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revista ANO VI - Nº 08 - 19 DE AGOSTO DE 2018 - EDIÇÃO ESPECIAL ISSN 2238-1414 Teorias do fantástico e uma análise do conto ‘O homem de areia’ de Hoffmann

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Editorial Esta edição da Revista Barbante apresenta uma temática especial, abrindo suas páginas para pesquisadores e artistas amazônicos. Reunimos aqui não apenas produções acadêmicas de alunos e professores da UNIFAP (Universidade Federal do Amapá), mas também contamos com contribuições artísticas – crônicas, poemas e fotos de autores que moram no Amapá. Na seção de artigos, temos “Do País das Maravilhas de Lewis Carroll à adaptação cinematográfica ‘Alice in Wonderland’ de Tim Burton”, em que as autoras Diana Jacarandá Pantoja Zavodny e Mariana Janaina dos Santos Alves se detém sobre a composição da personagem Alice em duas produções artísticas (na obra literária original de Lewis Carroll e em uma das mais recentes adaptações cinematográficas, dirigida por Tim Burton), observando diferenças e semelhanças nas duas produções. Já em “Teoria do fantástico e uma análise do conto ‘O Homem de Areia’ de Hoffman”, Marcus Vinicius Souza e Souza analisa um conto do escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann publicado em 1817, tendo como referência estudos sobre o gênero da literatura fantástica através de estudos de teóricos como Todorov e Camarani. Outro artigo aborda o conceito de máscara social em um conto de Machado de Assis. “A aparência e a essência no conto ‘A Causa Secreta’ de Machado de Assis”, de Suzete Souza Melo, traz uma análise que dialoga com críticos machadianos como Alfredo Bosi, Antonio Candido e Roberto Schwarz. Temos também “A crítica à modernidade através do Eterno Retorno em ‘A Estranha Morte do Professor Antena”, de Paulo Herculano Ribeiro Santos, que identifica e analisa o conceito de Eterno Retorno de Nietzsche em um conto do escritor modernista português Mário de Sá-Carneiro, tomando esse dado como uma crítica do autor à Era Moderna. Em “Analise do Triângulo Amoroso no conto ‘A Cartomante’ de Machado de Assis: a personagem como representação do feminino no século XIX”, Rafael Wendel Alves Pantoja e Simone Alvenita de Almeida se detém na personagem Rita, do conto “A Cartomante” de Machado de Assis, investigando o quanto a construção de Rita se mostra bem distante das típicas representações do feminino em obras da mesma época. Já na área dos estudos linguísticos, temos o artigo “Ensino-aprendizagem de língua portuguesa como língua estrangeira mediado pelas TICs”, de Viviane Nunes Freires Fernandes, que aborda a modalidade do ensino de Português como Língua Estrangeira (PLE) através de ferramentas tecnológicas de interação. Na seção de produções artísticas, contamos com cinco crônicas de Rafael Senra Coelho, cuja temática envolve seu olhar estrangeiro na cultura do Norte (a série à qual pertencem essas produções aqui compiladas se chama “Crônicas de um Mineiro no Amapá”). Temos também cinco poemas do escritor Marven Junior Franklin, que mora em Oiapoque e compartilha aqui conosco seu olhar sensível sobre as belezas da vida amazônica. Outro poeta que figura em nossas páginas é Leno Serra Callins, que, mesmo bem jovem, apresenta uma poesia bem interessante, com diversos poemas publicados em antologias de todo o país. Por fim, poderemos admirar belezas das pontas mais extremas no Amapá tanto ao norte quanto ao sul – através das fotos do Oiapoque (de autoria de Fernanda Cristina da Encarnação dos Santos) e de Macapá (essas de Christina Bielinski Ramalho). Boa leitura! E continuem com a Barbante! Rafael Senra organizador REVISTA BARBANTE - 2

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Artigos REVISTA BARBANTE - 3

