Imagens que Valem Mil Palavras

 

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Fotografia, Memória, Identidade FMId

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Cadernos de Sociomuseologia - 4-2014 (vol 48) 7 Imagens que valem mil palavras… A experiência do arquivo de memórias do Museu de São Brás1 Lorena Sancho Querol2 Emanuel Sancho3 Resumo Nos países do sul da Europa as políticas de ajustamento socioeconómico que se vêm aplicando estão a traduzir-se num enfraquecimento progressivo da acção museal nas suas diversas formas. Questionados no âmbito dum processo de transformação que envolve uma profunda alteração dos modelos de gestão e dos valores vigentes, os museus procuram agora uma Museologia Sustentável. Neste contexto emergem novas fórmulas museológicas que associam a sustentabilidade à criatividade social e à valorização da diversidade. Este é o caso do Museu do Trajo em São Brás de Alportel (MuT), no Algarve, e da sua “Museologia em camadas”. Um modelo que assenta na gestão partilhada, tomando como ponto de partida o conhecimento profundo do território, a construção colectiva de sentidos 1 O presente artigo constitui um produto científico do projecto de pósdoutoramento da autora do texto. Sob o título “A Sociedade no Museu: estudo sobre participação cultural nos museus locais europeus” (SOMUS), este projecto conta com o apoio do Programa de Pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, do Ministério da Educação português (2014-2016). 2Lorena Sancho Querol. Investigadora em pós-doutoramento, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra. 3 Emanuel Sancho. Diretor do Museu do Trajo, São Brás de Alportel, Algarve.

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8 Lorena Sancho Querol, Emanuel Sancho culturais, e a resignificação de saberes ancestrais com o objectivo de contribuir para um desenvolvimento equitativo. Neste artigo apresentamos a estrutura, o método e os resultados de um dos seus projectos de referência: Fotografia, Memória e Identidade (FMId). Cruzando a investigação colaborativa com a cartografia de sentidos associados às fotografias de cada família, FMId baseia-se no exercício regular de uma arqueologia memorial que desemboca na descodificação de diversos segmentos da cultura local. As suas ressonâncias deixam marca nos restantes processos e funções museológicas, mas também em cada uma das famílias envolvidas no projecto, que agora possui uma conta corrente da memória no Museu da sua terra. Palavras-chave: Museologia em camadas; fotografia; cartografias; participação. Abstract In the countries of southern Europe, the economic adjustment policies being applied are causing a progressive weakening of the museological action in its various forms. Questioned within the transformation process involving a profound change of the management models and of the prevailing values, museums seek a Sustainable Museology. In this context, new museological formulas emerge associating sustainability to social creativity and to valorization of diversity. This is the case of the Costume Museum in São Brás de Alportel (MuT), in the Algarve, and its "Museology on layers". A model based on shared management, taking as its starting point a deep knowledge of the territory, the collective construction of senses and local cultural meanings, and the reframing of ancestral knowledge, with the objective of contributing to an equitable development. In this paper we present the structure, the method and the results of one of the reference projects: Photography, memory and identity (FMId). In this case, a contrastive analysis between the collaborative research and the cartography of meanings associated with pictures of each family is performed. This exercise of memorial archaeology leads to decoding diverse segments of local culture. Its resonances reach every one of the museological functions and processes of MuT, but also each of the families involved in the project, have now a current account of memory in their hometown Museum. Key-words: Museology on layers; photography; cartography; participation.

