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revista ANO VI - Nº 21 - 06 DE FEVEREIRO DE 2018 ISSN 2238-1414 O poema atravessado pelo povo

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Editorial A edição de dezembro de 2017 precisou de uns dias a mais para vir a público, mas valerá a pena conhecer seu diversificado conteúdo, que traz surpresas, como a participação da escritora Salma Ferraz, famosa por seus contos irreverentes, e do cabo-verdiano Manuel Brito-Semedo, escritor e professor Na seção de artigos, Claudiane Cunha, Gisela Reis, Mayara Anjos, Juliana Ribeiro e Joilda Alves de Oliveira em parceria com Christina Ramalho apresentam leituras críticas sobre diferentes expressões literárias, entre elas a poesia contemporânea, objeto de especial interesse nesta edição. Poemas de Lívio de Oliveira, Samuel de Mattos, José de Castro, Clécia Santos, Fátima Gonçalves, Maria Gabriella e Paula Belmino são exemplos da poesia contemporânea nordestina e brasileira. O conto de Salma Ferraz, “Não há céu para os oblíquos”, revela, mais uma vez, a veia bem-humorada com que a escritora paranaense analisa criticamente as mazelas do mundo. Na seção de ensaios o professor João da Mata nos presenteia com os seus maravilhosos textos e a escritora Rosângela Trajano traz a sua singularidade na escrita. O cordel de Rosa Regis traz uma mistura nordestina do conto de Andersen “A menina dos fósforos” para saborearmos. Na seção de crônicas, uma excelente novidade: a partir desta edição teremos, como coluna fixa de crônicas, a seção “Esquina do tempo”, do escritor e professor cabo-verdiano Manuel Brito-Semedo, inaugurada com “Dó-Di-Dó, o Mindelense Brasileiro”, que nos apresenta Nhô José Brasileiro, ou melhor, “Dô di dô, dô di quá”. Doutor em Antropologia, autor e organizador de diversos livros, professor da Universidade de Cabo Verde, membro da Academia das Ciências e de Humanidades de Cabo Verde, da Cátedra Eugénio Tavares de Língua Portuguesa, da Cátedra Amílcar Cabral e da Associação de escritores Cabo-Verdianos, Brito-Semedo, generosamente, oferecerá aos leitores e às leitoras da Revista Barbante o prazer de fruírem de seus textos inteligentes, críticos, bem-humorados, agudos... Nossos agradecimentos a ele. Trazemos também a crônica de Johne Teles, cujo texto apresenta a brevidade e a agudeza que a crônica pode possuir. Já a seção de resenhas traz três contribuições. Éverton Santos... Christina Ramalho, por sua vez, fala dos livros Hora de fogo (poemas de Helena Parente Cunha) e Literatura entre irmãos: Brasil e Cabo Verde, livro recémlançado na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, e que reúne poemas, contos, crônicas e artigos de escritores e escritoras da Academia Cabo-Verdiana de Letras e da Academia Gloriense de Letras. Por último, as ilustrações desta edição foram resultado de exercícios de criação literária realizados durante as aulas da disciplina Criação Literária, ministrada por Christina Ramalho, no Curso de Letras do campus Itabaiana, da Universidade Federal de Sergipe. Desejamos boa leitura a todos! As editoras. REVISTA BARBANTE - 2

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O POEMA ATRAVESSADO PELO POVO Christina Ramalho1 Joilda Alves de Oliveira2 : Consideração do poema Introdução [última estrofe] Já agora te sigo a toda parte, e te desejo e te perco, estou completo, me destino, me faço tão sublime, tão natural e cheio de segredos, tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina, o povo, meu poema, te atravessa. (DRUMMOND, 183, p 58) Este artigo é parte da produção parcial do Projeto de Pesquisa intitulado “Como elaborar oficinas de leitura e produção de poemas para o Ensino Médio?”, desenvolvido, a partir de agosto de 2017, no Curso de Letras de Itabaiana, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), dentro do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica. Após uma primeira etapa de leituras teóricas sobre o gênero lírico, passamos à fase de a partir de um poema dado, refletir sobre o processo de criação de um poema, incluindo as considerações