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miguel sousa tavares equador 1
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http groups.google.com/group/digitalsource oficina do livro digitalização e arranjo revisão rosa branca henriques agostinho costa título equador autor miguel sousa tavares 2003 miguel sousa tavares pesquisa e documentação ana xavier cifuentes revisão oficina do livro composição oficina do livro em caracteres sabon corpo 11 capa antónio belchior sobre postal antigo da cidade de são tomé da colecção particular de joão loureiro fotografia luís vasconcelos 1a edição maio 2003 30000 exemplares isbn 989-555-013-8 depósito legal nº 196362/03 2
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equador linha que divide a terra em hemisfério norte e sul linha simbólica de demarcação de fronteira entre dois mundos possível contracção da expressão «é com a dor» «é-cum-a-dor» em português antigo 3
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i depois de as coisas acontecerem é quase irresistível reflectir sobre o que teria sido a vida se se tem feito diferente se soubesse o que o destino lhe reservava nos próximos tempos talvez luís bernardo valença nunca tivesse apanhado o comboio naquela chuvosa manhã de dezembro de 1905 na estação do barreiro mas agora recostado na confortável poltrona de veludo carmim da 1a classe luís bernardo via desfilar tranquilamente a paisagem através da janela observando como aos poucos se instalava o terreno plano semeado de sobreiros e azinheiras tão característico do alentejo e como o céu de chuva que deixara em lisboa ia timidamente abrindo clareiras pelas quais espreitava já um reconfortante sol de inverno procurava ocupar aquelas preguiçosas horas de viagem até vila viçosa na leitura sonolenta do mundo o seu jornal de todos os dias vagamente monárquico assumidamente liberal e como o nome indicava preocupado com o estado do mundo e com «as elites que nos governam» naquela manhã o mundo noticiava uma crise aberta no governo francês devido ao aumento dos custos de construção do canal de suez que o engenheiro lesseps não se cansava de escavar como um louco furioso e sem prazo de conclusão à vista havia também notícia de mais um aniversário do rei eduardo vii passado na intimidade da família real e com mensagens recebidas de todos os reis rajás sheiks régulos e chefes tribais desse imenso império onde recordava o mundo o sol nunca se punha no que se referia a portugal havia novas de mais uma expedição punitiva contra os nativos do interior leste de angola mais um episódio daquela imensa trapalhada em que parecia sobreviver a custo a colónia e em são bento registara-se nova algazarra entre os deputados do partido regenerador de hintze ribeiro e os progressistas de josé luciano de castro a propósito da «lista civil» do paço o orçamento público reservado ao funcionamento da casa real o qual nunca parecia ser suficiente para os gastos luís bernardo largou o jornal no lugar vazio ao lado e preferiu antes meditar no que o fizera apanhar aquele comboio tinha 37 de idade era solteiro e tão mal comportado quanto as circunstâncias e o berço lho permitiam algumas coristas e bailarinas de fama equivalente a todas as suspeitas ocasionais empregadas de balcão da baixa duas ou três virtuosas senhoras casadas de sociedade e uma muito falada e disputada soprano alemã que estagiara três meses em são 4
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carlos e de que constava não ter sido o único frequentador era pois um homem dado a aventuras de saias mas também a melancolias aos 22 anos deixara o curso de direito em coimbra mas para grande desgosto do seu já falecido pai a sua projectada carreira na advocacia não fora além de um curto estágio no escritório de um reputado advogado de coimbra do qual saíra esbaforido e para sempre aliviado daquela suposta vocação regressara à sua lisboa de sempre onde se ocupara de dispersos ofícios até ter herdado do pai a posição de sócio principal da companhia insular de navegação três navios de cerca de