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Cadernos de Sociomuseologia - 4-2014 (vol 48) 9 1. Introdução Cartografar as realidades socioculturais relacionadas com um território, uma temática ou um acontecimento, é hoje um gesto natural e necessário para qualquer museu que queira desenvolver as suas funções junto das comunidades e coletivos que com ele compartem um determinado território (Clark, Sutherland e Young, 1995). Originalmente associada a tipologias museológicas específicas - como a dos museus etnológicos - pelo seu potencial de estudo das formas de organização e ocupação dos territórios, esta ferramenta é uma das chaves que conduz à construção de uma Museologia de cariz local, comprometida com a valorização da diversidade cultural, e com o desenvolvimento sustentável. O projeto que aqui apresentamos pertence precisamente a este tipo de Museologia, hoje em dia mais conhecida como Sociomuseologia. Trata-se de um museu local situado numa pequena vila do Algarve, cujo sentido e razão de ser são as pessoas: o Museu do Traje de São Brás de Alportel. A diferença radica em que não falamos só das pessoas na qualidade de público-visitante, mas também, e sobretudo, das pessoas como verdadeiras operárias da construção do processo museológico. Neste contexto centramos a nossa atenção num dos projetos que aí se encontram em curso. Recebe o nome de Fotografia, Memória e Identidade, e consiste numa experiência que coloca a memória coletiva no centro do processo, reconhecendo-lhe o seu poder de mediadora entre passado e presente (Reginaldo, no prelo). O ponto de partida são um conjunto de imagens perdidas no tempo e espalhadas pela Vila, imagens que, ao longo do processo se coletivizam e ganham voz, imagens que permitem cartografar a história da Vila em ponto pequeno e os processos de construção identitária em ponto maior (McLucas, s.d.).

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10 Lorena Sancho Querol, Emanuel Sancho A final, o “Menu do dia” também é feito de lugares, pessoas, ingredientes ou ideias que viajaram no tempo até a nossa mesa. 2. Um museu do mundo, numa escala local O projeto do Museu do Traje de São Brás de Alportel segue as linhas de atuação definidas pela Sociomuseologia, desenvolvendo a partir daí um modelo que, no essencial, é ditado pelas pessoas que interferem no seu processo quotidiano de construção. Herdeira da corrente museológica que conhecemos como Nova Museologia (desde 1972), e resultante da sua evolução e do reconhecimento da sua relação com outras ciências sociais a partir da década de 1990, a Sociomuseologia coloca como centro de gravidade do processo museológico a comunidade local. A partir dela centra a sua atuação na utilização de metodologias participativas que privilegiam o desenvolvimento integrado da pessoa e do território pela via da cultura4. Num contexto desta natureza… O museu é visto como um instrumento de democratização da cultura, que reconhece a relevância da diversidade local para o desenvolvimento integrado (Varine 2007: 23), e que por isso, age junto das pessoas para construir novas formas de equilíbrio. Tomando como ponto de partida ingredientes como a experiência social, o saber associado aos modos de habitar, ou os usos da natureza, este museu se propõe atingir objetivos relacionados com a inclusão social, a sustentabilidade nas suas múltiplas vertentes ou a educação não formal dos diversos segmentos da população local. Em suma, falamos de museus que agem 4 Mais informação sobre os princípios e práticas da Sociomuseologia em: Sancho Querol, 2013: 167-178.

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Cadernos de Sociomuseologia - 4-2014 (vol 48) 11 com pessoas reais e problemas reais, em tempo real (Ṡola 2007: 38). Sob esta perspetiva, o património é o resultado de um processo de identificação e seleção de realidades que, pela sua carga simbólica, e pelo seu poder de representação e de comunicação, refletem a evolução das nossas sociedades, das suas formas de vida, e dos valores culturais a elas associados. Assim, para além de ajudar-nos a perceber melhor a origem e evolução dos processos vitais de que somos parte, ou a definir os traços da nossa identidade social e cultural no tempo, a categoria património é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento da consciência cultural e, consequentemente, para o desenho do presente. Em outras palavras, o património é uma categoria “boa para agir” (Gonçalves, no prelo). Museu e património, são precisamente as duas peças centrais deste artigo, com algumas pequenas diferenças de forma e de fundo em relação aos usos sociais que deles se faz normalmente, que vêm definidas pelo caso de estudo que nos ocupa: um projeto de arqueologia memorial, que acontece num museu de cariz etnográfico, situado numa zona rural. Assim, encontramo-nos com um museu local cujas origens se remontam ao ano de 1983, quando uma instituição de solidariedade social e cultural, a Santa Casa da Misericórdia, duma vila com 10.000 habitantes, São Brás de Alportel, se propôs criar um museu etnográfico para documentar a cultural local, com o objetivo de salvaguardar gestos próprios do território e das suas gentes, que se encontravam em rápida transformação. Desta forma, e como resultado de um longo caminho que se encontra documentado em trabalhos anteriores (ver Sancho Querol e Sancho, no prelo), surgiu o Museu do Trajo de São Brás de

