Revista Prea n°24

 

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Revista Prea n°24

Popular Pages


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distribuiÇÃo gratuita ano 9 2011 maio · junho · julho · agosto 24 1

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v agas partida quero abraçar na fuga o pensamento da brisa das areias dos sargaços quero partir levando nos meus braços a paisagem que bebo no momento por zila mamede foto joão maria alves quero que os céus me levem meu intento é ganhar novas rotas mas os traços do virgem mar molhando-me de abraços serão brancas tristezas meu tormento legando-te meus mares e rochedos serei tranqüila rumarei sem medos de arrancar dessas praias meu carinho amando-as me verás nas puras vagas eu te verei nos ventos de outras plagas juntos ­ o mar em nós será caminho zila mamede nova palmeira-pb 1928 natal praia do forte 1985 foi poeta bibliotecária e bibliográfa autora entre outros de rosa de pedra e navegos.

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f aceaface mar e

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sertão por mário ivo cavalcanti fotos givanni sérgio

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reunir dorian gray caldas e paulo bezerra balá em uma mesma conversa é promover o encontro entre mar e sertão antecipar o vaticínio do beato e se maravilhar com a fluência e a confluência de duas mentes brilhantes da mesma geração e com trajetórias distintas ­ um artista o outro médico ­ as diferenças findam quando se fala em trabalho os dois são antes de tudo fortes se dorian está próximo do 11o livro de poesia sem contar os de e sobre arte paulo está prestes a publicar o terceiro no terreno do epistolário seguindo às avessas os rastros de um hélio galvão dando as costas pra pancada do mar e se embrenhando entre a caatinga e o sertão enquanto dorian pastoreia rebanhos imaginários em seus versos os bois em suas mortes ruminando o pasto e o inverno que não há paulo anseia por um chão molhado quando as serras amanhecem baforando e tudo mais aponta para um bom inverno não à toa ainda que não profundamente íntimos eles bem se conhecem desde muito desde as eras mais distantes quando o mar beirava o sertão.

