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revista ANO VI - Nº 22 - 27 DE MAIO DE 2018 ISSN 2238-1414 Literatura: uma categoria política

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Editorial A edição de maio de 2018 da Revista Barbante está especialmente rica! Atendendo à nossa chamada para uma reflexão sobre o Golpe de 2016, Gilvan Santana de Jesus nos oferece o estudo “Processos de significação do impeachment da Presidente Dilma Rousseff na/pela mídia brasileira”. Com viés político, Ivânia Nunes Machado Rocha nos convida à reflexão a partir de “Literatura: uma categoria política”. Ainda na seção “Artigos”, Fabio Mario da Silva nos apresenta a poesia de Airton Souza, em “A solaridade da obra Manhã cerzida, de Airton Souza” e Aretha Ludmilla Pacheco Lira Barros, em “Caldeirão: quando a memória revela a história”, um estudo filosófico sobre a obra de Cláudio Aguiar. Outra abordagem a obra literária também pode ser lida: “Senhora de engenho: resistência e fragilidade feminina em Fogo morto de Jośe Lins do Rêgo”, de Augusto Petronio Pereira. Já Margarida Maria Araujo Bispo nos contempla com um estudo sobre o cinema no artigo “Babel, quatro histórias entrelaçadas”. A seção “Ensaios” também apresenta texto sobre o golpe 2016: “Refletindo o golpe de 2016”, de Lidiane Almeida Silva. Além disso, traz “As Cantigas de Santa Maria – Séc. XIII” e “Leituras Cascudianas”, ambos de João da Mata Costa; e o belo “Depoimento: do autismo ao altruísmo, uma história de amor”, de Mirtes Veiga. Em “Crônicas”, o texto de Bruno Elias “Sigamos o nosso caminho: Lula livre, Lula presidente” e “Tarde de sol”, de Gilberlan Santos. Já em “Contos”, este número reúne: “Dominuscídio (ou a morte de meu pai)” e de Antonio Trindade; “Entre o asfalto e o infinito”, de Maíra Estela Santos. Em “Literatura Infantil e Juvenil”, encontramos “O robôzinho medroso”, de Rosângela Trajano. Na seção “Poesia”, uma surpresa especial: dois poemas da poeta e professora-doutora iraniana Ulker Ucqar, traduzidos por Christina Ramalho (a partir da versão em francês), mas também apresentados no idioma original, para que vocês confiram o “azeri”. E, na sequência, uma galeria diversificada de poemas assinados por Antonio Trindade, Clécia Santos, Edson Santos, Fátima Gonçalves, Gilberlan Santos, Jean Sartief, Lívia Ferreira, Maria Gabriella, Paula Belmino e Renata de Castro. O último poema, “Golpe”, de Christina Ramalho, encerra a contemplação do tema principal desta edição. Em “Literatura de Cordel”, trazemos “Branca de Neve e os sete anões” de Rosa Regis. A seção “Resenhas” traz uma bela resenha de Rosângela Trajano sobre o romance “As meninas” de Lygia Fagundes Telles. Fechando este número, a seção permanente, assinada por Mario Brito-Semedo, Esquina do Tempo. Desta vez, Brito-Semedo nos presenteia com “Sport d’cinéma. Herói de cinema”. Boa leitura! E continuem com a Barbante! As Editoras REVISTA BARBANTE - 2

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Artigos REVISTA BARBANTE - 3

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SENHORA DE ENGENHO: RESISTÊNCIA E FRAGILIDADE FEMININA EM FOGO MORTO DE JOSÉ LINS DO RÊGO. Augusto Petronio Pereira1 Resumo A liderança feminina no matriarcado predominou durante muito tempo até se enfraquecer diante da centralização de poder do homem. O matriarcado e o patriarcado marcaram suas relações a partir de sua força produtiva. Posto isso, como entender o processo de empoderamento feminino em um engenho do século XIX? A obra Fogo Morto, de José Lins do Rego, traz uma personagem que ocupou um espaço que não lhe fora reservado. Dona Mariquinha tornou-se senhora de engenho e se revestiu de autonomia para travar um duelo contra o genro e assumir o comando da empresa açucareira mais forte e produtiva