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12 Lorena Sancho Querol, Emanuel Sancho Alportel, denominado de forma abreviada MuT. A partir daqui, o que torna diferente o MuT é o facto de ter criado, ao longo de todos estes anos, um método de trabalho próprio que assenta na definição de uma estrutura de camadas de ação social, cultural, ambiental e económica (Sancho Querol e Sancho, o.c.), a partir da qual se desenvolve a ação museológica com a comunidade. Como resultado, o MuT tem hoje em curso projetos de educação patrimonial com as escolas locais, de dinamização de saberes locais em vias de desaparecimento com artesãos/ãs de diferentes proveniências e faixas etárias, de estudo de tradições ligadas à utilização dos recursos naturais do território, ou de inventário participativo dos modos de habitar o mundo rural junto das pequenas comunidades espalhadas pela serra. Finalmente, no lugar do património encontramo-nos com um projeto que responde pelo nome de Fotografia, Memória e Identidade, ou FMId, que se propõe restituir à população, uma propriedade cultural coletiva como a memória (Varine 2007: 22), preservando a sua natureza criativa, e garantindo a sua presença e os seus usos contemporâneos, no âmbito mais alargado possível de proprietários/as y usuários/as (Sola 2007: 32) através do museu. Com este objetivo, o FMId toma como ponto de partida as fotografias de família, isto é, imagens que, regra geral, não foram feitas com o propósito de documentar contextos sociológicos, etnográficos ou de alguma outra variante científica relacionada com o estudo da realidade humana. Outrossim, pelas suas características, espelham os mais diversos aspetos da vida quotidiana da vila ao longo do tempo, possuindo em comum o facto de terem sido validadas pelos seus proprietários e proprietárias para refletirem a imagem que desejam transmitir de si próprios/as. A partir deste universo visual, que nos liga ao mundo real, ganha vida

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Cadernos de Sociomuseologia - 4-2014 (vol 48) 13 um processo de interpretação da imagem junto de uma equipa de agentes locais, com quem foi possível cartografar a evolução da história e da identidade local com um nível de pormenor nunca sonhado. 3. Arqueologias da memória: a fotografia como semente do diálogo no tempo “Las imágenes se hicieron al principio para evocar la apariencia de algo ausente. Gradualmente se fue comprendiendo que una imagen podía sobrevivir al objeto representado; por tanto podría mostrar el aspecto que había tenido algo o alguien, y por implicación como lo habían visto otras personas. Posteriormente se reconoció que la visión específica del hacedor de imágenes formaba parte también de lo registrado […] Esto fue el resultado de una creciente consciencia de la individualidad, acompañada de una creciente conciencia de la historia.” (Berger 2000: 16) Criado em 2009 como um exercício de arqueologia memorial em torno do território do concelho de São Brás, o projeto FMId toma como ponto de partida um objeto memorial - a fotografia de família - para descodificar um amplo espectro de segmentos da cultura e da sociedade locais, até aqui desconhecidos pelo Museu e por grande parte da comunidade. Esta ideia começou a ganhar voz quando se decidiu criar um espólio de memória visual local que juntasse as coleções fotográficas pessoais existentes na Vila e arredores, para as poder disponibilizar ao público por meio do Museu e das novas tecnologias. Quer pela parte das pessoas que se disponibilizaram para partilhar a sua coleção pessoal de imagens, quer pela parte do Museu, sentiu-se desde o princípio a necessidade de superar a mera identificação formal da imagem com fins

