Chicos 32 Outubro/2011

 

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e-zine literária de Cataguases MG - Brasil

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chicos n 32 outubro 2011 e-zine de literatura e idéias de cataguases ­ mg capa dedim de prosa terminou o inverno e iniciou-se a primavera por aqui tivemos os lançamentos de alguns livros vários deles sob os auspícios da lei ascânio lopes destacamos os de dois amigos que além de colaborarem muito aqui no chicos nos estimulam muito antônio jaime um baita poeta que continua inédito lançou seu de gabriel franco sobre desenho de altamir soares primeiro livro de crônicas pedra que não quebra ronaldo cagiano na reabertura da biblioteca ascânio editores emerson teixeira cardoso josé antonio pereira lopes agora na chácara dona catarina nos apresentou um belo livro de poesias sol nas feridas antônio perin nos apresenta a poesia e o poeta palestino mourid barghouti a poesia argentina se faz presente através de eduardo dalter fernando abritta fez algo incrível e magnífico com o velho catuxo de adrino aragão o editor joaci pereira furtado indignado rompe com a igreja católica a jovem pâmela bastos estreia aqui no chicos nesta edição conversamos com flauzina márcia poeta colaboradores desta edição antônio perin carlos torres moura fernando abritta eduardo dalter joaci pereira furtado ronaldo cagiano ronaldo werneck rubens shirassu jr pâmela bastos vanderlei pequeno sílvio fiorani fale conosco em cataguasense radicada em belo horizonte em mais uma e-entrevista dedicamos esta edição a fernanda lobo chicos.cataletras@hotmail.com visite-nos em http chicoscataletras.blogspot.com 1

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sumário flausina mÁrcia da silva um papo com flausina márcia sÍlvio fiorani rosas de coleridge josÉ antonio pereira conto tirado de uma notícia de jornal pÂmela bastos nos becos da sociedade vanderlei pequeno a mucama da catarina joaci pereira furtado carta de excomunhão emerson teixeira cardoso evolução da poesia brasileira carlos torres moura tunins antônios ronaldo werneck reluzir de pedras ronaldo cagiano do amor e seus enigmas fernando abritta velho catuxo rubens shirassu jr grafite para murilo mendes antÔnio perin a lealdade do soldado mourid barghouti sem misericórdia e outros poemas eduardo dalter siete notas de invierno 03 13 15 18 20 22 26 30 31 32 35 41 43 44 47 2

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um papo com flausina márcia da silva flausina márcia da silva nasceu em cataguases reside atualmente em belo horizonte escreve poesia desde 1979 em 1985 publicou vários poemas no antigo jornal diário de minas teve poemas publicados no suplemento literário de minas gerais vários sites na internet e em alguns números anteriores aqui do chicos publicou seu primeiro livro em abril de 2002 o vaga-lume pela edições memória gráfica publica em 2003 sua casa minha cruz pela orobó edições com flausina márcia publicamos a segunda entrevista do chicos a entrevista com o romancista fernando cesário foi feita por e-mail e esta também portanto publicamos mais uma eentrevista aqui na nossa e-zine 3

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um papo com flausina márcia da silva chicos flau pra começar fale-nos um pouco de você e de sua poesia meu nome é flausina marcia da silva sou sexagenária tenho uma filha um filho e um neto no estado civil sou divorciada no estado de espírito solteira já fui mais comunicativa emerson como nasceu o seu interesse pela literatura conte-nos sobre o projeto terças poéticas no suplemento do minas gerais sempre gostei da de ler o não para é foi o sou uma do literata projeto apenas terças seu aficionada da literatura falar poeta ótimo poéticas emerson a melhor pessoa wilmar silva coordenador posso adiantar que apresentar alguns poemas de minha autoria nas sessões de terça-feira no palácio das artes em belo horizonte nos primeiros anos do projeto quando era frequentadora assídua morei em cataguases de 2007 a 2010 e me distanciei um pouco das sessões aprendizado leitura para josé antonio eu e o emerson de certa feita participávamos de uma conversa sobre literatura com alunos do artista plástico altamir soares um deles me perguntou qual era a utilidade da poesia ocorreu-me responder-lhe que poesia não era cerâmica que se divide em decorativa ou utilitária não me lembro o que disse na ocasião mas sempre penso no que diz octavio paz ­ poesia é a arte de ver pela palavra a outra face da realidade levando em conta tudo isto o que é a poesia para você como você vê e lida com a palavra dentro do seu fazer poético mim foi glorioso falo disso no poema Êxtase publicado no meu primeiro livro vaga-lume de 2002 aos quatorze anos tive acesso à biblioteca do pai de uma amiga e não saía de lá li então sartre maquiavel e campos de carvalho havia coisas nesses livros incompreensíveis para a minha idade mas isso não me incomodava são livros que relí mais tarde com outros olhos mas a mesma paixão 4

