Gestão Empresarial 43

 

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Recomeço em casa nova

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# 43 Julho 2018 • Uma publicação do GBrasil Grupo Brasil de Empresas de Contabilidade RECOMEÇO EM CASA NOVA Refugiados buscam espaço no mercado de trabalho brasileiro, mas esbarram na baixa qualificação e em exigências documentais A FORÇA DA MULHER Cresce a liderança feminina no mundo dos negócios ENTREVISTA COM CARLOS WIZARD “As pequenas empresas estão sendo fundamentais para que o País supere a crise.”

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C M Y CM MY CY CMY K Ao contratar a assessoria do GBrasil, sua empresa conta com Aeqoucipoenstrqatuaarliaficaasdsaessspoarriaa adsosGuBmriarstiol,dsausaaesmtaprreefsaasccoonmtapcleoxmas, eseqmuipreisscqousadlieficsaodfraesr ppoasrasíavsesisumpeinr atoliddaasdeassptaerloefnaãsocloamnçpalemxaens,to dAseeomicnofroinsrtAcmraoatscaçdorõenaetssaraosntfsoareerssraisspoatoerssimsaseíadvsoesdioosGrBpiea-erSadnsooaicli,GidasBalu.rdaaesesiml,pspeulroeasneaãmocpolranentsaçaaccmoomenntatocom edqeuinipfeosremquaçiapõleifesicsqanudoalsifispictaaerdmaaassdpsoaurmea-Siarostcosiduaaml.siratsodtaarsefaasstcaoremfapslecxoams, plexas, A nova plataforma está mudando a dinâmica de gestão dos recursos shAeunmmovarainsoscpesolamsntaadrfseiosercsmmosfapredreeressptsaáoossmf,sreeuíxvrdiegpaisionnsdpdsoeoínvaaaeldiltsiodinpacâedomnenasitcrlipoadelaedlodeeengesãenposvetilãolaoonpnçdeãaoroimsólderaeinncctoçouarmsoesnto ddhueemiinnaffoonrrodmmseaaninççafõõsoeeressmmnsaopoçbrõsereisessatsesnem,ouesaxsiiedgsmoitnepedm-roSeagaodlactooidaoelc.s-oS.notcroialel. e envio periódico AdenionvfoarApmlnaaotçavõfaoerspmlsaaotabefrsoetrámsemauusedseatmándpmoreuagdaddninodâsom.aicdaindâemgiceastdãeo gdeosstãreocduorssorsecursos Encontre o filiado GBrasil mais próximo de você para vencer esse hdEuensmcaoafninotroh.esuSomãnoafaisln3iao9edmseonmpGarpeBsrsreeaasmssai,lpsemrxdeiasegiaiscnsodp, noerótxaaxigblitmiionlidodcaoddneaetlrvtbooalcecsêoeenpaetadrnroavalsieoveeepmnecnrteiovórdidoeaiscpssoeaersiódico dcdaeepsinaitffaoioisrd.meeSaãpinçorfõino3ecr9smipesaamoçisbõprcereisdssaseaodusbesdsreedmcsoeopiunrnesttageebarmiidoliodrpsarde.dogePabdaaoísss.e. adas em todas as EcanpciotanitsrEeenocpofrinlnitacrdeipooaGifsiBlicariadsoaidlGmeBsardaisospilinrmótexarimiisoorpdrdóoexPivmaoíocsê.dpeavroacvêepnacrear veesnsceer esse desafiod. eSsãaofi3o9. 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O aumento do protagonismo da mulher no mundo empresarial e na contabilidade é outro assunto deste número. Reportagem sobre empreendedorismo feminino aponta que a presença delas à frente de novos empreendimentos cresceu 34% entre 2001 e 2014. Por isso, fomos conhecer histórias de mulheres que decidiram gerir o próprio negócio ou conquistaram posição de liderança em seus segmentos. Não poderíamos deixar de esclarecer as principais dúvidas sobre o eSocial, abordadas por alguns de nossos filiados na “Consultoria GBrasil”. Isso porque, a partir de julho, o envio de dados trabalhistas e previdenciários dos colaboradores na nova plataforma passou a ser obrigatório também para microempreendedores individuais (MEIs), microempresas (MEs) e empresas de pequeno porte (EPPs). O conhecimento de uma empresa de serviços contábeis é essencial para que os empresários consigam atender a todas as exigências do sistema do Ministério do Trabalho e Emprego. Sob a premissa de oferecer histórias inspiradoras, Gestão Empresarial traz ainda clientes GBrasil que são verdadeiros Foto: Anderson Tozato JULIO LINUESA PEREZ Presidente do GBrasil gbrasil@gbrasilcontabilidade.com.br casos de sucesso. Eles se destacam por tomar decisões bem planejadas. Falamos sobre a universidade catarinense Uniasselvi; a inovadora franquia de chá Bubble Mix Tea, de Foz do Iguaçu (PR); a visão de longo prazo do empresário Eugênio Coutinho, do Maranhão; e a carreira do chef de cozinha paraense Thiago Castanho, que conquistou reconhecimento mundial com seus pratos e despontou para programas de TV. Carlos Wizard nos brinda ainda com uma entrevista sobre as estratégias que usou para construir uma rede diversificada de negócios, prever riscos e lidar com a sucessão familiar. Temos ainda matérias sobre formas alternativas de energia e segurança de dados na internet. Além desta revista, oferecemos conteúdo diversificado de interesse empresarial no site do GBrasil (www.gbrasilcontabilidade.com.br). Boa leitura!

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ÍNDICE ACESSE CONTEÚDOS EXCLUSIVOS NA FAN PAGE DO GBRASIL NO FACEBOOK www.facebook.com/gbrasilcontabilidade 03 EDITORIAL Economia da inclusão 06 CONSULTORIA GBRASIL Tire suas dúvidas sobre o eSocial 08 TI Regulamentação europeia quer proteger dados na web 12 ENTREVISTA Carlos Wizard fala sobre gestão de patrimônio 15 MERCADO Mulheres se destacam no ambiente empresarial 18 EMPREENDEDORISMO Chef Thiago Castanho leva a culinária paraense para a TV 20 CAPA ONGs e empresas atuam na inserção de refugiados à sociedade 26 SUSTENTABILIDADE Energia com custos reduzidos 29 NEGÓCIOS Franquia Bubble Mix Tea inova com bebida oriental 30 NEGÓCIOS Empresário diversifica investimentos no Maranhão 32 NEGÓCIOS Uniasselvi passa por transição estável 34 EM SÍNTESE 36 NOVOS CLIENTES GBRASIL GESTÃO EMPRESARIAL é uma publicação quadrimestral do GBrasil – Grupo Brasil de Empresas de Contabilidade, distri­ buída a clientes e parceiros em todo o território nacional. Av. Clodomiro Amazonas, 1.435  cep 04537‑012 São Paulo  SP  ww  55 (11) 3814.8436 conselho editorial Renato Toigo (coordenador, Toigo Contadores), Julio Linuesa Perez (Orcose Contabilidade), Alessandra Sousa (Fatos Contábil), Simone Zanon (T&M Consulting), Dolores Locatelli (Eaco Contabilidade), Didmar Duwe (D.DuweContabilidade), Volmar Scalco (Contabilidade Scalco), Célio Faria de Paula (Tecol - Consultoria Empresarial), Anderson Pedrosa (Contac Contabilidade) e Diva Borges (jornalista) conselho consultivo Reinaldo Silveira (Organização Silveira de Contabilidade), Manuel Domingues e Pinho (Domingues e Pinho Contadores), Pedro Coelho Neto (Marpe Contadores) e Nilson Göedert (RG Contadores) atendimento ao anunciante Julio R. Castro  (11) 3814.8436 / (48) 9981.9321 diretor de conteúdo André Rocha gerente de conteúdo Fernando Sacco editor Lucas Mota editora-assistente Iracy Paulina colaboram nesta edição Barbara Oliveira, Filipe Lopes, Guilherme Meirelles, Iracy Paulina, Karina Fusco, Leda Rosa, Lúcia Helena de Camargo e Silvia Kochen revisão Flávia Marques diretores de arte Clara Voegeli e Demian Russo editora de arte Carolina Lusser designers Laís Brevilheri, Paula Seco e Cintia Funchal assistentes de arte Pedro Silvério e Joélson Bugila tiragem desta edição 10 mil exemplares impressão Leograf Editora – Edição 43, ano xi – encerrada em 25.6.2018 www.gbrasilcontabilidade.com.br