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14 Lorena Sancho Querol, Emanuel Sancho arquivísticos. Os anos e a reflexão resultante do trabalho em curso, trouxeram novas dimensões que permitiram perceber uma multiplicidade de aspetos relacionados com a identidade, a profissão, a relação entre as pessoas retratadas, a denominação e função associadas aos lugares, ou os acontecimentos e os saberes-fazer entretanto desaparecidos. Foi assim que o Museu percebeu que, para além da recolha, documentação e disponibilização das imagens, o grande desígnio deste arquivo visual seria a democratização das memórias a elas associadas através de uma instituição como o museu, isto é, o desenvolvimento da sua responsabilidade social numa área tão estruturante como a da memória coletiva. Sob esta perspetiva, o MuT passou a ser, a um mesmo tempo: o ponto de partida e a base de uma rede de habitantes locais que, percebendo a importância da iniciativa, contribuiria para a sua divulgação e para o envolvimento de novas famílias interessadas em participar; o depositário das memórias de cada família; o responsável pela recolha, organização e reutilização contemporânea do conhecimento que emerge com cada imagem descodificada. Desta forma, Museu e comunidade passaram a ser os principais beneficiários do exercício de memorização coletiva. 3.1. O Grupo da Fotografia “A história de cada fotografia está ligada a um destino favorável ou não, e às interpretações a que for sujeita nos museus, arquivos, acervos particulares e caixas de recordações familiares.” (Martins 2009: 297) O grupo do FMId é um grupo aberto, dinâmico e com interesses diversos, que conta com uma equipa fiel de colaboradores/as, à qual, com frequência, se juntam novos/as participantes ou se retiram alguns dos que tinham aparecido

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Cadernos de Sociomuseologia - 4-2014 (vol 48) 15 temporariamente. Entre eles/as encontramos com pessoas que desejam partilhar as suas imagens, que pretendem contribuir para a identificação e documentação de imagens alheias, que simplesmente gostam de escutar e aprender com a experiência em curso, ou que procuram companhia para partilhar a nostalgia dos tempos da infância e juventude num ambiente construtivo. Em jogo está a descodificação das raízes e da evolução da sociedade sãobrasense, mas também o desenvolvimento de uma outra consciência social e cultural essencial na construção do presente. Neste sentido, o passar dos anos ajudou a construir uma sólida equipa, que atualmente está formada por um “núcleo duro” de 9-10 pessoas, comprometidas com a construção de um fundo memorial da localidade a longo prazo (ver Imagem 1). A este grupo fixo, cujas idades variam entre os 50 e os 85 anos, acresce por vezes uma ou outra pessoa que partilha estes interesses e esta causa, mas que, por motivos pessoais, não pode juntar-se ao grupo regularmente. Eles e elas constituem o Grupo da Fotografia, uma verdadeira equipa de Agentes de Memória local (Sancho Querol, no prelo) caracterizada pela diversidade de perfis, experiências e histórias de vida, e integrada por: João Pires da Cruz (expresidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel e estudioso autodidata da história local), Maria João Gaspar (ex-enfermeira ativa, voluntária e benemérita dedicada a casos sociais problemáticos), José Oliveira e Sousa (ex-militar interessado em história e património local), Luísa Pimenta e Maria João Caiado (duas costureiras com interesse na história local), Francisco Silva (corticeiro e ex-funcionário da Câmara Municipal), Amaro do Serro (ex-trabalhador corticeiro, e mais tarde proprietário de uma fábrica de cortiça, interessado nas memórias da terra), Inélida Gonçalves (cozinheira interessada em memórias de acontecimentos locais e construção de genealogias), Manuel Vargas (ex-camionista, e mais tarde empresário de camionagem, da industria corticeira).

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16 Lorena Sancho Querol, Emanuel Sancho Imagem 1: O Grupo da Fotografia (Abril 2014) Fonte: Arquivo do MuT5 Simultaneamente, o Grupo da Fotografia acaba por ser o elo de ligação do Museu à comunidade, pois não só forma parte dela, como goza da credibilidade e do respeito de cada uma das partes envolvidas no processo de construção deste Arquivo. Neste contexto, e em resposta as linhas de atuação do MuT, importa referir que o Grupo assumiu-se desde um princípio, não só como recoletor dos documentos junto da população local, mas também como força motriz de um projeto que representa, quer para eles e elas, quer para a comunidade sãobrasense, a transmissão de um legado próprio, essencial para perceber outras dimensões da história e da identidade da Vila. 3.2. A metodologia “Dezenho obtido pela luz, ou processo segundo o qual os objetos por si mesmos se dezenhão sem socorro de lapiz” (retirado de uma das primeiras noticias publicadas em 5 A totalidade das imagens utilizadas neste artigo formam parte do Arquivo do MuT.