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balÁ eu sei muito dele agora de mim é que ele não sabe nada né dorian É o que você pensa [risos balÁ [risos É que eu sou novato na estrada né preÁ na estrada de escrever balÁ nessa estrada que nós tamo caminhando aqui dorian eu acompanho o trabalho de paulo balá desde as primeiras publicações na coluna de woden [madruga na tribuna do norte eu vi logo a diferenciação do seu texto em relação ao comum dos outros textos até aqueles mais elogiados pelo nosso woden a sua diferenciação é justamente a linguagem a maneira como você coloca as coisas isso logo me chamou atenção a mesma linha de oswaldo lamartine a autenticidade do texto tudo isso me encantou balÁ eu tinha amizade com oswaldo nós somos aparentados ele morava no rio eu aqui a gente se encontrava eventualmente depois que ele se fixou aqui foi que nós nos tornamos mais assíduos eu ia muito à fazenda dele e tal aí um dia ele perguntou assim primo o que é que você tá fazendo eu mantinha uma correspondência com aurino araújo em motes ­ eu fazia um mote glosava mandava pra aurino que fazia o mesmo botava pra trás os temas eram acontecimentos que iam surgindo do correr do tempo aí oswaldo disse Ômi você deixa esse negócio de banda aí rapaz vai cuidar da sua terra eu segui o conselho o mesmo que cascudo havia dado a ele um tempo atrás eu comecei a pegar aquelas histórias que eu sabia que meu pai contava no tempo que eu era menino pegava um fato ia atrás dele analisava tomava testemunho se tinha acontecido se não tinha acontecido isso foi se transformando em cartas eu passo pra woden uma boa parte delas e aqui e acolá eu reúno num livro ­ com o nome que oswaldo deu cartas dos sertões do seridó só que eu escrevo não com o exato olhar dele mas das coisas do viver do seridó dos casos da história das famílias É paralelo ao que ele fez mas ele fez um estudo de mais profundidade preÁ o que aproxima paulo balá e oswaldo lamartine não é apenas o tema mas o estilo peculiar literário quase sempre ou muitas vezes poético dorian o que eu acho muito interessante nesses escritores é essa linguagem que chega a ser castiça há uma reminiscência cultural que transforma essas cartas do nosso paulo em verdadeiras obras de escrever bem quem é citadino já perdeu esse linguajar sertanejo as vertentes tão autênticas e tão belas da linguagem arcaica e paulo conserva isso no romance nós temos um francisco dantas que ressuscita reencontra palavras que já não se usam mais mas que dentro do texto clássico ficam lindas se adéquam perfeitamente talvez é o maior romancista que nós temos hoje voltando a paulo a admiração que tenho por ele é justamente porque eu não consigo escrever com uma espontaneidade tão grande e de maneira tão bonita faz inveja balÁ certa vez eu mandei um livro pra um colega radiologista lá de são paulo aí ele foi e mandou um bilhete dizendo que tinha achado o livro muito bom muito interessante mas que não tinha entendido nada dorian [risos isso é às vezes uma escapatória ­ quem é que não entende um texto de paulo aí é dizer como drummond se meu verso não deu certo foi seu ouvido que entortou preÁ em entrevista à poeta marize castro certa vez dorian apontou as diferenças entre a sua poesia e a sua pintura ­ a primeira seria mais abstrata e sutil a segunda mais objetiva e pragmática dorian o bicho homem é um criador mas a criação poética é uma coisa a criação artística é outra Às vezes se confundem mas em diferentes veredas a minha poesia realmente é mais intimista enquanto eu pinto quase sempre coisas do meu universo e raramente saio para a abstração para uma criação mais fantasiosa além das marinas eu faço também o sertão tenho trabalhos sobre os campos sobre temas sertanejos ­ rendeiras mulheres pilando paçoca plantadoras os verdes dos canaviais também o algodão como também faço os homens litorâneos as marinas com os pescadores a pesca artesanal os marginalizados as margens do potengi os catadores de mariscos na pintura estou muito preso a uma espécie de interpretação social do nosso povo ­ embora às vezes esses universos se encontram eu tenho um poema que é sobre essa tragicidade das mulheres do mar e dos rios já a minha poesia eletiva versa sobre conflitos íntimos mais universais e menos regionais o conflito que um poeta ­ do rio grande do norte ou do rio de janeiro ou de são paulo ou de recife ­ os conflitos que eles têm são os mesmos dos poetas universais a carpintaria é que é diferente preÁ seria essa mais uma diferença então a sua poesia é mais universal a sua pintura mais regional dorian veja só existem diferenças também no regional existe aquele implícito ­ o naif por exemplo um regional muito atento às raízes nordestinas ­ e existe o regional que é mais universal ­ é aquele que pinta com uma identidade universal como universal a maneira de pintar a técnica a escolha das cores um dia desses um holandês esteve em minha casa e disse ah você tem um colorido de [edvard munch o pintor recebe mais influência visual talvez do que o poeta recebe influência literária a divisão não é muito clara às vezes um poeta é visto como regionalista ­ e às vezes não é e às vezes um pintor é visto como universalista ­ e às vezes não é depois da globalização ­ que eu chamo até de contaminação ­ a pintura muitas vezes saiu perdendo pelo uso indevido do que é universal o pintor brasileiro ao se transformar em universal diz muito pouco do que é local ­ e perde-se informações etnográficas sociológicas que ele poderia passar na sua arte de maneira universal por exemplo alguns abstratos que são só abstratos preÁ você é mais conhecido como pintor de marinas sanderson negreiros diz que você é dos que melhor neste país souberam ver transfigurar rever e modificar o grande mar ­ nordestino e do mundo ou seja o mar regional e universal dorian do mar eu guardo sempre uma coisa permanente minha marina não tem o registro da paisagem local não é ponta negra não é areia preta não é mãe luiza os elementos que eu levo para a pintura são a pedra o arrecife a cor local o sortilégio do mar me contamina me agride e me acalenta É uma espécie

