Indico N46

 

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Revista Indico N46

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ALTITUDE ALTITUDE STELLA MENDONÇA “É preciso pôr a arte ao serviço da sociedade” “We must place art at the service of society” PREMIUM PREMIUM BEIRA Um desafio à alma do viajante A challenge to the traveler’s soul RECOLHA PASSENGER PICK UP MATAGO “Flocos” à zambeziana Zambezian-Style “Flakes” REVISTA DE BORDO DA LAM LAM’S INFLIGHT MAGAZINE ESTE EXEMPLAR É SEU YOUR FREE COPY . NOV DEZ NOV DEC . SÉRIE IV . Nº 46 . 2017

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ÍNDICE CONTENTS ALTITUDE ALTITUDE STELLA MENDONÇA “É preciso pôr a arte ao serviço da sociedade” “We must place art at the service of society” PREMIUM PREMIUM BEIRA Um desafio à alma do viajante A challenge to the traveler’s soul RECOLHA PASSENGER PICK UP MATAGO “Flocos” à zambeziana Zambezian-Style “Flakes” REVISTA DE BORDO DA LAM LAM’S INFLIGHT MAGAZINE ESTE EXEMPLAR É SEU YOUR FREE COPY . NOV DEZ NOV DEC . SÉRIE IV . Nº 46 . 2017 CAPA [[COVER vasco célio 06 HORIZONTES HORIZONS 10 PREMIUM PREMIUM beira Um desafio à alma do viajante A challenge to the traveler’s soul 20 EVASÃO ESCAPE diamonds mequfi beach resort O encanto do silêncio The charm of silence 26 OUTRAS PARAGENS OTHER STOPS santiago Ilha misteriosa no Atlântico Mysterious Island in the Atlantic 34 GASTRONOMIA GASTRONOMY 50 CULTURA CULTURE 68 PRIMEIRA FILA FIRST ROW titos munhequete Cansado de filas… agora faz compras sem sair de casa Tired of queuing... he now shops from home 20 68 72 TERRA LAND Energias renováveis chegam às zonas rurais Renewable energy reaches rural areas 74 CLASSES CLASSES escola primária de supinho Devolver a esperança a um povoado supinho primary school Returning hope to a village 78 GPS GPS alumínio Uma liga, que liga o país aluminum An alloy that connects the country 82 opinião Inclusão Financeira em Moçambique opinion Financial Inclusion in Mozambique 84 ROLAR TAXIING 34 Entre rendas e capulanas Between lace and capulana 88 LOUNGE LOUNGE mia couto convida… Melita Matsinhe mia couto invites... Melita Matsinhe 91 MUNDO LAM LAM’S WORLD PROPRIEDADE [[PUBLISHER LAM - Linhas Aéreas de Moçambique SA; www.lam.co.mz; www.facebook.com/VOELAMM; Call Center: +258 21 468 800 Série [[Series IV, nº 46 CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA LAM [[ LAM’S BOARD OF DIRECTORS Dr. António Pinto de Abreu (Presidente do Conselho de Administração Chairman of the Board) Dr. António Pinto (Presidente da Comissão Executiva Chief Executive Officer) Dr. Hélder Júlio da Silva Fumo (Administrador do Pelouro Financeiro Chief Financial Officer) Eng.º Carlos Vasco Sitoe (Administrador do Pelouro Técnico Operacional Chief Technical & Operational Officer) Eng.º Faizal Abdulgafar Sacugy (Administrador do Pelouro Comercial e Sistemas de Informação Chief Commercial and Information Technology Officer) Prof. Dr. Manuel Renato Matusse (Administrador Não-Executivo Non-Executive Board Member) Dr. Paulo Guilherme Mingot Negrão (Administrador Não-Executivo Non-Executive Board Member) EDITOR EXECUTIVO [[EXECUTIVE EDITOR Frederico Jamisse COLABORADORES [[ CONTRIBUTORS Adelino Timóteo; Amâncio Miguel; Alda Costa; Cristina Freire; Custódio Mugabe; Francisco Manjate; Francisco Noa; Gil Filipe; Guilherme Mussane; José Machicane; Jorge Ferrão; Kaysa Johnsson; Laurindos Macuácua; Luís Loforte; Madyo Couto; Mia Couto; Magda Arvelos; Paola Rolletta; Pedro Cativelos; Rui Trindade; Sangare Okapi; Sónia Sultuane; Susana Gonçalves e Ungulani Ba Ka Khosa FOTÓGRAFOS [[ PHOTOGRAPHERS Alexandre Marques; Acamo Maquinasse; Benoit Marquet; Chico Carneiro; Dudu Mogne; Filipe Branquinho; Jay Garrido; João Costa (Funcho); Koos van der Lende; Mauro Pinto; Madyo Couto; Mário Macilau; Mauro Vombe; Ouri Pota; Pedro Sá da Bandeira; Piotr Naskrecki; Ricardo Franco; Ricardo Pinto Jorge; Ricardo Rangel; Tito Calado; Tomás Cumbana; Vasco Célio e Yassmin Forte TRADUÇÃO [[TRANSLATION David Miranda, Pangeia - Serviços de Tradução DESIGN Executive Moçambique PRODUÇÃO GRÁFICA [[GRAPHIC PRODUCTION Iona - Comunicação e Marketing, Lda (Grupo Executive) PUBLICIDADE [[ ADVERTISING Departamento Comercial [[Commercial Department Ana Antunes (Moçambique Mozambique) ana.antunes@executive-mozambique.com; iona@iona.pt/contacto@iona.pt (Portugal) ADMINISTRAÇÃO, REDACÇÃO E PUBLICIDADE [[ADMINISTRATION, EDITION AND ADVERTISING Executive Moçambique; Rua do Telégrafo, nº 109 – Sala 6, Bairro Polana Cimento, Maputo – Moçambique; Tel.: +258 21 485 652; Telm.: +258 84 311 9150; geral@executive-mozambique.com DELEGAÇÃO EM LISBOA [[LISBON OFFICE Rua Filipe Folque, nº 10 J – 2º drtº, 1050-113 Lisboa; Tel.: +351 213 813 566; Fax: +351 213 813 569; iona@iona.pt IMPRESSÃO E ACABAMENTO [[PRINTING AND FINISHING MINERVA PRINT - MAPUTO - MOÇAMBIQUE Maputo - Mozambique TIRAGEM [[PRINT RUN: 15.000 exemplares 15.000 copies NÚMERO DE REGISTO [[REGISTRATION NUMBER: 08/GABINFO-DEC/2006 3

