas (1995 a 2004). se dedicam a estudar e conhecer sobre a história das civilizações e Em 2007, comemorando a segunda década internacional dos indí- comunidades. genas, foi aprovada a Declaração das Nações Unidas sobre os Di- Origem do Dia do Historiador reitos dos Povos Indígenas. ´ A criação do Dia do Historiador foi oficializada a partir do Decreto Entre alguns dos principais pontos da Declaração sobre os Direitos de Lei nº 12.130, de 17 de dezembro de 2009. dos Povos Indígenas, destaca-se: A escolha do dia 19 de agosto é uma homenagem a data de nasci- - A inserção dos indígenas na Declaração Internacional dos Direitos mento de Joaquim Nabuco (1849 - 1910), um dos historiadores Humanos; mais icônicos do país, responsável por ser um dos fundadores da - Direito à autodeterminação, de caráter legítimo perante todas as Academia Brasileira de Letras. Joaquim também ficou conhecido entidades internacionais; por ser um dos maiores abolicionistas do país. - Os indígenas não podem ser removidos de seus territórios de mo- Aliás, Nabuco é o autor da célebre frase: “A escravidão permanece- do forçado; rá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. - Direito à utilização, educação e divulgação dos seus idiomas próprios; 22 - Dia do Folclore - Direito à nacionalidade própria; Folclore é a cultura de um povo, o conjunto das tradições cultu- - Direito de exercer suas crenças espirituais com liberdade; rais dos conhecimentos, crenças, costumes, danças, canções e - Garantia e preservação da integridade física e cultural dos povos lendas dos indivíduos de determinada nação ou localidade. indígenas; O termo folclore se originou através de um neologismo criado pelo O Estado deve auxiliar as comunidades indígenas a manterem os britânico William John Thoms (1803-1885), que uniu as palavras seus direitos básicos. inglesas folk (que significa “povo”) e lore (que quer dizer Além do Dia Internacional dos Povos Indígenas, no Brasil ainda se “conhecimento”). comemora o Dia do Índio, em 19 de abril. Assim, folclore ganha o significado literal de "conhecimento do po- 05 - Dia Nacional da Saúde vo" ou"aquilo que o povo faz". A base da cultura do povo brasileiro vem da mistura de povos que A data tem o objetivo de conscientizar a sociedade brasileira sobre fizeram o Brasil. Inclui as numerosas tribos indígenas, os portugue- a importância da educação sanitária, despertando na população o ses, os diversos povos africanos que foram trazidos escravizados, valor da saúde e dos cuidados para com ela. além de um sem-número de imigrantes como alemães, italianos, O Dia da Saúde também serve para homenagear e recordar a vida japoneses que vieram para o país. e o trabalho de Oswaldo Cruz, um dos principais responsáveis pe- Além disso, estudiosos como Câmara Cascudo, Mário de Andrade, las erradicações de perigosas epidemias que acometiam o Brasil Hekel Tavares, Inezita Barroso e muitos outros recolheram estórias no final do século XIX e começo do século XX. e cantigas, documentaram práticas medicinais que fazem do folclo- Origem do Dia Nacional da Saúde re brasileiro uma fonte inesgotável de inspiração. O Dia Nacional da Saúde foi oficializado e inserido no calendário oficial brasileiro através do Decreto de Lei nº 5.352, de 8 de novem- bro 1967, do Ministério da Saúde e da Educação e Cultura. 12 - Dia Internacional da Juventude O principal objetivo desta data é focar na educação e conscientiza- ção dos jovens sobre a responsabilidade que assumem como re- presentantes do futuro do planeta. O Dia Internacional da Juventude foi criado, originalmente, através da resolução 54/120, por iniciativa da Organização das Nações U- nidas (ONU), em 1999, como consequência da Conferência Mundi- O Dia do Folclore Brasileiro foi definido oficialmente através al dos Ministros Responsáveis pelos Jovens, em Lisboa, Portugal. do Decreto de Lei nº 56.747, de 17 de agosto de 1965, aprovado A Assembleia Geral da ONU decretou o ano de 2010 como “Ano pelo Congresso Nacional. A partir de então, conforme definia a lei, Internacional da Juventude”, período em que foram debatidos diver- o dia 22 de agosto passou a ser celebrado como o Dia do Folclore sos assuntos relacionados com o tema “Diálogo e Compreensão em todo o país. Mútua”. A data foi escolhida porque em 22 de agosto de 1846, o pesquisa- Atualmente, por meio do Programa Mundial de Ação para a Juven- dor britânico William John Thoms usou esta palavra pela primeira tude, a ONU incentiva ações políticas e diretrizes que ajudam a a- vez num artigo. poiar a melhoria na qualidade de vida dos jovens de todo o mundo. Em 1947 foi criada a Comissão Brasileira de Folclore e, posterior- 12 - Dia Nacional das Artes mente, as comissões estaduais. Em 1951 se realiza por primeira vez, no Rio de Janeiro, o 1º Congresso Brasileiro de Folclore, even- A data celebra as atividades artísticas, que podem abranger diver- to que acontece a cada dois anos. sas áreas, como o teatro, o cinema, a literatura, o circo, a pintura e Callendar etc. A lista pode ser mesmo bastante grande! De acordo com a legislação brasileira, o artista é o profissional que VISITE NOSSO SITE - Lá verá todas as datas comemorativas Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 14

