Anais SEMIC - Cidadania 2017

 

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Anais do Seminário de Mídia e Cidadania realizado pela Faculdade de Informação e Comunicação UFG em 2017.

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ISSN:2318-4876 Anaisdo XISemináriode MídiaeCidadania 2017 Organizadores SuelyGomes AndréaSantos MayllonOliveira Realização

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Realização ProgramadePós-Graduação em ComunicaçãoFIC/UFG OrganizadoresdoEvento SuelyGomes AndréaPereira MayllonOliveira CorpoDiscentePPGCOM FIC/UFG ComitêCientífico Dra.AdrianaRosaCruzSantos Dr.AlexandreTadeudosSantos Dra.AnaCarolinaRochaPessôaTemer Dra.AndréaPereiradosSantos Dra.ÂngelaTeixeiradeMoraes Dra.CiciliaM KPeruzzo Dr.ClaudomilsonFernandesBraga Dr.DaltonLopesMartins Dr.FranciscoAssis Dr.GoiaméricoFelicioCarneirodosSantos Dr.JoãodeMeloMaricato Dra.KelleyCristineGonçalvesDiasGasque Dra.LucienedeOliveiraDias Dr.LuizAntonioSignatesFreitas Dr.MagnoLuizMedeirosdaSilva Dra.MarciaTondato Dra.MarlidosSantos Dra.MariaFranciscaMagalhãesNogueira Dra.MariaLuizaMartinsdeMendonça Dra.MônicaRodriguesNunes Dra.NéliaRodriguesDelBianco Dr.RicardoPavan Dra.RosanaMariaRibeiroBorges Dra.SimoneAntoniaciTuzzo Dra.SuelyHenriquedeAquinoGomes Dr.TiagoMainieriOliveira Dra.ValquíriaAparecidaPassosKneipp

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Anaisdo XISemináriode MídiaeCidadania Outubrode2017 Goiânia-GO ISSN:2318-4876

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PPGCOM FIC/UFG Qualquerpartedessapublicaçãopodeserreproduzida,desde quecitadaafonte.Todososdireitosdestaediçãosãoreservados aoProgramadePós-Graduaçãoem ComunicaçãodaFaculdade deComunicaçãoeInformaçãodaUniversidadeFederalde Goiás. Disponíveltambém em:http://ficufg.blog.br/semic. PPGCOM FIC/UFG UniversidadeFederaldeGoiás-CampusSamambaia FaculdadedeInformaçãoeComunicação-RuaSamambaia ProgramadePós-Graduaçãoem Comunicação-Sala16 CaixaPostal131-CEP:74001-970.Goiânia-GO Telefone:(62)3521-1514 ppgcom.fic@ufg.br Editoração,formataçãoepreparaçãodosoriginais: MayllonOliveiraeStephanieSilvaJustino DADOSINTERNACIONAISDECATALOGAÇAO NAPUBLICAÇÃO (CIP) Responsável:FilipeReis

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SUMÁRIO Apresentação....................................................................................................................... 06 Cidadania, direitos humanos e conflitualidades .................................................... 09 Comunicação governamental e desenvolvimento: uma análise da divulgação do Programa Estadual de Economia Solidária do Governo de Goiás............................................................ 09 Caso Maju Coutinho: uma análise dos modos de dominação cultural e racial em matérias jornalísticas e seus comentários na internet ............................................................................. 22 Comunicação popular e representações sociais: o grafite como ferramenta de comunicação da juventude goianiense ................................................................................................................ 38 Inclusão social e diversidade: ética e direitos humanos na produção publicitária ................... 54 Notícias de violência e limitações da mobilidade urbana das mulheres .................................. 70 Análise de um discurso contraditório: a escravidão e a liberdade retratadas n’A Matutina Meiapontense ........................................................................................................................... 82 Os Movimentos Sociais e a Comunicação orientada para a mobilização e a participação popular...................................................................................................................................... 92 O Sarcasmo: análise categorial do diálogo virtual acerca da prática social da intolerância religiosa identificada em uma ação judicial de 2014 ............................................................. 107 Jornalismo e Cidadania ................................................................................................ 121 O jornalismo de serviço na programação da Rádio Brasil Central: análise do programa Goiás Caboclo...... ............................................................................................................................ 121 O Jornalismo Científico na Folha de São Paulo: Uma análise de julho a setembro de 2016...135 Preconceito nas quatro linhas: critérios de noticiabilidade e homofobia nas notícias esportivas............................................................................................................................ ....149 A liminar de reorientação sexual: uma análise ética e jurídica das manchetes jornalísticas online...................................................................................................................................... 164 Sangue no clique: o apelo à violência no jornalismo on-line................................................. 174 Uma reflexão sobre comunicação e cidadania na atualidade: notas sobre o jornalismo e seu papel mediador no contexto de uma sociedade midiatizada .................................................. 187