do Pilar. Um título pouco usual para uma época marcada pelo senhoril patriarcal e para um contexto de dominação falocêntrica. Empoderar-se significa assumir autonomia e liberdade mediante transformações que o indivíduo se deixa fazer. Palavras chave: Empoderamento. Engenho. Feminino. Mariquinha. Mulher. Introdução A transgressão da mulher nas narrativas literárias é desafiadora. O rompimento de padrões estabelecidos nos submete a uma reflexão pertinente: o empoderamento da mulher é urgente. Entretanto, não é uma tarefa fácil, principalmente quando se vive em um espaço culturalmente masculino. A dominação masculina é tão antiga quanto à construção da civilização. A predominância de sua força e a sua centralização de poder foi ganhando “corpo e alma” a partir do enfraquecimento da liderança feminina, do chamado matriarcado, nas tribos mais antigas de que se tem notícia. Homens e mulheres nem sempre, ou quase nunca, compartilharam dos mesmos espaços de poder simultaneamente. Muitas tribos e sociedades antigas tiveram inicialmente na mulher o seu poder central, muito embora essa não seja uma ideia em comum acordo entre antropólogos e historiadores. O matriarcado “caracterizava-se como um sistema organizado e dirigido por mulheres, na qual a maternidade, considerada um dom da natureza, conferia-lhes poder” (CARDOSO, Reolina, 1994). A passagem do matriarcado ao patriarcado se deu através do trabalho. De acordo com o pensamento marxista, todas as sociedades, independentemente do período histórico, fundamentam-se no trabalho. Explica-nos Reed (1980) que “Coube às mães converterem-se na maior força de trabalho produtivo, seja como operárias, camponesas, ou dirigentes da vida científico-cultural, acreditando que conseguiram isso justamente porque eram mães, e que, de início, a maternidade fundia-se com o trabalho”. A. c. a sociedade agrícola já desenvolvera formas de desigualdades entre mulheres e homens, num sistema denominado de patriarcal, no qual o domínio ficara com os filhos e maridos. Quando houve o 1 Formado em Letras Vernáculas – Universidade Federal de Sergipe (UFS). Pós-graduação em Literatura infantil e juvenil – Faculdade São Luís de França. Professor da Educação básica. Mestrando em Estudos linguísticos – UFS. Contato: alemaoguto@yahoo.com.br REVISTA BARBANTE - 4

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deslocamento da caça e coleta para a agricultura, a igualdade entre homens e mulheres, foi gradualmente chegando ao fim, sendo beneficiado o domínio masculino em detrimento do feminino. Os homens passaram a ser considerados criaturas superiores às mulheres. O papel da mulher esteve pouco presente nos estudos históricos. Há muito que a história tende a ignorar as mulheres e a interação entre os sexos. A escritora June Hahner expõe, no seu livro A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937, a trajetória de várias mulheres em especial as brasileiras para que se pudesse: Em potencial, a história das mulheres na verdade representa o oposto do interesse estreito e sectário que lhe foi atribuído por alguns críticos. Concentrar-se na “outra metade” da humanidade fornece uma oportunidade inestimável para escapar do quadro limitado da história tradicional, e ajudar-nos-á a alcançar uma visão mais abrangente do passado (HAHNER, 1981. p. 23). Assim pode-se pensar a mulher no universo literário. Na obra Fogo Morto, José Lins do Rego criou uma personagem em um espaço que não lhe fora reservado. Dona Mariquinha tornou-se senhora de engenho, em oposição aos costumes e convenções, para assumir o comando da empresa açucareira mais forte e produtiva da região, uma vez que não queria a derrocada do empreendimento nas mãos do genro, um homem incapaz para o trabalho do campo. Um título pouco usual para uma época marcada pela aristocracia patriarcal e para um contexto de dominação falocêntrica. Empoderar-se nesse cenário foi/é uma tarefa quase impossível. Como se deu esse processo? 