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de berceuse a minha identificação com o mar é somente plástica ­ sem falar do medo que eu tenho daí colocá-lo sempre distante É uma reserva que eu faço [risos o mar está sempre lá mas está distante com muito chão pela frente nisso eu sou muito chão também como paulo balÁ eu não tenho muita relação com o mar não às vezes acho até triste tem uma coisa que eu não gosto do mar é a maresia ­ não me acalenta não fico com o corpo pegajoso coçando se eu fosse filho de pescador eu seria habitante do mar navegante mas como sou filho de vaqueiro eu sou mais sertão o que não impede que eu navegue já naveguei o mar por aí afora um dia desses eu tava lá na fazenda em acari e disse que ia pra fernando de noronha aí o rapaz que trabalha comigo perguntou pra mim e vai como vou de navio homem leva uma cama de ar [risos agora do mar gosto muito do peixe do mar é bom demais mas não sou muito de veraneio não não sou muito chegado a mar não muito embora no meu tempo de escola tinha um texto que o título era o sertão e o mar não sei se era de josé de alencar não sei de quem foi mas dizia que o sertão e o mar não se conhecem e nunca se encontram ­ mas deixa que eles se encontram ali no litoral norte do estado você vai de repente andando na linha da tarde e quando dá fé tem mandacaru e não sei mais o quê não sei mais o quê mas uma vista do mar numa noite de lua já é outra coisa né preÁ e culturalmente mar e sertão não se encontram existe uma digamos civilização litorânea e uma civilização do sertão completamente diferentes balÁ no meu entender existe dorian É lógico que sim o pescador o homem que vive do mar parece que os olhos dele absorveram muito a linha do horizonte a cor do horizonte ­ e ele tem os olhos mais tristes o homem do sertão tem mais chama em sua visão são homens mais ativos É o próprio balanço da jangada do mar que faz o homem do mar mais lento mas isso são coisas que a gente imagina quando eu tinha casa em búzios [litoral sul do rn eu adorava não só porque eu lia mais mas porque eu tinha a oportunidade de estar diante do mar o mar forma ilhas fantasias olhan do o mar você sonha o mar nos dá sortilégios e caminhos que desconhecemos o mar ainda é profundamente desconhecido mesmo com toda a tecnologia atual existem coisas raríssimas bichos que você nunca viu peixes que não são peixes mas coisas estranhíssimas organismos celulares quase eternos então para nós que somos bichos com uma morte anunciada isso é muito estranho balÁ a verdade é que o homem que se socou lá no seridó ele foi pra inventar uma natureza bruta que não tinha sido trabalhada que não tinha sido subjugada a ninguém e ele foi exatamente no coice do boi quem desbravou o sertão foi o boi ­ e o homem atrás dele quem é pescador de beira de praia vai ali bota a rede arranja algum peixe traz pra cá tempera e se alimenta o cabra lá no sertão não tem mar nem tem peixe tem que trabalhar pra arranjar sua subsistência e esse povo que chegou por lá e veio de longe da península ibérica que eram cristãos novos esse povo trouxe uma sabedoria um patrimônio cultural que existia dentro deles né de modo que o seridó hoje em dia é uma civilização diferente ­ você não encontra em nenhum departamento deste estado nem fora daqui uma organização como o seridó não tem no comportamento do povo no interesse dos mais velhos pela saúde dos filhos no interesse de botá-los pra estudar no interesse que eles fossem homens de bem qualificados moralmente pra você ter uma ideia pra você ver a importância que o seridó teve o seridó teve cinco governadores porque também coincidiu com uma época em que era uma região rica por conta do algodão que findou por dois motivos primeiro porque os próprios técnicos fizeram a miscigenação do mocó com o verdão ­ e aí ele perdeu em fibra em qualidade ­ ao mesmo tempo que veio o bicudo que foi uma artimanhazinha do americano que botou os bicudozinhos dentro de uma caixa de fósforo e falou vamo soltar isso lá no brasil aí soltaram aqui em são paulo e na paraíba aí apareceu também o minério que dava uma sustentação também o minério foi de água abaixo de modo que o seridó hoje vive do peito das vacas e matando boi esse pessoal formou uma sociedade diferente onde todos se ajudam há uma o pescador o homem que vive do mar parece que os olhos dele absorveram muito a linha do horizonte a cor do horizonte ­ e ele tem os olhos mais tristes o homem que se socou lá no seridó foi pra inventar uma natureza bruta que não tinha sido trabalhada que não tinha sido subjugada a ninguém dorian com cascudo e o cangaceiro pintado pelo artista em 1955 na casa da junqueira aires

