Tribuna do Piracicaba - A Voz do Rio

 

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Bacia do Piracicaba - Janeiro / Fevereiro de 2019 - Edição 247 - Ano XXVI

Popular Pages


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Bacia do Piracicaba, Janeiro / Fevereiro de 2019 / Edição 247 – Ano XXVI / Distribuição Dirigida Gratuita / Nas bancas: R$ 2,00 TRAGÉDIAS ANUNCIADAS Em pelo menos quatro edições a Voz do Rio já alertava sobre o perigo eminente de novas tragédias. Páginas 3, 4, 5, 8, 9 “Escapei da lama da morte” Funcionário de terceirizada conta como sentiu a morte de perto em forma de lama. Página 11 Aves do Piracicaba Nesta edição destacamos a “Águia Cinzenta”, a maior e mais rara águia existente na Bacia. Página 12

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Janeiro / Fevereiro de 2019 2 Rede Soa Sirene quer conectar populações que vivem sob barragens O Tribuna do Piracicaba – A Voz do Rio acaba de receber exemplares da primeira edição do jornal da Rede Soa Sirene. O veículo tem como objetivo construir canais de circulação de informações entre populações que vivem em comunidades impactadas por barragens de mineração. Despertá-las sobre a importância da Comunicação como campo de luta por direitos e mobilização social. O trabalho é desenvolvido junto às comunidades alvo, por meio de debates e oficinas de formação de repórteres populares, desenvolvido pelo Coletivos MICA e parceiros que visa a publicação de informativos online e impressos, co- -realizados com os moradores das localidades. A ideia da Rede SOA SIRENE surgiu durante o III Encontro de Culturas Ancestrais e Regenera Rio Doce, realizado entre 15 e 18 de novembro de 2018, na aldeia Areal, Espírito Santo. O evento reuniu povos Krenak, Butocudos, Guarani, Tupiniquins, Pataxós, e ainda comunidades dos manguezais de vários pontos do Rio Doce, quilombolas da nascente do Rio Doce, pescadores e ribeirinhos. Também aderiram caravanas do Mestre Boi, do Núcleo de Agroecologia Nagô, da saúde coletiva, coletivos, pesquisadores e ativistas de vários matizes. Na ocasião foi possível conhecer mais de perto a trajetória e as lutas de cada um. Essa primeira edição do jornal impresso traz (um pouco) do que foi essa experiência. Bacia do Piracicaba Inúmeras cidades da bacia do Piracicaba vivem debaixo de mais de 70 barragens e apesar de sofrerem com os mesmos problemas, não existe uma interação entre essas populações, o que as tornam frágeis diante os empreendedores, que colocam milhares pessoas em risco de vida diuturnamente. Para participar da Rede Soa Sirene e iniciar uma união entre em contato com o Coletivo MICA através do telefone/whatsapp (031) 99150.4914. Coletivo MICA - Mídia, Cultura, Identidade e Arte - coletivomica@ gmail.com Site - https://www.coletivomica.org/rede-soa-sirene Expediente: • Diretor Responsável: Geraldo Magela Gonçalves • Comercial: dindao@bomdiaonline.com (31) 9 9965-4503 • Diagramação/Arte: Sérgio Henrique Braga • Impressão: Gráfica Bom Dia • Representante Comercial: Super Mídia Brasil - BH Redação e Administração Rua Lucindo Caldeira, nº 159, Sl. 301, Alvorada, CEP.: 35930-028 João Monlevade / MG / Brasil (31) 3851.3024 • A Voz do Rio Online: www.tribunadopiracicaba.com Circulação: Bacia Hidrográfica do rio Piracicaba FUNDADO EM FEVEREIRO DE 1994 Razão Social : Geraldo Magela Gonçalves MEI CNPJ 27.776.573/0001-68 Inscrição Estadual : Isenta Inscrição Municipal 123470CNPJ.: 24538633/0001-16 Todos os Direitos Reservados avozdorio@bomdiaonline.com

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Janeiro / Fevereiro de 2019 3 Dormindo com o perigo Rotina de acidentes com barragens desperta populações Geral - Acidentes com barragens vêm deixando um rastro de morte e destruição, rompendo fronteiras do estado de Minas Gerais e atingindo o mar. Enquanto os acidentes estavam acontecendo além dos olhos da maioria da população, matando 5 pessoas, atingindo córregos, ou levando a vida de apenas (sic) 9 pessoas, com pouco alarde, as populações que vivem abaixo de estruturas que podem matar – como Rio Piracicaba, São Gonçalo do Rio Abaixo, Itabira, Barão de Cocais e Santa Bárbara, permaneciam adormecidas. Entretanto, com o cheiro da morte chegando cada dia mais perto – com a tragédia da Samarco (Vale / BHP Billiton) em Mariana e agora com a tragédia da Vale (Vale) na Mina do Córrego do Feijão em Brumadinho, que ainda nem se tem as dimensões do desastre, as pessoas passaram a questionar sobre a segurança delas, de seus familiares e de suas respectivas cidades. Preço Após mais de 50 anos de exploração de minério de ferro na região, a atividade começa a cobrar um preço bem mais alto que além da degradação ambiental. Se por um lado a mineração gera emprego, renda e impostos, por outro vai deixando um legado perigoso para as presentes e futuras gerações – as barragens de rejeito. Agora não só os rios, enlameados, são reflexo da atividade; aos poucos as minas, antes longe dos olhos da cidade, vão aparecendo conforme a lavra vai avançando e apesar de deterem tecnologias para mudar o quadro, diante o lucro, as empresas teimam em manter as barragens ameaçadoras sobre as cabeças dos até então desavisados. Cidades ameaçadas se mobilizam cobrando segurança Diante a nova tragédia da Vale na Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho – ainda em andamento – todas as cidades que convivem com o perigo das barragens de rejeitos sob suas cabeças iniciaram movimentos buscando informações e cobrando ações para a segurança dessas populações. Tanto os governos federal quanto o estadual também tomaram atitudes frente ao fato que tem repercutido negativamente mundo afora. O Governo Federal ordenou às agências federais de controle um total recadastramento de todas as estruturas de barragens e o Governo Estadual proibiu a permanência de barragens alteadas no modelo a montante, ordenando seus descomissionamentos ou seja- o esvaziamento das mesmas. Nas cidades não poderia ser diferentes e praticamente todas se movimentam em torno do tema. Em Rio Piracicaba, São Gonçalo do Rio Abaixo e Itabira, tanto o executivo quanto o legislativo se mobilizaram e iniciaram uma série de ações, conforme segue. Rio Piracicaba: Legislativo e executivo alinham ações O presidente da Câmara Municipal, vereador Tayrone Guimarães, além de convidar o secretário municipal de meio ambiente, Augusto Henrique da Silva para uma reunião objetivando alinhar ações frente a situação que a cidade vive, com uma barragem a poucos metros da população, promoverá também um Audiência Pública para tratar do assunto “Mineração”. São Gonçalo do Rio Abaixo: Prefeitura e Câmara acionam empresa O presidente da Câmara Municipal de São Gonçalo do Rio Abaixo, vereador Flávio Silva de Oliveira, entrou em contato com a gerência da Vale solicitando uma reunião para tratar sobre a segurança da cidade, já que a mesma vive sob duas grandes barragens. Já a prefeitura, em um primeiro momento soltou uma nota declarando solidariedade ao município de Brumadinho e informando que o prefeito Antônio Carlos solicitou aos responsáveis laudos técnicos atualizados com um diagnóstico sobre as barragens. O prefeito informou ainda via comunicado que solicitou junto a Agência Nacional de Mineração (ANM), providências relacionadas à fiscalização sobre a estabilidade e segurança dessas estruturas existentes no município. O prefeito de São Gonçalo faz coro com os demais prefeitos das cidades que se encontram na mesma situação quanto a morosidade da implantação dos planos de ações de emergência, solicitando a agilidade para conclusão dos mesmos. Itabira: jornal O Trem provoca população diante a grave situação da cidade Uma das cidades mais afetadas pela implantação de barragens talvez seja Itabira. Cercada por gigantescas estruturas que somadas ultrapassam aos 500 milhões de metros cúbicos de lama e rejeito – 10 vezes em relação ao material vazado da barragem de Fundão – que levou destruição e morte até o mar; Itabira vive hoje com um futuro incerto. Diante essa situação o jornal O Trem tem provocado debates entre os moradores e o fato atraiu a atenção da imprensa da capital que desenvolveu inúmeras matérias. Um dos principais questionamentos dos moradores das áreas de risco da cidade é quanto ao Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração – os PAEBM. Em nenhuma cidade o PAEBM, exigência de lei, foi concluído. Nenhuma barragem é segura, afirmam especialistas O Estado tem mais de 400 estruturas voltadas para o armazenamento de rejeitos de minério, todas com algum risco de rompimento, segundo o superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) em Minas, Júlio César Grilo. Para Júlio, “as mais de 400 barragens que temos seriam seguras apenas se houvesse uma avaliação diária, o que não é possível. Além disso, as análises levam em conta aspectos superficiais. Mas o fato é que nenhuma barragem do Estado é segura”, afirmou. Ele já tinha, inclusive, alertado o governo do Estado sobre a possibilidade de desastre em Brumadinho. Outro engenheiro que concorda com essa afirmação entrou em contato com nossa redação e pedindo para que não fosse identificado informou: “Passei seis anos operando barragens a leiras de granulados, tal como agora dessas barragens que eles dizem a montante ou a jusante, para contenção de rejeitos. Entenda: esse tipo de contenção é feita para depósitos temporários e não fornecem segurança, demandando leiras de redundância, bacias de derramamento e isolamento de área, conforme procedimentos industriais internacionais. Tais procedimentos e aplicações são sequer conhecidos pelas nossas autoridades. Entretanto nossas “normas”, e agora o bando de “entendidos”, ainda con- tinuam discutindo o uso de leiras de granulados como opções viáveis para barragens altas. Resumindo, barragens de material granulado, dispostos tanto a jusante ou de qualquer jeito, não são opções de segurança. Fiscalização nenhuma será capaz de garantir a segurança de uma barragem feita de material granulado. Somente estruturas armadas deveriam ser aceitas para contenção de qualquer material” disparou.

