Gestão de Museus: Estratégias com Base na Participação Comunitária e na Identidade Territorial

 

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Hilda Bárbara Maia Cezário

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA – UFBA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO – EA PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO E GESTÃO SOCIAL – PDGS CENTRO INDERDISCIPLINAR DE DESENVOLVIMENTO E GESTÃO SOCIAL – CIAGS HILDA BÁRBARA MAIA CEZÁRIO GESTÃO DE MUSEUS: ESTRATÉGIAS COM BASE NA PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA E NA IDENTIDADE TERRITORIAL Salvador 2016

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HILDA BÁRBARA MAIA CEZÁRIO GESTÃO DE MUSEUS: ESTRATÉGIAS COM BASE NA PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA E NA IDENTIDADE TERRITORIAL Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Multidisciplinar e Profissional em Desenvolvimento e Gestão Social do Programa de Desenvolvimento e Gestão Social da Universidade Federal da Bahia como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Desenvolvimento e Gestão Social. Orientador: Profº. Dr. Eduardo Davel Co-orientadora: Profª. Dra. Mª. Lorena Sancho Querol Salvador 2016

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HILDA BÁRBARA MAIA CEZÁRIO GESTÃO DE MUSEUS: ESTRATÉGIAS COM BASE NA PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA E NA IDENTIDADE TERRITORIAL Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Multidisciplinar e Profissional em Desenvolvimento e Gestão Social do Programa de Desenvolvimento e Gestão Social da Universidade Federal da Bahia como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Desenvolvimento e Gestão Social, tendo a seguinte banca examinadora: Prof. Dr. Eduardo Davel __________________________________________________ Universidade Federal da Bahia Profª. Dra. Mª. Lorena Sancho Querol _______________________________________ Universidade de Coimbra Profª.Dra. Grace Kelly Marques Rodrigues ___________________________________ Universidade Federal da Bahia Prof. Dra. Letícia Dias Fantinel _____________________________________________ Universidade Federal do Espírito Santo Profª. Marcele Regina Nogueira Pereira_______________________________________ Universidade Federal de Rondônia Vice-presidente do MIMON - ICOM.

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À Quim, Com ônus e bônus.

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AGRADECIMENTOS Primeiramente, FORA TEMER. A Joaquim Alves de Oliveira Neto, a quem também dedico este trabalho, por ter sonhado antes de mim e acreditado que chegaria aqui. Ao professor e orientador Eduardo Davel, sobretudo, pela paciência que teve comigo. Pela dedicação, pelo apoio, pelos pensamentos compartilhados, pelo incentivo, por não ter me deixado cair. Aos colegas que me incentivaram e dedicaram horas dos seus dias em me manter em pé nesta jornada, em especial, a Fabiana Pimentel (Fabi), Indira Vitta (Indi) e Márcia Cardim (Marcita). Agradeço a Deus terem colocado vocês neste caminho. Agradeço mais ainda a Fabi, que juntamente com Israel Campos e professor Davel, proporcionou umas das melhores experiências deste mestrado – a orientação conjunta, as trocas, os pensamentos construídos coletivamente. Um processo muito rico e que chegamos ao fim – Oh Glóriaaa! A Lorena Sancho Querol, minha co-orientadora, pelo interesse, pela dedicação, pela troca. Por abrir horizontes! Ao compartilhar as primeiras ideias, ao apresentar-me ao Museu do Traje de São Brás de Alportel, e até mesmo, ao denunciar a misoginia em minha escrita. Que sorte a minha tê-la encontrado neste percurso! A Emanuel Sancho, diretor do Museu do Traje, por ter permitido mais que uma Residência ao valorizar nossas conversas. Considero uma experiência de amizade e crescimento mútuo. Ao Museu do Alto Sertão da Bahia e a todas as pessoas que o faz museu. Esteve em meu pensamento desde o início com a admiração ingênua de quem nunca houvera trabalhado numa iniciativa museológica comunitária. Permaneceu, permeando todas as reflexões, todas as proposições e tudo que, certamente, terá serventia para outros neste trabalho. Ao Centro Interdisciplinar de Desenvolvimento e Gestão Social (CIAGS) e à Universidade Federal da Bahia, pelo compromisso com a educação pública de qualidade e com sociedade de um modo geral por meio deste Programa de Mestrado. A todas as pessoas que contribuíram diretamente com esta pesquisa, através das entrevistas, da cessão de materiais, dos diálogos. E a todas que contribuíram indiretamente. Um agradecimento especial a três professoras da minha graduação em Museologia, Graça Teixeira, Suely Cerávolo e Heloísa Helena Costa – por acreditarem em mim, cada uma à sua maneira. A Júnior, pela leitura atenta e crítica, estimulando o pensamento e contribuindo para o meu desenvolvimento enquanto pessoa. E aos meus irmãos, Bianca Maia e João Vitor, que se dedicaram à revisão deste trabalho e contribuíram para que houvesse alguma hora de sono. Muito obrigada, herman@s! Aos meus amigos, aos que neguei tantos encontros e que insistiram em não se esquecer de mim. Aos meus pais, pelo apoio e olhar atento, e até mesmo, pela preocupação. E, acima de tudo e todos, a Deus.