1. Fogo Morto: origens e contextos. Fogo Morto fora escrito no século passado, 1943, no auge do Romance modernista, período em que a maioria dos escritores nordestinos fazia um protagonismo de engajamento social, denunciando mazelas do nordeste brasileiro. A obra não põe o dedo na ferida da fome ou da seca, mas traz o nordeste açucareiro para a Literatura, e nele o cangaço, a religiosidade, a política dos senhores aristocráticos e principalmente a decadência do engenho. No transcurso desta obra, há um recorte emblemático, o conflito estabelecido entre uma mulher viúva, matriarca da família, nascida na agricultura e o genro, homem jovem, da cidade. Após a morte do seu marido, o capitão Tomás Cabral de Melo, Dona Mariquinha e Lula de Holanda, seu genro, disputam o poder e o controle do grandioso e produtivo Engenho Santa fé. O capítulo dois da narrativa iniciase com a descrição da chegada do capitão Tomás Cabral de Melo na Várzea do Paraíba onde comprou um sítio no qual seria instalado o engenho em 1840. A narrativa põe em destaque a escolha da mulher com quem se casou, e observa com muita ênfase as habilidades domésticas dela. REVISTA BARBANTE - 5

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O capitão Tomás Cabral de Melo chegara do Ingá do Bacamarte para a Várzea do Paraíba [...] trazendo muito gado, escravos, família e aderentes. Alguns de seus irmãos tinham-se casado com gente de Pernambuco. Ele preferiu uma prima, mulher de muito bom pensar, que só vivia para a casa, para os filhos, para a criação, para os negros (REGO, 1976. p. 135-136). Os dois foram morar na Várzea do Paraíba, onde se estabeleceram antes da revolução de 1848, trazendo consigo gado, escravos, família e aderentes. O capitão, com muita dificuldade, conseguiu construir o seu empreendimento e se tornar um poderoso Senhor de Engenho. Chegou nestas terras como plantador de algodão, mas lutou para fazer o Santa Fé, nome que dera ao seu Engenho. Um senhor de engenho possuía uma grandiosa e poderosa condição de administrador influente que ultrapassava as fronteiras de suas terras e chegavam a outros espaços como vilas, cidades e a política regional. Associado a isso, o cotidiano dos engenhos era marcado por continuidades, até mesmo a sua administração. Essa continuidade não contempla diretamente a mulher. O Santa Fé garantiu toda estabilidade social ao capitão, e mais que isso, um status ao se compreender que o patriarcalismo designa padrões de cultura associado com um status particular. Nisso, entende-se o conceito de patriarcalismo atribuído por Weber, “chama-se patriarcalismo a situação na qual, dentro de uma associação, na maioria das vezes fundamentalmente econômica e familiar, a dominação é exercida (normalmente) por uma só pessoa, de acordo com determinadas regras hereditárias fixas”. (WEBER, 2000. p. 184). Portanto é na autoridade doméstica que se caracteriza o patriarcado e neste se determina uma divisão sexual. Ao pensar os gêneros no regime patriarcal, Gilberto Freyre diz que a mulher deve desenvolver competências e habilidades que possam diferenciá-la tanto quanto dos homens. “Enquanto o homem deve ser reconhecido enquanto sexo forte e nobre, ao feminino se reserva as atribuições da beleza, das artes domésticas, do afeto, da etiqueta”. (FREYRE, 1968. p. 93). Historicamente e culturalmente, a ligação entre patriarcado e família pode ser buscada na Roma antiga, através do pater família, senhor absoluto de toda população residente em sua propriedade. A base para a formação dessa identidade possui segundo ANDRADE E MACÊDO : ... uma dimensão material e corpórea, mulheres prestam serviços domésticos gratuitos, elas não têm uma expressão altiva, em reuniões sociais formam-se grupos distintos de homens e mulheres. A voz do homem impõe o seu poder e sua autoridade. É, então no âmbito da cultura e da história que se definem as identidades sociais (ANDRADE; MACÊDO; 2014). O status de senhor de engenho encontra o seu significado no conjunto de suas posses. A casa grande exprime poderio, imposição e superioridade na compreensão patriarcal. No engenho a casa grande é simbólica REVISTA BARBANTE - 6