doze mil toneladas cada um transportando carga e passageiros entre a madeira e as canárias o arquipélago dos açores e as ilhas de cabo verde a insular tinha os escritórios situados num prédio ao fundo da rua do alecrim os seus trinta e cinco empregados espalhados pelos quatro andares do edifício pombalino e ele próprio instalado num amplo salão com duas janelas rasgadas sobre o tejo que vigiava com a atenção de um faroleiro ao longo dos dias dos meses dos anos ao princípio luís bernardo criara a ilusão de que dali controlava uma armada atlântica e quase uma parte dos destinos do mundo conforme os telexes ou as comunicações-rádio dos seus únicos três navios iam chegando assim ele ia actualizando o seu paradeiro com pequenas bandeirinhas que espetava no imenso mapa de toda a costa ocidental da europa e de África que preenchia a parede do fundo depois aos poucos foi-se desinteressando do paradeiro diário do catalina do catarina e do catavento deixou de espetar diligentemente as bandeirinhas no mapa embora continuasse a comparecer religiosamente às partidas e chegadas dos navios da insular na rocha conde de Óbidos só uma vez lhe ocorrera por espírito de descoberta ou por dever de ofício embarcar num dos seus navios fora de ida e volta até ao mindelo em são vicente numa viagem tormentosa e desconfortável para encontrar uma terra que lhe parecera desolada e absolutamente despida de qualquer coisa que pudesse interessar a um europeu do seu tempo explicaram-lhe que aquilo não era bem África antes um pedaço de lua caído ao mar mas ele não se motivou a ir mais além ao encontro dessa tal África de que lhe chegavam tantos relatos extasiados ficara-se para sempre pelo escritório da rua do alecrim e pela casa em santos onde vivia sozinho com uma velha governanta que herdara de casa dos pais e que sentenciava volta e meia que «o menino precisa de se casar» além de uma ajudante de cozinha uma moça da beira baixa feia como um porco-espinho almoçava invariavelmente no seu clube de sempre no chiado jantava no bragança ou no grémio ou pacatamente em casa fazia serões de cartas com os amigos ou visitas sociais em casas de família ocasionalmente o são carlos festas no turf ou no jockey era bem relacionado espirituoso inteligente bom conversador tinha a paixão do estado do mundo que acompanhava com a assinatura de 5
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uma revista inglesa e outra francesa e era correspondentemente fluente nas duas línguas coisa rara na lisboa desse tempo interessara-se pela questão colonial lera tudo sobre a conferência de berlim e quando a questão ultramarina começou a ser objecto de apaixonadas discussões públicas ainda como sequela do ultimatum inglês publicara dois artigos no mundo que foram amplamente citados e discutidos pela sua análise de uma rara frieza e equilíbrio por entre o furor patriótico e antimonárquico dominante nos espíritos em contraste com a aparente condescendência do senhor d carlos defendia ele um colonialismo moderno de matriz mercantil centrado na exploração efectiva das coisas que portugal tivesse capacidade para levar a cabo através de empresas vocacionadas para a actividade em África geridas com espírito profissional e «atitude civilizacional» e não mais «entregue aos desígnios dos que aqui não sendo ninguém lá se comportam como sobas piores do que os que encontraram e não como europeus idos da civilização do progresso ao serviço do seu país» os seus artigos foram objecto de acaloradas discussões entre «europeus» e «africanistas» e a fama de que beneficiou então aliciou-o a ir mais além publicando um opúsculo onde reuniu os números referentes aos últimos dez anos de comércio de importação das colónias de África para sustentar a sua conclusão de que esse comércio era incipiente para a europa insuficiente para as necessidades do país e logo um profundo e instalado desperdício das possibilidades oferecidas por uma exploração racional e inteligente das riquezas ultramarinas «não basta apregoar ao mundo que se tem um império concluía ele é também necessário