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CONSULTORIA GBRASIL AS DÚVIDAS MAIS FREQUENTES SOBRE O E-SOCIAL ANA PAULA MEURER DELAI RG Contadores CARLOS CORREA C Correa Serviços Contábeis CELIO FARIA DE PAULA Tecol LEONARDO BEZERRA Domingues e Pinho Contadores MARCELO MELO E SHEYLA BORBA Acene Contabilidade MARCIO COSTA De Paula Contadores MAYRA TALACIMO Eaco Contabilidade QUAIS TIPOS DE ALTERAÇÕES CADASTRAIS DA EMPRESA E DE SEUS VÍNCULOS DEVEM SER LANÇADOS NAS TABELAS DO E-SOCIAL? carlos correa – Todas as mudanças nos dados cadastrais, como endereço, data de emissão de documentos, estado civil, alterações no contrato de trabalho ou qualquer outra requerida pelo layout do eSocial, devem ser atualizadas. Para cada evento e tabela há um prazo específico. Aumentos ou reduções salariais, por exemplo, devem ser informados até um dia após a alteração, enquanto a mudança da jornada precisa ser comunicada no momento em que acontecer. De modo geral, grande parte dessas informações deve ser atualizada até o dia 7 do mês subsequente. QUAL MODALIDADE DE CERTIFICADO DIGITAL É VÁLIDA PARA TRANSMISSÃO DESSAS INFORMAÇÕES? leonardo bezerra – O certificado digital emitido por autoridade certificadora credenciada pela Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil), da série A, do tipo A1 ou A3. Certificados digitais de tipo A1 ficam armazenados no próprio computador. Já os A3 são armazenados em dispositivo portátil inviolável (smart card ou token), que possuem um chip com capacidade de realizar a assinatura digital. Para que seja aceito na função de transmissor de solicitações, deverá ser e-CPF (e-PF) ou e-CNPJ (e-PJ). COMO INFORMAR O AFASTAMENTO TEMPORÁRIO DE VÍNCULOS NÃO CELETISTAS (COMO ATESTADO MÉDICO DE ESTAGIÁRIO)? ana paula meurer delai – Como não têm vínculo de emprego, os estagiários não são regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Nesse caso, para eles não se aplicam as regras de abono de faltas ao trabalho de que trata o artigo 473 da CLT. COMO SERÁ TRATADO O FECHAMENTO DO PONTO PARA EMPRESAS COM APURAÇÃO DIFERENTE DO MÊS CIVIL? marcio costa – As empresas que mantêm apuração de ponto diferente do que determina o artigo 459 da CLT e a resolução do eSocial precisam implementar novas metodologias de trabalho. Um exemplo é o caso do empregado que gozará 30 dias de férias e terá horas extras para receber do mês anterior. Como é possível constar férias (30 dias) e o pagamento de horas extras? Esse, talvez, seja um dos pontos de mais mudanças dentro das rotinas de departamento pessoal e que são necessárias, a fim de que eventuais multas sejam evitadas. Há situações em que os prazos para apuração do ponto são diferenciados em virtude de acordos 6    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 Fotos: Divulgação ou convenções coletivas negociadas com os sindicatos representativos – o que dará mais segurança jurídica, pois as empresas estarão amparadas por cláusulas que estão em conformidade com a Lei n.º  13.467/17 (Reforma Trabalhista), que instituiu a prevalência do negociado sobre o legislado. COMO FUNCIONARÁ A INTEGRAÇÃO DAS INFORMAÇÕES CONTÁBIL/FISCAL/FOLHA DE PAGAMENTO PARA O EFD-REINF? celio faria de paula e mayra talacimo – O Reinf é complementar ao eSocial. Com o sistema integrado, as informações prestadas pelo eSocial e pelo EDF-Reinf serão consolidadas pelo DCTF-WEB – é por meio dessa obrigação que as empresas conseguirão emitir o Darf para recolhimento dos tributos. Sendo assim, para não ter maiores problemas, as empresas precisarão contar com um bom software, que integrará todos os dados contábeis, fiscais e referentes à folha de pagamento. QUEM DEVERÁ ENVIAR AS TABELAS SOBRE SAÚDE E SEGURANÇA DO TRABALHO: AS CLÍNICAS QUE PRESTAM ESSE SERVIÇO OU AS EMPRESAS DE CONTABILIDADE? marcelo melo e sheyla borba – Geralmente, o empregador é quem está obrigado a enviar essas informações. Mas poderá delegar essa tarefa a um terceiro por meio de procuração eletrônica para os eventos do Grupo Saúde Segurança do Trabalho (SST). O controle dessas informações é importante porque tem influência em insalubridade, periculosidade e aposentadoria especial. Isso pode ser feito por um departamento específico da empresa ou um parceiro apropriado para controlar o Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional (PCMSO). Se não possuir essa estrutura, a companhia poderá recorrer ao escritório de contabilidade.  Mais produtividade e menos burocracia? O Nibo é a ferramenta completa para gerir sua empresa com agilidade e eficiência. Faça análises, planejamento e projeções da sua empresa de forma rápida e fácil; Aumente a produtividade através da conciliação bancária inteligente; Diminua a inadimplência com nossa cobrança de boleto recorrente automática; Relaxe. A emissão das notas fiscais também é por nossa conta e automatizada. E isso tudo integrado ao seu contador. 25%de desconto Utilize o código GBRASIL facebook.com/nibo www.nibo.com.br @nibosoftware JULHO / 2018 co nGtaEtSoT@ÃOniEbMoP.cRoEmSA.RbIrAL 43   7

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TI NOVAS REGRAS APRIMORAM SEGURANÇA PARA DADOS MARCO REGULATÓRIO EUROPEU, COM NORMAS MAIS RÍGIDAS DE PROTEÇÃO DE INFORMAÇÕES, PROVOCA MUDANÇA NAS POLÍTICAS DE PRIVACIDADE, ATINGE EMPRESAS BRASILEIRAS E DESTRAVA PAUTA DE PROJETOS SIMILARES NO PAÍS BARBARA OLIVEIRA N o mundo conectado e com tecnologias interligadas – Internet das Coisas, inteligência artificial, marketing digital, Big Data e os algoritmos das redes sociais –, é natural que as informações compartilhadas e os dados pessoais trafeguem perigosamente. Afinal, quem sabe para qual finalidade são usados? Onde ficam armazenados? Estão seguros nas empresas que prometem guardar sigilo? A resposta é negativa para as três questões. Sempre que uma pessoa navegar na internet, terá algum dado capturado, por boa ou má-fé. O vazamento de perfis de 87 milhões de usuários do Facebook, e que podem ter sido compartilhados de forma indevida por uma empresa parceira, foi apenas um dos alertas vermelhos sobre a necessidade de mudanças urgentes nos padrões de segurança das redes sociais e em empresas do mundo todo, inclusive do Brasil. Essa preocupação ganhou força com a entrada em vigor, no dia 25 de maio, das regras de privacidade do Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR – General Data Protection Regulation), na União Europeia. O GDPR foi aprovado em 2016, mas desde 1995, nos primórdios da internet, a Europa debate regras de privacidade online – e que, agora, consolidam-se num marco regulatório, colocando o continente na vanguarda de proteção ao cidadão Existe consenso entre sociedade civil e governo sobre a importância dos regulamentos para a proteção ao cidadão e à segurança jurídica e regulatória das empresas. PATRÍCIA PECK, advogada especialista em Direito Digital 8    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 Fotos: Divulgação no ciberespaço. Nos dois últimos anos, empresas e Poder Público da União Europeia tentam se adaptar às políticas e tecnologias que garantem esses direitos. PENALIDADES SÃO ELEVADAS Qualquer companhia ou site que armazene, processe ou compartilhe dados de europeus (nome, endereço, identificação, endereço de IP, biométricos, de saúde, raciais, étnicos, opiniões políticas e orientação sexual) precisa cumprir as regras do GDPR. Se as empresas coletarem e expuserem tais informações sem consentimento, ficam sujeitas às penalidades. E as multas são pesadas: de 2% a 4% do faturamento global ou de 10 a 20 milhões de euros. Os especialistas em Direito Digital afirmam que o conjunto de leis é um avanço. O usuário terá garantido o acesso ao que está sendo coletado e para quais finalidades. E pode solicitar a exclusão das informações pessoais (direito ao esquecimento). As regras exigem que empresas trabalhem com mais cuidado e transparência no processamento dessas bases, e haverá mais rigor no cumprimento das multas quando estiverem em jogo dados sensíveis, como orientação sexual, opinião política, biometria, genéticos, de religião e antecedentes criminais. A advogada Patrícia Peck, há 20 anos atuando com Direito Digital, lembra que “o GDPR vale para os sites que operam cartões de crédito e meios de pagamentos, seguros [de viagem, de saúde, de vida], aplicativos de transporte, turismo, plataformas globais de serviços e e-commerce, mesmo localizados no Brasil e se estiverem vendendo algo O QUE MUDA COM O GDPR pessoas têm direito a: >  Acessar, corrigir e excluir seus dados pessoais (direito ao esquecimento) >  Saber que dados são coletados e para quais finalidades >  Negar o processamento dos seus dados >  Migrar seus dados pessoais para outros serviços as organizações devem: >  Proteger os dados pessoais >  Notificar as autoridades sobre violações >  Obter o consentimento do usuário para o processamento dos dados >  Manter registros com detalhes desse processamento fonte: advogados especialistas em Direito Digital para um europeu”. Um site brasileiro, por exemplo, que rastreie hábitos do visitante europeu pode ser enquadrado. E aqueles aplicativos que pedem acesso à agenda, à galeria de fotos e ao endereço do usuário (quando não precisam de nada disso para funcionar) terão que parar de exigir esses itens ou fundamentar a solicitação. IMPACTOS NO MERCADO BRASILEIRO Os impactos do GDPR serão jurídico e de mercado, afirma o advogado e coordenador do programa de Direito Digital do Insper, Renato Opice Blum. “Quem não se adaptar agora, vai JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 43   9