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4Janeiro / Fevereiro de 2019 A “toque de caixa” Vale acelera implantação do PAEBM em Rio Piracicaba e população promove manifestação pedindo fim das barragens bairro Praia e seguiu pe- tos de encontro além de las ruas da cidade, fazen- 15 sirenes de alerta em do uma parada na sede várias regiões da cidade. do executivo municipal Dando continuidade à e posteriormente seguin- apresentação dos PAE- do até a portaria da Vale, BMs, a Vale e a Defesa no bairro Louis Ensch. Civil Municipal esperam concluir ainda neste mês Próximos passos de março as reuniões com o corpo docente Após 11 encontros, que das escolas que se en- abordaram as estruturas contram nas ZAS das de Diogo, Monjolo e barragens. O objetivo é Porteirinha, todas loca- orientá-los sobre as me- Em Rio Piracicaba populares protestaram contra a permanência das barragens - 16 milhões de m3 de água lizadas na mina de Água didas que devem tomar Lima, onde pessoas que numa eventual situação Após enrolar durante que a Vale iniciou efe- sentava a continuidade sativas e improdutivas. moram ou possuem es- de emergência. quase oito anos, a Vale fi- tivamente um processo das ações, como reuni- tabelecimentos nas cha- Moradores e comercian- nalmente está empenha- preparativo para cumprir ões com as comunida- Manifestação madas “Zonas de Autos tes também das ZAZ re- da a implantar o Plano a legislação. des que seriam atingidas salvamento” (ZAS) par- ceberão um comunicado de Ação de Emergência Diante da situação de com um suposto rompi- O medo tomou conta da ticiparam, o PAEBM en- com o mapa da região, as de Barragens de Mine- risco que as populações mento e a instalação de cidade e começa a re- trará em nova fase. rotas de fuga e os pontos ração (PAEBM) em Rio vivem o que deveria ter sinalização de rotas de fletir na economia local As áreas do ZAZ in- de encontro, além de te- Piracicaba. Pelo menos sido implantado no má- fugas e pontos de encon- com a desvalorização de cluem os bairros do Pan- lefones de contato para é o que demonstra com a ximo em um ano, já que tro entre outros serviços imóveis localizados na tame e Fundão, na zona mais esclarecimentos. apresentação do plano e estavam descumprindo correlatos ao plano. “mancha” da lama, ou rural, Samitri, Bicas, Esse material será distri- do cronograma de ações a legislação que era de Entretanto, por falta de seja – onde a lama des- Praia, Diogo, Centro, buído pela Vale de porta à Defesa Civil da cidade. 2010, veio se arrastando transparência da empre- truiria em um possível Chacrinha, Córrego São em porta, conforme a A demora em implantar até uma nova tragédia sa, a continuidade do rompimento das barra- Miguel, Ponte Saraiva, empresa. o serviço, que conta com – dessa vez em Bruma- processo caiu como uma gens da cidade, princi- Brumadinho e Bairro de Será definida ainda entre legislação obrigatória dinho, 25 de janeiro de situação de emergência palmente a do Diogo. Fátima, na zona urbana a Vale e a Defesa Civil, a desde 2010, não foi por 2019 – mais uma vez o na cidade, causando pâ- Diante desse pânico e de Rio Piracicaba. realização dos testes de si- falta de cobrança, princi- PAEBM naquela locali- nico generalizado em insegurança, populares A população foi orienta- rene e simulado de emer- palmente pela imprensa dade não funcionou. toda população: “Se não promoveram uma mani- da sobre procedimentos gência com todos os mo- local e pela Defesa Civil Em meio a tantas tragé- houvesse risco eminente festação e mesmo debai- que devem ser adotados radores, para concluir a da cidade, que tem em- dias as populações que não estariam correndo xo de chuva um conside- em situação de emergên- implantação do PAEBM. penhado em resolver as vivem abaixo destas es- para preparar a popula- rável número de pessoas cia, como indicação das Importante destacar que demandas do município truturas finalmente acor- ção”, esse é o comentário portando cartazes e pro- rotas de fuga e os pontos o treinamento e aperfei- na área de prevenção. daram para o risco real mais ouvido na cidade. ferindo frases de efeito, de encontro para os quais çoamento do sistema é Durante anos, até o rom- e a partir daí iniciaram demonstravam a insatis- deve se dirigir após deso- constante, sendo obri- pimento da barragem uma cobrança sistemá- Reuniões sem foco fação com uma “minera- cupação das casas. gado, conforme legisla- de Fundão em Mariana tica de soluções para as ção insustentável”, pedin- Foram instaladas, segun- ção a manutenção des- precisamente, em 2015, situações. As reuniões que deveriam do o fim das barragens. do a empresa, 30 placas tes exercícios enquanto a empresa nem comen- ter o foco nas questões de A manifestação partiu do de sinalização dos pon- houver o risco. tava a respeito de sua Continuidade em segurança, diante à falta obrigação em implantar Rio Piracicaba de comunicação da em- as ações de segurança. presa nos últimos anos Entretanto, após aquela Após a tragédia de Bru- tem se transformado em tragédia, onde, caso hou- madinho, ainda sob a verdadeiras audiências vesse o PAEBM muitas emoção causada pelo públicas onde a maioria vidas seriam salvas, a le- fato, Vale, executivo, le- pede o fim das barragens. gislação veio a tona. gislativo e sociedade ci- As questões básicas A partir daí tanto gover- vil iniciaram discussões como: onde a lama atin- nos quanto a imprensa sobre a conclusão do ge? Quanto tempo para passou a cobrar a implan- PAEBM na cidade. chegar em determinado tação dos sistemas de O cronograma, que ha- ponto? Para onde correr? alertas e o treinamento da via sido entregue à De- Acabam se perdendo em população para situações fesa Civil no início de meio a tantas desinforma- de emergência, mas so- dezembro de 2018, após ções e especulações, tor- Durante as reuniões moradores, preocupados e desconfiados, mente no início de 2017 muita cobrança, apre- nando essas reuniões can- fizeram uma série de questionamentos sobre a lisura da Vale