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DO PAÍS DAS MARAVILHAS DE LEWIS CARROLL À ADAPTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA ALICE IN WONDERLAND DE TIM BURTON Diana Jacarandá Pantoja Zavodny1 Mariana Janaina dos Santos Alves2 RESUMO: Neste artigo, buscam-se analisar a composição da personagem Alice, em ambas as produções artísticas, tanto sob a perspectiva do livro ilustrado Alice no país das maravilhas (1865) de Lewis Carroll quanto a adaptação cinematográfica Alice in wonderland (2010) de Tim Burton. Além disso, será observado, o que há de comum e as diferenças das estruturas dos elementos narrativos nas obras. Com isso, a análise pretende detectar os pontos coincidentes e concorrentes estruturantes, comparando as cenas do filme com o texto narrativo. A método comparado foi adotado para compreensão de ambos os textos. A pesquisa fundamentou-se nos pressupostos teóricos apresentados no livro Personagens da literatura infanto-juvenil de Sonia Salomão Khéde (1986), no qual a autora discorre sobre a importância da personagem criança, bem como sua representação na estrutura narrativa; A Psicanálise dos contos de fadas (2002) de Bruno Bettelheim, texto em que se discute a relevância das histórias infantis para construção da personalidade da criança, a partir da relação com seu inconsciente e Tradução intersemiótica (1987) de Julio Plaza que aborda as diversas traduções existentes, especialmente, a que foi utilizada nesta pesquisa, a tradução intersemiótica, ou seja, aquela que traduz um sistema de signos linguísticos verbais para um sistema de signos não verbais. Palavras-Chave: Tradução Intersemiótica. Narrativa. Adaptação. Personagem. RÉSUMÉ: Dans cet article, on va essayer d’analyser la composition du personnage Alice, dans les deux productions artistiques, tant sur la perspective du livre illustré Alice dans le pays merveilleux (1865) de Lewis Carroll, que de l’adaptation cinématographique Alice in wonderland (2010) de Tim Burton. D’ailleurs, les aspects qui seront observés, c’est qu’est-ce qu’il y a de commun et de différent dans les structures narratives des oeuvres. Ainsi, cette analyse veut détecter les points coïncidents et les concurrents structurants, comparant les scènes du film avec le texte narratif. La méthode de la comparaison a été prise pour comprendre les deux textes. Ainsi, la recherche est fondamentée dans présupposée théoriques présentés dans le livre Personnages de la littérature enfantine de Sonia Salomão Khéde (1986), dans lequel l’auteur écrit sur l’importance du personnage enfant, bien que sa représentation dans la structure narrative; La Psicanalyse des contes de fées (2002) de Bruno Bettelheim, dans lequel on se discute de l’importance des histoires enfantines pour la construction de la personnalité de l’enfant à partir de la relation avec inconscient, puis on a le livre Traduction intersemiotique (1987) de Julio Plaza, où l’auteur aborde des diverses traductions existantes, spécifiquement, laquelle qu’a été utilisée dans cette recherche, la traduction intersemiotique, d’autre terme, laquelle qui traduit un système des signes linguistiques verbales par l’un système des signes non verbales. MOTS-CLÉS: Traduction Intersemiotique. Récit. Adaptation. Personnage. INTRODUÇÃO 1 Graduanda em Letras Português- Francês pela Universidade Federal do Amapá – Campus Binacional de Oiapoque. E-mail: dianajacarandapantoja_@hotmail.com 2 Professora de Língua e Literatura francesa na Universidade Federal do Amapá – Campus Binacional de Oiapoque. Doutoranda em Estudos Literários na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP - Araraquara. Membro do Núcleo de Pesquisa em Estudos Literários (NUPEL) vinculado ao CNPq. REVISTA BARBANTE - 4

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Neste artigo será analisada a adaptação cinematográfica Alice in wonderland (2010) e a obra de Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas (1865), através do estudo comparado, especificamente a tradução feita por Clélia Regina Ramos e ilustrada por Sir Jonh Tenniel. Verificaram-se através da leitura de ambas as narrativas que, o filme se baseia na obra de Carroll, mas, os enredos não são os mesmos. Assim, será considerado a que se deve essas diversificações e as implicações no processo de leitura do filme e do texto. Após o levantamento bibliográfico, observou-se que existem poucas pesquisas que analisam as obras citadas no Brasil, especialmente, estudos que comparam a adaptação cinematográfica e a narrativa de Carroll. Essa perspectiva de análise, deu-se pelo fato que, recentemente, muitas obras literárias estão sendo adaptadas para o cinema. Esse é um processo que deve apresentar estudos mais aprofundados, tanto no âmbito da literatura e em seus aspectos intersemióticos. Assim, será realizada uma pesquisa crítica-analítica, com o intuito de contribuir para a amplitude do conhecimento na área de literatura comparada da área de Letras, especificamente, na Literatura infanto-juvenil, da qual surgiram as reflexões que contribuíram para a proposta desta pesquisa. 