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CEZARIO, Hilda Bárbara Maia. Gestão de Museus: Estratégias com base na Participação Comunitária e na Identidade Territorial. 2016. 237f. Dissertação (Mestrado) – Escola de Administração, Universidade Federal da Bahia. RESUMO A pesquisa propõe uma tecnologia de gestão social, denominada Tecnologia Social das Mobilizações (TMob), que consiste em estratégias de gestão para iniciativas museológicas com base na participação comunitária e na identidade territorial. As mobilizações, articuladas num circuito integrado, reúnem estratégias que consideram os processos identitários e participativos, substantivos a esses museus, como essenciais para uma gestão sustentável. Parte-se da mobilização cultural, como coração do circuito, e responsável pelo desenvolvimento de uma cultura de participação e valorização identitária, fundamental para toda a gestão do museu. Interligada a esta, temos três outras mobilizações correlacionadas: a mobilização museológica (desenvolvimento das funções básicas de um museu), a mobilização organizacional (compreensão sistêmica do museu, entrelaçando as atividades de preservação, pesquisa e comunicação aos meios administrativos necessários para a sua execução) e a mobilização interorganizacional (desenvolvimento de parcerias e de trabalho em redes com outras organizações, dinâmica crucial para a sustentabilidade deste museu no território). Fruto de pesquisa qualitativa, da análise documental e dos estudos de experiências de diferentes museus, dentro e fora do Brasil, a TMob é direcionada ao campo de atuação da Museologia Social, com intuito de orientar líderes comunitários, gestores sociais e culturais de comunidades, bem como, estimular o próprio poder público, para o surgimento e desenvolvimento de museus com base na participação comunitária e na identidade territorial, tendo em vista a relevância destes para a dinamização sociocultural de territórios e para a construção de sociedades sustentáveis, baseadas em um modelo de desenvolvimento integrado, equitativo e solidário. Palavras-chave: museologia social, gestão de museus, museus comunitários, participação, identidade territorial.

