Conto Infantil "As aventuras de Aquiles e Albertina"

 

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Conto Infantil LIFE Imperial

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Texto: Liliana Barosa Ilustrações: Paulo Alves

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Este conto ilustrado foi elaborado no âmbito do Projeto LIFE Imperial “Conservação da Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) em Portugal” (LIFE13 NAT/PT/001300), que tem como principal objetivo criar condições para a manutenção e o aumento da população de águia-imperial através da aplicação de um conjunto de Ações de conservação em quatro Zonas de Proteção Especial (ZPE) da Rede Natura 2000 (Tejo Internacional, Erges e Pônsul; Mourão/Moura/Barrancos; Castro Verde e Vale do Guadiana). Nota para os educadores: O presente conto visa o enriquecimento da exploração pedagógica, junto dos mais novos, de conteúdos relacionados com a conservação da águia-imperial-ibérica e do seu habitat. Neste contexto, este livro pode ser utilizado por pais e educadores como forma de sensibilização e de transmissão de conhecimentos. A sua dramatização e/ou ilustração pelos mais novos é desejável e recomendada por facilitar a consolidação dos conhecimentos adquiridos. Título: As aventuras de Aquiles e Albertina Texto: Liliana Barosa Ilustrações: Paulo Alves Coordenação da Edição: Paulo Marques (LPN) e Paulo Nascimento (CMCV) Design gráfico: Joaquim Rosa Impressão: Palma Artes Gráficas, Lda Edição: 1ª Edição, Castro Verde, Câmara Municipal de Castro Verde e LPN – Liga para a Protecção da Natureza (2017) Tiragem: 2000 exemplares, em Português Depósito legal: 445626/18 ISBN: 978-989-8451-13-2 Financiamento: A presente edição foi financiada a 75% pelo Programa Comunitário Europeu LIFE Natureza (LIFE13 NAT/PT/001300). Todos os direitos reservados. www.lifeimperial.lpn.pt

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Texto: Liliana Barosa Ilustrações: Paulo Alves

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Capítulo I As manhãs de janeiro tinham sido frias e chuvosas mas aquela manhã parecia querer dar tréguas, com o sol a espreitar tímido. Aquiles sentia a barriga vazia, há uns dias que não comia nada de jeito. Tinha ouvido os linces-ibéricos dizerem que os coelhos-bravos andavam muito doentes e que eram já muito pouquinhos, mas só quando começou a dispersar, voando em busca de um território para si, é que percebeu realmente como a situação era grave. Agitou as suas penas cor de palha, que faziam com que os humanos lhe chamassem “palhiço”. Saiu a voar do abrigo do montado para onde o alimento era mais abundante, na zona de campo aberto ou estepe cerealífera, como lhe tinha ouvido chamar pelas pessoas que semeiam lá o trigo. Voou durante algumas horas, aproveitando algumas correntes de ar quente que o levaram mais para cima no céu e de onde podia observar tudo. 3

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Estava ele lá no alto quando começou a ver alguns grifos vindos de todos os lados, a encaminharem-se para o mesmo local. Aquiles sabia o que isto significava: COMIDA! Apressou-se a acompanhá-los e rapidamente viu onde todos se reuniam. Já lá se encontravam cinco grifos, um abutre-preto e, à espera da sua vez, alguns corvos e milhafres-reais. Tentou aproximar-se dos restos do animal morto de que se estavam a alimentar mas os grifos não acharam muita piada e tentaram expulsá-lo dali. - “Eu sou uma águia-imperial-ibérica e vocês não me metem medo!” – disse Aquiles, investindo para o meio dos grifos. Eles assustaram-se e fugiram, deixando espaço para a jovem águia se alimentar. Ficou ela e o abutre-preto, que de tão grande que é, não se deixou intimidar. Aquiles encheu o papo tanto quanto conseguiu e afastou-se para repousar em cima de umas pedras. Claro que os corvos aproveitaram logo a oportunidade para acabarem com os restos que sobraram da carcaça. 4