1. CARROLL E ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (1865) O autor Lewis Carroll nasceu em 1832, na Inglaterra. Seu nome de registro é Charles Ludwigde Dogson. Seu pai, Charles Dogson, era reverendo, por isso, Carroll e sua família eram extremamente religiosos. A família, assim como o pai de Carroll esperavam que ele seguisse uma carreira religiosa, mas, o potencial do autor em matemática, colocou-o na universidade de Oxford, onde trabalhou como professor durante o período de 1855 a 1881. Durante essa época, ele publicou vários livros de matemática e poemas. Em 1853, utilizou pela primeira vez, o pseudônimo Lewis Carroll. O livro Alice no país das maravilhas foi escrito no final do século XVIII, momento em que o Romantismo ainda era adotado pela maioria dos artistas. No entanto, a obra de Lewis Carroll não se encaixa necessariamente em um período literário, devido suas características modernas. Alice no país das maravilhas (1865) não apresenta ligação com nenhuma ideologia política e, diferente de muitos escritores de sua época, não se propôs a fazer qualquer tipo de exaltação ao puritanismo da sociedade. O objetivo comum da produção do autor era entreter as crianças com suas histórias, bem como afirma Chargorodsky (2015) baseada nos pressupostos de Souza: Apesar de ser rica em significado, a narrativa de Carroll não pretende ensinar uma lição. A meta é outra: levar crianças a um mundo encantado, repleto de acontecimentos sem pé nem cabeça (o famoso nonsense pelo qual a obra é conhecida), onde estranhos personagens agem de maneira bastante curiosa. Isto é, nada de ensinamentos embutidos, a regra é se divertir lendo o livro [...] (CHARGORODSKY, 2015 apud SOUZA, 2009, p. 3) Assim, expressando-se livremente, adotando um estilo próprio e inovador quanto a maneira de pensar e escrever para crianças, pode-se afirmar que Lewis Carroll caminhava rumo ao movimento literário que ficou conhecido mais tarde como Modernismo. Apesar, de o autor ter escrito no período do século XIX. Além disso, é importante ressaltar que a obra Alice no país das maravilhas (1865) foi escrita num momento de muitos conflitos sociais, em que, de um lado haviam aqueles que buscavam se adaptar aos avanços exigidos pela Revolução Industrial; e de outro, estava o povo tradicionalista que pregava o puritanismo e a moral, ou seja, aqueles que compactuavam dos mesmos ideais da Rainha Vitória, que reinara de 1819-1901, na Inglaterra. Esse período ficou conhecido como a Era Vitoriana. REVISTA BARBANTE - 5

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A Inglaterra do século XIX, período mais conhecido como Era Vitoriana, passava por um momento de transformação, marcado pela transição do século anterior, predominantemente agrário, para um em que a Revolução Industrial ganhava espaço, a economia passava a ter suas bases no comércio e na indústria e a ciência avançava a passos largos. O trono da Inglaterra pertenceu à Rainha Vitória entre os anos de 1837 e 1901. A soberana ficou conhecida pela forte personalidade e por defender a moral e o puritanismo, e por eles zelar (LIMA, 2016, p. 17). A rainha Vitória presava por uma sociedade respeitável, exemplar e espiritualmente pura. Assim, as regras sociais eram rígidas e, basicamente, associadas às crenças religiosas. Devido a isso, a rotina de muitas famílias era ligada aos estudos bíblicos, visitas as igrejas e missas, pelo menos, assim era nas classes mais privilegiadas, pois, as famílias de classe menos favorecida tinham que trabalhar arduamente, dia após dia, para garantirem seu sustento. Nesse sentido, Chargorodsky destaca que: Nessa época, portanto, em função dessa situação social e econômica em que se encontravam as classes mais baixas da população, muitas mães chegaram a se prostituir e a colocar seus filhos, crianças pequenas, a partir de quatro anos de idade, a trabalharem. Essas crianças não tinham acesso à educação, pois eram obrigadas a trabalhar em vez de estudar (CHARGORODSKY, 2015, p. 03). Nesse contexto, a Revolução Industrial desenvolvia-se a cada dia, impulsionando os avanços tecnológicos, científicos e econômicos da sociedade. Assim, as tentativas de conservar uma sociedade inteiramente pura e moralista tornavam-se cada vez mais difícil. 