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EDITORIAL EDITORIAL Estimado Cliente Amigo, Bem-vindo a bordo da LAM, a Companhia Moçambicana! Dear Customer and Friend, Welcome aboard LAM, the Mozambican Company! O ano que termina é de marco importante na nova trajectória desta sua e nossa LAM, no que tange à optimização de serviços. A recente renovação do Certificado IOSA – IATA Operational Safety Audit, com efectividade até Outubro de 2019, após excelentes resultados obtidos na auditoria para o efeito, é o corolário de esforços redobrados para o aprimoramento e garantia dos padrões de segurança da nossa operação. Esta recertificação é a quinta consecutiva, depois de outras obtidas em 2015, 2013, 2011 e 2009, logo após a primeira certificação em 2007. Este feito demonstra o compromisso da LAM, enquanto companhia aérea e veículo da Unidade Nacional, de estar em conformidade com os padrões internacionais e alinhada com as entidades e autoridades nacionais, tendo sido, por isso, parte activa do processo de recredibilização do sistema nacional de aviação que este ano reconquistou o prestígio com a remoção de restrições das companhias aéreas nacionais de sobrevoar o espaço aéreo europeu. Estes resultados servem-nos de incentivo, bem como nos desafiam a tornar bem mais célere a implementação do processo de revitalização da empresa, na base do qual está em curso a reorientação dos focos de actuação que constarão do novo Plano Estratégico da Empresa, já em elaboração. Iniciamos, assim, uma nova etapa visando tornar a LAM mais dinâmica, moderna e preparada para um mercado competitivo onde as sugestões e contribuições dos nossos clientes e parceiros são vitais para que juntos continuemos a construir um Moçambique próspero. The year that ends is an important milestone in the new trajectory of your and our LAM, regarding the optimization of services. The recent renewal of the IOSA Certificate - IATA Operational Safety Audit, effective up to October 2019, after excellent audit results, is the corollary of increased efforts to improve and guarantee the safety standards of our operation. This recertification is the fifth consecutive one, after others obtained in 2015, 2013, 2011 and 2009, soon after the first certification in 2007. This achievement demonstrates LAM’s commitment, as an airline and vehicle of National Unity, to comply with international standards and align with national entities and authorities, and has therefore been an active part of regaining credibility for the national aviation system, which this year regained prestige by witnessing the national airlines being once again permitted to fly over European airspace. These results serve as an incentive, as well as challenge us to make the implementation of the company’s revitalization process much quicker, on which the reorientation of the focus of action stands, which will be included in the new Company’s Strategic Plan, already underway. We have thus begun a new phase to make LAM more dynamic, modern and prepared for a competitive market where the suggestions and contributions of our clients and partners are vital, so that together we can continue to build a prosperous Mozambique. Votos de bom fim de ano e festas felizes! We wish a Happy New Year and happy holidays! 5 EDITORIAL EDITORIAL ANTÓNIO PINTO PRESIDENTE DA COMISSÃO EXECUTIVA DA LAM LAM’S CHIEF EXECUTIVE OFFICER

