Anais SEMIC - Cultura 2017 2

 

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Anais do Seminário de Mídia e Cultura realizado pela Faculdade de Informação e Comunicação UFG em 2017 2

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ISSN:2179-2860 Anaisdo IXSemináriode MídiaeCultura 2017 Organizadores SuelyGomes AndréaSantos MayllonOliveira Realização

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Realização ProgramadePós-Graduação em ComunicaçãoFIC/UFG OrganizadoresdoEvento SuelyGomes AndréaPereira MayllonOliveira CorpoDiscentePPGCOM FIC/UFG ComitêCientífico Dra.AdrianaRosaCruzSantos Dr.AlexandreTadeudosSantos Dra.AnaCarolinaRochaPessôaTemer Dra.AndréaPereiradosSantos Dra.ÂngelaTeixeiradeMoraes Dra.CiciliaM KPeruzzo Dr.ClaudomilsonFernandesBraga Dr.DaltonLopesMartins Dr.FranciscoAssis Dr.GoiaméricoFelicioCarneirodosSantos Dr.JoãodeMeloMaricato Dra.KelleyCristineGonçalvesDiasGasque Dra.LucienedeOliveiraDias Dr.LuizAntonioSignatesFreitas Dr.MagnoLuizMedeirosdaSilva Dra.MarciaTondato Dra.MarlidosSantos Dra.MariaFranciscaMagalhãesNogueira Dra.MariaLuizaMartinsdeMendonça Dra.MônicaRodriguesNunes Dra.NéliaRodriguesDelBianco Dr.RicardoPavan Dra.RosanaMariaRibeiroBorges Dra.SimoneAntoniaciTuzzo Dra.SuelyHenriquedeAquinoGomes Dr.TiagoMainieriOliveira Dra.ValquíriaAparecidaPassosKneipp

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Anaisdo IXSemináriode MídiaeCultura Outubrode2017 Goiânia-GO ISSN:2179-2860

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APRESENTAÇÃO Prof.Dra. Suely Gomes O projeto da Ciência Moderna envolveu a estruturação de um complexo sistema de comunicação científica que compreende canais, mecanismos de acesso à informação e o contexto social em que aquela ocorre. A Ciência da Informação tradicionalmente classifica os canais de comunicação científica em três domínios que interagem numa espécie de gradação do estágio da produção do conhecimento científico: informal, semiformal e formal. Sem nos delongarmos nas especificações e características inerente a cada um desses domínios, no momento nos contentamos em dizer que os canais formais veiculam informações já em um estágio avançado de produção e incluem publicações de livros, artigos em periódicos, obras de referência e artigos da literatura; os canais informais compreendem os contatos realizados entre pessoas envolvendo a troca de experiências por meio de reuniões, treinamentos, contatos interpessoais e visitas; já os canais semiformais são caracterizados pelo uso simultâneo dos canais formais e informais e aqui se incluem os eventos científicos. Cada domínio é caracterizado por diferentes comportamentos, contextos, públicos, objetivos, mecanismos, atores envolvidos e estágio na produção do conhecimento científico. E, antes de serem excludentes e autônomos, são complementares. Sobre os canais semiformais, Mueller (2000, sp.)1 afirma que, “por ocasião da realização de eventos como congressos ou seminários, ou quando se reúnem em bancas de avaliação de teses e dissertações e de concursos docentes” é quando a troca de ideias se dá de forma mais intensa e se obtém as informações mais atuais, muitas ainda no campo das intenções. Nessa perspectiva, manter os eventos como instância de diálogo e de trocas é parte fundamental do fazer científico; enriquecedor não só para os pesquisadores de longa data, mas também para aqueles que estão iniciando no campo. É um momento inspirador e de intensidade criadora. E essa é a compreensão que nos motivou a, mais uma vez, organizar o IX Seminário de Mídia e Cultura que                                                                                                                 1  MUELLER, Suzana. A ciência, o sistema de comunicação científica e a literatura cientifica. In: CAMPELO, Bernadete Santos; CEDON, Beatriz Valadares; KEMER, Jeannette Marguerite (Orgs.) Fontes de Informação para pesquisadores e profissionais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.     6  