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e representa todo um sistema econômico (o piano de cauda que viera do Recife para a filha tocar), social, político, de produção (monocultura latifundiária), de transporte, de religião, (o catolicismo de família), e de política. Nesse cenário, em meio a todo esse contexto, dona Mariquinha nos é apresentada como se fosse mais uma escrava da casa, ou melhor, da cozinha, subordinada e pronta para servir. “A mulher, cansada, de pele encardida do sol, de mãos grossas dos trabalhos da cozinha, de debulhar milho para negro, de cortar bacalhau [...]. Cuidava dos negros, cosia o algodãozinho para vesti-los, fazia-lhes o angu, assava-lhes a carne [...]” (REGO, 1976. p. 139-140). Na família patriarcal, a casa é baseada na hierarquia, com escalonamento de pessoas conforme ordem de importância. 2.2 A resistência e a fragilidade. A história de Dona Mariquinha, a personagem analisada neste trabalho, representa resistência e luta num cenário contrário a ela. Nessa história converge toda mulher que precisa da desconstrução para renascer ou retomar sua identidade, personalidade ou centralidade. No transcurso da narrativa, no capítulo dois, cujo título é O engenho de seu Lula, dona Mariquinha é descrita como uma mulher que só vivia para a casa, uma das principais razões de o capitão tê-la escolhido para ser sua esposa. Ao pensar no futuro da filha, precisamente no matrimônio, projeto encarado como negócio nessa época, a mãe rompe com esse padrão ao pensar que o casamento deveria trazer à filha algo que ela não pode ter: um marido que lhe fosse sensível. A filha, depois dos estudos, conseguiu casar-se com um primo chamado Luís César de Holanda Chacon, homem de boa aparência e trato fino, o tipo certo para se casar com Amélia, segundo o seu pai. Casaram-se e permaneceram ali mesmo, na casa grande, espaço legitimamente patriarcal e do qual é difícil para a mulher se libertar. Saffioti afirma: Que o território domiciliar é permeado pela hierarquia em que o homem é a figura dominante. Mesmo que esse homem não converta essa dominação em formas de agressão, sua presença e os métodos utilizados para impor sua vontade presentificam a cultura do masculino e trazem a constatação de que os direitos ainda são escritos para os homens (SAFFIOTI, 1999. pp. 82-91). Mariquinha, na narrativa de Fogo Morto possui poucas falas. O narrador pensa por ela. O seu discurso é consigo mesma, no interior de seu corpo cansado. Essa é uma forma misógina de compreender a posição de inferioridade da mulher “ao contê-las no interior de seus corpos que são representados, até construídos, como frágeis, imperfeitos, desregrados, não confiáveis”. (Grosz, 2000. p. 67) Depois que o capitão Tomás passou a viver como enfermo de doença grave, por conta de uma fracassada REVISTA BARBANTE - 7