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EM ESCRITÓRIOS DE DIREITO DIGITAL E FORNECEDORES DE SOLUÇÕES DE SEGURANÇA, CRESCE DEMANDA POR FERRAMENTAS E PROFISSIONAIS DESSA ÁREA pagar mais caro depois”, avisa Blum. No Brasil, as empresas precisam ficar em conformidade não só por causa do regulamento europeu, mas também porque estão tramitando em regime de urgência na Câmara e no Senado legislações específicas de proteção que vão permitir mais transparência no tratamento dessas informações. Um desses projetos é o PL 4.060/2012, aprovado na Câmara no fim de maio em decorrência da repercussão do regulamento europeu, que tramita no Senado. Da mesma Casa, o PLS 330/2013 estava com requerimento de urgência na Comissão de Assuntos Econômicos até o fechamento desta edição. As duas propostas condensam outros projetos do Legislativo, regulando proteção, tratamento e uso de dados pessoais e jurídicos, e se somam a algumas normas previstas no GDPR. Entre as disposições, está a de que o usuário pode visualizar, corrigir e apagar as informações guardadas sobre ele. Caso sejam roubadas ou vazadas, o internauta precisa ser avisado em até 72 horas. “Não somos uma ilha, e o Brasil é um mercado importante de soluções e serviços de TI para Europa e Estados Unidos e precisa se adaptar rapidamente a esse novo padrão”, enfatiza o coordenador do Comitê Regulatório da Associação Brasileira das Empresas de Softwares (Abes), Andriei Gutierrez. O País exporta US$ 2 bilhões em produtos e serviços de tecnologia da informação e comunicação (TIC) por ano. Para a Europa, vão 22%, e mais de 60%, para os Estados Unidos. “É importante evitarmos vazamentos e definirmos políticas de criptografia e de educação digital”, diz Gutierrez. COMPLIANCE DEVE SER PRIORIDADE “O GDPR deve estar nas prioridades de todos os gestores jurídicos e de compliance a partir de agora”, avisa Peck. Segundo a advogada, “existe consenso entre sociedade civil e governo sobre a importância dos regulamentos para a proteção ao cidadão e às próprias seguranças jurídica e regulatória das empresas”. Fundamentos que o Marco Civil da Internet (de 2014) e certificados de padrões de segurança (PCI dos meios de pagamentos, por exemplo) não observam de forma tão abrangente, avaliam os especialistas. O CEO da Deep Center – de análise e informação digital –, Gabriel Camargo, lembra que o primeiro passo para atender 10    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 Fotos: Divulgação a esse compliance é contratar um data protection officer, profissional responsável pela segurança da informação, e uma equipe com expertise na legislação de proteção. “As empresas menores podem recorrer a parceiros especializados cujas soluções ajudem a encurtar caminhos”, sugere o executivo. “As pequenas e médias devem começar a arrumar a sua vitrine para atuali­ zar a política de privacidade”, observa Peck. Nos escritórios de Direito Digital e nas empresas fornecedoras de soluções de segurança, aumentou a demanda por ferramentas e profissionais dessa área. “Somos procurados por quem precisa ficar em conformidade, para revisão de contratos, elaboração de cláusulas e verificação de impactos de dados coletados”, informa o advogado Blum. Startups de aplicativos e sites estão atualizando suas políticas e avisando aos usuários, por e-mail, sobre essa adaptação. As redes sociais, grandes alvos do GDPR, adotaram regras mais rígidas no tratamento de dados pessoais. O Facebook criou um centro de controle para facilitar a atualização das suas configurações, válido também para seus aplica- O Brasil é um mercado importante de soluções e serviços de TI para Europa e Estados Unidos e precisa se adaptar às novas regras. ANDRIEI GUTIERREZ, coordenador do Comitê Regulatório da Abes GBrasil Junho R01 Curvas.pdf 1 04/06/2018 10:52:05 As empresas menores podem recorrer a parceiros especializados cujas soluções ajudam a encurtar caminhos. GABRIEL CAMARGO, CEO da Deep Center C M Y CM MY CY CMY K tivos Instagram, Messenger e WhatsApp. O vice-presidente de privacidade das redes, Erin Egan, enfatiza que todos os seus cadastrados, não importa onde morem, serão solicitados a revisar informações importantes sobre o uso da plataforma. O Google informou ter melhorado o “controle e a clareza de dados disponíveis no Minha Conta”, para que as pessoas fiquem informadas sobre como e por que tudo é coletado, e que trabalha para cumprir as regras do GDPR há 18 meses, bem antes de a regulação europeia entrar em vigor. A espanhola Telefônica, cujas operações no Brasil são afetadas pelo regulamento, afirma “trabalhar intensivamente em processos operacionais internos, produtos e serviços” para se alinhar ao GDPR na gestão de informações de clientes e usuários. Do lado dos consumidores, aumenta-se a percepção negativa em relação ao uso não autorizado de seus cadastros. Pesquisa da Veritas Technologies, feita com 12,5 mil pes­ soas de 14 países, informa que 62% deixariam de comprar de quem não protege seus dados, enquanto 81% pediriam a seus amigos que boicotassem o serviço de quem desrespeitasse tais regras. As maiores preocupações dos usuários, segundo a mesma pesquisa, relacionam-se ao compartilhamento de finanças pessoais, saúde, localização, hábitos de uso da internet e orientações sexual e religiosa. Por isso, é necessário um pouco mais de cautela com o que compartilhamos por aí.  JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 43   11