sobre a relação entre poesia e a realidade. O trabalho com o poema de Ferreira Gullar, “Meu povo, meu poema”, gerou as breves conclusões a seguir apresentadas. A imagem do verso de Drummond (“...Tal como uma lâmina,/o povo, meu poema, te atravessa”) pareceu-nos excelente porta de entrada para duas reflexões sempre instigantes para a crítica literária. Começamos por: qual é de fato e por que meios se dá a relação entre a criação lírica de um poeta ou poetisa e o contexto histórico e cultural no qual este ou esta se insere, principalmente quando esse contexto surge representado pela forma significativa da palavra “povo”? Dessa primeira, uma derivada: o povo, no poema, é lâmina, pretexto, preocupação, identidade, símbolo de consciência crítica ou apenas mais um entre os tantos temas pelos quais a criação lírica passeia? Em segundo lugar, uma questão que troca os referentes: e o fato de a literatura circular ou não entre o povo? Como abordá-la? Para discutir essas vertentes, ninguém melhor que nosso Antonio Candido, cuja atualidade crítica é indiscutível, ainda que, em termos de visão dos encaminhamentos políticos e sociais da segunda questão, seja necessário um 1 Doutora em Letras (UFRJ, 2004), professora do curso de Letras (campus Itabaiana) da Universidade Federal de Sergipe. Especialista em estudos épicos e ensino de poesia. 2 Graduanda do Curso de Letras de Itabaiana da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisadora voluntária do PIBIC, projeto PVE5086-2017 – Como elaborar oficinas de leitura e produção de poemas para o Ensino Médio? REVISTA BARBANTE - 4

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contraponto entre as colocações de Candido, datadas do final dos anos 80, e as de Achille Mbembe, que, em plano século XXI, denuncia retrocessos alarmantes relacionados aos Direitos Humanos, incluídos aí os problemas decorrentes da estratificação do conhecimento. O povo, no poema, é símbolo de consciência crítica? Poeta de fôlego e ecletismo famosos, o maranhense José Ribamar Ferreira, nosso Ferreira Gullar, não só em Poema sujo, mas em diversas obras, sempre se manteve atento às mazelas políticas e às injustiças praticadas contra o povo brasileiro. O autoexílio, em 1971, que duraria até 1977, comprova sua “verve” crítica e o “perigo” que seu olhar nada descomprometido representava. O poema “Meu povo, meu poema”, publicado em Luta corporal, de 1954, faz-se, no âmbito da investigação sobre as relações entre criação e contexto, uma ótima fonte de reflexão. Nele, Ferreira Gullar expressa sua poética de então: a poesia motivada pelo referente e a consciência de que o poema não só representa uma estrutura significativa capaz de captar a “voz do povo” como ser, igualmente captada por ela, numa troca que leva ao crescimento, ao amadurecimento. Eis o poema: MEU POVO, MEU POEMA Meu povo e meu poema crescem juntos como cresce no fruto a árvore nova No povo meu poema vai nascendo como no canavial nasce verde o açúcar No povo meu poema está maduro como o sol na garganta do futuro Meu povo em meu poema se reflete como a espiga se funde em terra fértil REVISTA BARBANTE - 5

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Ao povo seu poema aqui devolvo menos como quem canta do que planta (1966, p. 147) Desde o título, em que o Eu Lírico se manifesta na primeira pessoa do singular, o poema já apresenta traços de redundância. O duplo “meu” − sustentado pelo uso da vírgula, que evita a separação dos referentes “povo” e “poema” − sugere o espelho, a fusão desses referentes numa concepção poética em que texto e contexto estão vinculados, gerando uma unidade semântica. Tais traços, contudo, poderão ser ratificados na observação das cinco estrofes que reúnem os quinze versos do poema. Detalhemos alguns aspectos relacionados à estrutura poemática e, para isso, observemos a escanção do poema e a discriminação de sua estrutura rímica. MEU POVO, MEU POEMA Meu/ po/vo e /meu/ po/e/ma/ cres/cem/ jun/tos - 10 sílabas métricas (a – untos) co/mo/ cres/ce/ no/ fru/to - 6 sílabas métricas (b – uto) a /ár/vo/re/ no/va - 5 sílabas métricas (c – ova) No/ po/vo/ meu/ po/e/ma/ vai/ nas/cen/do - 10 sílabas métricas (d – endo) co/mo/ no/ ca/na/vi/al - 7 sílabas métricas (e – al) nas/ce/ ver/de o a/çú/car - 5 sílabas métricas (f - úcar) No/ po/vo/ meu/ po/e/ma es/tá/ ma/du/ro – 10 sílabas métricas (g – uro) co/mo o /sol – 3 sílabas métricas (h – ol) na/ gar/gan/ta/ do/ fu/tu/ro – 7 sílabas métricas (g – uro) Meu/ po/vo em/ meu/ po/e/ma – 6 sílabas métricas (i – ema) se /re/fle/te – 3 sílabas métricas (j – ete) co/mo a es/pi/ga /se /fun/de em/ te/rra/ fér/til – 10 sílabas métricas (k – értil) Ao/ po/vo/ seu/ po/e/ma a/qui/ de/vol/vo – 10 sílabas métricas (l – olvo) me/nos /co/mo /quem /can/ta – 6 sílabas métricas (m – anta) do /que /plan/ta - 3 sílabas métricas (m – anta) REVISTA BARBANTE - 6

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Como se vê, o poema de Gullar possui cinco estrofes, com três versos cada, logo, é composto por cinco tercetos. Fazendo uma primeira leitura rápida, nos parece que os versos não obedecem a uma ordem dentro de cada estrofe. Cada verso possui uma quantidade diferente de sílabas métricas, com exceção dos primeiros versos da 1ª., 2ª., 3ª. e 5ª. estrofes, que são decassílabos. A rima, como destaca Candido em sua obra O estudo analítico do poema, é um elemento de extrema importância na composição poética. No poema que aqui analisamos, a rima se mostra com maior destaque nas estrofes três e cinco, as quais exploraremos a seguir. Nas estrofes um, dois e quatro, não é possível identificar a presença de rimas consoantes, ainda que a primeira estrofe apresente a rima toante em [u] (juntos e fruto) e a quarta, a toante em [ɛ] (reflete e fértil). Contudo, nas estrofes três e cinco, temos a presença do recurso rítmico. Vejamos a terceira estrofe: “No povo meu poema está maduro/como o sol/ na garganta do futuro”, a palavra final do primeiro verso da estrofe rima com a última palavra do terceiro verso e formam a rima cruzada (maduro/futuro). Trata-se de uma rima consoante, na qual da vogal tônica da sílaba final ao fim da palavra há coincidência fonética. A rima entre as palavras ‘maduro/futuro’ pode ser classificada como rica, pois, dentro do poema e da estrofe selecionada, ‘maduro’ é um adjetivo que caracteriza o poema. A palavra ‘futuro’ assume a posição de substantivo (“do futuro” é adjunto adnominal de “garganta”). Ainda sobre a rima, temos, na quinta estrofe: “Ao meu povo seu poema aqui devolvo/ menos como quem canta/ do que planta”. Na primeira linha da quinta estrofe, podemos destacar uma espécie de rima imperfeita entre as palavras povo e devolvo. Nesse caso, é visível que a semelhança entre as sílabas finais das duas palavras traz um efeito rímico. Partindo para o segundo verso, encontramos a rima consoante emparelhada, que se dá entre o segundo verso e o terceiro: canta/planta. Trata-se de uma rima pobre, visto que, no poema, ambas são verbos. Observemos também a repetição das palavras: no; meu; povo; poema. Há, nessa série, uma repetição que causa um efeito sonoro. São repetidas diversas palavras que contêm as letras: o; a; e. Por exemplo: povo; poema; açúcar; canta; reflete; funde. Pode-se observar uma sonoridade grave no conjunto dessas palavras. Ainda em termos estruturais, pode-se observar que, bem dentro das propostas estéticas modernistas, Gullar não enfatiza aspectos formais como métrica e rima. A estrutura rímica a/b/c, d/e/f, g/h/g, i/j/l e m/n/n atesta isso. Nela, uma maioria de versos brancos convive com apenas duas rimas consoantes (g/g e n/n). O uso de vogais toantes (a/b e j/l) gera certa assonância, mas não chega a constituir uma marca de significação contundente. Há, todavia, marcação fônica visível, reconhecível na repetição dos fonemas /p/, /e/, /o/, /m/ e /n/, que acaba ratificando a relação sêmica entre os morfemas povo e poema. Que relação seria essa? É necessário observar as redundâncias e os estranhamentos que abrem as portas da interpretação. As figuras de linguagem ajudam nesse processo de descobertas que é, afinal, a leitura literária. Uma figura de linguagem bem marcada dentro do poema é a comparação, em todas as estrofes temos exemplos dela, como no trecho a seguir: “Meu povo em meu poema/ se reflete/ como a espiga se funde em terra fértil”. O reflexo do povo no poema é comparado pelo eu lírico ao modo como a espiga se funde à terra. Ainda no mapeamento das figuras de linguagem, na primeira estrofe, encontramos uma inversão: “...como cresce no fruto/a árvore nova”, em um enunciado REVISTA BARBANTE - 7