2. TIM BURTON E A ADAPTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA O filme Alice in Wonderland foi lançado, em 2010, sob a direção de Tim Burton. O contexto histórico ao qual o filme faz referência é o mesmo do livro, ou seja, o período da Rainha Vitória, a época da Revolução Industrial. Contudo, é possível observar traços contemporâneos no comportamento da protagonista do filme como a ousadia e a busca pela independência pessoal. Timothy Walter Burton nasceu no dia 25 de agosto de 1958, na Califórnia-EUA. Ele é considerado um dos maiores autores tanto de filmes, quanto de livros, na atualidade. Suas produções de destaque são a animação Vincent (1982), elaborada em homenagem ao ator Vincent Prince (1911-1993). Segundo Cassius André Prietto (2012) Burton identificava-se com os personagens de Vincent, os quais em sua maioria, apresentavam uma característica obscura, triste, deprimida e de cor pálida. Em 1985, Burton lançou seu primeiro longa-metragem, As grandes aventuras Pee-wee. Depois deste, o diretor produziu muitos outros filmes como Beetlejuice – Os Fantasmas se Divertem (1988), Batman (1989), o clássico Edward mãos de tesoura (1990), O estranho mundo de Jack (1993), A noiva cadáver (2005) Ed Wood (1994), Marte Ataca! (1996), A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999), Planeta dos Macacos (2001), Peixe Grande (2003), A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005), Sweeney Todd (2007), Alice no País das Maravilhas (2010), entre outros que conquistam públicos de várias idades. 2.1 ALICE: A PERSONAGEM Na história contada no livro, Alice é uma garotinha que ao seguir um coelho branco que usava paletó, acabou chegando num lugar exótico, onde tudo tinha vida e todos os animais falavam. Dentre essas estranhas criaturas a personagem encontra uma lagarta azul fumando cachimbo. Conforme pode ser observado na imagem 1: REVISTA BARBANTE - 6

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TENNIEL, Sir John. Alice no país das maravilhas. 1865. Ilustração. Depois de algum tempo, a lagarta tira o cachimbo da boca e pergunta à menina: -Quem é você? Alice não soube responder, pois, não sabia ao certo quem realmente era, ela estava perdendo sua identidade. Segundo, Sônia Salomão Khède (1986) essa crise de identidade constitui-se devido o paradoxo de sentido, ou seja, “Alice não cresce sem ficar pequena, nem fica pequena sem crescer”. Na vida real isso pode acontecer com as crianças, quando os pais afirmam que ora elas são pequenas demais para isso e ao mesmo tempo são grandes demais para aquilo. Essas questões criam certa confusão na mente da criança, levando-a, assim, a crise de identidade apontada por Khéde, bem como aconteceu com personagem Alice. Na adaptação cinematográfica, Alice é uma garota de quinze anos que está prestes a ser tornar noiva de alguém que ela não ama, simplesmente para atender as expectativas sociais daquela época. Mas, no momento do pedido de casamento, Alice vê um coelho branco usando paletó e decide correr atrás dele. É nessa perseguição, que a garota cai em um buraco e chega em jardim mórbido e sombrio, e lá encontra estranhas criaturas, as quais a levam até a Lagarta Azul, chamada Absolem. Tal qual podemos observar na imagem 2: ALICE in wonderland. Direção: Tim Burton. Produção de Walt Disney Pictures. Reino Unido: 2010. Filme. Absolem pergunta a Alice: REVISTA BARBANTE - 7

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-Quem é você? E esta responde, prontamente: -Eu sou Alice! A lagarta mostra à menina o oráculo que revela a chegada de uma garota chamada Alice, que derrotará o terrível jaguadarte da Rainha Vermelha e devolverá o reinado à Rainha Branca. Esse dia, a lagarta chama de Glorien day (o dia da glória). Mas, Alice afirma não ser a garota que eles tanto procuram, pois ela jamais lutaria, muito menos mataria. Percebe-se, portanto, que no filme a protagonista lembra seu nome, ela sabe quem é. No entanto, ela teme enfrentar seu destino, seus medos. De acordo com Bruno Bettelheim (2002), encarar seus temores mais profundos é extremamente difícil, mas é somente enfrentando-os que o ser humano poderá alcançar uma vida compensadora e encontrar sua verdadeira identidade. Apesar de Alice saber quem é, ela perdeu a confiança em si mesma, não se considerava capaz ou forte suficiente para afrontar as lutas do destino. Após a conversar com Absolem, Alice encontra o Chapeleiro maluco, que diz: ALICE in wonderland. Direção: Tim Burton. Produção de Walt Disney Pictures. Reino Unido: 2010. Filme. -Você não é a mesma de antes! E conclui: -Você perdeu sua muiteza! Isso significa que ela perdeu a autoconfiança, mas Alice não entende muito bem o que o Chapeleiro quis dizer com isso. Somente quando a garota lembra que já esteve no país das maravilhas, quando criança, ela recupera a sua autoconfiança e decide enfrentar seu destino. Isso, acontece porque a garota entra em contato com seu inconsciente. A esse termo, Bettelheim afirma que: O conteúdo do inconsciente é, ao mesmo tempo, o mais oculto e o mais familiar, o mais obscuro e o mais limitador; cria a ansiedade mais atroz ou a maior esperança [...]