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Cidadania e Leitura Crítica da Mídia ..................................................................... 202 Discurso e poder na campanha “Agro: a indústria-riqueza do Brasil” .................................. 202 Skolors: da loira gostosa às cores do Brasil ........................................................................... 217 O movimento social de resistência da pessoa negra .............................................................. 230 Jornalismo: substantivo masculino ........................................................................................ 246 Comunicação, Interesse Público e Tecnologias .................................................... 262 A Comunicação Pública nos sites das instituições federais de ensino superior no estado de Goiás ...................................................................................................................................... 262 Reflexões sobre a comunicação e a internet........................................................................... 278 #AmazôniaFica no contexto do #ForaTemer: Circulação do nacionalismo na rede.............. 293 Coletivos em rede, net-ativismo e corrupção no Brasil: sobre discursos, insurreições e controvérsias entre 2014 e 2017............................................................................................. 308 A prática da comunicação pública na internet: uma análise sobre as publicações do Portal da EBC ........................................................................................................................................ 324 Mineração de Opiniões no YouTube: um estudo sobre descoberta de conhecimento em comentários de vídeos ............................................................................................................ 340 Cesto Orgânico: Um projeto piloto na web que aproxima produtores e consumidores de orgânicos ................................................................................................................................ 352

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APRESENTAÇÃO Prof.Dra. Suely Gomes O projeto da Ciência Moderna envolveu a estruturação de um complexo sistema de comunicação científica que compreende canais, mecanismos de acesso à informação e o contexto social em que aquela ocorre. A Ciência da Informação tradicionalmente classifica os canais de comunicação científica em três domínios que interagem numa espécie de gradação do estágio da produção do conhecimento científico: informal, semiformal e formal. Sem nos delongarmos nas especificações e características inerente a cada um desses domínios, no momento nos contentamos em dizer que os canais formais veiculam informações já em um estágio avançado de produção e incluem publicações de livros, artigos em periódicos, obras de referência e artigos da literatura; os canais informais compreendem os contatos realizados entre pessoas envolvendo a troca de experiências por meio de reuniões, treinamentos, contatos interpessoais e visitas; já os canais semiformais são caracterizados pelo uso simultâneo dos canais formais e informais e aqui se incluem os eventos científicos. Cada domínio é caracterizado por diferentes comportamentos, contextos, públicos, objetivos, mecanismos, atores envolvidos e estágio na produção do conhecimento científico. E, antes de serem excludentes e autônomos, são complementares. Sobre os canais semiformais, Mueller (200X, sp.) afirma que, “por ocasião da realização de eventos como congressos ou seminários, ou quando se reúnem em bancas de avaliação de teses e dissertações e de concursos docentes” é quando a troca de ideias se dá de forma mais intensa e se obtém as informações mais atuais, muitas ainda no campo das intenções. Nessa perspectiva, manter os eventos como instância de diálogo e de trocas é parte fundamental do fazer científico; enriquecedor não só para os pesquisadores de longa data, mas também para aqueles que estão iniciando no campo. É um momento inspirador e de intensidade criadora. E essa é a compreensão que nos motivou a, mais uma vez, organizar o XI Seminário de Mídia e Cidadania que teve como tema central de suas mesas principais para esse ano A sociedade midiatizada: disputas, conflitos e controvérsias.   6  