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interação muito grande entre as pessoas você veja a festa de caicó quanta gente vem de fora um dia desses eu encontrei um amigo que fazia 32 anos que não vinha a acari veio pra assistir a festa da padroeira rever os amigos conhecer o gargalheira o sertão do seridó é diferente do outro sertão daí o encantamento de oswaldo por esse sertão que com certeza ele não via nos outros sertões preÁ quais seriam as diferenças balÁ talvez o próprio homem ­ talvez o homem que chegou e laborou aqui não tenha sido o mesmo que trabalhou lá preÁ e esse sertão ele continua existindo ele resiste ainda balÁ em parte sim mas muita coisa vai desaparecendo muita tradição vai sumindo essas coisas mesmo que eu anoto e escrevo muita coisa aconteceu 20 30 anos atrás e não acontece mais tem uma razão muito simples você veja a população de acari era 85 a 90 no mato ­ eram criadores [de gado e produtores de algodão ­ e 10 a 15 na cidade hoje é o inverso aí você já viu que já vai a diferença daí o sertão do nunca mais de oswaldo mudou muito o progresso que é muito bom aqui e acolá acaba com certas tradições serenata você antigamente deve ter sido de fazer serenatas né dorian fiz muitas serenatas balÁ quem diabo ouve mais falar de serenata por caridade primeiro tinha que ser no escuro essas coisas vão mudando repare eu cheguei lá em acari pra o sepultamento de uma irmã minha de 92 anos num domingo comecei a me ajeitar pra ir pra igreja pro cemitério aí eu perguntei pra minha sobrinha me diga uma coisa não toca sinal não ela disse não no domingo não se toca sinal não coisa absurda né nós cristãos tamos acostumados a quando o sujeito morria se tocava o sinal inclusive aquilo era uma mensagem pro povo alguém morreu aí você ficava em casa contrito procurava saber quem tinha morrido não se toca mais sinal dorian esses rituais são importantíssimos pra você ter uma ideia da sua própria formação como pessoa do lugar onde você vive onde desfruta com seus amigos e em família ­ esses rituais estão desaparecendo você veja ainda hoje é muito diferente enterrar os mortos no sertão e nas cidades hoje as conveniências fazem com que você não traga nem o morto pra casa antigamente não existiam as rezadeiras existia o ritual de lavar o corpo com a participação dos parentes dos amigos todos em volta de um ato solene hoje é uma banalidade ­ morreu morreu enterrou acabou balÁ mas aqui está o mar e ali está o sertão ali tá o sertão aqui tá o mar [aponta pra si mesmo quando cita o mar e para dorian quando se refere ao sertão preÁ tudo termina se misturando se confundindo ­ você também é um apreciador das artes visuais da obra de dorian o que você conhece balÁ a primeira vez que eu comprei qualquer coisa dele foi uma tapeçaria em 1964 se não me engano minha admiração vem daquele tempo e tenho outra acho que de 67 são bonitas demais o que você quer mais o homem é tapeceiro o homem é pintor o homem é escritor o homem é poeta o homem tem muitos amigos todo mundo gosta dele ­ precisa mais do que isso dorian o maior bem é conviver com pessoas assim como paulo hoje eu tive

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paulo aos 24 anos na fazenda pinturas e dorian aos 25 fotografado por emílio do valle.