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CEZARIO, Hilda Bárbara Maia. Gestão de Museus: Estratégias com base na Participação Comunitária e na Identidade Territorial. 2016. 237f. Dissertação (Mestrado) – Escola de Administração, Universidade Federal da Bahia. ABSTRACT The research proposes a social management technology, called Social Technology of Mobilizations (TMob), consisting of management strategies for museological initiatives based on community participation and territorial identity. The mobilizations, articulated in an integrated circuit, put together strategies that consider the identity and participatory processes and, fundamental to these museums, as essential for sustainable management. Starting from the cultural mobilization, as circuit’s heart, and responsible for the development of a participation and identity recovery culture, essential to all museum management. Connected to this, three other mobilizations, which are also linked with each other: the museological mobilization (development of the basic functions of a museum), the organizational mobilization (systemic understanding of the museum, associating the preservation activies, research and communication to administrative means needed for its implementation) and interorganizational mobilization (building up partnerships and works on network with other organizations, crucial dynamics for the sustainability of this museum in the territory). As the result of qualitative search, document analysis and studies of different museums experiences inside and outside of Brazil, TMob is directed to Social Museology acting field in order to guide community leaders, social and cultural managers of communities, to stimulate the public administration, to the emergence and development of museums based on community participation and territorial identity, in view of the relevance of these for the sociocultural promotion of territories and the construction of sustainable societies based on a model integrated, equitable and solidary development. Keywords: social museology; museums management; territorial identity; community participation; social technology.

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LISTA DE QUADROS, TABELAS E FIGURAS Figura 1 – Tecnologia Social das Mobilizações.............................................................16 Quadro 1 - Fases do desenho metodológico da pesquisa................................................20 Quadro 3 – Roteiro de Entrevistas da F2.2 – Caso MASB.............................................24 Quadro 4 – Roteiro de Entrevistas F3.2.2 – Casos integrados........................................27 Quadro 4 – Situações observadas (F2.3).........................................................................29 Quadro 6 – Artigos e seus usos no ensino-aprendizagem...............................................33

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SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................................................9 CAPÍTULO 1 – METODOLOGIA DE PESQUISA...........................................................18 1.1 ESTUDOS DE CASOS MÚLTIPLOS: HOLÍSTICO E INTEGRADOS .............................................. 18 1.2 DESENHO METODOLÓGICO .................................................................................................. 20 1.3 TÉCNICAS DE COLETA DE DADOS ........................................................................................ 21 1.3.1 Documentos................................................................................................................21 1.3.2 Entrevistas...................................................................................................................22 1.3.3 Observação Participante ............................................................................................. 28 1.4 ANÁLISE DOS DADOS ......................................................................................................... 30 CAPÍTULO 2 - GESTÃO DE MUSEUS: ESTRATÉGIAS COM BASE NA PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA E NA IDENTIDADE TERRITORIAL..................32 2.1 GESTÃO DE INICIATIVAS MUSEOLÓGICAS COMUNITÁRIAS: A TECNOLOGIA SOCIAL DAS MOBILIZAÇÕES (ARTIGO 1) ......................................................................................... 34 2.2 A MOBILIZAÇÃO CULTURAL NA GESTÃO DE MUSEUS: A FORÇA DA PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA E DA IDENTIDADE TERRITORIAL (ARTIGO 2)............................................... 73 2.3 A MOBILIZAÇÃO MUSEOLÓGICA NA GESTÃO DE MUSEUS: A FORÇA DA PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA E DA IDENTIDADE TERRITORIAL (ARTIGO 3) .................... 112 2.4 A MOBILIZAÇÃO ORGANIZACIONAL E INTERORGANIZACIONAL NA GESTÃO DE MUSEUS: A FORÇA DA PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA E DA IDENTIDADE TERRITORIAL (ARTIGO 4) ....................................................................................................................... 149 2.5 OS DESAFIOS DA GESTÃO PARTICIPATIVA: O CASO DO MUSEU DO TRAJE DE SÃO BRÁS DE ALPORTEL (ARTIGO 5) ....................................................................................... 186 CAPÍTULO 3 – DISCUSSÃO E IMPACTOS ...................................................................222 3.1 IMPACTOS TEÓRICOS ......................................................................................................... 222 3.2 IMPACTOS SOCIOPROFISSIONAIS ........................................................................................ 223 3.3 IMPACTOS SOCIOCULTURAIS.............................................................................................. 224 CONCLUSÃO....................................................................................................................... 225 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................228