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captura de um negro, o engenho estremecera. O capitão sentiu-se desonrado por conta desse fracasso. “Partia ele do ponto de vista de que estava derrotado, humilhado, sem honra, sem força para governar as suas coisas. Era um senhor de engenho sem respeito” (REGO, 1976. p. 156). Essa situação causou à dona Mariquinha e aos escravos certa preocupação porque não havia filho homem a quem fosse dado a sucessão do engenho, e que portanto, esse momento difícil não comportava a menor espera. O genro ensaiou assumir esse lugar, sem sucesso. Diante de todo esse quadro, dona Mariquinha do Santa Fé resolveu dar as ordens no seu engenho, isto é, ela se empoderou para tomar posse dos seus direitos e se constituir capaz para o enfrentamento de algo interno e externo a si. É assim que pensa Mattos: O empoderamento da mulher passa por vários caminhos: na sociedade, pelo conhecimento dos direitos da mulher, pela sua inclusão social, instrução, profissionalização, consciência da cidadania. No plano individual, o empoderamento passa pela reformulação profunda da identidade da mulher, que precisa rever a si própria como merecedora do reconhecimento e valorização (MATOS, 2009. p. 23). Não fora fácil para Mariquinha. “Custara-lhe muito [...]” (REGO, 1976. p. 157), mas o esplendor do Santa Fé só continuou porque a senhora de engenho deu as ordens, inclusive ao genro, deixando-o contrariado. “Ali em casa olhava para tudo, ordenava tudo. Os negros lhe vinham tomar a benção de manhã e de noite, o feitor chegava-se para pedir ordens” (REGO, 1976. p. 157). A narrativa vai destacando qualidades da personagem, através de expressões associativas ao sexo masculino. “A energia da mulher de expediente de homem”, “Preferira ser o homem da família”, “Senhora de engenho”. Esses termos são ambivalentes. Por um lado, evidencia a autonomia de uma mulher que se empoderou, mas por outro enquadra o noção de gênero. É o que diz LIVIA, Ana e HALL, Kira: “... elocuções de gênero não são nunca descritivas, mas prescritivas, exigindo que a endereçada aja de acordo com as normas vinculadas ao gênero [...] desde a maneira como penteia o cabelo até a maneira como caminha, fala ou sorri” (LIVIA e HALL, 1997. p. 123). Contudo, o trabalho é libertador. Para AZEREDO (2007, p. 60¹2 apud BEAUVOIR; SIMONE, 1975, p. 449) é pelo trabalho que a mulher assegura sua liberdade, “pois foi pelo trabalho que a mulher cobriu em grande parte a distância que a separava do homem; só o trabalho pode assegurar-lhe uma liberdade concreta”. Com Mariquinha no comando do engenho as relações intrafamiliares só pioraram. O genro e a filha esquivaram-se dela. Com a morte do Capitão Tomás, essas relações ficaram ainda piores. Houve tentativas de inventário dos bens, mas sem sucesso, o Santa Fé continuou no governo da sogra, até certo tempo. Sentindo-se inferior, o genro contra-atacou. Usou de expedientes de tortura psicológica ao excluíra da filha, única neta da senhora de engenho. Fez disso seu instrumento de tortura e vingança. Mariquinha fragilizou-se, não aguentou 2 AZEREDO, Sandra. Preconceito contra a “mulher”. Diferença, poemas e corpos. São Paulo: Cortez, 2007. – (Preconceitos, v.1) p. 60. REVISTA BARBANTE - 8

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esses “golpes” e cedeu. Adoeceu e por fim falecera. O engenho Santa Fé, a partir de então, passa a ter outros rumos, comando e voz. Os tempos eldorados entram em colapso no novo governo, entram em “fogo morto”. Referências AZERÊDO, Sandra. Preconceito contra a “mulher”: Diferença, poemas e corpos. São Paulo: Cortez, 2007. – (Preconceitos, v. 1). BEAUVOIR, Simone de. (1949). O segundo sexo. 3. Ed. Trad. De Sérgio Milliet. A experiência vivida. São Paulo/Rio de Janeiro: Difusão Européia do Livro, v. 2, 1975. BRESCIANI, Maria Stella. A casa em Gilberto Freyre: síntese do ser brasileiro? IN: CHIAPPINI, Ligia e BRESCIANI, Maria Stella. (orgs). Literatura e cultura no Brasil: identidades e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2002, pp. 39-51. GROSZ, Elizabeth. (1994). Corpos reconfigurados. Cadernos Pagu (14), 2000, p. 67. HAHNER, June E. A mulher brasileira e suas lutas sociais e políticas: 1850-1937, Ed. Brasiliense, S.P., 1981. LIVIA, Anna e HALL, Kira. “É uma menina!”: a volta da performatividade à linguística. Tradução de Rodrigo Borba e Cristiane Maria Schnack. IN: OSTERMANN, Ana Cristina & FONTANA, Beatriz. (orgs.). Linguagem, gênero, sexualidade. São Paulo: Parábola editorial, 2010. pp. 109-127 MATOS, Mayra Suzane de. Violência contra a mulher x cultura de paz. Da vitimização ao empoderamento, 2009. 