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quantas vezes eu passei pelo sertão e fui recebido pelo sertanejo com a maior afabilidade com carinho a melhor rede a melhor cama o melhor lugar isso só o sertão propicia o seridó é uma civilização diferente ­ no comportamento do povo no interesse dos mais velhos pela saúde dos filhos de botá-los pra estudar no interesse que eles fossem homens de bem a oportunidade de falar numa palestra sobre veríssimo de melo ter tido durante a sua vida toda essa intriga do amor do bem-querer da amizade é muito bom porque você fica mais leve mesmo que você pese 100 kg você fica com a metade disso por conta da própria leveza da amizade ­ a amizade é leve é alegre é feliz todos os anos no dia 30 de dezembro nós festejávamos o aniversário de luís da câmara cascudo que abria as portas para os amigos ­ abria a qualquer hora mas principalmente no dia 30 se você visse a esfuziante alegria de cascudo em participar do próprio aniversário com muita comida com muito abraço com muita brincadeira com uma cachacinha também era uma maravilha era uma maravilha os causos as conversas a explosão do riso dele com aquela maneira tão cavalheiresca de receber as pessoas ­ isso faz parte desse patrimônio do sertão cascudo sabia disso muito bem porque ele passou muito tempo no sertão pesquisando justamente essa maneira carinhosa que o sertanejo tem de receber as pessoas quantas vezes eu passei pelo sertão e fui recebido pelo sertanejo com a maior afabilidade com carinho a melhor rede a melhor cama o melhor lugar isso só o sertão propicia o homem da cidade já é mais econômico já está mais estressado isso pra se reinventar é muito difícil e como disse paulo as coisas já estão diferentes por conta da televisão dos meios de comunicação o mundo vai ficando mais árido preÁ você sente uma grande mudança na natal dos últimos anos dorian as relações ficaram muito mais difíceis porque hoje em dia você só se encontra em ocasiões especiais quando você faz parte de alguma sociedade de algum clube ­ rotary lions clube dos cem Ágape a cidade cresceu cada um tem seu universo seus compromissos e fica difícil haver essa amizade de calçada né ainda me lembro de mamãe conversando na calçada com os vizinhos meu avô reunia todos os filhos e ficava na calçada da [rua joão pessoa 6h da tarde já anoitecendo pra ouvir as irmãs lira tocando piano onde foi a sorveteria cruzeiro joca do pará passava que era quem policiava era a polícia montada da época cumprimentava meu avô são coisas findas mas que são lindas e elas ficarão preÁ seu avô aparece em alguns dos seus poemas ­ um deles diz navegam nas suas veias quilhas de proas acesas e asas de correntezas dorian meu avô era uma figura emblemática funcionário da prefeitura paupérrimo egresso do recife era de uma família proprietária de engenho quando o pai do meu avô morreu os irmãos botaram ele pra fora ele era muito novo tinha 14 anos e saiu mundo afora ­ chegou até a amazônia ­ vendendo ouro até hoje há a divisão dos rabello os que são ricos e os que são pobres [risos meu avô ficou com a herança pobre da família mas era uma pessoa muito interessante era um curioso e pra sustentar a família uma vez por ano ele ia pro sertão pra exercer a atividade de curador como uma espécie de médico ­ quando voltava era rede pra um filho um presente pro outro uma colcha de cama pra esposa alguns dos seus filhos se sobressaíram moura rabello filho da primeira esposa era o intelectual da família pintor poeta versejava muito bem era um parnasiano fazia sonetos com rima e métrica perfeitos ­ até que um dia inventou de escrever sem a partícula que uma loucura [risos deixou um livro memórias de um homem sem fé que é interessante e teve dois filhos digamos diferenciados ramilson rabello que também era pintor e genival rabello jornalista conhecido em todo o brasil meu avô deixou uma família numerosa dez filhos dos dois casamentos ­ entre eles o nosso poeta luiz rabello que também fazia trovas e glosas escreveu três mil pensamentos sobre o amor e deixou essa obra todinha pra mim ­ e eu publiquei numa antologia póstuma me influenciou bastante eu era muito dependente de rabello porque ele era rigorosíssimo com a poesia dos poetas que conheço do rio grande do norte é um dos melhores ­ e não é porque era meu tio não era porque ele era realmente exigente e grande poeta eu tinha medo ele chegava pra mim e dizia olha isso não presta não mas foi muito bom pra mim porque meu pai era escriturário trabalhava com o comércio e era totalmente alijado da coisa literária minha mãe sempre teve pendores artísticos lia para meu pai ouvir que ele tinha preguiça [risos ­ e uma das leituras era o romance de oscar wilde de onde vem meu nome.

