Fernanda Fragateiro: Processo

 

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Description

Exhibition Catalogue, MIECST, 2018 Santo Tirso

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FERNANDA FRAGATEIRO PROCESSO

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Apresentação Introduction Joaquim Barbosa Ferreira Couto p. 8 Bairro 6 de Maio. Espaço de memória Bairro 6 de Maio. Space of memory Álvaro Moreira p. 10 Comum e Luminoso Ordinary and Luminous Joaquim Moreno p. 16 PROCESSO p. 24 Lista de obras List of works p. 112

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Give Up Art, 2018 (estudo/study) 6

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Apresentação Este é um espaço de circunstância, de apresentação de um projeto expositivo da autoria de uma escultora consagrada, cuja obra constitui uma referência incontornável em Portugal. O seu trabalho caracteriza-se por uma marcada interdisciplinaridade, onde se cruzam e relacionam diferentes expressões plásticas, nomeadamente em obras que dialogam com o espaço onde se inserem e o espetador que muitas vezes é convocado para uma ação performativa que completa a obra, como é patente na escultura Eu espero, 1999, produzida no V Simpósio de Escultura, realizado em 1999, que hoje integra o acervo do Museu Internacional de Escultura de Santo Tirso. A exposição em apreço revela uma abordagem fortemente vinculada à arquitetura, nomeadamente à sua dimensão social e política que, apesar de profundamente minimal, permite uma aproximação a níveis diferenciados, sublinhando a natureza integradora do Museu Internacional de Escultura Contemporânea, área privilegiada de confronto de várias correntes artísticas contemporâneas e de divulgação das múltiplas expressões que atualmente compõem o espectro criativo, afirmando-se como um território plural, de produção de conhecimento e como polo aglutinador de projetos inovadores, potenciando a singularidade da relação única que as obras que compõem o seu acervo estabelecem entre os cidadãos e a arte. Neste enquadramento a exposição Processo, que convido a visitar, pela sua natureza e qualidade, constitui um significativo contributo na afirmação deste projeto que, progressivamente, se vem consolidando no contexto cultural do país, objetivado em critérios de qualidade em estrito respeito pela sua missão, contribuindo dessa forma para o desenvolvimento socioeconómico da região. Joaquim Barbosa Ferreira Couto Presidente da Câmara Municipal de Santo Tirso Introduction It is a great honour for the City to introduce this exhibition featuring a widely acclaimed sculptor, whose work is already an inescapable reference in the Portuguese artistic scene. Fernanda Fragateiro’s oeuvre has a clear interdisciplinary character, in which different types of plastic expression are interwoven, leading to artworks in dialogue with their sites, as well as with viewers, who are often asked to complete the piece through performative interaction. That is the case of Eu Espero, 1999 (“I wait”), built during the 5th Sculpture Symposium held in 1999, and currently part of the collection of the Santo Tirso International Museum of Contemporary Sculpture. The approach chosen for Processo shows a strong relationship with architecture, especially in what concerns its social and political dimension. Though extremely minimal, the pieces on display allow for their appropriation at different levels, thus highlighting the comprehensive nature of the International Museum of Contemporary Sculpture — a privileged forum for the coming together of diverse contemporary artistic trends and for the dissemination of the multifold expressions making up the creative space. Thus, the International Museum of Contemporary Sculpture has become not only a territory of pluralism and production of knowledge, but a unifying centre for innovative projects, strengthening the unique relationship established between art and the people of Santo Tirso, due to the artworks comprised in its collection. I therefore encourage everyone to visit this exhibition which, due to its nature and excellence, is a remarkable contribution for the growing consolidation of this project within the Portuguese art scene, on the basis of strict quality criteria in perfect tune with its mission, thus contributing towards the region’s socio-economic development. Joaquim Barbosa Ferreira Couto Mayor of Santo Tirso