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corriqueiro diríamos: “como a árvore nova cresce no fruto”. Essa é umas das ferramentas que o poeta utiliza para atribuir sentidos diversos e caracterizar sua escrita, fazendo do poema uma construção elaborada e cheia de sentidos. Na segunda estrofe, temos a personificação em: “No meu povo meu poema vai nascendo”. Sabemos que um poema não é um ser vivo e não pode nascer de fato, não como nasce um homem ou uma flor. E ainda nessa estrofe, temos a presença de outra personificação: “...na garganta do futuro”. Nessa passagem, é atribuída uma característica humana a algo abstrato e inumano. O futuro não pode ter uma garganta, apenas um ser vivo pode, sendo assim, fica explícita a personificação. Assim, observando redundâncias, temos a estrutura comparativa presente nas cinco estrofes. O “como” estabelece uma identidade entre o processo de criação cultural (o poema) e o processo de criação natural (a natureza). Essa identidade reforçará os vínculos entre poema e povo, uma vez que, tal como na natureza, um elemento se liga ao outro no ciclo gerador da vida. Poema e povo “crescem juntos”, “nascem” um (o poema) no outro (o povo), amadurecem um (o poema) no outro (o povo) e se refletem um (o povo) no outro (o poema) tal como, na natureza, cresce o fruto na árvore nova, nasce o açúcar ainda verde no canavial, põe-se o sol na garganta do futuro, anunciando a chegada do dia, e se funde a espiga em terra fértil. No final do processo, “cantar” (processo de criação lírica) e “plantar” (a intervenção humana na natureza) ganham dimensões discretamente diferentes, em termos valorativos, uma vez que a voz lírica se reconhece mais como semeadora do que como cantadora (“menos como quem canta do que planta”). Tal propriedade invoca a lembrança do título, em que a poesia se faz espelho da realidade e vice-versa. A primeira estrofe, como vimos, compara o povo ao fruto, onde cresce a árvore nova, o poema. Como o campo semântico é o da “semente”, pressupõe-se uma referência ao processo mental ou à elaboração discursiva que antecede a manifestação, o poema. Pode-se, aqui, interpretar a relação entre povo e poema como uma relação natural, na base da qual se encontra a concepção lírica de mundo de Ferreira Gullar. O “crescer junto” integra fruto e semente no mesmo processo. Presente e futuro se fundem. O poema, ao manifestar-se, carregará consigo a natureza do fruto, no caso, o povo. E o povo, como fruto, ao carregar a semente, o poema, garante sua perpetuação na “árvore nova” ali gerada. Logo povo “e” poema aparecem tão integrados como o título sugere. A segunda estrofe se referirá ao “nascimento”, o que, nos termos sêmicos abordados, permite o reconhecimento de um segundo momento: o da transformação da semente em fruto, ou seja, o da manifestação discursiva que concretiza a abstração do discurso. O poema é o “açúcar”, a energia que nasce no povo, o canavial. Nasce, contudo, ainda verde. Como o açúcar, necessitará de processos de depuração e refinamento, até chegar ao produto final. A hipálage, atribuindo ao açúcar a cor verde da cana, impregna, ainda, o poema do povo, já que o verde é também propriedade do canavial. A alusão à transformação desse verde permite a interpretação de que, no povo, o poema é concebido (a semente), nasce (a cana no canavial) e se fará maduro (o açúcar). A significação desse amadurecimento é metaforizada na terceira estrofe. Sol na garganta do futuro, o poema é, para o povo, a voz que enuncia o novo. Açúcar, não mais verde, mas ainda incipiente, o poema está pronto a iluminar o dia ou as mentes. A “garganta” também sugere o processo de elaboração poemática, destacando o momento em que o discurso, por meio da fala, se materializa na manifestação lírica. Condições de recepção serão a etapa subsequente natural. REVISTA BARBANTE - 8