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Capítulo II O dia despertou no montado. E com ele acordou também Aquiles. Passou a noite na azinheira mais alta que encontrou, longe do casal de águias-reais que, sempre que o veem passar, investem contra ele como se de flechas se tratassem. Não o querem no seu território e mostram-no bem sempre que ele passa. Aquiles já tinha percebido que seria muito difícil ficar nesta zona que ele tanto tinha gostado, tão tranquila. Quando um casal de grandes águias marca o seu território e começa a preparar o ninho, defende muito bem a sua “casa” e não gosta lá muito de ter outras águias como vizinhas logo ali ao lado. Regressou para caçar na planície e encontrou outras duas jovens águias-imperiais, “palhiços” como ele, que também andavam a vaguear, à procura de um companheiro para toda a vida e de um local para fazer o ninho. Eram eles o Tagus e o Andaluz. 5

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- “Então, já visitaram muitos sítios?” – perguntou Aquiles. - “Ui! Yá corremos tudo o que podes mirar desde arriba. Eu nasci no sul de Espanha e mira que vim aqui parar. Disseram-me que los montados del Alentejo eram lindíssimos e es verdad!” – respondeu o Andaluz, num “portunhol” muito engraçado. - “Eu nasci mais pertinho, ali ao pé de Idanha-a-Nova. Vim a voar até aqui mas a minha vontade é voltar para lá e criar perto do território dos meus pais.” – afirmou o Tagus. - “Então se calhar já vimos todos o mesmo… Por aqui não há muitas árvores grandes e robustas, que aguentem os nossos ninhos. “ – comentou Aquiles. - “E as que existem estão ocupadas ou estão em zonas onde há muita confusão…” – suspirou o Tagus. - “Ou pior!” – exclamou o Andaluz, a mais viajada de todas elas. “Nas minhas viagens ouvi histórias de águias-imperiais que têm sido perseguidas por pessoas que não percebem como somos importantes para que tudo na Natureza esteja equilibrado. E por isso fazem-nos mal, colocando veneno no campo e usando armas ou armadilhas.”. 6

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- “Mesmo sendo proibido pela lei dos humanos, infelizmente isso acontece muitas vezes, tanto em Espanha como em Portugal.” – concluiu triste o Tagus. Aquiles ficou muito preocupado com o que escutou. Já sabia que a sua espécie está muito ameaçada e que apenas cria na Península Ibérica mas ainda não se tinha apercebido de todos os riscos que corria. Mas, e agora que falaram nisso!, ele já tinha visto alguns Guardas com uns cães a farejar por todo o lado. Ao conversar com a águia espanhola percebeu que eles andavam à procura de veneno para o retirar do campo e tentar apanhar os bandidos! Ficou assim um bocadinho mais descansado. Afinal também havia quem os quisesse proteger! 7

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Capítulo III Passou um ano. Durante esse tempo, Aquiles manteve-se pelas planícies da Zona de Proteção Especial (ZPE) de Castro Verde. Ele tinha agora uma plumagem mesclada com penas beges e castanhas (mais penas claras do que escuras), parecia um autêntico tabuleiro de xadrez! Certa tarde quando regressava para a azinheira onde gostava de dormir, encontrou uma bonita fêmea com plumagem escura, quase adulta, onde até já se viam uns belos ombros brancos! Tentou meter conversa com ela: “Olá!” – disse ele timidamente. Ela não lhe ligou nenhuma e ele insistiu, atraindo a sua atenção com os seus chamamentos. “Uoq-uoq-uoq! Sou o Aquiles. Uoq-uoq-uoq! E tu, como te chamas? Uoq-uoq-uoq!” - “Olá. O meu nome é Albertina.” – sorriu-lhe ela. Entusiasmado, Aquiles fez um voo picado e agarrou-a pelas patas, fazendo com que ambos rodopiassem no ar. Largou-a e repetiu o gesto várias vezes. Terminada esta bonita parada, saíram os dois a voar em direção ao pôr-do-sol. Com a sua ousadia e destreza, Aquiles convenceu Albertina de que seria um ótimo parceiro. Nas semanas seguintes, entre caçadas e paradas nupciais, procuraram uma árvore forte onde pudessem fazer o ninho. Depois de algum esforço, encontraram um enorme eucalipto isolado numa área muito sossegada, com poucos caminhos e sem nenhum outro casal de grandes águias nas proximidades. 9