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Bairro 6 de Maio. Espaço de memória O trabalho de Fernanda Fragateiro é fortemente alicerçado por subtis operações que a artista executa sobre a paisagem ou objetos existentes, num processo que procura revelar histórias contidas em si mesmo. É o que sucede na peça que integra o acervo do Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso, Eu espero, 1999, instalada no Parque D. Maria II, onde “constrói” um mundo privado, íntimo e especial, em que a composição tem um valor simbólico e sentimental que configura um universo aparentemente ambíguo, no qual, um “banco” transforma-se numa obra de arte. Da mesma forma, como ocorre nesse caso, as soluções plásticas encontradas pela autora, geralmente caracterizam-se por uma marcada interdisciplinaridade, onde se cruzam e relacionam diferentes expressões, nomeadamente através da relação com o espaço onde se inserem e do diálogo que estabelecem com o espetador que muitas vezes é convocado para uma ação performativa que complementa a obra. As suas propostas artísticas são sempre um meio para exprimir e partilhar ideias, perceções ou interrogações, em que cada elemento se torna uma referência idiomática, entrelaçando um discurso de múltiplas leituras e interpretações, onde se reconhecem vínculos culturais sincretizados com vivências e experiências pessoais. A referência a Margaret Cameron na peça Eu espero, que nos revela um retrato angelical da sua sobrinha, Rachel Gurney, inscrita sobre a frieza do aço inoxidável do banco, associada à sua localização reservada e protegida, marginal ao caminho, são “sinais” particulares que exigem uma disposição meditativa no exercício individual de interpretação desta obra singular. Ao longo do percurso de Fernanda Fragateiro, a escultura e a instalação desenvolvem-se num sentido de investigação sobre o espaço nas suas variadas manifestações fenomenológicas, mantendo sempre uma perspetiva socialmente determinada e interveniente, como sucede na obra 6 de Maio, produzida especificamente para esta exposição. Processo, reúne um conjunto de esculturas produzidas nos últimos anos, que se reconfiguram e adaptam ao espaço, às quais se juntam um núcleo de obras concebidas especificamente para o lugar. Bairro 6 de Maio. Space of memory Fernanda Fragateiro’s vast oeuvre is strongly rooted in subtle changes made to actual objects and landscapes, through a process intended to unfold self-contained stories, as is the case of Eu espero, 1999, found in Parque D. Maria II as part of the collection of the Santo Tirso International Museum of Contemporary Sculpture. Through that piece, Fragateiro “built” a private, intimate, special world, in which the composition has a symbolic and sentimental value, thus modelling an apparently ambiguous universe where a “park bench” is reconfigured as a work of art. Similarly, the artist usually finds plastic solutions of clear interdisciplinary nature, in which different types of expression are interwoven, particularly due to the relationship between each piece and its site, as well as to a dialogue with the viewer, who is often asked to complete the piece through performative interaction. Her artistic proposals are always a means for expressing and sharing ideas, perceptions or questions, turning each element into an idiomatic reference and building a discourse allowing for multiple readings and interpretations, in which cultural bonds and personal experiences are syncretised. The reference to Margaret Cameron in Eu espero — which shows an angelic portrait of Rachel Gurney, the photographer’s niece, embedded into the cold stainless steel of the bench —, as well as its secluded position off the trail, are both particular “signals” demanding a meditative state of mind in order to make a subjective interpretation of this unique piece. Along Fragateiro’s entire career, sculpture and installation have been developed as a way of delving into issues of space in its diverse phenomenological manifestations, though at all times keeping a socially determined and interventional perspective, as is the case of 6 de Maio, especially built for this exhibition. Processo comprises a group of sculptures produced in recent years, though reconfigured and adapted to this particular venue, as well as a few pieces specifically conceived for this museum. The exhibition as a whole features different research materials, methodologies and contents, which explore and reveal the importance of the artist’s working process; the plurality of materials and stimuli converging into the construction of the pieces — drawings, photographs, books, pages

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O trabalho desenvolve-se a partir de várias matérias, metodologias e conteúdos de investigação, pretendendo explorar e dar a ver a importância dos seus processos de trabalho; a pluralidade de materiais e estímulos que convergem para a construção das peças — desenhos, fotografias, livros, páginas de revistas, conversas, restos de materiais, ensaios de escala, testes cromáticos —, eles mesmos transformados em matéria-prima. Através destas obras e das soluções expositivas encontradas, constrói-se um forte diálogo com a arquitetura do espaço da autoria projetiva de Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura, assim como com os conteúdos do núcleo de Arqueologia do Museu Municipal Abade Pedrosa, acrescentando ao seu espólio destroços do autoconstruído e recentemente demolido Bairro 6 de Maio, na Amadora, na qual se estrutura uma proposta artística a que nos poderíamos referir como sendo uma abordagem de construção de uma “arqueologia da contemporaneidade”. Aqui, do ponto de vista disciplinar da Arqueologia, subverte-se o elementar princípio metodológico de valorização do objeto/ documento recolhido aleatoriamente num contexto específico e pretérito, já disfuncional, no qual os fragmentos reminiscentes, por norma, integram realidades complexas e incoerentes, que se pretendem reconstruídas através de nexos de casualidade e associações tecnofuncionais que, uma vez estabelecidos, permitem a teorização sobre domínios da imaterialidade das comunidades que documentam, nas múltiplas aceções que o termo compreende e a existência humana consente. A Arqueologia é uma ciência cujo propósito último consiste em reconstruir realidades humanas nas suas múltiplas manifestações e expressões a partir da interpretação dos vestígios materiais da sua existência passada, sendo, nessa medida, intrinsecamente antropológica, pois pretende construir um conhecimento especulativo e racional sobre a sua natureza. Aos objetos criteriosamente “selecionados” (documentos escritos, restos arquitetónicos, entrevistas, música), que se pretendem preservados como testemunhos materiais, “arqueológicos”, agregam-se referências culturais estranhas a essa realidade (livros, estudos científicos) de forma a que a proposta escultórica não só documente a dimensão física desta realidade sociológica enquanto memória de uma marginalidade social que a História não reconhece, mas, fundamentalmente, estruture from magazines, conversations, discarded material, scale models, colour tests — are in turn transformed into raw material. Both the pieces and their display organization establish an eloquent dialogue with the building designed by architects Álvaro Siza Vieira and Eduardo Souto de Moura, and with the archaeological collection contained in the Abade Pedrosa Municipal Museum, through the addition of remains coming from Bairro 6 de Maio, a spontaneous settlement, recently demolished, in the city of Amadora. These artefacts work as the backbone of an artistic proposal that may be seen as the construction of an “archaeology of the contemporary past”. The main methodological principle of Archaeology as a field of study is therefore subverted, i.e., the validation of an object or document randomly collected from a specific and no longer functional past location, in which the remaining fragments are usually integrated into complex and incoherent realities. Those fragments are meant to be reconstructed by means of causal nexus and techno-functional associations which, once established, allow for theoretical speculation about the immaterial spheres of the communities to which they once belonged, according to the way in which those spheres are defined and within the boundaries of human experience. As the ultimate purpose of Archaeology is the reconstruction of human realities in their diverse manifestations and expressions, through the interpretation of material vestiges of past existence, it is therefore a profoundly anthropological science, trying to build rational, speculative knowledge about human nature. In addition to carefully “selected” objects (written documents, architectural remains, interviews, music), meant to be preserved as material, “archaeological” testimonies, Fragateiro’s sculptural project includes cultural references that are alien to that reality (books, scientific texts), in order to document not only its physical sociological dimension as the memory of a social marginality unacknowledged by History, but mainly to organise a metaphoric and reflexive proposal, based on intellectualised references to the contemporary, particularly creative, domain, in connection with architecture and painting Espèces d’espaces (Georges Perec, Galilée, 2000) and Dictionnaire de la Peinture Abstraite (Michel Seuphor, Fernand Hazan, ed., Paris, 1957). Ultimately, 6 de Maio, due to the construction of a fictional archaeology in which objects designed through improbable causal links 12