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ÍNDICO NOV. DEZ NOV. DEC JOÃO COSTA EXPÕE FOTOGRAFIA EM NAMPULA JOÃO COSTA EXHIBITS PHOTOGRAPHY IN NAMPULA “Wamphula” é como se denomina a mostra de fotografia de João Costa (Funcho), patente desde Outubro no Museu Etnográfico de Nampula. A exibição do trabalho do fotógrafo moçambicano resulta da parceria entre a Associação Kulunguana e a Universidade do Lúrio (UNILÙRIO), em Nampula. Wamphula is the title of the photo exhibition by João Costa (Funcho), helds since October at the Ethnographic Museum of Nampula. The exhibition of the Mozambican photographer’s work is the result of a partnership between the Kulunguana Association and the University of Lúrio (UNILÚRIO), in Nampula. “MTOTO” RETRATA DEZ ANOS DE LUTA ARMADA EM LIVRO “MTOTO” PORTRAYS TEN YEARS OF ARMED Eduardo da Silva Nihia, Major General na reserva, lançou no passado mês de Setembro, o livro “Mtoto: Combatente pela liberdade”. A obra de Eduardo Nihia narra o percurso histórico dos dez anos da luta de libertação nacional. A infância do autor, o ingresso na Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e a guerra são alguns dos temas abordados. Eduardo da Silva Nihia, Major General in the reserve, published last September the book Mtoto: Combatente pela Liberdade (“Mtoto: Freedom Fighter”). Eduardo Nihia’s work narrates the historical course of the ten years of the national liberation struggle. The author’s childhood, joining the Liberation Front of Mozambique (FRELIMO) and the war are some of the topics addressed. FILME DE LICÍNIO DE AZEVEDO PREMIADO LICÍNIO DE AZEVEDO MOVIE GETS AWARDS “Melhor Realizador” e “Melhor Guião” são os prémios conquistados pelo realizador moçambicano Licínio de Azevedo com o filme “Comboio de sal e açúcar”. Os prémios foram atribuídos recentemente da 40ª edição do Festival de Cinema Africano de Khoribga, decorrido em Marrocos. “Comboio de sal e açúcar” já tinha ganho outros prémios anteriormente: “Melhor Realizador”, no 38º Festival Internacional de Cinema do Cairo e “Melhor Longa-Metragem”, no Festival de Cinema de Joanesburgo. Melanie de Vales Rafael e Matamba Joaquim são os principais actores de “Comboio de sal e açúcar” que pode ser o primeiro filme moçambicano a representar o país na próxima edição dos mais aclamados prémios de cinema do mundo – os Óscares. A Ukbar Films anuncia que é a primeira vez que um filme moçambicano se candidata à Academia de Cinema e Ciência das Artes dos Estados Unidos da América, para o prémio de “Melhor Filme Estrangeiro”. “Best Director” and “Best Screenplay” are the awards won by the Mozambican director Licínio de Azevedo with the movie Comboio de Sal e Açúcar (“Train of Salt and Sugar”). The prizes were awarded recently at the 40th edition of the African Film Festival of Khoribga, held in Morocco. “Train of Salt and Sugar” had won other prizes previously: “Best Director” at the 38th Cairo International Film Festival and “Best Feature Film” at the Johannesburg Film Festival. Melanie de Vales Rafael and Matamba Joaquim are the main actors in “Train of Salt and Sugar”, which may be the first Mozambican film to represent the country in the next edition of the most acclaimed film awards in the world - the Oscars. Ukbar Films announced that it is the first time a Mozambican movie has applied to the Academy of Motion Picture Arts and Sciences of the United States of America, for the Best Foreign Film award.