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A quarta estrofe inverterá, pois, a relação anterior, em que o povo era o lugar (“no povo”) e o poema o sujeito. Agora, será “no poema” que o povo se refletirá, como a espiga se funde na fertilidade da terra. O poema, terra fértil, permite o crescimento da espiga. A lógica da primeira estrofe − povo/fruto; poema/semente − é agora substituída por outra, de igual teor. O poema será a terra fértil em que o povo (espiga) se refletirá. Refletir-“se” sugerirá “retratar-se, representar-se, reproduzir-se, transmitir-se, repercutir-se, comunicar-se”. Logo, no poema, que é fértil, o povo se faz representar, reproduzir, transmitir, repercutir, comunicar. A última estrofe rompe com a redundância do “meu” e insere um elemento de estranhamento, o “seu”. Na relação especular, o “eu” se reconhece no outro e a este consagra o produto final do processo de desvelamento do momento de criação. O uso do demonstrativo “aqui” sustenta significativamente a materialidade do poema composto. O Eu Lírico, reconhecendo no texto a identidade coletiva, devolve o produto final à fonte original, para que, num processo cíclico, faça-se novamente semente. A valorização do semeador (o plantar superando o cantar) denuncia as expectativas da recepção e o decorrente desejo de que o poema gere frutos e transformação, como a semente que anuncia no fruto a árvore nova. Eis aí o aspecto cíclico e fusionista do poema, caráter esse reforçado, ainda, pela ausência de pontuação. Da fecundação, à germinação, passando pelo “fruto” e por seu consumo, a criação lírica, tal como a natureza, movimenta-se ciclicamente. Ainda em termos de reflexão sobre as condições líricas de geração de sentido, caberia uma referência ao conceito aristotélico de mimese. Ao estabelecer uma comparação entre o processo cultural (artificial, pois) de criação lírica e o processo natural de criação (a natureza), o poema remonta à ampliação que o estagirita deu ao termo, ao destacar que o poeta imita em seu obrar o próprio obrar da “physis”, que não é a passagem do ser à aparência, nem da aparência ao ser, mas a passagem da potencialidade e latência à realização ou atualização. Em outras palavras, o realiza pelo ato. Portanto, mais que uma “visão de mundo”, o poema de Gullar define uma “tomada de posição” diante do mundo. O poema, nessa concepção, é um ato. Voltando a Drummond, uma “rosa” que se oferece ao povo; um alimento que gerará outros, em cadeia sem fim de reverberações significativas, que estabelecerão o movimento de que é feita a vida. Retomando, de outro lado, Candido, o poema de Gullar pode ser entendido como “modalidade de literatura que visa a descrever e eventualmente tomar posição em face das iniquidades sociais, as mesmas que alimentam o combate pelos direitos humanos (2011, p. 183). E esse aspecto nos remete à segunda questão proposta na abertura deste artigo. Para encerrar o que definimos como “primeira questão”, ou seja, “qual é o lugar do povo no poesia”, uma alusão a outro poema, desta vez de Olga Savary, que, pela semelhança de referentes, sugere aproximações com “Meu povo, meu poema”: COMUNHÃO Por que escrevo? porque sou pouca e mínima REVISTA BARBANTE - 9

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embora vária, porque não me basto, escrevo para compensar a falta, porque não quero ser só raiz e haste e preciso do outro para dar sombra e fruto. (SAVARY) E o fato de a literatura circular ou não entre o povo? No âmbito da segunda questão, é impossível não declarar a certeza de que vivemos, em pleno século XXI, um momento de grandes tormentas e retorno a posturas que revalorizam as perversas cisões entre elite e povo, erudição e cultura popular, acesso a bens incompressíveis (entre eles, arte e literatura). Essa realidade fica ainda mais visível se confortamos as expectativas de Antonio