41 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Estudos para a Paz e Resolução de Conflitos) – Universidade Federal de Sergipe: Universidade Jaume I, Espanha, 2008. MAX, ENGELS, LENIN. A passagem do matriarcado ao patriarcado. IN: Sobre a mulher. São Paulo: Global, 1979. (Coleção Bases; 17) REGO, José Lins do. O engenho de seu Lula. IN: Fogo Morto. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1976, pp. 135-204. SAFFIOTI, HI. B. Já se mete a colher em briga de marido e mulher. São Paulo em Perspectiva, 13, 4, pp. 82-91, 1999. SOUZA PINTO, Werusca Marques Virote de. Mulheres entrelaçadas pela cultura militar. IN: ANDRADE, Regina Glória Nunes e MACÊDO, Cibele Mariano Vaz. (orgs). Territórios sem fronteiras: o social no contemporâneo. Rio de Janeiro: Companhia de Freu/FAPERJ, 2014. pp. 63-72. STEARNS, P. N. Historia das relações de gênero. Trad. De Mirna Pinsky. Sao Paulo: Contexto, 2007. TOCHINS GRISCI, Camem Ligia. Ser mãe: Produção dele, reprodução dela. IN: CARDOSO, Reolina S. (org.). É uma mulher. Petrópolis: Ed. Vozes, 1994, pp. 32-34. REVISTA BARBANTE - 9

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A SOLARIDADE DA OBRA MANHÃ CERZIDA, DE AIRTON SOUZA FABIO MARIO DA SILVA Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará/CLEPUL Folha 31, quadra 07, Lote especial, s/n. Bairro Nova Marabá, Cep: 680507590, Marabá/Pará famamario@gmail.com Resumo: esse trabalho centra-se na análise da obra Manhã Cerzida, do poeta Airton Souza, observando como os aspectos duma certa solaridade ajudam na compreensão dos espaços e das sensações descritas pelo sujeito lírico. Nas nossas análises iremos observar os lexemas que têm ligação com a solaridade (manhã, tarde, dia, sol, calor e luz), desvendando os seus significados, citando, en passant, teóricos como Gaston Bachelard, com A psicanálise do fogo e Dicionário de Mitologia Grega e Romana de George Hacquard. Palavras-chave: Solaridade. Diurno. Manhã Cerzida. Airton Souza. Abstract: This work is centered on the analysis of the work Darned Morning, by the poet Airton Souza, observing how the aspects of a certain solarity help in understanding the spaces and sensations described by the lyrical subject. In our analyzes we will observe the lexemes that have a connection with solarity (morning, afternoon, day, sun, heat and light), revealing their meanings, quoting en passant theorists such as Gaston Bachelard, with Psychoanalysis of Fire and Dictionary of Greek and Roman Mythology by George Hacquard. Keywords: Solarity. Fire. Darned Morning. Airton Souza. tenho na manhã o cheiro das magnólias Airton Souza Desde a literatura europeia até a literatura brasileira é comum encontrarmos versos que se inspiram no anoitecer, evocando a lua, o lusco-fusco, as estrelas e o soturno como elementos característicos. Dentro da nova gama de poetas brasileiros, Airton Souza se destaca por, efetivamente, ir na contramão da invocação do noturno como elemento poético. Souza produz aquilo que intitulo de uma “poesia solar”, caracterizada por elementos do fogo, da luz e do calor que dão uma outra dinamicidade à sua lírica. Alias, Flávio Castro (2015, p. 18) já aludira que nessa obra de Souza uma das imagens mais recorrentes é o Sol, comparando-o a um mesmo que aparece na poesia de João Cabral de Melo Neto, mas com um movimento, apesar de similar (ou influenciado pelo poeta pernambucano), ainda mais microscópico (diria eu mais detalhista), pois cerzir (dialoga com) o matutino, o vespertino e o noturno. REVISTA BARBANTE - 10