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ÍNDICO NOV. DEZ NOV. DEC ARTISTAS CANTAM PELA PAZ ARTISTS SING FOR PEACE MATOLA ACOLHE FESTIVAL LITERATAS MATOLA HOSTS LITERATAS FESTIVAL O Auditório Municipal Carlos Tembe, na cidade da Matola, foi o palco escolhido para acolher, em Outubro, a terceira edição do Festival de Literatura e Artes - Literatas. Organizado por jovens escritores, o festival Literatas inclui na agenda espectáculos de música, teatro, dança, declamação de poesia, conversa com escritores, exibição de filmes, oficinas de leitura e feiras de livro, disco e gastronomia, reunindo artistas de Moçambique, Angola, Brasil e Portugal. The Carlos Tembe Municipal Auditorium, in the city of Matola, was the stage chosen to host in October the third edition of Literature and Art Festival - Literatas. Organized by young writers, the Literatas Festival includes music, theater, dance, poetry recitals, conversation with writers, movie projections, reading workshops, and book, music record and gastronomy fairs, bringing together artists from Mozambique, Angola, Brazil and Portugal. “Artistas Unidos Rumo à Paz Efectiva” é o mote de uma tournée pelo país que junta vários artistas moçambicanos. A iniciativa partiu da Fundação MASC em parceira com o Ministério da Cultura e Turismo e com a organização comunitária ESTAMOS e reúne as bandas Massukos – que teve a ideia de organizar este evento – e Kakana; os músicos Kaliza, Roberto Isaías, Anita Macuácua e Ghorwane; e o poeta Alvim Cossa. A caravana artística passará pela Gorongosa, em Sofala; por Lichinga, em Niassa; e pela cidade de Maputo, capital do país. “United Artists Toward Effective Peace” is the motto of a country tour that brings together several Mozambican artists. The initiative started with the MASC Foundation, in partnership with the Ministry of Culture and Tourism, and with the community organization ESTAMOS and brings together the bands Massukos - who had the idea to organize this event - and Kakana; the musicians Kaliza, Roberto Isaías, Anita Macuácua and Ghorwane; and the poet Alvim Cossa. The artistic caravan will pass through Gorongosa, in Sofala; Lichinga in Niassa; and the city of Maputo, the country’s capital. A iniciativa partiu da Fundação MASC em parceira com o Ministério da Cultura e Turismo e com a organização comunitária ESTAMOS. The initiative started with the MASC Foundation, in partnership with the Ministry of Culture and Tourism, and with the community organization ESTAMOS FEIRA PROMOVE INHAMBANE FAIR PROMOTES INHAMBANE “Yagaya” (coisas da casa) é o tema da feira programada para ter lugar entre os dias 22 de Novembro e 23 de Dezembro, na Praça da Marinha, em Inhambane. O evento tem como finalidade promover as potencialidades da província de Inhambane e tem a participação de artistas e associações culturais da província. Yagaya (house things) is the theme of the fair scheduled to take place between 22 November and 22 December, at the Praça da Marinha, in Inhambane. The event aims to promote the province of Inhambane’s potential and presents artists and cultural associations from the province. 8

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ÍNDICO NOV. DEZ NOV. DEC BEIRA UM DESAFIO À ALMA DO VIAJANTE A CHALLENGE TO THE TRAVELER’S SOUL TEXTO TEXT: RUI TRINDADE FOTO PHOTO: VASCO CÉLIO 10