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É um convite provocador para que lancemos um olhar sobre a sociedade contemporânea na esperança de que o mesmo desvele os diversificados campos de tensionamentos e disputas, tanto na perspectiva macro (nações, governos, política) quanto na escala micro (sujeitos, identidades, grupos minoritários) que permeiam nossas relações. Mesmo não sendo um fenômeno novo ou exclusivo do nosso tempo, o processo de midiatização da sociedade traz novas dinâmicas, matizes e visibilidades às disputas entre nações, grupos sociais e indivíduos. O destaque é que essa conjuntura reverbera nas esferas da cidadania e da cultura, uma vez que a intensificação do processo de midiatização reconfigura as bases da vida social e está presente nas rotinas de praticamente toda a sociedade, seja na política, família, trabalho, religião. As disputas, acreditamos, estão na base dos conflitos, violências (físicas e/ou simbólicas) e controvérsias – são nessas instâncias que a vida coletiva se complexifica, seu aspecto plural fica mais evidente, “onde alianças e oposição se transformam de forma irresponsável; onde nada é tão simples como parece; onde todos estão gritando e brigando; onde os conflitos crescem mais severos” (VENTURINI, 2010, p. 262). Todas as dimensões sociais e culturais da vida se transmutam e se redimensionam na medida em que há agenciamentos entre a sociedade com os novos “mídia”. O redirecionamento se dá no sentido de não só a sociedade midiatizada lançar luz em determinados campos e obscuridade a outros, mas principalmente pela intensificação dessa luz que, em muitos casos, leva ao ofuscamento de questões primordiais e prioritárias para o nosso desenvolvimento como seres humanos. Enxergar o que está invisível norteou o tom da nossa conversa durante o evento que agregou contribuições de diversos autores em quatro Grupos de Trabalhos (GTs) e também nas outras atividades realizadas nos dias 19 e 20 de outubro de 2017 na Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) na Universidade Federal de Goiás (UFG). Esperamos que os trabalhos disponibilizadas no presente anais do evento sejam inspiradores e que a leitura seja profícua. São os desejos dos organizadores do evento e dos anais.   7  

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XISemináriodeMídiaeCidadnia ProgramadePós-Graduaçãoem Comunicação-PPGCOM FaculdadedeInformaçãoeComunicaçao-UFG Cidadania, DireitosHumanos eConflitualidades Coordenação MagnoMedeiros LucienedeOliveiraDias

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) Comunicação governamental e desenvolvimento: uma análise da divulgação do Programa Estadual de Economia Solidária do Governo de Goiás Edson Francisco LEITE JUNIOR1; Magno MEDEIROS2 Universidade Federal de Goiás, Goiânia, Goiás Resumo A ideia deste artigo é discutir o conceito de economia solidária e de que forma o Governo de Goiás tem se apropriado dele não apenas enquanto política pública, mas também no âmbito da comunicação governamental, que é um dos sistemas da comunicação pública (WEBER, 2017). Originalmente, a conceituação feita por Paul Singer (2002) de economia solidária propõe que a solidariedade deve tomar o lugar da competitividade na sociedade com o objetivo de emancipação do ser humano na busca por subsistência e atendimento de suas necessidades básicas. Nessa perspectiva, a economia solidária surge, então, como uma alternativa de desenvolvimento baseada na resistência dos trabalhadores por meio da cooperação. No entanto, no Programa Estadual de Economia Solidária (Ecosol-GO), lançado pela Secretaria Cidadã em junho de 2017, o conceito é apresentado como alternativa inovadora de fomento ao desenvolvimento regional. Assim, utilizando a análise de discurso como metodologia (ORLANDI, 2007), o objetivo é identificar de que forma o programa goiano se distancia do conceito original de economia solidária ao cruzar duas formações discursivas antagônicas: competitividade e solidariedade. O resultado encontrado é que a deturpação do conceito original acaba por desinformar a sociedade e faz com que a comunicação governamental se distancie dos princípios da comunicação pública, um dos principais parâmetros de avaliação de uma democracia. Palavras-chave: comunicação pública, economia solidária; desenvolvimento; política pública. Introdução Primeiramente, comunicação pública não pode ser confundida com comunicação governamental. Apesar de serem dois conceitos intimamente ligados, o conceito de comunicação pública é muito mais abrangente que apenas a questão governamental. “Há visões mais abrangentes e inclusivas, que permitem reconhecer a prática também em iniciativas fora do Estado” (LUZ, 2017, p. 424). Para Maria Helena Weber (2017), a comunicação pública pode ser compreendida como a capacidade de fazer circular opiniões e movimentos em torno de temas vitais ao indivíduo, à sociedade, ao Estado e à política. No entanto, tanto a apropriação do termo 1 Mestrando em Comunicação da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da UFG. E-mail: edsonleitejr@gmail.com 2 Doutor em Educação em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do quadro permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos, ambos da Universidade Federal de Goiás (UFG). E-mail: magno.ufg@gmail.com 9