explicar porque se merece tê-lo e conservá-lo.» o debate que se seguiu foi violento e intenso e do outro lado da trincheira o «africanista» quintela ribeiro dono de extensas fazendas em moçâmedes resolveu ripostar no clarim perguntando «que conhecimentos tem de África o licenciado valença e virando a frase contra o seu criador concluía «não basta apregoar ao mundo como este valença que se tem uma cabeça É também necessário explicar por que se merece tê-la e conservá-la.» a frase de quintela ribeiro e a própria discussão pública suscitada pelas intervenções de luís bernardo tornou-se uma espécie de cartão de visita do destinatário porque a verdade é que muita lisboa comentava ser também um desperdício que um homem com a sua idade e os seus talentos de inteligência e informação gastasse o melhor da sua vida a olhar o tejo por uma janela e a cirandar pela cidade em busca de conquistas amorosas tudo isso ficara para trás há já uns meses luís bernardo regressara não sem alívio à sua pacata e habitual vida de todos os dias o incómodo de ser o centro de uma polémica pública parecera-lhe maior do que a eventual fama e admiração que daí colhera traduzida 6
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num aumento de convites para jantares onde invariavelmente tinha de ouvir debitar estúpidas opiniões sobre a «questão ultramarina» sempre rematadas com a pergunta da praxe e você que pensa sobre isto valença naquele instante precisamente no comboio de lisboa para vila viçosa luís bernardo pensava na estranha convocação que el-rei lhe tinha feito através do seu secretário particular o conde de arnoso para que comparecesse a almoçar nessa quinta-feira no paço de vila viçosa bernardo de pindela o conde de arnoso um dos integrantes do célebre grupo dos «vencidos da vida» que tanto agitara a vida intelectual do país uns anos antes e que lhe dera a inesperada honra de o visitar no seu escritório da insular limitara-se a transmitir-lhe o convite e apenas acrescentara desculpar-me-á meu caro mas como compreende eu não posso revelar o que sua majestade pretende dizer-lhe sei que o assunto é de importância e el-rei pede que o encontro seja mantido em segredo no mais verá que um passeio até vila viçosa só lhe faz bem para desanuviar desta atmosfera de lisboa e além disso posso garantir-lhe que se almoça lá muito bem ei-lo pois de caminho até ao paço ducal dos braganças no meio dessa coisa nenhuma que era o alentejo onde o senhor d carlos passava todos os anos o melhor do outono e do inverno nesse sport da caça em que segundo as línguas republicanas da capital se entretinha a descansar dos poucos momentos que desdenhava ocupar-se dos assuntos da governação luís bernardo era quase da idade do rei mas ao contrário deste era um homem magro e elegante que se vestia com aquela sobriedade só aparentemente distraída que é característica dos verdadeiros gentleman d carlos de bragança parecia um pacóvio fardado de rei ele parecia um príncipe disfarçado de burguês tudo na sua figura na maneira como se vestia na sua forma de andar denunciava a sua atitude perante a vida cuidava da aparência mas não tanto que isso se transformasse num incómodo estava a par da moda do que se passava lá fora mas não prescindia do seu próprio critério passar despercebido era motivo de angústia ser demasiado notado apontado a dedo era-lhe constrangedor a sua qualidade era não alimentar demasiadas ambições o seu defeito o de não alimentar provavelmente ambição alguma e todavia quando se examinava a si próprio tentando manter uma distância razoável para análise luís bernardo reconhecia sem excesso de vaidade que estava vários planos acima do meio da sua frequência era mais bem-educado do que os imediatamente abaixo mais inteligente e culto menos fútil do que os acima e assim se foram passando os anos e a sua juventude deslizando ao longo deles fora no amor como na vida as mulheres que verdadeiramente achava irresistíveis 7