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 14 O mito da caverna de Platão: a dualidade da nossa realidade. causa do qual, se sairmos do caminho que nos ditam, começamos a ser julgados e criticados. Considere que aceitamos muitas verdades absolutas sem parar por um momento para questioná-las, sem perguntar se o mundo está realmente próximo ou distante dessa realidade. Por exemplo, pensar que o erro é uma falha pode afetar o fato de que abandonamos qualquer projeto com o menor contratempo. No entanto, se não nos deixar levar por essa idéia, desenvolveremos nossa curiosidade e o erro deixará de ser um demônio cheio de negatividade. Assim, a mudança de perspectiva não apenas nos impedirá de temê-la, mas também nos fará aprender com esses erros quando os cometermos. Sair da caverna é um processo difícil No mito da caverna, o homem que decide libertar-se das correntes que o aprisionam toma uma decisão muito difícil; o segundo, em vez de ser bem visto por seus companheiros, é rapidamente toma- do como um ato de rebelião. Algo mal visto e que poderia tê-lo em- À medida que crescemos, as dúvidas, as inconsistências, as perguntas, purrado para abandonar essa tentativa. Quando este homem finalnos ajudam a tirar essas vendas dos olhos que, muitas vezes, nos im- mente decide, ele começa a seguir este caminho sozinho, para ir pedem de ver a realidade como ela é. além dessa parede e do fogo, o que o faz duvidar ao mesmo tempo O Mito da caverna de Platão nos permitiu entender como o filósofo em que ele o cega. Dúvidas o atacam, ele não pode mais distinguir percebia o mundo. Uma relação entre o mundo físico e o mundo o verdadeiro do falso. das ideias que criam uma realidade repleta de luzes e sombras. Ele deve se livrar de crenças que há muito o habitam. Idéias que Por um lado, temos a realidade como ela é. Por outro lado, nos en- não são apenas enraizadas, mas também a base da árvore de su- contramos em uma realidade ficcional onde nossas crenças e ilu- as crenças. No entanto, como ele se move em direção à saída da sões desempenham um papel importante. No entanto, antes de caverna, ele percebe que o que ele acreditava não era verdade. mergulharmos neste universo, não deveríamos saber o que o mito Então, o que resta dele? Ele deve convencer aqueles que zombam da caverna nos diz? dele de que existe uma liberdade à qual podem aspirar se decidi- No mito, encontramos homens que, desde o nascimento, estão a- rem abandonar o aparente conforto em que vivem. correntados ao fundo de uma caverna. Deste lugar, eles podem ver O mito da caverna retrata a ignorância como a realidade que se tor- apenas uma coisa: uma parede. Eles nunca foram capazes de sair na desconfortável quando nos tornamos conscientes de sua pre- e nunca foram capazes de olhar para trás para saber a origem das sença. Diante da menor possibilidade da existência de outra visão correntes que os prendem. No entanto, há uma parede atrás deles do mundo, a história nos revela que a nossa inércia nos leva a des- e, um pouco mais adiante, um incêndio. Entre a parede e o fogo truí-la porque a consideramos uma ameaça à ordem estabelecida. estão homens carregando objetos. Graças ao fogo, as sombras dos As sombras não são mais projetadas, a luz deixou de ser artificial e objetos são projetadas na parede e os homens acorrentados po- dem vê-los. Eu via imagens que eram apenas mentiras e falsas realidades. Mas como eu poderia olhar para elas se, desde criança, essa é a única realidade que tenho visto? Uma realidade ficcional Esses homens sempre viram a mesma coisa desde que nasceram; eles não sentiram nem a necessidade nem a curiosidade de se virar e ver o que refletia essas sombras. Mas era uma realidade enganosa e artificial. Essas sombras os distraíram da verdade. No entanto, um desses homens ousou olhar para trás e ver além das coisas. No começo, ele se sentiu perdido e perturbado, especialmente a luz que ele via na parte de trás (o