. Sem nos darmos conta, o inconsciente nos leva de volta aos tempos mais remotos de nossas vidas [...]. (BETTELHEIM, 2002, p. 66). Por tanto, nota-se que o inconsciente de Alice levou-a até sua infância, resgatando a sua essência, ou REVISTA BARBANTE - 8

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seja, a audácia, coragem e principalmente, a capacidade criar e recriar o mundo ao seu redor, capacidade esta que caracteriza a essência de uma criança. 3. SOBRE A TRADUÇÃO E A ADAPTAÇÃO Outro ponto destacado, nesta análise, é a relação entre as similaridades quanto às distinções entre as obras. Há quem defenda a ideia de que uma tradução ou adaptação deva ser a mais próxima do texto traduzido possível, no entanto, segundo Julio Plaza (1987), uma tradução não precisa ser fiel à obra original, até porque, ao ser adaptada, recriada ou traduzida à obra adquire traços da cultura ou da sociedade a qual está sendo inserida. Assim, constitui-se a relação passado-presente-futuro. Em que o presente, ao recuperar o passado, é influenciado por este, que por sua vez, exerce influência sobre o futuro. Essa relação é perceptível na adaptação cinematográfica da obra de Carroll, pois, em ambas as obras, a personagem, Alice, vive em uma sociedade conservadora, puritana e rigidamente moralista. No entanto, no filme, a protagonista, além de não ser mais criança, e sim uma adolescente, ela apresenta fortes traços de uma garota contemporânea, tais como a ousadia, o caráter questionador, a busca pela independência, entre outras características. Além disso, toda vez que uma obra é recriada, o autor acaba inserindo traços do seu próprio estilo, de sua maneira de ver o mundo. Desta forma, é possível observar nas cenas da adaptação cinematográfica, cenários obscuros e sombrios, sempre envolvidos por uma camada de neblina. Esses detalhes são características próprias do diretor Tim Burton. Geralmente, os personagens de Burton apresentam evidentes caracteres românticos, tais como: a palidez na face, a melancolia dos personagens, os temas ligados à morte, a solidão, as características extremistas de decisões, o que nos remete ao ultrarromantismo, que beira o gótico. Assim, Muraca observa que: Tim Burton se aproveita dos elementos góticos em geral, desde os castelos e cavaleiros das narrativas dos séculos XVIII e XIX até a cultura pop de horror dos filmes de monstros e aliens do cinema. Sua obra tornou-se uma vasta galeria de seres estranhos, sem cabeça, deformados, zumbis, esqueletos, gigantes, bruxas, gente pálida e não compreendida, todos mergulhados em um espaço aparentemente escuro, azulado, sob o nevoeiro e a noite (MURACA, 2010, p. 05). Percebe-se, portanto, que o estilo do autor é singular, seus personagens são excêntricos. Essa peculiaridade de Burton está atrelada a “uma infância e adolescência imersas numa áurea de distanciamento e reclusão” (MURACA, 2010, p. 02). Isso significa que os personagens são simplesmente o reflexo da alma do autor. Segundo Cassius André Prietto (2012), o diretor Tim Burton tem como fonte de inspiração suas memórias de infância, e sente a necessidade de reproduzi-las. Já na narrativa textual, tem-se a descrição de um cenário mais reluzente, claro e ensolarado, conforme narra o autor: Alice abriu a porta e viu que dava para uma pequena passagem, não muito maior que um buraco de rato: ela ajoelhou-se e avistou o mais adorável jardim que jamais vira.3 Como ela gostaria de sair daquela escura e passear por entre aqueles canteiros de flores viçosas e aquelas fontes geladas. (CARROLL, 1865, p. 10, grifo nosso) Esses detalhes estão atrelados ao principal propósito de Carroll, o de entreter as crianças, por isso, a 3 Grifos nossos. REVISTA BARBANTE - 9