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teve como tema central de suas mesas principais para esse ano A sociedade midiatizada: disputas, conflitos e controvérsias. É um convite provocador para que lancemos um olhar sobre a sociedade contemporânea na esperança de que o mesmo desvele os diversificados campos de tensionamentos e disputas, tanto na perspectiva macro (nações, governos, política) quanto na escala micro (sujeitos, identidades, grupos minoritários) que permeiam nossas relações. Mesmo não sendo um fenômeno novo ou exclusivo do nosso tempo, o processo de midiatização da sociedade traz novas dinâmicas, matizes e visibilidades às disputas entre nações, grupos sociais e indivíduos. O destaque é que essa conjuntura reverbera nas esferas da cidadania e da cultura, uma vez que a intensificação do processo de midiatização reconfigura as bases da vida social e está presente nas rotinas de praticamente toda a sociedade, seja na política, família, trabalho, religião. As disputas, acreditamos, estão na base dos conflitos, violências (físicas e/ou simbólicas) e controvérsias – são nessas instâncias que a vida coletiva se complexifica, seu aspecto plural fica mais evidente, “onde alianças e oposição se transformam de forma irresponsável; onde nada é tão simples como parece; onde todos estão gritando e brigando; onde os conflitos crescem mais severos” (VENTURINI, 2010, p. 262)2. Todas as dimensões sociais e culturais da vida se transmutam e se redimensionam na medida em que há agenciamentos entre a sociedade com os novos “mídia”. O redirecionamento se dá no sentido de não só a sociedade midiatizada lançar luz em determinados campos e obscuridade a outros, mas principalmente pela intensificação dessa luz que, em muitos casos, leva ao ofuscamento de questões primordiais e prioritárias para o nosso desenvolvimento como seres humanos. Enxergar o que está invisível norteou o tom da nossa conversa durante o evento que agregou contribuições de diversos autores em quatro Grupos de Trabalhos (GTs) e também nas outras atividades realizadas nos dias 19 e 20 de outubro de 2017 na Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) na Universidade Federal de Goiás (UFG). Esperamos que os trabalhos disponibilizadas no presente anais do evento sejam inspiradores e que a leitura seja profícua. São os desejos dos organizadores do evento e dos anais.                                                                                                                 2  VENTURINI, T. Diving in magma: how to explore controversies with actor-network theory. Public Understanding of Science. Vol 19(3).pp. 258-273. 2010.     7  

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PPGCOM FIC/UFG Qualquerpartedessapublicaçãopodeserreproduzida,desde quecitadaafonte.Todososdireitosdestaediçãosãoreservados aoProgramadePós-Graduaçãoem ComunicaçãodaFaculdade deComunicaçãoeInformaçãodaUniversidadeFederalde Goiás. Disponíveltambém em:http://ficufg.blog.br/semic. PPGCOM FIC/UFG UniversidadeFederaldeGoiás-CampusSamambaia FaculdadedeInformaçãoeComunicação-RuaSamambaia ProgramadePós-Graduaçãoem Comunicação-Sala16 CaixaPostal131-CEP:74001-970.Goiânia-GO Telefone:(62)3521-1514 ppgcom.fic@ufg.br Editoração,formataçãoepreparaçãodosoriginais: MayllonOliveiraeStephanieSilvaJustino DADOSINTERNACIONAISDECATALOGAÇAO NAPUBLICAÇÃO (CIP) Responsável:FilipeReis

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SUMÁRIO Apresentação....................................................................................................................... 06 Identificações Culturais e Produção de sentido ..................................................... 09 Do popular ao massivo: a apropriação do meme como estratégia de comunicação por artistas de hip hop ................................................................................................................................. 09 A expansão da marca Kardashian como ícone de identidade e cultura de consumo a partir dos fenômenos na cibercultura ....................................................................................................... 21 “É pra mim!”: a representação da mulher empoderada pelo feminismo na publicidade brasileira ................................................................................................................................... 36 O estupro em #OsDiasEramAssim: memórias da violência no Twitter................................... 51 Mutações discursivas: comunicação, literatura, consumo ................................. 64 Narrativas Midiáticas em torno da construção de feminino: Um olhar sobre a produção e recepção das mensagens publicitárias e a participação engajada............................................. 64 O consumo do luxo e a comunicação mercadológica para produtos premium........................ 79 A imagem feminina na propaganda da Avon: Uma Análise de Conteúdo da campanha de lingerie #IssoÉPraMim............................................................................................................. 93 Dramaturgia seriada contemporânea: aspectos culturais do uso de personagens anti-heroicos nas séries de TV ..................................................................................................................... 109 Influenciadores Digitais como mediadores do consumo........................................................ 122 Crianças e TICs: conflitos, controvérsias e insegurança na rede ........................................... 138 Interfaces Comunicacionais ........................................................................................ 150 Educação em jogo: Inclusão de jogos digitais no ensino e aprendizagem de alunos com deficiência .............................................................................................................................. 150 Comunicação e cultura organizacional: apontamentos teóricos e históricos ......................... 161 A prática da animação no contexto escolar: produção de curtas-metragens na rede pública de ensino de Presidente Prudente (SP)........................................................................................ 175 Hermenêutica da Profundidade na pesquisa em comunicação: narrativa, texto e contexto.. .188