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uma proposta metafórica e reflexiva, ancorada em referências intelectualizadas da contemporaneidade, nomeadamente do domínio criativo, associadas à arquitetura e à pintura Espèces d’espaces (Georges Perec, Galilée, 2000) e Dictionnaire de la Peinture Abstraite (Michel Seuphor, Fernand Hazan, ed., Paris, 1957). Em última análise, a peça 6 de Maio, a partir da construção de uma arqueologia ficcional em que os objetos são providos de novas funções e sentidos, delineados a partir de relações de causalidade improváveis numa abstração formal extrema, permite a construção de várias narrativas, interpretações e significados, tendo como alicerce meditativo questões relacionadas com a identidade, a essência cultural enquanto fator absolutamente imprescindível a uma condição cidadã plena, mas também de forma muito direta e interpelativa, com a história de homens e mulheres correntes e vulgares, das necessidades triviais do seu quotidiano, da sua religiosidade e dimensão transcendental, dos seus sonhos e do seu modo de viver, sentir e expressar. Neste plano, a asserção artística de criar um espaço de memória, objetivado através de uma peça escultórica, configura não só uma perspetiva socialmente determinada, mas, fundamentalmente, um horizonte conceptual esclarecido e atento, que, neste caso, revela ter como premissa angular a complexidade social e as múltiplas circunstâncias e aspetos que a conformam. Apesar de profundamente minimal e conceptualmente complexa, a proposta artística de Fernanda Fragateiro permite uma aproximação a níveis diferenciados da perceção, sublinhando a natureza integradora do museu, que aspira a ser um espaço de confronto de várias correntes artísticas contemporâneas, assim como de divulgação das múltiplas expressões criativas que atualmente compõem o espectro das artes, afirmando-se como um território privilegiado de pensamento, plural e abrangente, de produção de conhecimento e como polo aglutinador de projetos inovadores, potenciando a singularidade da relação que as esculturas que compõem o seu acervo estabelecem entre os cidadãos e a arte. Álvaro Moreira Museu Municipal Abade Pedrosa | Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso in extreme formal abstraction are bestowed with new purposes and meanings, allows for the production of several narratives, interpretations and meanings based on the reflection over issues related to identity and cultural essence as a fundamental factor for full citizenship. At the same time, the piece straightforwardly confronts the viewer with the history of ordinary men and women, their simple every-day needs, their religious beliefs and transcendental dimension, their dreams and way of life, their feelings and self-expression. The artistic assertion, insofar as it creates a space of memory through a sculpture, not only presents a socially determined perspective, but, above all, a self-conscious and insightful conceptual horizon, which in this case lies on the basic premise of social complexity and of its diverse circumstances and aspects. Though extremely minimal and conceptually complex, Fernanda Fragateiro’s proposal allows for its appropriation at different levels of perception, thus highlighting the comprehensive nature of the Museum — a privileged forum for the coming together of diverse contemporary artistic trends and for the dissemination of the multifold expressions making up the creative space. Thus, the Museum has become not only a territory of pluralism of thought and production of knowledge, but a unifying centre for innovative projects, strengthening the unique relationship established between art and the people of Santo Tirso, due to the artworks comprised in its collection. Álvaro Moreira Municipal Museum Abade Pedrosa | International Contemporary Sculpture Museum of Santo Tirso

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