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pareciam-lhe sempre para além do alcance as que achava disponíveis pareciam-lhe sempre decepcionantes estivera noivo uma vez de uma menina muito nova bonita dotada com um devastador peito de adolescente que lhe subia acima dos decotes onde ele se prendia em contemplação e onde por duas vezes passeara as mãos encostara o nariz e destapara para melhor o devassar com os olhos e sem pudor chegara a oferecer-lhe o anel de noivado houve data apalavrada entre a sua tia guiomar que fazia as vezes de mãe e o putativo sogro mas ele tropeçara finalmente na ignorância da noiva que confundia berlim com viena e supunha que a frança ainda vivia em monarquia imaginou os anos todos pela frente ao lado daquele peitinho de rola a pasmaceira dos serões a imbecilidade da conversa o desfastio dos almoços de domingo em casa do sogro e bateu em retirada sem elegância nem circunstância insultado aos gritos pelo pai do peitinho de rola em pleno grémio saindo de mansinho vexado mas aliviado pensando para consigo e com razão que tudo se resolveria com quinze dias de maledicência de que ele seria o alvo e depois outra vez a vida inteira à sua frente e a tanto se resumiram as suas tentativas daquilo a que os outros chamam «uma vida a dois» ali no comboio para vila viçosa dava graças à providência por ser um homem só livre e senhor do seu destino esticou as compridas pernas até ao lugar da frente sacou do bolso do casaco a cigarreira de prata e de dentro dela um cigarro açoriano esguio e longo procurou no bolso do colete a caixa de fósforos e acendeu o cigarro aspirando lenta e sensualmente era um homem livre sem casamento sem partido sem dívidas nem créditos sem fortuna nem apertos sem o gosto da futilidade nem a tentação do desmedido o que quer que el-rei tivesse para lhe dizer para lhe propor para lhe ordenar a última palavra seria sempre sua quantos homens conhecia ele que se pudessem gabar do mesmo nessa noite por exemplo tinha o seu habitual jantar de amigos no hotel central uma tertúlia heterogénea de homens entre os 30 e os 50 anos que todas as quintas-feiras se reuniam ao jantar celebrando a apurada cozinha do central e discutindo as novidades do mundo e os males do reino um ritual de homens à imagem do próprio luís bernardo sérios sem serem maçudos despreocupados sem serem levianos nessa noite porém ele tinha uma razão muito especial que o fazia aguardar ansioso pelo jantar e por isso marcara o regresso no comboio das cinco esperando que os habituais atrasos dos comboios não o impedissem de chegar ainda a tempo ao central luís bernardo esperava que joão forjaz um dos membros do grupo das quintas-feiras e seu amigo de sempre desde o colégio de infância lhe trouxesse uma mensagem da sua prima matilde conhecera matilde nesse verão na ericeira num serão em casa de amigos 8
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comuns numa noite de luar como nos romances de amor quando viu joão atravessar o salão e na sua direcção caminhando com matilde pelo braço luís bernardo sentiu um estremecimento uma premonição de perigo iminente luís esta é a minha prima matilde de quem já te falei em tempos este é o luís bernardo valença o espírito mais céptico da minha geração ela sorriu à observação do primo e olhou luís bernardo a direito nos olhos era quase tão alta como ele que já era bastante alto gestos e sorriso de menina não mais de 26 anos pensou ele mas já era mãe e casada isso ele sabia também sabia que o marido estava em lisboa a trabalhar e que ela passava férias ali com os dois filhos inclinou-se e beijou-lhe a mão estendida ele gostava de olhar para as mãos quando as beijava viu que tinha uns dedos longos e esguios e foi aí que depositou um beijo ligeiramente mais longo do que aconselhava a simples cortesia levantou os olhos e ela continuava a sustentar o seu olhar e de novo sorriu o que é isso de um espírito céptico É o mesmo que um espírito cansado foi o joão que respondeu por ele e lhe deu a deixa cansado o luís não há coisas de que ele nunca se cansa não é verdade luís É não me canso nunca de ver uma mulher bonita por exemplo aquilo soou não como um elogio apenas