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Janeiro / Fevereiro de 2019 5 Cidades poderão ficar livre de barragens com nova lei Mineradoras terão que substituir processos ou paralisar operações conforme legislação No caso de Itabira, todas as barragens se encontram acima de comunidades colocando-as em zonas de auto salvamento, portanto, deverão ter paralisadas seu uso. Para tanto a Vale deverá iniciar os processos de tratamento a seco e ou utilizar cavas para depósito de rejeitos, eliminando com isso o uso de barragens. Rio Piracicaba e São Gonçalo Na data em que completou um mês da tragédia da Vale em Brumadinho, na Grande Belo Horizonte – com o colapso das barragens 1, 4 e 4A e que matou, até agora, 180 pessoas e deixou mais de 130 desaparecidas -, o governador Romeu Zema assinou, na Cidade Administrativa, a sanção ao projeto de lei 3.676/16, que foi aprovado na última sexta-feira, 22, pelos deputados, na Assembleia Legislativa, se transformando na Lei 23291 de 25 de fevereiro de 2019. O projeto que já poderia ter sido aprovado em 2016 e evitado a tragé- Barragem do Diogo teria 8 milhões de m3 de rejeito e 16 milhões m3 de água dia de Brumadinho, foi barrado na época pela “Bancada da Lama”, como ficou conhecido os deputados defensores das mineradoras. Entre as principais mudanças na gestão das barragens de resíduos em Minas Gerais estão a proibição de reservatórios construídos a montante – os existentes terão de traçar planejamento para seu fechamento – e não serão mais concedidas licenças ambientais concomitantes. Outro destaque é a proibição da concessão de licença ambiental para construção, instalação, ampliação ou alteamen- to de barragem em cujos estudos de cenários de rupturas seja identificada comunidade na zona de auto salvamento. Com isso, inúmeras cidades que possuem barragens em seus territórios poderão ter essas estruturas paralisadas e descomissionadas, já que na maioria delas, como Rio Piracicaba, Itabira, São Gonçalo do Rio Abaixo, Santa Bárbara, possuem comunidades em zona de auto salvamento. A Lei 23291, de 25/02/2019, que Institui a política estadual de segurança de barragens em seu capítulo II - Do licenciamento ambiental de barragens, diz: Art. 12 – Fica vedada a concessão de licença ambiental para construção, instalação, ampliação ou alteamento de barragem em cujos estudos de cenários de rupturas seja identificada comunidade na zona de autossalvamento. § 1º – Para os fins do disposto nesta lei, considera-se zona de autossalvamento a porção do vale a jusante da barragem em que não haja tempo suficiente para uma intervenção da autoridade competente em situação de emergência. § 2º – Para a delimitação da extensão da zona de autossalvamento, será considerada a maior entre as duas seguintes distâncias a partir da barragem: I – 10km (dez quilômetros) ao longo do curso do vale; II – a porção do vale passível de ser atingida pela onda de inundação num prazo de trinta minutos. Mineradoras deverão mudar processos Diante da nova legislação as mineradoras terão que mudar seus processos de tratamento do minério, já que em muitos casos deverão ter que deixar de usar barragens de rejeitos. Em São Gonçalo a mina de Brucutu já se encontra paralisada por ordem da justiça devido a problemas na Barragem Laranjeiras – e a coisa deve se complicar devido a nova legislação. A mina está funcionando apenas no processo a seco. Já em Rio Piracicaba, onde praticamente toda a área central da cidade se encontra na zona de auto salvamento no caso do rompimento de barragem do Diogo, a mesma não deverá mais receber alteamentos, conforme estava previsto pela empresa. Segundo a Vale, a barragem do Diogo teria uma vida útil até 2021, da forma que se encontra, devendo receber novos alteamentos para manter a vida da mina. Caso não possa mais promover o alteamento e ter que descomissionar a barragem, ou a empresa muda o processo ou a cidade terá finalizada sua principal atividade econômica. Barragem Norte - acima da represa de Peti, em São Gonçalo do Rio Abaixo