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ENTREVISTA CARLOS WIZARD, EMPRESÁRIO LIÇÕES DE UM EMPREENDEDOR DEPOIS DO SUCESSO DA REDE DE ESCOLAS DE IDIOMAS WIZARD, O MULTIFACETADO CARLOS WIZARD CONSTRÓI COM ÊXITO UMA NOVA TRAJETÓRIA GRAÇAS À SUA VISÃO EMPREENDEDORA KARINA FUSCO O fato de ter vendido sua bem-sucedida rede de escolas de idiomas a um grupo estrangeiro por R$ 2 bilhões não fez o empresário Carlos Wizard Martins, de 61 anos, acomodar-se, tampouco desfrutar de uma aposentadoria tranquila. A visão empreendedora desse paranaense que atualmente vive em Campinas (SP), foi responsável pelos novos passos de sucesso. “Um dos fatores essenciais para quem busca o sucesso é a resiliência”, comen- ta, sobre os desafios que superou ao longo da carreira. Atualmente, Wizard está à frente de 18 empresas ava- liadas em mais de R$ 3 bilhões. São elas: Pizza Hut, KFC, Taco Bell, Mundo Verde, Aloha, Topper, Rainha, Saucony, Hickies, Ronaldo Academy, Academia Palmeiras, Neymar Sports, Hub Fintech, Social Bank, Wise Up, Number One, Orion e Logbras. No primeiro semestre de 2017, o empresá- rio retornou ao setor de educação ao desembolsar R$ 200 mi- lhões para adquirir 35% da rede Wise Up. Ele fala à Gestão Empresarial sobre empreendedorismo, gestão de patrimô- nio e oportunidades para quem quer ter o próprio negócio. Quais são as principais características de um empreendedor para que seu negócio tenha sucesso? Como é possível desenvolvê-las? Em primeiro lugar, um empreendedor de sucesso se destaca pelos modos de pensar, de acreditar e de agir. Para conquistar a prosperidade, é preciso, antes, organizar-se emocionalmente. Quem é bem-sucedido não procura desculpas para desistir de seus sonhos. Para ter sucesso, ele precisa se identificar com a atividade que exerce e também saber dividir suas tarefas com a equipe. Para ter sucesso, o empreendedor também pre- cisa ter controle da parte econômica do seu negócio, saber investir e, mais importante, saber poupar. Quais aprendizados o ajudaram a alcançar o sucesso? Ao longo de minha trajetória precisei vencer muitos obstáculos até encontrá-lo. Minha decisão de estudar no exterior teve um grande impacto. Por um momento, quase desisti após ver as notas do primeiro semestre. Com o apoio de minha esposa, Vania, continuei até conseguir me formar. Após a formatura, tive a tentação de ficar nos Estados Unidos, mas minha esposa me incentivou construir uma história de sucesso aqui. Quando comecei a dar aulas de inglês, houve um momento em que precisei deixar de pensar como professor e começar a pensar como empreendedor. A decisão de adquirir novas empresas, seguindo um conselho de meus filhos, Charles e Lincoln, também contribuiu para o êxito dos nossos empreendimentos. O senhor tem negócios em diversas áreas. Essa diversificação é favorável em quais situações? A diversificação dos negócios vem do processo de amadurecimento do empresário. É uma forma de garantir diferentes 12    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 Foto: Christian Parente formas de renda e certa segurança econômica. Isso porque, estando presente em diferentes setores, o risco de ter seu patrimônio dilapidado por uma crise é menor. Mas a diversificação também traz o risco da falta de controle na gestão. Por isso, é preciso estar atento a esses pontos e ter uma equipe de profissionais experientes e, acima de tudo, com integridade para gerir vários negócios. Como o senhor tomou a decisão de vender a Wizard? Para ser honesto, nunca tive objetivo de vender a empresa. A decisão partiu dos britânicos interessados em investir no setor bilíngue. É natural que, quando um grupo estrangeiro chega ao País com apetite para ingressar em um determinado setor, ele vá buscar a empresa líder naquela área. Dessa forma, quando a Pearson chegou ao Brasil com disposição de ter uma fatia do mercado bilíngue, ela fez uma proposta, digamos assim, irrecusável. Não é todo dia que alguém lhe oferece um cheque de R$ 2 bilhões. Diante dessa proposta, reuni-me com meus filhos Charles e Lincoln, que me acompanham na gestão de todos os negócios, e optamos por passar o controle da empresa aos estrangeiros. Admito que não é fácil para o fundador se desfazer de algo que um dia ele viu nascer. Mas, no mundo dos negócios, precisamos agir com a razão, e não com a emoção. Quais as estratégias que o senhor usa para prever o futuro? Prever o futuro é uma missão quase impossível, especialmente em um país como o Brasil, sujeito a tantos percalços políticos e econômicos. Entretanto, é possível se cercar de informações sobre o mercado que contribuam para que o empresário seja o mais assertivo possível. Eu diria que o mais importante é que o empresário conheça profundamente o seu próprio negócio e acompanhe de perto todos os indicadores da empresa, estando sempre atento às mudanças. Também é importante saber das tendências internacionais, pois eventualmente elas chegam por aqui também. Seus filhos também comandam alguns negócios do seu grupo. Como envolver a família e, ao mesmo tempo, garantir que a gestão seja profissional? O segredo para uma gestão familiar bem-sucedida, além do profissionalismo, é manter regras de governança bem claras. O SEGREDO PARA UMA GESTÃO FAMILIAR BEM-SUCEDIDA, ALÉM DO PROFISSIONALISMO, É MANTER REGRAS DE GOVERNANÇA BEM CLARAS. JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 43   13

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Isso passa pela separação do capital dos sócios e da empresa, e também pela meritocracia: membros da família que ocupam cargos executivos serão remunerados pelo cargo, mas também serão cobrados por resultados, da mesma forma como seriam executivos trazidos do mercado. Se há essa imparcialidade, a gestão familiar tem tudo para ser um sucesso. Meus filhos exercem papel fundamental na gestão os negócios da família: Charles e Lincoln estão comigo desde 2001, quando tinham 22 anos. Cada um tem uma área de atuação em que mais se destaca. Hoje, nenhuma decisão empresarial é tomada sem que eles sejam consultados, e ambos atuam como principais executivos dos negócios da família. Minhas filhas, Priscila e Thais, estão à frente da Aloha, uma empresa de multinível que conta com 10 mil consultores em todo o Brasil. Na Aloha, Priscila não me chama de pai, mas de Carlos. Quando as pessoas lhe perguntam por que esse tratamento, ela responde: “Eu sou a CEO da empresa, sou cobrada como uma profissional e sei que se não entregar os resultados, minha posição corre risco”. 14    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 Mesmo diante de um ambiente de negócios tão inseguro e burocrático, o senhor acha que a recuperação econômica do País passa pelo empreendedorismo? São em momentos de crise, como o que passamos, que as empresas com visão aproveitam para ocupar espaço no mercado. Quem conseguir implantar seus projetos durante a crise e se posicionar bem, certamente crescerá mais rápido do que a concorrência, assim que a economia tiver seu momento de retomada. As pequenas empresas são o grande motor do emprego no Brasil e estão sendo fundamentais para que o Brasil supere a crise.  Foto: Christian Parente MERCADO ELAS CONQUISTARAM ESPAÇO AS MULHERES VÊM ABRINDO CAMINHO NO MUNDO DOS NEGÓCIOS. NA CONTRAMÃO DO PRECONCEITO, ELAS DECIDEM EMPREENDER PARA TER A PRÓPRIA RENDA, APÓS UMA DEMISSÃO OU EM BUSCA DE FLEXIBILIDADE POR CAUSA DA MATERNIDADE SILVIA KOCHEN A s mulheres já são maioria nas escolas de contabilidade, com 57% do total de estudantes nos cursos de Ciências Contábeis no País, o equivalente a 205 mil alunas. Os homens respondem pelos demais 43%, somando 150 mil alunos, segundo registros do Ministério da Educação (dados de 2016). Nas empresas contábeis, a proporção se inverte: eles representam 57% dos profissionais; e elas, 43%. Atualmente, há um total de 521,62 mil profissionais de conta- bilidade registrados no Brasil, sendo 222.758 do sexo femini- no, e 298.862 do masculino, de acordo com levantamento do Conselho Federal de Contabilidade (CFC) do fim de maio de 2018. A proporção vem ficando mais equilibrada a cada ano. Em 1996, a participação da mulher no cenário contábil era de apenas 27%, contra 77% de registros profissionais masculi- nos. A entidade prevê que em até cinco anos ocorra a equipa- ração em termos numéricos. Embora já não exista discrepância na remuneração para homens e mulheres com funções semelhantes na área, se- gundo a vice-presidente de Fiscalização, Ética e Disciplina do CFC, a contadora Sandra Maria Batista, o que falta alcançar são cargos de liderança. “Em 70 anos de existência do nosso conselho, tivemos apenas uma mulher presidente: Maria Cla- ra Cavalcante Bugarim”, exemplifica. Mas a evolução é contí- nua e irreversível. “Não queremos competir com os homens, apenas evoluir juntos, em pé de igualdade.” Para a pioneira Maria Clara, a fórmula do sucesso está ligada à qualificação. Formada em Ciências Contábeis na década de 1980, ela cursou, depois, Administração e Direito; em seguida, fez mestrado em Auditoria e Controladoria, e doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento. Aos 27 anos, tornou-se a primeira auditora-geral de Alagoas. Hoje, é controladora-geral do Estado e professora na Universidade de Fortaleza (Unifor). Maria Clara chegou a trabalhar na empresa de contabilidade da família e possuir uma agência de viagens – e é mãe de três filhos. Ela afirma que o fato de ser mulher não trouxe obstáculos à sua trajetória profissional. “Pelo contrário, sentia uma torcida a meu favor, já que fui a primeira em uma série de coisas.” NEGÓCIOS PRÓPRIOS No empreendedorismo, os avanços femininos são significativos. Segundo a pesquisa “Donos de Negócios – Análise por Gênero 2015”, realizada pelo Sebrae com dados da Pnad/IBGE de 2014, o número de mulheres donas de negócios JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 43   15