mas quase como uma declaração de abertura de hostilidades ficou um silêncio embaraçoso no ar e joão forjaz aproveitou para bater em retirada bem estão apresentados esclareçam lá isso do cepticismo enquanto eu vou à procura de uma bebida mas querida prima cuidado não sei se este céptico ambulante é uma companhia muito recomendável para os olhos de salão de qualquer maneira eu volto já não vos abandono no aperto ela ficou a vê-lo afastar-se e apesar da sua ensaiada segurança pareceu a luís bernardo que havia de repente uma ligeira sombra no seu olhar algum tom de preocupação imprevista na voz com que se lhe dirigiu este é um momento de aperto luís bernardo sentiu que tinha sido inconveniente que a assustara com aquela frase sobre as mulheres bonitas respondeu com doçura seguramente que não não é para mim e não vejo porque haveria de ser para si não me conhece claro mas posso dizer-lhe que o meu objectivo de vida não é andar no mundo para fazer mal aos outros a declaração soou tão sincera que ela pareceu relaxar instantaneamente 9
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Óptimo então mas diga-me lá por curiosidade por que é que o meu primo acha que você pode ser uma companhia não muito recomendável aos olhos de salão disse ele e como sabe os olhos de salão nunca são inocentes mesmo quando é genuinamente inocente o que eles vêem neste caso concreto suponho que a inconveniência se resuma ao facto de você ser casada e eu ser solteiro e estarmos aqui os dois à conversa numa noite tão fantástica como esta ah pois as conveniências era isso que ele queria dizer as eternas conveniências afinal a substância das coisas ao que parece no mundo em que vivemos foi a vez de luís bernardo a olhar a direito e no fundo dos seus olhos o olhar dele perturbou-a parecia impregnado de um súbito desalento de uma solidão desamparada que atraía e assustava e quando falou ele fê-lo outra vez no mesmo tom de absoluta sinceridade que a desarmara antes oiça matilde as conveniências e tudo o resto têm decerto um papel na sociedade e eu não pretendo mudar o mundo nem as regras que aparentemente asseguram se não uma vida feliz às pessoas pelo menos uma vida tranquila muitas vezes gostaria que as regras não fossem tantas ou tamanhas que a vida chega a confundir-se com a sua aparência mas acho que no limite temos sempre escolha eu pelo menos tenho e por isso considero-me um homem livre mas vivo no meio dos outros e aceito as suas regras sejam ou não as minhas vou-lhe dizer uma coisa você é a prima a mulher preferida do joão e o joão é o meu melhor amigo desde sempre É natural que já tenhamos falado de si e ele fala sempre de si com entusiasmo e ternura não lhe vou esconder que por isso tinha curiosidade em conhecê-la e agora que a conheci posso testemunhar que você é muito mais bonita do que ele tinha descrito e que além disso me parece ser uma mulher tão bonita por fora como por dentro feito o elogio não quero de maneira nenhuma deixá-la embaraçada levo-a de volta ao joão tive muito prazer em conhecê-la e está uma noite linda lá fora inclinou a cabeça com elegância e deu um passo à frente fazendo menção de esperar que ela o acompanhasse na retirada mas em vez disso ouviu a sua voz quente ligeiramente abafada mas inesperadamente firme espere aí de que foge você de que foge afinal um homem que se proclama livre está a tentar proteger-me se calhar estou e então há algum mal nisso quis parecer igualmente firme mas agora era luís bernardo que não se sentia seguro alguma coisa lhe estava a escapar 10