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personagem era dotada de imaginação, no desenrolar do enredo nada surpreende Alice, nada parece impossível, tais como o fato de animais e flores falarem, ou seja, admitirem comportamentos humanos. Além do mais, considerando a teoria de Plaza, a adaptação cinematográfica pode ser considerada uma tradução intersemiótica icônica, pois, segundo o autor, a tradução icônica é aquela que se preocupa em produzir elementos de qualidade e aparências similares ou equivalentes. Percebe-se, portanto, que existe a similaridade da tradução com o texto fonte, e a segunda, se refere a tradução que apresenta estrutura distinta ao texto original, mas a composição é a mesma. Esta última característica é perceptível na comparação entre a obra de Lewis Carroll e a adaptação cinematográfica. Conforme podemos observar no encontro da Alice com a lagarta, em que esta pergunta a garota: - Quem é você? Além disso, tem-se o momento em que a garota está tomando chá com a Lebre de Março e o Chapeleiro maluco. Há também, a similaridade entre a cena, na qual, Alice encontra o Gato risonho em cima da árvore, ou ainda o momento em que a menina, tentando sair da sala das portas, come um pedaço de bolo e começa a esticar. Com isso, pode-se afirmar que o processo de traduzir não implica somente transcrever um texto de um sistema linguístico para outro, de uma língua para outra. Traduzir significa recriar ou até mesmo criar novos sentidos para o texto, novos olhares, outras perspectivas, como se pode ver nas obras analisadas. CONCLUSÃO Com tudo o que foi exposto, conclui-se que as características comportamentais e representações de um personagem são formados a partir da época, da cultura e da sociedade em que o texto é inserido. Assim, podemos ver como a Alice cinematográfica se apresenta, por meio de suas atitudes são expressos os comportamentos, estes próprios da contemporaneidade. Já a Alice, da narrativa textual, exprime comportamentos que estão associados à outra época, como a educação escolar que era abordada de forma rígida, não oferecendo espaço para que a criança desenvolva sua capacidade de criar e imaginar o mundo a sua volta. Além do mais, percebeu-se que a tradução não está associada somente ao processo de transferir o texto um sistema linguístico para outro. Esse processo implica em muitos outros detalhes, os quais ampliam o conceito de tradução. Assim, transportar uma obra do sistema linguístico verbal, como o texto, para um sistema linguístico não verbal, como o cinema, além de ser um procedimento de adaptação, também é considerado uma tradução. Por fim, concluiu-se que na adaptação cinematográfica, Burton foi capaz de relacionar o passado e o presente, valorizando a intenção do escritor Carroll em entreter as crianças e criticar a Era Vitoriana, bem como, contemplar o espírito de liderança e independência da mulher contemporânea. Ao interligar esses dois polos, Burton amplia a valorização do texto fonte e desenvolve a originalidade de sua adaptação cinematográfica. REFERÊNCIAS REVISTA BARBANTE - 10

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ALICE in wonderland. Direção: Tim Burton. Produção da Walt Disney Pictures. Reino Unido, 2010. BETTELHEIM, Bruno. Psicanálise do conto de fadas. 16º ed. São Paulo: PAZ E TERRA, p. 21-69, 2002. CARROLL, Lewis. Alice no país das maravilhas. Trad. Clélia Regina Ramos. Editora Arara Azul, 2002. Disponível em << http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/alicep.pdf>>. Acesso em 30 jan. 2017. CHARGORODSKY, Eliana Capiotto. Alice no País das Maravilhas: os desafios em traduzir para crianças. São Paulo: Tradterm, 2015. v. 25, p. 97-122, jun. Disponível em: <>. Acesso em: 04 out. 2017. KHÉDE, Sonia Salomão. Personagens da literatura infanto-juvenil. São Paulo: Editora Ática,1986. MORAES, Giselly Lima de. Do livro ilustrado: reflexões sobre multimodalidade na literatura para crianças. In: Estudos de literatura contemporânea, n. 46, p. 231-253, jul./dez. 2015. Disponível em: . Consultado em: 25 jan. 2017. MURACA, Márcio Henrique. Tim Burton e o Burtonesque: A Inversão do Conto de Fadas. Rio de Janeiro: Revista Semioses, v. 01, n. 07, ago.2010. Disponível em: <>. Acesso em: 11 out. 2017. NEVES, Felipe Ferreira. Diferentes Visões Brasileiras sobre Tim Burton. In: Galaxia, n. 35, mai-ago. 2017, p. 145-149. Disponível em: <>. Acesso em: 11 out. 2017. PLAZA, Júlio. Tradução Intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 1987. REVISTA BARBANTE - 11