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um papo com flausina márcia da silva zé antonio me lembro de ter perguntado à minha mãe aos seis ou sete anos de idade por que água se chamava água não era uma dúvida era cisma com as palavras virou paixão À pergunta sobre a utilidade ou para que serve a poesia o poeta paulo leminski respondeu felizmente para nada pois é a poesia um inutensílio é contrária em si à lógica do consumo definir a poesia é muito difícil os poetas são sempre chamados a fazê-lo e o fazem muitas vezes magistralmente quero só afirmar que quando escrevo um poema fico agradavelmente surpreendida as palavras tornaram-se vivas mais uma vez jorge luis borges facilita todos sabem onde encontras poesia e quando ela chega sentese seu toque aquela comichão própria da poesia emerson rainer maria rilke dizia que ao poeta devia bastar a sua obra e que seu destino de poeta era a cruz que deveria carregar sem querer sem pensar em outra recompensa a não ser a satisfação da realização artística o poeta é isto ou não a poesia pode ser também um meio de sobrevivência emerson o rilke é engraçado as cartas a um jovem poeta me impressionaram pela bondade com que ele trata seu interlocutor e pela sabedoria de suas orientações ao jovem poeta em algumas cartas porém me chamaram a atenção suas queixas sobre a pobreza em que se encontrava no entanto menciona muitas viagens que interrompiam o fluxo da correspondência eu indagava sobre a origem do dinheiro para viajar e algumas pessoas me disseram são os amigos flau ví eu numa do coletânea augusto da revista é discutindo literatura que o livro dos anjos considerado até hoje o livro de poemas mais vendido da história da literatura brasileira a conta é de 5500 exemplares ele não se sustentou com dinheiro desse livro sabemos que foi professor e nessa profissão terminou seus dias em leopoldina e mais as editoras distribuidoras e livrarias ganham mais de 90 das vendas se escritores artistas e poetas não fazem greve tem que haver uma abordagem problema menos crucial do 5

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um papo com flausina márcia da silva minha opção porque não havia outra foi pagar pela publicação dos meus três livros de poemas com as sobras surgidas de correção de fundo de garantia antigo pasep recebido na aposentadoria e por aí a primeira publicação tirei foi do décimo terceiro mesmo mas a venda foi boa e o vaga-lume se pagou melhor não se apagou o segundo livro pagou 70 do gasto e o terceiro foi péssimo de venda o dinheiro estava ligeiramente mais farto e me esforcei menos do que o exigido para realizar bons lançamentos em 2012 voltarei à luta para publicar o quarto livro emerson voltando ao livro sua casa minha cruz maria o arquétipo da figura da mulher na civilização cristã maria o nome do sacrifício no dizer de anelito de oliveira essa concepção não josé antonio antônio perin diz que quando algum fato seja lá de que época for o incomoda provoca raiva nó na garganta ele usa a poesia para aliviar sua dor diz mais eu acho que a poesia é um aríete para romper a estupidez e a ignorância humana dá para enquadrar a emoção ao metro dá para mudar o mundo caminhando e cantando mudar o mundo é uma proposição grandiosa minha experiência com ela começou nos idos de o anelito de oliveira é o editor do meu livro sua casa minha cruz 2003 o poema maria esperança do perpétuo socorro comentado por ele na orelha destoa da imagem da mulher flausina márcia da silva engajada que foi no movimento feminista da mulher participativa vista com reservas até por alguns intelectuais por enquanto vamos deixar schopenhaeur por fora disso onde fica a poetisa flausina neste jogo 1966/67 quando contestávamos o capitalismo e o imperialismo norteamericano o poema maria esperança do perpétuo socorro fala um pouco dessa experiência vivenciada por muita gente em medidas diferentes de envolvimento a digressão zé antonio vem ao caso da poesia como aríete minha escolha pessoal é não usar a poesia com finalidades políticas alguns dos meus poemas revelam que sou antenada no assunto o caso é que não aprecio receitas de vida e muito menos de poesia 6