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Educomunicação e Sustentabilidade: uma análise dos discursos e das práticas sustentáveis no Ensino Fundamental............................................................................................................... 201 Tecnologias e Estética .................................................................................................... 218 TODO BEBÊ É UM BEBÊ JOHNSON'S: análise de discurso do blog Lagarta Vira Pupa sobre a campanha ................................................................................................................... 218 Controvérsias na comunicação e saúde: biolutas entre médicos e pacientes bariátricas nas redes de biossociabilidade...................................................................................................... 233 Rastreamento ocular nas pesquisas qualitativas em Comunicação: possibilidades e limitações... ............................................................................................................................ 244 O conteúdo digital como expressão cultural: uma análise dos comentários de filmes publicitários na plataforma YouTube..................................................................................... 259

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IXSemináriodeMídiaeCultura ProgramadePós-Graduaçãoem Comunicação-PPGCOM FaculdadedeInformaçãoeComunicaçao-UFG Identificações Culturaise Produçãode Sentidos Coordenação RosanaMariaRibeiroBorges RicardoPavan

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) Do popular ao massivo: a apropriação do meme como estratégia de comunicação por artistas de hip hop Dayane Costa Oliveira da SILVA1; Lucas Alves de BRITO2; Luiz Felipe Fernandes NEVES3; Ricardo PAVAN4 Universidade Federal de Goiás, Goiânia, Goiás Resumo O presente artigo propõe-se a analisar, por meio de uma pesquisa bibliográfica de caráter exploratório, como alguns artistas de hip-hop se apropriam da produção de memes criados por fãs, utilizando-os como estratégia de comunicação e como meio de divulgação e de expansão do alcance e da visibilidade de seus conteúdos e produtos nas redes sociais. Tal análise articula-se às abordagens teóricas acerca das características que permitem delinear uma cultura do humor na internet, essencialmente baseada em vídeos e textos produzidos a partir de um estética intencionalmente tosca, compartilhados entre os integrantes de comunidades virtuais. Também leva-se em consideração o fato de que o humor que circula pelas comunidades virtuais, mais especificamente sob a forma de memes, carrega de forma expressiva a marca daqueles que se situavam no polo da recepção nos esquemas tradicionais dos estudos da comunicação. Diante da atual configuração social em rede e da convergência entre mídias e de papéis entre produtor e consumidor, constata-se que a participação do fã e a sua capacidade de compartilhar conteúdo de maneira orgânica são levadas em conta pelos grandes produtores na criação de seu conteúdo, buscando uma estética, seja em vídeos, letras ou em capas de álbuns, que estimule a produção de memes sobre seus produtos. Palavras-chave: Meme; Hip-hop; Convergência; Comunidades virtuais; Cultura popular. Introdução A acessibilidade à internet proporciona novas formas de interação e sociabilização, particularmente no que Lévy (2010) denomina como comunidades virtuais. Dentre essas interações, o humor é ressignificado e compartilhado de forma massiva e em rede (CASTELLS, 1999, 2006) a partir do meme de internet5. O caráter expressivo do meme se dá a partir de seu compartilhamento de cunho viral e da independência que subsiste em seu processo criativo, em que seu criador modifica a mensagem a partir da acessibilidade ao ambiente virtual e às ferramentas tecnológicas disponíveis. 1 Mestranda do PPGCOM da FIC/UFG, e-mail: dayanecosta91@gmail.com. 2 Mestrando do PPGCOM da FIC/UFG, e-mail: alvesdebrito.lucas@gmail.com. 3 Mestrando do PPGCOM da FIC/UFG, e-mail: lffernandes08@gmail.com. 4 Doutor em Ciências da Comunicação, professor da FIC/UFG, e-mail: pavan.ufg@gmail.com. 5 Para o presente trabalho adotamos a perspectiva de Shifman (2014), que caracteriza o meme como um discurso público construído socialmente e que é compartilhado via internet pelos seus usuários. O meme é aqui tomado como um produto das redes sociais, cuja origem remonta à cultura do digital trash (PRIMO, 2007; FONTANELLA, 2009). 9