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) quanto seus usos, “privilegiam a comunicação das instituições públicas que no modo simplificador, são públicas enquanto democráticas” (WEBER, 2017, p. 25). Uma vez que o ideal democrático, na sociedade contemporânea, tem sido, cada vez mais, substituído pela ordem pragmática de embasar um governo para todos em parâmetros meramente econômicos, “a associação sumária do conceito público às instituições do estado democrático pode mascarar e subverter ações de interesse privado” (WEBER, 2017, p. 26). De fato, na sociedade contemporânea, tem se tornado cada dia mais difícil definir os limites entre o público e o privado. E é justamente nesse aspecto que residem os limites da comunicação governamental, que ao mesmo em que é pública – de interesse público – também cumpre planos específicos de difusão de informações específicas da burocracia em defesa de projetos de um determinado governo. Mesmo assim, o conceito de comunicação pública é bem aplicado aos processos comunicacionais de todos os poderes estatais (executivo, legislativo e judiciário) justamente por se tratar um tipo de comunicação executado por instituições democráticas. Mas, vale lembrar, como alerta Weber (2017, p. 27), “a comunicação pública ainda está sendo construída e a sociedade ainda está num processo de aprendizagem sobre sua participação nas decisões de um Estado cada vez mais impermeável, mais longínquo da perspectiva pública da comunicação”. Comunicação e democracia são conceitos da mesma natureza e a sua operação é da ordem da normatividade e da ética e incidem nos discursos, ações e estruturas planejadas em torno do interesse público defensável pelas instituições jurídicas, políticas, sociais e mediáticas, como princípio ou estratégia. A complexidade da sociedade contemporânea e os sofisticados dispositivos de informação e comunicação ampliaram significativamente o poder de visibilidade e publicidade do Estado, na mesma medida em que ampliaram a vigilância e a crítica da sociedade – organizada ou não -, e a atuação das mídias. (WEBER, 2017, p. 39) Nesse contexto, “governos têm investido de maneira crescente em estruturas sofisticadas de comunicação para dar visibilidade e permitir o acompanhamento e julgamento de suas ações” (LUZ, 2017, p. 426). Assim, podemos enquadrar a comunicação governamental como um dos vários sistemas da rede de comunicação pública, “que ao acionar suas estratégias de comunicação, visa conquistar uma opinião pública favorável aos governos que representam” (LUZ, 2017, p. 426). A comunicação pública é uma prática que qualifica os regimes democráticos. E em tempos de centralidade da comunicação nas relações sociais, esse 10

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) debate é essencial para o fortalecimento dos governos e da sociedade. Mais e melhores informações significa maior possibilidade de um debate público qualificado. E, nesse debate, a comunicação governamental desempenha papel essencial. (LUZ, 2017, p. 437) Como metodologia, este trabalho pretende realizar uma análise do discurso governamental sobre o lançamento do Programa Estadual de Economia Solidária (Ecosol – GO) pela Secretaria Cidadã do Estado de Goiás. Assim, como corpus de análise, este trabalho se debruça sobre o texto publicado no site da Secretaria Cidadã para divulgar o lançamento do Ecosol-GO. Mas ao optar por essa metodologia, sabemos que “a análise de discurso tem um procedimento que demanda um ir-e-vir constante entre teoria, consulta ao corpus e análise” (ORLANDI, 2007, p. 66). Assim, se faz necessário ainda, entender a fundo o conceito de economia solidária para então captar de que forma esse conceito está presente no discurso governamental. Assim, partindo desses pressupostos, a ideia deste artigo é discutir o conceito de economia solidária e de que forma o Governo de Goiás tem se apropriado dele. Originalmente, a economia solidária surge como uma alternativa de desenvolvimento baseada na resistência dos trabalhadores por meio da cooperação. No entanto, no Programa Estadual de Economia Solidária, lançado pela Secretaria Cidadã em junho de 2017, o conceito é apresentado como alternativa inovadora de fomento ao desenvolvimento regional. Assim, o objetivo deste artigo é investigar de que forma o programa goiano se aproxima e/ou se distancia do conceito original de economia solidária. Fundamentos da economia solidária “Se toda economia fosse solidária, a sociedade seria muito menos desigual” (SINGER, 2002, p. 10). A afirmação de Paul Singer, considerado “um dos mais renomados autores e militantes dentro do campo da economia solidária” (PITAGUARI; SANTOS; CAMARA, 2012, p. 36), é verdadeira e provocativa, uma vez que a solidariedade vai contra um dos princípios fundadores do sistema capitalista: a competividade. Por isso, segundo Paul Singer (2002, p. 9), para termos “uma sociedade em que predominasse a igualdade entre todos os seus membros, seria preciso que a economia fosse solidária em vez de competitiva. Isso significa que os participantes na atividade econômica deveriam cooperar entre si ao invés de competir”. Dessa forma, a proposta de Singer é que, na 11