fogo). Ele começou a duvidar. Ele pensara que as sombras eram a única coisa que existia quando o ar já está acariciando meu rosto. não era. Toda vez que ele andava, suas dúvidas o faziam tentado a Nossa condição humana pode impedir-nos de nos livrar deste mun- retornar ao seu mundo de ilusões. do de sombras, mas podemos pelo menos fazer um esforço para Apesar de tudo, com paciência e determinação, ele continuou seu tornar essas sombras cada vez mais distintas. O mundo perfeito e avanço. Acostumando-se pouco a pouco a esse mundo tão desco- icônico das idéias pode ser uma utopia para a nossa natureza, mas nhecido para ele. Sem ser vencido pela confusão ou ser enganado isso não significa que renunciar à nossa curiosidade é melhor do pelos caprichos do medo, ele saiu da caverna. Mas quando ele cor- que confiar no conforto do que conhecemos hoje (ou o que nós areu de volta para contar aos seus companheiros, eles o cumpri- cho que sabemos). mentaram com uma zombaria. Um desprezo que refletia a incredu- Quando crescemos, dúvidas, inconsistências e perguntas nos aju- lidade dessas pessoas na história do aventureiro. dam a remover as vendas que às vezes tornam a vida muito mais É curioso ver como a visão oferecida pelo mito da caverna pode ser difícil do que realmente era. transposta para as notícias. Esse modelo que todos seguimos e por Fonte: nospensees.fr SENSO COMUM Porque refutar um senso comum pode ser algo incomodo? Primeiramente porque o senso comum tende a se enraizar em nós, como se fosse nosso próprio senso também, nos induzindo a pensar e a agir como coparticipes da visão de mundo que ele abraça e carrega, e em segundo lugar, porque ele pode e deve ter seduzido também nossos amigos, amores e conhecidos, fora toda uma multidão que tende a defende-los como correto e verdadeiro, porque também eles o percebem como parte de suas ideias, conceitos e visões deste mundo. Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

p. 15

Agosto de 2019 Gazeta Valeparaibana Página 15 Por que os psicopatas feito os acordos que fiz”, afirmou há pouco, “a mídia corrupta os chegaram ao poder consideraria incríveis… Para mim, apesar do nosso recorde em economia e tudo o que fiz, não há crédito!”. Nenhuma riqueza ou po- Há uma dimensão pouco exami- der parece capaz de satisfazer sua necessidade de afirmação e se- nada no avanço das lógicas neoli- gurança. berais. Um sistema que estimula Penso que deveria ser necessário a qualquer um que quisesse par- competição, disputa e rivalismo ticipar de uma eleição nacional passar por uma formação em psico- produzirá “líderes” brutais e sem terapia. A conclusão do curso seria a qualificação para o cargo. Is- empatia. Eleger gente generosa e so não mudaria o comportamento de psicopatas, mas poderia evi- sensível requer uma nova demo- tar que, ao exercer o poder, certas pessoas impusessem sobre os cracia outros suas próprias feridas profundas. Fiz dois cursos: um influen- Quem, em seu juízo perfeito, po- ciado por Freud e Donald Winnicott, outro cuja abordagem tinha deria desejar esse trabalho? É foco na compaixão de Paul Gilbert. Considero os dois extremamen- quase certo que acabará, como te úteis. Penso que quase todo mundo se beneficiaria desses trata- descobriu Theresa May, em fra- mentos. casso e execração pública. Procurar ser primeiro-ministro britânico, A psicoterapia não iria garantir uma política mais gentil. A abertura hoje, sugere ou confiança imprudente ou fome insaciável de poder. admirável de Alastair Campbell ao falar sobre sua terapia e saúde Talvez necessitemos de uma ironia como a de Groucho Marx: al- mental não o impediu de comportar-se – quando desempenhou as guém louco o suficiente para candidatar-se a essa função deveria funções de assessor político e porta-voz de Tony Blair – como um ser desqualificado para concorrer. valentão desbocado, que intimidava as pessoas a apoiar uma guer- Alguns anos atrás, a psicóloga Michelle Roya Rad listou as caracte- ra ilegal, em que centenas de milhares de pessoas morreram. Tan- rísticas de uma boa liderança. Entre elas figuravam justiça e objeti- to quanto sei, não demonstrou remorso por seu papel nessa guerra vidade, desejo de servir à sociedade e não a si mesmo, falta de in- agressiva, que cabe na definição de “crime internacional supremo” teresse em ser famoso e ocupar o centro das atenções, resistência do tribunal de Nuremberg. à tentação de esconder a verdade ou fazer promessas impossíveis. O problema, na verdade, é o sistema no qual essas pessoas com- Por outro lado, um artigo publicado no Journal of Public Manage- petem. Personalidades