Candido expressas em “O direito à literatura” (texto de 1988) e o retrato da conjuntura mundial destes dias expressa em “A era do humanismo está acabando” (texto de 2016), do camaronês Achille Mbembe. Candido (2011), em “O direito à literatura”, texto de 1988, defende a literatura como um “bem incompressível” (categoria criada pelo padre dominicano Louis-Joseph Lebret), ou seja, compartilha seu ponto de vista acerca do fato de a literatura ser essencial à humanização do ser. São incompreensíveis certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão etc.; e também o direito à crença, à opinião, ao lazer e, por que não, à arte e à literatura (2011, p. 176) Essa visão se justifica, segundo Candido, pela amplitude temática que circula através da arte e da literatura pelo poder de representação da realidade que possuem. Na literatura, em especial, em que a língua se reveste de um trabalho estético que lhe permite “dizer” estimulando, nos leitores e nas leitoras, um processo gradual de ampliação da sensibilidade perceptiva da palavra, esse poder é intenso. Candido, por isso, afirma que: Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas (2011, p. 177). REVISTA BARBANTE - 10

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A questão que comoveu Candido a refletir sobre o “direito à literatura” reside nas injunções que “exilam o povo do poema” – modo metafórico por nós criado para expressar a tônica principal do texto de Candido. Na percepção dele, a perversa iniquidade social – aceitação passiva da quebra de valores como a justiça social, o respeito ao ser humano, o direito das minorias, etc... –, aliena propositalmente os não privilegiados do acesso a textos literários de maior “erudição” ou requinte formal. E a defesa de tal alienação planejada reside na falácia de que as pessoas mais pobres e sem acesso a determinados referentes culturais não estão aptas a fruir do que a crítica (revelando preconceitos seculares) chama de “alta literatura”. Fraciona-se, assim, a circulação por produções literárias a partir de uma divisão imposta entre o popular e o erudito. O “povo”, portanto, fica de fora de um bem incompressível, logo, exilado do que, na literatura, é […] processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante (2011, p. 182) Entretanto, também como Candido aponta no mesmo artigo, a “literatura empenhada” realiza a função de levar para a obra literária essa mesma iniquidade, denunciando-a, com maior ou menor sucesso em termos de realização estética. Segundo ele, “a literatura pode ser um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou de negação deles, como a miséria, a servidão, a mutilação espiritual” (2011, p.). Assim, se o “povo” fica exilado de uma circulação cultural literária ampla e democrática, ao menos figura em obras de muitos escritores e de muitas escritoras, comprometidos/as com esse poder que a literatura possui. É o caso de Ferreira Gullar. Trazendo essa discussão para o panorama de nossa contemporaneidade, não mais moderna, mas pós-moderna, temos, nas palavras do camaronês Achille Mbembe, constatações duras e profecias assustadoras: Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016. Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo. Nos  Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow. A  Europa  continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural  Stuart Hall  chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas de niilismo. As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais. A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa. REVISTA BARBANTE - 11