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PREMIUM PREMIUM 11

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ÍNDICO NOV. DEZ NOV. DEC Numa obra publicada já depois da sua morte, intitulada “Anatomia da Errância”, Bruce Chatwin, cujos livros inauguraram (ou re-actualizaram?) todo um género literário no qual a “viagem” se apresenta como contraponto e negação do “turismo”, como que sintetiza, a posteriori, aquilo que na sua perspectiva define a “alma do viajante” e que constitui, a bem dizer, o seu “projecto de vida” (expresso em livros célebres como “Na Patagónia” ou “O Vice Rei de Ajudá”). Ao contrário do “turista”, preso a itinerários pré-definidos, dependente de limites temporais rigorosamente estabelecidos e coleccionador compulsivo de registos que “fixem”, para memória futura, a efemeridade da sua passagem pelo mundo, o “viajante” reencarna a figura do nómada que, pela sua abertura à errância, ao acaso dos encontros, a uma constante disponibilidade para a escuta do “Outro” e uma insaciável curiosidade pelo mistério que cada lugar ou indivíduo comporta, transforma a viagem numa descoberta, sem fim, da essência do mundo e num desvendamento de si. A cidade da Beira é um daqueles casos em que o apelo à nossa “alma de viajante” se torna indispensável. Não que seja desprovida de “interesse turístico”, bem pelo contrário. Mas uma excessiva “pulsão turística” arrisca-se, muito provavelmente, a deixar o visitante preso a sentimentos contraditórios e impressões equívocas porque esta é uma cidade que desafia a um desvendamento paciente. Uma deambulação apressada impedirá esse trabalho de escuta – das gentes, das ruas, dos espaços – que a cidade exige e merece. Na verdade, a cidade impõe-nos uma “arqueologia do olhar”, isto é, que não nos atenhamos distraidamente pela superfície do que nos é dado a ver mas convoquemos antecipadamente tudo aquilo que nos pode ajudar a “ler” a sua história. A começar pelo incontornável texto de Ilídio do Amaral – “Beira, Cidade e Porto do Índico” –, através do qual não aprendemos apenas como a cidade da Beira nasceu de uma expedição militar portuguesa saída de Chiloane, composta por cerca de 30 soldados e 10 operários, embarcados em quatro lanchas, e que aportaram na Ponta Chiveve, a 19 de Agosto de 1887, e “aí instalaram, no dia seguinte, o Posto de Aruângua, num lodaçal e língua de areia de cotas muito baixas e de contornos constantemente modificados pelas marés, na foz dos rios Púngué e Búzi…” e que “...assim principiou a nova povoação, baptizada com o nome de Beira, em homenagem ao Príncipe D. Luís Filipe, nascido nesse ano”. Aprendemos também, de forma detalhada e minuciosa, como esta cidade se ergue em permanente desafio com uma Natureza difícil e se constrói e reconstrói, ao longo do tempo, presa de um incessante e complexo jogo em que a sua geografia é refém de interacções históricas, sociais e económicas que se In a book published after his death entitled Anatomy of Restlessness, Bruce Chatwin, whose books inaugurated (or re-updated?) a literary genre in which “travel” presents itself as a counterpoint and denial of “tourism”, synthesizes what he defines in his perspective as the “traveler’s soul” and which is, in fact, his “life project” (expressed in famous books such as In Patagonia or The Viceroy of Ouidah). Unlike the “tourist”, trapped in predetermined itineraries, dependent on strictly established time limits and a compulsive collector of records that “set in stone” for future memory the ephemerality of his passage through the world, the “traveler” reincarnates the figure of the nomad who, by his openness to wandering, to the chance of encounters, to a constant willingness to listen to the “Other”, and an insatiable curiosity for the mystery that each place or individual entails, transforms the journey into an endless discovery of the essence of the world and his own unraveling. The city of Beira is one of those cases in which appealing to our “traveler’s soul” becomes indispensable. Not that it is devoid of “touristic interest”. Quite the contrary. But an excessive “touristic drive” is most likely to leave the visitor stuck with mixed feelings and misleading impressions, because this is a city that defies a patient unraveling. A hurried wandering will prevent this work of listening - to the people, to the streets, to the spaces - that the city demands and deserves. In fact, the city imposes on us an “archeology of gazing”, that is, that we do not distractedly stare at the surface of what we are allowed to see, but summon in advance all that can help us “read” its history. Starting with the inevitable text by Ilídio do Amaral - Beira, Cidade e Porto do Índico - through which we do not only learn how the city of Beira was born from a Portuguese military expedition leaving Chiloane, composed of around 30 soldiers and 10 workers , embarked on four small boats, and who they landed on Ponta Chiveve on 19 August, 1887, and “there established the Aruângua Post the following day, in a low mud and sand stretch of very, with outlines constantly modified by the tides, at the mouths of the Púngué and Búzi rivers...“ but that “...so began the new settlement, named Beira, in honor of Prince D. Luís Filipe, born that year”. We also learn, in a detailed and meticulous way, how this city rises in permanent challenge with a difficult nature and builds and rebuilds itself, over time, prey to an incessant and complex game in which its geography is hostage of historical, social and economic interactions that move far beyond its borders. There is, therefore, the need “to construct a gaze” to be able to cross the several sediments of which this centenary urban fabric is composed Aprendemos também, de forma detalhada e minuciosa, como esta cidade se ergue em permanente desafio com uma Natureza difícil. We also learn, in a detailed and meticulous way, how this city rises in permanent challenge with a difficult nature. 12