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) Em trabalhos de artistas renomados como Drake e Kendrick Lamar, o meme surge como um dos fatores que estimulam a popularidade e o reconhecimento do trabalho artístico apresentado. Com imagens disponibilizadas na internet e acesso facilitado a ferramentas de edição, os consumidores personalizam capas de disco e clipes musicais, apostando no humor e no compartilhamento de conteúdo em redes sociais. Tais produções apostam deliberadamente no potencial memético de difusão e participação, explorando não só a criatividade do artista, mas também a de seus fãs. A partir de uma pesquisa bibliográfica de caráter exploratório e buscando suporte teórico em autores com foco nos estudos acerca da internet e do consumo contemporâneo de conteúdo no ambiente virtual, nos propomos a discutir a configuração do meme no contexto cultural contemporâneo, sua capacidade de propagação na internet e como as novas formas de interação proporcionadas pela internet adquirem status criativo e expandem-se além de seu local de origem, impactando não só elementos de sociabilização e estética, mas também questões econômicas. Considerando a indústria musical com ênfase no gênero hip-hop, associamos a produção memética à cultura de convergência (JENKINS, 2009), observando a participação ativa do fã enquanto produtor de um conteúdo significativo, capaz de ressoar em artistas de alta popularidade e estimular novas formas de consumo de conteúdo estético e sonoro. Cultura do humor na internet Ainda que não esteja disponível para toda a população mundial, a internet congrega uma grande parte das pessoas em novos locus de sociabilidade. Desde o fim do século XX, observa-se o surgimento de espaços de relacionamento em ambientes virtuais onde é possível estabelecer relações sociais por meio de recursos mais apurados de interação, de compartilhamento de informações, de retroalimentação e de produção de conteúdo transmídia, caracterizados pela segmentação e pela personalização das mensagens. Lévy (2010) aponta a criação de comunidades virtuais como um dos princípios que sustentam esse ciberespaço, construídas sobre “[...] as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais” (LÉVY, 2010, p. 130). As comunidades virtuais, ou comunidades online, segundo Kozinets (2014), são espaços onde as pessoas se engajam, trocam conhecimentos, expressam seus sentimentos, valores e se socializam em torno de um objeto de interesse em comum do grupo. A 10

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) sociabilização respeita as regras e as normas dos ambientes virtuais e, em muitos casos, possuem suas próprias expressões linguísticas. Usado em seu sentido mais fundamental para referir-se a um grupo social de pessoas que compartilham de interação social, laços sociais e um formato, localização ou "espaço" interacional comum, ainda que nesse caso, um "ciberespaço" virtual ou mediado pelo computador. Também podemos identificar no termo comunidade a sugestão de algum senso de permanência ou contato repetido. Existe alguma interação social sustentada e, além disso, um senso de familiaridade entre os membros de uma comunidade (KOZINETS, 2014, p. 16-17). Verifica-se, em algumas dessas comunidades virtuais, a frequente utilização de construções discursivas específicas, numa aproximação ao que Martín-Barbero (2006, p. 75) chama de “gramática de construção dos novos relatos”, ao se referir aos novos tipos de textualidade dos meios eletrônicos, que reúnem texto, áudio e vídeo numa lógica difusa e não linear. [...] a visualidade eletrônica passou a fazer parte constitutiva da visibilidade cultural, essa que é ao mesmo tempo meio tecnológico e novo imaginário capaz de falar culturalmente – e não só de manipular tecnologicamente –, de abrir novos espaços e tempos para uma nova era do sensível (MARTÍNBARBERO, 2006, p. 74). Uma característica facilmente verificável em muitas dessas construções discursivas é a utilização do humor, da ironia e do sarcasmo, que tem definido um tipo específico de produto cultural das chamadas redes sociais: o digital trash. Fontanella (2009) define o digital trash como produções textuais e audiovisuais com estética intencionalmente tosca, produzidas, reproduzidas e compartilhadas pelas redes sociais. Parte-se aqui do princípio de que o digital trash possui uma textualidade específica, identificável pela valorização irônica daquilo que desafia determinadas hierarquias de qualidade técnica e estética culturalmente estabelecidos, o que é feito através da celebração do "lixo cultural" e do excesso audiovisual produzido tanto nos meios de comunicação de massa tradicionais como no caldo cultural que se desenvolve no ciberespaço (FONTANELLA, 2009, p. 3). Primo (2007) recomenda uma aproximação cuidadosa com o termo, no sentido de que trash não significa lixo, no sentido estrito da palavra (e, por isso, ruim). "Qualifica-se daquela forma produtos que compartilham de uma certa estética (muitas vezes grotesca) e abordagem 11