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um papo com flausina márcia da silva do livro conta a vida de uma mulher que aceita os desafios da época em que vive o título do poema foi escolhido por isso mesmo contraste da sua carga simbólica com as vivências da personagem o poema se rebela contra seu título a poetisa tem o estilo próprio da pessoa que é emerson não vou fazer exercício de adivinhação dessas reservas sobre as quais você pergunta mas se há preconceito no meio vou recorrer ao dicionário estilo em botânica é o prolongamento do ovário que suporta o estigma josé antonio tem um monte de autores umbigais por aí passam o tempo todo em um processo de auto louvação a crítica sumiu da mídia hoje nos jornais diários só se vê e quando se vê só aquelas resenhas elogiosas que mais parecem notas de orelhas de livros como o leitor vai encontrar uma literatura no mínimo honesta nesta profusão de livros que surgem todo o dia leitores nunca são bobos e sempre encontram o que querem ler leitores em formação esses sim devem ser a preocupação constante das políticas públicas de educação e de cultura o probleemerson antídoto do tédio ou noigandres no idioma provençal daí procede o título da revista que os irmãos campos editaram no auge do concretismo você acha que a poesia pode vencer o tédio poesia o suplemento literário de minas gerais publicou os um 50 número anos do especial em outubro de 2006 par homenagear lançamento da poesia concreta no brasil foi a primeira vez em que lí textos mais substanciais sobre esse fenômeno cultural já havia assistido uma palestra do décio pignatari uma apresentação artística do haroldo de campos e lido o abc da literatura do ezra pound mas conhecia apenas indícios desse movimento criador de uma nova poesia o que mais pode a ma é essa entidade chamada mercado mas acredito que seu poder não é absoluto e incontestável os inquietos procuram abrir outros caminhos editoriais para jornais e revistas literárias e criam pequenas editoras também conheço alguns exemplos e posso até fazer uma relação deles para algum outro número da chicos 7

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um papo com flausina márcia da silva a apresentação do haroldo de campos me impressionou o bastante para que escrevesse o poema gás sua casa minha cruz pág 12 É inegável que os idealizadores desse movimento são haroldo e de augusto de campos e o décio pignatari intelectuais erudição gigantesca e a eles agradeço ter lido poemas que sem suas traduções provavelmente não leria no mais emerson estou entre a frigideira e fogo pois naquele suplemento trovadores ví também que que noigrandes é a única palavra dos provençais nenhum especialista traduziu e que foi escolhida para nome da revista publicada pelo movimento poesia concreta pelo seu sentido de enigma josé antonio somos de uma geração que cresceu dentro das salas de cinema a cidade tem uma história no cinema o que o cinema significa para você seu fazer literário conecta-se com outras expressões artísticas se acontece como isto se dá É verdade zé antonio somos muito de cinema mesmo em belo horizonte o interesse pelos filmes de autor/diretor sempre foi uma constante entre os grupos de cinéfilos e cineastas cujas realizações fazem parte da memória da cidade tenho alguns amigos nessa turma no pouco em que voltei a residir em cataguases sentia muito a falta de uma boa sala de cinema com programação de filmes mais artísticos e menos comerciais no entanto sei que há projetos interessantes da área do audiovisual em desenvolvimento na cidade e torço para que a herança de humberto mauro finalmente dê frutos em sua terra natal minha maior proximidade com essa forma de linguagem se deu quando fiz um curso de roteiro cinematográfico coordenado pelo paulo vilara com aulas também do paulo augusto gomes do mário coutinho e do geraldo veloso foi ótimo mais não batalhei para entrar no ramo da produção continuo platéia com muito prazer por apreciar trabalhos das outras artes provavelmente minha poesia recebe influência delas mas não busco deliberadamente articular várias formas de linguagem a nossa riquíssima língua portuguesa tem sido desafiadora o bastante para mim 8

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um pouco da poesia de flausina márcia da silva maria esperança do perpétuo socorro vi maria esperança do perpétuo socorro conhecida por mansa no retrato da primeira comunhão aparece lambuzada de deus no primeiro baile alguém beijou sua lambuzança nas primeiras coisas mansa se estrepava nas segundas sentia cansaço e pensava sem querer pensava em andorinhas o horóscopo as pessoas sem querer mansa de tanto sem querer esquecia seus pensamentos voava de um pensamento a outro sem pensar no primeiro encontro com os pensamentos se estrepou no segundo se cansou ao terceiro se entregou 9

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um pouco da poesia de flausina márcia da silva ix por sentir beleza por insistir por existir mansa novamente se estrepou se cansou se entregou apreciando as artes descobriu sua natureza de mulher deu à luz filhos filhos de sua própria natureza xi na primeira vez esbanjou carinho na segunda esbanjou mulher na terceira sonhou com a eternidade estabelecida mansa criou raiz fundou residência se agarrou ao dia bordejando a noite admirada mansa viu desafios jornal democrático movimento estudantil feminismo cinema poesia ganhar dinheiro casar-se democratizar a vida carnavalizar a vida sublevar 10