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preÁ balá já descreveu numa das cartas que a sua era uma casa sem livros ­ como você se tornou um leitor balÁ um irmão meu que estudou aqui e era muito amigo de walflan de queiroz chegou lá por casa com um livro de j g de araujo jorge depois outro irmão foi estudar em recife e voltou com eu de augusto dos anjos fora isso eu lia pequenos textos escolares de euclides da cunha de humberto de campos de não-sei-de-quem não-sei-de-quem não-sei-de-quem então até terminar meu curso no comecinho de 1960 eu lia pouco depois comecei a ler mais principalmente os nordestinos josé lins do rego graciliano rachel de queiroz o povo daqui num sabe hoje eu sou mais leitor porque tenho mais tempo de ler mas me apego muito aqui ao que é lançado aqui leio releio ­ que é uma coisa boa que existe é reler rapaz bom demais aqui e acolá eu leio coisas que não tinha lido da primeira vez mas olha romance eu não dou pra ler romance não ­ tem que ser muito bom pra eu ir até o fim [risos preÁ e poesia balÁ poesia eu ainda leio mas sou mais apegado ao tio de dorian a poesia lá atrás o soneto guerra junqueiro li muito a velhice do padre eterno e decorei uma parte lá que dizia assim no topo do calvário erguia-se uma cruz e pregado sobre ela o corpo de jesus noite sinistra e má aí eu cheguei um dia na casa de oswaldo [risos e entrei assim opa oswaldo tudo bom tudo bom ­ e aí `no topo do calvário erguia-se uma cruz e pregado sobre ela o corpo de jesus noite sinistra e má aí ele tomou conta e foi até o fim recitou o poema todinho [risos dorian essa façanha de recitar assim de memorizar meu tio luiz rabello recitava de cor a ceia dos cardeais e alguns poemas longos de guerra junqueiro É uma coisa fantástica essa memória balÁ agora quando eu já estava terminando o curso de medicina tinha um colega aqui do rio grande do norte saldanha que também gostava de ler augusto dos anjos resultado durante a semana a gente ficava decorando uns versos e quando era no sábado ia pro chope ­ e tome chope e a recitar augusto dos anjos [risos dorian a poesia parnasiana tem essa vantagem você aprende e não esquece mais porque tem uma ordem de rima de métrica que leva a decorar com mais facilidade os poemas que eu decorei são justamente os poemas rimados e metrificados ­ manuel bandeira elizabeth barrett browning walt whitman neruda mas as minhas mesmo eu não sei nenhuma preÁ você continua escrevendo com frequência poesia dorian poesia é uma coisa que você não acaba nunca de escrever olha eu terminei agora de arrumar do outro lado da sombra três volumes que reúnem os 10 livros meus publicados dos anos 1960 até 2011 de os instrumentos do sonho que foi o primeiro ao último que é justamente do outro lado da sombra e o subtítulo é poesias quase completas a gente não completa nunca [risos É um vício rapaz é como dizia mário quintana é um vício desesperado e inútil sobraram algumas que não entraram no livro mas eu não quero mais me aperrear vou deixá-las na gaveta não sei pra quem nem como a maior parte da obra de fernando pessoa não foi publicada em vida e você hoje lê a sua obra completa eu não tenho nenhuma pretensão de que a minha poesia seja conhecida até porque ela é muito intimista muito diferente da poesia de pessoa que é revolucionária ­ a minha é rabugenta eu reclamo muito de ter nascido e de ter vivido embora seja bom a gente viver mas eu reclamo [risos a minha poesia tá aí quase toda pra ser revista balÁ mas esse negócio eu acho que em quase todo mundo existe um poeta né quando eu era menino um professor de francês lá no ginásio de caicó deu pra gente uns versos pra traduzir ­ não era bem traduzir a gente traduzia ao pé da letra palavra por palavra pra depois arrumar e dar um sentido era um negócio difícil demais eu traduzi os outros também cada qual ao seu modo aí depois eu inventei de botar rima no negócio [risos aí eu também comecei a rabiscar uns versozinhos num sabe fui fazendo fui fazendo fui fazendo quando foi um dia desses minha mulher inventou de reunir isso eu disse isso não vale nada não presta pra nada não mas eu quero mandar imprimir pra quê pra dar aos meninos só se for mas tanto que ela fez que mandou imprimir agora dê o título do livro aí eu botei assim rimas e outros versos vagabundos [risos dorian antonio pinto de medeiros escreveu um poeta à toa aí caíram em cima dele ­ que título horrível à toa ele nem tava ligando e escreveu outro livro com um título lindo o rio do vento inspirado em na nossa caiçara do rio do vento preÁ você conviveu com antonio pinto e outros poetas já falecidos como walflan de queiroz ­ dedicou inclusive um poema a ele dorian convivi walflan foi colega meu de noitada ele sanderson [negreiros não que era muito novinho joanilo de paulo rêgo que é um grande poeta são coisas findas mas que são lindas e elas ficarão hoje em dia um dos velhos lá de acari sou eu então como eu digo tá ficando escasso.