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Não muito longe tinham encontrado uma zona com alimento abundante, onde saltitavam diversos coelhos e também existiam perdizes e lebres. - “Que sítio excelente para viver! Vamos estabelecer o nosso território aqui e construir o nosso ninho nesta árvore!” - exclamou Aquiles entusiasmado. “Temos que fazer o ninho no topo da árvore para estarmos sempre vigilantes e podermos aterrar nele facilmente.” Aquiles andava muito empenhado a recolher paus para o seu ninho. Tristemente, num dia mais ventoso, a construção não aguentou e caiu. - “Oh não…” – suspirou Aquiles. “Tanto trabalho que já tivemos…”. - “Não te preocupes, querido.” – animou-o a Albertina. “Ainda vamos a tempo de tentar de novo!”. Não baixaram as asas, “arregaçaram” as penas e foram procurar um novo local. E encontraram! Um conjunto de eucaliptos, junto a uma pequena ribeira, onde tudo parecia calmo e muito bem tratado. Recomeçaram o trabalho de construção e, a meio de fevereiro, já tinham um grande e forte ninho, onde Albertina colocou 3 ovos. 10

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Capítulo IV Certo dia, regressado com um belo sardão de uma caçada, Aquiles comentou com Albertina: - “Sabes, querida, nós temos muita sorte.”. - “Sim, é verdade que temos. Mas porque dizes isso agora?” – intrigou-se a futura mamã. - “Sabes aquele casal de águias-imperiais que também costuma ir caçar ali mais a norte? Disseram-me que não têm tido sossego, que têm sempre lá pessoas a incomodar: a tentar vê-las de perto, a querer tirar-lhes fotos, o pastor que vai ouvir música muito alto para debaixo do ninho. E então desistiram, tiveram que abandonar o ninho.”. - “Que triste, Aquiles. Ainda bem que o senhor João compreende o nosso valor e não deixa ninguém vir para a sua propriedade enquanto estamos aqui no ninho.”. Albertina incubou os seus 3 ovos com muito carinho durante cerca de 40 dias. Durante este tempo, Aquiles trazia-lhe comida. Às vezes trocava de lugar com ela para ela poder esticar as asas, mas a maior parte do tempo era Albertina quem aquecia e protegia os ovos. 11

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Ao fim de 42 dias, Albertina sentiu um dos ovos mexer-se e estalar. Dois dias depois, mais um ovo, e no dia seguinte eclodiu o terceiro filhote. -“Oh, que bonitas!” – exclamou Aquiles ao chegar ao ninho com um coelho-bravo e vendo as três pequenas crias, completamente brancas, que piavam esfomeadas. Apressou-se a soltar vários pedacinhos de carne para alimentar os filhotes. Desde cedo percebeu que havia um mais pequenino e que os irmãos sempre tentavam comer mais que ele, mas foi sempre fazendo o que podia para alimentar todas as crias. Tanto Aquiles como Albertina esforçavam-se para caçar o suficiente para eles e para as pequenas águias. Nos dias de maior calor, Albertina tentava proporcionar-lhes alguma sombra para que não passassem mal. 12

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Mas num dia muito quente, quando Albertina tinha saído para caçar e Aquiles vigiava o território num ramo próximo, a cria mais pequena caiu do ninho. Aquiles ficou em pânico mas percebeu que não poderia fazer nada, não tinha como colocá-la de novo no ninho… 13

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