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) (sarcasmo, crítica, humor 'politicamente incorreto', etc.)" (PRIMO, 2007, p. 2). Entre os produtos do digital trash estão os spoofs (espécies de paródias audiovisuais), montagens, personagens fakes e os memes. Estes últimos, objeto do presente artigo, são textos, fotos e/ou vídeos com mensagens bem-humoradas que se disseminam – ou viralizam – pela internet. Atualmente, o meme é alvo de investigações científicas nas mais diversas áreas do conhecimento, como a Linguística, a Psicologia, a Filosofia e, como no nosso caso, a Comunicação. As abordagens também são as mais diversas, já tendo o meme sido estudado como fenômeno de comunicação (SOUZA, 2014), como gênero digital (GUERREIRO; SOARES, 2016), como linguagem, em uma perspectiva semiótica (HORTA, 2015), como gênero narrativo (VALE; MAIA; ESCALANTE, 2013), na perspectiva interacional da linguagem (BARRETO, 2015), entre outras. A despeito das variadas incursões acadêmicas ao tema, observam-se dois elementos de regularidade nesses estudos: primeiro, o afastamento à ideia original de meme como simples imitação de comportamentos, hábitos e práticas. Tal acepção remonta à criação da palavra meme pelo biólogo Richard Dawkins (2007), em sua teoria sobre o que chamou de evolução cultural, na obra O Gene Egoísta, de 1976. Segundo, a concordância de que o meme deve ser analisado em seu contexto social e cultural, como sendo detentor de valor discursivo e simbólico. É nessa perspectiva que Shifman (2014) caracteriza o meme como um discurso público construído socialmente. Ao invés de definir o meme como uma simples unidade cultural propagada de forma bem-sucedida, sugiro definir um meme de internet como (a) um grupo de itens digitais que compartilham características comuns de conteúdo, forma e/ou contexto; (b) que foram criados com conhecimento mútuo; e (c) que circularam, foram imitados e/ou transformados via internet por muitos usuários (SHIFMAN, 2014, p. 7-8, tradução nossa)6. Cabe ressaltar que o meme encontrou terreno fértil na era digital, pelas características próprias das redes sociais nas quais são criados e compartilhados. É nesse sentido que a referida autora considera que as novas tecnologias de comunicação instauraram uma lógica hipermemética. Entre as características que a internet potencializa para a difusão desses conteúdos estão a capacidade de propagação e compartilhamento e a reprodução por meio de cópias e imitações. 6 Instead of depicting the meme as a single cultural unit that has propagated successfully, I suggest defining an Internet meme as (a) a group of digital items sharing common characteristics of content, form, and/or stance; (b) that were created with awareness of each other; and (c) were circulated, imitated, and/or transformed via the Internet by many users. 12

