"O Penitenciarista" Maio/Junho 2018

 

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Informativo,Jornal

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EDUCAÇÃO E APRISIONAMENTO O ato de tirar a liberdade de alguém nasce com o desejo unicamente de punir, castigar o indivíduo que comete um ato que cause prejuízo à sociedade ou a um de seus membros. Historicamente as prisões não tinham o objetivo de resgatar os criminosos ou delinquentes o objetivo era simplesmente castigar cerceando a liberdade. Como nos mosteiros da idade média onde a Igreja promovia a detenção dos monges com o objetivo de que eles sofressem a punição pelos pecados cometidos. Foi com o surgimento do iluminismo que se propõem a estudar as causas da criminalidade e porque os homens cometem crimes. No primeiro momento estudava as características físicas pois acreditava-se que havia um fator biológico e que os indivíduos nasciam com tendências psicológicas e físicas que determinavam se as pessoas eram criminosas ou não. Em um segundo momento estuda- se os fatores sociológicos analisando as origens e tendências dos indivíduos e do grupo social a que ele pertence. E é aí que nasce a pergunta se o ambiente que vivemos nos influencia: se somos fruto do meio. Ou se nós influenciamos o ambiente: influenciamos o meio. A sociedade que criamos ela é responsável por desenvolver no indivíduo suas mazelas ou desenvolvemos elas por nossas caraterísticas? E com o objetivo de responder a estas ques- tões que surge a ideia de ressocialização destes indivíduos, onde procura-se através da educação escolar e profissionalizante recuperar para a sociedade o homem preso. Buscando fazer proveitoso o período em que ele se encontra aprisionado promovendo uma recuperação física e psicológica do criminoso promovendo para ele condições de educação e reflexão. Uma iniciativa muito positiva se deu aqui no Estado de São Paulo na década de XX, onde foi construída uma penitenciária que promovia este ideal de aprisionamento que ressocializava o criminoso através da educação e reflexão sobre os seus atos. E isso ocorreu dentro da Penitenciaria do Estado na capital paulistana que é localizada no bairro de Santana dentro da Penitenciaria do Estado, nesta unidade na década de XX promoviam-se vários cursos de escolarização ensinando as matérias básicas e cursos profissionalizantes de marcenaria, alfaiataria e desenho e pintura. Neste período a penitenciaria do Estado recebia visitantes do mundo todo para ver como era executado este trabalho e os grandes resultados alcançados na recuperação do criminoso. Hoje ainda podemos ver como este ideal de educação funcionou pois boa parte do material produzidos pelos presos está em exposição no Museu Penitenciário Paulista que conta estas histórias e muitas outras.