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6Janeiro / Fevereiro de 2019 A Voz do Rio ouviu um ícone ambiental em Rio Piracicaba Professor Doutor Apolo Heringer Lisboa, médico e conferencista. Ambientalista, idealizador do Projeto Manuelzão, mobilizador social e formulador político, escritor, com livros e artigos de divulgação ampla na área literária, médica, política e ambiental. O Homem do Ano de 2013 do Brasil na área Ambiental. Mas a apresentação desse cativante cidadão não para por ai: Doutor em Educação pela FAE/ UFMG (2012), área de Conhecimento e Inclusão Social, com o título Projeto Manuelzão: Uma estratégia socioambiental de transformação da mentalidade social. Atividade na bacia hidrográfica do Rio das Velhas. Mestre em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Minas Gerais (1993), na área de Epidemiologia. Pesquisa sobre uma epidemia de cólera no Brasil. Graduado em Medicina Humana, 1963-1967, pela UFMG. Professor Associado no Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, como preceptor do Internato em Saúde Coletiva. Homenageado como um dos 6 professores que contribuíram de forma diferenciada para a história da Faculdade de Medicina, pela 120ª Turma de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, no convite de formatura 2006. Personalidade Médica Mineira - categoria Saúde Pública. Associação Médica de Minas Gerais - AMMG. 2007. Book of the Year da Enciclopédia Britânica 1990, novela Escândalo no Arraial das Formigas, distinguida como destaque do ano em língua portuguesa. Prêmio Milton Santos necessário construir par- de rio, a nossa luta tem cerias com os municípios que ser muito mais pro- compreendidos na ba- funda e ela só será váli- cia e com o governo do da quando vereadores, estado, dentre outros. A prefeitos e sociedade es- parceria com a sociedade tiverem conversando de cresceu consideravelmen- igual pra igual, como nós te ao longo da existência estamos fazendo aqui”, do Projeto Manuelzão, disparou. sobretudo no âmbito dos Exemplificando um tra- Núcleos Manuelzão (an- balho racional – Dr. Apo- teriormente chamados lo citou o Piracicaba e sua Comitês Manuelzão) es- micro bacia: “Existem os palhados pela bacia. Es- afluentes do Piracicaba, ses Núcleos contam com que por sua vez tem seus a participação da socie- contribuintes e estes pe- dade civil e, também, de quenos cursos d´água que representantes do poder os atendem – tem que se Dr. Apolo Heringer Lisboa junto a Geraldo Dindão durante entrevista ao Tribuna do Piracicaba público e de usuários de começar nestes – onde água. Seu objetivo é dis- existem em seu entorno de Saúde e Ambiente, Manuelzão Mais que isso, era pre- cutir e promover ativida- algumas poucas famílias Fiocruz, Funasa, Opas e ciso combater as causas des relacionadas a ques- – mostrando a eles a im- Abrasco. 2002. Meda- Coordenado e idealizado das doenças. A partir da tões ambientais locais, portância e a necessidade lha do Mérito do Minis- pelo Dr. Apolo Heringer percepção de que a saú- podendo contar com a da preservação desse pe- tério Público Promotor Lisboa, o nome do proje- de não deve ser apenas parceria e orientação do queno curso d´água; em de Justiça José Lins do to homenageia o vaquei- uma questão médica, Projeto Manuelzão. seguida passa para o cór- Rego Santos no grau de ro Manuel Nardi, imorta- foi esboçado o horizon- Segundo o idealizador rego abaixo e juntamente Comenda do Ministério lizado como Manuelzão te de trabalho do Proje- do Manuelzão, após seu com a população do pe- Público do Estado de Mi- na obra de Guimarães to Manuelzão: lutar por ápice em 2013, o proje- queno curso d´água, mos- nas Gerais. 2008, etc, etc, Rosa e falecido em 1998. melhorias nas condições to foi sendo desvirtuado trar para os moradores do etc.... e por falta de espa- do Dr. Apolo o projeto ambientais para promo- e perdeu sua essência: entorno do córrego como ço não será possível des- teria sido concebido em ver qualidade de vida, “inclusive eu já escrevi precisam dele e assim por crever as homenagens, 1989: “Em 1990 conse- rompendo com a prática um artigo falando sobre diante”, ensinou. títulos e demais honrarias gui aprova-lo na UFMG, predominantemente as- isso”, comentou Apolo. Concluindo o médico dis- que o “revolucionário” mas não saiu do papel e sistencialista. se que, citando o Piraci- professor conquistou ao finalmente conseguimos A bacia hidrográfica do Aprofundando o caba - que o problema do longo de seus 76 anos. coloca-lo em prática em rio das Velhas foi escolhi- debate ambiental Piracicaba será resolvido Apesar de septuagenário, 1997, mas foram anos da como foco de atuação. não no Piracicaba, mas o professor Apolo, como investidos em preparati- Essa foi uma forma de su- Em contexto geral o sim resolvendo o proble- é tratado, apresenta uma vos”, informou. perar a percepção munici- médico disse que meio ma dos pequeninos cursos altives jovial, filosofan- Segundo o médico o palista das questões am- ambiente tem que ser de- d´ água que formam os do e transmitindo suas projeto nasceu, cresceu e bientais. A bacia permite batido em um nível mais riachos e que formam os teorias práticas como se teve seu ápice, deu uma uma análise sistêmica e complexo: “Atualmente rios afluentes que contri- estivesse iniciando na grande contribuição ao integrada dos problemas ficam infantilizando as buem com o Piracicaba: arte de lecionar. meio ambiente quando e das necessidades de in- questões ambientais; fa- “As melhores soluções O Tribuna do Piracicaba em 2013 ele se afastou. tervenções. Para que essa zendo concursos de dese- são as mais simples, mais – A Voz do Rio, a convi- O surgimento do Ma- metodologia de trabalho nho, redação, promoven- práticas, mais baratas e te do médico Júlio César nuelzão está ligado às fosse desenvolvida, foi do limpezas em beiradas assim mais eficazes”. Pinto Coelho, teve a sor- atividades do Internato te e a honra de entrevistar em Saúde Coletiva (“In- esse meteoro de conhe- ternato Rural”), discipli- cimento e degustar as na obrigatória da grade delícias do saber servidas curricular do curso de pelo Doutor Apolo. Medicina em que os O foco da entrevista, a estudantes passam três princípio, seria o Proje- meses em municípios do to Manuelzão, mas bai- interior de Minas Gerais lou em todas as áreas do desenvolvendo ativida- conhecimento humano des de medicina preven- – mas aqui vamos nos tiva e social. O histórico ater ao projeto que leva das experiências desses o nome imortalizado professores e estudantes do vaqueiro pelo livro revelou que não basta- Grandes Sertões Veredas va, período a período, de Guimarães Rosa. medicar a população. Dindão, Dr. Apolo, Dr. Júlio e o jornalista Ramon do O Jequi durante encontro

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Janeiro / Fevereiro de 2019 7 Lançada oficialmente a “Expedição Piracicaba – Pela Vida do Rio” Iniciativa irá gerar levantamento completo sobre as transformações ocorridas na bacia do Piracicaba nos últimos 30 anos Aconteceu no dia 21 de fevereiro, em João Monlevade, durante reunião extraordinária do Comitê da Bacia Hidrográfica do Piracicaba, o projeto Expedição Piracicaba – Pela Vida do Rio. Durante o lançamento, o editor Tribuna do Piracicaba – A Voz do Rio, Geraldo Magela Dindão, apresentou a uma plateia representada por todos os atores – prefeituras, empresas e sociedade civil dos 21 municípios da bacia, a proposta da Expedição. Promover um dos mais completos diagnósticos de um curso d’água já realizados no Brasil e mobilizar a sociedade para a revitalização desse patrimônio. Esse é o objetivo da Expedição Piracicaba – Pela Vida do Rio, iniciativa do jornal Tribuna do Piracicaba em parceria com o Comitê da Bacia Hidrográfica do rio Piracicaba (CBH-Piracicaba). Pela primeira vez o rio Piracicaba, um dos principais afluentes do rio Doce, será navegado da nascente, em Ouro Preto, até a foz, em Ipatinga, tendo como pano de fundo a realização de um levantamento científico. A expedição ocorrerá durante a Semana Nacional do Meio Ambiente, entre 26 de maio e 5 de junho. Profissionais da área ambiental da Universidade Federal de Itajubá (Unifei - Campus Itabira), instituição responsável pela coordenadoria técnico-científica do projeto com apoio de profissionais de outras instituições, farão as análises dos parâmetros do corpo d´água entre outras pesquisas. Os estudos terão como objeto a qualidade da água, uso e cobertura do solo, avaliação Fotos: Sérgio Henrique Braga Representantes de empresas, do poder executivo estadual e municipal, de instituições governamentais e sociedade civil das 21 cidades que compoem a bacia se fizeram presentes e cálculo dos parâmetros hidrológicos e coleta e análise de sedimentos. A partir do trabalho os pesquisadores terão à disposição dados completos sobre as reais condições do Rio Piracicaba. O professor José Augusto, Coordenador pela UNIFEI do Mestrado Profissional em Gestão de Recursos Hídricos (ProfÁgua), responsável pela equipe da Unifei na Expedição disse enxergar na expedição uma grande oportunidade de verificação in loco das atuais condições ambientais, sociais e econômicas da bacia do rio Piracicaba: “É uma legítima e real tentativa de dar prosseguimento ao trabalho pioneiro da “Expedição Piracicaba 300 anos depois” que se consagrou como marco na história ambiental da região. Esta expedição trará dados concretos da atual situação ambiental da bacia do rio Piracicaba, incorporando informações técnicas com uma visão dos problemas conjunturais oriundos das mudanças e ações integradas sobre os recursos hídricos superficiais e subterrâneos”, revelou. Já para o presidente do CBH Piracicaba e vice-presidente do CBH Doce, Flamínio Guerra, a iniciativa não poderia ocorrer em momento melhor: “A Expedição Piracicaba - Pela Vida do Rio será uma oportunidade para o CBH Piracicaba estreitar laços com todos os atores envolvidos na vida do rio e, principalmente, vivenciar a realidade da bacia. Cabe destacar também o levantamento técnico-científico que será realizado pela Unifei durante a Expedição, que sem dúvida será de grande utilidade para produzirmos um diagnóstico que poderá direcionar o desenvolvimento de políticas hídricas para a recuperação da bacia”, disse Guerra. BASE DE DADOS Sobre os estudos da qualidade da água, serão considerados os mesmos parâmetros adotados em uma expedição empreendida no rio Piracicaba em 1999, o que criará uma base de comparação confiável sobre o ecossistema do curso d’água. A presente pesquisa enriquecerá essa base de dados com outros parâmetros para a construção do Índice de Qualidade da Água (IQA). A EXPEDIÇÃO Os profissionais envolvidos na expedição – en- genheiros ambientais, geólogos, geógrafos, cinegrafistas, fotógrafos e jornalistas entre outros – percorrerão as 21 cidades da bacia e estarão divididos em duas equipes: uma seguirá por terra e a outra descerá o rio em botes e caiaques. Em todas as localidades serão promovidos eventos de cunho socioambiental e cultural. Durante as paradas, enquanto alguns profissionais trabalharão nas atividades de pesquisa no leito do rio, outros participarão das atividades de mobilização social, promovendo debates sobre os problemas enfrentados pela bacia do Piracicaba, os desafios socioambientais de cada comunidade e, principalmente, sobre a necessidade de resgate do curso d’água. O desenvolvimento e os resultados alcançados pela Expedição serão desdobrados em produtos como filmes-documentários, exposições fotográficas, publicação de revista e o livro-relatório Expedição Pela Vida do Rio, que trará a descrição dos trabalhos desenvolvidos e conclusões da equipe técnica, além de quadro comparativo entre os dados de outras duas expedições realizadas no Pi- racicaba há 20 e 30 anos, respectivamente. ESTUDOS ANTERIORES Há cerca de 30 anos, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) iniciou um trabalho de pesquisa sobre a qualidade das águas do Piracicaba. Passados 10 anos, foi promovida a Expedição Piracicaba – 300 Anos Depois, que deu continuidade e ampliou o trabalho de pesquisa anterior. Agora, a Expedição Piracicaba – Pela Vida do Rio propõe um novo levantamento, navegando todo o rio, para despertar de vez na sociedade a urgência da preservação de um dos mais importantes cursos d’água de Minas Gerais. O RIO O Rio Piracicaba nasce a 1.680 metros de altitude, em um dos vértices da Serra do Caraça, no distrito ouro-pretano de São Bartolomeu, percorrendo 241 km até desaguar no Rio Doce no município de Ipatinga. A ocupação da bacia começou há 320 anos, motivada pela extração de ouro e pedras preciosas, empreendida por bandeirantes vindos de São Paulo. Além de abranger 21 municípios e mais de 800 mil pessoas, a bacia do Rio Piracicaba abriga duas importantes unidades de conservação, a Reserva Particular do Patrimônio Natural do Caraça (RPPN) e o recém-criado Parque Nacional Serra do Gandarela, importante zona de recarga fluvial que guarda aquíferos que contribuem diretamente para a manutenção do ciclo hídrico. Vale destacar também que a bacia do Rio Piracicaba atende a um dos mais importantes polos siderúrgicos do país. Flamínio Guerra, presidente do CBH Piracicaba, parceiro do projeto, apresentou a também parceira UNIFEI O professor José Augusto da Unifei, coordenador do Mestrado Profágua da ANA e coordenador Tecnico da Expedição relatou sobre a sequencia do trabalho da Expedição Piracicaba 300 Anos