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Lembremo-nos que na cultura ocidental, desde a mitologia Greco-Romana, Hélio é o astro solar, filho dos Titãs Hiperíon e Teia e irmão do astro lunar, Selene, e da Aurora, Eos. Segundo George Hacquard, no Dicionário da Mitologia Grega e Romana, Hélio todas as manhãs percorria os céus “montado no seu carro de fogo, atrelado a cavalos alados de uma brancura estrondosa. Quando lá chegava, enquanto os seus cavalos cansados se banhavam, Hélio repousava no seu palácio de ouro para depois alcançar, de barca, o Oriente” (HACQUARD, 1996, p. 144), considerando-o “testemunha omnipresente de todas as acções dos homens” (HACQUARD, 1996, p. 144), bem como relembrando que muitas “lendas lhe atribui uniões e grandes paixões” (HACQUARD, 1996, p. 144), o que nos faz remeter ao pensamento de Gaston Bachelard em que associa o elemento do “fogo” ao enamoramento: “o amor não é mais do que um fogo que se transmite. O fogo é um amor que se descobre” (BACHELARD, 1972, p. 52). O amor cerze (lexema título da obra de Souza), quer dizer, “une”, “Junta” e “intercala” a obra desse poeta paraense. Assim, Airton Sousa, para aclamar a solaridade, necessita “sepultar” o noturno, evocando o seu fim, como parâmetro para tornar iluminada a sua poesia. É o que acontece logo no poema, sem título, de abertura de Manhã Cerzida, obra dividida em “bebas uma amanhã em goles”, “tessi(t)ura” e “último ato – anoitecido”, com poemas sem título nem numeração, no qual lemos: Sepultamos a noite er(ámos) eu e mais 6 dias irresolutos a cava(r)mos a cova lânguidos & teimando o tempo a noite, viva implorava com um olho aceso e minguante não queria a aurora mas os pássaros sonâmbulos não viram que a pá lavrava a terra na faina de açoitar o chão enterramos a noite amanhecendo-a REVISTA BARBANTE - 11

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para ela sentir a dor de ser só. (SOUZA, 2015, p. 25) Apesar de associar a derrocada do noturno em favor da luz do amanhecer, exaltando a solaridade, o poeta, em outros versos, fala, contrariando o discurso solar, de uma despedida, creditando à noite o poder de um futuro reencontro: “é certo que a noite/ nos unirá/ pois qual seria a sua serventia?” (SOUZA, 2015, p. 35). A noite é o cenário mais adequado para o reencontro daqueles que se amam, talvez o seu único atrativo, segundo essa poesia: “a única coisa boa da noite/ é o nosso amor” (SOUZA, 2015, p. 78). Já a função do amanhecer é entre outras coisas “mostrar-se por inteira/ a enterrar pequenas coisas inúteis” (SOUZA, 2015, p. 36). Mais à frente o poeta reitera que “cresce o dia” (SOUZA, 2015, p. 40), trazendo várias problemáticas ao sujeito, inclusive “dores do mundo” (SOUZA, 2015, p. 40), por isso chega à conclusão que “essas dores tecidas” (SOUZA, 2015, p. 40) teriam a função de “consolar na noite/ os silêncios dos pássaros/ que rumam para árvores e fios invejosos/ por não terem asas” (SOUZA, 2015, p. 40). Esse “caminho pelo dia” (SOUZA, 2015, p. 42), à luz do sol, faz o eu lírico lembrar que leva “na língua/ a tragédia dos tempos” (SOUZA, 2015, p. 42). Iluminar, ter a luz, também pode ser, num sentido metafórico, um privilégio aos menos desfavorecidos: “Cercearam-nos de escancarar nossas janelas/ é que o sol é só/ promessa para alguns” (SOUZA, 2015, p. 72). Ou seja, as mazelas e problemáticas dos indivíduos podem ser melhor reparadas durante o dia, ou como refere Hacquard sobre um dos significados do deus Hélio, o sol é testemunha de todas as ações dos homens. Por isso, em