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ARQUITETURA? O aprisionamento promove questões diversas e em vários ramos da sociedade como na política, educação, no direito e também no que diz respeito a arquitetura e engenharia. Onde e de que forma manteremos o homem e mulheres aprisionados? Como será este espaço? Como se dará a segurança? As celas caberão um, dois ou mais presos? Quantos guardas serão precisos para manter a vigilância e a disciplina. São perguntas que foram feitas historicamente e várias respostas foram dadas dentro do seu tempo histórico e buscando estar em acordo com a necessidade apresentada. O primeiro pensador a se preocupar com a condição em que o preso era mantido foi o inglês John Horward no século XVIII, a sua preocupação era com a questão sanitária, pois as prisões de seu tempo eram lugares sujos e muito insalubres. Horwad visitou várias prisões neste período e chegou à conclusão de que não ha- via na Europa uma unidade prisional em condições de abrigar e recuperar o criminoso. Dentro deste conceito surgiram várias ideias sobre como o edifício criado para aprisionar poderia ajudar o criminoso a se recuperar. O primeiro projeto de prisão modelar foi concebido em 1789, por Jeremy Bentham intitulado de pan-óptico, que para Bentham seria uma solução econômica e racional, pois permitiria a um único guarda vigiar todos a sua volta sem que os vigiados tenham a certeza se estão sendo vigiados ou não e isso criaria no preso a incerteza e dúvida. Para que esta sensação fosse possível o desenho arquitetônico seria de um prédio circular onde as celas ficassem todas de frente para uma torre no centro de um pátio e só um guarda vigiando a todos ou criando esta impressão. Ainda no século XIX surgiram outras ideias e críticas ao pan-óptico que ele seria uma máquina desumana. O maior crítico foi o arquiteto francês Louis-Pierre Baltard, uma de suas críticas era que o pan-óptico tentaria em vão transformar o homem delinquente em homem virtuoso e a outra crítica de Baltard e sobre a questão do olho central da onipresença do vigia. E para o arquiteto francês é a presença do guarda que traria um caráter mais real e humano para a prisão. Inconformado com a construção de prisões na Europa assemelhadas no sistema pan-óptico, Pierre Baltard apresenta um modelo arquitetônico em forma de cruz com raios, alas, celas e uma rotunda. Este modelo arquitetônico foi aplicado em vários países com alguma variação no seu estilo. No Brasil também seguimos o modelo criado originalmente por Baltard como podemos ver na Penitenciaria do Estado em São Paulo, inaugurada em 1920. O arquiteto Ramos de Azevedo busca inspiração no estilo italiano para construir a penitenciaria paulista que foi durante anos referência arquitetônica no Brasil e modelo de aprisionamento para o mundo, educando e profissionalizando os detentos que por ela passaram.

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RELIGIOSIDADE E O CÁRCERE O povo brasileiro é um povo religioso, mesmo antes da chegada dos portugueses os índios já expressavam sua religiosidade com seus rituais e seus deuses como Tupã e outros. Buscando o contato com a espiritualidade através das beberagens usadas nos rituais, cada tribo com seus costumes e ritos. Quando os portugueses chegaram uma das primeiras coisas que fizeram foi realizar a missa, e assim já introduzindo o ideal cristão e buscando a conversão do indígena na fé cristã. Com o passar dos séculos foram chegando ao Brasil outros povos, na maioria vindos da África com a exploração da mão de obra escrava, e com estes povos veio a sua cultural e religiosidade. Outros povos também chegaram e introduziram sua religiosidade em nossa terra: árabes, judeus, muçulmanos e japoneses todos contribuindo para a mistura cultural e religiosa que temos em nosso pais do Oiapoque ao Chuí. As expressões religiosas que mais marcaram nossa cultura foram as de origem portuguesa e africana. Os europeus trouxeram a fé católica e com os africanos foram várias como por exemplo a bantu, jeje, nagô, ioruba e mais tarde o protestantismo que hoje com as neo-pentecostais é a maior expressão religiosa dentro das unidades prisionais. O que ocorreu no Brasil foi a mistura destas religiões crian- do um sincretismo e também o surgimento da Umbanda e do Candomblé. Sincretismo, pois, alguns santos da Igreja Católica e alguns orixás tem a mesma representatividade nas religiões afro-brasileiras. Podemos verificar a representatividade destas religiões dentro das unidades prisionais, pois o preso traz para dentro das unidades prisionais a sua fé e a sua religiosidade e busca proferi-la de várias formas. Isso fica mito claro quando analisamos os estudos feitos pelo Instituto de Biotipologia que buscava analisar o preso investigando a origem de suas marcas físicas e isso fica claro quando era verificado e questionado as tatuagens que alguns presos traziam em seus corpos marcas com santos católicos, desenhos de cruzes, ou outros símbolos de proteção e até demônios eram marcados. Um dos lugares que podemos verificar a religiosidade dos encarcerados é dentro de suas celas nos desenhos nas paredes e nas leituras que alguns buscam fazer. Dentro da Casa Detenção no pavilhão 8 era um dos lugares que ficavam as representações religiosas, lá ficavam as igrejas protestantes, Católicas, Centros Espiritas e Terreiros, todas conviviam em harmonia e todos podiam buscar o acalento que sua religião poderia lhe ofertar. Museus pelo mundo Museu Ebrat O museu conta a história do aprisionamento durante o reinado de Mohammad Reza Shah Pahlavi a prisão era administrada pela SAVAK que em português significa Organização de Inteligência e Segurança Nacional. A prisão era originalmente a sede da polícia secreta que era ligada ao Comitê Anti-Vandalismo e sobe seus cui- dados ficara centenas de presos. O presídio, foi a primeira prisão moderna no Irão, construída pelos alemães durante o reinado de Reza Shah e com a Revolução Islâmi- ca em 1979, a prisão foi rebatizada com o nome de Towind Prison, operando até o ano de 2000, foi fechada devido a acusações de abu- sos contra os direitos humanos. Funcionando agora como Museu, buscando contar a forma de como os presos viviam. A palavra Ebrat tem o seguinte significado “aprender com a experiência do outro” e é isso que o Museu busca demonstrar, as dificuldades e dores que homens e mulheres passaram D olho no acervo dentro desta prisão. O edifício é ligado a um pátio circular com alas e celas que chegam até a clara boia, podendo ver no museu como os presos ficavam dentro das celas, pois há ma- nequins uniformizados como eram os presos da época, escritas nas paredes, maquinários e utensílios usados nas cessões de interrogató- rio, as viaturas utilizadas e os diagramas que relembram as atrocidades vividas no local e também há um mural de fotos com os presos que foram mantidos nesta prisão. Autor: Desconhecido