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ÍNDICO NOV. DEZ NOV. DEC movimentam muito para além das suas fronteiras. Há, portanto, que “construir um olhar” para poder atravessar os diversos sedimentos de que se compõe este centenário tecido urbano. Mesmo se a deambulação “turística” se faz em mera obediência a um itinerário pré-determinado por “sugestões” avulsas do que é suposto ver, existe hoje toda uma literatura disponível que, se há também no visitante, mesmo de forma subtil ou apenas em potência, essa “alma de viajante”, convirá previamente consultar. É algo que se torna particularmente evidente quando o visitante se confronta com o património arquitectónico da cidade. Uma rápida e incompleta resenha do que, desde o ano 2000, se tem vindo a publicar, é suficiente para perceber porque obras como “Geração Africana. Arquitectura e Cidades em Angola e Moçambique”, de José Manuel Fernandes, “Moderno Tropical: A Arquitectura Portuguesa em Angola e Moçambique”, de Ana Magalhães, o mais recente “Modern of. Even if the “touristic” wandering is done in mere obedience to an itinerary predetermined by “suggestions” that are separate from what he is supposed to see, there is today a vast amount of literature available which, if this “traveler’s soul” is also present in the visitor, even subtly or only as potential, should be consulted in advance. It is something that becomes particularly evident when the visitor is confronted with the city’s architectural heritage. A quick and incomplete review of what has been published since the year 2000 is enough to see why such works as African Generation. Arquitectura e Cidades em Angola e Moçambique, by José Manuel Fernandes, Moderno Tropical: A Arquitectura Portuguesa em Angola e Moçambique, by Ana Magalhães, the more recent Modern Architecture in Africa: Angola and Mozambique, edited by Ana Tostões or articles such as Beira, uma paisagem modernista na África Tropical by Mário Gonçalves Fernandes, Rui Há ainda que visitar, sem sombra de dúvida, a Igreja Catedral de Nossa Senhora do Rosário, erguida no local onde existiu o primeiro cemitério da Beira. One must also visit, without a doubt, the Cathedral Church of Nossa Senhora do Rosário, erected in the place where Beira’s first cemetery once was. Architecture in Africa: Angola and Mozambique”, editado por Ana Tostões, ou artigos como “Beira, uma paisagem modernista na África Tropical”, de Mário Gonçalves Fernandes, Rui Passos Mealha e Rui Paes Mendes, podem servir de utilíssimos guias para compreender a natureza de edifícios icónicos da cidade, como a Estação dos Caminhos-de-ferro, o Grande Hotel da Beira, o actual Palácio dos Casamentos, a Casa dos Bicos ou, num outro plano, a Igreja da Manga, que se filiam no Movimento Moderno (de matriz brasileira) que marcou a arquitectura das décadas de 50 e 60 do século XX. Passos Mealha and Rui Paes Mendes, may serve as useful guides to understand the nature of iconic buildings in the city, such as the Railway Station, the Grande Hotel da Beira, the current Palácio dos Casamentos, the Casa dos Bicos or, on another level, the Manga Church, which are part of the Modern Movement (with a Brazilian background) that established the architecture of the 50s and 60s. 14

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