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VISIONÁRIA E ARROJADA A sócia da Eaco Consultoria e Contabilidade, filiada GBrasil em Curitiba (PR), Dolores Biasi Locatelli, vem desbravando terreno para as mulheres no mundo contábil desde a década de 1970, quando ainda lecionava Mecanografia e Contabilidade. Viu chegar os primeiros computadores à sua empresa, que está completando quatro décadas de mercado. Durante anos, foi a única mulher entre os 15 membros do Conselho Regional de Contabilidade do Paraná. Com outras contadoras, idealizou há 14 anos o Instituto Paranaense da Mulher Contabilista (IPMCont). “A resistência em relação à mulher contabilista sempre foi grande, então, montamos o instituto para trocar ideias e nos prepararmos melhor para assumir nosso papel”, diz. “Tive muitos enfrentamentos, a ponto de precisar me impor e dizer: ‘Minha opinião também deve ser considerada’. Fui ganhando respeito, as portas foram se abrindo. O essencial é estar preparada, com competência e informações atualizadas, para atuar com qualidade”, indica. Dolores crê que o caminho para a conquista de relevância passa por mais representação feminina nas associações de classe. “É importante que nos façamos presentes nos grupos e nas entidades.” 16    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 O NÚMERO DE MULHERES DONAS DE NEGÓCIOS NO PAÍS CRESCEU 34% ENTRE 2001 E 2014. NO MESMO PERÍODO, O DE HOMENS AVANÇOU APENAS 14% no País cresceu 34% entre 2001 e 2014, bem mais do que o de homens, que teve um avanço de 14% no mesmo período. Em 2014, um total de 7,9 milhões de brasileiras eram empresárias, sendo 98,5% delas donas de micros e pequenas empresas. Grande parte delas abre empresas por necessidade de manter a renda, depois de uma demissão, ou para ter flexibilidade de horários em decorrência da maternidade. A empreendedora Ana Fontes deixou o cargo de executiva em uma empresa, fundou o site Elogieaki e, em 2010, foi uma das 35 selecionadas (entre 800 inscritas) para a versão paulista do 10 mil Mulheres, projeto global da Goldman Sachs de capacitação feminina em empreendedorismo. Criou, então, o blog Rede Mulher Empreendedora para compartilhar o conteúdo aprendido. Em seis meses, tinha 50 mil seguidoras. Hoje, são quase 500 mil. Atualmente, dedica‑se à Rede Mulher Empreendedora, focada em capacitação e apoio para empreendedoras, e ao Instituto Rede Mulher Empreendedora, organização não governamental voltada à defesa de políticas para o empreendedorismo feminino. Um dos entraves ao avanço ainda é a dificuldade que muitas mulheres têm em assumir a gestão financeira do próprio negócio. “Elas costumam delegar essa tarefa ao marido ou a um sócio, por causa de uma construção social que coloca o controle financeiro como tarefa Fotos: Divulgação As propagandas de investimentos são dirigidas a homens, mesmo que as mulheres sejam 52% da população e responsáveis por 80% das decisões de compra. NEIVIA JUSTA, jornalista e autora da campanha #ondeestãoasmulheres? masculina”, diz Ana. Por outro lado, a visão da mulher é mais humana, causando maior impacto social à sua volta. Ela cita dois negócios bem-sucedidos baseados nesse olhar feminino abrangente: a Empregue Afro, agência de empregos voltada a pessoas em situação de vulnerabilidade social, e a Mensageiros da Esperança, que capacita jovens de baixa renda na Vila Brasilândia, em São Paulo. TRANSFORMAÇÃO COMEÇA EM CASA A percepção geral é que o preconceito contra a mulher, embora menor, ainda existe. A jornalista Neivia Justa, primeira mulher a chegar à direção da Goodyear em 99 anos de existência da multinacional, criou a campanha #ondeestãoasmulheres?, e nota que reportagens sobre eventos corporativos normalmente mostram apenas homens. “As propagandas de investimentos são dirigidas a homens, mesmo que as mulheres sejam 52% da população e responsáveis por 80% das decisões de compra.” Para Neivia, a mudança deve começar em casa e na escola, para que as novas gerações superem o machismo. “Eu me propus a ser agente de transformação e ajudar a promover o debate.”  JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 43   17

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EMPREENDEDORISMO DA COZINHA PARA A TV UM DOS MAIS RESPEITADOS CHEFS DE COZINHA DO BRASIL, THIAGO CASTANHO UNIU TALENTO GASTRONÔMICO E VOCAÇÃO PARA O EMPREENDEDORISMO FILIPE LOPES A clamado pelo jornal The New York Times como um dos chefs mais inovadores do Brasil, o paraense Thiago Castanho saiu das cozinhas do Remanso do Peixe e Remanso do Bosque – restaurantes de sua família em Belém (PA) – para os estúdios de TV. Influenciado pelos pais, Francis- co e Carmen, Castanho percebeu que se quisesse se destacar no segmento, precisaria ampliar o cardá- pio de conhecimento. Cursou, então, Gastronomia no Senac em Campos do Jordão (SP) e estagiou com o chef do restau- rante Tasca da Esquina, em Portugal, Vitor Sobral, além de ter viajado pelo mundo para conhecer novos sabores. A ideia de modernizar os empreendimentos familiares sem perder as raízes amazônicas foi posta em prática por meio de cursos de gestão empresarial e foco no treinamen- to de seus colaboradores. Atualmente, Castanho apresenta o programa Cozinheiros em ação, no canal GNT, e já partici- 18    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 A PERSEVERANÇA TAMBÉM É FUNDAMENTAL PARA TORNAR REAIS AS COISAS QUE ACREDITAMOS. Fotos: chef Thiago Castanho / Octavio Cardoso; Filhote na brasa / Ricardo Silva pou como convidado do MasterChef Brasil, na Band. Cozinhar na frente das câmeras foi um novo desafio. “Fui formado dentro da cozinha e não tinha técnica para me comunicar com o público.” Para aprimorar a desenvoltura, cursou teatro e logo se familiarizou com a telinha. “É preciso ter humildade sempre e buscar conhecimento para inovar. A perseverança também é fundamental para tornar reais as coisas que acreditamos”, ressalta, ao comentar sobre as habilidades empreendedoras que desenvolveu. Quando questionado sobre quesitos importantes da administração dos negócios, ele destaca a relação de confiança que mantém com os fornecedores dos restaurantes, em sua maioria pescadores e pequenos agricultores paraenses. A prática foi herdada de seu pai. Até hoje, seu Francisco é quem escolhe os peixes, garantindo variedade e frescor. Desde 2008, a família Castanho tem o suporte de gestão contábil da C Correa Serviços Contábeis. O diretor da empresa, Carlos Correa, conta que a rotina de viagens de Castanho exige flexibilidade no atendimento. “Mas todos os familiares são abertos ao diálogo para que encontremos as melhores soluções na hora de tomar decisões”, diz o membro GBrasil no Pará. MIX DE OPÇÕES Mais de 12 mil pessoas (a metade, turistas) experimentam as delícias do Remanso do Bosque e do Remanso do Peixe todo mês. Ambos têm como especialidades a culinária amazônica característica do Pará. O menu tem peixes PEIXE FILHOTE FEITO NA BRASA, COM MACAXEIRA E FEIJÃO-MANTEIGUINHA, É UM DOS PREFERIDOS DO PÚBLICO como tambaqui, tucunaré, filhote, pirarucu e mapará, além de produtos locais, como pupunha, farinha de mandioca e a muçarela de búfala da Ilha do Marajó. As receitas indígenas que marcam o sabor dos pratos renderam ao Remanso do Bosque o 38º lugar entre os 50 melhores restaurantes da América Latina pela revista britânica Restaurant. “Mesmo recebendo muitos turistas, nós nos preocupamos em oferecer pratos de qualidade e preço justo à população local, que é quem mantém os restaurantes abertos.” Garantir novidades ao público é uma busca constante. Thiago Castanho conta que o novo entusiasmo de seu pai é o Balcão do Remanso, bar aberto em julho de 2017 dentro do Remanso do Bosque. Os drinques têm frutas da região, como a cachaça de jambu, e ingredientes que Castanho conheceu em países asiáticos. “O sucesso dos restaurantes se deve muito à autonomia que minha equipe tem para trabalhar na minha ausência”, afirma ele, que, além dos pais, conta com o auxilio do irmão, Felipe. “Quando a equipe está forte, o chef é só um detalhe.” JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 43   19