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Janeiro / Fevereiro de 2019 8 Mina Do Feijão em Brumadinho: Vale envergonha o Brasil. * Eng. Claudio B. Guerra CENÁRIO GERAL: O Presidente Jair Bolsonaro disse em Davos, na Suiça, que o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente no mundo. Tal declaração bombástica atingiu diretamente a milhares de profissionais da área ambiental dentro e fora de órgãos governamentais. Dias depois, ouviu-se o estrondo da barragem da Mina do Feijão, em Brumadinho. Paralelamente a uma grande tragédia humana, o que vimos, nos primeiros dias, foi espetáculo midiático onde o tema central, a impunidade, saiu de cena. O que despontou foram declarações oportunistas do Governador de Minas e do Presidente da República, ambos ferozes defensores da flexibilização e agilização do licenciamento ambiental, e que pareciam completamente perdidos, mas querendo mostrar que estavam agindo!! Esta mesma encenação ocorreu quando do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, só que os atores eram outros : Fernando Pimentel e Dilma Rousef. O Presidente da VALE diante das câmeras de todo o mundo se disse consternado e mentiu descaradamente ao dizer que a empresa não sabia o que aconteceu. É importante lembrar ao Sr. Scharvtsman que no XIII Congresso Brasileiro de Mineração do IBRAM, em setembro de 2009, em Belo Horizonte, o renomado geólogo Paulo Franca, na época ocupando o cargo de Gerente de Planejamento e Desenvolvimento Ferrosos Sul, da VALE afirmou: “Estatisticamente a cada 30 anos, as barragens de rejeitos e as cavas de mineração aumentam dez vezes em volume e do- bram em altura, ou profundidade. Proporcionalmente aumenta também o risco ao negócio”. Esta afirmação veio de “dentro da VALE” e explica os procedimentos de alteamentos até então em curso na empresa. Portanto, os dirigentes da 2ª maior mineradora do mundo e seus engenheiros tinham todo o conhecimento daquilo que estava acontecendo na barragem de Feijão, que tinha 42 anos de idade e 86 metros de altura. Diante de uma consternação nacional e mundial, a tragédia ainda sangra e o resgate dos corpos continua lento e difícil. Os bombeiros se arrastam como caranguejos na lama, num trabalho admirável, incansável. Diante dos noticiários, as pessoas em todo o país lamentam e as famílias do atingidos sofrem muito. A maioria está surpresa com a VALE, que tinha uma imagem excelente na sociedade brasileira. Aí, a VALE acerta no alvo ao providenciar o repasse quase imediato de 100 mil reais para cada família atingida pela tragédia. Entretanto, aqueles que conhecem de perto a VALE, sua cultura e sua história mais recente, principalmente nos últimos 3 anos, não estão surpresos com seu posicionamento. Depois de 7 dias da tragédia, a VALE começa a tomar decisões e falar para o mercado e não para os atingidos. Ao anunciar medidas que deveriam ter sido tomadas há pelo menos 10 anos, surgem comentários de que haverá queda de sua produção, e assim estes efeitos econômicos negativos podem se refletir no mercado de trabalho e no preço do minério de ferro no mercado inter- nacional. É um momento de incertezas, mas dá para intuir que o gigante VALE começa a reagir! Capitalismo selvagem em Minas Gerais NÃO se defende aqui mineração ZERO e SIM barragem de rejeitos ZERO, pois a VALE é dona do maior e mais moderno projeto de mineração do mundo, o Complexo S11D Eliezer Batista, no Pará. Nele, não existe barragens de rejeitos. A VALE é moderna no Pará e selvagem em Minas Gerais. O capitalismo selvagem praticado por ela aqui abrange uma aliança maldita com a cúpula da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (SEMAD), que se ampliou muito na gestão de Fernando Pimentel ( 20152018), quando ocorreu um retrocesso jamais visto na gestão ambiental no território mineiro. O Governador não só trabalhou para agilizar e flexibilizar o licenciamento ambiental, como também para dar a ele poderes imperiais. O mais inacreditável é que tudo isto aconteceu três semanas depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana!! Não há dúvidas: a lama já estava nas salas da cúpula da SEMAD e de alguns membros do Conselho do COPAM que sempre votam a favor das mineradoras. Para isto, os ganhos pessoais são “motivadores”. Até algumas ONGs votam a favor das mineradoras, uma vez que têm projetos financiados por elas. O “toma lá dá cá” existe não apenas no Congresso Nacional: ele está presente no COPAM e na SEMAD. (Cabe frisar que a maioria do competente corpo técnico da SEMAD não participa deste esquema e vive hoje uma situação de precarização de suas condições de trabalho). Um exemplo disso pode ser observado na reunião de 11 de dezembro de 2018, na sede da SEMAD: ocorreu uma grande discussão com a participação de vários representantes dos moradores que se manifestaram contra a flexibilização do licenciamento da mina do Feijão, chamando-a de “insanidade”. A VALE ganhou de goleada (8x1) e a vida seguiu normal. Quarenta e quatro dias depois a barragem de Feijão se rompeu. Lembremos que na Assembleia Legislativa de Minas Gerais existe uma “bancada da lama”, com dezenas de deputados financiados pelo lobby das mineradoras, ferrenhos defensores de seus interesses econômicos. Assim, não só a legis- lação de licenciamento ambiental é flexibilizada, como possíveis avanços no controle ambiental são prontamente rechaçados, mesmo após a tragédia da SAMARCO no rio Doce. Diante do cenário de conchavos e de troca de favores, não nos causou surpresa que o único Secretário de Estado mantido pelo Governo Zema foi aquele do Meio Ambiente, o que parece confirmar a crítica de que ele é o “homem das mineradoras”. De acordo como Inventário FEAM-2014, o Estado tem 688 barragens, das quais 677 têm estabilidade garantida por auditorias (dentre elas, as barrragens de Fundão e Feijão). Lembremos que a responsável pelo licenciamento ambiental de uma barragem é a VALE, com fiscalização da FEAM e COPAM. A responsável pela segurança de uma barragem é, em primeiro lugar, a VALE. A fiscalização das barragens é atribuição do DNPM (hoje ANM), que emite também a outorga do direito minerário. O que se pode concluir é que dezenas de cidades de Minas Gerais estão hoje correndo risco de rompimento das barragens como Congonhas, Ouro Preto, Itabirito, Nova Lima, Itabira, Rio Piracicaba, São Gonçalo do Rio Abaixo e várias outras. Somente na sua “cidade mãe”, Itabira, a VALE tem três grandes barragens, com um total estimado de 400 milhões de m3 de rejeitos!! A falta de informação e também de credibilidade da VALE e dos órgãos estaduais e federais espalham o medo e a inquientação nessas populações. Nenhuma barragem de rejeitos é 100% segura. Esta é uma verdade que as mineradoras não aceitam e a VALE sempre foi extremamente resistente à realização de simulados de evacuação da população do entorno de suas barragens. A razão é simples: isto implicaria em admitir que elas não são 100% seguras e poderiam um dia romper. De novembro de 2015 a janeiro de 2019, durante 38 meses, ela teve a oportunidade de admitir o erro e mudar. Porém, prevaleceu a irresponsabilidade e a insensatez, manchadas pela voracidade de seus dirigentes na busca do lucro a qualquer preço. Esta insanidade a levou a construir um escritório e um restaurante para seus funcionários, a dois Km a jusante de uma barragem de rejeitos de 80m de altura. Me lembro aqui quando, duas décadas atrás, um Superintendente da VALE, em Itabira, declarou à imprensa que a “grandiosidade da Vale nos impedia de ver os problemas e aceitar as críticas ao nosso trabalho”.