outro poema, o eu reclama a falta de solidão dos dias ensolarados e invoca a solidão, sentimento associado à noite, para contaminar o período diurno: “Vamos desmesurada solidão/ incendiar a cisma/ pictorial da manhã” (SOUZA, 2015, p. 49). Em outro poema, Souza alude a um mês de maio sem flores, à secura e vastidão de um cenário sem plantação e que, portanto, reflete o labor diário dos campesinos, por isso o eu lírico, consternado por essa cena, se compadece dessa plantação e se alia, junto com os trabalhadores do campo, para tentar salvar esse espaço, que foi justamente devastado pelo Sol intenso e dias de estiagem: […] traz suas chagas que tentaremos curar indo sempre ao fim das tardes numa estrada incerta com um candeeiro aceso & uma desatinada esperança nos pés insaciáveis para com os rumos REVISTA BARBANTE - 12

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traz tuas retinas emudecidas para que rentes às minhas reteçamos as ilusões. (SOUZA, 2015, p. 26) A alteridade no poema dar-se-á quando o eu poemático se torna também camponês para tentar “curar” esse cenário incerto, e dessa estrada sem rumo, mas cheia de esperanças. Isso tudo porque, na região aludida nesses versos, o Sul e Sudeste do Pará, mais especificamente a cidade de Marabá e o seu entorno, deparamonos com um clima que pela “manhã/ cospe angústia/ retesa as horas” (SOUZA, 2015, p. 27), sempre, todavia, respirando “esperanças”, alusão às altas temperaturas que predominam quase o ano todo nessa região do país. O Sol torna-se então uma persona que interage com o eu lírico: O sol na- cioso sempre me cobra insônia. (SOUZA, 2015, p. 28) O grande mistério seria então a necessidade de termos uma melhor compreensão do Sol em nossas vidas, astro esse que também conhece a nossa essência: decifras o sol meu amor ele acaba de aportar vem lambendo voraz o chão arredio invade as frestas de meu recinto & bebe a sensação de nós. (SOUZA, 2015, p. 33) O que Airton Souza quer poetizar é que o Sol espreita, investiga e invade-nos a cada dia e como nos lembra Alufa-Licuta Oxoronga: o autor promove nesses seus versos “a compreensão de um juntar de REVISTA BARBANTE - 13

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dias, de um pontear de vidas, oferecendo um contraponto, uma pausa, uma reflexão no despontar da manhã” (OXORONGA, 2015, p. 9). Por isso, o Sol, ou sua luz, desperta no sujeito poético impressões e conclusões: nessa manhã em que me encontro cerzindo a solidão concluo o sol é a mais mentirosa de todas as coisas (SOUZA, 2015, p. 29) Todos os cenários são descritos à luz do dia, como maneira de visualizar as sensações do eu. Contudo, nesse cenário solar alude-se também à necessidade da noite como complemento da natureza, das coisas: “nessa manhã/ eu bem sei/ que o rio/ em cio/ de sua sede de noite” (SOUZA, 2015, p. 31). O Sol também é ativador de lembranças, como no poema que se dedica ao seu irmão “para o Júlio Cezar (meu irmão assassinado) – in memoriam”: “trazer nos olhos/ o âmbar de girassóis/ e a real(idade) do sol/ que ferve o dia” (SOUZA, 2015, p. 32). Certamente, uma das formas de dar maior vivacidade ao diurno e ao Sol é o uso que Souza faz da personificação que desencadeia uma série de ações entre o sujeito lírico e a manhã, como, por exemplo, nesse poema: é preciso que te cales manhã cales diante desta rudez que perfez teu corpo neste curto espaço de tempo a que chamamos: vida é justo que te cales agora proves um pouco da tarde (SOUZA, 2015, p. 67) O poeta, ao usar a personificação, amplia, assim, as possibilidades de significados escondidos atrás do vocábulo “manhã” e, através do uso do imperativo, ordena que essa manhã “prove”, sinta a sensação advinda REVISTA BARBANTE - 14

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