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Esse panorama nos faz pensar em um distanciamento ainda maior entre o povo e a cultura, visto que, sob o signo da violência, a sensibilidade, pouco a pouco, regride em termos de sintonia com as linguagens poéticas do mundo. A desigualdade social mata a poesia porque mata o próprio povo. Mbembe também afirma que: A noção humanística e iluminista do sujeito racional capaz de deliberação e escolha será substituída pela do consumidor conscientemente deliberante e eleitor. Já em construção, um novo tipo de vontade humana triunfará. Este não será o indivíduo liberal que, não faz muito tempo, acreditamos que poderia ser o tema da democracia. O novo ser humano será constituído através e dentro das tecnologias digitais e dos meios computacionais. A era computacional – a era do Facebook, Instagram, Twitter – é dominada pela ideia de que há quadros negros limpos no inconsciente. As formas dos novos meios não só levantaram a tampa que as eras culturais anteriores colocaram sobre o inconsciente, mas se converteram nas novas infraestruturas do inconsciente. Ontem, a sociabilidade humana consistia em manter os limites sobre o inconsciente. Pois produzir o social significava exercer vigilância sobre nós mesmos, ou delegar a autoridades específicas o direito de fazer cumprir tal vigilância. A isto se chamava de repressão. Sabemos que as transformações do mundo são constantes e inevitáveis, contudo, o quadro pintado por Mbembe a partir da observação da realidade mundial, cada vez mais presa às molduras de um mercado tecnológico e repressor em que não cabe o humano, permite que, imediatamente, pensemos que, em uma realidade distante do humano, pouco espaço haverá para o “ser” do poema e, de igual modo, para o “ser do povo” dentro de um poema. Assim, se, no poema de Gullar, povo e poema “crescem juntos”, em um mundo em que o humanismo parece chegar a seu fim, poderíamos chegar à ideia de que povo e poema igualmente “morrem juntos”? Parece que terminaremos sem respostas. Da preocupação de Candido com a circulação da literatura entre o povo às terríveis constatações de Mbembe sobre a realidade do século XXI, parece existir um fosso, pois, se na perspectiva de Candido, o poema (e os textos literários em geral), quando circula entre o povo, pode levar a palavra que faz ver, sentir e pensar a realidade, em um mundo isento de solo propício para se plantar a poesia, como poderá surgir a palavra poética que desenvolve em nós uma quota de humanidade? Conclusão O poema de Ferreira Gullar pertence ao período modernista da Literatura Brasileira. Um período caracterizado, justamente, entre outras coisas, pela crítica social e a aproximação do poeta ao povo. Em “meu povo, meu poema”, observamos características que revelam seu traço moderno, entre elas: o fato de o poema não estar preso a nenhuma métrica clássica, não conter muitas rimas, apresentar uma linguagem simples. Inicialmente, essas são as peculiaridades mais visíveis que associam a obra ao Modernismo. O autor toma ‘povo’ e ‘poema’ quase como sinônimos, coisas que coexistem juntas, um necessário ao outro. É como se ambos acabassem sendo criados juntos: “Meu povo e meu poema crescem juntos”. REVISTA BARBANTE - 12

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Na primeira estrofe, a ideia de crescimento do poema e do povo se firma na imagem da árvore, que faz crescer um fruto. A partir dessa colocação, poderíamos imaginar que o autor queira associar o crescimento do poema ao do próprio povo. Na segunda estrofe, a associação entre ‘povo’ e ‘poema’ é fortalecida: “No povo meu poema vai nascendo”. O eulírico descreve, de fato, o nascimento de algo, no caso, do poema, que nasce junto ao povo. O poema nasce do povo por ser neste inspirado. Ainda na segunda estrofe, o eu-lírico compara o nascimento de seu poema à produção do açúcar vindo do canavial. O poema é produto do povo, advém das relações sociais, da vida. É interessante o jogo colocado pelo autor, em toda extensão do poema, que atribui um sentido característico e singular à obra. Na primeira estrofe, temos crescimento, na segunda, nascimento, e na terceira, amadurecimento. Logo, o poema, seu nascimento e criação são aproximados ao ciclo de uma planta, nasce, cresce e amadurece. Na terceira estrofe, temos o amadurecimento do poema: “Meu poema está maduro”, assim como um fruto. Depois de passar pelas etapas anteriores, agora o poema está maduro. A partir daí, vemos a comparação: “...como o sol/ na garganta do futuro”. O poema maduro se compara, por