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FUTEBOL E O CÁRCERE Nestes dias do mês de junho e julho estamos respirando os ares da copa do mundo que ocorre na Rússia. Estamos sentindo, sofrendo e vendo a nossa seleção canarinho na disputa por mais um título mundial, o futebol mexendo com as emoções da grande maioria dos brasileiros, da mesma forma isso ocorre com a população carcerária, cada um com seu time na sua torcida e no desejo de bater sua bolinha para passar o tempo e se distrair, ocupando a mente com o esporte preferido da nação brasileira. Na antiga Casa de Detenção (Carandiru) que ficava no bairro de Santana, na capital paulista, era organizado um campeonato de futebol entre os detentos, existia uma federação que era responsável por montar as escalas de jogos. A organização era levada muito a sério, tinham duas divisões: a primeira e a segunda, onde o time que ficasse em último lugar da primeira divisão caia para outra e o time melhor colocado na segunda divisão subia para disputar a outra no próximo ano. Além dos campeonatos internos, vinham times de várias localidades para enfrentar uma das equipes da prisão, que eram times da várzea paulista e times como o juvenil do São Paulo Futebol Clube, Portuguesa e Juventus; ainda vários jogadores profissionais, vez ou outra apareciam na Detenção para jogar com os presos jogadores como Neto, que foi campeão brasileiro pelo Corinthians, o Cafu ex-jogador do São Paulo e vários outros. Os campeonatos da Casa de Detenção eram disputados, jogos aguerridos, os jogadores se dedicavam com muita raça para os seus times. E as torcidas? Essas lotavam o campo de futebol torcendo pelo seu time favorito, cada jogo uma distração, uma forma de passar o tempo e demonstrar a paixão pelo esporte bretão como acontece com a maioria dos brasileiros. Então... Vai Brasil!!!! FINAL DE CAMPEONATO CASA DE DETENÇÃO (CARANDIRU) F O T O D O A C E R V O M P P. AGENDE SUA VISITA (11) 2221-0275 ou E-mail: comunicampp@gmail.com Endereço: Av Zaki Narchi, 1207. NOS SIGAM NAS REDES SOCIAIS Visite nossos Blogs: www.museupenitenciario.blogspot.com.br www.penitenciariapraqueblogspot.com.br Cine Carandiruno TODAS AS SEXTAS-FEIRAS ingressos gratuitos. EQUIPE SAP/MPP: Edson Galdino; William Costa Santiago; Josi Barros. COLABORAÇÃO: Janio Moreira. Envie sua opinião, fotos ou histórias relacionadas ao sistema penitenciário para a próxima edição do informativo “O Penitenciarista”

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