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CAPA 20    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 CONTRATAÇÃO DE REFUGIADOS: DESAFIO PARA AS EMPRESAS EMBORA EXISTA AUXÍLIO DE ONGS E ENTIDADES PARA O TRÂMITE DE DOCUMENTAÇÃO, A ABSORÇÃO DE ESTRANGEIROS AINDA É TABU NO MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO. SITUAÇÃO É MAIS PREOCUPANTE EM ESTADOS DA REGIÃO NORTE GUILHERME MEIRELLES E m 2011, o consultor de recursos humanos João Marques compareceu a um evento sobre inserção de refugiados no mercado de trabalho e vislumbrou um nicho até então inexplorado no meio empresarial. Em parceria com o Ministério do Trabalho e com a Acnur (Agência da ONU para Refugiados no Brasil), desenvolveu o Programa de Apoio para a Recolocação de Refugiados (PARR), colocou a pasti- nha embaixo do braço e bateu à porta de 80 clientes da Em- doc, consultoria que comanda há 30 anos, em São Paulo. “O projeto foi elogiado, mas havia muita desconfiança, como se os refugiados fossem bandidos ou terroristas”, recorda. Per- sistente, ele foi quebrando resistências e, hoje, dispõe de um banco de dados com cerca de 2 mil currículos, acessado por 217 empresas dos mais distintos portes, principalmente no ramo do comércio varejista. “Já promovemos mais de 200 contratações e cerca de 500 encaminhamentos para entida- des. Das 80 empresas visitadas há sete anos, 70 já contratam refugiados”, comemora. Nos últimos anos, houve aumento no fluxo de refugiados rumo ao Brasil. Por volta de 2014, o Estado do Acre foi a porta de entrada para milhares de haitianos que vinham pelo Peru. “Até que havia pessoas bem qualificadas, mas em Rio Branco não há oportunidades”, diz Mauricio Prado, sócio GBrasil em Rio Branco. Na ocasião, o governo estadual fretou ônibus e aeronaves para conduzir os refugiados para outras capitais. “Hoje, a movimentação é esporádica”, ressalta Prado. Houve também a vinda de venezuelanos e refugiados de origem africana, principalmente de Congo, Guiné, Togo e Angola. De 2016 para cá, registra-se ainda a entrada de pessoas da Síria, fugidos da guerra civil naquele país. Criada em 2010, a ONG Adus (Instituto de Reintegração do Refugiado) tem JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 43   21

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TRÁFICO DE PESSOAS A posição geográfica do Brasil não permite comparações com o tráfico humano presente nas áreas fronteiriças entre o México e os Estados Unidos, mas as autoridades brasileiras estão atentas. Em maio, a Polícia Federal interceptou um barco no litoral do Maranhão com 25 imigrantes africanos e dois brasileiros, que foram presos em flagrante por estarem atuando como “coiotes”. Segundo as autoridades, o barco vinha de Cabo Verde (África) e usava uma falsa bandeira haitiana. Os tripulantes contaram que o barco estava à deriva e há cinco dias sem alimentação regular. uma procura média mensal de 40 empresas interessadas em empregar refugiados. “Enviamos uma média de cem currículos, dos quais metade é chamada para entrevista e 25% são contratados”, afirma a coordenadora do programa Trabalho e Renda da Adus, Fernanda Cobra. Segundo ela, as principais barreiras são a falta de domínio da língua portuguesa e a ausência de informações do histórico profissional dos candidatos, o que ainda gera desconfiança por parte dos donos das empresas. “Fazemos um trabalho de sensibilização com os empresários explicando os hábitos e as diferenças culturais dos candidatos. Aos refugiados, ensinamos conceitos básicos da lei trabalhista e procedimentos nas entrevistas e no ambiente de trabalho, principalmente com relação à hierarquia com as chefias. Os haitianos e africanos olham para o chão quando estão diante de um chefe, por exemplo”, destaca. Entre as empresas que buscam a Adus, estão a multinacional Roche, a rede de gráficas AlphaGraphics e a rede de restaurantes Outback, além de cafés e supermercados. 22    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 No fim de 2017, a Livraria Cultura lançou o projeto Cultura Sem Fronteiras, que hoje emprega 14 refugiados em lojas de São Paulo, Brasília, Recife e Porto Alegre. São 11 homens e três mulheres, vindos de países como Haiti, Cuba, Venezuela e Egito. “O acolhimento e a receptividade estão acima das nossas expectativas”, afirma a diretora de operações da rede, Juliana Brandão. O projeto é realizado em parceria com a ONG Estou Refugiado, que ajuda na documentação legal e tem a colaboração do banco Itaú para abertura de conta. Todas as contratações são feitas dentro da CLT, com carga horária entre seis e oito horas, com planos de saúde e odontológico e vale-transporte. “Os que possuem melhor domínio do português estão no atendimento e nos caixas. Já os que não falam bem, ficam na manutenção e na limpeza. Não há limite de idade, temos um angolano com mais de 50 anos”, diz Juliana. Os salários chegam a R$ 3,2 mil, no caso dos vendedores. “Fui bem acolhido pelos colegas. Converso em francês com os clientes e estou adaptado em São Paulo. Em breve, quero retomar meus estudos.” diz o auxiliar de serviços gerais na Livraria Cultura, Mamadou Korka Balde. No grupo hoteleiro Accor, a inclusão de refugiados faz parte de uma política ampla de apoio às minorias. Na unidade da bandeira Íbis Budget, na Avenida Paulista (em São Paulo), trabalham seis refugiados (três da Venezuela, um do Haiti e dois do Congo) em diferentes áreas. “São os funcionários que mais recebem elogios dos hóspedes”, afirma a gerente-geral do Ibis Budget Paulista, Juliana Valença. É o caso do haitiano Donaldo Syllabe, de 23 anos, que desempenha as funções de garçom no restaurante do hotel. Em bom Fotos: Didmar Duwe e Mauricio Prado – Divulgação; Pedro Ferraz – Fabiano Panizzi A baixa densidade populacional do Estado faz com que eles se concentrem na capital. PEDRO FERRAZ, filiado GBrasil em Boa Vista (RR) Até que havia pessoas bem qualificadas, mas em Rio Branco não há oportunidades. MAURICIO PRADO, membro GBrasil em Rio Branco (AC) As exigências para a contratação formal são rigorosas, e a ausência de qualquer informação se torna um empecilho. DIDMAR DUWE, sócio GBrasil em Porto Velho (RO) ENTIDADES ATUAM COM REFUGIADOS ENSINANDO CONCEITOS BÁSICOS DA LEI TRABALHISTA E COMO SE COMPORTAR NO AMBIENTE DE TRABALHO português, conta que chegou em junho de 2015 ao Brasil em busca de novas oportunidades e que pretende ficar no País. “Os hóspedes gostam de conversar em francês. Não tenho planos de voltar ao Haiti. Quero estudar finanças”, afirma. FORMALIZAÇÃO Nos últimos anos, as ações desenvolvidas pelas ONGs com o governo federal têm acelerado o processo de documentação e inibido a informalidade. Ao chegar ao Brasil, o primeiro passo do refugiado é buscar uma entidade de apoio para tirar no Ministério da Justiça os documentos necessários à sua permanência, que são o Registro Nacional de Estrangeiros (RNE), a Cédula de Identidade do Estrangeiro (CIE), o Cadastro de Pessoa Física (CPF) e a carteira de trabalho (CTPS). São documentos relativamente rápidos para a obtenção, desde que haja o acompanhamento correto, que serão exigidos por ocasião de um emprego formal. Há mais dificuldade na abertura de conta bancária, em razão da ausência de um endereço fixo (muitos refugiados moram em albergues). Recentemente, o Banco do Brasil abriu três pontos em São Paulo exclusivamente para atender refugiados. Em situações de revalidação de diplomas, a burocracia é maior e os preços, mais salgados. De acordo com a Portaria n.º 22, de dezembro de 2016, do Ministério da Educação e Cultura (MEC), ela só pode ser feita por universidades públicas, mas, em algumas delas, como na Unesp e na Unifesp, os processos estão suspensos. “É preciso verificar as taxas cobradas, saber quais universidades aceitam comparar os currículos e ainda fazer um exame de nível de português para ter o seu diploma revalidado”, explica a advogada Camila Suemi, da ONG Compassiva, que auxilia refugiados do Oriente Médio. Segundo Camila, a taxa de revalidação varia entre R$ 1,6 mil e R$ 20 mil. O problema atinge principalmente os refugiados sírios. Muitos dos que chegam ao País possuem qualificação superior à média dos brasileiros, principalmente nas áreas de engenharia e tecnologia da informação. A advogada cita o caso de um ex-aluno de português JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 43   23