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A APARÊNCIA E A ESSÊNCIA NO CONTO “A CAUSA SECRETA” DE MACHADO DE ASSIS Suzete Sousa MELO1 Resumo: Pretende-se neste trabalho, a partir das discussões sobre as singularidades dos contos e do olhar machadiano, trazer à baila o conceito de máscara social e como isso está figurativizado em Fortunato, personagem central do conto “A causa secreta”. Na tentativa de entender as ações humanas, a partir do uso da máscara, serão consideradas reflexões de grandes críticos machadianos, como por exemplo, Alfredo Bosi, Antonio Candido, Roberto Schwarz entre outros. É a partir dos conceitos desses autores sobre a máscara social e suas reflexões sobre a aparência e a essência, que teceremos apontamentos sobre a máscara social em Fortunato. Palavras-chave: Máscara social; Aparência; Essência; Conto; Machado de Assis. Resúmé: On prétend dans ce travail, à partir des discussions sur les singularités des contes e au regard machadien, mise en place le concept du masque social et vérifier comment cela est figurativisé en Fortunato, le personnage central du conte “Lá cause sécrete”, de Machado de Assis. Dans la tentative de comprendre les actions humaines à partir de l’usage du masque social, seront consideré les reflexions des grandes critiques machadiens, comme par example, Alfredo Bosi, Antonio Candido, Roberto Schwarz entre autres. C’est à partir des concepts sur le masque social e ses reflexions sur l’apparence et l’essence qu´on fera nos éstudes sur le masque social em Fortunato. Mots-clés: masque social, l’apparence; l’essence, conte; Machado de Assis. 1 REVISTA BARBANTE - 12

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1. Introdução. O comportamento humano há muito tempo tem sido descrito e analisado de diferentes modos e por diferentes autores nas mais diversas correntes teóricas. Na literatura, por exemplo, há um vasto número de autores que usam essa temática como mote de suas obras. Um dos grandes autores da literatura brasileira que trabalha profundamente essa questão é Machado de Assis, cujo reconhecimento dispensa apresentação, pois apesar de toda a tentação do biografismo, concordamos com Candido (1995, p.02) quando diz que a sua vida é sem relevo se comparada à grandeza de sua obra, e que aquela interessa pouco, enquanto esta interessa muito. Desse modo, isentar-nos-emos de fazer uma introdução biográfica a Machado de Assis, uma vez que só nos interessamos por destacar o seu fazer literário. Desta maneira, é valido dizer que além de escrever célebres romances, Machado de Assis foi também poeta, cronista e autor de vários contos. Nesse gênero, assim como nos demais, o autor apresenta toques de uma fina ironia, regados sempre à sutileza e ao humor. Além disso, o autor busca temperar suas histórias com a suspeita e o engano, é o que se vê, por exemplo, em contos como “A missa do galo” (1899), “Teoria do “Medalhão” (1881), “O enfermeiro” (1897), nos quais é possível ver o uso das máscaras sociais. Suas obras se dividem em dois grandes períodos, Romantismo e Realismo. Nas obras românticas ou da primeira fase, é possível observar o autor ligado a alguns princípios desse movimento literário, como por exemplo, o uso da escrita formal romanesca e a presença do patriotismo sempre acompanhado de uma fé ingênua. No entanto, apesar do espírito romântico, seus textos já indicavam algumas das características da segunda fase: o casamento por interesse, o amor contrariado, índices de uma leve ironia e uma sutil preocupação psicológica. Por essa razão, a primeira fase é conhecida como fase de amadurecimento, ao passo que a segunda é conhecida como fase de maturidade, pois o autor se desprende de todos os moldes romanescos, tomando assim uma postura mais crítica da sociedade. Como Schwarz (1997) define em sua obra Que horas são? A segunda fase é considerada superior à primeira, pois traz com mais força toda a criação e originalidade de Machado de Assis. No Realismo, além de discutir as questões sociais, como por exemplo, o adultério, as condições da mulher na sociedade patriarcal, os privilégios da classe proprietária, o autor trabalha também as questões humanas e as problemáticas contundentes de personalidade do indivíduo.Em outras palavras, o autor estuda a psicologia profunda das personagens sem esquecer a sociedade na qual estão inseridas, assim partindo de um ponto de análise individual para o coletivo. Esse aprofundamento psicológiconas personagens presente nos textos se dá através da técnica machadiana em mostrar, os segredos da alma humana