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) Barros (2013) percorreu um caminho semelhante ao investigar as dimensões do humor na internet, embora a aproximação do autor com o tema tenha se dado a partir de entrevistas com os próprios usuários. Foram eles que apontaram as características que fazem com que as redes sociais sejam espaços propícios para a configuração de um tipo específico de humor, a saber: facilidade de acesso, rapidez, construção democrática, flexibilidade e inovação, liberdade de expressão, diversificação e dedicação, público-alvo, interatividade e superação das fronteiras. Por fim, o humor característico das comunidades virtuais carrega de forma expressiva a marca daqueles que se situavam no polo da recepção nos esquemas tradicionais dos estudos da comunicação. Essa proliferação do meme como possibilidade de expressão do sujeito em uma organização social baseada em redes (CASTELLS, 2006) será melhor abordada no próximo tópico. O traço popular do meme Em seus estudos sobre a sociedade em rede, Castells (1999, 2006) analisa a nova estrutura social proporcionada pela tecnologia na denominada Era da Informação. Essa sociedade é definida como uma “[...] estrutura social baseada em redes operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microeletrônica e em redes digitais de computadores” (CASTELLS, 2006, p. 20). O autor discorre sobre a cultura da virtualidade real, em que as expressões culturais foram incluídas nas redes digitalizadas de comunicação e, assim, transformaram a virtualidade em uma dimensão fundamental de nossa realidade, e de uma auto-comunicação de massa, numa referência às redes horizontais de comunicação criadas pelos próprios usuários. É nesse espaço de comunicação e trocas simbólicas, definido por Lévy (2010) como ciberespaço7, que se disseminam os conteúdos característicos das redes sociais e das comunidades virtuais. Constata-se, portanto, que as plataformas digitais de comunicação permitem usos muito mais personalizados, autônomos e interativos, em que produção e recepção de informação não ocupam mais posições fixas e definidas no processo comunicacional. Primo (2007, p. 6) pontua que “[...] a micromídia digital borra a barreira 7 Pierre Lévy (2010), no seu livro Cibercultura, define de maneira objetiva os conceitos de ciberespaço e cibercultura. O primeiro termo, também chamado de rede, “[...] é o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores” (LÉVY, 2010, p. 17). O termo, segundo o autor, está relacionado à infraestrutura material em que se dá dessa interconexão e também às informações e aos seres humanos inseridos nesse universo. Já cibercultura é “[...] o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (LÉVY, 2010, p. 17). 13

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) tecnológica que distanciava a produção institucionalizada daquela autônoma e até mesmo leiga”. Como também nota García-Canclini (1997, p. 4), cada vez mais os meios de comunicação perdem o protagonismo da “circulação massiva das mensagens”. A virada do século coincide com a passagem da comunicação centralizada, vertical e unidirecional (a “comunicação de massa”) às possibilidades trazidas pelo avanço técnico das telecomunicações, relativas à interatividade e ao multimidialismo, que reúnem num mesmo polo produção e consumo (SODRÉ, 1999, p. 21). Pelas características do humor em sua interface digital já delineadas no tópico anterior, é possível considerar o meme como expressão dos sujeitos situados no polo receptor do processo comunicacional, em contraponto ao polo de produção ocupado pelas tradicionais empresas da mídia. Indo além nessa interlocução da disseminação do traço popular do meme, Shifman (2014, p. 15, tradução nossa) considera que “[...] o meme de internet pode ser tratado como folclore (pós)moderno, em que normas e valores compartilhados são construídos por meio de artefatos culturais, como imagens de Photoshop ou lendas urbanas”8. A autora descreve três dimensões que contribuem para entender a lógica hipermemética contemporânea: lógica econômica, lógica social da participação e lógicas culturais e estéticas de participação. A primeira refere-se ao fato de que, na era da informação, o recurso mais valioso não é a informação em si, mas a atenção que as pessoas dispensam às informações. A segunda relaciona-se à marca contemporânea do individualismo em rede, ou seja, os indivíduos se expressando e delimitando identidades em comunidades virtuais. Já a terceira dimensão volta-se às práticas que envolvem os produtos culturais criados por esses indivíduos. “[...] práticas de recriação de vídeos e imagens tornam indefinidas as fronteiras entre atividades privadas e públicas, profissionais e amadoras, mercadológicas e não mercadológicas” (SHIFMAN, 2014, p. 34, tradução nossa)9. Para ilustrar essa característica hipermemética da comunicação mediada por computadores, com seus softwares e suas comunidades virtuais, o próximo tópico apresenta exemplos de como o meme é apropriado pelas grandes produtoras da indústria do hip-hop, seja por novos artistas como para os já consolidados, estimulando a participação e o engajamento dos fãs nas redes sociais, como método de promoção de seus materiais, em um sistema de compartilhamento predominantemente orgânico. 8 [...] Internet memes can be treated as (post)modern folklore, in which shared norms and values are constructed through cultural artifacts such as Photoshopped images or urban legends. 9 [...] practices of re-creating videos and images blur the lines between private an public, professional and amateur, market- and non-market-driven activities. 14

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