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9 INTRODUÇÃO A atuação no Museu do Alto Sertão da Bahia (MASB) e a percepção da carência existente no campo da gestão de museus, sobretudo no que se refere à gestão de museus de caráter comunitário, motivaram a presente pesquisa. Assim como o esforço em extrair da vivência prática, dos registros de experiências consolidadas e das reflexões teóricas, algumas estratégias de gestão com base na participação comunitária e na identidade territorial, que venham servir, de forma mais adequada, a estas iniciativas museológicas comunitárias, contribuindo para uma gestão coerente com os seus princípios base. Entretanto, para compreender esta proposta, é necessário ter em vista que por museu comunitário entende-se toda iniciativa museológica que por meio da participação comunitária é capaz de manejar seus referenciais de memória, identidade e patrimônio em prol de ações coletivas transformadoras (LERSCH; OCAMPO, 2004, 2009; PRIOSTI, 2010), tomando a participação como princípio, meio e fim. Trata-se do museu como processo (VARINE-BOHAN, 2014, 2013), em construção permanente, com potencial para atuar em movimentos de desenvolvimento local, justamente pelo seu fazer participativo que possibilita à comunidade a definição, gestão e difusão do seu patrimônio cultural e natural, acolhendo contínua e paulatinamente a diversidade cultural e identitáriado território (SANCHO QUEROL; SANCHO, 2015). Considera-se base desta concepção de museu, as reflexões realizadas no campo da museologia, desde a segunda metade do século XX até os dias de hoje, a partir do questionamento da função social destes equipamentos. Neste meio século, paralelo à consolidação do Movimento da Nova Museologia (DECLARAÇÃO DE QUEBEC, 1984), inúmeros museus surgiram, sob os mais diversos nomes e formatos, potencializando as discussões acerca do que viria a ser museu e também museologia1 Em meio a tantas reflexões, destacava-se o entendimento da relação entre “homemobjeto-museu” como objeto de estudo da Museologia (STRANSKY, 1980; RUSSIO, 1984 apud CERAVOLO, 2009). A partir daí, muitas terminologias foram utilizadas no discurso teórico, algumas mais exaustivamente que outras, como: Ecomuseologia, Museologia Comunitária, 1 À época, tentava-se consolidar a museologia enquanto ciência, definindo seu objeto e métodos de estudo. Porém, até hoje não há um consenso sobre isso, de forma, que a museologia tem sido melhor compreendida enquanto um conjunto de reflexões teóricas e críticas ligadas ao campo dos museus, ou mesmo, enquantoética museal, referindo-se a qualidade daquela que decide o que deve ser um museu e os fins aos quais ele deve servir (DESVALLÉES; MAIRESSE, 2013).