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Cadernos de Sociomuseologia - 4-2014 (vol 48) 17 Portugal, para dar a conhecer as descobertas de Daguerre e Talbot. Revista Litteraria, Porto, março de 1839, in Sena 1998: 16) O projeto FMId assenta a sua atuação na utilização de metodologias participativas que envolvem a comunidade em cada um dos passos que dão vida ao processo. Inspirado nas ideias de Bourdieu (1965) e Barthes (1980) sobre aquela que nos parece ser uma “sociologia informal da fotografia”, FMId cruza a investigação colaborativa com a cartografia de sentidos associados às fotografias de cada família. A partir de aqui seu modus operandi baseia-se no exercício e partilha regular das memórias submersas no tempo e resgatadas no âmbito de uma atividade coletiva que acontece uma vez por semana no Museu. Assim, desde há 6 anos, todas as quintas feiras, as 15 horas, tem início a sessão de trabalho do Grupo da Fotografia, com participação de pelo menos um representante do MuT. Esta sessão tem uma duração aproximada de 3 horas, ao longo das quais segue-se uma ordem previamente definida pela tipologia e conteúdos dos espólios fotográficos que aguardam a sua vez de ganhar voz, ou então pelas temáticas que a equipa quere desenvolver em profundidade, para completar as pesquisas em curso. Neste contexto, o Museu assume o papel de mediador, ajudando a orquestrar o processo de pesquisa, e responsabilizando-se pela guarda e utilização contemporânea da informação que emerge em cada sessão de trabalho. Com este objetivo, a equipa do MuT criou e mantem uma base de dados em formato digital, que já incorporou cerca de 37.000 imagens representativas de 400 famílias do Concelho e limítrofes, e também documentação gráfica e audiovisual associada às imagens. Esta base abarca todos os períodos, lugares e segmentos sociais do território, organizados segundo 5 categorias, que vão sendo afinadas

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18 Lorena Sancho Querol, Emanuel Sancho conforme o espólio aumenta e se diversifica, e que foram pensadas a partir de uma pequena seleção de ideias e conceitos procedentes das áreas da Etnografia (Martins 2009: 312-314) e dos Estudos do Património (UNESCO 2003 e 2005). Assim, e tendo em atenção os temas de interesse num âmbito como o da memória local da comunidade, surgiram as cinco categorias ou campos temáticos que integram o arquivo, organizadas, pela sua vez, em subcategorias que seguem o critério alfabético, e que emergem a partir das imagens cartografadas. Sob esta perspetiva, convém dizer que o critério originalmente utilizado na definição do número de inventário, de caracter sequencial atendendo à ordem de entrada do objeto, foi substituído por aquele que fazia verdadeiro sentido para o Grupo, isto é, segundo as unidades familiares que habitam o território. Relativamente à dimensão material do objeto em estudo, quer seja ele fotografia, documento ou registo de outra natureza, o método utilizado no projeto prevê o empréstimo para efeitos de digitalização, seguido da devolução à respetiva família uns dias depois. Esta opção, que reconhece a dimensão sociocultural do objeto, assenta as suas bases nas teorias de autores como Crimp (1995, in Martins 2009: 299), para quem a fotografia perde a sua capacidade informativa quando é afastada do mundo ao qual pertence, e também nos princípios da Sociomuseologia. Desta forma, o Museu considera prioritária a “posse afetiva” dos objetos por parte de cada família, em detrimento da “posse efetiva” dos originais no arquivo da instituição. Por este motivo, o arquivo visual do FMId é maioritariamente composto por ficheiros digitais, estando apenas uma pequena percentagem de originais (aproximadamente 3% do total) arquivadas no Museu, pelo facto de proceder do seu arquivo antigo, ou porque, devido a