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) economia solidária, a lógica do sistema econômico deve mudar: “associação entre iguais em vez do contrato entre desiguais” (SINGER, 2002, p. 9). Até porque, “a solidariedade da economia só pode se realizar se ela for organizada igualitariamente pelos que se associam para produzir, comerciar, consumir ou poupar” (SINGER, 2002, p. 9). Consequentemente, “as relações de produção dos empreendimentos solidários não são apenas atípicas para o modo de produção capitalista, mas contrárias à forma social de produção assalariada: nesta, o capital emprega o trabalho; naqueles, os trabalhadores empregam o capital” (GAIGER, 2003, p. 193). Apesar dos avanços ocorridos na economia, a distribuição de renda ainda é desigual e existem regiões em que políticas de assistência ainda são insuficientes para amenizar os problemas sociais existentes. Dentro deste contexto gerado pela exclusão social e a necessidade premente de sobrevivência, as pessoas buscam maneiras de organização para superação de suas dificuldades e alento para as restrições encontradas no dia a dia. Uma das maneiras encontradas é a articulação conjunta de pessoas que não teriam oportunidades individualmente. (COSTA; ARRIEL, 2014, p. 6) Assim, “os modelos de economia solidária buscam ir além de simples geradores de trabalho e renda, idealizam novas formas de convivência e de organização comunitária” (PITAGUARI; SANTOS; CAMARA, 2012, p. 35), uma vez que “defendem a potencialidade que pode ser gerada a partir de relações de mutualidade e de reciprocidade, apoiadas na solidariedade e na equidade, em vez da competição e do individualismo” (PITAGUARI; SANTOS; CAMARA, 2012, p. 35). E o sentimento de partilha emerge da economia solidária, pois “pela cooperação surgem iniciativas de produção visando ao bem estar coletivo e um senso de responsabilidade comunitário” (COSTA; ARRIEL, 2014, p. 6). Baseada no cooperativismo, “a economia solidária nasceu pouco depois do capitalismo industrial, como reação ao espantoso empobrecimento dos artesãos provocado pela difusão das máquinas na organização fabril da produção” (SINGER, 2002, p. 24), como um modo de produção alternativo ao capitalismo. Inclusive, cabe ressaltar, seria justo chamar essa origem histórica da economia solidária de “cooperativismo revolucionário, o qual jamais se repetiu de forma tão nítida” (SINGER, 2002, p. 35), o que tornou evidente a ligação essencial da economia solidária com a crítica operária e socialista do capitalismo. É verdade que “desde o séc. XIX registram-se tentativas de instituir formas comunitárias e democráticas de organizar a produção e o consumo, em resposta a aspirações de igualdade econômica e à necessidade de garantir meios de subsistência para a massa de trabalhadores” (GAIGER, 2003, p. 182). Assim, para Luiz Inácio Gaiger (2003, p. 182), 12