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10 Museologia Informal, Museologia Popular, Museologia da Libertação, Museologia Ativa, Museologia Social e Sociomuseologia (CHAGAS, 1985; DAVIS, 1999; LERSCH; OCAMPO, 2004; MOUTINHO, 1993, 2010; PRIOSTI, 2010; PRIOSTI; MATTOS, 2007; SANTOS, 2008; SANCHO QUEROL, 2016; VARINE-BOHAN, 2000, 2013, 2014). Todas, porém, buscavam distanciar-se do foco no objeto/coleção da então museologia professada nos grandes museus, para centrar-se no indivíduo/sociedade, com museus que podiam se configurar, inclusive, em espaços a céu aberto2. Para dar conta desta mudança, atualizava-se também o ternário para “sociedade – patrimônio – território” (CURY, 2009), de modo que, passava a ser papel do museu servir à sociedade e ao seu desevolvimento (DECLARAÇÃO DE SANTIAGO DO CHILE, 1972). Contudo, este não foi e ainda não é um campo livre de conflitos. Aliás, “o que está em jogo nos museus e também no domínio do patrimônio cultural é memória, esquecimento, resistência e poder, (...) silêncio e fala, destruição e preservação” (CHAGAS, 2007, p.222). Portanto, ser ou não ser museu, se reconhecer ou ser reconhecido como, também quer dizer algo no jogo da memória e do poder. Por isso, adota-se o termo “iniciativas museológicas comunitárias” para se referir a essa diversidade de formas de “fazer museu”, ampliando a compreensão para outras experiências museológicas desenvolvidas a partir dos preceitos enunciados, mas que, por ventura, não levaram e não levam o nome de museu comunitário, ou sequer são reconhecidas como museus. Adota-se também, neste trabalho, a Museologia Social, tal qual é difundida no Brasil, ou Sociomuseologia, como é largamente utilizada na Europa, principalmente em Portugal, como uma museologia centrada na dimensão local, com objetivo de reforçar os processos coletivos de definição de identidades, autoconhecimento e pensamento crítico, ou seja, comprometida com a emancipação dos sujeitos a partir da memória e do patrimônio (SANCHO QUEROL; SANCHO, 2015). Compreendida a natureza destes museus, ressalta-se o interesse por seus processos de gestão, tendo em vista a importância destesenquanto instrumentos de transformação social, comprometidos com a construção de sujeitos coletivos que tem consciência da própria história e memória, por meio da valorização e do respeito à diversidade cultural, 2 Referências, sobretudo, aos museus a céu aberto, disseminados no norte da Europa nos anos 60, e precursores dos ecomuseus, difundidos a partir da década de 70 e hoje espalhados pelo mundo todo, inclusive, no Brasil (VARINE-BOHAN, 2013).

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11 com base em valores e princípios mais democráticos e igualitários, colaborando para o fortalecimento das relações sociais e a renovação de uma visão de mundo mais humana e solidária. Além disso, é muito importante compreender a relevância estratégica dos seus processos comunitários para a dinamização sociocultural de territórios, possibilitando a inserção de comunidades na economia criativa3 local, nacional e internacional, bem como, o desenvolvimento sócio-territorial sustentável, ou melhor, a construção de sociedades sustentáveis (DIEGUES, 1992; RATTNER, 1999, DESSEIN et al., 2015), baseadas num modelo de desenvolvimento integrado, equitativo e solidário. Diante deste potencial, a necessidade de pensar a gestão voltada especificamente para a lógica destes equipamentos é latente. Sobretudo porque, ao falar da gestão de museus, a pouca produção teórica e formativa é composta, grande parte, por manuais práticos (FOPP, 1997; GENOWAYS; IRELAND, 2003; LORD; LORD, 2005; MASON, 2004; BOYLAN, 2004; DAVIES, 2001), que levam em consideração principalmente o gerenciamento de acervos, equipe e formas de financiamento, muitas vezes, de forma estanque, e extremamente setorizada, em sua maioria, à luz da administração clássica, ignorando as práticas e os processos participativos, demandados pelas organizações museológicas comunitárias. Assim, considera-se que a formação de profissionais específicos do campo, os museólogos, sofre com a ausência de conteúdos e processos instrumentalizantes em gestão, sobretudo, aplicados à iniciativas provenientes da Museologia Social, como reflexo deste panorama maior. Isto resulta em um grave problema no campo, que é a ocorrência de guerra por espaço entre “museólogos altamente qualificados” e as pessoas das comunidades, os “militantes do patrimônio”, como identifica Varine-Bohan (2005). Muitas vezes, “essas duas categorias não falam a mesma linguagem, ainda que a matéria prima de referência, o patrimônio, seja fundamentalmente o mesmo” (VARINEBOHAN , 2005, p. 1). Logo, a carência teórica é identificada também na prática, ao partir para o campo de trabalho e perceber a ausência de gestores qualificados para a lida diária com esta tipologia de museus. 3 Segundo o Plano Nacional de Economia Criativa, “os setores criativos são aqueles cujas atividades produtivas têm como processo principal um ato criativo gerador de um produto, bem ou serviço, cuja dimensão simbólica é determinante do seu valor, resultando em produção de riqueza cultural, econômica e social” (MINC, 2011, p.22). É, portanto, considerando as possibilidades de ativos de um museu comunitário a partir da sua dimensão simbólica, base para a própria existência do museu, que se considera também a amplitude do seu potencial na perspectiva da economia criativa.