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Cadernos de Sociomuseologia - 4-2014 (vol 48) 19 situações especiais (processos legais, emigração, falecimento…), as pessoas optaram por doar os seus espólios ao Museu. Como resultado o arquivo encontra-se organizado nas cinco categorias que a seguir mostramos: Categoria 1 - PESSOAS Cultura popular: vestuário (trabalho e solene), indumentária tradicional, modas e contextos locais, ostentação, relações de poder. Fenómenos sociais: emigração, festas, rituais, cerimónias (casamentos, manifestações religiosas, funerais, bailes). Instrução e Educação: escolas, vida escolar, valores e princípios. Personalidades locais: poetas, políticos/as, empresários/as. Religiosidade: vida e morte, pagelas religiosas, manifestações do quotidiano, terminologia, simbologia. Sociedade local: estudos sociológicos, estudos genealógicos, demografia, relações de vizinhança, parentesco, alterações sociais, registo de alcunhas e suas origens. Categoria 2 - LUGARES Evolução urbana e do território: estudos geográficos, toponímia local extinta (oficial e não oficial), lugares, sítios, ruas. Monumentos locais e edifícios notáveis: alterações, restauros, transformações, arquitetura religiosa. Categoria 3 - INSTITUIÇÕES Associações, clubes e organizações: hierarquias, organização, valores, evolução. Mundo militar: história, poder, fardas, armas. Categoria 4 - ARTES E OFÍCIOS Arte: artistas, espólios de diversa natureza (gravura, caricatura...)

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20 Lorena Sancho Querol, Emanuel Sancho Fotografia: fotógrafos/as, técnicas, evolução da fotografia, amadores/as, fotógrafos/as viajantes, espólios fotográficos. Profissões: profissões tradicionais (desaparecidas e em transformação), artesanato, utilização de recursos naturais locais. Categoria 5 - DOCUMENTOS Documentos relevantes (associados a imagens): certidões e cédulas profissionais, correspondências, arquivo (público e privado), economia e finanças, depoimentos áudio/vídeo, registos de vida local. Papéis volantes: folhetos, anúncios, quermesses, cartazes 3.3. Os objetivos “Na medida em que os patrimônios encontram “ressonância” no corpo e na alma dos homens e mulheres que pretendem representar, opera-se um trabalho subjetivo de reconstrução do patrimônio, no qual a dimensão individual ou da personalidade individual é incontornável. Nesse sentido, a ressonância pode ser entendida como mais que a simples “... [evocação] no expectador das forças culturais complexas e dinâmicas de onde eles emergiram”. Na verdade trata-se de um trabalho permanente, interminável de reconstrução subjetiva. (Gonçalves, no prelo). Neste contexto, ao longo do processo de construção do arquivo foram sendo definidos alguns objetivos que refletem o espirito da equipa e do projeto, e também a relação de reciprocidade que se foi consolidando entre Museu e Comunidade, através de um território como o da memória e de um objeto musealizável como a fotografia. De entre eles gostaríamos de destacar os seguintes:

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Cadernos de Sociomuseologia - 4-2014 (vol 48) 21 a) Trabalhar as memórias visuais do território a partir dos arquivos de fotografia das famílias do concelho, visando a construção de um imenso álbum da comunidade capaz de descodificar cartografias sociais, culturais, rurais, e urbanas, há muito tempo esquecidas, e fundamentais para a compreensão e a construção do presente. b) Criar um corpus de conhecimento sobre a Vila e as suas gentes, diretamente proporcional ao nível de participação da população local. c) Construir o processo museológico de forma sustentada e participativa, visando o reconhecimento da diversidade sociocultural que caracteriza a comunidade e, simultaneamente, a criação de um acervo sobre a sua história e identidade. d) Encontrar o caminho certo para trazer as pessoas mais simples da comunidade (camponeses/as, pessoas com um nível baixo de escolaridade, donas de casa, …) até ao Museu, criando com elas uma relação de cumplicidade, onde o Museu adquire um outro estatuto, passando a formar parte do “círculo de amigos”. 3.4. As Reciprocidades: a devolução à comunidade como chave do processo museológico “MUSEUMS WORK IN CLOSE COLLABORATION WITH THE COMMUNITIES FROM WHICH THEIR COLLECTIONS ORIGINATE AS WELL AS THOSE THEY SERVE […] Museum collections reflect the cultural and natural heritage of the communities from which they have been derived. As such, they have a character beyond that of ordinary property, which may include strong affinities with national, regional, local, ethnic, religious or political identity…” (ICOM Code of Ethics for Museums, 2013, 6º Article)

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