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Janeiro / Fevereiro de 2019 9 A Vale e o Rio Doce Esta hoje multinacional, operando em 30 países, nasceu no Vale do Rio Doce e se apropriou até de seu nome. Lá estão seus maiores críticos, por conhecê-la bem: instituições públicas, lideranças comunitárias de movimentos sociais, indígenas, profissionais da área de meio ambiente, parte da imprensa, etc. Entretanto, todos aqueles que fazem críticas a ela, mesmo que embasadas tecnicamente, são chamados de alarmistas, pessimistas e são simplesmente ignorados. Os alertas das universidades, do Ministério Público, de movimentos sociais da Igreja Católica e de parte da imprensa nunca foram levados a sério. Segundo o prof. Bruno Milanez, da Universidade Federal de Juiz de Fora, a experiência da SAMARCO no rio Doce deixou as coisas muito claras: “a gente não discutia se haveria outros rompimentos, mas quando eles aconteceriam”. A população de Brumadinho não sabe o que a espera, principalmente quando mudarem sua categoria social de atingidos para “beneficiários”. A experiência da tragédia da SAMARCO, que atingiu milhares de pessoas no rio Doce, mostrou que o tempo tem sido um bom aliado dos transgressores das leis ambientais e dos direitos humanos. Os trabalhos da Fundação RENOVA (braço empresarial da VALE/SAMARCO/BHP ) na recuperação do rio Doce e da vida de sua população têm mostrado resultantes frustrantes: a lama continua no fundo do Rio, o processo das indenizações das famílias é maquiavélico, a pressão sobre as prefeituras dos 39 municípios atingidos para aceitarem suas condições é enorme, os moradores de Bento Rodrigues, Paracatú e Gesteira vão completar 4 anos sem casa, pelo menos 4 mil pessoas não tiveram suas vidas retornadas ao normal. Além disso, a SAMARCO não pagou integralmente nenhuma das 38 multas e dos 22 indiciados no inquérito policial ninguém foi preso. A RENOVA alega que trabalha assiduamente para reconstruir a natureza, ou seja, “renaturalizar” o ambiente, o que não é possível enquanto a lama se encontrar no leito do Rio, nas suas margens e na Hidroelétrica de Candonga. Até hoje, três anos e três meses após a tragédia, a RENOVA, isto é, SAM A R C O / VA L E / B H P não sabem o que fazer com a lama! Conclusões: e agora, o que fazer ? O enorme poder econômico da VALE dá a ela o “direito” de fazer o que quer, onde quiser. Ela produz e exporta minério de ferro com muita com- A Vale era do Rio Doce – quando ela deixou de ser – transformou o rio em amargo petência, fatura bilhões de dólares. Porém, desde 2015, podemos afirmar, categoricamente, que ela leva nos seus vagões não somente minérios e parte de nossa água, florestas, solos e biodiversidade. Leva também centenas de mortes, e o sofrimento, a dor e a incerteza de milhares de pessoas que vivem nas bacias dos rios Doce e Paraopeba. Mas ela também controla os deputados estaduais e federais, as prefeituras, o COPAM, a SEMAD, o Ministério de Minas e Energia, o DNPM (hoje ANM). Parece que ela tem uma espécie de garantia de impunidade e assim persiste numa lógica perversa de completa indiferença diante de fatos incontestáveis, das críticas bem formuladas e das reinvidicações das comunidades mais exigentes. Porém, seu marketing responde com brilhantismo todas estes questionamentos e defende com pragmatismo mesmo o que é indefensável. A VALE sabia de tudo que estava acontecendo e aconteceu naquela barragem de rejeitos, a população de Brumadinho é que não sabia. Hoje, muitas perguntas podem ser feitas, mas as respostas devem ser dadas pela Gerência de Geotecnia da VALE à Polícia Federal. O Plano de Ações de Emergência (PAEBM) da barragem de Feijão é um absurdo, pois tudo estava detalhado no papel, com previsão de todas as situações possíveis, caso ocorresse o rompimento da barragem. Era tudo encenação, só para obter a licença: o PAEBM continha erros simplesmente inacreditáveis, havia somente uma sirene (que não foi acionada) e foi realizada apenas uma simulação em, 2018, mesmo assim somente com parte da população (conforme depoimentos de vários moradores, de várias comunidades). Hoje, a população vive o caos, um pós bombardeio de uma guerra, e não acredita na VALE e nos órgãos oficiais, mas so- mente nos Bombeiros!! A VALE não é mais uma empresa confiável, pois agiu como uma criminosa reincidente: em 3 anos foi responsável direta pela morte de cerca de 340 pessoas e causou incômodos e desconfortos em milhares de pessoas, além de ter matado os rios Doce e Paraopeba. Neste período, paradoxalmente o faturamento dela aumentou muito. Em 2017, a produção de minério de ferro no Brasil chegou a 440 milhões de toneladas, com um faturamento de cerca de 20 bilhões de dólares. A VALE é o grande protagonista do setor. Medidas urgentes Dentre as medidas urgentes que precisam ser realizadas para melhorar o cenário desolador de hoje, citamos: . Realizar inspeções e varreduras em todas as barragens de rejeitos do país, até o final desse ano, conforme definido pelo Governo Federal. . Iniciar a recuperação socioambiental na micro bacia do Córrego Feijão, no Rio Paraopeba e intensificar o lento e doloroso processo de assistir os atingidos de Brumadinho, tendo como referência e compromisso NÃO REPETIR OS ERROS GROSSEIROS no Rio Doce, quando foram chamados de “beneficiários” . Instaurar Inquérito pela Polícia Federal, vasculhando de cada barragem até a sala do Presidente da VALE. .Criar e implementar uma Comissão da Verdade de Barragens no Brasil, que, posteriormente, passaria os trabalhos para uma Operação Lava-Lama, da Polícia Federal. * Cláudio B. Guerra é engenheiro ambiental com curso de Pós-Graduação no UNESCO-IHE-Delft, Holanda. Trabalha há 28 anos como Consultor Ambiental na bacia do Rio Doce. Foi Secretário Adjunto de Meio Ambiente do Governo de Minas Gerais.