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12 Isso também reflete no que tem sido considerado como um grande desafio na área cultural: a formação de gestores culturais (OBSERVATÓRIO ITAÚ CULTURAL, 2008). Ainda no campo de museus, Cândido (2014) afirma que todos os envolvidos na gestão destes equipamentos devem ter por base não apenas os conhecimentos técnicos e científicos do campo da gestão que se aplicam às mais diferentes organizações, mas também conhecimentos do campo da Museologia, de forma que possam encontrar caminhos próprios para a condução e tomadas de decisão. Afirma também que, na maior parte das vezes, são os pequenos museus, fora das capitais e com equipes menores, que se revelam como os mais frágeis e vulneráveis, pois geralmente não possuem planejamento claro e alegam o distanciamento dos centros de formação e produção teórico- metodológico do campo da Museologia, identificando-se como não aptos para elaborarem os documentos de base para a sua gestão, como o diagnóstico e o Plano Museológico. Isso é preocupante na medida em que, segundo o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM, 2011), o Brasil possui cerca de 3.000 museus. Entretanto, 78,9% dos municípios não possuem museu, o que ressalta a concentração numérica destes equipamentos nas capitais e no litoral. Na Bahia, apenas cerca de 10% dos municípios tem museus e a distribuição é algo em torno de 0,98 museus por cada 100 mil habitantes (MINC, 2009). Diante dos números expostos, é possível afirmar também que são estes pequenos museus que estão refletidos como maioria nestes dados, revelando a ausência de profissionais qualificados para a sua gestão. Vale ressaltar que esta não é uma realidade única do Brasil, porém, em outros lugares, a vulnerabilidade destes pequenos museus frentes a outras instituições mais consolidadas, bem como a constatação de que, muito pouco da produção da área se aplica aos seus casos, tem levado organizações a pensarem a sua gestão a partir da potencialização dos vínculos comunitários e territoriais, como é o caso da Associazione Nazionale Piccoli Musei, na Itália (CANDIDO, 2014). Nesta perspectiva, o museu compreende o potencial da ação comunitária para a sua sustentabilidade e do seu território de origem, a partir de uma intervenção mais direta através da gestão. Todavia, alguns autores indicam que, na prática, muitos museus comunitários tem se fechado num “movimento de proteção contra o sentimento da perda de referências” (SCHEINER, 2012, p.26), e passam por situações diversas, chegando inclusive ao desaparecimento, quer seja por se tornarem cada vez mais similares aos