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) iniciativas de economia solidária “representariam uma opção efetiva para os segmentos sociais de baixa renda, fortemente atingidos pelo quadro de desocupação estrutural e pelo empobrecimento”. Mas, ao ser “concebida pelos utópicos como uma nova sociedade que unisse a forma industrial de produção com a organização comunitária da vida social” (SINGER, 2002, p. 115), para Paul Singer (2002, p. 114), “a economia solidária é ou poderá ser mais do que mera resposta à incapacidade do capitalismo de integrar em sua economia todos os membros da sociedade desejosos e necessitados de trabalhar”. Ela poderá ser o que em seus primórdios foi concebida para ser: uma alternativa superior ao capitalismo. Superior não em termos econômicos estritos, ou seja, que as empresas solidárias regularmente superariam suas congêneres capitalistas, oferecendo aos mercados produtos ou serviços melhores em termos de preço e/ou qualidade. A economia solidária foi concebida para ser uma alternativa superior por proporcionar às pessoas que a adotam, enquanto produtoras, poupadoras, consumidores, etc., uma vida melhor. (SINGER, 2002, p. 114) E vida melhor “não apenas no sentido de que possam consumir mais com menos dispêndio de esforço produtivo” (SINGER, 2002, p. 114), mas também nas relações pessoais, justamente pela “segurança de cada um saber que sua comunidade jamais o deixará desamparado ou abandonado” (SINGER, 2002, p. 115). Até porque “a economia solidária é centrada no ser humano e na sua capacidade de desenvolver soluções para os problemas que o afetam de forma democrática e participativa, substituindo o modelo hierárquico vertical pela horizontalidade das relações” (PITAGUARI; SANTOS; CAMARA, 2012, p. 35). Mas Paul Singer (2002, p. 114) reconhece que “se a economia solidária for apenas uma resposta às contradições do capitalismo no campo econômico seu crescimento poderá se desacelerar no futuro e, pior, ela não passará de uma forma complementar da economia capitalista”. Assim, ela “teria que gerar sua própria dinâmica em vez de depender das contradições do modo dominante de produção para lhe abrir caminho” (SINGER, 2002, p. 116). No entanto, “a economia solidária não reproduz em seu interior as relações capitalistas, pois a substitui por outras, mas tampouco elimina ou ameaça a reprodução da forma tipicamente capitalista, ao menos no horizonte por ora apreensível pelo conhecimento” (GAIGER, 2003, p. 194). Mas, de fato, “a desigualdade não é natural e a competição generalizada tampouco é” (SINGER, 2002, p. 10). E, uma vez que o direito de propriedade individual e o direito à liberdade individual são princípios básicos do sistema capitalista, a 13

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XI Seminário de Mídia e Cidadania – IX Seminário de Mídia e Cultura Programa de Pós-Graduação em Comunicação – PPGCOM Faculdade de Informação e Comunicação - Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) competição e a desigualdade ganham forma por conta da divisão da sociedade em duas classes: a dominante (que possui capital) e a operária (que vende sua força de trabalho em troca de capital) (MARX, 2006). E é justamente nesse ponto em que a ruptura proposta pela economia solidária reside: ela mantém o direito à liberdade individual, mas preza pelo direito a propriedade coletiva ou associada do capital (SINGER, 2002). Assim, a solidariedade e a igualdade seriam consequências naturais, mas a reprodução desses princípios, para Paul Singer (2002, p. 10), “exige mecanismos estatais de redistribuição solidária de renda”. Em outras palavras, mesmo que toda atividade econômica fosse organizada em empreendimentos solidários, sempre haveria necessidade de um poder público com a missão de captar parte dos ganhos acima do considerado socialmente necessário para redistribuir essa receita entre os que ganham abaixo do mínimo considerado indispensável. Uma alternativa frequentemente aventada para cumprir essa função é a renda cidadã, uma renda básica igual, entregue a todo e qualquer cidadão pelo Estado, que levantaria o fundo para esta renda mediante um imposto de renda progressivo. (SINGER, 2002, p. 11) Mas “o avanço da economia solidária não prescinde inteiramente do apoio do Estado e do fundo público, sobretudo para o resgate de comunidades miseráveis, destituídas do mínimo de recursos que permita encetar algum processo de auto-emancipação” (SINGER, 2002, p. 112). Isso porque, para a maioria da população, “construir uma economia solidária depende primordialmente dela mesma, de sua disposição de aprender e experimentar, de sua adesão aos princípios da solidariedade, da igualdade e da democracia e de sua disposição de seguir esses princípios na vida cotidiana” (SINGER, 2002, p. 112). Além disso, outro ponto que diferencia a economia capitalista da solidária é o modo como as empresas são administradas. Enquanto “a primeira aplica a heterogestão, ou seja, a administração hierárquica, formada por níveis sucessivos de autoridade, entre os quais as informações e consultas fluem de baixo para cima e as ordens e instruções de cima para baixo” (SINGER, 2002, p. 16), “a empresa solidária se administra democraticamente, ou seja, pratica a autogestão” (SINGER, 2002, p. 18). O fenômeno da economia solidária guarda semelhanças com a economia camponesa. Em primeiro lugar, porque as relações sociais de produção desenvolvidas nos empreendimentos econômicos solidários são distintas da forma assalariada. Muito embora, também aqui, os formatos jurídicos e os graus de inovação no conteúdo das relações sejam variáveis e sujeitos à reversão, as práticas de autogestão e cooperação dão a esses 14

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