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não é muito cavalheiresco da sua parte agradeço-lhe muito mas não gosto que me protejam de perigos que não existem desculpe mas neste caso e no meio desta conversa a sua preocupação é quase ofensiva para mim «meu deus mas onde é que isto vai parar?» pensou ele para consigo estava ali especado sem saber o que dizer nem o que fazer devia ficar devia ir-se embora «que disparate pareço um miúdo intimidado com um adulto por que é que o joão não aparece para me salvar desta trapalhada?» diga-me uma coisa luís bernardo ela quebrara o silêncio retomava o jogo e ele respondeu quase a medo sim posso-lhe fazer uma pergunta pessoal diga por que é que você nunca se casou «diabos isto vai de mal a pior pensou ele.» porque nunca calhou que eu saiba não há nenhuma lei que obrigue toda a gente a casar-se não não há mas apesar de tudo é estranho olhe é a minha vez de lhe revelar um segredo que aliás para si não deve ser grande segredo algumas amigas minhas também me falaram de si de vez em quando e em tom de mistério descreveram-no como um homem bonito inteligente culto boa companhia bem na vida dizem que tem fama de mulherengo portanto por aí não há mistério qual é então o mistério do seu celibato não há mistério algum nunca me apaixonei portanto nunca me casei tão simples como isto É estranho insistiu ela como se aquilo de repente a deixasse verdadeiramente perplexa o que é que é estranho que eu nunca me tenha apaixonado ou que nunca tenha casado mesmo não estando apaixonado luís bernardo tinha retomado a iniciativa e disse isto em tom de desafio ela acusou o toque e corou irritada consigo e com ele estaria ele a desafiá-la não estranho é que nunca se tenha sentido apaixonado por uma mulher por quem se pudesse apaixonar com quem pudesse casar as palavras saíram-lhe tão rápidas o olhar dela que ele surpreendeu pareceu-lhe tão inseguro que luís bernardo se arrependeu imediatamente do que acabara de dizer mas estava dito e ficou um silêncio entre eles como se por acordo tácito tivessem decidido dar-se tréguas foi joão quem finalmente apareceu para os salvar daquele espesso silêncio que se interpusera entre eles luís bernardo aproveitou imediatamente para se pôr ao fresco 11
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despediu-se rapidamente com uma frase de circunstância e um aceno de cabeça e saiu para o luar que cá fora afastara a neblina habitual o mar da ericeira parecia ter-se acalmado também ele posto de tréguas ao longe ouvia-se a música de um arraial popular e de uma janela aberta sobre a avenida vinha o som de vozes e gargalhadas de um grupo familiar que se adivinhava feliz de repente luís bernardo sentiu quase vontade dessa felicidade que não se questiona apeteceu-lhe ir ao encontro da música do bailarico escolher uma moça de freguesia para dançar nos seus braços senti-la rija e ligeiramente afogueada roçando-lhe o corpo cheirar-lhe a água de colónia barata nos cabelos enquanto ele de repente iluminado por uma súbita lucidez lhe segredava ao ouvido «queres casar comigo?» sorriu para consigo mesmo à ideia pensou que no dia seguinte ia considerar melhor o assunto acendeu um cigarro no escuro e passou a ouvir só as suas passadas dirigindo-se para o hotel onde se hospedava as duas semanas seguintes na ericeira passou-as entre as manhãs de praia os almoços nas boticas de pescadores à beira-mar onde se comia sem pretensões algumas o melhor peixe do mundo e as tardes no salão do hotel ou nas esplanadas da praça central da vila a ler jornais a despachar correio ou à conversa com joão forjaz e mais dois ou três amigos À noite se não tinha convites jantava no hotel pontualmente às oito e meia sozinho na companhia do joão ou de quem aparecesse sem programa havia de tudo na sala de jantar do hotel tudo o que caracterizava a pacatíssima vida de sociedade num hotel de verão jovens casais cujos filhos se os havia ficavam confiados à ama com quem jantavam na copa famílias inteiras avós filhos e filhas genros e noras e netos adolescentes ocupando as duas mesas centrais da sala de jantar e cavalheiros solitários alguns de passagem outros ainda de férias como ele outros oficiais de serviço à rainha dona amélia que ali também veraneava luís bernardo ficava fascinado com a capacidade de imaginação do chefe de cozinha que todos os dias e sem nunca repetir um prato apresentava na lista três sopas três entradas três pratos de peixe três de carne e três sobremesas findo o jantar ele como os outros cavalheiros passava ao bar ou salão de fumo onde fumava também o seu charuto