tóxicas prosperam em ambientes tóxicos. ment & Social Policy (Jornal de Gestão Pública e Política Social) Aqueles que deveriam ser menos confiáveis para assumir o poder listou as características de líderes com personalidade psicopata, são justamente os que mais provavelmente vencerão. Um estudo narcisista ou maquiavélica. Elas incluem: tendência à manipulação publicado no Journal of Personality and Social Psychology sugere dos outros, disposição em mentir e enganar para alcançar seus ob- que o grupo de traços psicóticos conhecido como “domínio sem jetivos, falta de remorso e sensibilidade, desejo de admiração, a- medo” está associado a comportamentos amplamente valorizados tenção, prestígio e status. Quais dessas características descrevem nos líderes, tais como tomar decisões ousadas e sobressair-se no melhor as pessoas que estão competindo para ser “governantes” cenário mundial. Se assim for, nós, por certo, valorizamos as carac- no mundo contemporâneo? terísticas erradas. Se para alcançar o sucesso no sistema é neces- Na política, vê-se em todo lado o que parece ser a externalização sário ter traços psicopatas, há algo errado com o sistema. de déficits ou feridas psíquicas. Sigmund Freud afirmou que “os Para pensar uma política eficiente, talvez fosse útil trabalhar de trás grupos assumem a personalidade do líder”. Penso que seria mais para frente: primeiro decidir que tipo de gente gostaríamos que nos preciso dizer que as tragédias privadas dos poderosos tornam-se representassem e depois criar um sistema que as levasse ao pri- as tragédias públicas daqueles que eles dominam. meiro plano. Quero ser representado por pessoas ponderadas, Para algumas pessoas, é mais fácil comandar uma nação, mandar conscientes de si e colaborativas. Como seria um sistema que pro- milhares para a morte em guerras desnecessárias, separar crian- movesse essas pessoas? ças de suas famílias e infligir sofrimentos terríveis do que processar Não seria uma democracia puramente representativa. Esse tipo de sua própria dor e trauma. Aparentemente, o que vemos na política, democracia funciona com o princípio do consenso presumido: você em todos os cantos, é uma manifestação pública de profunda an- me elegeu há três anos, então presumo que consentiu com a políti- gústia privada. ca que estou para implementar, não importa se na época eu a men- Essa talvez seja uma força particularmente forte na política britâni- cionei ou não. Ela recompensa os líderes “fortes e determinados” ca. O psicoterapeuta Nich Duffell escreveu sobre “líderes feridos”, que tão frequentemente levam suas nações à catástrofe. Um siste- que foram separados da família na primeira infância para ser envia- ma que fortaleça a democracia representativa com democracia par- dos ao colégio interno. Eles desenvolveram uma “personalidade de ticipativa – assembleias de cidadãos, orçamento participativo, co- sobrevivente”, aprendendo a reprimir seus sentimentos e projetar criação de políticas públicas – tem mais possibilidades de recom- um falso eu, caracterizado pela demonstração pública de compe- pensar os políticos sensíveis e atenciosos. A representação propor- tência e autoconfiança. Sob essa persona está uma profunda inse- cional, que impede governos com apoio minoritário de dominar a gurança, que pode gerar necessidade insaciável de poder, prestí- nação, é outra salvaguarda potencial (embora não seja garantia). gio e atenção. O resultado disso é um sistema que “sempre revela Ao repensar a política, é preciso desenvolver sistemas que incenti- pessoas que parecem muito mais competentes do que realmente vem gentileza, empatia e inteligência emocional. É preciso nos des- são”. vencilhar de sistemas que encorajem as pessoas a esconder sua O problema não está confinado a estas paragens. Donald Trump dor e dominar os outros. ocupa a cadeira mais poderosa do planeta, e ainda assim parece roer-se de inveja e ressentimento. “Se o presidente Obama tivesse George Monbiot O que é Psicopatia? Psicopata é um indivíduo clinicamente perverso, que tem personalidade psicopatica, com distúrbios mentais graves. Um psicopata é uma pessoa que sofre um distúrbio psíquico, uma psicopatia que afeta a sua forma de interação social, muitas vezes se comportando de forma irregular e anti-social. Em sentido mais amplo, uma psicopatia é uma doença causada por uma anomalia orgânica no cérebro. Em sentido restrito, é um sinônimo de psicose (doença mental de origem neurológica ou psicológica). Informar para educar - Educar para formar - Formar para transformar

[close]

Comments

no comments yet