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5 32467+3T NÚMEROS OFICIAIS O Brasil registrou em 2017 o recorde histórico de solicitações de refúgio. De acordo com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), do Ministério da Justiça, foram contabilizados 33.865 pedidos, mais do que o triplo de 2016, com 10.308 solicitações. O expressivo aumento veio em função da instabilidade política e da crise econômica da Venezuela, que liderou o ranking. ▪  Venezuela  52,75% ▪  Cuba  7,01% ▪  Haiti  6,97% ▪  Angola  6,01% ▪  China  4,32% ▪  Outros países  22,94% fonte do gráfico: Conare – Ministério da Justiça A MULTINACIONAL ROCHE, A REDE DE GRÁFICAS ALPHAGRAPHICS, OS RESTAURANTES OUTBACK, A LIVRARIA CULTURA E O GRUPO HOTELEIRO ACCOR SÃO ALGUMAS DAS EMPRESAS QUE JÁ EMPREGAM REFUGIADOS Fui bem acolhido pelos colegas. Converso em francês com os clientes e estou adaptado em São Paulo. Em breve, quero retomar meus estudos. da entidade, formado em Engenharia Mecânica, mestrado em Radioatividade Nuclear e fala três idiomas. No entanto, como não possui recursos para revalidar o diploma, é obriga- do a trabalhar em uma confecção de jeans por um salário de R$ 1,5 mil. Por causa de represálias a familiares na Síria, os refugiados evitam contatos com a imprensa. A perspectiva para a absorção de refugiados é positiva, principalmente pelo gradativo reaquecimento da economia e pela implantação da nova lei trabalhista, que desonera o em- MAMADOU KORKA BALDE, auxiliar de serviços gerais na Livraria Cultura, em São Paulo pregador e permite contratos temporários. Ainda neste ano, a Sodexo On-site, grupo especializado no fornecimento de mão de obra em infraestrutura e alimentação, deve expandir o projeto Empoderando Refugiadas, lançado em 2016, para representantes do sexo masculino. “A filosofia da diversidade faz parte da nossa cultura nos 80 países em que atuaAmnuoncsi. oEsA-cene_ALTA.pdf 1 6/11/18Anun7c:i0o9 APcMene_ALTA.pdf 1 6/11/18 7:09 PM tudamos as condições de vida dos refugiados antes de lançá-lo no Brasil”, afirma a coordenadora de diversidade e inclusão da Sodexo On-site, Lilian Rauld. A maioria das refugiadas vem do Congo, de Angola e da Síria e trabalham nas áreas de manutenção e limpeza, em empresas como Malwee, Heineken e Schneider. “Mas já colocamos uma congolesa como recepcio- O NOSSO NEGÓCIO É O SEU SUCESSO nista trilíngue (português, inglês e francês) na Accenture”, diz. Em que pese a disposição e o espírito humanitário em abrir as portas do mercado de trabalCho, as opções se tornam C mais escassas em regiões distantes dM as grandes metrópoles. M De 2016 até hoje, Porto Velho (RO) teY m sido ponto de parada Y para refugiados que chegam de CubaCM e da Venezuela. Em de- corrência das crises econômica e política no país vizinho, miMY lhares de venezuelanos têm atravessado a fronteira em busca CY de oportunidades no Brasil. Entretanto, nem todos possuem CM MY CY recursos financeiros para completaCrMY a viagem para a região CMY Foto: Divulgação Sudeste e acabam parando na capitaKl de Rondônia. “Conheci K um casal de cubanos que tinha boa formação. Ajudei o marido a conseguir uma vaga em um açougue dentro de um super- mercado, mas ele não conseguiu ser contratado por falta de documentos”, conta o sócio GBrasil em Porto Velho Didmar Duwe. Segundo Duwe, as exigências para a contratação formal são rigorosas, e a ausência de qualquer informação se torna um empecilho. “Não ter o documento de identidade para estrangeiro, que demora até dois anos para sair, [inviabiliza a formalização]”, afirma ao lembrar que o casal fez o cadastro de entrada no Brasil na Receita Federal e embora tivessem obtido um protocolo, o CPF e a carteira de trabalho, há a obrigatoriedade da identidade oficial para se conseguir emprego. A situação também tem se tornado mais crítica em Roraima, que faz fronteira com a Venezuela. Como o país faz parte do Mercosul, o Brasil não exige passaporte para os venezuelanos que entram no País pela cidade de Pacaraima e se dirigem até Boa Vista. Segundo Pedro Ferraz, filiado GBrasil em Boa Vista, o mercado restrito e a baixa qualificação dos refugiados impede a absorção na economia local. “A baixa densidade populacional do Estado faz com eles se concentrem na capital. Alguns conseguem vagas como garçons e vendedores, mas têm dificuldades com o idioma e não conseguem entender as demandas dos clientes.” Anuncio Acene_ALTA.pdf 1 6/11/18 O NOSSO NEGÓCIO É O SEU SUCESSO C M Y CM MY CY CMY K Ace24    GnESTÃO EMPReESARIAL 43 _  JULHO / 2A018 LTA.pdf Acene_ALTA.pdf 1 1 6/11/18JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 437   25 :0 6/11/18 7:0