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10Janeiro / Fevereiro de 2019 Local no Córrego Carneirinhos entre os bairros Baú e Areia Preta onde será implantada a Estação de Tratamento de Esgoto Carneirinhos Monlevade poderá ter em breve, 80% de esgoto tratado Maior poluidora da Bacia em se tratando de esgoto doméstico, cidade despeja 16 milhões de litros de resíduos por dia no Piracicaba No mês em que se comemora o “Dia Mundial da Água”, 22 de março, não teria notícia melhor para a Bacia do Piracicaba – Enfim, parece que as ETE´s saíram do papel. João Monlevade é a cidade que mais polui o Piracicaba. Com uma população estimada em 79.590 pessoas (2017), a cidade lança no rio Piracicaba, em média, 16 milhões de litros de esgoto por dia. Com uma ETE pronta (Cruzeiro Celeste) e deteriorando por falta de uso e uma rede coletora pronta (Carneirinhos) mas até então sem a ETE Carneirinhos, a cidade leva o título de maior poluidora do Piracicaba. Mas tudo isso pode estar mudando, conforme informou recentemente a secretária municipal de Meio Ambiente, Fernanda Ávila. Segundo Fernanda, sem definir data, a cons- trução da Estação de Tratamento de Esgotos Carneirinhos e o início da operação da Estação de Tratamento de Esgotos Cruzeiro Celeste vão garantir o tratamento de 80% de todo o esgoto de João Monlevade. A secretária informa que a ETE Carneirinhos é uma das principais de João Monlevade, pois será responsável pelo tratamento de 60% do esgoto da cidade, que descem dos bairros Loanda, Belmonte, Metalúrgico, Vale do Sol, Santa Bárbara, Novo Horizonte, República, Nova Esperança, Paineiras, Rosário, Satélite, José de Alencar, Lucília, São Geraldo, José Eloi, São Benedito, São João, Alvorada, Lourdes, Vale da Serra, JK, Mangabeiras e Nossa Senhora da Conceição. A ETE Carneirinhos já está com o processo licitatório concluído, aguardando apenas a liberação financeira da Caixa. O prazo de execução é de um ano. Já com a ETE Cruzeiro Celeste, que está pronta e aguarda licença de operação, os bairros Vera Cruz, Promorar, Taquinho, Petrópolis, Teresópolis, Planalto, Jardim Vitória, Sion, Cruzeiro Celeste, Primeiro de Maio, Nova Monlevade, Santo Hipólito e Estrela Dalva terão o esgoto tratado, correspondendo a 20% de todos os efluentes do município. Uma reunião técnica com os moradores do bairro Areia Preta foi realizada para esclarecer sobre a ETE Carneirinhos, que vai ser implantada na região próxima ao bairro. O encontro foi promovido pelo Departamento de Águas e Esgotos (DAE) e Secretaria de Meio Ambiente, uma semana após o projeto receber a licença ambiental para a sua execução. A ETE Carneirinhos estava, des- de 2013, em processo de licenciamento, e só agora, após várias alterações de local e um mandado de segurança, a licença foi concedida. De acordo com o projeto, a ETE será implantada no terreno paralelo à avenida Getúlio Vargas, que fica entre a entrada do Forninho e a subida para os bairros Areia Preta e Vila Tanque, aproximadamente 300 metros distante do aglomerado de casas. “O bairro, que convive há anos com um córrego remanescente do canal da Wilson Alvarenga emitindo odores de esgoto, receberá, após a construção da ETE, o mesmo córrego com águas limpas e sem mau cheiro”, explicou o DAE. A questão do odor, que foi motivo de preocupação dos moradores, mesmo após a ETE, mereceu mais esclarecimentos do engenheiro do DAE, Gilmar Rodrigues. Ele será o coordenador do projeto e fiscalizará a execução da ETE. Apresentando uma planta da obra, o engenheiro explicou que a Estação Carneirinhos é um modelo moderno, diferente das outras já construídas na região. “Os efluentes ficam em um reator to- talmente fechado, evitando que o mau cheiro exale para o meio ambiente. Além disso, o complexo da obra terá uma compensação paisagística no seu entorno, com o plantio de árvores apropriadas para absorver possíveis odores que possam advir da ETE”, disse o engenheiro. O córrego Carneirinhos vem há anos recebendo todo o esgoto de grande parte da cidade e causando transtorno aos moradores dos bairros em seu entorno. Com a ETE, além do fim do mau cheiro e da redução da incidência de mosquitos, o Piracicaba receberá águas mais limpas