e o caráter de cada personagem. A propósito, podemos definir as máscaras sociais como instrumentos indispensáveis para o desempenho de diferentes papéis nas diferentes esferas sociais. No teatro, as máscaras possuem uma simbologia muito forte e são utilizadas para representar múltiplos tipos sociais. Em uma associação, podemos dizer que a sociedade é um grande teatro que atribui diferentes representações aos seus participantes.Mas muito além disso, a máscara é pertencente à condição humana e são artefatos de ocultação ou revelação de algo existente no interior dos indivíduos, são importantes para a adaptação e manutenção das relações sociais. Acadêmica do Curso de Licenciatura Plena em Letras Português-Francês pela Universidade Federal do Amapá (Unifap), Campus Marco Zero. E-mail: suzetemelllo@gmail.com. Trabalho orientado pela Profa. Dra. Natali Fabiana da Costa e Silva. REVISTA BARBANTE - 13

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Esse conceito de máscara social pode ser ilustrado por meio do conto “A causa secreta”, publicado originalmente em 1885 e que faz parte da coletânea Várias Histórias (1995) em que, Fortunato, médico capitalista, em uma tentativa de adequação social, apropriou-se de outra identidade muito diferente daquilo que realmente era. Essa apropriação de outra identidade em detrimento da “verdadeira” engendra o constante impasse da aparência com a essência, uma vez que esse é um constante combate consigo mesmo. Posto isto, nosso objetivo, neste artigo é analisar a aparência e a essência no conto “A causa secreta”, isto é, como a máscara social está figurativizada no personagem Fortunato, uma vez que a essência e a aparência surgem nas narrativas machadianas como uma das suas principais características. Assim estudá-las é uma maneira de refletir sobre o ser humano e, porque não, a sociedade da época. 2. O mascaramento social nos contos machadianos. Quando pensamos nos contos machadianos e suas singularidades é possível detectar um aspecto que nos chama a atenção: o jogo das máscaras sociais. E para compreendermos esse aspecto, é necessário que nos remetamos ao significado etimológico da palavra “máscara”. Máscara é uma palavra que herdamos do árabe, que significa “peça que cobre parcial ou totalmente o rosto para ocultar a própria identidade”. Virgínia Moreira (1994), em seu texto Da máscara à pessoa: a concepção trágica de Homemnos lembra que: Os gregos chamavam esse objeto de prósora, que significa “o que disfarça”. No teatro grego, a máscara utilizada pelos atores era aquele objeto através do qual era emitida a fala do ator. Tinha, assim, uma função específica, que era a de funcionar como objeto intermediário entre o ator e o público, caracterizando o personagem.(MOREIRA,1994, p.21). No teatro grego, a máscara já exercia sua função de representação e, ao invés de um só indivíduo, representava vários tipos e categorias sociais, o que deixa claro que a máscara porta um significado muito amplo e está relacionado ao fator social. Outros estudiosos também classificaram a máscara e a sua finalidade. Bornheim, ao definir o mascaramento social, diz que “a máscara não é uma simples aparência, mas algo que pertence à condição humana” (BORNHEIM, 1976, p.102). Para ele, a máscara é algo que não pode ser abolida do ser humano e sem essa possibilidade de abandono, o que pode ser negociado é uma disciplinação por meio das convenções sociais. Já Massimo Canevacci (1990), em sua obra Antropologia da comunicação visualargumenta que: Vários são os significados que podem ser atribuídos à palavra máscara, confundindo-se, por vezes, com a função a ela atribuída. Como disfarce ou aparência enganadora; artefato que representa um rosto ou parte dele; objeto que destina a cobrir o rosto ou disfarçar o rosto de quem o utiliza. (CANEVACCI, 1990, p.63). Apesar desses vários significados e funções atribuídas à máscara, o autor lembra que em todas as culturas o que prevalece é a manifestação de uma inquietude e uma fascinação que envolve todos os povos. Esse esforço para revelar o mistério escondido por detrás dela é o que a torna interessante. Além disso, o autor discute a utilização da máscara como um protesto contra a insuficiência do eu, isso é, para viver os desejos de ser tantos “eus”, movidos por uma insatisfação profunda, rompe-se violentamente a identidade e a unicidade REVISTA BARBANTE - 14

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