e rolava o cognac francês dentro do pesado copo que segurava entre os dedos ficava sentado a olhar os outros ou acedia a um jogo de dados ou um dominó que aliás era jogo que o aborrecia de morte a dado momento do serão os solteiros iam à vida e ficavam apenas os homens de família só havia um destino o casino onde o programa era basicamente o mesmo charutos cognac jogo conversas uma rotina só quebrada pelos dois habituais bailes de verão no início e no final de agosto havia também uma alternativa semiclandestina semi-oficial de que ninguém falava abertamente e todos comentavam a meia-voz a visita aos salões da dona júlia ou da dona 12
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imaculada dizia-se entre os cavalheiros que a dona júlia tinha mais novidades mas que as meninas da dona imaculada eram mais fiáveis a frequência começava por volta da meia-noite e estendia-se madrugada adentro casados e solteiros gente de bem e respeitável até pais que levavam os filhos ainda semi-imberbes na nobre tarefa da sua iniciação à condição masculina as aventuras nocturnas dos cavalheiros da sociedade de verão da ericeira eram inevitavelmente um dos motivos infalíveis da conversa sussurrada entre as senhoras pela manhã nas barracas da praia dizem que ontem só na dona imaculada havia dois condes e um marquês onde é que isto vai parar santo deus perguntava melíflua e do alto da sua intocada viuvez mimi vilanova unanimemente tida como a voz da virtude nas praias da ericeira olhe o meu marido é que não viram lá que passa as noites a meu lado apressava-se logo a esclarecer alguma senhora casada ainda pouco habituada aos costumes da terra e as senhoras calavam-se abanando a cabeça em atitude de despeito mas nunca passavam das insinuações porque a verdade é que nem as «meninas» abriam jamais a boca cientes de que o segredo era a alma do negócio nem os cavalheiros mesmo os não frequentadores violavam jamais essa regra de ouro da solidariedade entre homens no que toca a assuntos extraconjugais luís bernardo sim fora lá duas vezes na companhia do joão e de outros fora uma vez à dona júlia e outra à dona imaculada tranquilo e despreocupado como poucos nestas circunstâncias não tinha satisfações a dar a ninguém nem sequer à sua consciência e se pudesse então dar satisfação aos desejos do corpo sem mal algum de espírito avançava com a mesma naturalidade com que ia para um jantar de amigos mas havia um tédio instalado naqueles dias de verão que o incomodava mais ainda do que tantas daquelas manhãs nubladas que recolhiam as crianças e os banhistas na areia longe do mar os dias eram compridos demais para a ociosidade omnipresente era como um vício sem prazer uma tranquilidade tão estúpida e desprovida de sentido que o enervava e o mantinha em permanente estado abúlico passeava-se de dia arrastava-se de noite perguntava-se frequentemente o que fazia ali a ver escoarem-se os dias numa secreta e absurda expectativa de qualquer coisa de indefinido que ele sabia que não iria acontecer naquelas duas semanas só por duas vezes voltara a ver matilde aliás nem a vira entrevira-a passara-lhe ao longe fora de alcance da primeira vez fora num concerto no jardim público depois do jantar ela vinha a caminhar com um grupo e ele estava com joão e mais dois amigos ela cumprimentara o joão com um beijo efusivo e só depois pareceu reparar nele «olá por aqui então ainda está de férias?» ele limitou-se a 13
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responder estupidamente «pelos vistos» e ficou a desejar que ela ao menos lhe perguntasse até quando mas matilde seguiu caminho com um meio sorriso de despedida e perdeu-se no meio da profusão de senhoras crianças e cavalheiros da segunda vez viu-a no baile do casino mal tinha acabado de entrar na sala de baile vindo do bar e das mesmas conversas de sempre com os mesmos de sempre tinha-se encostado à ombreira da porta para medir a paisagem com um olhar circundante quando a viu de chofre imediatamente estava deslumbrante num vestido que arrastava pelo chão amarelo e branco de