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13 museus ditos tradicionais, abordando o museu enquanto processo centrado nas pessoas, mas atuando voltados para produtos, tendo por centro o tratamento de seus objetos e coleções como a maioria dos museus; seja por se perderem em processos políticos falsamente participativos, em ciclos viciosos de debates, assembleias e votações, se autoconsumindo, sem desenvolverem efetivamente suas funções em relação ao patrimônio; seja pela simples dissolução de objetivos, de necessidades, de pessoas, etc. (SCHEINER; BRULON SOARES, 2009; SCHEINER, 2012). Acredita-se, contudo, que isso decorre também da ausência de uma gestão que tenha por base os princípios básicos destas iniciativas imbricados de forma orgânica aos seus processos. Ocorre que, ainda que a identidade e a participação apareçam na revisão bibliográfica como características marcantes, melhor dizendo, essenciais dos museus comunitários (CHAGAS, 1985, 2014; LERSCH; OCAMPO, 2004, 2009; MOUTINHO, 1993, 2010; PRIOSTI, 2007, 2010; SANCHO QUEROL, 2016; SANTOS, 2008; VARINE, 1979, 2012, 2014), elas não são consideradas plenamente em seus processos de gestão, ou seja, não são mobilizadas e levadas em conta como aspectos cruciais para o gerenciamento, e consequentemente, a sustentabilidade destas iniciativas. Assim, apesar do ternário “sociedade, patrimônio e território” configurar a base por trás destes museus, entende-se também que, por si só, ele não acarreta nenhum valor, uma vez que, “a articulação desses três elementos pode ser excludente e perversa, pode ter função emancipadora ou coercitiva” (CHAGAS, 2007, p. 221). Dessa forma, entende-se que a participação e a identidade territorial funcionam como fatores de mobilização para a ativação do ternário em prol do ‘museu processo’, configurado no arcabouço da Museologia Social. Para tanto, entende-se a participação como “princípio” que rege esta museologia e este museu (MOUTINHO, 2010), referindo-se a um processo ativo da comunidade, em que os integrantes possuem direito de participar das dinâmicas do museu, na medida em que há a redistribuição de poder e a capacidade real de influenciar os resultados dos processos (Arnstein, 2002, p.2), desde a concepção ao gerenciamento e desenvolvimento das atividades museológicas (LERSCH; OCAMPO, 2004, 2009). Considerando, pois, a participação como uma “necessidade fundamental do ser humano” (BORDENAVE, 1983, p.16), o “princípio da participação” nestes museus trata como “direito de todo ser humano participar nos processos de identificação, construção e definição dos conceitos, dimensões e significados da realidade histórica e

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14 cultural de um determinado coletivo (...) com vistas ao desenvolvimento local” (SANCHO QUEROL, 2016, p. 377). Este exercício democrático e cultural cidadão inserido no processo contínuo do ‘fazer museu’, coloca este equipamento como um potencializador de novos modelos de desenvolvimento, com base na descentralização e valorização dos recursos, sobretudo, locais (MOUTINHO, 2007, 2010). Já a identidade possui relação com a ideia de museu desde a sua origem. Porém, durante muito tempo, foi apropriada pelos museus como algo estático, um referencial fixo, desconsiderando a sua natureza enquanto ‘prática social’ (HOLLAND et al., 1998). Era entendida como “uma substância, quintessência de valores e qualidades a priori positivas, imunes a qualquer crivo. E o museu como seu santuário” (MENESES, 1993, p. 208). Essa compreensão, entretanto, foi se modificando e, nesta pesquisa, tal qual o museu, a identidade é compreendida como processo (CANCLINI, 2003; CRAIB, 1998), construída através de seus múltiplos fragmentos (HALL, 2006), não apenas culturalmente mas também de forma política levando em consideração todos os aspectos do seu território (SAQUET; BRISKIEVICZ, 2009). O território, por sua vez, é tido como ‘espaço socialmente construído’ (LEFEBVRE, 2006; SANTOS, 2000), fruto de uma interação dinâmica de fluxo e contra fluxo entre o material e o simbólico, considerado como dimensão crucial para toda e qualquer construção identitária (DAVEL et al., 2016). Dessa forma, ao falar de identidade territorial, portanto, considera-se o processo contínuo de negociação das múltiplas identidades em interação num determinado espaço, que possui delimitação física unicamente na dinâmica de construção/reconstrução estabelecida por estas relações. Nesta perspectiva, este tipo de museu é um instrumento para que as instâncias de decisão comunitária exerçam poder sobre a sua memória, mobilizando sua(s) identidade(s) em prol do fortalecimento do grupo. Acredita-se, portanto, que a mobilização constante desses fatores seja fundamental para a construção de princípios de gestão mais condizentes e adequados a estes museus. E, principalmente, entende-se a gestão em seu sentido mais amplo e não setorizado, de modo que compreenda o funcionamento organizacional do museu, englobando a sua organicidade nas relações não apenas internas, administrativas, mas, sobretudo, no seu entendimento relacional ao território que está inserido.

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