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um pouco da poesia de flausina márcia da silva xiv foi quando quis saber da felicidade É uma casa pequenina procurar sempre felicidade foi embora embora haja eu não quero quero mesmo que não haja mansa garrou inventar jeito de ser mulher no primeiro jeito deu pra pensar que não tinha jeito a cada defeito que via num itinerário estonteante mansa apaziguada entre defeitos e os amores perfeitos viveu 11

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um pouco da poesia de flausina márcia da silva xviii maria esperança do perpétuo socorro adquirindo nome sobrenome e cidadania danou-se foi quando o mundo acabou e maria esperança do perpétuo socorro começou sua plantação de ervas primeiro vieram as rosas segundo as hortelãs terceiro as inúmeras possiblidades terra planeta oferece para os que vão à lua um banquete para os que ficam as terráqueas novidades para os indecisos esperança para os que esperam socorro para os infinitos seres a perpétua maria cores azuis me olham e eu verde olhos azuis verde imatura verde nova verde fora de época Épica 12

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sílvio fiorani rosas de coleridge sonhei ruído da lentamente e que eu acordara que estava se como abria os e vi afinal a rosa branca que eu resolutamente segurava e ali ainda reclinado recobrei a memória de sua morte levantei-me e corri para ver se a via ainda uma vez e acordei e ao brusco movimento a rosa esfacelou-se e era real por si mesma embora desfeita tão real quanto o fato inapelável de que minha mãe morrera eu jamais a veria outra vez então saí para o corredor e me dirigi ao quarto de fabrício meu irmão aqui encontrei-o eu lhe sentado e junto à escrivaninha lendo algo ela esteve a disse ele nada respondendo de pronto virou-se para mim e ergueu no ar o papel que eu imaginei que estivera a ler apareceu-me também ele disse afinal deixou-me isto e partiu era uma folha em branco o que lhe parecera altamente significativo dado o ar de gravidade com que me olhava era um papel de carta com sua marca d´água plenamente reconhecível senti naquele momento um intenso calafrio e acordei ou imaginei que tivesse acordado porta entre lençóis reclinado sobre travesseiros sobrepostos como costumam ficar os convalescentes vinda de vi de soslaio que alguma dimensão era luísa minha mãe quem entrava desconhecida de sua existência [isto num tempo o da vigília e o do sonoem que ali em nossa velha casa não havia mais ninguém pois ela morrera e também meu pai partíramos todos uns para a viagem eterna outros para a o verdadeira meu sono vida a que estamos ainda destinados luísa viera pois invadir enquanto eu convalescia de uma moléstia não diagnosticada e no sonho fingi que continuava a dormir para que ela não interrompesse o caminho até minha cama aproximando-se ela colocou-me algo entre as mãos postas sobre o peito e eu só abri os olhos com o ruído da porta que se fechava abri os olhos 13

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sílvio fiorani eu estava de fato reclinado sobre travesseiros sobrepostos não havia nada mais sensato a fazer eu pensei que ir até o quarto de meu irmão e contar-lhe o que acontecera fabrício bloco de estava papel sentado junto o à que escrivaninha anotando algo sobre um relatei-lhe ocorrera e o que para mim era mistério e prodígio a ele pareceu apenas a manifestação do acaso embora eu ainda tivesse a haste da rosa branca entre as mãos elevando a voz ao seu melhor registro assim lhe deve ter parecido como se proclamou real tudo a impossibilidade de se crer naquele impasse coisa cria por se dentro nada quarto outra casa outra cidade outro tempo com a persiana a filtrar a luz de uma manhã estiva e plenamente real dias depois recebi de meu irmão uma carta inusitada em que começava por dizer que havia sonhado com luísa e no sonho ele estivera em seu quarto junto à escrivaninha revisando um relatório de empresa a ser entregue no dia seguinte sem nada dizer com o ar sereno e complacente de sempre ela chegou até ele entregou-lhe uma folha de papel em branco e partiu sílvio fiorani são paulo sp da geração de escritores surgidos dos anos 1970 consagrado pela crítica desde seu primeiro romance o sonho de dom porfírio publicou os estandartes de Átila a morte de natália entre os reinos de gog e magog em 2006 ganhou o premio machado de assis da biblioteca nacional pelo melhor romance publicado em 2005 com investigação sobre ariel que encerra a trilogia iniciada com o romance a herança de lundstrom seguido de o evangelho segundo judas transforma ironizou nos anos de colégio ele havia sido imbatível em física e matemática como os céticos renitentes adolescência considerações paralelos o costumam atirei-lhe sobre mundo ser as na minhas de universos pleno possibilidades para além dos cinco sentidos o que lhe causou uma certa fúria própria de seu temperamento intempestivo e o fez golpear com a palma da mão a escrivaninha o ruído real ou irreal que importa afinal me despertou e eu estava em um outro 14

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