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SUSTENTABILIDADE SOL E VENTOS RENOVAM A MATRIZ ENERGÉTICA COM UM OLHO NO AMBIENTE E OUTRO NO CUSTO, CRESCE NO BRASIL O USO DAS ENERGIAS SOLAR E EÓLICA LÚCIA HELENA DE CAMARGO B andeiras branca, amarela, vermelha e verde. O brasileiro ouve esses termos quando o assunto é eletricidade. Como a nossa matriz energética é primordialmente hidrelétrica (70%), quando chove pouco, são acionadas as termelétricas, e os valores aumentam. A con- ta de energia subiu 14% no último ano. Ainda assim, o consumo de eletricidade no Brasil cresceu 0,8% em 2017 em relação a 2016, totalizando 464 mil GWh (gigawatts/hora), segundo a Empresa de Pesquisa Ener- gética (EPE), que planeja as ações do setor em conjunto com o Ministério de Minas e Energia (MME). Seja para fugir de uma conta salgada, seja pelo apelo am- biental, fontes de energia limpas e renováveis estão ganhan- do terreno, casos da eólica e da solar, que apresentam maior potencial de crescimento no Brasil. O empresário Ademar Menezes Júnior implantou há três anos sistemas fotovoltaicos na sua residência e em sua farmá- cia, em Ribeirão Preto (SP). Tomou um empréstimo bancário de R$ 200 mil e contratou o serviço da Blue Sol Energia So- lar. “Compensou financeiramente”, diz Menezes, que gastava R$ 400 com a conta de luz residencial; e na loja, cerca de R$ 2 mil mensais. Hoje, paga R$ 50 em cada. A conta não zera por- que a concessionária continua a cobrar pela transmissão e distribuição, já que os sistemas funcionam conectados à rede. O excedente gerado é transformado em créditos para uso fu- 26    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 turo. Ele calcula que em seis anos terá recuperado o valor da instalação. Para se livrar totalmente da conta de luz, é possível instalar um sistema fora da rede, dotado de baterias, especialidade do engenheiro Christian Bittencourt, sócio da CN Engenharia. “É preciso uma mudança de paradigma: em pouco tempo, gerar a própria energia poderá ser primordial para a sobrevivência de uma empresa”, opina Christian. SOLUÇÃO ACESSÍVEL A Sou Energy Solar executa projetos de energia solar residenciais, comerciais e industriais em todo o território brasileiro. Com R$ 15 mil, já é possível criar uma pequena estação residencial fotovoltaica, segundo o gerente de desenvolvimento da empresa, Renan Ribeiro. Já a geração industrial começa em torno dos R$ 2 milhões. “O Brasil está acordando para a necessidade de buscar novas fontes de energia”, diz Renan. A Elite Engenharia já instalou 980 placas solares na Região Norte desde Foto: Divulgação BIOGÁS NO GERADOR O empresário Agostinho Pedrosa, da Contac Contabilidade, sócia GBrasil em Goiânia (GO), tornou sua fazenda Granja Leiteira Sol Dourado, em Anápolis, autossuficiente em eletricidade, gerada com dejetos das próprias vacas. Com um rebanho de 190 cabeças, a propriedade produz diariamente 5 mil litros de leite A. Desde a implantação do sistema, há três anos, em vez de contaminar o lençol freático, o esterco vira matéria-prima para o biodigestor, que impulsiona o gerador seis horas por dia. A conta de luz, que antes era de R$ 20 mil por mês, sai agora por R$ 2,5 mil. Outra parte dos dejetos se transforma em adubo biológico, que, além de evitar o uso de químicos, é utilizado na produção do feno que alimentará as mesmas vacas. “E ainda diminui o custo com ração”, afirma o fazendeiro. A meta é, em breve, ampliar o rebanho para 350 animais, gerar mais energia, injetar o excedente no sistema e baratear a conta de eletricidade da empresa contábil. “Se o governo fornecer incentivos, muitas fazendas podem contribuir com soluções de geração de energia elétrica e produção de adubo que preserva o meio ambiente”, sugere Pedrosa. PLACAS SOLARES INSTALADAS NA SEDE DA ELITE ENGENHARIA 2013. De acordo com o sócio e diretor técnico da empresa, Leonardo Fonseca, o custo fica em torno de R$ 4 a R$ 8 por watt instalado, a depender do projeto, da incidência de luz solar na região, entre outros fatores. Em 2016, ao custo de R$ 180 mil, a Elite instalou 112 placas solares na própria sede, passando a gerar energia equivalente a 52,2 mil kWh/ano, que atende a cem por cento do seu consumo. A conta de eletricidade, que era de R$ 3,7 mil ao mês, caiu para R$ 93 (apenas a manutenção). A empresa calcula que o retorno do investimento virá em cinco anos. “Estamos em uma região [Rio Branco, no Acre] privilegiada quanto à intensidade solar, com 11 horas diárias de geração”, afirma Fonseca. “Outra vantagem é o benefício ambiental. Com os módulos solares, aproximadamente 4 toneladas de CO2 deixarão de ser emitidas por ano na atmosfera.” De acordo com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), em 2018 o País ultrapassou 1 gigawatt (GW) de capacidade instalada em usinas de fonte solar fotovoltaica conectadas à matriz elétrica nacional. A potência é suficiente para abastecer 500 mil residências. Ainda assim, isso representa menos de 1% da eletricidade consumida no País. A meta é chegar a 2026 gerando 8% de toda a energia consumida. Um dos motivos para o otimismo é o índice de irradiação solar sobre o território brasileiro: entre 1.500 e JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 43   27

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Estamos em uma região privilegiada quanto à intensidade solar, com 11 horas diárias de geração. LEONARDO FONSECA, sócio e diretor técnico da Elite Engenharia, em Rio Branco (AC) 2.400 KWh m²/ano, bem maior do que o da Alemanha, referência na área, que tem 900 a 1.250 KWh m²/ano. Um dos entraves ao crescimento, porém, é a dificuldade no acesso ao crédito para essa finalidade. Segundo Rodrigo Sauaia, presidente da Absolar, falta “um programa nacional estruturado para acelerar o desenvolvimento da energia solar”. MAIOR PRESENÇA A produção de energia eólica no País atingiu 12,7 gigawatts em 2017, – aumento de 19% em relação a 2016, segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) –, encerrando o ano com 508 parques em operação. Segundo a associação, em média, 18 milhões de residências foram abastecidas mensalmente pela fonte eólica em 2017. De acordo com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), a representatividade da fonte eólica alcançou 7,4% em 2017. O Brasil ocupa o oitavo lugar no mundo em capacidade instalada dessa fonte energética. A presidente da ABEEólica, Elbia Gannoum, prevê que, nos próximos três ou quatro anos, a participação da energia do vento na matriz elétrica brasileira salte para 20% da capacidade instalada, com 252 novos parques eólicos até 2023, capazes de gerar um total de 5,8 GW. “O setor eólico está entrando numa fase de maturidade” diz. Anuncio GATTI_FINAL_ALTA.pdf 1 6/7/18 9:56 AM Credibilidade e Experiência 28    GESTÃO EMPRESARIAL 43    JULHO / 2018 Empresa associada ao 51 2108 9900 www.gatti.com.br Porto Alegre - RS Foto: Divulgação Fotos: Divulgação NEGÓCIOS CONEXÃO ORIENTE–BRASIL COM 51 OPÇÕES DE SABORES DE CHÁ E TÍQUETE MÉDIO DE R$ 17, A BUBBLE MIX TEA FATUROU R$ 3,2 MILHÕES EM 2017 FILIPE LOPES F oi na China que os amigos Rodrigo Balotin, Rogério Teixeira e Alex Lin se inspiraram em uma popular bebida local para decidir que abririam um negócio no Brasil. Como Lin tem pai taiwanês e Balotin já havia trabalhado por três anos na China, essa ligação com o continente asiático ajudou a conhecer os detalhes da preparação de um chá que chamava atenção pelo sabor refrescante. A re- ceita mistura café, cremes, essências de frutas, pérolas de tapioca e jellys (“gelatininhas”). Após pesquisarem os insumos e com­ preender as regras de importação (70% dos ingredientes vêm de Taiwan), conseguiram formar uma rede segura de fornecedores para atendê-los por aqui. Nascia, então, a Bubble Mix Tea. A primeira loja foi aberta em Foz do Iguaçu (PR), em 2014, com investimento de R$ 60 mil. O maior desafio foi incluir a cultura do chá no dia a dia do brasileiro, que, segundo Balo- tin, consome a bebida de maneira medicinal. Ele relata que a disciplina oriental foi determinante para que conseguissem estruturar o negócio. “Passamos a investir em conhecimento sobre importação de alimentos de países asiáticos e sobre o formato de franchising.” Hoje, a Bubble Mix Tea tem 14 lojas no Paraná e em Santa Catarina. Novas unidades no Rio Grande do Sul, em São Pau- lo e no Rio de Janeiro estão previstas no plano de expansão. O investimento inicial para abrir uma loja é de R$ 170 mil, com retorno médio de 21 meses. “Nas regiões Norte e Nordeste, te- RODRIGO BALOTIN, ROGÉRIO TEIXEIRA E ALEX LIN, FUNDADORES DA BUBBLE MIX TEA mos de estudar mais o mercado e a oportunidade de consumo para depois nos aventurarmos”, afirmam os empresários. A estratégia de lançamento de novas unidades passa por encontrar o franqueado ideal, consolidar o produto em um mercado e manter a inovação no centro da empresa. A Eaco Consultoria e Contabilidade (GBrasil | Paraná), firmou contrato com a Bubble Mix em agosto do ano passado. Desde então, atende à área contábil, faz o acompanhamento tributário e administra a folha de pagamento. Segundo David Antonione, responsável pelo núcleo de atendimento fisco-contábil da Eaco, o mercado que a Bubble Mix Tea atua exige acesso constante a informações atualizadas sobre tributação e importação, além do controle financeiro da rede. “Nosso papel é fornecer as ferramentas necessárias para eles enxergarem o negócio como um todo e identificar em quais áreas é o momento certo de investir”, aponta Antonione. Balotin ressalta que “como o Brasil convive com o desafio da burocracia do sistema tributário, se não tivermos uma boa assessoria, como a Eaco, podemos até inviabilizar o negócio”. “Não basta ter uma ideia inovadora para ter sucesso”, sugere o empresário.  JULHO / 2018    GESTÃO EMPRESARIAL 43   29

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