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11Janeiro / Fevereiro de 2019 Tragédia da Mina do Feijão Sobrevivente conta como escapou da lama e da morte Mais uma tragédia entra para a história da mineração em Minas Gerais e as mortes, assim como em Mariana, entram para as estatísticas. Diante um quadro de tragédia, onde praticamente todos os municípios da Bacia do Piracicaba choraram suas vítimas, um piracicabense, por questões de segundos, escapou da lama e da morte. O auxiliar de sondagens, Leonardo Silva Mendes, 26, natural de Rio Piracicaba e residente em Padre Pinto, Caxambu, com exclusividade nos conta, emocionado, como sentiu o cheiro da lama e viu a morte de perto. Casado e pai de dois filhos, o mais novo de Leonardo, Tainã Valentin Mendes, estava completando 1 mês de vida naquele fatídico dia 25 de janeiro. Funcionário da Chammas Engenharia, contratada da Vale, Leonardo falou ao Bom Dia sobre o drama vivido: “A imagem não sai de minha cabeça, foi tudo muito rápido, pessoas engolidas pela lama, árvores caindo em cima, muito sofrimento”, relata com olhos marejados. Leonardo que trabalha com sondagens, disse que percorre mina por mina da Vale, já que a empresa que trabalha faz esse serviço para a mineradora há alguns anos. Na Mina Córrego do Feijão ele estava há quatro dias. Segundo Leonardo o tempo foi crucial para que ele e mais três colegas de trabalho se salvassem: “Geralmente parávamos para almoçar ao meio dia, mas esse dia eu fui fazer um telefonema e falei para os colegas para continuarem a fazer os furos e quando eu voltasse eu iria ajuda-los, mas quando voltei eles já tinham terminado o serviço, ai disse que já que eles terminaram o serviço eu iria guardar as ferramentas, coloquei-as na carroceria da caminhonete e descemos para almoçar”, disse. Conforme informou eles desceram para o almoço depois de 12h10min: “descemos para o restaurante mas quando fomos passar na portaria, devido os equipamentos na carroceria da caminhonete, tínhamos que relacionar isso, onde demorou mais um pouco, era exatamente 12h27min, liberando isso fomos para o estacionamento, pertinho da portaria, e o motorista se complicou para estacionar e fez varias manobras, quando terminamos de estacionar, já ia descer e escutamos um estrondo, parecendo detonação e veio aquela onda de lama, árvores tombando e eu falei com o motorista – acelera... ele ligou a caminhonete rápido e nós saímos e a lama veio atrás da gente.... vi um grupo de mulheres, uma árvore caiu em cima delas, esmagando-as ... imagens que não saem de minha cabeça”, relatou. Leonardo contou que além do restaurante estar cheio, as pessoas que haviam acabado de almoçar estavam na área de vivência, em uma praça em frente o restaurante, relaxando, descansando, muitos deitados na grama, nos bancos, sendo todos pegos de surpresa. Continuando sua narrativa Leonardo disse que a lama descia muito rápida: “nós começamos a descer sentido Brumadinho e a lama do nosso lado, tombando caminhões, árvores – caminhão tombava como se fosse de papel... não dava tempo de socorrer ninguém... a todo momento pensava que iria morrer, pensava em meu filho que estava completando um mês de vida naquele dia, sentia a lama bem perto e sentia a morte; fomos descendo e vimos um sítio com uma mulher e três crianças pequenas, de uns 6, 7 anos de idade, gritamos para correr pro alto, não dava tempo de parar e socorrer, encontramos com caminhões subindo mandamos voltar, gritando para as pessoas que encontramos na estrada.. tudo muito rápido”, narrou. Em um momento o veículo teria sido cercado pela lama: “Eu abri a porta do carro pra pular, o desespero era tanto, mas o motorista manobrou e eu entrei novamente - fomos obrigados desviar de rota, orientados por outros sobreviventes, funcionários da Vale em uma outra caminhonete, fomos seguindo eles em uma estradinha, subimos em um trecho onde um trator entupiu uma vala criando uma passagem para as pessoas, indo todos para uma região que apresentava segurança: “Nessa área foi aparecendo muitas pessoas, fiquei feliz quando vi a mulher e as crianças que havíamos avisado, tinha umas 60 pessoas no local, que conseguiram se salvar, mas acredito que só na mina mais de 300 morreram”, desabafou. “Ficamos por cerca de três horas ilhados no local, com muita sede devido, desorientados, sem saber como sairíamos dali. E ali só o meu telefone funcionava. Consegui falar com meu chefe e ele perguntou se a equipe estava bem e falou para economizar bateria, pois iria mandar um helicóptero nos resgatar e passaria o meu número para o piloto fazer contato sobre nossa situação e o local onde estávamos”. “Eu tinha 60% da bateria e outra bateria reserva, todo mundo estava ligando pra mim e eu sem poder falar direito, explicando que estava bem mas não podia falar muito para economiza bateria – tinha esquecido que havia outro celular em minha mochila com 80% de carga”, lembrou. Segundo Leonardo a aeronave tentou pousar para o resgate, mas além de estar levantando muita poeira estava também levantando pedras, ficando difícil dele aterrissar. Posteriormente bombeiros aterrissaram em outro local e se dirigiram até onde estavam os sobreviventes e providenciaram o resgate de todos, que foram levados para instalações seguras e Leonardo foi para Nova Lima onde estava sediado, quando a empresa li- berou a equipe para irem para suas casas tranquilizar as famílias. Não trabalho mais nessa área Durante o depoimento ao Tribuna, Leonardo disse que uma coisa chamou sua atenção – não houve nenhum alerta, nenhum som de sirene, não existia rotas de fugas, nenhuma sinalização: “Se para as pessoas que trabalham no local há algum tempo já é difícil fugir, escapar, se salvar, imagina para quem não conhece a área?”, indagou Leonardo, inconformado. Abalado com a tragédia, após passar alguns dias com a família, Leonardo retornou à Belo Horizonte solicitando baixa da empresa. Ele nos disse que apesar de precisar do trabalho não vale a pena colocar a vida em risco: “Todos precisamos de trabalho, precisamos sustentar nossas famílias mas devemos colocar nossa vida em primeiro lugar. Essas barragens não oferecem segurança alguma, nenhuma oferece”, disparou.

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12Janeiro / Fevereiro de 2019 Águia Cinzenta – a maior e mais rara águia da Bacia Por: João Sérgio Bacia do Piracicaba - Na edição número 245 do “Tribuna” falamos da águia-serrana, a segunda maior águia que ocorre na bacia do Piracicaba. Hoje vamos falar da águia-cinzenta (Urubitinga coronata), que com seus 3 kg de peso e 85 cm de comprimento é a maior e também a mais rara águia encontrada na nossa bacia. Essa magnífica águia está em perigo de extinção (EN) devido principalmente à destruição do habitat, à caça ilegal e ao uso desregrado de pesticidas que acabam por contaminar suas presas e, por conseguinte, as próprias águias. Para se ter uma ideia de quão rara e difícil é encontrar essa espécie, nas últimas estimativas ha- João Sérgio via cerca de 1.000 aves adultas distribuídas em toda sua área de ocorrência, que abrange o centro-sul do Brasil, além de países como Argentina, Bolívia e Uruguai (acredita-se que neste último país esteja provavelmente extinta). Outro dado interessante e que ilustra ainda mais a dificuldade de encontrar um bicho desses é a imensa área de seu território, um Luiz Salvador Jr João Sérgio único indivíduo ocupa 50.000 hectares! Tive a grande sorte e privilégio de encontrar por duas vezes essa águia na nossa bacia, as duas na mesma localidade, conhecida como Morro Agudo, em Rio Piracicaba. Outra coincidência é que as duas aves registradas eram exemplares imaturos, o que indica que provavelmente há outro casal se reproduzindo na bacia. Até onde sei só se conhece um ninho dessa imponente águia na nossa bacia, no município de Marliéria. No site Wikiaves temos registros de um casal avistado em João Monlevade, em 2016; um indivíduo adulto em Antônio Dias, em 2013; um jovem, em Itabira, jul/2018; um adulto, em São Domingos do Prata, em 2012 e outro jovem, em Timóteo, out/2018. Tatus e grandes cobras peçonhentas, como a cascavel, estão entre suas presas favoritas, mas no seu cardápio podemos incluir também seriemas adultas, teiús, roedores, gambás entre outros. Um dos registros mais fantásticos já feitos dessa águia, do grande amigo e pesquisador Luiz Salvador Jr., foi realizado em Mariana, em 2012, quando ele conseguiu capturar o exato momento quando uma águia-cinzenta adulta predava um tatu. Aproveito para agradecê-lo pela cessão de uso de sua foto para essa coluna. Vale relembrar que os predadores de topo de cadeia, como as águias, desempenham importantíssimo papel no meio ambiente, ajudando a controlar a população de diversas espécies, eliminando indivíduos doentes que poderiam contagiar outros etc. Portanto caros amigos leitores, é sempre bom tê-las por perto, seja para admirá-las em toda sua altivez, seja para desfrutarmos de um meio ambiente sadio, equilibrado. 26 de maio a 5 de junho - Ouro Preto a Ipatinga

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