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dorian o eterno menino do mangal

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balÁ me diga uma coisa esse meu irmão que chegou lá em acari com os versos de j g de araujo etc e tal que era companheiro aqui de joanilo e walflan não teve uma história que os camaradas invadiram o cemitério e foram recitar no túmulo da filha de januário cicco dorian detalhes eu soube mas não sei era uma pessoa maravilhosamente bem informada preÁ também esteve embarcado na marinha mercante dorian ele também foi trapista ­ até descobrir que os trapistas como os outros mortais têm as mesmas idiossincrasias as mesmas perversões que qualquer um de nós tem então desistiu [risos É preciso redescobrir walflan além do que ele tem nos livros porque ele deixou muita coisa escrita em jornais nos anos 1950 1960 quando ainda tinha saúde mental ­ fez uns versos muito bonitos da geração era um dos mais inteligentes infelizmente ele teve aquele problema de esquizofrenia preÁ e as cartas sertanejas dr paulo vão continuar balÁ vão eu tenho umas vinte e tantas cartas já prontas mas vou dar mais balÁ [risos pois foi eles eram boêmios e invadiram ­ os três meu irmão walflan e joanilo foi um chafurdo danado quem sabe dessa história é ticiano duarte dorian ticiano é da mesma geração foi colega meu de ginásio e walflan era amicíssimo meu infelizmente muita coisa de walflan se perdeu falava bem traduzia e lia muito bem em francês e escrevia sobre os poetas franceses verlaine rimbaud baudelaire eu assisti uma palestra dele na maison de france sobre novalis paulo com oswaldo lamartine e ariano suassuna