meio de uma metáfora, ao que poderíamos entender como as esperanças, as novas ideais que surgem e surgirão do futuro. O sol representaria essas novas boas ideias, bons fluidos, pois, o sol é benéfico ao amadurecimento dos frutos. Ao mesmo tempo, é o nascimento do sol que marca a chegada do futuro representado pelo “novo dia”. Na quarta estrofe, ainda na ideia de nascimento/criação, o poema assemelha-se a uma colheita/frutificação. O ‘povo’ e o ‘poema’ são indissociáveis, têm seu reflexo comparado a uma “espiga que se funde em terra fértil”. É como se o poema absorvesse o povo, do mesmo modo como a espiga se funde, ou pode ser “engolida” pela terra. Na quinta e última estrofe, o eu-lírico devolve ao povo seu poema. O povo foi a inspiração, além de ser também o destino do poema. Após a leitura atenta do poema, e de analisarmos alguns dos seus elementos, na breve interpretação aqui feita, vemos que Gullar se utilizou de diversas ferramentas para compor o sentido singular de sua obra. As palavraschave do poema são: povo e poema. O povo é matéria-prima para a criação, objeto inspirador, que leva o poeta a compor suas obras. Com a repetição das palavras citadas acima, em cada estrofe temos apregoada essa ideia de que povo e poema são elementos ligados. Também vale ressaltar o modo como o autor metaforiza, usa palavras e cria uma atmosfera de nascimento/criação. Como se relatasse o nascimento de uma planta, uma árvore, o assunto principal tratado é a criação do poema e sua vinculação ao povo. A poesia vem da vida, a inspiração do poema é o povo. Projetado no contexto do “hoje”, esse poema nos faz pensar. Traz-nos a reflexão sobre até que ponto o povo vem sendo abandonado à própria sorte, perdendo seus próprios referentes humanos e, com isso, sua própria poesia? Se povo e poema crescem juntos, no poema de Gullar, no mundo real parecemos viver uma grave regressão a estados de insensibilidade que só o materialismo exacerbado pode provocar. Em relação, especificamente, à sociedade brasileira, decisões como tornar o ensino de “arte” (PEC 241) não obrigatório nas escolas refletem, como mínimo exemplo, esse retrocesso. Permanecendo essa conjuntura perversa, o REVISTA BARBANTE - 13

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“povo” estará cada vez mais afastado do “poema”, e, por isso, certamente mais propenso às manipulações que o exilam cada vez mais do acesso a uma vida digna, justa, capaz de levar a sociedade a um maior equilíbrio de classes, ainda que a ideia de uma harmonia plena seja utópica. Se como Candido defende, a literatura é “o sonho acordado da civilização” (2011, p. 177), tratemos, nós professores e professoras, escritores e escritoras, artistas em geral, de, através do mergulho fruidor e de uma crítica igualmente “empenhada”, dar tanto às obras literárias empenhadas quanto a todas as formas de expressão literária e artística, sem a injunção do “divisor de águas da clivagem”, o espaço de circulação e de recepção crítica que merecem. Só dessa forma, não só o povo estará “no poema”, gerando, como no poema de Savary, sombra e fruto, como o poema “estará no povo”, promovendo cada vez maior consciência de próprio poder que possui de dizer “não” à discriminação e à injustiça social. Bibliografia ANDRADE, Carlos Drummond de. Consideração do poema. In: ___ Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1983, p.158. ARISTÓTELES. Obras. Madrid: Aguilar, 1973. CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: ____ Vários escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011, p.169-193. GULLAR, Ferreira. A luta corporal e novos poemas. Rio de Janeiro: José Álvaro Editor, 1966, p. 147. MBEMBE, Achille. A era do humanismo está terminando. In: http://www.ihu.unisinos.br/564255-achillembembe-a-era-do-humanismo-esta-terminando, 2006. Consulta realizada em 27/03/2017. SAVARY, Olga. Repertório selvagem. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional/ Multimais/ Universidade de Mogi das Cruzes, 1998, p. 336x. REVISTA BARBANTE - 14

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