alças o cabelo apanhado em cima por uma tiara de brilhantes a pele morena ligeiramente queimada pelo sol parecia ainda mais alta e mais leve a dançar nos braços do marido uma valsa muito lenta estava a olhar na direcção de luís bernardo mas ainda não o tinha visto sorria com qualquer coisa que o marido lhe estava a dizer ao ouvido quando finalmente chocou com o seu olhar fixo nela perdeu-se por um instante como se parecesse não o reconhecer e depois dirigiu-lhe nem foi um aceno de cabeça foi um imperceptível cumprimento com os olhos o seu par rodopiou subitamente e ela desapareceu do olhar de luís bernardo e perdeu-se de vista no meio do salão atulhado de pares felizes que dançavam numa noite de verão luís bernardo virou as costas ao baile e ao casino e saiu para fumar um cigarro tentou analisar o que sentia raiva sim raiva uma raiva estúpida sem juízo nem legitimidade inveja uma inveja irracional e que ele não controlava e uma tristeza um vazio vindo lá de dentro de uma voz que lhe dizia «nunca serás feliz assim nunca terás uma mulher assim a quem possas chamar tua cada um faz o seu destino e tu fizeste o teu não vives da tua felicidade mas do que consegues roubar à felicidade dos outros» de repente sentia-se mal consigo mesmo mal com a sua vida mal com a sua pessoa mal com a sua tão auto-admirada liberdade o baile estava estragado as férias tinham-se tornado insuportáveis sentia-se um animal estranho uma ave de rapina entre um rebanho feliz estúpida e incompreensivelmente feliz abandonou o baile à hora a que ele começava a animar e veio de volta caminhando apressado para o hotel na recepção pediu que lhe tivessem a conta pronta na manhã seguinte consultou o horário dos comboios e foi-se deitar despindo apenas a casaca e dormindo vestido sobre a colcha da cama e de janela aberta para o mar acordou antes de todos os outros hóspedes para apanhar o comboio das dez e meia em mafra as criancinhas tomavam o pequeno-almoço na copa em companhia das amas os adultos dormiam ainda à conta da noitada do baile da véspera vinha distraidamente a descer as escadas para o piso térreo quando de repente o coração deu um pulo e ele parou 14
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estarrecido com o que via no vão da escada parada a olhar para ele e com o mesmo ar petrificado estava matilde vestida com um vestido branco cujo corpete ligeiramente decotado lhe permitia ver de cima para baixo o peito dela que arfava como um animal ferido pareciam duas estátuas a olhar um para o outro foi luís bernardo quem quebrou o silêncio matilde por aqui a estas horas da manhã imaginá-la-ia a dormir depois da noitada de ontem e você luís o que lhe aconteceu ontem sumiu-se É não me dou muito bem com os bailes não estava lá a fazer nada e por isso vim-me embora não estava lá a fazer nada o que quer dizer com isso o que é suposto fazer-se num baile senão dançar não vi ninguém com quem dançar ena que homem exigente ninguém mesmo vi-a a si e pareceu-me muito feliz sim estava a dançar com o meu marido em vão luís bernardo procurou detectar qualquer sinal bom ou mau no tom com que ela disse isso nada foi como se se tivesse limitado a dar a resposta mais natural do mundo suspirou chamando-se a si próprio à realidade reviu-a linda com um ar despreocupado e feliz nos braços do homem com quem casara num mundo onde ele não estava e que não lhe pertencia bem matilde só não me disse o que faz aqui tão cedo vim despedir-me de uma tia minha que vai agora no comboio das dez e meia para lisboa ah então vamos juntos eu também vou apanhar esse comboio vai para lisboa você vou para mim as férias acabaram hesitou e depois acrescentou com o baile de ontem à noite matilde ficou em silêncio olhou-o nos olhos e pareceu-lhe um olhar apiedado sentiu-se desamparado ridículo eram oito da manhã num vão de escada escuro de um hotel e ele estava ali sem palavras a olhar para uma mulher que o tinha enfeitiçado num terraço numa noite de luar estendeu-lhe a mão bom resta despedirmo-nos não é 15
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