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um tempo porque essas cartas estão se tornando mais difíceis de fazer porque não tem mais quem me dê informações sobre determinadas coisas sabe hoje em dia um dos velhos lá de acari sou eu antigamente chegava lá tinha uns velhos pra procurar hoje o velho de lá sou eu então como eu digo tá ficando escasso tá ficando escasso mas eu vou continuar fazendo É porque uma carta dessa rapaz me leva tem um período de gestação de muitos dias ou poucos dias e mesmo depois dela pronta ela fica lá amadurecendo madurando né antigamente eu escrevia no lápis aí quando ia modificar um trecho tinha que apagar tudo ­ aí apareceu a porqueira do computador eu faço no computador dorian É muito mais fácil balÁ É aqui e acolá eu mando uma pra woden madruga Às vezes ele telefona pra mim ­ rapaz você nunca mais mandou uma carta rapaz uma carta dessas é pra tribuna me pagar r 50 cada carta ­ ela não paga eu não mando mais [risos preÁ você volta sempre pra acari balÁ volto eu vou lá duas três vezes no mês eu tenho um pedaço de terra lá que herdei preÁ a fazenda pinturas né coincidência ­ você aqui do lado do pintor balÁ o nome é porque tem uma pedra lá com umas inscrições antigas não é rupestre ­ são umas inscrições como se a pedra tivesse mole e você tivesse passado o dedo assim num sabe em baixo relevo parecido com umas letras semana passada eu fui com uns cabra lá de fora do estado quando a gente pegou a estrada eu falei olhe isso aqui é o caminho pro céu porque pra mim é um encanto eu sempre vou lá tem também uma quantidade muito grande de peças de casa do nosso convívio da família daí que lá em acari chamam de museu É uma casa muito interessante porque as casas do sertão são todas de duas águas ­ e essa casa tem n águas não é uma água pra frente outra pra trás com um alpendre na frente foi construída por um tio-avô meu vai fazer cem anos agora mas eu creio que a arquitetura da casa deve ter sido de um cidadão que eu conheci que se chamava mestre estevam espanhol eu nunca andei na espanha mas eu tenho informação que no interior de lá muitas casas são do tipo dessa daí num sabe ela não tem alpendre mas tem umas áreas abertas dentro de casa dorian quem sabe esse mestre não trouxe na memória as casas espanholas ­ é estranhíssima eu nunca vi casa do sertão desse jeito [olha fotos da casa reproduzidas nas páginas de novas cartas dos sertões do seridó 2009 preÁ e ela é única na região balÁ É única e tem outra coisa interessante você sabe que a cobertura tem a telha tem o caibro e tem a ripa ela não tem ripa não ­ é de arame rapaz as ripas são de arame e com cem anos de idade tão lá estiradinhas que ver outra coisa formidável há muito tempo atrás eu levei lá quando não tinha nem energia ronald gurgel que é meu compadre ele ficou impressionado como em cima dos caibros em declive tem um tijolo de fora a fora e em cima a telha aí ronald disse mas rapaz eu hoje tô vivendo de vender lajes pré-moldadas e já fizeram isso aqui em 1913 preÁ É a casa onde você nasceu balÁ não eu nasci em acari quando meu pai comprou às primas dele em 1935 que a gente foi morar lá eu que fui o último lá de casa já era nascido meu pai era vaqueiro depois dono de terras foi juntando as coisas plantando algodão criando gado mas veja só a visão dos caboclos de lá todos os filhos ele botou pra estudar inclusive longe ­ em minas em recife muitos foram estudar em lavras por conta do velho lamartine [juvenal que descobriu um colégio de americanos uma aprendizagem de primeiríssima qualidade e botou os filhos pra estudar lá ­ otávio silvino oswaldo aí pronto os outros meu pai evaristo não sei mais quem não sei mais quem botava tudo pra estudar lá de acari foi gente assim rapaz estudar muito embora muitos tenham perdido o tempo né não adiantou nada [risos e assim foi dez filhos dos dez só tem eu contando a história preÁ dorian é de uma família bem menor dorian da parte da minha mãe era uma família enorme eu tinha dez tios da parte do meu pai eu não conhecia quase ninguém porque ele nasceu em ipanguaçu veio pra natal com 14 anos logo começou a trabalhar e nunca mais voltou eu conheço açu de adulto quando joão lins caldas apareceu em natal foi que eu comecei a me interessar em conhecer meus parentes renato caldas eu já conhecia mas joão lins que era meu tio foi a minha grande referência ­ é um dos maiores poetas do brasil balÁ então você tinha que ser o que é agora pelo meu pedigree era pra eu ser vaqueiro [risos eu estudava no colégio interno de caicó o diretor era walfredo gurgel o bispo dom delgado em 1947 não sei porque cargas d água meu pai disse esse ano você não vai estudar walfredo procurou meu pai Ômi mande o menino estudar você não manda e ele perde o gosto pelos estudos quando vender o algodão no final do ano você paga o colégio agora não paga um tostão não eu não quero emperrou não quis aí lá vem dom delgado passa em acari fala com meu pai não não vai pronto aí eu fiquei na fazenda meu amigo bom como o diabo andando a cavalo correndo atrás de boi em cima daquelas éguas tirando leite ­ matuto mesmo encourado a vida melhor do mundo aí quando foi mês de dezembro minha mãe tava costurando na máquina ­ que era quem fazia tudo pra gente só não fazia calça mas cueca camisa pijama tudo ela era que fazia tinha uns cortes uns dorian moldes ­ essa história de moldes existia até pras rendas né moldes estrangeiros adaptados balÁ é aí eu disse pra ela mamãe a senhora quer saber de uma coisa eu não vou mais estudar não ela não olhou nem pra mim ­ deu um muxoxo fez assim hum vá dizer a seu pai pra ver o tamanho da pisa que você leva aí eu pensei diabo é quem vai eu vou é estudar [risos dorian eu tenho uma inveja danada de quem teve uma infância como a que paulo teve eu sou de cidade ­ uma coisa terrível eu vim conhecer o sertão já adulto não peguei nenhum daqueles vícios gostosos que o sertanejo tem,

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